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segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A ponte monumental

A architetura exterior dos edificios públicos, das egrejas, dos grandes palacios, é lamentável de banalidade e insulsez: e os modernos quazi todos peores do que os antigos; fóra do manuelino, de que o terremoto deixou poucos bocados, fóra do D. João V, que é um entre Luiz XIV e Luiz XV luxurioso e freiratico, Lisboa não tem nada que vêr-se possa, a não ser o Terreiro do Paço e a jesuitica egreja da Estrela, feita com o dinheiro que o marquez destinava á ponte monumental entre Almada e Lisboa, e o estafermo beato de D. Maria I derreteu em honra dos seus terrores supersticiosos. (1)

Bellisle looking down the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Bonhams

A ideia inadiavel da prolongação das linhas do Barreiro até Cacilhas ou Almada, trazendo os comboios á parte mais estreita do Tejo, frente a Lisboa, a 10 ou 12 minutos de travessia maritima da capital, necessariamente desperta na poderosa Companhia Real (dos Caminhos de Ferro Portugueses) os antigos rancores, pois, realisada a obra, os sonhos do Cetil carriando a Lisboa a mór parte das mercadorias do Alemtejo Medio e Baixo, em fumo vão-se, e visto o desenvolvimento espantoso que este acrescente trará ao Sul e Sueste, não haverá mais meio de pensar em o arruinar e adquirir por tuta e meia (...)

Lisboa — Vista de Lisboa e Tejo, ed. desc., década de 1900.
Delcampe

Mas se é certo que a teimosia dos comerciancites, por bronca, faz suspeitar que por traz d’ela alguma tramoia a Companhia Real fomenta e móve, não menos descabida parece a ancia que teem os engenheiros do Sul e Sueste em querer já construir a estação terminal nos aterros do caes jacente á Alfandega, sem primeiro trazerem a linha a Cacilhas ou Almada, sem prolongamento logico e natural (...) (2)

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Hemeroteca Digital

É do folheto "Ainda a estação fluvial das linhas do sul e sueste" do sr. engenheiro A. Santos Viegas que extracto a enumeração desses projectos:

Em 1888, projecto do americano Lye: vinha a ponte d'Almada ao Thesouro Velho, e ahi ficava a estação de mercadorias do sul e sueste, com entrada pelo Largo das Duas Igrejas [Praça do Chiado]. "A este plano, acrescenta o sr. Santos Viegas, alvitra-se agora acrescentar elevadores que nas alturas do Caes do Sodré transportariam vagões entre a linha superior e a estação da companhia". Custaria de 8 a 10:000 contos.

Em 1889: projecto de Bartissol e Seyring [sic, Seyrig], fazendo da estação do Rocio a testa das linhas sul e sueste, quando ainda a companhia Real pensava d'açambarcar os caminhos de ferro do estado. Custava 9:000 contos, a que opinões meticulosas ajuntam mais 1:000 para expropriações.

Ponte sobre o Tejo, E. Bartissol e T. Seyrig, O Occidente n.° 380, ilustração L. Freire, 1889.
Hemeroteca Digital

Em 1890: projecto do engenheiro Proença Vieira, que iria de'Almada a um ponto ao norte da rocha do Conde de Óbidos, seguindo a linha ferrea até cêrca de Campolide. Custava 7:500 contos mas é possível que chegasse a muito mais, visto haver sítios do rio onde as fundações dos pilares iriam até 60 metros de fundo, e no projecto não se faziam calculos explicitamente rigorosos ácêrca d'essas fundações.

Depois de 1891 houve mais dois projectos. Um, do fallecido Miguel Paes, de todos os expostos o mais sensato sob o ponto de vista de ligação ferroviaria, vinha do Pinhal Novo onde toda a rede do sul se acha reunida n'um tronco unico, o espigão do Montijo, e d'ahi por uma immensa ponte, aos Grillos, fóra da zona de grande navegação do Tejo. N'este sitio, teria a ponte muito menor importancia para a viação ordinária.

A construcção seria mais facil, mas a extensão muito maior, devendo o custo exceder pouco mais de 4:000 contos.


Ponte sobre o Tejo, estudo do engenheiro Miguel Pais, 1872.
Arquivo Municipal de Lisboa

Finalmente o ultimo projecto de travessia do Tejo era a concessão a uma empreza americana, d'uma ponte ara peões, carros, "tramways" electricos e caminhos de ferro, entre Almada e o bairro da Lapa, sem bases porem que permittissem avaliar da sua exiquibilidade.

Elegante projecto da ponte Lisboa Cacilhas,
propaganda republicana, década de 1910.
O Mundo do Livro

O sr. Santos Viegas opina (e nós tambem) que a ideia Julio Vernesca da ponte sobre o Tejo deve deixar-se ás futuras gerações. Não que ella não represente um arrojado e utilissimo melhoramento, mas por ser devorante o custo, e não se devem adiar outras obras mais urgentes, como a da trazida do caminho dez ferro do sul a Cacilhas ou Almada, e fundação da nova cidade da margem esquerda, em que urge desdobrar, o mais rapidamente possivel, a nossa actual Lisboa fabril e commercial. (3)


(1) Fialho de Almeida, "Barbear, Pentear" (jornal d'um vagabundo), 1910
(2) Fialho de Almeida, Idem
(3) Fialho de Almeida, Illustração Portugueza, Lisboa Monumental II, Lisboa, 19 novembro 1906

Artigos relacionados:
Lisboa monumental em 1906
Projecto de travessia do Tejo em 1889
A ponte

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Tristezas não pagam dívidas

Cacilhas e Almada foram outras estâncias onde os "ruços" se aproveitaram para as folgas divertidas dos lisboetas. Cacilhas ganhou até foros de Universidade pela abundância de "bacharéis" que se estadeavam no seu largo, oferecendo-se ao apetite viajeiro da estúrdia elegante primeiro, de patuscada popular depois. A burricada perdeu com o tempo os seus pergaminhos de elegância.

Os ingleses em Cacilhas, Os costumes antigos - Portugal de algum dia, ilustração de Roque Gameiro, 1931.
Roque Gameiro.org

D. Fernando 1.° era amador estreme dêsse divertimento cacilheiro. Quando a política zumbia muito e os generais e os políticos fervilhavam no paço à volta da rainha, o rei preferia os burros aos cortesãos guerrilheiros e, com três ou quatro âulicos, cavalgava os jumentos da Outra-banda e ía divertir-se a Almada, à Cova da Piedade, ao Monte ou ao Alfeite.

A preferência régia impôs como moda a burricada de além-rio, e esta tornou-se um dos passeios obrigatórios de Lisboa para os seus naturais e até para os estrangeiros. Visitar então Lisboa e não andar de burro na Outra-banda, era como hoje não ir ao Jardim Zoológico ou à Estufa-fria do Parque da Avenida.

Pontos nos ii, 27 de setembro de 1888

O negócio dos burros cresceu: quási que se formaram emprêsas, companhias, trusts de jumentaria que alargavam a sua exploração até os confins de Caparica.

Groupe d'indigènes des déserts du Sud du Portugal faisant la promenade en âne; je suis à l'extrême droite.
— Costa da Caparica. Jour de Pâques Année 1907 —.
Delcampe

Era por isso freqüente os estrangeiros alcandorarem-se até Almada a ver a vista sôbre a cidade, e a marujada inglêsa não faltava a essas excursões de turismo obrigatório, equilibrando-se sôbre o tombadilho extravagante e movimentado das albardas mal seguras das cilhas.

Hoje a própria burricada de Cacilhas caíu em desuso. As camionetas, em vez dos ruços, é que enchem o largo e o negócio faliu inteiramente.

Cacilhas, Carro Carreira da Empreza Camionetes Piedense, Leslie Howard, década de 1930.
Museu da Cidade de Almada

É mais um costume popular que se arquivou no sótão das recordações, e só andam de burro os donos dos burros, até que um dia, dispensado mesmo tal auxílio, êste prestante animal se arquive numa mangedoira de museu. (1)


(1) Roque Gameiro, Matos Sequeira, Portugal de algum dia..., Lisboa, Empreza Nacional de Publicidade, 1931

Artigo relacionado:
Jackass Bay (ou Os ingleses em Cacilhas)

Informação relacionada:
Roque Gameiro.org: Costumes antigos, Os / Portugal de algum dia (1931)

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Interpretação do conto mudo "Em Cacilhas"

Dona Dulce Aragão Salomé
Conegundes Alonso Miranda,
Embarcou n'um vapor do Burnay,
Que sem p'rigo a levou á Outra-Banda.


Pontos nos ii, 27 de setembro de 1888

P'ra zombar das negaças d'um callo
Um gerico tomou d'aluguer:
Que tal como do inglez o cavallo
Desafeito era já de comer,


Pontos nos ii, 27 de setembro de 1888

E em Cacilhas no lombo do onagro
A bojuda Aragão Salome
Faz que o burro tão pôdre, tão magro,
Muito a custo se tenha de pé.


Pontos nos ii, 27 de setembro de 1888

Com tal carga, nas fórmas horrenda,
A alimaria, com visos d'equestre,
Mais parece uma aranha estupenda
Tendo ás costas o globo terrestre.


Pontos nos ii, 27 de setembro de 1888

Curto espaço passára ligeiro,
Quando o triste que os lombos tem pôdres,
Como o burro de Guerra Junqueiro,
"Sob o peso vergou de taes ôdres".


Pontos nos ii, 27 de setembro de 1888

Altos gritos ao dono isto arranca,
Porque o pobre gerico, bem védes,

'stava longe de ser a alavanca, 
Com que o mundo ergueria Archimedes.

Pontos nos ii, 27 de setembro de 1888

E no chão ali fica assapado,
Sem que tal Dona Dulce se importe,
P'ra mostrar que é bem certo o dictado:
— 'Té p'ra burro e preciso haver sorte!

M. Cacir [Maximiano Ricca] (1)



(1)  Pontos nos ii, 4 de outubro de 1888

Artigos relacionados:
O espreitador do mundo novo
Contos rápidos: uma passeata...
O rapaz dos burros (com Angelo Frondoni e Jan Verhas)
Grande passeio à Outra Banda

terça-feira, 12 de abril de 2016

Indústria química

Laboratório de Química no sítio da Margueira
Propriedade:  Serzedello & C.ª
Produtos: International exhibition, 1876 at Philadelphia, Diário Illustrado
Local: Margueira
Referências: Estatística Industrial de 1852

A Fábrica de produtos químicos da Margueira era um estabelecimento com larga experiência na produção de químicos em grande parte aplicados no campo da Medicina e da Farmácia. O Laboratório da Margueira tinha sido elevado à categoria de fábrica na década de 20 do séc. XIX, através da concessão do direito exclusivo da produção "em grande" do ácido sulfúrico.

Margueira na enseada da Cova da Piedade (detalhe da vista de Cacilhas e de S. Julião), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Pela década de 40 mudara para novos proprietários (os irmãos na sociedade Serzedello & C.ª), e iniciara então um programa de reformas tecnológicas, que o conduziram da matriz dos tártaros (uma das produções mais significativas até aquela altura) e do carvão animal, para uma série mais diversificada de fabricos.

Do final dos anos 40 para a década de 50 produzia, entre outros, e para além do tártaro (bruto e cremor) e respetivos sais de sódio e potássio, os ácidos (fosfórico, bórico, nítrico, clorídrico), amónia, algodão-pólvora, alguns óleos e uma gama variada de sais de metais pesados, artigos característicos da nova Farmácia Química já corrente em Portugal.

Serzedello & Ca., década de 1840
Imagem: documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa


Foi um dos poucos estabelecimentos fabricantes de produtos químicos, mesmo sem apresentar o requerido número mínimo de operários (dez operários), com direito a figurar na Estatística Industrial de 1852. 

Este facto poderá indicar alguma excelência tecnológica que lhe permitiu ultrapassar o limite imposto pela escala industrial. 

Domínio tecnológico que teve na qualidade científica da formação dos seus técnicos, uma linha de conduta sempre perseguida, a começar pelo farmacêutico João Paulino Vergolino de Almeida (o proprietário anterior à família Serzedello), frequentando o curso de Física e Química de Luís da Silva Mousinho de Albuquerque no Laboratório de Química da Casa da Moeda, e continuada por outros farmacêuticos como José Dionísio Correia ou Francisco Mendes Cardoso Leal Júnior, assistindo igualmente ao mesmo curso [...]

Considera-se que é esta “movida científica” de químico-farmacêuticos, “operários manufaturadores de produtos químicos”, a tentar realizar em primeiro lugar a passagem necessária de uma pequena produção química para uma escala mais alargada, próxima da escala industrial. Indivíduos com um pé na farmácia e outro na fábrica. 

Laboratorio Chimico de Serzedello & Ca., década de 1840.
Imagem: documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa

Neste enquadramento, o Laboratório-Fábrica da Margueira, assume considerável importância, constituindo não só uma escola prática químico-farmacêutica, como também uma espécie de "viveiro" para futuros preparadores nos laboratórios de Química das escolas de Lisboa. (1)

Fábrica de Química Aplicada às Artes
Propriedade: Agostinho Joaquim Ferreira
Produtos: Cremor tártaro; tártaros vermelho e branco
Local: Porto Brandão
Referências: Estatística Industrial de 1852

Planta de uma instalação química em Portugal no início da segunda metade do século XIX. A planta pertence ao processo preliminar de licença de conservação de uma fábrica de produtos químicos situada no Porto Brandão, concelho de Almada, pedida por Agostinho Joaquim Ferreira, em 24 de Abril de 1857.

Porto Brandão, Fábrica da Quimica Aplicada às Artes,
planta da casa e cais do senhor Agostinho Ferreira, 1857.

Imagem:
Arquivo Nacional Torre do Tombo

No topo da imagem, o 1.º piso, parte reservada à habitação; no piso térreo, destinado à fábrica, destacam-se ao centro os espaços dos fornos, circundados inferiormente pelas áreas de fabricação, armazenagem e cais.

Porto Brandão, Fábrica da Quimica Aplicada às Artes,
planta da casa e cais do senhor Agostinho Ferreira, 1857.
Imagem:
Arquivo Nacional Torre do Tombo

A Fábrica de Química Aplicada às Artes produzia o cremor tártaro ou bitartarato de potássio, um produto utilizado na medicina e na tinturaria. (2)

Fábrica de dinamite da Trafaria
Propriedade: ... privilégio de Alfred Nobel
Produtos: Dinamite
Local: Trafaria
Referências: O Economista

Fábrica de dinamite na Trafaria, anúncio do Diário Illustrado, 1888.
Imagem: Biblioteca nacional de Portugal

Fábrica de guano artificial no forte da Trafaria
Propriedade: Jorge Croft & C.ª
Produtos: Guano químico; ácido sulfúrico
Local: Trafaria
Referências: MR - PPL, 1857

Fábrica de produtos químicos
Propriedade: Júlio César de Andrade & C.ª
Produtos: Essência de terebentina; breu e resina hidratada
Local: Almada
Referências: Exposição Internacional do Porto de 1865 (3)

Medalha de D. Pedro V.
Inauguração do Palácio de Cristal do Porto em 8 de Setembro de 1861.
Imagem: Ebay


(1) Isabel Maria Neves da Cruz, Da prática da química à química prática..., Universidade de Évora, 2016
(2) Idem
(2) Idem, ibidem

Informação adicional:
Revista Universal Lisbonense, A Indústria Nacional e a Exposição de 1849

Artigo relacionado:
O laboratório químico da Margueira

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

1876, um eremita

O reverendo padre Hughes é um sacerdote cujo único defeito conhecido é julgar-se no tempo do imperador Décio, o furioso perseguidor da cristandade, duzentos anos depois de Cristo.

Igreja do Corpo Santo, fachada principal, Paulo Guedes, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Confundindo o Sr. Fontes Pereira de Melo com o temível imperador romano, o reverendo Hughes fêz como S. Paulo o Eremita: fugiu da comunicação dos homens, do Chiado e do Diário de Notícias, sacudindo as suas sandálias no Atêrro; e, não tendo à mão o deserto da Tebaida, tomou o vapor de Cacilhas, e foi estabelecer na outra banda a sua cabana anacoreta.

O rio Tejo e a igreja de São Paulo, no Largo do Corpo Santo, Francesco Rocchini, finais do século XIX.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

S. Paulo tinha por habitação uma caverna anteriormente habitada por um moedeiro falso do tempo da rainha Cleópatra, tinha a pura fonte cristalina brotando do seu rochedo, óptimas tâmaras para a sua sobremesa, e meio pão, o qual, segundo se lê em S. Jerónimo e em S. Atanásio, era trazido fresco ao santo eremita, em cada manhã, por um corvo.

Por ocasião da visita piedosa de Santo António [Santo Antão] a S. Paulo, o corvo, vendo que havia uma boca a mais no santo deserto, começou a apresentar-se em cada dia com um pão inteiro suspenso do bico.

S. Paulo vestia uma túnica feita de folhas de palmeira, a qual veio a ser herdada como relíquia por Santo António no dia em que S. Paulo expirou, aos 112 anos de idade, havendo comido com resignação e fervor todos os meios pães que sucessivamente lhe haviam sido levados pelo corvo.

Santo Antão e S. Paulo 1.o Ermita, Mestre dos Arcos,
(Gregório Lopes ?).
Imagem: MNAA

Não é de presumir que, além da água da Fonte da Pipa, o reverendo Hughes tenha enctontrado na Outra Banda os elementos da vida retirada e contemplativa que S. Paulo gozou na Tebaida. 

Para o efeito dos alimentos e do vestuário o reverendo Hughes ter-se-á visto obrigado, talvez, a substituir o corvo por um padeiro e a palmeira por um algibebe, o que todavia não obsta a que ele esteja do mesmo modo livre, como S. Paulo, dos furores de Décio, o tirano.

Graças à Fonte da Pipa e aos seus respectivos cabos de polícia, os dias do eremita Hughes tão serenos e pacíficos têm decorrido na Outra Banda que o ilustre sacerdote resolveu atravessar as águas do Tejo e vir por meio de práticas na igreja de S. Paulo convidar a acompanhá-lo às doçuras do ermo os cristãos da banda de cá, que não quisessem prestar a cerviz ao alfanje do bárbaro imperador Décio Pereira de Melo.

Fontes Pereira de Melo, por Raphael Bordallo Pinheiro.


O reverendo Hughes determinou subir, pois, na  semana passada ao púlpito da igreja de S. Paulo e começar a série das suas práticas tendentes a convencer os cristãos dos perigos que deles correm no meio da vida mundanal, e bem assim dos santos prazeres que os esperam na paz dos cenóbios, se eles se resolverem a ir à Outra Banda e entregarem-se à penitência, ao jejum e ao burro de Cacilhas, desviado pelo reverendo Hughes da carreira da Cova da Piedade para a da terra da Promissão.

Sabe-se quanto os nossos templos modernos estão longe do frio desconforto das primitivas catacumbas, das criptas e das cavernas sepulcrais em que os primeiros cristãos se refugiavam para escaparem à perseguição dos Governos, para celebrarem as belas cerimónias do culto primitivo e para enterrarem os seus mortos santificados pelo martírio.

A Igreja tem sido verdadeiramente incansável nos últimos tempos em atrair a piedade ou em a conservar por meio das sucessivas comodidades e dos prestígios espectaculosos.

Há os órgãos, em que por ocasião dos santos sacrifícios se tocam os trechos sentimentais de Verdi e de Bellini. As epistolas de S. Paulo e o evangelho de S. Mateus acompanham-se, para recreio aos fiéis, com os suspiros de Margarida Gautier e com a romança de Armand Duval. As palavras da confissão casam-se com o cancã da "Bela Helena", e a hóstia sagrada eleva-se ao som da ária "Rien n'est sacré pour un sapeur".

Além disso há os tapetes, há as jarras da Índia, há as almofadas de veludo, os belos quadros de virgens louras, de simpáticos santos romanescos, como S. Francisco Xavier, de fidalgo perfil e fino bigode, de Nossa Senhora de la Salette, representada de pequenina touca encanudada, saia curta e avental guarnecido de pompons, como as travessas "soubrettes" de Molière.

Temos as devoções de recreio em comboio expresso a preços reduzidos para Notre-Dame de Lourdes, milagre e jantar por cinco francos, de carne ou de jejum, vinho à parte.

Há, mais em moda, ainda, recentemente, as piedosas romagens a S. Dinis, que tem uns poucos de corpos, um na igreja de Paris, um na de Ratisbona, um julgado autêntico por Leão IX, um mandado ter como genuíno por Inocêncio III, e outros, entre os quais pretendem alguns arqueólogos que se achará o do deus Baco, chamado Dionisius, de cujo culto cristianizado na Gália proveio a legenda de S. Dinis.

Os conventos pela sua parte abandonaram também a confeccção dos milagres e das tradições maravilhosas e tremendas para empregarem todos os esforços da sua química na especialidade dos mais saborosos e estomacais licores : o dos Beneditinos, o Kermann, o Chartreuse, e outros.

A Semana Santa, destinada a comemorar o lance mais dramático e mais sublime da história de Jesus, converteu-se num pretexto de viagens ã Andaluzia, às famosas touradas em que Sevilha reúne os primeiros espadas e os primeiros aficionados ao "boi de morte", e à celebre feira em que o velho salero revive um momento, sorrindo sob o véu mourisco, ao vago rufo longínquo de históricos pandeiros.

Em Lisboa o mesmo tempo é um abismo de amêndoas, de "bons-bons fondantes", de "croquettes ã la vanille", de rebuçados de ovos, e de outras doçuras com que a Confeitaria Italiana e os bufetes de Baltresqui celebram a Paixão.

Os livros da oração e da missa converteram-se em obras-primas de tipografia e de cartonagem, de tão altos preços que não permitem que ninguém reze com decência por menos de duas libras.

As igrejas são, como os clubes, o prazo dado à reunião por categorias das diferentes classes sociais.

No Loreto, à missa da 1 hora, reúne-se a burguesia frequentadora do Passeio do Rossio e dos bailes do Clube.

A nobreza de "l'ancien régirne" vai à Graça, aos Anjos e ao convento de Santos, onde na penúltima sexta-feira da Quaresma há procissão de senhoras, com rifa e chá.

No convento da Encarnação, pelo oitavado do Corpo de Deus, há igualmente rifa, chá e recepção à noite.

Lisboa, portal do convento da Encarnação,
Alfredo Roque Gameiro, 1925.
Imagem: www.roquegameiro.org

A alta finança tem procurado pôr em moda com as suas novenas Santa Isabel e a Lapa.

A aristocracia oficial, a nobreza militante, a fina flor da moda, não vai senão aos Inglesinhos e a S. Luís dos Franceses.

Os devotos escolhem nestes quatro círculos a missa que convém à sua educação, ao seu nascimento, à sua fortuna e à ordem das relações que cada um deseja cultivar.

Com a religião em tal estado é realmente preciso ser-se bem indiferente aos atractivos do luxo, da elegância, da moda, da convivência e da boa companhia para se não ser um firme e fiel católico!

Ter uma religião fácil, elegante, alegre, ao abrigo de toda a perturbação, mantida pela Carta, vigiada pela polícia, defendida pela guarda municipal; ter ao mesmo tempo uma porta aberta para a sociedade, para a consideração, para a estima pública, para os altos cargos do Governo, para as finas festas e para os belos salões escolhidos, e outra, porta aberta para o céu, para Deus, para a bem-aventurança; estar provido de orações e de indulgências para cada pecado, de sorte que se pode, ao fim de cada ano de vida, receber carta de limpeza para urna eternidade de promissão; ser, graças à confissão, tantas vezes delinquente quantas vezes amnistiado; olhar em volta de si, na humanidade, ver milhares de milhões de almas perdidas por falta de padres, de indulgências plenárias, e de bulas pontifícias, e ponderar que o Inferno tem muito em que se entreter para queimar competentemente os outros, enquanto nós estivermos consoladinhos, na comedidade celestial, como assinantes antigos do Paraíso, binoculando dos nossos "fauteuils" as trágicas visagens carbonizadas dos bárbaros e dos hereges rechinando  no fogo eterno!... 

Que mais pode exigir ao mundo e ao céu, ao tempo é à eternidade, o profundo e imenso egoísmo do homem?

O programa do mais humilde e obscuro beato deixa a perder de vista os sonhos mais excessivos em gozo de Nero e de Sardanagalo — uns pobres diabos a quem ali o sineiro das Mercês, uma vez na eternidade, terá o direito de torcer uma orelha a troco de um simples padre-nosso!

O clero porém continua a recear que todas estas vantagens não cheguem para preencher a aspiração dos entes bem formados, e todos os dias continua ainda a acrescentar tanto quanto pode os interesses e os atractivos do culto.

Assim, quando o reverendo Hughes se apresentou, acolheu-o o mais vivo e simpático alvoroço. Um enorme êxito estava destinado a saudar a sua aparição na Igreja de. S. Paulo. Ele não tocava órgão de uma maneira sensivelmente arrebatadora; ele não possuía absolutamente para a execução dos sagrados motetes a fina voz preciosa dos antigos mutilados das reais capelas; ele finalmente não tinha à primeira vista nenhum dos belos talentos em que se fundam as reputações de sacristia.

Igreja do Corpo Santo, altar-mor,
Paulo Guedes, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Todavia a sua origem irlandesa havia-o dotado com a especialidade impagável da pronúncia dos ingleses de farsa, e não poderiam deixar de produzir o mais alegre efeito nas consciências as suas piedosas aplicações do "Amor Londrino" a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos.

Efectivamente à primeira prática do reverendo Hughes a Igreja de S. Paulo teve uma casa cheia, e nunca a palavra de Deus foi escutada nos templos cristãos com mais patente manifestação de alegria.

Estátua de Girolamo Savonarola (1452 - 1498) em Ferrara, Italia, por Enrico Pazzi, 1872.
Imagem: Flickr

Somente como um espectador interrompesse a ilimitada satisfação do auditório com uma tosse importuna, um padre português que assistia à prática descarregou algumas bengaladas no fiel cristão constipado.

Daqui, tumulto e desordem. Fervem os canelões e os murros, os chapéus-de-sol floreteiam no ar cruzando-se em golpes às cabeças, os homens praguejam, as mulheres gritam, as crianças choram, o reverendo Hughes desce amedrontado do púlpito, e os fiéis, que tinham ido ao templo pedir as unções da fé, acham mais urgente ir pedir tintura de arnica na botica ao lado.

Então a mesa da confraria de S. Paulo protesta contra as práticas do padre Hughes, comentadas à bordoada pela galeria. O Sr. Patriarca de Lisboa [Inácio do Nascimento Morais Cardoso, 11º Cardeal-Patriarca de Lisboa, 1871 - 1883] intervém, e eis o que Sua Eminência resolve:

"Sendo o catolicismo a religião do Estado, o Sr. Cardeal-Patriarca, autorizando a pregar o reverendo Hughes, declara que, com a intervenção da força armada, fará manter na igreja de S. Paulo o respeito devido à palavra de Deus."

Inácio do Nascimento Morais Cardoso,
11° Cardeal Patriarca de Lisboa, entre 1871 e 1883.
Imagem: Wikipédia

O caso do reverendo Hughes não teria grande importância, nem nós o haveríamos referido nestas páginas, se ele não houvesse dado origem a esta  declaração do Sr. Patriarca, publicada na maior parte dos jornais de Lisboa, sem todavia haver suscitado nem da parte da imprensa nem da parte do Parlamento os comentários que merece.

As palavras do Sr. Patriarca passaram despercebidas, certamente porque se não viu que elas encerram a ameaça de um acto de natureza inteiramente análogo ao da carnificina de Saint-Bartheliemy.

Carlos IX dizia: "A missa, ou a morte!" — o Sr. Cardeal-Patriarca diz: — "O sermão, ou a força armada!"

Há uma leve diferença nos vocábulos, mas o sentido jurídico das duas frases é absolutamente o mesmo. Por mais arcaica, por mais obsoleta, por mais absurda que pareça a cominação do Sr. Patriarca, ela é no entanto a consequência lógica da confusão entre o poder espiritual e o poder temporal mantida em pleno século XIX pela Carta Constitucional da monarquia.

As palavras do Sr. Patriarca provam patentemente que dentro da lei portuguesa um príncipe da Igreja está no pleno direito de decretar a Saint-Barthelemy.

O facto é de tal maneira expressivo e flagrante que, se em Portugal houvesse um Parlamento dotado de algum simples respeito pelo senso comum, bastaría enunciar aas palavras proferidas pelo Sr. Cardeal-Patriarca para que pelo voto unânime dos legisladores fosse de uma vez para sempre riscado da Carta o artigo sexto.

Enquanto ao clero católico não compreendemos qual é definitivamente a sua opinião acerca da intervenção da força nas relações do homem com Deus. Na Alemanha, quando Bismarck submete o clero católico à inteira vontade do Governo do império, o clero apela para as garantias espirituais, distingue os poderes, declara-se fora da lei civil, e os mais ardentes ultramontanos refugiam-se no principio de Cavour, e pedem em brados de justiça Igreja livre no Estado livre.

Em Portugal o mesmo clero perfilha a opinião do chanceler do império, ri com ele dos invioláves direitos da consciência, e pede a força armada para sustentar um sermão!

O clero, representado nas pessoas dos seus chefes mais augustos e mais conspícuos, não vê que se combate a si próprio e se dilacera a si próprio. No meio da crise suscitada pela ameaça do Sr. Patriarca o procedimento sublimemente filosófico do reverendo Hughes é superior a todo o elogio.

As suas meditações de eremita haviam-no instigado a vir da Outra Banda ensinar o caminho do aprisco a algumas ovelhas tresmalhadas pelo Aterro. As ovelhas não quiseram ouvi-lo e preferiram furar os olhos umas das outras com as ponteiras dos guarda-sóis.

O Sr, Patriarca ofereceu-se-lhe para mandar degolar pela polícia o rebanho inquieto.

O bom homem, que vinha como pastor e não vinha como magarefe, recusou a oferta, e a única coisa que fez vendo que lhe saíra o gado mosqueiro, foi cumprimentá-lo de longe, dirigindo-se à ponte dos vapores, sacudir o pó dos seus sapatos com o lenço destinado a receber no púlpito de S. Paulo o catarro da sua eloquência, e regressar para CaciIhas.

Costa da Caparica, Colégio do Menino Jesus dito "convento", imagem estereoscópica (detalhe), c. 1900
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Se alguma das andorinhas do nosso telhado se quiser encarregar de levar estas linhas à Tebaida do reverendo Hughes, pedimos a sua reverência que olhe de lá para a janela da nossa água-furtada, de onde lhe enviaremos as saudações mais simpáticas. (1)

Aforamento terreno com edificado,
Diário Illustrado, 9 de abril 1882.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


(1) Ortigão, Ramalho, As Farpas, Volume 5, A Religião e a Arte, Lisboa, David Corazzi, 1888

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Colégio do Menino Jesus, 1876 — 1901 

domingo, 24 de maio de 2015

A ponte

O atravessamento contínuo do rio Tejo na área urbana da capital, uma aspiração quase secular, foi traduzido em termos técnicos, e pela primeira vez, pelo Eng.º Miguel Pais que propôs em 1876, em desenho, uma ponte entre o Grilo e o Montijo.

World without us, Lisbon bridge, josh, 2007.
Imagem: Space Collective

Esta proposta contemplava uma solução mista para os tráfegos rodoviário e ferroviário, de tabuleiro duplo e com setenta e seis tramos, dos quais setenta e quatro tinham 60 metros de vão e os dois extremos, 48 metros.

Post Apocalyptic bridge on Tagus river..., Peter Baustaedter, 2013.
Imagem: viralscape

Apesar do grande apoio que colheu nos meios técnicos, na opinião pública e em departamentos oficiais, este projecto não teve seguimento, tendo surgido ao longo dos anos outras ideias para a ligação da capital à margem Sul.

Ponte sobre o Tejo, estudo do engenheiro Miguel Pais, 1872.
Imagem:  Arquivo Municipal de Lisboa

Em 1888 o Eng.º Lye, de nacionalidade norte-americana, propõe a construção de uma ponte entre Almada e a zona do Tesouro Velho (atual Chiado) com uma estação ferroviária próxima do Largo das Duas Igrejas.

Posteriormente, em 1889, os engenheiros franceses Bartissol e Seyrig propõem uma ligação mista entre a Rocha do Conde de Óbidos e Almada, através de uma ponte com 2500 metros de comprimento, que seria assente numa série de arcos com vãos diferentes.

Ponte sobre o Tejo, projecto de E. Bartissol e T. Seyrig, O Occidente n.° 380, ilustração L. Freire, 1889.
Imagem: Hemeroteca Digital

Em 1890 surge nova proposta subscrita por uma empresa metalomecânica de Nuremberga que pretendia construir uma ponte entre o Beato e o Montijo, sugerindo uma localização muito próxima à que tinha sido proposta pelo Eng.º Miguel Pais.

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Imagem: Hemeroteca Digital

Já no século XX, em 1913, foi proposto ao Governo, por uma firma portuguesa, fazer a ligação entre a Rocha do Conde de Óbidos e Almada.

Elegante projecto da ponte Lisboa Cacilhas,
propaganda republicana, década de 1910.
Imagem: O Mundo do Livro

Porém, em 1919, a empresa H. Burnay & C.ª, considerava que a travessia do Tejo deveria ser feita através de um túnel e não de uma ponte. Este túnel teria 4500 m de extensão e ligaria a capital a Almada entre Santa Apolónia e Cacilhas.

Vista do estuário do Tejo anterior à construção da ponte, c. 1960.
Imagem: ed. desc.

Dois anos mais tarde é feita nova sugestão para outra ponte mista, pelo Eng.º Alfonso Pena Boeuf, espanhol, a implantar entre a Rocha do Conde de Óbidos e Almada, com um comprimento total de 3 347 metros.

Curiosamente, esta proposta previa apenas um tabuleiro com via férrea dupla e quatro vias para circulação rodoviária. Em 1926, estando ainda de pé esta proposta, a empresa do Arq.º José Cortez - Cortez & Bruhns, apresentou, em esboço, a sugestão duma grande ponte suspensa de três vãos a lançar entre a parte alta da Rua do Patrocínio e as proximidades de Almada.

O Eng.º António Belo, em 1929, solicitou a concessão de uma linha férrea a construir entre o Beato e o Montijo, que incluía a respetiva ponte para a travessia.

Esta proposta mereceu, por parte do Ministro Duarte Pacheco, a atenção devida, tendo-se aberto para o efeito um concurso público em 1934, que não teve resultados concretos, visto que nenhuma das propostas correspondeu ao que o caderno de encargos estipulava sobre o regime de concessão.

Quatro anos mais tarde, retomada por um dos concorrentes - United States Steel Products - esta proposta também não obteve acordo, apesar da simplificação e redução de custo apresentadas.

Em 1942 foi nomeada uma comissão para o estudo das comunicações entre a zona oriental de Lisboa e o Sul do país, como consequência de diligências promovidas pelas Câmaras Municipais do Barreiro, Alcochete, Moita e Seixal para a melhoria das comunicações entre as sedes dos respetivos concelhos e Cacilhas.

Porém, com a decisão da construção da Ponte de Vila Franca de Xira, foram suspensos os trabalhos desta comissão. O Eng.º Pena Boeuf, em 1951, sugeriu uma nova travessia entre Almada e o Alto de Santa Catarina em Lisboa, propondo uma ponte suspensa.

Finalmente, para o estudo e resolução do problema das ligações rodoviária e ferroviária entre Lisboa e a margem Sul do Tejo, foi nomeada, por Portaria dos Ministérios das Obras Públicas e das Comunicações de junho de 1953, uma nova comissão que concluiu pela viabilidade técnica e financeira da travessia através de uma ponte ou de um túnel.

"Julgo meu dever, agora, se isso me é permitido, sem que a minha atitude pretenda ferir posições ou possíveis interesses criados, que na minha qualidade de Português, e nascido em Lisboa, e ainda como técnico, apresente também o meu parecer pessoal, fruto de muitos anos de análisee de estudos vários relacionados com as soluções das obras que mais uma vez se diz que vão empreender-se no estuário do Tejo.

Ponte sobre o Tejo, projecto de Cassiano Branco, 1958.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Não é, por certo, num simples artigo de jornal que poderei desenvolver amplamente problemas tão vastos e de tão grande complexidade técnica, no entanto vou tentar ser breve e claro nas considerações que se seguem.

Perspectiva da ponte sobre o Tejo vista do lado de Lisboa, Cassiano Branco, 1958.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Direi, pois, que ao projectar-se uma ponte que ligue as duas margens do Tejo, Lisboa - Almada, o problema impõe em primeiro lugar a escolha do sítio exacto do témino da directriz do seu tabuleiro Norte.

Perspectiva da ponte sobre o Tejo vista do lado de Almada, Cassiano Branco, 1958.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Este é o principal ponto nevrálgico [...]"

Cassiano Branco in "A ponte sobre o Tejo será a maior do Mundo", Diário de Lisboa 23 de março de 1958

O Governo optou pela construção de uma ponte e pelo Decreto-Lei n.º 42 238, autorizou o Ministério das Obras Públicas a abrir concurso para a sua construção.

Ponte sobre o Tejo, ilustração de Carlos Ribeiro, Revista Eva, dezembro de 1960.
Imagem: Dias que Voam 

Em Dezembro de 1960, foi criado, na dependência do Ministro das Obras Públicas, para a condução deste empreendimento, o Gabinete da Ponte sobre o Tejo, dirigido pelo Eng.º José Estevam Abranches Couceiro do Canto Moniz, na altura director dos Serviços de Conservação da Junta Autónoma de Estradas.

A viga mais comprida do mundo, edição do Ministério das Obras Públicas.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Em Março de 1960 abriu-se concurso internacional para a execução da obra, tendo esta sido adjudicada à United States Steel Export Company em maio de 1962.

A ponte sem tabuleiro, c. 1965.
Imagem: Estação Chronográphica

Compreendia a construção da ponte sobre o rio, a realização de um complexo rodoviário que incluía 15 km de autoestrada, trinta e duas estruturas de betão armado e pré-esforçado, o Viaduto Norte sobre Alcântara (com 945,11 m de extensão e catorze vãos, cujo tabuleiro de betão pré-esforçado é apoiado em pilares gémeos de betão armado, ligados por uma travessa horizontal a 10 metros do topo, destinada a suportar o tabuleiro ferroviário), um túnel sob a Praça da Portagem (com cerca de 600 metros de comprimento e destinado a receber a plataforma ferroviária do eixo de ligação da rede a Norte com a rede a Sul do rio Tejo), a sinalização e iluminação de toda a obra. (1)

Viagens escolares a Portugal.
Imagem: Herolé Reisen


(1) Estradas de Portugal

N. do E.: algumas imagens apresentadas são meramente ilustrativas ou conceptuais e não representam a vista real do empreendimento.

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