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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Pera

A propriedade, ou como é dito na língua portuguesa a Quinta, está situada numa parte do país que, pela sua fertilidade, recebeu o nome de Capa Rica ou Rico Manto. Esta freguesia forma uma espécie de península ou língua de terra que se projeta para oeste, situada entre o rio Tejo, no seu lado norte, e o Atlântico, a sul, que aqui faz a baía tão familiar a todos os lisboetas e que se estende desde a foz do Tejo até ao Cabo Espichel.

Costa da Caparica, Carta dos Arredores de Lisboa — 68 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1903.
Imagem: IGeoE

A Quinta situa-se cerca de uma milha a partir da extremidade ocidental desta língua de terra, e quase a uma distância igual a partir do Tejo e do Atlântico. O nome de Pera foi-lhe dado a ele a partir da abundância de peras anteriormente produzidas na sua vizinhança. A casa não era nem bonita, nem grande nem cômoda, mas cerca de vinte anos atrás, foi consideravelmente ampliada pela construção de uma outra divisão, que foi feita pelo falecido Presidente, o Right Rev. Monsenhor Baines [bispo eq.], e, atualmente, é suficientemente grande para acomodar, sob seu teto, todos os internos do Colégio. 

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

No piso térreo é composta por uma adega razoavelmente grande, notável pela sua frescura, usada para o armazenamento dos barris de vinho e os quartos destinados ao alojamento do caseiro ou fazendeiro e seus trabalhadores. No primeiro andar há uma boa cozinha, uma pequena capela, e seis quartos, um dos quais é grande e serve como um refeitório quando a comunidade aí está. No andar superior são quartos para os Superiores e o dormitório. Os espaços exteriores consistem numa destilaria nova e limpa, adega, lagar, e estábulo.

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

A simplicidade do edifício é amplamente compensada pelo cenário encantador que o rodeia. Indo de leste para oeste, situa-se a meio caminho da encosta norte de um belo vale, ou melhor, depressão com cerca de uma milha de diâmetro, com colinas opostas suavemente inclinadas, e de quase igual altura embora sem grande elevação, estendendo em direcção oeste, até ao Atlântico cujas margens sobrepõe. Todo o vale é vestido, desde a sua base ao seu bordo, com vinhas intercaladas aqui e ali com campos de milho.

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

Inúmeras casas brancas estão espalhadas nos lados suavemente inclinados, enquanto no cume das colinas podem ser vistos ao sudoeste uma igreja e um convento, agora, infelizmente, em ruínas e servindo como celeiro mas que até a supressão das ordens religiosas foi ocupado pelos frades da Ordem de S. Francisco.

Caparica, Convento dos Capuchos, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

A sul, frente à Quinta, a cena é variada, aldeias, moinhos de vento, e pequenas plantações de pinheiros, enquanto a norte, atrás da Quinta encontram-se as duas vilas de Pera, cada um com seu moinho de vento. Pelo meio do vale passa uma estreita estrada pública ladeada de canas, que lhe dão a aparência de um riacho. 

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, vista sul, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

Na extremidade ocidental onde o vale atravessa as colinas, e à distância de cerca de uma milha, uma parte do Atlântico é avistável, o rugido oco das ondas que batem na costa é incessantemente ouvido.

Vista de Caparica, tomada dos Capuchos, anterior aos trabalhos de construção do IC 20.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Vista de Caparica tomada dos Capuchos, após os desaterros no vale cego de Brielas para a construção do IC 20.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Imediatamente abaixo da Quinta fica a casa de campo, anteriormente pertencente ao Marquês de Valada, que, meio escondida atrás de um tufo de altas árvores antigas, forma um objeto pitoresco, especialmente numa noite de verão, quando como nos tempos antigos o gado era deixado solto para se alimentar nos campos vizinhos. 

Caparica, Pera, casa de campo, anteriormente pertencente ao Marquês de Valada, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

O vale é refrescado durante os calores do verão pela brisa do mar que entra na abertura a oeste, e o local é tão salutar que os seus habitantes geralmente chegam a uma velhice extrema. As terras do Colégio, que consistem quase inteiramente de vinhas ficam em volta da casa, estendendo-se desde o cume da colina norte, sobre a qual fica, até à estrada a sul, que atravessa o meio do vale . De tempos a tempos, conforme as oportunidades, apareciam acrescentos de terra, que por compra, eram feitos à propriedade original.

Encantador como este lugar de beleza natural, o amor dos filhos de Lisboa para com a Quinta deve ser procurado em dias felizes nos quais eles possam olhar para trás durante a "quinzena em Pera", que anualmente em setembro, a Comunidade aí passa.

A liberdade absoluta e sem contenção, que a reclusão da freguesia em que a Quinta está situada, torna possível o relaxamento da rigorosa disciplina do Colégio, a deliciosa sensação do "dolce far niente", que sucede à grave tensão mental da preparação para exames; a suave atmosfera ainda pura, revigorante e enriquecida carregada pela brisa a partir da ampla extensão do Atlântico, conferem um charme especial para as duas ou três semanas que aí são anualmente gastas lá, e que são familiarmente conhecida como "tempo da Quinta ".

Jardins do Colégio em Lisboa, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

A estas devem ser adicionadas a beleza da paisagem com "grupos de vinha nas colinas e suas frequentes divagações pelo vale [They had oft rambled forth along the vale...]", e os inúmeros pontos de interesse e de extrema beleza que se encontram ao alcance de um agradável passeio à noite .

Learn Your Homophones: Pear, Pair, and Pare
Imagem: grammarly

A simples menção do cume das alturas escarpadas que aqui formam a linha de costa, defrontando o vasto Atlântico, será suficiente para trazer de volta uma série de aprazíveis reminiscências a cada sucessiva geração de estudantes de Lisboa.

A Praia do Sol, Panorama dos Capuchos, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 107, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Para ver os resistentes pescadores puxar com as suas redes o tributo prateado exigido ás águas prolíficas, ou para passear ao longo da costa desolada e contemplar as ondas a arfar e a curvar soberbas, enquanto gradualmente se aproximam, como que impacientes de contenção, e, soando oco, se joguem furiosamente contra a praia, foram fontes de prazer que repetidas visitas nunca roubaram a sua frescura.

A Praia do Sol, Alando a rede, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 106, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Aqui os grandiosos aspetos da natureza desvelam-se à vista, e o poderoso oceano poderia ser estudado nos seus humores sempre variáveis. (1)


(1) Croft, William, 1836-1926; Gillow, Joseph, 1850-1921; Kirk, John, 1760-1851 Historical account of Lisbon College, 1902, St. Andrew's press, Barnet

Informação relacionada:
Pontifical English College of Sts Peter and Paul - Lisbon

terça-feira, 9 de junho de 2015

Planos inclinados de 1865

Esta verdadeira doca de querenagem está optimamente estabelecida ao sul do Tejo, no sitio de Porto Brandão.

Plano inclinado, Porto Brandão, 1865, "... na occasião em que um navio subia o plano, alado a vapor."
Imagem: Hemeroteca Digital

Foi construida pelo bem conhecido engenheiro hydraulico Thomaz [sic, i. e. Thomas] White [projecto de lei n.º 34/XIII/2.ª].

É para dois planos inclinados; um capaz de receber navios de 3:000 toneladas; e outro para embarcações de 700. Este está concluído; e d'elle tem saído já alguns navios concertados. 

O sr. Almada [António José de Sousa e] foi o principal emprezario; e, á custa de muitas fadigas e sacrificios, conserguiu pôr em exploração o segundo plano. Para restabellecer o primeiro, destinado a navios de maior lote, e assentar outro na cidude do Porto, vae formar uma companhia do capital 500:000$000 réis, en 5:000 acções de 100:000$000 réis, vencendo o juro de 6 por cento durante a construcção dos planos.

É empreza de lucros seguros e avultados. O successivo incremento do commercio externo em ambas as cidades, que de anno para anmo accusa o rendimento das alfandegas, e a exportação dos nossos productos agrícolas, facilitada pelos camunhos de ferro, abonam já o futuro da nova companhia dos planos inclinados.

E sobre tudo, o porto de Lisboa, verdadeiro emporio marítimo da Europa, pela sua situação geographica, consegue o que lhe faltava para bem merecer o titulo que tanto o afama desde as nossas gloriosas navegações. (1)


(1) Hemeroteca Digital: Archivo Pittoresco, 1865, n° 33, pág. 257

quinta-feira, 26 de março de 2015

Almaraz

Nome com que se designa a orla esquerda do rio Tejo, em frente a Lisboa. (1)

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Reflectindo-se nas aguas tranquillas do mais vasto e magestoso porto do mundo, banhada pela mansa corrente do seu aurífero Tejo, reclinando-se docemente sobre terrenos de leve pendor, onde aqui e ali brotam macissos de virente vegetação, sob um ceu de pureza inegualavel, e com um clima ameno e vivificante, a cidade de Lisboa revê-se nos terrenos fronteiros de alem-Tejo, semeados de povoações, de fabricas, de matas e de vinhedos, e que descem até a margem do rio por vertentes rápidas, ou por escarpas abruptas.

Baixa e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Pela base d'esses terrenos e banhadas pelas aguas do Tejo estendem-se as edificações, quasi ininterrompidamente, formando grupos, ou povoações, que tomam os nomes de Cacilhas, Ginjal, Arrábida, S. Lourenço, Affonsina [sic] e Banatica, até a Trafaria.

Baixa e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em cima, Almada, a velha Cetobrica dos romanos, com as muralhas do seu castello e as torres das suas igrejas recorta pittorescamente o horizonte, reflectindo os raios afogueados do sol poente nas vidraças das casas, como se estivessem illuminadas em festa, ou ardendo em chammas [...]

Regata dos barcos da Channel Fleet em Lisboa, 1869.
Imagem: amazon

Na margem do S. ha ainda os seguintes pontos, que servem aos navegantes para a sua derrota:

Plano do porto de Lisboa e das costas adjacentes (detalhe), 1804.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Torrão — pequeno logar que fica mais a W. da margem S. do Tejo.

Calhaus do mar — grupo de pedras que existe próximo do areal da Trafaria.

Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, A. F. Lopes e Rodrigues Thomaz, gravura, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Trafaria — povoação das mais importantes do S. do Tejo, com grande accumulação de casas de pescadores, facilmente reconhecível.

Trafaria, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Lazareto — edifício de grandes dimensões assente no cimo da montanha e descendo pela vertente, com diversos corpos em amphitheatro.

Torre velha — fronteira á torre de Belém, e a W. do Porto Brandão — logar bem reconhecido, pela grande quantidade de casas que fícam adjacentes áquella margem.

Banatica — logar que bem se distingue pelas pedreiras em exploração, cortando o terreno em talude muito áspero, e ao qual ficam próximas as marcas do limite W. da milha maritima.

Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, A. F. Lopes e Rodrigues Thomaz, gravura, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Alfanzina — pequeno porto a montante da Banatica.

Porto de S. Lourenço — fica ao N. do logar denominado Palença, e onde está installada uma grande fabrica de cerâmica.

Portinho da Arrábida — a nascente do qual, e na quebrada da montanha, ficam as duas marcas de alvenaria, que dão o limite E. da milha maritima. E com estas marcas e com as da Banatica que se vão acertar os relógios e experimentar o andamento dos navios. A milha official é dada pelo enfiamento dos dois grupos de marcas.

Torre de S. Paulo — na villa de Almada, a W. da povoação e em ponto elevado, uma das marcas mais importantes da margem sul do Tejo.

Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, A. F. Lopes e Rodrigues Thomaz, gravura, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Pontal de Cacilhas — ponta SE. da povoação d'este nome, e limite N. da enseada chamada da Cova da Piedade. (2)

Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, A. F. Lopes e Rodrigues Thomaz, gravura, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

[...] arribas da margem sul do Tejo desde Cacilhas à Trafaria. A denominação de Almaraz foi corrente entre a gente de rio e mar até principios do nosso século [XX] mas hoje restringe-se praticamente à quinta desse nome em Cacilhas. (3)


(1) Dicionário Priberam da Língua Portugues
(2) Loureiro, Adolfo, Os portos maritimos de Portugal e ilhas adjacentes, Vol III parte 1, Lisboa, Imprensa Nacional, 1906
(3) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Artigo relacionado:
H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal


Informação relacionada:
Jornal Público, edição de 2 de julho de 2006

Lamas, Pedro Calé da Cunha, Os taludes da margem sul do Tejo - evolução geomorfológica e mecanismos de rotura, Lisboa, Universidade Nova, 1998, 21.71 MB.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Casa do Monte

A Bulhão Pato (1829 - 1912)

Precisando que a boa natureza viva lhe refrescasse o sangue, que as doces harmonias campesinas lhe acalmassem os nervos, um dia partiu para o Monte, ali defronte, ao pé de Caparica.

Familia pequena, elle e a irmã velhinha. Como nunca jogara o ganha-perde da politica nem o das finanças, bastou-lhe um bote para mudar a casa.

Fragata, Higino Mendonça, dedicada a Bulhão Pato, 1895.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Essa mudança valeu-nos uma nova revelação do seu talento, as ultimas poesias didacticas.

Raimundo António de Bulhão Pato,
Imagem: Hemeroteca Digital

A casa do poeta fica mesmo em frente da bifurcação da estrada da Trafaria com a do Lazareto. Por um lado é perto o mar, por outro, mais perto ainda, o Tejo.

A casa de Bulhão Pato no Monte de Caparica.
Imagem:Hemeroteca Digital

A paizagem vulgar d'aquelles sitios: vinhas em volta, pinheiros ao longe. No caminho do Lazareto, a cem metros do Monte, umas ruinas pittorescas: a Casa das Bruxas, na sombra dos grandes ulmetros, onde os rouxinoes cantam na primavera.

Á hora em que o orvalho sobe mansinho no ar socegado, fazendo tremer os contornos longinquos, Bulhâo Pato, madrugador, pega da espingarda e elle ahi vae por esses montes atraz das perdizes, por esses pinhaes á espera das gallinholas.

E, vá por onde for, a natureza é bella sempre.

Por uma d'estas permutaçóes faceis a poetas, as mulheres que o saudam teem o perfume das rosas; sorriem-lhe, como labios frescos de mulheres, as papoilas de entre o trigo.

Caparica, Alto da Chibata ao Outeiro dos Capuchos (?), década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

O valle, mais abaixo, abre-se como um leque, de que o Tejo fulgurante fosse as varetas de prata; o panno parece pintado por um chinez paciente, o recorte fino dos montes da outra margem, o arvoredo até, com aquella nitidez que dão ás linhas os raios quasi horisontaes do sol nascente.

Costa da Caparica, Bairro de Santo António e Foz do Tejo, ed. Passaporte, 2, década de 1960.
Imagem: Delcampe, Oliveira

E o abrigo nas tardes chuvosas na barraca do homem do mar ou na choça do rachador de lenha? Ouvem-se perto os clarins da ventania e ao longe as ondas rufando no areal da Costa e nos cachopos da barra. (1)

Logo entradas de outono, as águas, desabando,
Tinham fartado o chão. Veiu tempo mais brando;
Depois dias de sol... (2)


Raimundo António de Bulhão Pato,
Imagem: Hemeroteca Digital


(1) Câmara, João da, A Semana de Lisboa, 31 de dezembro de 1893
(2) Bulhão Pato, Raimundo António de, Temporaes, Livro do Monte, georgicas, lyricas, 1896, Typographia da Academia, Lisboa.

Outras referências:
Efemérides
Bulhão Pato na coleção da Hemeroteca de Lisboa

sábado, 6 de setembro de 2014

Torre e Fonte Santa

No reinado de D. João III foi donatário de uma propriedade chamada "Torre d'el Rei" o fidalgo D. João da Silva de Meneses.

Admitimos que esta torre d'el Rei seja aquela que existiu no lugar dito da Torre ou sua proximidade imediata. 

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa (i. e. construções que faltam à cidade de Lisboa), detalhe, Francisco de Holanda, 1571.
Na imagem a Torre d'el Rei (Torre, Torre de Caparica) sobre a arriba, acima da Torre Velha, frente à torre de Belém
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo

Porque nada mais há no Concelho ou no seu antigo termo, com o nome de torre (no singular) remontando ao Século XVI, admitiremos que esta Torre d'el Rei é aquela que os topónimos Torre e Torrinha e a gravura do Século XVI indicam.

O sítio da Torre é aquele ocupado pelo Largo da Torre, no cruzamento da estrada Monte da Caparica — Trafaria com a estrada Fonte Santa — Casas Velhas e onde termina a antiga azinhaga Torre — Fonte Santa, hoje Rua Carvalho Araújo.

Torre de Caparica, casa onde residiu Bulhão Pato, construção de finais do século XIX.
Imagem: ed. desc.

0 nome do sitio provém da existencia de uma torre medieval que nos aparece em gravuras dos Séculos XVI e XVII.

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa (i. e. construções que faltam à cidade de Lisboa), Francisco de Holanda, 1571.
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo

A sua funçao era provavelmente a de atalaia. A torre abateu em consequência do terramoto de 1755.

Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa (detalhe), 1814.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Segundo o Conde dos Arcos a Quinta da Torre, aquela que se situava a sul do Largo, era totalmente limitada por caminhos públicos que a separavam das vizinhas Quintas, da Torrinha, Outeiro, Possolos e Formiga.

Carta dos Arredores de Lisboa — 68 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1902.
Imagem: IGeoE

[Torrinha] Quinta entre o lugar da Torre e Costas do Cão. Um dos seus proprietários, João António Gonçalves (1835-1906), foi vice-presidente da Câmara Municipal de Almada.Informação relacionada: ISSUU - Al-Madan Online 14 by Al-Madan

A Quinta do Outeiro, fica na encosta de Pera sobre o Vale de Marinhos, a poente do cemitério da freguesia de Caparica.


[Possolos] Quinta entre o Rafael e a Caneira, às Casas Velhas.
A Quinta de Possolos pertenceu a D. Álvaro Abranches da Câmara e aos descendentes, Condes de Valadares.
No século XIX era propriedade de Rafael Alves da Cunha que foi em Almada presidente da vereação.

A Quinta da Formiga situa-se entre o Monte de Caparica e as Casas Velhas, do lado norte da actual rua Alfredo da Cunha.
Tem entrada por um portão do século XVIII e uma casa ampla a que se ligavam adega e lagares antigos e curiosos.
Em 1833 a quinta pertencia a Miguel Martinho Manuel Ricaldes da Silva Azevedo que era Tenente da 1.a Companhia do Batalhão Nacional da Vila de Almada e seu termo.
Era pois um liberal, embora fosse afilhado de D. Miguel [...]

Do lado Norte do Largo da Torre o novo proprietário da Quinta que está entre a Rua Carvalho Araújo e a Rua dos Trabalhadores Rurais colocou na fachada uma inscrição chamando-lhe "Quinta da Torre”, nome que nunca teve.

O Conde dos Arcos, D. José de Alarcão, proprietário então da verdadeira e única Quinta da Torre, mandou apor nesta uns azulejos com a inscrição "Quinta da Torre, 1570".

D. José Manuel de Noronha e Brito de Meneses de Alarcão, 12° Conde dos Arcos.
Imagem: Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

[Fonte Santa] Pequeno aglomerado urbano a meio caminho entre o Largo da Torre e o Porto Brandão, cujo centro é o Largo Carlos da Maia na confluência da azinhaga que vem da Cruz da Granja.

O nome aparece com frequencia no plural "Fontes Santas", entre os Séculos XV e XVIII. o que denuncia a existência de mais que uma fonte e não apenas aquela que abastecia o fontenário público que parece ser construção do século XVIII e foi reconstruído pela Câmara Municipal em 1874.

Na encosta que margina a azinhaga para a Cruz da Granja captou-se água em fins do Século XIX para abastecer o lazareto obra do famoso engenheiro almadense Liberato Teles.

Todo o vale desde a Quinta da Torre ao Porto Brandão era abundante de água.

Junto ao Largo da Torre existe um antigo poço e frente à ermida de S. Tomás de Aquino descobriram-se duas cisternas quando se libertou a ermida, que se encontrava soterrada até ao nivel da verga da porta.

A ermida e obra atribuida ao Século XVI e tem portal e alguns elementos que se podem considerar manuelinos mas o facto de ser constituida por dois pequenos corpos semelhantes a morábitos e as cisternas parecerem ser construção árabe faz-nos suspeitar que sejam mais antigos os seus fundamentos.

Fonte Santa, Ermida de S Tomas de Aquino, 2003.
Imagem: Almada, Toponímia e História

A ermida pertenceu aos Condes dos Arcos que naturalmente lhe introduziram os elementos manuelinos.

Fonte Santa, Ermida de S Tomas de Aquino, década de 1970.
Imagem: Divagando sobre Caparica

Quando se pôs a descoberto a fachada e se escavou o adro fronteiro, das cisternas libertou-se água em grande abundância sendo necessário encaminha-la por uma vala para um esgoto de águas pluviais.

Deve salientar-se que entre o Largo Carlos da Maia e o Porto Brandão fica a Quinta da Azenha, assim chamada por nela certamente ter funcionado um engenho desse tipo.

A Ermida de São Tomás de Aquino foi classificada de interesse concelhio em 1996.O pedido de classificação datava de 1982, mas atravessara um confuso processo burocrático.(1)


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Artigo relacionado: Ermida de S. Tomás de Aquino

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Ermida de S. Tomás de Aquino

Entre as mais ilustres famílias da Corte que em Caparica tinham casa contavam-se a dos Condes dos Arcos de Valdevez e as dos Condes de S. Miguel.

Os Noronhas eram os que mais predilecção tinham pelo sitio, segundo se pode concluir dos registos paroquiais. Alguns lá nasceram e foram baptizados. A Senhora Condessa D. Maria do Carmo mantém ainda essas tradição. trocando durante meses, as comodidades da sua casa de Lisboa pelas poucas que lhe oferece a de Caparica.

Armas de Noronha chefe, livro do Armeiro-Mor.
Imagem: Wikipédia

Assistiam na sua Quinta da Torre, bem diferente do que é hoje. Nas dependencias e na torre medieval que deu o nome à quinta e depois ao lugar e que residiam seus senhores e não nas actuais habitações.

A Estrada Nova que liga a Torre à Fonte Santa (ou Fontes Santas como também se lê em antigos escritos) não fora ainda aberta. 

Ermida de S. Tomás [Tomaz] de Aquino, Fonte(s) Santa(s), Caparica, 2014.
Imagem: Google Maps

As terras que vieram a ficar de um e outro lado dessa estrada constituíam um todo. 

Eram limitadas ao sul pelo largo, ao nascente pela Estrada Velha, ao poente pelo estreito caminho que as separa da quinta da Torre até à Torrinha e Costas de [do] Cão, e ao norte por terras de diversos, foreiras ao morgadio dos Noronhas.

Pela beleza da tapada de ulmeiros seculares, de jardins guarnecidos de buxo à antiga portuguesa, de hortas a que não faltava a nora tradicional, que ainda conhecemos e formava, para fora do actual Largo Bulhão Pato, uma meia-laranja, estas terras eram o melhor atractivo dos seus possuidores. 

Para tanques enormes. forrados de azulejos policromos, a água caia, em repuxo, de formosa coluna de mármore. Restos desta coluna, de capitéis e de outras pedras trabalhadas, que se conservam. documentam a importancia das antigas construções.

Quase oculta na tapada existia uma ermidinha da invocação de S. Tomás de Aquino de que restam apenas ruínas quase soterradas à beira da Estrada Nova.

Ermida de S. Tomás [Tomaz] de Aquino, Fonte(s) Santa(s), Caparica, 2012.
Imagem: AMO-TE CAPARICA no Facebook

Os Botelhos tinham a sua casa no Casal do Conde, entre o Monte e a Urraca, próximo da quinta e residência de Francisco Canelas, nosso velho amigo.

O titulo de Conde de S. Miguel evoca uma das mais heróicas figuras do declínio do nosso Império do Oriente — o grande Nuno Álvares Botelho, pois foi concedida, em memória dos altos serviços que prestou ao Pais, a seu filho Francisco Botelho.

Armas de Távora chefe, livro do Armeiro-Mor.
Imagem: Wikipédia

Nuno Álvares Botelho. partiu para a India em 1623. Capitão-general das armadas de alto bordo, bateu as armadas de Inglaterra e de Holanda, que desafiou por um cartel que ficou célebre. Foi governador da India e morreu em Malaca após ter imposto a paz ao sultão de Achem.

Era tal o prestígio deste herói que Filipe III, então rei de Portugal. ao dar os pêsames à viúva, lhe mandou dizer que, a não trazer luto pela rainha da Polónia, o havia de põr por Nuno Alvares Botelho.

O luxo na corte de D. João V.
Quadros da Historia de Portugal, Aguarela de  Alfredo Roque Gameiro.
Imagem: www.roquegameiro.org

No dia 18 do corrente se celebraram em Caparica os esposórios de D. Tomás de Noronha, quinto Conde dos Arcos,

com a Senhora D. Antónia Xavier de Lencastre, filha de Tomás Botelho de Távora, terceiro Conde de S. Miguel, e gentil-homem da Câmara que foi do Senhor Infante D. António.

No mesmo dia se celebram os de D. Marcos de Noronha, filho primogénito do mesmo Conde D. Tomaz e de sua primeira mulher a Senhora D. Madalena de Castro, com a Senhora D. Maria Xavier de Lencastre, filha do mesmo Conde de S. Miguel, cujo filho primogénito Álvaro José Botelho de Távora, se recebeu juntamente no mesmo dia com a Senhora D. Luísa de Noronha, filha do mesmo Conde dos Arcos D. Tomaz de Noronha.

in Gazeta de Lisboa, 29 de novembro de 1731
Era domingo e dia maravilhoso de Outono. Grande parte da faustosa corte de D. Ioão V, vestia de gala e atravessava o Tejo com destino ao Porto Brandão, onde os barcos vararam na pequena praia. Cavaleiros, acompanhando berlindas e liteiras, formaram luzido cortejo que subiu à Fonte Santa e dai à Torre.

Estrada Fonte Santa — Porto Brandão, década de 1960.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O senhor da Quinta da Torre. que era então o 5.° Conde dos Arcos. D. Tomaz de Noronha e Brito, nascido e baptizado em Caparica, viúvo da Condessa D. Madalena Bruna de Castro, filha dos Condes de Assumar, ajustara passer as segundas núpcias com D. Antónia Xavier de Lencastre, filha dos 3.° Condes de S. Miguel, Tomás Iosê Botelho e D. Iuliana de Lencastre (Unhão).

Seu filho e herdeiro D. Marcos Iosé de Noronha e Brito, de dezanove anos, capitão de cavalos. que veio a ser o 6.° Conde dos Arcos e Vice-Rei do Brasil, estava noivo de D. Maria Xavier de Lencastre. de vinte e um anos, filha dos já referidos 3.° Condes de S. Miguel.

Ainda um terceiro casamento se aprazara para esse dia entre as duas ilustres casas: o de D. Luisa do Pilar Noronha. de treze anos de idade, respectivamente filha e irmã dos dois mencionados D. Tomás e D. Marcos. com Álvaro Iosé Xavier Botelho de Távora, de vinte e três anos, filho herdeiro dos 3.° Condes de S. Miguel.

O primeiro casamento a celebrar-se foi o de Álvaro Iosé Xavier Botelho de Távora, filho herdeiro dos 3.° Condes de S. Miguel. Com D. Luísa de Pilar de Noronha. filhas dos 5.° Condes dos Arcos.

O cortejo saiu da Casa da Torre em direcção à ermidinha de S. Tomás de Aquino (hoje quase soterrada e em ruínas) onde se encontrava o cura da freguesia. o ilustrado padre lose António da Veiga (natural de Caparica) que presidiu à cerimónia.

Os très pares de noivos e convidados. seguiram depois para a residência do Conde de S. Miguel, que era entre o Monte e a Urraca.

Nesta ermidinha. quase desconhecida. baptizaram-se e casaram grandes vultos da nobre fidalguia portuguesa. (1)

Ermida de S. Tomás [Tomaz] de Aquino, Fonte(s) Santa(s), Caparica, década de 1970.
Imagem: Divagando sobre Caparica


(1) Correia, António, Divagando sobre Caparica: pedaços da sua história, Almada, edição do autor, 1973.

Artigo relacionado: Torre e Fonte Santa

Informação relacionada: SIPA

terça-feira, 27 de maio de 2014

Freguesia de Caparica no século XIX

Caparica — freguezia, Exlremadura, comarca e concelho de Almada, 6 kilometros ao S. de Lisboa, 1:430 fogos. 

Em 1717 tinha 1:193 fogos.

Orago Nossa Senhora do Monte. 

Patriarchado e districto admintstrativo de Lisboa.

Situada na esquerda do Tejo, e d'ella se gosam deliciosas vistas.

Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa, 1814.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

É n'esta freguezia a chamada Torre Velha, ou de S. Sebastião de Caparica, que serviu de lasarêto. Fica em frente da torre de S. Vicente, de Belém.

Foi mandada edificar por el-rei D. Sebastião, pelos annos dé 1575.

Torre Velha ou Torre de S. Sebastião da Caparica, Francisco de Alincourt, técnica mista, 1794.
Imagem: Instituto Geográfico do Exército

Principia a freguezia logo á entrada da barra do Tejo, que a banha na extensão de 12 kilometros, pelo N.: o Oceano lhe serve de termo pelo O., e na praia está a aldeia da Costa, d'esta freguezia.

A matriz é um bello templo, fundado nos fins do século XVI.

O terreno d'esta freguezia é em geral fertil e seu clima saudável. Antes do oidium produzia annualmente, termo médio, 6:500 pipas de bom vinho.

Na aldeia de Mofacem, d'esta freguezia ha 30 e tantas cisternas, todas magnificas e de dispendiosa construcção, obra dos árabes. 

Foram elles que deram a esta aldeia o noma de mo-hacem, que significa barbeiro.

Vè-se pois que esta povoação é muito antiga. Capa tambem é palavra arabe (que os mouros adoptaram dos persas) significa mesmo capa. (Capote é diminutivo de capa.)

Ha duas tradições sobre a etymologia de Caparica.

Uns dizem que morrendo aqui um velho, declarou no testamento que deixava a sua capa para ser vendida e com o producto da venda se fazer uma capella a Nossa Senhora do Monte. Fez isto rir bastante; mas sabidas as contas, a boa da capa estava recheiada de bellos dobrões de ouro, que chegaram de sobra para a fundação da capella.

A segunda versão (e mais verosimil) é que, sendo a Senhora do Monte, de muita devoção para estes povos limitrophes, concorreram todos para lhe fazerum esplendido manto (ou capa) pelo que a Senhora ficou d'álli em diante sendo conhecida por Nossa Senhora da Capa Rica.

Junto a Caparica está o convento de capuchos arrabidos, fundado por D. Lourenço Pires de Távora quarto senhor de Caparica, em 1564. Elle morreu em 15 de fevereiro de 1573, e jaz na egreja do mesmo convento.

Costa da Caparica, Convento dos capuchos antes da restauração, ed. Passaporte, 30, c. 1950
Imagem: Delcampe, Oliveira

Este fidalgo, sendo embaixador de Portugal em Hespanha, em uma occasião que o imperador Garlos V estava zangado com elle, lhe disse : "Eu sei muito bem quantos rios e pontes tem Portugal" ao que Tavora respondeu: "Os mesmos que linha em 14 de agosto de 1385." Digna resposta de um bravo portuguez.

Caparica foi antigamente da comarca de Setúbal.

D'esta freguezia se avista a serra da Arrabida, Palmella, o mar, o Tejo, Lisboa e outras muitas povoações, montes e valles.

Antes de 1834 era o povo da freguezia que apresentava o cura, a quem davam anualmente, 1 moio de pão meiado e 5 pipas de vinho em mosto, a saber: os que tinham liuna junta de bois davam nm alqueire de pão, os que tinham duas ou mais, dois alqueires, e cada fazendeiro um pote de vinho. Andava tudo por 250$000 réis.

Além do convento dos capuchos arrabidos, ha mais n'esta freguezia um convento de frades paulistas, fundado em 1410. Este mosteiro está em um profundo valle, e era denominado, convento de Nossa Senhora, da Rosa. Na sua cêrca ha uma fonte, cuja agua dizem que cura a lepra e outras moléstias cutaneas. Foi fundador d'este convento Mendo gomes de Seabra.

Outro de frades agostinhos descalços, fundado em 1677. Este é no logar da Sobrada [Sobreda].

Ha n'esta freguezia nada menos de 24 capellas, entre publicas e particulares.

É terra muito abundante de aguas.

Tem vários portos de mar, sendo os principaes, Benatega, Porto Brandão, Paulina, Portinho da Costa e Trafaria.

Enseada da Paulina, revista Branco e Negro n° 60, 1897 (ver artigo dedicado)
Imagem: Hemeroteca Digital

Benatega é a palavra árabe ben-ataija. Significa, filho ou descendente da coroada. Vem de ben filho, ou descendente e de ataija coroada.

No logar da Costa, d'esta freguezia esteve (julgo que em 1823 ou 1824 D. João VI, hospedando-se na única casa de pedra que alli então havia (todas as mais eram cabanas da palha) 

Bellas Artes, 15, Costa de Caparica, A. Roque Gameiro, 1909.
Imagem: Delcampe

e tanto gostou da caldeirada que alli lhe deram, que fez o cosinheiro (dono da casa) mestre das caldeiradas (!) com a renda de 800 réis diários emquanlo vivo.

Costa da Caparica, casa da coroa.
Imagem: almaDalmada

Também aqui esteve a sr.a D. Maria II e depois, quando rei, seu filho, o sempre chorado D. Pedro V. (1)

A Sobreda (antigamente Suvereda) está ligada com a Charneca pelos terrenos de Vale Figueira.

Costa da Caparica, Carta dos Arredores de Lisboa — 68 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1902.
Imagem: IGeoE

Lugar solitário, assente sobre alguns outeiros, que lhe fornecem ao centro o caminho principal, desigual e pedregoso, que lhe circundam a parte baixa, a que chamavam no final do século passado [XVII] Largo do Rio, em consequência da bica que em parte do ano ali corre e fornece água às lavadeiras, e do poço público que por volta de 1800 a 1830 no mesmo largo foi aberto a expensas de um cavaleiro daquele lugar, o Fidalguinho da Sobreda, Francisco de Paula Carneiro Zagalo e Melo.

E para fazermos segura ideia do que era Charneca antiga e de que então era Vale de Rosal, e a sua importância histórica, ouçamos o que em 1647 diz o Padre Baltazar Teles em sua Chronica da Companhia de Jesus em Portugal

— Tem o colégio de Santo Antão (uma das primeiras casas da companhia de Jesus em Lisboa) uma grande quinta ou para melhor dizer, uma vinha chamada Vale de Rosal, que está na banda d’além, no termo de Almada, limite de Caparica, na freguesia de Nossa Sra. Do Monte, distante do porto de Cacilhas quase uma boa légua.

O martírio dos 40, Mathaeus Greuter, gravura, 1611.
Louis de Richeome, La peinture spirituelle, Folger Shapespeare  University
Imagem:  Aspectos de devoção e iconografia dos Quarenta Mártires do Brasil...

Fica esta quinta no meio de uma grande e estendida charneca: é lugar todo à roda muito tosco, seco e estéril, cheio de silvados incultos, continuado de matos maninhos, e de areais escalvados, escondido em vales, cercado de brenhas, coberto de pinheiros bravios, de zimbros, de tojos e de outros frútices silvestres: é sítio mais acomodado para caças de monteria que para morada de gente culta, e por isso mui frequentao de corças e veados, infesto de lobos e de outros animais monteses. (2)

Afonso Costa, o Ministro da Justiça  visita a Quinta do Vale do Rosal, 1911.
Ilustração Portuguesa, n° 263 II série, Lisboa, Chaves, José Joubert
Imagem: Hemeroteca Digital



(1) Pinho Leal, Soares d'Azevedo Barbosa de, Portugal antigo e moderno..., 1874  Mattos Moreira, Lisboa,

(2) Vieira Júnior, Duarte Joaquim, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896