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terça-feira, 29 de março de 2016

O Almadense

Um jornal chamado  "O Almadense" [semanario litterario e recreativo, 1855-1856, red. Nicolau de Brito e Eduardo Tavares] que se publicou por mais de dois annos, e que mereceu n'um artigo de Tavares as honras de se referir a elle o sr. Antonio Rodrigues Sampaio, n'um artigo da "Revolução de Setembro" que n'essa epocha dava as cartas em tudo, politica, letras e noticias.

O Almadense, domingo 2 de dezembro de 1855.
Imagem: Casario do Ginjal

O escriptorio de "O Almadense"  uma lojasita em Almada [Cacilhas], que Eduardo Tavares tinha alugado por uma nobre ostentação jornalistica, era situado no largo, junto da igreja, e servia para os redactores dormirem pelo tempo das festas do S. João e dos cyrios da Atalaia; no resto do anno estava fechada, e nunca houve exemplo de ir um assignante perturbar o silencio d'aquella moradia.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

No vapor é que se tratava tudo, e no caes. nosso distribuidor era um burriqueiro; quando elle tinha mais que fazer, distribuiamos nós a folha por aquella rua de Cacilhas adiante, Nìcolau de Brito pelas casas da direita, eu pelas da esquerda, Roussado pelo melo da rua às pessoas que vinbam ou iam.

Rua Direita — Cacilhas, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe, Oliveira

Eduardo Tavares, de lista de assignantes na mão, ia-nos indicando os numeros das portas onde deviamos bater, e o nome a quem era destinado o periodico.

Foi uma grande publicação. Só o que ali se moeu a camara de Almada por causa de um boi que entrara no cemiterio, por ver a porta aberta, e fora tasquinhando na relva que encontrou por aquelle campo dos mortos!

Almada (Portugal), Vista geral, ed. Martins/Martins & Silva, 30, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Vimos n'isto um desacato horroroso; e Tavares, que já n'esse tempo se destinava à politica, deu aquella respeitavel camara as primicias da sua austeridade e intransigencia, que mais tarde no parlamento se téem feito sentir de vez em quando. (1)


(1) Júlio César Machado, Cláudio Lisboa, Empreza Editora Carvalho & C.a, 1852

Biografia de Eduardo Tavares

terça-feira, 23 de junho de 2015

O incendio da fabrica da Margueira

A nossa gravura de hoje representa o incendio da fabrica da Margueira, visto de Lisboa, na noite de 18 [de março de 1883], e illuminando o Tejo com os seus clarões sinistros. (1)

Incendio na fábrica de cortiça Henry Bucknall & Sons, 17 de março 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

Hontem, pelas 11 horas da manhã, o vento soprava rijo do sul, espalhou pela cidade denso fumo, não tardando em cair uma chuva de cortiça carbonizada.

Correu logo a noticia de que havia na Outra Banda um incendio pavoroso. De facto os curiosos que correram a extensa cortina do Aterro viram elevando-se do lado do sul uma enorme columna de fumo, por entre a qual surgiam grandes labaredas. Parecia que se achava em chammas toda a casaria de Cacilhas.

A força do vento e a violencia do incendio eram taes que não só caiam grandes bocados de cortiça queimada no caes do Sodré, ruas do Alecrim e immediações, mas até muitos bocados foram a enormes distancias.

Na rua do Sol ao Rato, no Campo de Sant'Anna e até na estrada de Palhavã foram cair pedaços de Cortiça.

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O sr. visconde de Coruche, voltando da Charneca, encontrou na estrada, muitos pedaços de cortiça que tinham sido lançados até ali.

Averiguou-se emfim que o fogo era na Margueira, na grande fábrica de cortiça dos srs. Henri Buchnal & Filhos [Henry Bucknall & Sons], de Londres. Sabe-se que era aquella uma das maiores fabrica porque havia ali mais cortiça do que toda a que ha em todas as outras fabricas do reino, e que empregava um pessoal de 400 pessoas. Ocupava uma area immensa, sendo a parte já incendiada de nada menos de 3:000 metros.

Além dos grandes armazens bem providos, existiam n'essa area grandes pilhas de cortiça em bruto, que se tornaram em outras tantas montanhas de fogo.

O fogo manifestara-se ás 10 horas e meia em uma das grandes pilhas, assumindo logos as mais assustadoras proporções.

Os primeiros socorros foram logo prestados pelas proprias gentes da fabrica, que pouco ou nada podia faser, em rasão dos seus esforços serem destruidos pela força do vento.

Quando chegou a primeira bomba, que foi a do Vasco da Gama, acompanhada por um contigente d'esse navio, já o fogo se comunicara a um grande numero de pilhas, ameaçando devorar toda a fabrica.

Couraçado Vasco da Gama, gravura, J. Pedroso, O Occidente, 1880.
Imagem: Hemeroteca Digital

Apóz essa bomba compareceram as das corvetas Rainha de Portugal, transporte de guerra África, bomba a vapor do arsenal de marinha, a dos voluntarios de Lisboa e Junqueira,  Almada, bombas municipaes de Lisboa 1 e 17, pessoal dos carros 21, 23 e 24, um piquete de 60 praças de sapadores etc.

Desenvolveu-se a maior actividade no ataque, funccionando todas as bombas e pessoal á proporção que iam chegando. Na inteira possibilidade, porém, de se salvar a fabrica, convergiram as atenções para a rua principal de Cacilhas, cujos predios do lado do nascente, desde o n° 91 até 150 se achavam em grande risco. Em alguns d'elles e na igreja chegou mesmo a pegar o fogo. Aos grandes esforços no entanto empregados pelo pessoal encarregado da defeza d'essas propriedas, e principalmente aos dos marinheiros da armada, deve-se a salvação, póde assim dizer-se, de toda a rua de Cacilhas.

Rua Direita — Cacilhas, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe, Oliveira

Era admiravel a coragem, a valentia desenvolvida por aquelles bravos, que por sobre os telhados, corriam a um e outro ponto a apagar o fogo que começava a lavrar.

Os marinheiros do Africa, sabendo que no predio n.° 107 existe um importante deposito de enxofre, correram ali, tratando de remover todo o conteúdo do deposito, que foi uma das casas onde primeiro se communicou o fogo.

No ministerio do reino, recebeu-se, pouco depois de se ter manifestado o incendio, o primeiro telegramma, que, apesar do seu laconismo, não podia ser mais aterrador: "Acudam-nos, que morremos todos queimados."

É que já n'essa occasião, caiam sobre os telhados da rua Direita de Cacilhas montões de faulhas, começando a manifestar-se o incendio em diversos pontos. Quando nós desembarcamos em Cacilhas, vimos muitas familias, percorrendo as ruas por terem, receiosas abandonado as casas, e montes de mobília, roupas, etc. disseminados por diversos pontos. Parecia o dia do juízo.

Não nos foi possivel aproximar do local do incendio; era mesmo impossivel, não só para nós, como para a gente do trabalho qualquer aproximação d'aquella fornalha immensa.

Ás 2 horas da tarde ardiam os moinhos, vinhas, mattos, arvoredo, apresentando toda aquella enorme area incendiada, um espectaculo admiravelmente horrivel. Ás 4 horas começou funccionando a bomba de vapor, tendo por alvo o laboratorio de productos chimicos e as casas proximas. O laboratorio, não obstante todos os esforços empregados, ficou destruido.

Não se pôde fazer calculo exacto dos prejuisos. Ha porém quem os avalie em uns 900 contos. A fabrica e a cortiça estavam seguras em companhias inglezas com agencias em Londres, em 40:000 libras.

Compareceram no local os srs. ministro do reino e da marinha, commissario geral de golicia, admmistrador do concelho, grande numero de policias, e piquetes de infantaria 2, 5, 7 e guarda municipal.

E bom foi que houvesse essa providencia, porque além de se tomar precisa para que se  garantisse á gente de trabalho a completa liberdade de acção, a policia tinha de se haver com uma enorme quantidade de gatunos, que aproveitando-se do ensejo quizeram pôr em pratica as suas costumadas proesas.

As casas proximas do incendio, por exemplo, que foram abandonadas pelos seus proprietarios, foram saqneadas pela gatunagem, que roubou tudo o que pôde.

O sr. commissario, porém, tomando as suas medidas contra os gatunos, preparou-lhes uma armadilha na ponte dos vapores; foram ali agarrados todos os que são conhecidos, e que evidentemente deram um passeio á Outra Banda para exercerem as suas habilidades.

Ás 7 horas pda tarde o sr. inspector dos incendios mandou refeição para o seu pessoal, que se acha ali na força de cento e tantos homens, que desde que começaram trabalhando até á chegada o sr. Carlos Barreiros foram comandos pelo sr. ajudante Conceição.

Ha suspeitas de duas victimas. Á hora em que escrevemos prosegue a extincção do incendio, que ainda activo. (2)

Durante a noite de sabbado para domingo continuaram os trabalhos de extincção do incendio, trabalhando debaixo de chuva todo o pessoal tanto de Lisboa, como de Almada Belem, Junqueira etc.

O fogo achava-se localisado ás 10 horas da noite. De manhã, pelas 10 horas, chegou mais uma força de 40 bombeiros municipaes de Lisboa e 50 conductores de differentes bombas.

As propriedades das ruas Direita de Cacilhas e d'Oliveira soffreram muito nos telhados. Essas propriedades foram durante a noite refrescadas a cada momento.

Felizmentè o laboratorio chymico não foi destruído, soffrendo, contudo bastante nos madeiramemtos.

Serzedello & Ca., década de 1840
Imagem: documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa

Á noite ja não havia chamma, mas apenas o enorme brazido. O trabalho do rescaldo deve terminar hoje. (3)

A nossa folha dos dias 18 e 19 do corrente deu jà, com todos os pormenores, que então podémos colher, a descripção d'este pavoroso incendio. É portanto, desnecessario relatar hoje novamente a catastrophe, com um cortejo de detalhes sabidos e de noticias que ninguem ignora.

Toda a gente viu de Lisboa, na manhã e noite do dia 17, aquelle espectaculo ao mesmo tempo magestoso e horrivel, desenrolando-se, como um panno de fundo de magica, na outra banda do Tejo. Não houve quem não presenciasse aterrorisado e cheio de curiosidade aquelle quadro sinitro, que um dia tristonho de inverno tornava ainda mais lugubre e pesado.

O incendio durou dois dias, tendo-se manifestado em uma das grandes pilhas de cortiça da importanfissima fabriea dos srs. Henri Buchnall & Filhos, na Margueira.

Fora impossivel atalhal-o, apesar de todas as diligeneias empregadas, porque o vento sul, soprando com desmedida furia, se encarregava de ateiar as chammas.

O primeiro telegramma recebido no ministerio do reino, dando parte do horrivel sinistro, e pedindo promptos soccorros, dizia assim: "Acudam-nos que morremos todos queimados!"

É que já n'essa occasião caiam sobre os telhados da rua Direita de Cacilhas, montões de faulhas, principiando o incendio a lavrar em diversos pontos.

Pontal de Cacilhas, ed. Alberto Malva/Malva & Roque, 135, década de 1900
Imagem: Delcampe

Quando nós desembarcamos em Cacilhas, vimos muitas familias, percorrendo as ruas, por terem, cheios de pavor, abandonado as casas. Aqui e alí, divisavam-se montões de mobilias, roupas, etc, espalhados ao acaso. Tristissima e pungitiva scena!

A fabrica, e a cortiça estavam seguras em companhias inglezas com agencias em Londres, na somma de 40.000 libras. Os prejuizos ascendem a mais de 400 contos.

Felizmente, ninguem morreu victima do incendio, havendo apenas leves ferimentos entre a gente de trabalho, que prestou serviços relevantissimos.

O sr. Bucknall, proprietario da fabrica incendiada, mandou abonar, no dia immediato ao do sinistro, 300 réis diaríos aos trabalhadores casados, e 200 réis aos solteiros.

Dos 454 operaríos desempregados em consequencia do fogo, metade foi já admittida a trabalho, contando o honrado proprietario da fabrica empregar novamente o resto, dentro de poucos dias.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

Vê-se, por isto, que o sr. Bucknall, apesar da naturalissima preocupação do seu espirito, em horas de tamanha angustia como aquellas, não esqueceu, nem um momento, os interesses dos pobres operarios. (4)


(1) Diário Illustrado, 31 de março 1883
(2) Diário Illustrado, 18 de março 1883

(3) Diário Illustrado, 19 de março 1883

(4) Diário Illustrado, 31 de março 1883

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Trafaria 1900, cliché Faustino António Martins

Em torno do selo e das colecções por si motivadas produziu-se vasta bibliografia. Começavam, de imediato, as publicações especializadas relacionadas com os selos, dedicadas aos seus coleccionadores.

Selo de D. Carlos I, 25 reis de 1895,
desenho e gravura de Louis-Eugène Mouchon.
Imagem: Delcampe

Álbuns e catálogos foram as primeiras, mas produzidos fora das fronteiras nacionais. Foi preciso esperar pelo ano de 1887, para aparecer a primeira publicação periódica portuguesa, O Philatelista, Orgão do Centro Philatelico Portuguez, propriedade de Faustino A. Martins, publicada em Lisboa, com irregularidade, em 4 séries, até Abril de 1896. (1)

O Philatelista, revista mensal, 1887.
Imagem: Os selos Coroa da Guiné

Supomos ser curioso citar aqui, para ilustrar esta época, o que se escrevia em 1894, no número 3 da série III, de "O PHILATELISTA". Esta revista, dirigida pelo conhecido comerciante português Faustino Martins, criou a partir deste número de sua publicação, uma interessante secção intitulada "Galeria Philatelica".

Nela aparece o "retrato" do coleccionador em foco, e uma breve descrição da sua colecção. Para abrir essa Galeria, com vista a "incitar à imitação", é o próprio Faustino António Martins o número 1 dos quadros que a irão ornamentar.

A ele se refere o articulista a certo passo, nestes termos: "A sua colecção conte cerca de 14.000 variedades, além de mais de 3000 das emissões continentais e coloniais de Portugal, que constituem a mais rica colecção de selos portugueses que temos visto e que certamente existe...". (2)

Faustino António Martins ou F. A . Martins (como assina na maioria dos seus bilhetes postais) foi grande filatelista, director e proprietário do Filatelista (publicação mensal dedicada aos coleccionadores de selos e órgão do centro Filatélico Português).

Torre do Bugio na barra de Lisboa (segundo uma gravura de J. pedrozo), ed. Martins/Martins & Silva, 458.
Imagem: Delcampe

Foi proprietário de um estabelecimento comercial, posteriormente especializado na compra e venda de selos, estabelecimento esse, situado na Praça Luís de Camões Nº35 Lisboa, fundado em 1867, existindo ainda em 1894, como vimos em exemplares da revista.

Faustino António Martins aderiu e torno-se editor e comerciante de cartofilia em 1900, alias muito associada á filatelia. Esta importante casa editora sofreu varias modificações no seu nome: Faustino A. Martins / F.A. Martins / ed. Martins / Martins / ou Martins & Silva entre outras variantes. Usou monogramas de que conhecemos FAM e MS.

Trafaria (Portugal), Vista geral e rio Tejo, ed. Martins/Martins & Silva, 28, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

O prestigio adquirido pelo seu estabelecimento foi enorme , atendendo á grande qualidade e variedade de exemplares. Iniciou actividade editorial sob a sigla F.A.Martins a partir de 1900, Edição Martins a 1902 e Martins e Silva provavelmente em 1903.

Como outros editores de B.P.I.'s F.A.Martins emitiu juntamente com alguns comerciantes, em regime de parceria e por encomenda.

A sua produção retratou a vida publica e oficial da época, bem como aspectos do território, do povoamento e da sociedade, das actividades económicas e culturais, das paisagens e costumes de quase todo o país.

Como muitos outros editores cedeu clichés ou direitos de uso, por acordo ou venda, a colegas, sobretudo, das cidade e vilas da província, teve a colaboração dos melhores fotógrafos de Lisboa,  do Porto e de Coimbra, bem como de outros pontos da província e usou clichés cedidos por outros editores.

Trafaria — Vista geral, ed. J. Quirino Rocha, 01, década de 1900.
Imagem: Delcampe - Oliveira

Todos os seus postais são numerados por ordem crescente em árabes.

Trafaria — Vista parcial, ed. J. Quirino Rocha, 07, década de 1900.
Imagem: Delcampe - Oliveira

Conhecem-se-lhe a colecção "Portugal" e as sub colecções: "Lisboa", "Collection portugaise" "Collecção Portugueza" "Collecção Relvas", "Lisboa Typos das ruas" e colecções de Costumes entre outras. (3)

Trafaria — Vista geral, ed. Martins/Martins & Silva, 1201, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Faustino Martins foi um comerciante de filatelia com estabelecimento na Praça Luis de Camões, nº 35 em Lisboa que dizia em 1888 ao referir-se ao seu negócio: "... do nosso estabelecimento, sem dúvida hoje o primeiro da Europa na especialidade do comércio e pelo enorme depósito de muitos milhões de selos que possuimos de todo os países do globo". (4)


(1) Em Torno do Selo Postal Português
(2) A Evolução das Coleções Clássicas
(3) Nazaré em Postal Ilustrado
(4) Os selos Coroa da Guiné

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Os Paços do Concelho

Os Paços do Concelho ou edifício do Poder Local é um edifício localizado na Praça Luís de Camões (Largo da Câmara ou Praça Nova).

Almada. Rua Direita e Egreja de S. Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900
Imagem: Fundação Portimagem

Tem um enquadramento na malha urbana, elevando-se no topo de um quarteirão, entre dois arruamentos, em frente à praça.

Almada, Camara Municipal, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 11, década de 1900.
Imagem: Delacampe

Encontra-se, adossado a construções de menor importância arquitectónica e à Igreja da Misericórdia construção do mesmo porte. Tem uma planta irregular, em trapézio, com coincidência interior — exterior. 

Os volumes são articulados: compostos por edifício principal e torre de planta irregular, com disposição da massa com tentativa de alcance de um equilíbrio entre a verticalidade da torre com a horizontalidade da fachada principal, conseguida com a inclinação grande dos telhados, a elevação do segundo piso e a distribuição da dupla escadaria.

A cobertura é feita em telhado de 4 águas, com subeira, pátio, e coruchéu. A frente está orientada a Oeste, com embasamento.

Os 3 pisos desenvolvem-se em torno da torre sineira (o que restou da igreja de Santa Maria, após o terramoto de 1755 e depois integrada no edifício dos Paços do Concelho), cujo sino tem gravado a data de 1795, relativamente descentrada do corpo do edifício, e assenta, em parte, sobre lajedo e cantarias; de 1 pano entre cunhais, com os registos marcados pelo ritmo horizontal de 3 séries de vãos sobrepostos; porta de acesso ao piso térreo. 

Escada de acesso ao 2º piso, guarnecida por gradeamento, com dois patamares. A torre de estrutura compacta tem dois registos: o primeiro contem a maquinaria de relógio, com quatro mostradores visíveis em cada uma das faces da torre, colocados em aberturas circulares; vãos moldurados em alvenaria.

Brasão real sobrepujado à porta de acesso ao piso de cima. Remate das fachadas em cornija corrida e beiral. Flancos em grande parte adossados a outras construções, onde existe cantaria proveniente de antigas construções.

O interior é caracterizado por espaços diferenciados, com grande número de salas nos vários pisos. A iluminação é feita, apenas, através dos vãos existentes na fachada.

Inicialmente os Paços Municipais albergavam também uma prisão e um tribunal. Actualmente alberga o Gabinete da Presidente da Câmara Municipal, e os serviços de apoio à Presidente, bem como o Departamento de Informação e Relações Públicas. É uma propriedade pública de âmbito municipal.

Estima-se que a construção do edifício remonta ao século XVIII.

Cronologia do edifício dos Paços do Concelho

Datas — Características/Referências

Séc. XVII — gravura onde é representada a torre com aberturas para sinos, em dois pisos

Portogallo, Lisbona dal promontorio.
Gravura executada por Terzaghi sobre desenho de Barbieri reproduzido de um original do século XVII.

1795 — inauguração do edifício segundo a inscrição do sino do relógio com a data da fundição (oferta de D. Maria I)

1796 a 1830 — data provável de uma gravura onde o edifício da Câmara aparece ainda incompleto, faltando-lhe uma parte do lado direito

Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden, Fieldmarshal The Duke of Wellington

1832 — nas gravuras após esta data o edifício aparece como existe hoje

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830

1868 — o pelourinho que se situava no largo em frente, foi destruído quase na íntegra

1940 — inícios — realização de importantes obras no edifício

Escondidinho Boca de Vento, vista tomada da rua Trigueiros Martel, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

1985 — iniciaram-se no edifício dos Paços do Concelho obras de transformação e beneficiação em algumas salas do piso térreo; trabalhos arqueológicos em torno de duas salas situadas na ala Sul do edifício

A sua tipologia é caracterizada por ser uma arquitectura civil, da época do Maneirismo, e com influência Pombalina. A torre e a porta do piso térreo têm traços classicizantes do Maneirismo, anteriores ao do resto do edifício.

Do Pombalino ressalta a estrutura do edifício, a simetria da fachada, ainda que não haja fidelidade rigorosa a este estilo, pela dissimetria existente entre os volumes da torre em relação ao edifício, que teria resultado do compromisso assumido pela estética do novo edifício camarário. (1)


(1) Graça, Filipe Alexandre Antunes, Eficiência Energética em Edifícios de Serviços no Concelho de Almada, Lisboa, Faculdade de Ciências e Tecnologia, 2011

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Chafariz de Cacilhas

A camara municipal de Almada acaba de levar a effeito um grande melhoramento no logar de Cacilhas, qual o da construcção de um chafariz, cujo desenho apresenta hoje a nossa estampa.

Chafariz de Cacilhas, inaugurado em 1 novembro 1874.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Esta obra reclamada, havia muito, não só pelos moradores d'aquelle logar, mas tambem por innumeras familias, que frequentam Cacilhas na estação calmosa, tornava-so da maior necessidade, attendendo a difficuldade que havia, de obter agua n'aquella povoação.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

Cabe ao illustre presidente da actual vereação d'aquelle concelho, o sr. Bernardo Francisco da Costa, homem de genio e acção, bem conhecido já, quer na imprensa pelas suas publicações litterarias, quer na tribuna como deputado a gloria da realisação de tão util trabalho, que constitue o maior brazão da administração municipal d'aquelle cavalheiro.

Chafariz de Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 4, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Nao foram poucos os dissabores por que passou o sr. Costa, desde que planeou semelhante obra até que a levou ao fim, mas indo hoje inaugural-a, grande deve ser a sua satisfação.

Bernardo Francisco Henriques da Costa (1821 - 1896)

O fundador da mais antiga empresa industrial em Goa [Costa & Cia.] foi um intelectual notável, Bernardo Francisco da Costa, por sua vez, filho de outro famoso goês, Constâncio Roque da Costa, de Margão, representante eleito do Estado Português da Índia às Cortes de Lisboa.

Bernardo Francisco da Costa.
Imagem: GeneAll

Bernardo nasceu no dia 12 de fevereiro de 1821 em Margão, e de acordo com o estilo de vida dos pais cresceu num ambiente totalmente ocidental (português), concluindo os seus estudos portugueses, incluindo Direito, em Goa. Era um forte e talentoso orador, aclamado pelo povo de Goa como potencial defensor dos seus direitos, se fosse eleito para representar India portuguesa nas Cortes. Foi muito apreciado, não só pela sua mestria no discurso e oratória em português, mas também, pela profundidade do seu pensamento e aprendizagem.

Enquanto esteve em Portugal ele assumiu os estudos superiores de física e química e, depois de regressar a Goa, foi nomeado professor da Escola Médica de Panjim. Infelizmente, um desentendimento com o Governador Geral de Goa resultou em sua demissão, e Bernardo Francisco da Costa voltou a Portugal, onde, no concelho de Almada, exerceu por quatro anos as funções de presidente da Câmara Municipal, Administrador Distrital e Juiz.

Durante seu mandato, em Almada, foi o responsável por efetuar muitas melhorias tanto assim que o povo de Almada o queria para seu representante às Cortes. A homenagem que lhe foi feita em Almada, típica do pensamento da época, dizia: "Ele, um fruto da semente semeada em Goa por Afonso de Albuquerque no século XVI, está agora a oferecer benefícios à pátria." [...]


in Vaz, J. Clemente, Profiles of Eminent Goans Past and Present, New Delhi, Concept Publishing Co., 1997

O capital empregado n'este melhoramento é aproximadamente de 3:500$000 réis, comprehendendo-se n'esta verba o custo da agua, na importancia de 2:000$000 reis.

Foi engenheiro director de este trabalho o sr. Carlos Agostinho da Costa, moço estudioso e applicado, e que as suas boas qualidades tem grangeado as sym- thnas de todos que o conhecem. Cabe-lhe portanto a qlória de ter contribuido com o seu trabalho para o engrandecimento da terra que o viu nascer.

Cacilhas, Almada, Largo Costa Pinto, ed. José Pinto Gonçalves, década de 1920.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Em 23 de maio foi o sr. engenheiro incumbido pela camara de Almada de delinear um projecto para o abastecimento de aguas em Cacilhas. Em 3 de junho apresentou o mesmo senhor nm projecto acompanhado de um excellente relatorio, documentos estes que foram presentes ao conselho e districto, o qual os approvou em julho seguinte.

Approvado o projecto, tratou-se de ajustar com o proprietario da nascente a compra da agua.

Chafariz de Cacilhas, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Em 10 de agosto ultimo deu-se o principio da obra, e logo no dia 13 se assentou a primeira pedra para os alicerces do chafariz. No dia 17 começaram as obras do encanamento, que ficou concluido no dia 12 de setembro, até ao reservatorlo, onde a agua chegou ás 6 horas da tarde do mesmo dia. No dia 28 de outubro experimentou-se todo o encanamento, e valvulas, conhecendo-so estar tudo nas melhores condições.

A agua é excellente como toda a do Ginjal. A sua quantidade é de 25,18 em 24 horas. A differença do nivel é de 2,33, o que dá uma inclinação do 0,00236 por metro corrente. Esta nascente provém de uma mina aberta em terreno de Theotonio Pereira, pertencente aos herdeiros de Raymundo José Caparica, que possuem a propriedade denominada Pateo da Parreirinha.

Chafariz de Cacilhas, Artur Leitão Bárcia, fotografia anterior a 1945.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Segundo as condições do contracto a camara cedeu ao proprietario 5,0 por dia. A nascente dista 574,0 do local do chafariz. O chafariz fornecerá 25m,0 em 24 horas a cada um dos mil habitantes de Cacilhas. Este povo tinha de ir buscar a agua á Fonte da Pipa, á distancia e 1500 metros.

Repetimos. O melhoramento é importantissimo. No dia em que todas as camaras do reino souberem e quizerem cuidar assim dos interesses e das necessidades mais imperiosas dos seus constituintes, o paiz se transformará como que por encanto. (1)


(1) Chafariz de Cacilhas, Diario Illustrado, 1 de novembro de 1874

Leitura relacionada:
Inauguração do Chafariz de Cacilhas

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (10/18), um boné por uma cabeça


UM BONÉ POR UMA CABEÇA



Lisboa, Escola do Exercito (antigo palácio da Bemposta), ed. Martins/Martins & Silva, s/n, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Entretanto corria o processo de Luiz Franco e seus camaradas. Além de declararem alguns soldados que elle acompanhára a revolta até ao largo do Rato, acrescia a carta achada nos papeis do alferes Pereira, em virtude da qual os officiaes salvos por Franco mais foram testemunhas de accusação que de defeza; fazendo-se notavel Gomes pela animosidade que no depoimento mostrára contra o seu amigo.

Debalde Franco allegára que para salvar os tres officiaes se vira obrigado a acompanhar o regimento, porque se tivesse fugido com elles, os soldados que haviam sentido gente no quarto, arrombada a porta, não achando ninguem, e vendo a janella aberta, concluiriam que elle e os officiaes tinham por ali fugido, haviam de perseguil-os, e talvez os agarrassem e os assassinassem a todos.

O bom effeito d'esta allegação era destruído pelo contheudo da carta, e pelas circumstancias agravantes de Franco se ter recolhido cedo ao seu aposento, achando-se fardado e armado, contra o seu costume e de se provar a sua affeicão ao systema constitucional em consequencia de livros e jornaes que lhe apprehenderam no quarto.

A letra da carta imitava tão perfeitamente a de Franco, que não havia que duvidar da authenticidade, embora elle a negasse.

Os attestados e representações de muitas pessoas notaveis da Outra-Banda, Lisboa e outras partes do reino, de nada valeram, como tambem tinham sido perdidos os passes dados junto de El-Rei, dos ministros e dos juizes, pelos amigos de Franco, inclusive o commandante e muitos officiaes do mesmo regimento, cujos depoimentos e similhantemente os de muitos soldados lhe eram favoraveis. Havia pois mui fracas esperanças de o salvar.

Já tinha saido a sentença de morte a 18 dos sublevados, soldados, officiaes inferiores, um subaltemo e até um corneta, que foram fusilados em campo de Ourique, e esperava-se que haveria mais victimas segundo os termos em que caminhava o processo.

Botelho, representando o papel de hypocrita, ia quasi todos os dias ao Caramujo contar a Antão Diniz o que se passava, e ninguem punha em duvida o grande interesse que elle tomava pela salvação de Franco.

D. Francisca e Antão Diniz não se haviam descuidado de recorrer tambem á infanta D. Maria da Assumpção, mas nada tinham conseguido; até que finalmente, tendo saido sentença de morte a mais 22 dos sublevados, entre elles Luiz Franco, resolveram recorrer ainda á infanta uma ultima vez.

Bem quizera Antão Diniz acompanhar sua mulher e sua filha ao paço da Bemposta, mas um furioso ataque de gota o retinha de cama: assim foram ellas só, em companhia de Jeronymo, Botelho e Espanta-maridos, que ficaram esperando na capella; e tendo entrado no paço, onde as receberam com toda a facilidade e consideração, em poucos momentos eram conduzidas á presença da infanta.

A infanta D. Maria de Assumpção era de estatura baixa e delgada, de olhos e cabellos castanhos, rosto um tanto pallido e picado de bexigas, e de aspecto senhoril e ao mesmo tempo agradavel.

Infanta Maria da Assunção de Portugal (1805 - 1834) por Nicolas-Antoine Taunay.
Imagem: Grand Ladies

Estava esta joven senhora n'um pequeno gabinete, mui simplesmente vestida, e sentada ao seu bastidor em companhia de duas aias, trabalhando n'um lindo bordado, quando entraram D. Francisca e sua filha.

A primeira que entrou foi D. Mathilde, fazendo á infanta uma graciosa mesura, que ella recebeu com um amavel sorriso.

Apenas a infanta viu diante de si D. Mathilde, que se aproximava para lhe beijar a mão, exclamou:

— Caspité [interjeição de surpresa e aprovação]! Como está crescida e gentil tua filha, D. Francisca!

Dizendo isto fez um pequeno esforço para não deixar que Mathilde lhe beijasse a mão; e acrescentou:
— Sente-se aqui ao pe de mim, minha amiguinha. — E tu, D. Francisca, estás bem acabada! Senta-te, senta-te! E tambem lhe não deixou beijar a mão. Como está teu marido, que ha dias que o não vejo? Mas estás pallida e abatidal Será da minha vista? Chega-te mais para mim.

— Antão Diniz, disse D. Francisca, chegando-se para ao pé da infanta, não pode hoje ter a honra de beijar a mão a V. A. porque lá fica de cama no Caramujo com a sua gota. Quanto a mim não se engana V. A. Quando o espirito soffre logo o rosto dá rebate. V. A. ha de valer áquelle infeliz cirurgião por quem lhe tenho pedido tanto.

— A esse respeito podes estar descançada, como eu estou, porque os ministros d'El-Rei prometteram-me que fariam tudo o que podessem para o salvar.

— Ah 'Senhora! respondeu D. Francisca. Sinto dizer a V. A. que n'esse caso não poderam fazer nada, porque hontem mesmo os juizes condemnaram Luiz Franco a ser fuzilado.

— Miseraveis! exclamou a Infanta, deixando cair do dedo o seu dedalzinho do ouro. Nada fizeramt...
E mais ainda hontem o Luiz de Paula Furtado [Luís de Paula Furtado Castro do Rio Mendonça e Faro, ministro da justiça do governo de D. Miguel] me disse que contasse com elle. A que epoca chegámos nós, que já uma Infanta de Portugal não pode nada!

— V. A. pode muito, e dentro em pouco o hão de sentir as creancinhas pobres de Outra-Banda.
— Sempre se fez a compra da casa? disse a Infanta.
— Eu e meu marido. respondeu D. Francisca, tanto diligenciámos, que um proprietario de Almada resolveu ceder-nos a sua casa, que é muito acommodada para o collegio que V. A. quer estabelecer. Ah! Prouvera a Deos que a sorte do cirurgião Franco dependesse só de V. A.

A noticia de se ter achado casa para o seu collegio, que n'outra qualquer occasião muito teria agradado á Infanta, não pode n'este momento minorar lhe o desgosto da má nova que D. Francisca acabava de lhe dar.

D. Francisca continuou:

— Admira que V. A. ainda o não soubesse. Pois foi hontem mesmo que juizes sem alma nem consciencia condemnaram á morte um joven, que eu e Antão Diniz amamos como a um filho, e por quem tanto se interessa a população da Outra-Banda, porque elle não tem ali senão amigos.

— Cala~te, D. Francisca, não me afllijas mais. Pois tu ingnoras que as coisas nunca se sabem n'este miseravel paço senão muito tarde e quando lá fóra já todos estão inteirados. O paço hoje é uma cavema de enredadores e intrigantes, que só se occupam de trazerem El-Rei meu irmão enganado. E anda tão entretido com elles, que ha oito dias que procuro fallar-lhe e não me e possivel.

— Mas disse, D. Francisca, V. A. ha de acudir ao meu protegido, não ha de consentir que o matem.

Um soluço de Mathilde chamou a attenção da infanta, que a viu derramar lagrimas.

— Oh, não chore, querida meninal Quer muito a esse Franco, não é verdade, minha filha? Deixa estar D. Francisca, e tu Mattiilde. Vou dar um ultimo passo; hei de fallar hoje infalliveimente a El-Rei, e não o largo em quanto me não prometter a vida de Luiz Franco.

N'este momento ouviram-se vozes de homem no quarto proximo, as aias levantaram-se logo, e a Infanta exclamou dando um puIo na sua cadeira:

— Ah! É El-Rei. Chega muito a proposito. Algum grande Santo pediu por esse rapaz. Muito obrigada, meu Deus, muito obrigada! Entrem para a minha sala em quanto eu recebo aqui mesmo a visita de El-Rei. Rezem, minhas filhas, que eu farei quanto puder.

Tinham desapparecido D. Francisca e Mathilde, quando se abriu a porta e uma das aias annunciou que EI-Rei pedia licença para fallar a S. A.

— Póde El-Rei entrar, respondeu a Infanta.

El-Rei entrou seguido da aia. A lnfanta ergueu-se e E1-Rei beijou-a na testa. I). Miguel vinha vestido à paisana e oom uma chihatinha na mão. Mostrava um ar satisfeito. Deu uma volta pelo quarto cantarolando, e depois sentou-se dizendo:

— Saiba V. A. que acabo de experimentar o mais soberbo cavallo que tenho visto. E não é estrangeiro, é do paiz, pura raça d'Alter. Bello bicho, bello bicho. Leve como uma penna, caminha que desapparece.

D. Miguel I (1802 - 1866), rei de Portugal (1826 - 1834),
Franz Xaver Stöber, segundo Johann Nepomuk Ender, 1826.
Imagem: Wikipédia

— Ora, senhor Rei meu irmão! Porque não anda V. M. devagar? Tomara que acabasse a moda de andarem os Reis sempre a correr. Fico muito assustada sempre que vejo partir V. M. a todo o galope.

— É porque V. A. não sabe apreciar este prazer, e não gosta senão do passo de sendeiro da sua egoasinba branca. Mas vejo V. A. hoje tão risonha, fóra do seu costume. Grande novidade!

— É porque, disse a Infanta, ha oito dias que procuro fallar a V. M., e não me é possivel encontra-lo. Os politicos trazem-n'o tão occupado... Estou certa de que V. M. seria muito mais feliz, se viesse todos os dias conversar comigo aqui algum tempo, com a sua irmã que muito o estima.

— Então aqui estou. Sempre quero.ver o que tem para me dizer. Ahi vae V. A., como costuma, sobrecarregar-me de pedidos para tantos desgraçados, que era preciso que a casa real tivesse as rendas do reitor Mendes para os satisfazer a todos.

— Hoje não tenho mais que um pedido a fazer-lhe, e não è de esmolas nem de pensões, é de palavras e coisa muito facil. Muito facil para V. M., dificil e impossivel para qualquer outra pessoa.

— Ah! Pensa então V. A. que eu posso muito? Os reis não podem nada, ainda mesmo os absolutos. Por exemplo, pensa V. A. que teriam morrido aquelles 18 desgraçados do 4 de infanteria se eu tivesse o poder que V. A. julga?

— Então quem è que abaixo de Deus pode mais n'esta terra do que V. M?

— As leis, Infanta, as leis; e é necessario cumpril-as a todo o transe. Assim m'o dizem os meus ministros, os meus padres, os meus juizes, emfim todaa gente — respondeu o rei, inclinando a cabeça e cruzando as mãos sobre o peito.

— Senhor, replicou a Infanta, as leis dos homens quando mandam matar não se podem cumprir, porque são contrarias ás leis de Deus.

— Vá lá dizer isso aos meus conselheiros! Gritavam logo-aqui d'el-rei! — contra mim proprio.

— Pois grite V. M. — aqui d'e`l-rei! — contra elles, volte-lhes as costas, e faca a sua vontade.
— V. A. não entende d'isto de governar um povo. Olhe que sempre è um grande pezo e uma grande responsabilidade. Não tenho socego. Estou ás vezes com vontade de mandar dizer a nosso irmão: "Senhor! Deixemo-nos d'estas desintelligencias e d'estes combates. Já estou farto de tantas mortes e de tanto sangue. Venha o meu irmão tomar conta d'isto, e deixe-me socegado com os meus cavallos e as minhas caçadas".

Mas que está V. A. aqui fazendo n'esto bastidor? disse D. Miguel, inclinando-se sobre o pequeno trabalho da infanta. Que bonita coisa! Um pedaço de veludo cor de rosa bordado a oiro; as armas de Portugal; cinco chagas — a religião, sete castellos — a força.

Bandeira nacional de Portugal de 1826 a 1830,
Bandeira de D. João V, usada pelos Miguelistas ou Absolutistas.
Imagem: Wikipédia

— É um bonet que estou fazendo para offerecer a V. M. — disse a lnfanta.
— Obrigado, obrigado. Como ha de ficar bonito! E esta quasi prompto — disse El-Rei, continuando a examinar o trabalho.

— Pouco falta, respondeu a Infanta muito satisfeita; mas não lh'o dou se V. M. me não conceder a tal coisa muito facil de que lhe fallei.
— Pois bem, dou-lhe palavra, mas com a condição de que me hade dar o bonet— disse o rei gracejando.

— Ainda mesmo contra a vontade dos seus conselbeiros?
— Seja, respondeu el-rei, continuando à ver o bordado; mas com a condição que puz.

— Palavra de rei?
— Palavra de rei, mesmo porque V. A. nunca me pediu nada que me compromettesse.

— Por esse lado não ha que receiar: longe de o comprometter, torna-me mais sua amiga, se é possivel, e receberá as bençãos de immensa gente.
— Vamos a ouvir.

A conversação foi interrompida pela voz de uma aia que disse — O sr. conde de S. Lourenço [António José de Melo Silva César e Meneses, ministro e secretário de estado da guerra do governo de D. Miguel] manda dizer a V. M. se se digna dar-lhe as suas ordens.

Trajos masculinos.
Quadros da Historia de Portugal, Aguarela de  Alfredo Roque Gameiro.
Imagem: www.roquegameiro.org

— É o que lhe disse ha pouco, exclamou D. Miguel, nunca me deixam.
— Mande-o entrar, disse a lnfanta!
— Vá, se V. A. assim o quer: eu aqui obedeço.

Pouco depois entrou o conde inclinando-se todo. Dirigiu-se primeiro para a Infanta, que carregou as sobrancelhas, e deu-lhe a mão a beijar, voltando-lhe quasi de todo as costas; e beijou depois a mão a El-Bei.

O conde percebeu bem os movimentos da lnfanta, fez-se muito vermelho, e ficou em pé com os olhos no chão.

— Sabe V. M. uma coisa, disse a lnfanta. Hontem foram condemnados a pena ultima mais 22 desgraçados do 4 de infanteria. Talvez V. M. ainda o ignorasse.
— De certo, disse o Rei com a voz um tanto alterada. E como acontece então que V. A. o soube primeiro?

— Peço perdão, interrompeu o conde, se V. M. o não soube ha mais tempo, é porque não teve occasião de ver os papeis d'esta pasta, que estava na sala do despacho desde hontem.

D. Miguel pegou na pasta que o conde lhe offerecia e exclamou.
— Mais sangue, sr. conde, mais sangue! Já tive occasião de lhe observar que estava aborrecido de tanta mortandade.

EI-Rei dizendo isto aproximou-se da janella por entre as cortinas.

A lnfanta foi para o lado d'El-Rei.

Ia passando uma guarda de realistas dos Caetanos, que vinha para o paço, levando adiante da musica grande multidão de povo.

Como são feios estes realistas! disse a Infanta. E continuou, abaixando a voz — Agora faça-me V. M. favor de despedir o Conde.

El-Rei que estava de bom humor disse ao Conde: Já vou ter com v. ex.a á sala do despacho.

O conde inclinon-se e saiu.

Apenas elle desappareceu, a Infanta pegou vivamente na pasta que El-Bei tinha largado, correu os papeis com a vista, e tirou um dizendo — Aqui estão os nomes dos desgraçados condemnados á morte.

— Que faz Infanta! disse El-Rei. Era melhor que continuasse a bordar o meu bonet.
— Lembra-se V. M. do que me prometteu?

— Lembro, com tanto que V. A. se não esqueça tambem da sua promessa.

— V. M. tem o seu bonet amanhã, se salvar da morte este Luiz Franco, que está na relação dos sentenciados, e por quem eu e tanta gente lhe temos pedido.

El-Rei ticou pensativo por um momento, depois disse : — Concedido.
— Ah senhor! Quanto lhe agradeço! disse a Infanta com as lagrimas nos olhos abraçando El-Rei.

— Oh! Infanta, como está commovida! Venha tomar ar. Abram a janella!

Uma aia abriu a janella.

Estava-se a render a guardado paço. A multidão que aflluia para ouvir a musica, vendo as pessoas reaes, começou a victorial-as.

— Creia V. M., disse a lnfanta, que nunca mereceu tanto aquelles vivas como agora. Se V. M. m'o permitte vou já acabar-lhe o seu bonet.
— Visto isso, disse D. Miguel rindo e afastando-se da janella, trocou V. A. um bonet por uma cabeça.
E saiu do quarto cortando o ar com a chibatinha.

Pouco depois D. Francisca e Mathilde voltavam do paço, e encontravam-se com Jeronymo, Pedro Marques e Espanta-maridos, que as estavam esperando.

— E então? perguntou Jeronymo.
— Está salvo da morte, respondeu D. Francisca.


Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O farol de Cacilhas

Em 1886, a lanterna que assinalava a navegação, no pontaleto, foi substituída por um farolim.

Era todo em ferro, pintado de verde, dispondo de luz verde conforme as convenções internacionais e, ao seu lado, numa pequena casa, tinha uma corneta ou "ronca", para sinal de nevoeiro, accionada a ar comprimido. (1)

Farol de Cacilhas, 2010.
Imagem: Wikipédia


No longínquo dia de 15 de Janeiro de 1886, o Farol de Cacilhas iniciou as suas funções como Ajuda à Navegação.

Implantado no pontal [i. e. no pontaleto] de Cacilhas, este dispositivo de assinalamento era constituído por uma torre cilíndrica em ferro, pintada de vermelho com 12 metros de altura por 1,70 metro de diâmetro, dispunha de uma lanterna cilíndrica (espaço onde fica instalado o equipamento luminoso) com 8 vidraças e cúpula esférica pintada de verde, encimada por uma pequena esfera sobre a qual estavam montados um catavento e um pára-raios. 

Pontaleto de Cacilhas, espólio do duque de Palmela, 1885.
Imagem: Delcampe

Foi equipado com um aparelho iluminante de 5ª ordem (0,375m de diâmetro), com candeeiro de 2 torcidas. 

A luz era fixa, branca, alimentada a petróleo, disponibilizando um alcance luminoso de 11,5 milhas e iluminando um sector de 342º.

A partir de 9 de Maio de 1886 ficou pronto a funcionar um sinal sonoro estabelecido a Este do farol, abrigado numa guarita de ferro, constituído por um sino automático de movimento de relojoaria, o qual dava uma batida a intervalos de 5 segundos.

Farolim e moinho de Cacilhas, Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1932.
Imagem: TV Ciência

Historicamente o Farol de Cacilhas teve diversas combinações de cor entre a sua estrutura e a luz que emitia, sendo que em 1886, quando entrou em funcionamento, a estrutura era de cor vermelha e a luz de cor branca.

Cacilhas, Ao entardecer, Colecção Latina, Colecção Latina, Frederico [Pereira] Ayres, c. 1930.
Imagem: O FAROL - Associação de Cidadania de Cacilhas

Posteriormente (1928) a luz passou a ter cor verde e em 1935 a própria estrutura passou a ser de cor verde, a qual se manteve até ao momento da sua desativação em 1978.

Quando da sua reimplantação em Cacilhas (embora sem funções de farol, apenas como marca histórica), optou-se por recriar as características da sua inauguração, pelo que a estrutura ficou de cor vermelha e a luz (embora de baixa intensidade) de cor branca.

Excerto do esclarecimento prestado pela Chefia do Gabinete de Estudos — Direcção de Faróis, solicitado em Abril de 2012, na sequência da polémica, sobre a actual cor da torre do farol.

Almada, Pharol de Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Em 1 de Janeiro de 1905, após ter sofrido algumas alterações de natureza técnica, o aparelho iluminante modificou a sua característica, passando a operar por ocultações de 5 segundos espaçadas por 55 segundos.

Cacilhas, Molhe e pharol, ed. Martins/Martins & Silva, 19, c. 1900.
Imagem: Delcampe, Oliveira

Entre Março de 1916 e 26 de Dezembro de 1918 o farol esteve apagado, por imposição de âmbito operacional, resultante da 1ª Grande Guerra. 

Em 1925 o aparelho iluminante foi substituído por outro de 4ª ordem (500mm diâmetro), tendo a característica do seu foco luminoso sido alterada em 01 de Março de 1927, passando de luz de ocultações, para luz de relâmpagos verdes.

Em 1931, foram anexadas duas pequenas câmaras, uma para a instalação do sinal sonoro e outra para acondicionamento das garrafas de gás.

Estes compartimentos viriam a ser ampliados em 1957, recebendo um segundo piso.

Cacilhas, estação fluvial, década de 1960.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No mesmo ano, o sinal sonoro foi substituído por uma trompa de ar comprimido, tendo o sino sido cedido ao Instituto de Socorros a Náufragos para ser posteriormente instalado na Ericeira.

Em 1957 foi electrificado com energia da rede pública, ficando a utilizar como fonte luminosa a incandescência eléctrica com reserva a gás, tendo sido equipado com uma lâmpada de 500W / 110V e bico de gás acetileno com manga.

Farol de Cacilhas, ed. Passaporte, 20, 1957.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Aquando da inauguração do monumento ao Cristo-Rei (17 de Maio de 1959), foram montados 3 altifalantes no varandim do farol, para possibilitar a difusão à população de informações relacionadas com o evento.

Em Julho de 1959 o farol foi ligado à rede pública de água e o seu sinal sonoro desactivado em 31 de Março de 1977.

Cacilhas, vista do farol e do Tejo, ed. Cómer, década de 1960.
Imagem: Delcampe

Em 1978, com o aumento do número de cacilheiros e procurando ir de encontro ao conforto das pessoas, enquanto aguardavam o transporte fluvial no cais, evitando que estivessem permanentemente sujeitas a condições climatéricas adversas, foi tomada a decisão de desactivar o farol e, no local correspondente, construir uma gare de embarque de passageiros.

Cacilhas, farol e autocarros da Beira Rio, 1964.
Imagem: Lighthouses of Southern Portugal

Numa primeira fase ainda foi ponderada a colocação do Farol de Cacilhas noutro local, no entanto, a avaliação de que o farol já não apresentava interesse prático e utilidade como Ajuda à Navegação, conduziu inevitavelmente à extinção daquele dispositivo de assinalamento marítimo, tendo sido apagado no dia 18 de Maio de 1978 e iniciada a sua desmontagem nesse mesmo dia.

O último faroleiro a prestar serviço no Farol de Cacilhas, foi o faroleiro de 2ª classe (à data) Edgar Duarte Marques Casaca.

O antigo Farol de Cacilhas acabou por, em 1983, ser deslocado para a Ilha Terceira, nos Açores, com o objectivo de substituir o Farol da Serreta que fora destruído pelo sismo de 01 de Janeiro de 1980 (ler o artigo completo...) (1)

Lanterna instalada no Pontaleto de Cacilhas, Carta hydrographica do littoral de Cacilhas (detalhe), 1838.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

(2) Direção dos faróis, Revista da Armada, setembro/outubro 2009.

Artigos relacionados: 
Na esplanada do forte de Cacilhas

Informação adicional: 
Direção de Faróis

O FAROL - Associação de Cidadania de Cacilhas
Boletim "O Pharol"