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segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A ponte monumental

A architetura exterior dos edificios públicos, das egrejas, dos grandes palacios, é lamentável de banalidade e insulsez: e os modernos quazi todos peores do que os antigos; fóra do manuelino, de que o terremoto deixou poucos bocados, fóra do D. João V, que é um entre Luiz XIV e Luiz XV luxurioso e freiratico, Lisboa não tem nada que vêr-se possa, a não ser o Terreiro do Paço e a jesuitica egreja da Estrela, feita com o dinheiro que o marquez destinava á ponte monumental entre Almada e Lisboa, e o estafermo beato de D. Maria I derreteu em honra dos seus terrores supersticiosos. (1)

Bellisle looking down the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Bonhams

A ideia inadiavel da prolongação das linhas do Barreiro até Cacilhas ou Almada, trazendo os comboios á parte mais estreita do Tejo, frente a Lisboa, a 10 ou 12 minutos de travessia maritima da capital, necessariamente desperta na poderosa Companhia Real (dos Caminhos de Ferro Portugueses) os antigos rancores, pois, realisada a obra, os sonhos do Cetil carriando a Lisboa a mór parte das mercadorias do Alemtejo Medio e Baixo, em fumo vão-se, e visto o desenvolvimento espantoso que este acrescente trará ao Sul e Sueste, não haverá mais meio de pensar em o arruinar e adquirir por tuta e meia (...)

Lisboa — Vista de Lisboa e Tejo, ed. desc., década de 1900.
Delcampe

Mas se é certo que a teimosia dos comerciancites, por bronca, faz suspeitar que por traz d’ela alguma tramoia a Companhia Real fomenta e móve, não menos descabida parece a ancia que teem os engenheiros do Sul e Sueste em querer já construir a estação terminal nos aterros do caes jacente á Alfandega, sem primeiro trazerem a linha a Cacilhas ou Almada, sem prolongamento logico e natural (...) (2)

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Hemeroteca Digital

É do folheto "Ainda a estação fluvial das linhas do sul e sueste" do sr. engenheiro A. Santos Viegas que extracto a enumeração desses projectos:

Em 1888, projecto do americano Lye: vinha a ponte d'Almada ao Thesouro Velho, e ahi ficava a estação de mercadorias do sul e sueste, com entrada pelo Largo das Duas Igrejas [Praça do Chiado]. "A este plano, acrescenta o sr. Santos Viegas, alvitra-se agora acrescentar elevadores que nas alturas do Caes do Sodré transportariam vagões entre a linha superior e a estação da companhia". Custaria de 8 a 10:000 contos.

Em 1889: projecto de Bartissol e Seyring [sic, Seyrig], fazendo da estação do Rocio a testa das linhas sul e sueste, quando ainda a companhia Real pensava d'açambarcar os caminhos de ferro do estado. Custava 9:000 contos, a que opinões meticulosas ajuntam mais 1:000 para expropriações.

Ponte sobre o Tejo, E. Bartissol e T. Seyrig, O Occidente n.° 380, ilustração L. Freire, 1889.
Hemeroteca Digital

Em 1890: projecto do engenheiro Proença Vieira, que iria de'Almada a um ponto ao norte da rocha do Conde de Óbidos, seguindo a linha ferrea até cêrca de Campolide. Custava 7:500 contos mas é possível que chegasse a muito mais, visto haver sítios do rio onde as fundações dos pilares iriam até 60 metros de fundo, e no projecto não se faziam calculos explicitamente rigorosos ácêrca d'essas fundações.

Depois de 1891 houve mais dois projectos. Um, do fallecido Miguel Paes, de todos os expostos o mais sensato sob o ponto de vista de ligação ferroviaria, vinha do Pinhal Novo onde toda a rede do sul se acha reunida n'um tronco unico, o espigão do Montijo, e d'ahi por uma immensa ponte, aos Grillos, fóra da zona de grande navegação do Tejo. N'este sitio, teria a ponte muito menor importancia para a viação ordinária.

A construcção seria mais facil, mas a extensão muito maior, devendo o custo exceder pouco mais de 4:000 contos.


Ponte sobre o Tejo, estudo do engenheiro Miguel Pais, 1872.
Arquivo Municipal de Lisboa

Finalmente o ultimo projecto de travessia do Tejo era a concessão a uma empreza americana, d'uma ponte ara peões, carros, "tramways" electricos e caminhos de ferro, entre Almada e o bairro da Lapa, sem bases porem que permittissem avaliar da sua exiquibilidade.

Elegante projecto da ponte Lisboa Cacilhas,
propaganda republicana, década de 1910.
O Mundo do Livro

O sr. Santos Viegas opina (e nós tambem) que a ideia Julio Vernesca da ponte sobre o Tejo deve deixar-se ás futuras gerações. Não que ella não represente um arrojado e utilissimo melhoramento, mas por ser devorante o custo, e não se devem adiar outras obras mais urgentes, como a da trazida do caminho dez ferro do sul a Cacilhas ou Almada, e fundação da nova cidade da margem esquerda, em que urge desdobrar, o mais rapidamente possivel, a nossa actual Lisboa fabril e commercial. (3)


(1) Fialho de Almeida, "Barbear, Pentear" (jornal d'um vagabundo), 1910
(2) Fialho de Almeida, Idem
(3) Fialho de Almeida, Illustração Portugueza, Lisboa Monumental II, Lisboa, 19 novembro 1906

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Lisboa monumental em 1906
Projecto de travessia do Tejo em 1889
A ponte

sábado, 7 de setembro de 2019

Chafariz de Cacilhas (os festejos da inauguração)

Foi no domingo dia de grandes festejos em Cacilhas. Logo de manhã começaram a subir ao ar muitos foguetes annunciando a costumada festividade religiosa, e tambem a inauguração do excellente chafariz que a camara municipal mandou construir n'aquelle local.

Chafariz de Cacilhas, inaugurado em 1 novembro 1874.
Biblioteca Nacional de Portugal

Ás 11 horas da manhã sairam dos paços do concelho a camara municipal, que se compunha do sr. presidente Bernardo Francisco da Costa, dos srs. vereadores Antonio de Brito, e Salvador Duarte, escrivão e todos os seus empregados; acompanhavam tambem a camara o sr. Palmeirim, administrador do concelho, o seu escrivão e empregados da administrado, além das diferentes auctoridades, e cavalheiros da terra indo á frente de todos uma excelente philarmonica.

Banda da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, 1894-1896.
InfoGestNet

Chegados a Cacilhas e junto do chafariz, onde se haviam collocado uma meza e cadeiras, estava o sr. engenheiro director o sr. Carlos Agostinho da Costa, soltando a agua e fazendo-a correr pelas quatro torneiras, e fez entrega á camara da obra que lhe havia sido incumbida, lavrando-se em seguida o auto de inauguração, que foi assignado pelas auctoridades e por muitos funccionarios que se achavam presentes, entre os quaes vimos o sr. commendador Holbeche, conservador Quaresma, dr. Loureiro, Manuel de Jesus Coelho, Madureira Chaves, Chichorro da Costa, etc.

As damas mais elegantes de Almada tambem concorreram a embellesar este acto com a sua presença. 

Nas janellas das casas em ter-no do chafariz viam-se magnificas toilettes. 

Encerrado o auto o sr. presidente leu em voz alta a seguinte saudação que foi acolhida com acalorados vivas: 

Retrato de Bernardo Francisco da Costa
Galeria dos Goeses Ilustres

Salve, ó fonte amiga! Manem fecundas e perennaes tuas aguas puras e cristalinas. Nunca tuas forças cancem; nunca teu curso sereno esmoreça; nunca teu doce murmurio cesse.

Salve, ó fonte amiga! A aurora, que hoje esplendida te raia, seja a luz suave que sempre teus dias innocentes doire. Se nas salsas aguas do mar peregrina perdida andavas; se entre os limos do visinho rio teus ricos encantos se iam sumidos; se assim aviltada em lamentavel olvido por seculos se contava esse teu viver mesquinho; por seculos se contém tambem, d'ora avante, teus dias alegres e formosos.

Salve, ó fonte amiga! Tres vezes salve! Mil distantes metros percorrendo risonha vens até ás nossas moradas? Mil vezes bem vinda sejas. Milhares de vezes tuas limpidas aguas possam nossos labios libar. Por milhões valham teus gratos serviços. 

Vem, ó mimosa fonte, ser nossa companheira quotidiana, presidir á hygiene publica, extinguir os incendios. Vem ó fonte meiga, entra sempre copiosa assim na modesta cabana do pobre, como nos amplos salões do rico. Desde muito anciosamonte desejada, a despeito de larga descrença nascida, entre labores arduos creada, com merecida alacridade recebida; vem ó filha deste povo, entre nós e para nós viver.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Delcampe

Não te desvaneças porém de seres hoje a unica, que amanhã novas irmãs comtigo á partilha virão. Nem então d'ellas inveja deves ter porque sempre a primogenita has de ser. Nem tão pouco te pése o seres obra modesta e não faustosa, pois sabes que no mundo tudo é relativo, e que por muitos d'aqueiles, que podem apreciar as condições difficeis d'este concelho, foste reputada de fundação quasi impossivel.

Ouves essas harmonias? Escutas essas philarmonica? Sentes o atroar estridente dos foguetes? Observas as bandeiras e galhardetes que as ruas enfeitam? Contemplas gostosa tantas damas lindas, tantos cavalheiros elegantes, que todos risonhos se apinham em torno de ti. Apraz-te este numeroso e alegre concurso? Embevece-te o prazer phrenetico e ruidoso que te circunda? É a tua recepção festival, é o enthusiasmo por um dos muitos melhoramentos de que esta terra carece, e a que justamente o povo aspira.

Anima-o, ó fonte fagueira, para que na larga, se bem que custosa, vereda de creações uteis e produclivas prosiga corajoso. Fortalece-o para que novas victorias nestas lutas incruentas das artes da paz alcance glorioso; para que na marcha encetada não suspenda o passo; para que com outros e mais avantajados beneficios dote este concelho; para que rompa novas vias de communicação e aperfeiçoe as antigas; para que, em uma palavra, a seus obreiros conceda recursos e cooperação.

É pois que tu, ó recemvinda, me dizes que te anima profunda gratidão a este bom povo, por haver quebrado o encanto da tua mofina existencia passada — ao concelho deste districto porque prestes deu todo o superior apoio para a tua regeneraçao — á camara e conselho municipal, que se empenharam até levar a cabo a tua emancipação ao joven architeeto, que com dedicação inexcedível construiu o teu elegante berço e aos proprietarios do Ginjal, Covalinho e Cacilhas que benevolamente coadjuvaram os trabalhos; concede-me o doce encargo de teu interprete e permitte que em teu nome eu diga:

Vivam os habitantes do concelho de Almada. 

Viva o conselho do districto de Lisboa. 

Vivam a camara e o conselho municipal de Almada.

Vivam todos aquelles que cooperaram para se levar a effeito esta obra.

Cacilhas 1 de novembro de 1874.

Seguia-se a ceremonia religiosa que todos os annos se faz, n'este dia, em Cacilhas, em cumprimento de um voto feito por occasião do terramoto de 1755. 

A imagem da Nossa Senhora do Bom Successo, conduzida em procissão pela sua irmandade, vem até á beira mar, pára ali, todos ajoelham, e resa-se um antiphona: é um acto edificante e de muito respeito. 

Cacilhas, imagem da Nossa Senhora do Bom Sucesso em procissão.

Na procissão ia o Santissimo, levado pelo reverendo padre João Pereira Netto, que depois cantou á missa, orando ao Evangelho o reverendo conego Antonio José Pereira. Tanto a festa como o sermão foram rnagnificos.

A todos estes actos seguiu-se um opiparo lunch ao Ginjal em casa do sr. engenheiro Costa, para oque tinha convidado muitos dos seus amigos, e posto que não assistissimos, por motivos superiores aos nossos desejos, com, tudo, bem informados, sabemos que não deixou nada a desejar. O sr. Costa e a sua familia obsequiaram o mais possivel os seus convivas.

Á noite deu sr. presidente da camara um baile esplendido ás pessoas das suas relações, tendo-lhe prestado para esse fim a sua casa o seu intimo amigo o sr. Isidoro Netto, por ser mais espaçosa do que a de s. ex.ª. Tudo foi deslumbrante n'esta reunião de pesssoas de amisade, primeiro que tudo a amabilidade dos donos da casa, depois a animação do baile, a profusao do serviço; em fim não ha phrases com que se descreva o que ali se passou. 

Vista da Praça do Comércio, rio Tejo e Cacilhas na Outra banda, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
  Biblioteca Nacional de Portugal

O baile terminou ás 6 horas da manhã. As toilettes eram em geral de muito gosto. A ex.ª sr.ª D. Luiza Costa tinha um lindo vestido de faie azul claro enfeitado de ramos de flores; — da mesma côr vestia a ex.ª sr.ª  D. Amelia Affonso com toda a elegancia propria da sua ingenuidade; a ex.ª sr.ª D. Amalia Tavares vestia de veludo preto por estar de luto, era rico o seu vestuario; — sua irmã a ex.ª sr.ª   D. Henriqueta Tavares Marques tambem vestia de damasco preto, uma rica toitette; a ex.ª sr.ª   D. Maria José Collares trajava um rico vestido de setim côr de rosa, com enfeitos pretos; — da mesma cõr em damasco, com enfeites brancos, e rendas de França era a toitette da ex.ª sr.ª   D. Izabel Affonso: emfim todas as senhoras estavam elegantissimas. — Foi um baile esplendido na verdadeira significação da palavra. (1)


(1) Diario Illustrado, 3 de novembro de 1874

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Chafariz de Cacilhas

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Frei Luiz de Souza

DRAMA

Apresentado pela primeira vez em Lisboa, por uma sociedade particular, o teatro da quinta do Pinheiro em 4 de Julho de 1843.

Lugar da scena — Almada

Casa da Cerca em Almada.
Imagem: Geni

ACTO PRIMEIRO

Camera antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa elegancia portugueza dos principios do seculo dezasette: porcelanas, xarões, sedas, flores, etc. No fundo duas grandes janellas rasgadas, dando para um eirado que olha sôbre o Tejo e de donde se ve toda Lisboa:

entre as janellas o retratto, em corpo inteiro, de um cavalleiro môço vestido de preto com a cruz branca de noviço de S. João de Jerusalem.

Defronte e para a bôcca da scena um bufete pequeno coberto de ricco panno de velludo verde franjado de prata; sôbre o bufete alguns livros, obras de tapeçaria meias-feitas, e um vaso da China de collo alto, com flores.

Algumas cadeiras antigas, tamboretes razos, contadores. Da direita do espectador, porta de communicação para o interior da casa, outra da esquerda para o exterior.

É no fim da tarde [...]

Chegada do D Filipe II de Portugal a Lisboa para uma viagem no Reino de Portugal,
Gravura Ioam Schorquens, segundo Domingos Vieira Serrão, 1619.
Imagem: Wikimedia

Magdalena so, sentada junto á banca, os pés sôbre uma grande almofada, um livro aberto no regaço, e as mãos cruzadas sôbre elle, como quem descahiu da leitura na meditação.

MAGDALENA, repettindo machinalmente e de vagar o que acaba de ler

"N'aquelle ingano d'alma ledo e cego
Que a fortuna não deixa durar muito..." [...]

TELMO

Desgraçada! Porquê? não sois feliz na companhia do homem que amaes, nos braços do homem a quem sempre quizestes mais sôbre todos?

Que o pobre de meu amo... respeito, devoção, lealdade, tudo lhe tivestes, como tam nobre e honrada senhora que sois... mas amor! [...]

MAGDALENA

Ora pois, ide, ide ver o que ella faz: (levantando-se) que não esteja a ler ainda, a estudar sempre. (Telmo vae a sahir) E olhae: chegae-me depois alli a San'Paulo, ou mandae, se não podeis...

Almada, Seminário [antigo Convento Dominicano de S. Paulo], ed. J. Lemos, 3, década de 1950.
Imagem:

TELMO

Ao convento dos Dominicos? Pois não posso!... quatro passadas.

MAGDALENA

E dizei a meu cunhado, a Frei Jorge Coutinho, que me está dando cuidado a demora de meu marido em Lisboa; que me prometteu de vir antes de véspera, e não veiu; que é quasi noite, e que ja não estou contente com a tardança. 

(Chega á varanda, e olha para o rio) O ar está sereno, o mar tam quieto, e a tarde tam linda!... quasi que não ha vento, é uma viração que affaga... Oh e quantas faluas navegando tam garridas por esse Tejo! Talvez n'alguma d'ellas — n' aquella tam bonita — venha Manuel de Sousa.

Mas n'este tempo não ha que fiar no Tejo, d'um instante para o outro levanta-se uma nortada... e então aqui o pontal de Cacilhas!

Que elle é tam bom mareante... Ora, um cavalleiro de Malta! (olha para o retratto com amor) Não é isso o que me dá maior cuidado. Mas em Lisboa ainda ha peste, ainda não estão limpos os ares... E ess'outros ares que por ahi correm d'estas alterações públicas, d'estas malquerenças entre castelhanos e portuguezes! Aquelle character inflexivel de Manuel de Sousa traz-me n'um susto contínuo.

Vai, vai a Frei Jorge, que diga se sabe alguma coisa, que me assocegue, se podér.[...]

JORGE, alto

Mas emfim, resolveram sahir: e sabereis mais que, para côrte e "buen-retiro" dos nossos cinco reis, os senhores governadores de Portugal por D. Filippe de Castella que Deus guarde, foi escolhida ésta nossa boa villa d'Almada, que o deveu á fama de suas aguas sadias, ares lavados e graciosa vista.

Boca de Vento, estrada da Fonte da Pipa, junto à altura da Casa da Cerca.
Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Imagem: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

MAGDALENA

Deixá-los vir.

JORGE

Assim é: que remedio! Mas ouvi o resto. O nosso pobre convento de San'Paulo tem de hospedar o senhor arcebispo D. Miguel de Castro, presidente do govêrno.

Bom prelado é elle; e, se não fosse que nos tira do humilde socêgo de nossa vida, por vir como senhor e principe secular... o mais, paciencia. Peior é o vosso caso...

MAGDALENA

O meu!

JORGE

O vosso e de Manuel de Sousa: porque os outros quatro governadores — e aqui está o que me mandaram dizer em muito segrêdo de Lisboa — dizem que querem vir para ésta casa, e pôr aqui aposentadoria. [...]

ACTO SEGUNDO

É no palacio que fôra de D. João de Portugal, em Almada: salão antigo de gôsto melancholico e pesado, com grandes retrattos de familia, muitos de corpo inteiro, bispos, donnas, cavalleiros, monges; estão em logar mais conspicuo, no fundo, o d'elrei D, Sebastião, o de Camões e o de D. João de Portugal.

Frei Luis de Sousa pelo Grupo Boa Vontade,na década de 1950.
Imagem: O Cine Teatro de Moçâmedes (Namibe)

Portas do lado direito para o exterior, do esquerdo para o interior, cobertas de reposteiros com as armas dos condes de Vimioso. 

São as antigas da casa de Bragança, uma aspa vermelha sôbre campo de prata com cinco escudos do reino, um no meio e os quatro nos quatros extremos da aspa; em cada braço e entre os dois escudos uma cruz floreteada, tudo do modo que trazem actualmente os duques de Cadaval; sôbre o escudo coroa de conde.

No fundo um reposteiro muito maior e com as mesmas armas cobre as portadas da tribuna que deita sôbre a capella da Senhora da Piedade na egreja de San'Paulo dos dominicos d'Almada.

TELMO

Menina!...

MARIA

"Menina e môça me levaram de casa de meu pae:" é o principio d'aquelle livro tam bonito que minha mãe diz que não intende: intendo-o eu.

Mas aqui não ha menina nem môça; e vós, senhor Telmo-Paes, meu fiel escudeiro, "faredes o que mandado vos é."

E não me repliques, que então altercâmos, faz-se bulha, e acorda minha mãe, que é o que eu não quero. Coitada! Ha oito dias que aqui estamos n'esta casa, e é a primeira noite que dorme com socêgo. 

Aquelle palacio a arder, aquelle povo a gritar, o rebate dos sinos, aquella scena toda... oh! tam grandiosa e sublime, que a mim me encheu de maravilha, que foi um espectaculo como nunca vi outro de egual majestade!... á minha pobre mãe atterrou-a, não se lhe tira dos olhos: vai a fechá-los para dormir, e diz que ve aquellas chammas innoveladas em fummo a rodear-lhe a casa, a crescer para o ar, e a devorar tudo com furia infernal [...]

No fundo, porta que dá para as officinas e aposentos que occupam o resto dos baixos do palacio. É alta noite [...] (1)


O retratto de meu pae, aquelle do quarto de lavor tam seu favorito, em que elle estava tam gentil homem, vestido de cavalleiro de Malta com a sua cruz branca no peito--aquelle retratto não se póde consolar de que lh'o não salvassem, que se queimásse alli. [...]

TELMO

Sim é: Deus o defenda!

MARIA

Deus o defenda! amen. E elles, os tyrannos governadores ainda estarão muito contra meu pae? Ja soubeste hoje alguma coisa, das diligências do tio Frei Jorge? 

TELMO

Ja, sim. Vão-se desvanecendo — ainda bem!— os agouros de vossa mãe... hãode sahir falsos de todo. O arcebispo, o conde de Sabugal, e os outros, ja vosso tio os trouxe á razão, ja os moderou. Miguel de Moura é que ainda está renitente; mas hade-lhe passar. Por estes dias fica tudo socegado. Ja o estava se elle quizesse dizer que o fogo tinha pegado por acaso. Mas ainda bem que o não quiz fazer; era desculpar com a villania de uma mentira o generoso crime por que o perseguem. 


MARIA

Meu nobre pae! Mas quando hade elle sahir d'aquelle omizio? Passar os dias retirado n'essa quinta tam triste d'além do Alfeite, e não podêr vir aqui senão de noite, por instantes, e Deus sabe com que perigo! [...]

MAGDALENA

E o que eu podér fazer-vos, todo o amparo e gasalhado que podér dar-vos, contae commigo, bom velho, e com meu marido, que hade folgar de vos proteger...

ROMEIRO

Eu ja vos pedi alguma coisa, senhora?

MAGDALENA

Pois perdoae, se vos offendi, amigo.

ROMEIRO

Não ha offensa verdadeira senão as que se fazem a Deus.--Pedi-lhe vós perdão a Elle, que vos não faltará de quê. [...]

MAGDALENA, aterrada

E quem vos mandou, homem?

ROMEIRO

Um homem foi, e um honrado homem... a quem unicamente devi a liberdade... a _ninguem_ mais. Jurei fazer-lhe a vontade, e vim.

MAGDALENA

Como se chama?

ROMEIRO

O seu nome nem o da sua gente nunca o disse a ninguem no captiveiro.

MAGDALENA

Mas emfim, dizei vós...

ROMEIRO

As suas palavras, trago-as escriptas no coração com as lagrymas de sangue que lhe vi chorar, que muitas vezes me cahiram n'estas mãos, que me correram por éstas faces. Ninguem o consolava senão eu... e Deus! Vêde se me esqueceriam as suas palavras. [...]

Almada — Interior da Egreja do Convento de S. Paulo, 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

JORGE

Se o vireis... ainda que fôra n'outros trajes... com menos annos — pintado, digamos — conhece-lo-heis?

ROMEIRO

Como se me visse a mim mesmo n'um espelho.

JORGE

Procurae n'estes retrattos, e dizei-me se algum d'elles póde ser.

ROMEIRO, sem procurar, e apontando logo para o retratto de D. João

É aquelle.

D. João de Portugal de Miguel Angelo Lupi, inspirado em Almeida Garrett.
Frei Luís de Sousa (cena XIV do 2° acto)
Imagem: MNAC

MAGDALENA, com um grito espantoso

Minha filha, minha filha, minha filha!... (em tom cavo e profundo) Estou... estás... perdidas, deshonradas... infames! (Com outro grito do coração) Oh minha filha, minha filha!... (Foge espavorida e n'este gritar.) [...]

ACTO TERCEIRO

Cena da peça Frei Luís de Sousa, no teatro Príncipe Real (posteriormente Teatro Apolo), 1909.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Parte baixa ao palacio de D. João de Portugal, communicando, pela porta á esquerda do espectador, com a capella da Senhora-da-Piedade na egreja de San'Paulo dos Dominicos d'Almada:

é um casarão vasto sem ornato algum.

Arrumadas ás paredes, em diversos pontos, escadas, tocheiras, cruzes, ciriaes e outras alfaias e guizamentos d'egreja de uso conhecido. A um lado um esquife dos que usam as confrarias; do outro uma grande cruz negra de tábua com o letreiro J.N.R.J., e toalha pendente, como se usa nas cerimonias da semana-sancta. 

Mais para a scena uma banca velha com dois ou tres tamboretes; a um lado uma tocheira baixa com tocha accesa e ja bastante gasta; sôbre a mesa um castiçal de chumbo, de credencia, baixo e com vela accesa tambem, e um hábito completo de religioso dominico, tunica, escapulario, rosario, cinto, etc. [...] (1)


(1) Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, Porto, Livraria Chardron

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Manuel de Sousa Coutinho
Convento Dominicano de São Paulo de Almada
Embrechados (4 de 5)

Informação adicional:
Visita conventual ao Seminário Maior de Almada

terça-feira, 20 de junho de 2017

Pancadaria

Uma senhora de Lisboa, tendo, de ir á Piedade, alugou em Cacilhas, um cavallo. Na volta, quando chegou a Mutella desequilibrou-se e deu uma grande queda, ficando bastante contusa.

Almada, vista sul, Joaquim Possidónio Narcizo da Silva, 1862.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Na occasião passavam dois actores do theatro do Principe Real em um trem, e apeando-se metteram a senhora no trem, montando em seguida os dois no cavallo.

Selo dos Templários mostrando dois cavaleiros num só cavalo.
Imagem: Wikipedia

Quando chegaram a Cacilhas apparece-lhes o dono do cavallo, que depois de pequena altercação puchou por uma perna de um dos cavalleiros que bateu com as costas na calçada arrastando o companheiro na queda.

Trens de aluguer em Cacilhas, c. 1907.
Imagem: Alexandre Castanheira, Romeu Correia, Memória Viva de Almada, Câmara Municipal de Almada, 1992

Escusado é dizer que, levantando-se irados, saltaram no espinhaço do atrevido cacilheiro, desancando-o muito soffrivelmente.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

Acode, porém, um bando de burriqueiros, cada um com seu cacete, que certamente teriam feito n'um feixe as costellas dos dois actores, se não apparece o official Vidigal que auxiliado por alguns soldados do destacamento de infanteria 2, apasiguou os desordeiros. 

Almada, Camara Municipal,
ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 11, década de 1900.
Imagem: Delacampe

Os actores foram recolhidos na cadeia d'Almada, onde passaram a noite. De manhã foram soltos com fiança. (1)


(1) Diario Illustrado, 22 de abril de 1883

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

António Ramalho na praia do Alfeite em 1881

D'entre os quadros expostos pelo sr. Antonio Ramalho, um rapaz que começa, com uma bella arrogancia sustentada por um temperamento robusto d'artista, o intitulado "Praia do Alfeite" (n.° 31) é um dos mais notaveis.

Praia do Alfeite, António Ramalho (Ramalho Junior), 1881.
Imagem: YouTube

Ha n'elle uma riqueza enorme de tons amarellos, largamente espalhados por toda a parte, — nos altos saibros que se levantam pesadamente á esquerda, no areial immenso que vem descendo até ao rio, e ainda em mais saibros que se alastram, lá ao fundo, reflectindo-se fortemente nas aguas quietas.

Praia do Alfeite (detalhe), António Ramalho (Ramalho Junior), 1881.
Imagem: YouTube

Até, uma pobre mulher que está toda curvada para o chão no primeiro plano, sobre a areia, tem uma saia amarella! Entretanto, todos aquelles tons embaraçosos foram achados com uma felicidade rara, excepto o do grande areial, que é alvejante de mais frio.

Praia do Alfeite (detalhe), António Ramalho (Ramalho Junior), 1881.
Imagem: YouTube

As figuras elegantes das banhistas que passeiam na praia, umas de toilettes simples mas vistosas, e com sombrinhas listradas, outras de lucto, funereas, são d'um desenho primoroso ; e o rapazito que sentado na areia n'ella enterra as mãos, entretido e deliciado, é realmente uma nota curiosa diurna observação feliz.

Praia do Alfeite (detalhe), António Ramalho (Ramalho Junior), 1881.
Imagem: YouTube

As aguas, d'um socego somnolento, são soberbamente tocadas, bordadas d'espumas claras e manchadas d'esverdeamentos fluctuantes d'algas. E todo o quadro, com o monte verdejante que, salpicado de casarias brancas, vae subindo, ao fundo, até ao azul sereno da atmosphera inundada de sol, é d'uma perspectiva excellente, e d'um effeito geral esplendido. (1)


(1) O Occidente, n.° 115, 1 de Março de 1882

Artigo relacionado:
Praia do Alfeite e Lavadeiras na Romeira

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Caldeirada à Pescador

Publicar de novo O Espreitador na Romaria do nosso, José Daniel Rodrigues da Costa, tem por objectivo celebrar o facto de termos ultrapassado as 100.000 visitas.

Recrutas portugueses da província da Estremadura, c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Com determinação, idêntica à dos recrutas da imagem, durante os ultimos 25 meses, nas 328 publicações que fizemos, referenciámos informação em milhares de documentos e imagens e estabelecemos ligações a essas fontes de conhecimento.

Nesse percurso, quantas vezes as imagens nos contavam uma história diferente do texto que acompanharam. Ou quantas vezes o nome dado aos excertos foi antagónico ao do documento completo. Todos esses documentos são histórias várias vezes contadas e, todos eles, com mais histórias por contar.

Um frade franciscano e um irmão laico antes da abolição da sua Ordem, c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Assim, enviamos o nosso reconhecimento aos autores e proprietários dos documentos e imagens aqui apresentados, e também a todos aqueles que a este projecto facilitam, colaboram, discutem ou simplesmente visitam.

Por ora, vamos dar lugar à ironia e comicidade de um autor, neoclássico, onde não se esperam as subtilidades e doçuras do romantismo ainda distante.

ooOoo

Vindo á notícia do nosso bom Espreitador as infelicidades de uma romaria, que se fez com certo rancho de senhoras ao sítio da Costa, a rogos de um dos concorrentes se propôs descrever a mesma função, e os seus acasos, que não deixam de merecer a atenção das gargalhadas.

Jozé Daniel Rodrigues da Costa, (1757-1832).
Imagem: Tertúlia Bibliófila

Foi a cinco deste mez [agosto de 1802], que cinco sujeitos da Fábrica Moderna convieram em fazer uma função de romaria ao sítio da Costa, por quererem tirar o ventre de miséria de peixe:

e onde se poderia pilhar mais fresco, do que ali ao tirar da rede? Oh gostosa caldeirada, ferve, e toma o gosto dos temperos, até que estas barrigas se vão cevar no teu portentoso molho! Esperem os pargos, detenham-se os robalos, não apareçam por ora os gorazes, nem os congros, em quanto estes cinco viajantes se não põem a caminho para os tirar do lanço!

A leiteira e o pescador [ou peixeiro], c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

No dia premeditado sairão estes cinco individuos com duas famílias de senhoras, umas assim, outras assado; porém todas de modernismo, á excepção de duas tias muito velhas, que serviam de preladas aquela comunidade.

Pelas seis horas da manhã embarcou o rancho no Cais da Pedra com excessivo contentamento, e de alforje somente um cruzado novo de pão. Cantaram-se modinhas pelo mar, houve muitas risadas; porém todos em jejum para poderem abranger a grandeza da caldeirada.

Lugar de atracagem em Belém, c. 1824.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Chegaram a Cacilhas, oh que lindeza de terra pelas providencias, que tem para o comodo das senhoras! Apenas o rancho saltou no cais, saltarão também no rancho vinte e dois garotos de grande marca, oferecendo burros às senhoras.

Um se esmerava em dizer que o seu era de albardinha; outro dando um murro no companheiro, se adiantava a inculcar o seu, porque tinha cadeirinha: acolá vinha um banazola meio bêbado, oferecendo um macho de albarda: aqui vinha uma mulher com muitos cumprimentos, manifestando ao rancho um machinho de sella, que apenas o apanhou justo, também logo pediu um bocadinho de tabaco para a sua caixa, porque estava sem elle; e o resto da rapaziada aos bofetões, e cambalhotas uns aos outros, com seu sanguinho nos queixos, pela emulação de "o meu burro é bom, o teu não presta".

Já todos tinham cavalgaduras, quando o círio da pescaria se organizou, e se pôz a caminho: forte festa, forte alegria, e forte jantar de peixe se espera. Tantas eram as senhoras, tantas foram as quedas, que se deram.

Senhoras que passeiam montadas sobre burricos, c. 1814.
Imagem: Google Books

Um dos Tafuis, que levava uma garrafinha de mostarda n'algibeira para despertar o apetite da caldeirada, infelizmente, quando uma senhora caiu, elle descendo-se com mais brevidade, para lhe acudir, tal jeito deu, que fez a garrafa em farinha, e aqui temos dentro d'algibeira nada menos que outra caldeirada, que consta de bocados de vidro, um lenço branco finíssimo ensopado em mostarda, ou forro da casaca perdido, e uma caixa de rapé quebrada, da qual o retrato não tinha custado pouco.

Cavalheiro de Lisboa, c. 1808.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Que grandeza d'alma não é precisa a um destes, para não fazer caso de semelhante desastre! O que lhe dava alguma consolação era saber que a senhora, sua apaixonada tudo lhe havia de levar em conta.

Dama da classe média de Lisboa, c. 1808.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Continuou tudo em sossego depois desta mixórdia, quando a poucos paços o machinho de sella, que era manhoso, se pôs aos couces de forma que sacudiu o cavalheiro, abrindo-lhe a cabeça na esquina de uma pedra.

Oh desgraça, que tiraste de inquietar esta paz de espíritos!

Chovem lenços a aperrar a cabeça do enfermo, elle branco como a cal da parede, esforça-se por não se mostrar maricas; uma das tais velhas limpa-lhe o rosto, a outra pergunta-lhe se doe no peito; mas elle de que mais se queixa é dos quadris, e de toda aquela parte: a apaixonada com as lagrimas nos olhos, maldiz a hora, em que lembrou a romaria.

Saindo de Cacilhas com oito rapazes pelo caminho, não tinham um só, que fosse buscar uma gota d'agua, porque é o costume desaparecerem, e só permitirem a graça da sua estimável companhia, quando a mesa se põe.

Aqui temos já um festeiro a pé, que nunca mais montou no macho, por lhe tomar medo e uma das velhas sacrificando-se a ir de penitência, com tanto que elle fosse a cavallo: o certo é que ele, e ela foram aos poucos.

Elegante do povo, Henri l'Evêque, c. 1814.
Imagem: Google Books

Chegou o rancho á Costa, e dado à costa com fome do tamanho de todo aquele areal.


Traje feminino nas cidades portuguesas, c. 1828.
Imagem: Internet Archive

Eis que negras, e condensadas nuvens enlutam a atmosfera; aparece um relâmpago, dizendo pela voz de um horroroso trovão: "não há peixe porque em quanto eu me demorar por este sítio, não tem licença os peixinhos, para virem fóra d'água".

Com efeito falou o trovãozinho pela boca de Júpiter; porque o mar encapelado, e negro, relâmpagos sucessivos, trovões amiudados, e água a cântaros, fazia tudo uma caldeirada, que se não podia tragar.

Pescador e sua familia [Pedrouços], Marianne Baillie, c. 1823.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Ofereciam-se grandes interesses aos pescadores, mas nem assim os brutos se moviam a ir botar a rede.

Bellas Artes, 16, Costa de Caparica, A. Roque Gameiro, Paulo Emílio Guedes & Saraiva.
Imagem: Delcampe

Desenganado pois o rancho, de que não havia com que matar a fome, já corria às barracas daquele sítio, onde não acharam mais que duas postas de bacalhau muito encortiçado, e quatro cebolas cozidas: parece que o diabo de propósito lhes tinha preparado aquele banquete.

Bellas Artes, 15, Costa de Caparica, A. Roque Gameiro, Paulo Emílio Guedes & Saraiva.
Imagem: Delcampe

As meninas lá se acomodaram com o pão do alforje, porém uma das velhinhas entrando com o bacalhau de volta, tanto rilhou, tanto rilhou nele, que dos únicos quatro dentes, que tinha na boca, um que estava já como badalo de sino, veio a terra.

Velha camponesa de Sintra, c. 1823.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os rapazes dos burros, que lhes cheirou a função a pão seco, por não deixarem saudades, se despedirão em silêncio, e vieram para Cacilhas esperar o rancho.

Desconsoladamente votou o rancho das senhoras em marchar logo daquelas praias, e pondo-se tudo outra vez a caminho com caras de Monges d'Arrábida, se até ali as tinham de anjinhos de presépio, chegarão a Cacilhas pingando:

Traje feminino habitual em Portugal, c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

e naquele lugar, com carapaus fritos, que foi o que se achou, puseram uma rolha na boca á fome.

Houve suas descomposturas com a dona do machinho, e mais palavra, menos palavra, afretou-se uma falua para ser transportado o rancho para Lisboa. Vinham aquelas almas capazes de se pedir para ellas; porque vinham ensopadas, agoniadas, esfaimadas, enxovalhadas, zangadas, e tudo o mais, que aqui se lhes poder ajuntar, que acabe em adas.

Saltarão para dentro da falua: foi o arrais o braceiro das senhoras, que ainda com ser grosseiro, tem occasiões, em que o interesse lhe ensina a politica. Chamou a companha; porém mal sucedido, porque cada um vinha por sua vez: ora desviava a falua do cais, ora tornava ao cais, e afretando a embarcação a este rancho, por suas moças de pau, queria fazer carreira.

A View taken from LISBON of the Point of Cassilhas, the English Hospital, & the Convent of Almada * : On the opposite side of the Tagus _ the original drawing by Noel in the possession of Gerard de Visme Esq.r / Drawn by Noel ; Engraved by Wells.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal



Gritava o arrais: lá vem o senhor capitão; deem lá a mão ao senhor capitão, venha cá, senhor capitão, venha cá comigo.

E tal algazarra se fez, que duas horas e meia durou o embarque, e completou-se o chamado frete com algumas quarenta pessoas dentro.

Ora em quanto a embarcação veio terra terra, vinham as senhoras do rancho nas suas glórias; mas tanto que se levantarão os pauzinhos, e se lhes dependurarão os estandartes, eis a embarcação fazendo bordos, eis as balhadeiras a saltarem de crespas, e a botarem borrifos para dentro com cada sopapo, que era uma consolação.

As meninas carregando na falua pela parte oposta, para ver se a endireitavam: as duas tias velhas já com cara de icterícia, dizendo lá comsigo: negregada festa.

A cada balanço chamava-se por quantos santos tem a folhinha.

O que metia mais compaixão era a tia desdentada a vomitar os carapaus fritos de Cacilhas; mas consolavam-na dizendo-lhe que isto livrava de uma doença: ao que ela respondia que antes queria ver-se achacada toda a vida, do que achar-se naqueles lances.

E afinal, nesta confusão de misérias, chegou tudo a salvo ao Cais da Pedra.

A View of the PRAÇA DO COMMERCIO at LISBON, taken from the Tagus : the original Drawing by Noel in the possession of Gerard de Visme Esq.r / Drawn by Noel ; Engraved by Wells.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Foram para casa, quasi como a pau, e corda, e dois meses a fio se falou na função a todos, que as visitavam.

Mulher transportada ao hospital, Henri l'Evêque, c. 1814.
Imagem: Google Books

Quem quiser talhar outra festa semelhante, aqui lhe achará o risco. (1)


(1) José daniel Rodrigues da Costa,  O espreitador do mundo novo: obra critica, moral, e divertida, Lisboa, Officina de J. F. M. de Campos, 1819 [1.a edição, 1802]

Leitura relacionada:
Humor impresso: cultura e política em "O Espreitador do Mundo Novo"


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