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quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Laboratorio de Chimica no Citio da Margueira

O Laboratório-fábrica situado na Margueira existiria pelo menos desde 1825, ano em que foi elevado à categoria de fábrica de produtos químicos, com a atribuição do privilégio exclusivo de produção de ácido sulfúrico durante 14 anos (a existência do laboratórrio é mesmo anterior a 1825, v. imagem abaixo, c. 1809). (1)

Esboços de Paizages d'Mediterraneo e Lisboa, 29.
Laboratorio de Chimica no Citio da Margueira, Luiz Gonzaga Pereira, 1809.
Museu de Lisboa

A Fábrica de produtos químicos da Margueira era um estabelecimento com larga experiência na produção de químicos em grande parte aplicados no campo da Medicina e da Farmácia. O Laboratório da Margueira tinha sido elevado à categoria de fábrica na década de 20 do séc. XIX, através da concessão do direito exclusivo da produção "em grande" do ácido sulfúrico.

Margueira na enseada da Cova da Piedade (detalhe da vista de Cacilhas e de S. Julião), Charles Landseer, 1825.
Instituto Moreira Salles

Pela década de 40 mudara para novos proprietários (os irmãos na sociedade Serzedello & C.ª), e iniciara então um programa de reformas tecnológicas, que o conduziram da matriz dos tártaros (uma das produções mais significativas até aquela altura) e do carvão animal, para uma série mais diversificada de fabricos.

Do final dos anos 40 para a década de 50 produzia, entre outros, e para além do tártaro (bruto e cremor) e respetivos sais de sódio e potássio, os ácidos (fosfórico, bórico, nítrico, clorídrico), amónia, algodão-pólvora, alguns óleos e uma gama variada de sais de metais pesados, artigos característicos da nova Farmácia Química já corrente em Portugal.

Laboratorio Chimico de Serzedello & Ca., década de 1840.
(documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa)

Foi um dos poucos estabelecimentos fabricantes de produtos químicos, mesmo sem apresentar o requerido número mínimo de operários (dez operários), com direito a figurar na Estatística Industrial de 1852. 

Este facto poderá indicar alguma excelência tecnológica que lhe permitiu ultrapassar o limite imposto pela escala industrial. 

Domínio tecnológico que teve na qualidade científica da formação dos seus técnicos, uma linha de conduta sempre perseguida, a começar pelo farmacêutico João Paulino Vergolino de Almeida (o proprietário anterior à família Serzedello), frequentando o curso de Física e Química de Luís da Silva Mousinho de Albuquerque no Laboratório de Química da Casa da Moeda, e continuada por outros farmacêuticos como José Dionísio Correia ou Francisco Mendes Cardoso Leal Júnior, assistindo igualmente ao mesmo curso [...]

Graphite Drawing, Southern Bank of Mouth of Tagus, C. L. Robertson, depois de 1866.
Sulis Fine Art

Considera-se que é esta “movida científica” de químico-farmacêuticos, “operários manufaturadores de produtos químicos”, a tentar realizar em primeiro lugar a passagem necessária de uma pequena produção química para uma escala mais alargada, próxima da escala industrial. Indivíduos com um pé na farmácia e outro na fábrica.

Graphite Drawing, Southern Bank of Tagus opposite Lisbon (detail), C. L. Robertson, depois de 1866.
Sulis Fine Art

Neste enquadramento, o Laboratório-Fábrica da Margueira, assume considerável importância, constituindo não só uma escola prática químico-farmacêutica, como também uma espécie de "viveiro" para futuros preparadores nos laboratórios de Química das escolas de Lisboa. (2)

Laboratório de Química no sítio da Margueira
Propriedade:  Serzedello & C.ª
Produtos: International exhibition, 1876 at Philadelphia, Diário Illustrado
Local: Margueira
Referências: Estatística Industrial de 1852

João António Pereira Serzedello & Companhia, "Droguista e comércio de produtos químicos" instalou-se no início do século XIX na Rua Direita de São Paulo, n.º 53, em Lisboa. Mais tarde, João A. P. Serzedello fundava com os sobrinhos José António, António José e António Joaquim a Serzedello & Companhia sediada no Largo do Corpo Santo, n.º 7. Em 1824, o tio João António deixa a sociedade, ficando este com a firma que já tinha constituído em 1822 (...)

Foi vendido à família Serzedello, em 1844, e a sua exploração ganhou um considerável desenvolvimento a partir de 1848, altura em que se deverá ter procedido a reformas tecnológicas, tendo-se tornado um estabelecimento de referência no âmbito da química e da farmácia, com participação em exposições universais onde recebeu distinções e nomeações pelos seus produtos.

Serzedello & Ca., década de 1840
(documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa)



Em 1855 o laboratório da Margueira produzia ácido clorídrico e nítrico, diversos sais de chumbo e mercúrio, dissoluções de sais (de nitrato de cobre e de cloreto de antimónio) e nitratos (de potássio, de bismuto, de prata, entre outros), os “tártaros”, a potassa cáustica (hidróxido de potássio), etc.

Em 1852 a fábrica tinha seis operários. Laborou praticamente até ao século XX. Nela operaram 4 a 5 gerações da família Serzedello. (2)


(1) Ângela Ferraz, Materiais e Técnicas da Pintura a Óleo em Portugal (1836-1914): Estudo das fontes documentais, Volume II
(2) Isabel Maria Neves da Cruz, Da prática da química à química prática... Universidade de Évora, 2016,
(3) Ângela Ferraz, Materiais e Técnicas da Pintura a Óleo em Portugal (1836-1914): idem

Artigos relacionados:
A casa da Quinta da Oliveira
Serzedello & Ca., Laboratorio Chimico na Margueira
O laboratório químico da Margueira
Indústria química

Leitura relacionada:
RELATORIO GERAL DA EXPOSIÇÃO DE PRODUCTOS DE INDUSTRIA PORTUGUEZA, SOCIEDADE PROMOTORA DA INDUSTRIA NACIONAL, EM 22 DE JULHO DE 1838

International exhibition, 1876 at Philadelphia, Diário Illustrado

Mais informação:
"Janêllos" da História: Os Serzedello

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Serzedello & Ca., Laboratorio Chimico na Margueira

João António Pereira Serzedello & Companhia, "Droguista e comércio de produtos químicos" instalou-se no início do século XIX na Rua Direita de São Paulo, n.º 53, em Lisboa. Mais tarde, João A. P. Serzedello fundava com os sobrinhos José António, António José e António Joaquim a Serzedello & Companhia sediada no Largo do Corpo Santo, n.º 7. Em 1824, o tio João António deixa a sociedade, ficando este com a firma que já tinha constituído em 1822.

Laboratorio Chimico de Serzedello & Ca., década de 1840.
Documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa

O Laboratório-fábrica situado na Margueira existiria pelo menos desde 1825, ano em que foi elevado à categoria de fábrica de produtos químicos, com a atribuição do privilégio exclusivo de produção de ácido sulfúrico durante 14 anos.

Foi vendido à família Serzedello, em 1844, e a sua exploração ganhou um considerável desenvolvimento a partir de 1848, altura em que se deverá ter procedido a reformas tecnológicas, tendo-se tornado um estabelecimento de referência no âmbito da química e da farmácia, com participação em exposições universais onde recebeu distinções e nomeações pelos seus produtos.

Serzedello & Ca., década de 1840.
Documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa

Em 1855 o laboratório da Margueira produzia ácido clorídrico e nítrico, diversos sais de chumbo e mercúrio, dissoluções de sais (de nitrato de cobre e de cloreto de antimónio) e nitratos (de potássio, de bismuto, de prata, entre outros), os “tártaros”, a potassa cáustica (hidróxido de potássio), etc.

Em 1852 a fábrica tinha seis operários. Laborou praticamente até ao século XX. Nela operaram 4 a 5 gerações da família Serzedello. (1)


(1) Ângela Ferraz, Materiais e Técnicas da Pintura a Óleo em Portugal (1836-1914): Estudo das fontes documentais, Volume II

Artigos relacionados:
O laboratório químico da Margueira
Indústria química

terça-feira, 12 de abril de 2016

Indústria química

Laboratório de Química no sítio da Margueira
Propriedade:  Serzedello & C.ª
Produtos: International exhibition, 1876 at Philadelphia, Diário Illustrado
Local: Margueira
Referências: Estatística Industrial de 1852

A Fábrica de produtos químicos da Margueira era um estabelecimento com larga experiência na produção de químicos em grande parte aplicados no campo da Medicina e da Farmácia. O Laboratório da Margueira tinha sido elevado à categoria de fábrica na década de 20 do séc. XIX, através da concessão do direito exclusivo da produção "em grande" do ácido sulfúrico.

Margueira na enseada da Cova da Piedade (detalhe da vista de Cacilhas e de S. Julião), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Pela década de 40 mudara para novos proprietários (os irmãos na sociedade Serzedello & C.ª), e iniciara então um programa de reformas tecnológicas, que o conduziram da matriz dos tártaros (uma das produções mais significativas até aquela altura) e do carvão animal, para uma série mais diversificada de fabricos.

Do final dos anos 40 para a década de 50 produzia, entre outros, e para além do tártaro (bruto e cremor) e respetivos sais de sódio e potássio, os ácidos (fosfórico, bórico, nítrico, clorídrico), amónia, algodão-pólvora, alguns óleos e uma gama variada de sais de metais pesados, artigos característicos da nova Farmácia Química já corrente em Portugal.

Serzedello & Ca., década de 1840
Imagem: documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa


Foi um dos poucos estabelecimentos fabricantes de produtos químicos, mesmo sem apresentar o requerido número mínimo de operários (dez operários), com direito a figurar na Estatística Industrial de 1852. 

Este facto poderá indicar alguma excelência tecnológica que lhe permitiu ultrapassar o limite imposto pela escala industrial. 

Domínio tecnológico que teve na qualidade científica da formação dos seus técnicos, uma linha de conduta sempre perseguida, a começar pelo farmacêutico João Paulino Vergolino de Almeida (o proprietário anterior à família Serzedello), frequentando o curso de Física e Química de Luís da Silva Mousinho de Albuquerque no Laboratório de Química da Casa da Moeda, e continuada por outros farmacêuticos como José Dionísio Correia ou Francisco Mendes Cardoso Leal Júnior, assistindo igualmente ao mesmo curso [...]

Considera-se que é esta “movida científica” de químico-farmacêuticos, “operários manufaturadores de produtos químicos”, a tentar realizar em primeiro lugar a passagem necessária de uma pequena produção química para uma escala mais alargada, próxima da escala industrial. Indivíduos com um pé na farmácia e outro na fábrica. 

Laboratorio Chimico de Serzedello & Ca., década de 1840.
Imagem: documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa

Neste enquadramento, o Laboratório-Fábrica da Margueira, assume considerável importância, constituindo não só uma escola prática químico-farmacêutica, como também uma espécie de "viveiro" para futuros preparadores nos laboratórios de Química das escolas de Lisboa. (1)

Fábrica de Química Aplicada às Artes
Propriedade: Agostinho Joaquim Ferreira
Produtos: Cremor tártaro; tártaros vermelho e branco
Local: Porto Brandão
Referências: Estatística Industrial de 1852

Planta de uma instalação química em Portugal no início da segunda metade do século XIX. A planta pertence ao processo preliminar de licença de conservação de uma fábrica de produtos químicos situada no Porto Brandão, concelho de Almada, pedida por Agostinho Joaquim Ferreira, em 24 de Abril de 1857.

Porto Brandão, Fábrica da Quimica Aplicada às Artes,
planta da casa e cais do senhor Agostinho Ferreira, 1857.

Imagem:
Arquivo Nacional Torre do Tombo

No topo da imagem, o 1.º piso, parte reservada à habitação; no piso térreo, destinado à fábrica, destacam-se ao centro os espaços dos fornos, circundados inferiormente pelas áreas de fabricação, armazenagem e cais.

Porto Brandão, Fábrica da Quimica Aplicada às Artes,
planta da casa e cais do senhor Agostinho Ferreira, 1857.
Imagem:
Arquivo Nacional Torre do Tombo

A Fábrica de Química Aplicada às Artes produzia o cremor tártaro ou bitartarato de potássio, um produto utilizado na medicina e na tinturaria. (2)

Fábrica de dinamite da Trafaria
Propriedade: ... privilégio de Alfred Nobel
Produtos: Dinamite
Local: Trafaria
Referências: O Economista

Fábrica de dinamite na Trafaria, anúncio do Diário Illustrado, 1888.
Imagem: Biblioteca nacional de Portugal

Fábrica de guano artificial no forte da Trafaria
Propriedade: Jorge Croft & C.ª
Produtos: Guano químico; ácido sulfúrico
Local: Trafaria
Referências: MR - PPL, 1857

Fábrica de produtos químicos
Propriedade: Júlio César de Andrade & C.ª
Produtos: Essência de terebentina; breu e resina hidratada
Local: Almada
Referências: Exposição Internacional do Porto de 1865 (3)

Medalha de D. Pedro V.
Inauguração do Palácio de Cristal do Porto em 8 de Setembro de 1861.
Imagem: Ebay


(1) Isabel Maria Neves da Cruz, Da prática da química à química prática..., Universidade de Évora, 2016
(2) Idem
(2) Idem, ibidem

Informação adicional:
Revista Universal Lisbonense, A Indústria Nacional e a Exposição de 1849

Artigo relacionado:
O laboratório químico da Margueira

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (4/18), o veterano da bandeira


FOLHETIM
O VETERANO DA BANDEIRA

I


Ouvindo o troar da artilheria, que annuncia á família liberal uma grande festa; e vendo o desfilar do cortejo cívico, que nos aviva um notável facto da historia contemporanea, inscripto com letras de oiro nos fastos nacionaes, notamos uma falta: entre aquelles beneméritos, cujos cabellos encaneceram no serviço da pátria e da liberdade;
Este capitulo, ou trecho, foi escripto para o Diário Illustrado, de julho 1879, e agora sáe com algumas notas que para ahi não pude mandar.
entre aquelles cidadães, cujas virtudes e cuja dedicação patriótica, foram acrisoladas por infinitas provações; entre aquelles semblantes requeimados pelas insolações em numerosas marchas, pelas descargas de cem refregas e combates;

entre aquelles veteranos, exemplares de abnegação e heroismo; entre as figuras venerandas d'aquelle cortejo sympathico, que milhares dos do povo rodeiam com sinceridade e enthusiasmo, pelo que vale e pelo que symbolisa; entre aquelles homens falta um:

António Silva, o veterano da liberdade, Diário Illustrado, 24 de julho 1879.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

É o que a gravura do Diario Illustrado representa hoje, e do qual me coube a honra n'estas paginas, a quem tem dado tamanho lustre escriptores esclarecidos de deixar aqui algumas notas biográficas;

É o de um veterano, popular, que soube aliar o respeito e a amisade dos grandes e humildes, porque elle era grande pelo seu coração e pela sua inexcedível bravura; e humilde pelo seu berço e pelo seu viver chão, simples, patriachal;

É, emfim, o Silva das Barbas brancas, como o cognominava o povo, quando elle em dias duplices lançava para fóra do fino peitilho da camisa aquellas alvissimas barbas, que lhe davam o aspecto dos homens bons e de bom conselho de tempos áureos; é o Veterano da Bandeira, como depois o appellidaram quando foram inaugurados os festejos do 24 de julho.
Esta commemoração deixou de fazer-se por circumstancias politicas, que não vem para aqui referirem-se; mas a principal, no meu entender, foi a do esmorecimento na lembrança de factos, que não deviam esquecer para lição dos vindouros (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, op. cit.).

Ao comtemplar o seu retrato parece-me ainda vél-o: sadio, rosado, alegre como um moço, risonho como se o sol d'aquelle memorável dia fosse o sol do melhor dia das suas primaveras; direito como um recruta, não vergando ao peso dos annos, mas erguendo o rosto com certo desvanecimento para a bandeira, que era para elle, — e para todos nós, filhos da grande familia liberal, — a sua idéa constante, o seu symbolo, a religião da liberdade!


II


Pensava-se em outro tempo, e divulgava-se que as biografias só podiam fazer-se dos grandes embora elles não tivessem a recomendalos senão os pergaminhos e os serviços dos antepassados; e isto acreditava-se, tanto mais quanto era certoque a lisonja cortezã o traduzia em facto;

pois as idéas modernas transformaram o uso, e se se deu aos grandes, que realmente o são, por suas virtudes e qualidades, o preito sincero e condigno do respeito e admiração, tambem não se pode hoje regatear se aos humildes, que se levantaram a maior altura na cooperação para a victoria dos nobres princípios o elogio que lhes cabe pelas suas nobres acções e o lugar que lhes pertence no pantheon glorioso dos que se distinguiram em prol da pátria.

Não tiremos um desses logares a Antonio da Silva.

O venerando ancião nasceu aos 31 de julho de 1801 no logar de Adão Lobo, termo da villa do Cadaval; e veiu para Lisboa fugido com a sua familia, e a pé, não tendo ainda 7 annos de edade, quando Junot invadiu Portugal com as forças do seu commando.

Percorrendo a pé as doze léguas que o separavam da capital, e vendo já afflicta a familia porque fugia da sua terra sem recursos, e sem pão, era descer o primeiro degrau na escala da adversidade.

Chegando a Lisboa, a familia Silva teve que separar-se do seu pequeno Antonio e entregal-o ao cuidado das pessoas, que o protegeram na mocidade.

Discorreram, portanto, os primeiros annos da sua estada na capital sem incidente notavel, embora conhecessem os amigos que António da Silva roubava algumas horas ao trabalho e ao descanso para se relacionar com os homens de esphera mais elevada e tomar conhecimento das occorrencias politicas, enthusiasmando-se com o alvorecer das idéas liberaes que trouxeram, na proeminencia dos factos contemporaneos, Fernandes Thomaz, Ferreira Borges, fr. Francisco de S. Luiz e outros beneméritos, e pelos esforços destes inclitos varões, o 24 de agosto de 1820 [pronunciamento militar do Porto, que levou à formação da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino presidida pelo brigadeiro António da Silveira Pinto da Fonseca, e ao inicio do periodo conhecido como vintismo].

Porém, no meio dos seus enthusiasmos, António da Silva pagava o tributo da mocidade prendendo-se n'uns sinceros amores a uma joven de apreciáveis dotes do coração, D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de um bom homem de Lamego, Manuel da Costa Telles Almas.

Em 1821 encontramol-o já casado, mas interrompida a lua de mel por uma eventualidade da politica, que o tirava dos braços affectuosissimos da esposa para o arremessar ás rudes fainas da caserna.

Tinham n'o intimado para sentar praça, e elle foi alistar-se no regimento de milícias de Lisboa Occidental [sic, i.e. Oriental (n. do e.).], mais conhecidas por milicias de D. Jorge, ficando primeiramente na 3.a companhia d'esse corpo, e depois na de granadeiros.

A agitação revolucionaria da época; a convivência com alguns homens que acreditavam religiosamente que o 24 de agosto vingaria contra as dificuldades oppostas pelo partido contrario; a vida de quartel, que dá novos hábitos, e altera essencialmente as condições da existência caseira e patriachal, — abriram-lhe um período que entregou Antonio da Silva ás oscilações e aos abysmos da politica.


III


É geralmente sabido, que os dois primeiros quarteis d'este século foram povoados de successos que davam muitos volumes e que pela maior parte estão inéditos.

Ainda mais: muitos acontecimentos passaram sem registo particular, nem publico, e seria hoje extremamente difficil reunir todas as notas para dar inteiro relevo ás paginas da historia contemporanea n'uma serie, pelo assim dizer, ininterrupta de incidentes, de acção e reacção, de estímulos, odios, perseguições, vinganças, que a liberdade protegia em seu interesse, mas offuscando o seu brilho;

e que ao mesmo tempo a liberdade repellia para tornar mais vivida a sua luz; uma época de combates, de lutas terríveis e homericas, que parecia ser impossível empreenderem-se se milhares de testemunhos não o confirmassem:

porque a 1820 succedia 1824 [Vilafrancada, insurreição liderada pelo Infante D. Miguel, em 27 de maio de 1824]; a esta data seguia-se 1828 [inicio do reinado de D. Miguel, legitimado pelas Cortes, em 11 de julho de 1828]; depois vinha 1829 [revolta cartista em Lisboa, em 9 de Janeiro de 1829, comandada pelo brigadeiro Moreira Freire, em 6 de março os revoltosos são enforcados no Cais do Sodré] e 1834 [assinatura da Convenção de Évora Monte, diploma assinado entre liberais e miguelistas, em 26 de Maio de 1834, que pôs termo à Guerra Civil Portuguesa (1828 - 1834)]; depois 1836 [revolução de Setembro, golpe de estado ocorrido em Portugal a 9 de Setembro de 1836, quando chegaram a Lisboa os deputados oposicionistas do norte; Belenzada, contra-golpe de inspiração cartista, que ocorreu na noite de 4 de novembro de 1836], 1837 [revolta dos Marechais, 12 de julho de 1837, sublevação militar fracassada contra o governo de Sá da Bandeira, de inspiração cartista contra o setembrismo, encabeçada pelos duque da Terceira, e duque de Saldanha], 1838 [revoltas de março. Juramento da nova Constituição pela Rainha em 4 de abril de 1838], 1840 [tumultos em Lisboa, no Largo da Estrela, em 11 de agosto de 1840, data do aniversário da vitória liberal na ilha Terceira], 1844 [pronunciamento militar setembrista, em 4 de fevereiro de 1844, em Torres Novas], 1846 [revolução da Maria da Fonte, sublevação popular no Minho em 15 de abril de 1946. Guerra Civil da Patuleia, iniciada a 9 de outubro e finda em 29 de junho de 1847, com a assinatura da convenção do Gramido].

Antonio da Silva, pelo seu caracter, pela sua actividade, pelo seu patriotismo que o convencerade que a felicidade para a sua nação só viria pela liberdade, achou se repetidas vezes com risco de vida própria e oi maior sacrifício da sua familia, envolvido no mais aceso das contendas dos partidos, pendendo sempre o seu trabalho e os seus esforços para o mais avançado.

Assim, na Abrilada, na proclamação do infante D. Miguel, na conspiração do brigadeiro da brigada de marinha, na revolução de Setembro, na revolta dos marechaes, na desastrada lucta da guarda nacional, na sedição de Miguel Augusto, na sublevação de Almeida, na Maria da Fonte, o veterano Silva teve o seu papel, que desempenhou como um heroe, principalmente no espantoso periodo de 1828 a 1834.

Medalha das Campanhas da Liberdade
Imagem: Wikipédia

Na conspiração de 1829, conhecida pela do brigadeiro da brigada de marinha, Antonio da Silva foi preso com outros.

N'uma occasião em que iam a perguntas, com uma forte escolta de armas carregadas, e acompanhados pelo coronel das milícias Andrade Corvo, passou D. Miguel a cavallo e seguido do piquete que o acompanhava nas suas correrias pela capital. Um dos presos, voltando-se para os companheiros, disse-lhes:

— Ahi vae o rei! Curvemo-nos deante d'elle para alcançarmos o perdão!
Antonio da Silva, vivo e prompto nas respostas, acudiu:
— Quem falla ahi em perdão? Só os criminosos é que o imploram!

Os presos calaram e a escolta seguiu o seu destino.

O coronel Corvo, que estimava muito o nosso veterano, apesar de o conhecer exaltado, tambem fingiu que não ouvira aquellas phrases, e não ocorreu outra novidade.


IV


Antonio da Silva, viveu, no Bairro Alte, em tres casas: na rua dos Calafates, onde hoje vemos a farmácia do sr. Oliveira Abreu; na travessa da Queimada, n'um prédio que em os n.os 42 e 43; e na rua da Barroca, n'um rez-de chaussée que tem o n.° 22.

O bairro Alto, de 1828 a 1833, se foi, como ainda sabem numerosas pessoas, foco de conspiradores e conspirações; foi igualmente a estação de homens, beleguins [agente policial ou judicial, esbirro] e espiões, que o povo temia e detestava.

Como centro de reunião de liberaes eram aqui apontadas, especialmente, dois locaes: o palácio do nobre marques de Ficalho, que fez todo o mal que poude ás insólitas pretensões dos partidários do infante D. Miguel, para que trumphasse a causa justa dos amigos dedicados do imperador D. Pedro IV e de sua augusta filha a sr.a D. Maria II; e a humilde casa de Antonio da Silva.

Os espiões titulares, segundo a voz do povo, não tiravam os olhos d'essas casas, e parecia que se reproduziam para as vigiar. Ás esquinas das ruas da Barroca, do Carvalho e dos Caetanos, era certo encontrar-se a cada instante ou o Manuel Quadrilheiro; ou o Matta Espião, de quem a populaça se vingou no dia 24 de julho; ou o Senhor dos Passos de Argel, ou o Segeiro, da rua dos Calafates, ou o Louceiro, do Loreto, e outros sujeitos, que tinham fama n'essa epoca pelas suas proezas; e tambem, sem duvida, com taes olheiros e espiões, não faltou na intendência da policia a nota dos passos, hora a hora, das pessoas suspeitas, o que por então nada tinha de extraordinario.

A pobre casa da rua da Barroca era, á noite, como um formigueiro de liberaes e conspiradores. Ali recebiam a Chronica constitucional, do Porto que um lia em voz alta para os demais ouvirem;

ali recebiam noticias e papeis avulsos clandestinos; ali ajustavam planos de ataque e defeza contra a vigilância da policia; ali, emfim, faziam contratos sobre a deserções para o Porto.

Entre as damas, que auxiliavam a causa liberal, figurava em primeira linha a sr.a D. Joaquina de Lencastre, depois viscondessa do Roguengo e condessa de Avilez celebrada esposa do general Jorge de Avilez. Morava na Junqueira. Todos sabiam que ninguem a dominava nas suas convicções, que ninguem podia excedel-a nos sentimentos que a impeliam para trabalhar em prol do restabelecimento do throno da sra.a D. Maria II.

Estava ella ao corrente do que se fazia em Lisboa para contrariar o governo do infante D. Miguel, a augmentar as forças dos defensores do Porto. Mandou por isso chamar o Antonio da Silva e disse-lhe:

— Conto com o sr. Silva.
— Para que, minha senhora? Valho pouco...
— Pelo contrario, sei que uma pessoa póde fiar-se na sua lealdade e no seu braço?
— Para a defender, sim, minha senhora, o meu braço valerá alguma cousa.
— Não preciso agora de defeza sr. Silva; tenho o meu coração que me resguarda de perigos; mas para defendermos uma causa...
— Dirá v. ex.a.
— É o meu trabalho todos os dias Encontramo-nos nas aspirações.
— Bem o sabia.
— Que devo fazer?
— Vou fornecer-lhe algum dinheiro. Com elle o sr. Silva alliciará soldados, paisanos, todos que queiram prestar se a ir socorrer os nossos amigos no Porto. — Prompto; corro já a executar as suas ordens, ainda que me custe a vida.
— Obrigada! Obrigada!

Dentro de alguns dias, António da Silva tinha conseguido fazer sair de Lisboa para o cerco do Porto não menos de 170 homens, alguns mantimentos, armas e roupas.

O seu processo era simples e arriscadissimo. Disfarçava-se, ora de um modo, ora de outro; e ás vezes com trajes femininos, capote e lenço, e assim acompanhava os que partiam de Lisboa até ás estancias [armazéns, ancoradouros] da Boa Vista, aproveitando as saídas d'ellas para a praia, ou para os boqueirões [aberturas, canais], onde embarcava aquelles homens em escaleres inglezes, que protegiam a fuga para bordo dos seus navios.

A estes actos audaciosos juntou elle um,, que fez com que os espias do Bairro alto, que umas vezes semostravam benévolos para com Antonio da Silva, outras o temiam, e outras precia quererem perseguil-o, fitassem a sua cabeça levantada e orgulhosa como ornamentação obrigada das forças que se erguiam para o martyrio dos liberaes.

Tinham-lhe nascido no lar, açoutado por variadas comoções, dois gemeos. A esposa mostrou-lh'os dizendo:

— Um menino e uma menina.
— Ainda bem! Terá um o nome de Pedro de Alcantara e a outra o de Maria da Gloria; e se não posso rogar ao imperador para ser meu compadre, elle saberá como baptisei estes filhos.

Toda a freguesia da Encarnação fallou deste facto. O baptisado effectuou-se na hora mais adiantada do dia. As criancinhas iam vestidas de azul e branco. Trinta convidados de gala, com laços azues e tochas acesas. Era de dar nas vistas. Foi uma cousa inacreditável. Não se podia exceder em temoridade.

N'esse dia os quadrilheiros deixaram-n'o em paz; mas em melhor occasião, assaltaram-lhe a casa, e se elle senão lembrasse de fugir para a de um vizinho, e, esconder-se no panno da chaminé, não teria saido de novo incólume das suas redes. Protegia-o boa estrella!

Na vida do nosso veterano deparam-se-me muitas d'essas acções de ousadia e temeridade; e tanto que nunca lhes faltaram os documentos mais honrosos de officiaes e superiores, durante o tempo que serviu no exercito, e na alfandega, onde esteve por muitos annos e onde se reformou.


V


Os veteranos, seus companheiros, deviam-lhe serviços de valia sendo os mais importantes a fundação da associação dos veteranos da liberdade, de que elle foi thesoureiro;

e as instancias, junto de velhos amigos seus nas duas casas do parlamento, para que o estado tirasse da miséria a que estavam condemnados alguns desses benemeritos, que derramaram o seu sangue em defensa dos princípios liberaes.

António da Silva, o Veterano da Bandeira, falleceu com 78 annos de edade em junho d'este anno, tendo ao lado seus três filhos, que lhe restavam de quatorze, e que o honravam, os srs. Francisco Emygdio da Silva , primeiro tachygrapho da camara dos deputados;
Já falleceu. Era um santo homem. Estimavam-no todos no quadro tachygraphico e respeitavam-no porque sabia muito bem da sua profissão. O que muitos ignoravam era que elle, filho devotado e obediente, educado sem alardos e com a sobriedade de um portuguez de lei, depois de emancipado e depois de exercer sem faltas e com brilhantismo a sua profissão, em que adquirira um primeiro logar, quando recebia o ordenado ia religiosamente entregá-lo aos paes para que o applicassem como entendessem nas despezas geraes da casa, reservando-lhe apenas o de que elle necessitasse para gastar com a renovação do seu vestuário. Prescindia de commodos e de modas. Exemplar filho! (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem)

Antonio Avelino Amaro da Silva, antigo capitão de navios e engenheiro civil;
Esteve no Brasil e ve-io de lá com alguns meios ganhos em serviço de engenharia, sobretudo em medição de terrenos no interior da província do Rio de Janeiro, onde se relacionira com alguns brasileiros de representação, como o fallecido Joaquim Saldanha Marinho. Também já é fallecido [falecera em 1889]. Aqui viveu modestamente e de vez em quando escrevia alguma cousa para umas memorias intimas, que não chegou a publicar. Deu ao prelo um romance histórico baseado em factos das campanhas da liberdade. Descreve com acerto e em boa linguagem o que passou, no concelho de Almada, quando as limitadas forças liberaes trouxeram á ponta de baioneta a tropa do commando de Telles Jordão até Cacilhas, onde foi morto esse famigerado official miguelista, ao qual não faltava bravura e crueza. Este trabalho foi muito bem recebido e elogiado. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

e Christiano Gerardo da Silva , professor de musica e distincto artista.
Foi um violinista distincto e por vezes regeu orchestras em salões particulares e theatros. Está retirado da vida artistica. É proprietário em Lisboa. Vive, edoso e doente. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

Tinha a medalha com o algarismo 5 das campanhas da liberdade e a junta do Porto, por um acto de bravura, concedera-lhe a Torre e Espada, em 1846.

Medalha da Torre e Espada
Imagem: Presidência da República Portuguesa

Comecei a conhecer e estimar este bom ancião por 1849 ou 1850. Preparava-se a regeneração. Elle auxiliava, como podia, os que conspiravam em Lisboa desde os desastres da Maria da Fonte, e exclamava:

— Se os Cabraes matam a liberdade, expulsemos os Cabraes!

Dias antes de morrer, visitei-o e abracei-o. A sua despedida foi:

— Aproxima-se o dia 24 de julho. Não vê o meu estado?... Tenho os pés na cova. O meu desejo era, sequer uma vez, poder abraçar a minha bandeira...

Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910.
Bandeira usada pelos Liberais.
Imagem: Wikipédia

Parou como se estivesse cansado; mas o cérebro d'elle funcionava regularmente. Uma lagrima perdeu-se-lhe por entre as rugas do rosto. E acrescentou:

— Paciencia! Termina a minha peregrinação. Ahi ficam os meus filhos. Amei-os tanto como a liberdade...

E dizia a verdade.
O António da Silva, pela sua dedicação á causa liberal, pelo respeito á memoria do imperador e rei D. Pedro IV e do seu dilecto general Sá da Bandeira, que tantos serviços prestou com grandíssimo sacrifício do seu sangue e dos seus haveres para a consolidação do throno da rainha D. Maria II, nao se esquecera nunca dos seus companheiros, que se oppuzeram com brio e tenacidade aos desvarios e oppressões ignominiosas da usurpação miguelina, e auxiliava, dentro das suas pequenas forças monetárias, para lhes minorar a miséria.

Foi um dos que mais poderosamente contribuíram para a creação da Associação dos Veteranos da Liberdade.

Refere Simão José da Luz, na sua interessantíssima biographía do ínclito Marquez de Sá da Bandeira, quando descreve no tomo nas exéquias solemnes celebradas na parochial egreja da Encarnação, em suffragio da alma desse que foi valente e sábio militar, que á porta da mesma egreja estava um respeitável veterano a pedir que o auxiliassem na obra de caridade a favor dos companheiros daquelle general que, por doença ou indigência, nào podiam comparecer naquelle piedoso acto.

O Marquez fallecera em Lisboa no dia 7 de janeiro 1876 e o cadáver foi transportado para o cemitério de Santarém, com as honras devidas, onde ficou em campa, com o epitaphio determinado em nota testamentária do illustre finado.

As exéquias solemnes realisaram-se no dia 21 de fevereiro do citado anno, proferindo a oração fúnebre o afamado orador sagrado, rev. cónego da Sé de Braga, Alves Matheus. Na pag. 509, do mencionado tomo II, lê-se esta singela nota: "Á porta do templo pedia esmola para os pobres soldados da liberdade o fundador da Associação dos Veteranos, o sr. António da Silva, que ainda pôde realizar a quantia de 15$500 réis." (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

23 de julho, 1879.

Brito Aranha. (1)



(1) Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, Factos e homens do meu tempo, memórias de um jornalista, Lisboa, A.M. Pereira, 1908, 1042 págs.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Rosas do Pombal

[...] no sítio onde hoje passa a Rua Rosas do Pombal, antes Rua do Cabral, houve uma Quinta chamada do Cabral. (1)

Carta dos Arredores de Lisboa — 1 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1902.
Imagem: IGeoE

Era a quinta do ti Zé Guimarães, a quinta do Pombal, a quinta do ti António (mais tarde, disse-me ele, descobriu que era a quinta do Teotónio), a quinta do Plantier, um francês há muito radicado em Portugal e outras que ele me descreveu mas que, peço perdão, não tendo a mesma memória, já se me varreram os nomes. (2)

Chafariz do Pombal, Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

A relojoaria da rua do Oiro foi um centro obrigado de palestra.

Passaram por lá muitos escriptores e jornalistas em evidência.

Eram certos todas as tardes, às quatro, hora a que principiavam os momentos felizes de Paulo Plantier, que se via entre a sua gente.

E começavam os tiroteios e comentários sobre artes e lettras, e escândalos, e cozinha, e política, e torpezas, e flores, e sobre o eterno tema inesgotado — a Mulher.

E era de ver o Plantier avultando entre os do grupo e enchendo o passeio com o seu casaco amplo, descaído dos lados, cabello ao vento, uma rosa vermelha e fresca na botoeira, e a rir e a carregar nos rr e a escandalisar os passantes com a sua voz sonora de barytono.

Muitos passavam ao lado, tímidos, evitando o escolho daquella espécie de Carybdes.

Ellas seguiam rez vez do grupo, um sorriso á fera logo amansada e num olhar de cubiça admirativa ás montras cheias de rosas.

Porque eram um modelo de originalidade, de graça e de bom gosto as montras do Plantier.

Concha de Vieira, P. Plantier fils, c. 1850.
Imagem: Antiquorum

Da sua quintarola da Piedade, em Cacilhas [sic], vinham todas as manhãs, braçadas de rosas que elle espalhava pelos escaparates, artísticamente, pondo aqui e ali, em sabio destaque, pedras preciosas, adereços de valor, perolas em collares nabalescos, brilhantes soltos caídos ao acaso, pingos vermelhos de rubis amortecidos na folhagem.

Alfeite, Vista Geral (tomada da Quinta do pombal), ed. desc., década de 1940.
Imagem: Bosspostcard

Um dia parou toda a gente a ver uma rosa, uma maravilha de pétalas. Uma rosa só campeava sobre as joias.


A esse phenomeno consagrou António Ennes no Correio da Noite um delicioso artigo humoristico.

Não era uma rosa, era um repolho, uma brutalidade vegetal, um aborto colossal posto sobre uma haste grossa como um varapáu.



Plantier nesse dia não saiu dos humbrais da porta a espreitar a casa dos transeuntes [...]

Podia lá suportar o desaforo da indiferença por um producto seu que cercára de cuidados, de estrumes saborosos, de vigilância paternal no seu grande viveiro da sua grande quinta da Piedade ao lado das muitas centenas de roseiras de raças por elle apuradas em enxertos e reenxertos sucessivos!

Avenida em abóboda florida de roseiras.
Imagem: Archive.org

Em contacto com gente de lettras Plantier fez-se editor de livros.

[...] entre os quaes figura a que lhe mereceu maiores disvelos, que foi por elle dirigida e em que collaboraram poetas e prosadores com curiosos conselhos em prosa e verso — O Cozinheiro dos Cozinheiros. 

Ver artigo relacionado: À Bulhão Pato

Nos ultimos annos o azedume de Plantier recrudesceu e os do grupo começaram desertando da loja. A freguezia diminuiu e apenas um ou outro se detinha a ver as rosas.

Só ellas não desertaram. (2)

Com 68 annos de edade morreu hontem de cachexia [...] Paul Henry Plantier [...]


Grande amador de rosas, possuia as melhores de Portugal na sua pittoresca quinta da Piedade, na outra margem do Tejo, quinta onde elle reunia d'antes notabilidades na arte, na sciencia, na politica, e na imprensa.

Portal da Quinta do Pombal, rótulo de garrafa de vinho (detalhe).
Imagem: Soc. Com. Theotónio Pereira, Lda.

Foi um original, foi um typo, que vem a fazer falta no nosso meio... em que abunda a vulgaridade. (4)


P. Plantier Fils Lisbonne, c. 1900.
Imagem: Kaplans Auktioner


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.
 
(2) Constantino, Guardador de Vacas, L(u/a)gares, 19 de setembro de 2011.

(3) Jornal do Brasil, Paul Plantier, Gente do meu tempo, 21 de maio de 1917.

(4) Jornal do Brasil, Paul Plantier, 23 de junho de 1908.



Leitura adicional: Baltet, Charles, La greffe et la taille des rosiers..., Paris, Mason, 1904. 

sexta-feira, 28 de março de 2014

O laboratório químico da Margueira

Margueira: do lado sul, sobre a chamada Cova da Piedade: está ali estabelecido o grande Laboratório Chimico o maior que há em Portugal pertencente a João Paulino de Almeida [que, instalado desde 1823, utilizava a tecnologia da máquina a vapor]. (1)

Serzedello & Ca., década de 1840
Imagem: documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa


A Serzedello & Companhia começou por ter apenas o depósito na Rua do Corpo Santo, onde fazia o seu comércio (incluindo de e para o Brasil) e onde a preparação química seria uma componente residual. 

Foi a partir da aquisição da Fábrica da Margueira, nos anos 40 do séc. XIX que viria a sofrer um extraordinário impulso de crescimento, tendo estado na primeira linha da tecnologia e como presença referenciada nas grandes exposições universais como a de Paris em 1850, Londres em 1855, Filadélfia em 1872, etc. onde recebeu distinções e honrosas menções aos seus produtos (2). 


(1) AHMOP, Memoria Económica da Vila d'Almada, e seu Termo, 1835, citado e documentado em Silva, Francisco Manuel Valadares e, Ruralidade em Almada e Seixal nos séculos XVIII e XIX, Imagem, Paisagem e Memória, Lisboa, Universidade Aberta, 2008, 271 págs.

(2) "Janêllos" da História: Os Serzedello