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sábado, 28 de outubro de 2017

Empreza d'Automoveis Almadense

Realizou-se já a primeira experiência de um omnibus automóvel adquirido pela Sociedade Portuguesa de Automóveis e que se destina a fazer carreiras para transporte de passageiros entre Cacilhas, Costa de Caparica e Sesimbra.

Omnibus "de Dion-Bouton" de 24cv, 1905-1906.
Imagem: Museu do Caramulo

Saiu o omnibus das garagens da Sociedade Portuguesa de Automóveis, na rua Jardim do Regedor, guiado pelo chauffeur Laurencel, contramestre na fábrica De Dion, levando além do sr. Serra e de alguns amigos, os srs.engenheiro Júlio de Vasconcelos e Carlos Bleck, directores da Sociedade Portuguesa de Automóveis, agentes exclusivos da casa Dion Bouton.

O primeiro autocarro português, "de Dion Bouton" de 1902, conduzido por Louis Laurencel.
Imagem: José Luis Covita, Memórias de um Século de Autocarros a Sul do Tejo, Lisboa, Scribe, 2013.

O omnibus carregado com 18 pessoas foi direito a Algés, estrada da Circunvalação, Benfica, Avenida e Campo Grande onde andou na fila. A Sociedade Almadense está à espera de outro automóvel igual a esse para imediatamente inaugurar as carreiras para Sesimbra. (1)


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*     *

A 29 de Maio [de 1905], uma segunda‑feira, a Empresa de Automóveis Almadense “(…) inaugurou um serviço provisório de carreiras, entre Cacilhas, Almada e Piedade, começando esse serviço, todos os dias, na sahida do vapor das nove da manhã, terminando na carreira das 7h40 da tarde, sendo o preço de cada logar até Almada, 40 réis e à Piedade de 50 réis” [...] (2)

Cacilhas a Piedade,
Bilhete da Empreza de Automoveis Almadense, serviço provisório .
Imagem: José Luis Covita, Memórias de um Século de Autocarros a Sul do Tejo, Lisboa, Scribe, 2013.

Inaugurou-se a semana passada o serviço de carreiras de automóveis entre Cacilhas, Cova da Piedade e Almada, organisado pela Empreza d'Automoveis Almadense, á testa da qual estão os conhecidos e importantes capitalistas Serras [João Baptista de Carvalho Serra, Sucessores, de Cacilhas] e Luís Fernandes. 

Omnibus de Dion Bouton.
Imagem: Delcampe

É este um importante melhoramento para as povoações da margem sul do Tejo pois não se limita a este pequeno percurso, o trajecto a percorrer pelos automóveis da Empreza Almadense.

Tendo já carros encomendados [à Empreza Portugueza de Automoveis (Auto Palace), "4 omnibus, Dion Bouton, sendo 2 de 15 cavalos e 2 de 24 cavalos" cf. Tiro e Sport n.° 302, 15 de março de 1905], conta-se em pouco tempo começar com as carreiras entre Cacilhas, Cezimbra, Azeitão e Setúbal, ficando assim substituídas as antiquadas diligências que actualmente fazem essa carreira.

Esse serviço é feito por modernos automóveis de Dion-Bouton, do modelo mais aperfeiçoado e moderno, e deve ser motivo de orgulho para o nosso paiz o saber que se está dando applicação prática a este novo invento, ao mesmo tempo que no estrangeiro se faz o mesmo, o que em geral não tem acontecido até aqui, aonde só tardiamente se imita o que de util há lá por fóra.

Omnibus de Dion Bouton.
Imagem: Delcampe

Nenhuma dúvida há que, em breve, teremos em Portugal a maior parte dos nossos serviços de diligências substituídos por serviços de automóveis, visto já não haver as legítimas apreensões que há pouco anos ainda existiam no espírito de pessoas ou empresas querendo entrar nesse caminho. (3)

Corpo do Estado Maior do Exército, assinaladas a Estrada Distrital 156 e a Estrada Real 79, 1902.
Imagem: IGeoE

Logo que estejam concluídos os arranjos a que se está procedendo em vários pontos da estrada, recomeçarão as carreiras de automóveis entre Cacilhas, Caparica e Vila Nova, que há tempo foram interrompidas. (4)


(1) JCB Rodrigues, A implantação do Automóvel em Portugal (1895-1910)  cf. Gazeta dos Caminhos-de-Ferro (Lisboa), Fevereiro, 1905, 71.
(2) José Luis Covita, Memórias de um Século de Autocarros a Sul do Tejo, Lisboa, Scribe, 2013
(3) Tiro e Sport n.° 302, 15 de março de 1905
(4) JCB Rodrigues, A implantação do Automóvel em Portugal (1895-1910)  cf. Gazeta dos Caminhos-de-Ferro (Lisboa), Maio, 1905, 362.

Informação relacionada:
José Barros Rodrigues, Os Automóveis na Rede de Transportes Públicos...

Leitura recomendada:
José Luis Covita, Memórias de um Século de Autocarros a Sul do Tejo, Lisboa, Scribe, 2013

sábado, 19 de dezembro de 2015

Embrechados (2 de 5)

Embrechados são os mosaicos caprichosos as incrustações variegadas feitas de seixos multicôres, de búzios e conchas, de fragmentos de louças finas, de contas e crystaes coloridos que adornavam as grutas, os nichos e alegretes dos jardins e quintas portuguezas [...]

Caparica, Convento dos Capuchos,
Painel de azulejos, Nossa Senhora da Boa Viagem.

Appelidaram-n'a os latinos Ccefobrix, ou Ccetobica, e os árabes Hosnel-Madan (fortaleza da mina) ou Almadan (mina de ouro ou prata).

Frei Luiz de Sousa, que ainda quando era o brilhante Manuel de Sousa Coutinho, habitava o seu palácio n'esta villa, dá-lhe como etymologia a phrase dos cruzados inglezes que em 1147 ajudaram Affonso Henriques a tomal-a aos mouros, e os quaes, tendo acabado a faina, e querendo dar-lhe o nome da ventura e bom sucesso, exclamaram na sua língua — all is made. Tudo está feito e acabado.

Cinema português — Frei Luis de Sousa — Video 1


Na Monarchia Lusitana se diz também que os capitães inglezes que a povoaram, lhe chamaram ao principio Vimadel, que vale o mesmo que — Povoação de muitos. Em matéria de etymologia tudo é possivel.

Mas como os mouros a habitaram antes da chegada dos inglezes, que depois vieram povoal-a, é mais provável que a origem do nome árabe venha das minas d'oiro da Adiça, que ali havia próximo, e que deram mais tarde uma coroa a D. Diniz e um sceptro a D. João III. Dizem outros que Almada tomou o nome de um árabe, que a senhoreava, chamado Almades ou Almadão.


O que é certo é que depois de romana foi árabe, até que os cavalleiros inglezes, companheiros de Guilherme da Longa Espada, vindo auxiliar Affonso l na conquista christã, a tomaram, saquearam e depois habitaram.

D. Sancho I doou-a aos cavalleiros de S. Thiago, que alli perto tinham o seu fidalgo castello em Palmella, e D. Diniz encorporou-a na coroa. Teve destinos vários, sendo devastada em uma investida do Miramolim de Marrocos, que depois foi obrigado a recuar, refugiando-se em Hespanha.

Villa e castello de Palmella, ed. Mendes Estafeta, 20.
Imagem: Delcampe

Mas o facto culminante da sua historia é a heróica resistência dos habitantes durante o cerco de Lisboa, em 1384.

Corria o mez de maio, sereno e tépido. D. João I de Castella, depois de se desfazer de D. Leonor Telles, sogra que se lhe tornara inútil e até importuna, desde que d'ella arrancara a regência do reino, e tendo-a enviado para Tordezillas, a esmagar entre as paredes do convento as suas ambições violentas, a abafar na clausura as paixões ardentes que ainda a minavam, e a emmurchecer na sombra a sua belleza, sempre provocante, resolveu vir de Santarém, pôr cerco a Lisboa.

Cerco de Lisboa, Crónicas de Jean Froissart.
Imagem: Wikipedia

O exercito hespanhol, numeroso, brilhante e aguerrido, encaminhou-so para a capital, talando os campos, devastando as povoações, matando os habitantes.

Chamara o Rei além d'isso todo o poder de Castella em seu reforço. Ordenou ao Marquez de Vilhena, ao Arcebispo de Toledo e a Pêro Gonçalves de Mendonça, que lhe trouxessem pelo menos mil lanças. Mandara que o seu almirante Fernão Sanchez de Toar, se juntasse em Castella com o Conde de Niebla, com O Mestre de Alcântara, com o Prior dos Hospitalarios portuguezes e com outros, para qne depois de tomadas as praças do Alemtejo se reunissem a elle no cerco de Lisboa.

No dia 26 de maio começaram a entrar no Tejo as primeiras galés castelhanas. A 28 o Rei de Castella, que estava no Lumiar, marchou sobre a cidade. Veiu por Campolide com a sua hoste, a cavallo, acompanhado de muitos peões, e besteiros; e chegando a Monte Olivete, perto de onde hoje é a praça do Príncipe Real (actualmente chama-se: Praça do Rio de Janeiro, e onde ainda uma rua conserva aquelle nome), ahi se demorou um dia, para d'aquella altura observar uma grande parte da muralha da cidade. 

Corria ella então por onde hoje está S. Roque, em direcção ao Tejo. E ali perto abria-se a porta de Santa Catharina, junto ao convento da Trindade, onde os frades, animados de ardor patriótico, muito contribuíram para a resistência heróica da cidade.

N'esse dia, os de Castella andaram por aquelles arredores, que então eram campos deshabitados, cortando arvores, arrancando vinhas. Ali se deu a primeira escaramuça com os portuguezes que sahiram da cidade.

Na manhã seguinte desceu El-Rei de Castella a encosta, e mandou assentar o arraial junto do Mosteiro das Donas de Santos, da ordem de S. Thiago, edificio que actualmente é o palácio dos Marquezes de Abrantes (actualmente é propriedade da Legação de França) e freguezia de Santos-o-Velho.

Vista do Tejo tomada do palácio da embaixada de França, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

Era um deslumbramento esse arraial, onde se estabeleceu o Rei, a Rainha D. Beatriz, todas as suas Damas e um numeroso exercito composto de mais de trinta mil homens.

Para El-Rei e Rainha construiu-se uma casa assobradada, feita de quatro traves grossas e cercada de paredes de pedra secca. Em redor as numerosas tendas de senhores e fidalgos que com elles vinham, ostentavam os pendões, as armas e as signas de cada um. O restante do exercito estendia-se por Alcântara e Campolide, em bem alinhadas ruas que davam ao arraial o aspecto de uma cidade de prazer.

Havia a rua dos armeiros, a dos mercadores christãos e judeus, que vendiam pannos, e folias e muitas outras coisas. Havia a rua dos cambadores, para compra e venda de moedas de ouro e prata. Parece, porém, que minguavam os sapateiros, porque o chronista nota que de calçaduro nunca foi o arraial bem abastado.

A justiça, como quem diria hoje a policia, era tão bem feita, que cada um podia dormir descançado, ainda mesmo que sobre si tivesse grossos cabedaes. Ali havia phisicos, salorgiões e boticários, e nas coisas de prazer era o arraial abundantemente provido. 

De Sevilha vinham não só armas e mantimentos, como assucares, conservas, agua rosada e outras distilladas, de que os viçosos homens usavam nos tempos de paz, e até mesmo havia rua de mulheres mundanarias no arraial, tamanha, como se acostumava nas grandes cidades. A guarda d'esse arraial era vigilante em terra para que ninguém podesse sahir da cidade sem ser visto.

E no mar, cerca de Almada, jaziam sempre duas galés, para que a cidade não recebesse mantimentos pelo rio. Além d'isso outras naus, desde Cata-que-farás [antiga praia, corresponde hoje ao Cais do Sodré e extensas áreas vizinhas] até ás portas da Cruz [hoje freg. Santa Engrácia], cercavam pelo rio a cidade que peia terra estava apertada n'um cinto de ferro.

Resistia valentemente. É digno de ler-se o capitulo de Fernão Lopes, em que descreve a heroicidade dos habitantes, a bravura dos soldados, a energia do Mestre de Aviz, e o enthusiasrno com que a população, quando ouvia repicar os sinos da Sé, corria ás muralhas, com espadas, lanças e pedras, que arremessava contra os castelhanos, cobrindo-os de apupos, brados e risadas de escarneo. 

Os frades da Trindade distinguiam-se usando das melhores armas que podiam haver ás mãos, e os moços, sem medo, levando pedras fora dos muros para fazerem a barbacau, cantavam:

"Esta es Lisboa prezada, miralda, y leixada, se quisieredes carnero, qual dieron ai Andero, si quisieredes cabrito, qual dieron ai Arcebispo."

A Morte do Conde Andeiro, José de Sousa Azevedo  (1830-1864).
Imagem: Wikipédia

Do outro lado, Almada também estava pelo Mestre de Aviz. Ora por este tempo aconteceu que Diogo Lopes Pacheco, velho de oitenta annos, que fugira para Castella depois da tragedia de Ignez de Castro, tendo resolvido vir ajudar o Mestre de Aviz, e sabendo que Lisboa estava cercada, subiu por Cacilhas junto a Almada, com seus trez filhos e trinta homens, que o acompanhavam, querendo entrar na villa, dizendo que lh'a dessem, que fossem seus e que elle lhes faria mercês. 

Os do conselho da villa recusaram por julgarem que elles fossem castelhanos. O velho pousou com os seus no arrabalde da villa.

Vista de Lisboa e proposta de defesa abaluartada,
envolvendo as muralha fernandina e a cerca moura.
Em 1° plano vêem-se as ruínas do castelo de Almada, in Mallet, Alain Manesson,
Les Travaux de Mars ou L'Art de la Guerre, 1685.
Imagem: eBay

Ao cabo de trez ou quatro dias, tendo o Rei de Castella noticia da sua vinda em auxilio do Mestre, mandou de noite, em galés e bateis, passar muita gente. Formou-se uma pequena columna que, pela estrada que vem de Coina, se dirigiu a Almada. Os da villa, tendo noticia d'isto juntaram-se aos homens de Diogo Lopes e seus filhos, e com oitenta homens de cavallo, gente de pé e besteiros sommaram uns quatrocentos e cincoenta.

Os de Castella só de cavallo eram quatrocentos, fora os muitos besteiros e peões. A manhã era de névoa cerrada. Apesar da sua superioridade, os castelhanos perderam quarenta homens, e os portuguezes apenas sete.

Os fidalgos de Diogo Lopes fugiram para Cezimbra. O velho foi preso, assim como Affonso Gallo, recebedor da villa.

Então os castelhanos atacaram Almada, e, como não lhe podessem fazer damno, pozeram-lhe cerco. Este cerco foi um horror! Do lado de terra defendia-se a villa contra os ataques ordenados pelo Rei de Castella. Do lado do mar não a podiam combater por causa da grande altura a pique sobre o mar.

Outra espécie de guerra lhe fizeram mais cruel e efficaz. Tentaram reduzil-a pela fome e pela sede. A uma e outra o povo de Almada resistiu heroicamente. Depois que a esquadra de Castella veiu sobre Lisboa, os moradores de Almada acolheram-se ao castello em dois bateis bailheiros, em que ás vezes levavam mantimentos á cidade, e para que os castelhanos não os tomassem na peleja que se travou, e em que houve uns dezeseis feridos, queimaram-n'os.

A villa ficou cheia de gente, e provida ainda então de mantimentos: pão, vinho, carne e outras coisas que calculavam poder durar seis mezes. A agua, porém, começava a escassear. Apenas a havia n'uma pequena cisterna, á qual foi posta uma guarda severa que distribuía a cada habitante não mais que uma canada por dia. E o calor ia apertando... E havia dois mezes que a villa estava cercada...

Os seus habitantes faziam sortidas arriscadas, á caça dos castelhanos pelo termo, a Cezimbra e Arrentella. Um dia mataram mais de trinta em um lameiro. Estas sortidas eram realizadas pela porta da Barroca, que chamavam Mejão frio, e defrontava com o mar.

Os castelhanos, por mandado do seu Rei, tentaram então cavar uma mina para fazerem saltar uma alta torre que estava sobre a porta do castello. Isto foi presentido pelos portuguezes, que se apressaram em augmeutar a barbacan ou pequena muralha fora da alcáçova. Ali foram sahir os sitiantes com a bocca da cava travando-se então rija peleja, em que houve muitos feridos, o que contrariou sobremaneira o Rei D. João de Castella, que resolveu ir elle próprio combater Almada, para onde se dirigiu, com as suas gentes e capitães.

Mandou então construir no campanário da egreja de S. Thiago um cadafacens de madeira, d'onde podesse vêr toda a villa e assistir ao combate. Trepou-se a elle, e ordenou que o logar fosse atacado "com gente d'armas e de pé, e tiros e bestaria, e fundas de demogrillas e outras artilherias de combate!" Durou esse ataque desde a hora da terça até depois do meio dia.

A essa hora o Rei desceu á egreja para comer. Foi a sua salvação, porque os da villa — imaginando que elle ainda se achava sobre o cadafacens de madeira — resolveram atirar-lhe um tiro. 

Esse tiro, que, atirado horas antes, teria morto o Rei de Castella e adeantado, decerto, a victoria do Mestre de Aviz; que teria libertado Almada e Lisboa; que teria supprimido Aljubarrota e a continuação da epopéa do Mestre e do Condestavel; que teria decidido a sorte dos exércitos e da guerra da independência, diminuindo o briltio da victoria, mas antecipando a fundação da dynastia de Aviz e alterando a sorte de Castella, esse tiro apenas matou dois homens obscuros, e feriu trez. O Rei já lá não se encontrava. 

Estava na egreja, jantando. Amargou-lhe porém, decerto, a comida. Ainda tentou o recurso de atirar cora uma bombarda do peso de cinco quintaes, mas não tirou resultado do primeiro tiro de pedra, e ao segundo, a machina de guerra inutilisou-se.

Subiu a cólera no animo do Rei, e vendo que os de Almada se não queriam entregar, e resistiam aos seus ataques, lavrou ali solemne protesto de nunca preitejar com elles, nem com elles negociar qualquer forma de capitulação.

Haviam de render-se. Haviam de ser vencidos, e para isso lhes deixava Pêro Sarmento e João Rodrigues de Catauheda, com abundância de gente para o exterminio. E, dadas essas ordens, voltou raivoso ao arraial do lado de cá do Tejo.

Paisagem no castelo de Almada, José Malhoa, Album de desenhos (17),  1870.
Imagem: Museu José Malhoa

O calor ia apertando, e o verão, adeantando-se, queimava a pequena villa de Almada. 

Narra então o velho Ferrão Lopes, na sua linguagem rude e expansiva, as angustias d'aquelle transe. E tão intensamente dramática é a situação, que a crueza da sua expressão não chega a ser indecorosa.

"Onde sabei, diz elle, que dentro na villa eram uns quarenta cavalleiros afora bestas de serventia, e quando a agua foi minguada houveram conselho de não darem de beber ás bestas, e foi tanta a sede d'ellas, que ali, onde mi... os homens, iam as bestas chuchar, e comiam aquella terra molhada."

Foi tal o horror de verem assim os animaes padecer, que ordenaram lançal-os fora para os não verem morrer, e como receiaram que deitando-os para a villa, os castelhanos se aproveitassem d'elles, lançavam-n'os de cabeça para o mar!

E o calor ia sempre apertando!... E a agua da cisterna a diminuir.

Começaram então a amassar o pão, e a cozer as comidas com o vinho das adegas. Até o próprio peixe tinham de cozer n'esse mesmo vinho, sendo obrigados a comer tudo emquanto quente, pois que depois de esfriar lhes repugnava.

N'isto a cisterna seccou de todo.

Recorreram então, tal era o horror da sede, a uma agua estagnada e verde, que desde as ultimas chuvas tinha ficado em charcos fora dos muros do castello. N'esses charcos, antes do cerco, as mulheres da villa lavavam as roupas infundidas e os irapos dos meninos e agora, desde que ellas não podiam arriscar-se alli, estavam esses pântanos coalhados de cães e gatos, e outros anlmaes mortos.

Pois era tão grande a sede d'aquella gente, que para obter essa agua immunda, alguns homens, em cada dia, arriscavam a vida. Como estava fora dos muros, iam de noite descendo por cordas, a furtal-a; coziam-n'a, e depois de fervida a bebiam e amassavam o pão com ella. Mas os castelhanos em breve deram com isso. E nas noites cálidas de julho, os portuguezes, para poderem dar de beber a suas mulheres, e a seus filhos, tinham de sustentar luctas rijas, em que houve muitos feridos de uma parte e de outra.

Mas como o calor apertava sempre, os próprios pântanos seccaram. Recorreram então á agua do mar, e tentaram recolher em tinas agua doce, lá em baixo, na ribeira. Cavaram na barroca um caminho, e por elle desciam ás occultas.

Almada, Boca do Vento, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 12, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

No primeiro dia sahiu-lhes bem o estratagema, e trouxeram agua á vontade. Avisados, porém, os castelhanos pozeram guardas áquelle caminho, e quando dezesete portuguezes iam na segunda noite recolher a agua, foram atacados com dardos e settas, por mais de um cento de inimigos.

Mortos trez portuguezes, os outros quatorze, mal feridos, conseguiram ainda assim recolher dois odres meios de agua. As tinas, porém, foram quebradas pelos castelhanos. Era o ultimo recurso!

E o calor ia apertando! Julho meiava-se abrazador. Morria gente de sede. Algumas mulheres e creanças fugiam de noite para os campos.

Accenderam-se almenáras, fachos sinistros que davam signal a Lisboa da angustia dos habitantes de Almada, que no emtanto heroicamente resistiam, sem quererem render-se.

Bem viam e sentiam os de Lisboa aquelle drama pungente, mas em nada podiam valer a seus irmãos.

Ainda assim, o Mestre de Aviz tentou enviar uma barca com recursos, pólvora e armas. Foi tomada pelos castelhanos.

Então, um cavalleiro gascão chamado Mossen Mone, lembrou-se de levar atado com uma corda, o recebedor Affonso Gallo, que fora preso por occasião das escaramuças em que Diogo Lopes Pacheco também tinha sido capturado.

Em frente á muralha disse aos de dentro que se rendessem, que o Rei de Castella lhes faria mais mercês, e que se não, Affonso Gallo seria morto alli mesmo, á sua vista.

Os de dentro teimaram em que nâo se renderiam, e com um tiro certeiro deram com o gascão morto. O portuguez ficou vivo.

Novo motivo de queixa para o Rei D. João de Castella, que ao relatarem-lhe o facto, jurou que todos haviam de morrer pela espada.

Julho acabava. O Mestre de Aviz, dentro de Lisboa, affligia-se com as tribulações dos bravos de Almada, mas de modo nenhum podia corresponder-se com elles, e conhecer realmente a sua situação.

Appareceu-lhe então um homem natural de Almada, que viera na frota do Porto e disse que, nadando, levaria o recado do Mestre aos da villa da Outra Banda. Acceitou o Mestre esse offerecimento, e por escripto mandou o seu recado para o informarem das condições em que se achavam.

Atravessou esse homem, de noite, o rio, nadando com valentia, até á Ribeira do Monte. D'ali subiu dissimuladameute pela Barroca, ao Mejão Frio, e faltando aos do castello, estes, conhecendo-o, lhe abriram a porta. Tomado o recado, informaram o mensageiro da sua situação angustiosa. 

Les vignobles des bords du Tage, foto Paul Witte, Munich, Grande géographie Bong illustrée, c. 1911.
Imagem: Delcampe

E aquelle homem, com a simplicidade ingénua dos heroes, ouvida a resposta, de novo voltou a nado para Lisboa. E assim arriscou n'essa noite mil vezes a vida, não só luctando com as correntes do Tejo, como expondo-se á vingança dos castelhanos, que se aqui ou na outra margem o presentissem, tel-o-hiam logo morto.

Ouvido pelo Mestre o relatório dos padecimentos dos seus fieis d'além, passados trez dias mandou o mesmo homem, de noite, com recado a Almada, para que, em vista da situação, os seus habitantes preitejassem com o Rei de Castella. E ainda em levar recados e trazer respostas, o heroe, cujo nome ficou ignorado, passou o Tejo seis vezes, a nado, sempre de noite.

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes, Jacques Nicolas Bellin, 1756.
Imagem: O Mundo do Livro

Então, de accordo com o Mestre de Aviz, resolveram os de Almada capitular, e para isso mandaram emissários.

Mas o Rei de Castella, que sabia que todos os dias morria gente á sede, e esperava que assim elles se rendessem, recusava-se a preitear com elles.

Interveiu então a Rainha D. Beatriz. Confrangia-se porventura o seu coração de mulher com a narrativa dos horrores que alli perto estavam soffrendo mulheres e creanças, e não era talvez insensível ao seu animo de portugueza, que fora, a heroicidade com que portuguezes se defendiam tão tenazmente.

Implorou do marido que perdoasse, e entrasse em negociações. Foi afinal concedido que, aos habitantes, se lhes segurassem corpos e haveres e cada um ficasse em sua casa.

No dia primeiro de Agosto, o Rei D. João e a Rainha D. Beatriz, sahiudo do seu luxuoso arraial de Santos, embarcaram em festivas galés, dirigindo-se á Outra Banda, onde lhes foi entregue a villa e as chaves d'ella.

Almada defendera-se heroicamente, e capitulava agora com honra, escrevendo mais um capitulo brilhante na historia de Portugal.

Pouco depois ainda a vemos figurar quando Nuno Alvares Pereira, descendo d'Evora, resolveu vir a Almada, sobre Pedro Sarmento, capitão castelhano, que com elle não quizera pelejar.

Na Senda do Cavaleiro, José Garcês, 1950.
Imagem: BDBD

Veiu pelo castello de Palmella, onde se apresentou e d'onde ao dia seguinte, por desfastio, sahiu a correr monte, matando um porco. Conta-se até que resolveu presentear o seu competidor com este porco.

O caso é que veiu por Azeitão, de noite, e por os guias não serem bem certos e andarem fora dos caminhos, só chegou a Almada com soldado. Esperava alli surprehender Pedro Sarmento. Mas este estava em Lisboa. A sua hoste, porém, ficara alli, e por não esperar esta investida, quasi todos dormiam.

Levantaram-se á pressa, e combateram desordenadamente. Fugiam quanto mais podiam, e alguns ainda por vestir, como aquelle João Rodrigues Catanheda, que nem poderá envergar o gibão. Singular peleja aquella, em que até alguns capitães se evadiram pelos telhados!

Refere Fernão Lopes que, reunida a sua gente, ordenara Nuno Alvares que todos se collocassera no monte, sobre o mar, para serem vistos de Lisboa, d'onde effectivamente os lobrigaram com grande prazer os cercados na cidade, e com enorme furor o Rei de Castella, e Pedro Sarmento, o fronteiro, que também, meio vestido, se metteu em uma galé, dirígindo-se a Almada. 

Já alli não encontrou Nuno Alvares, que muito descançadamente regressara a Palmella, onde á noite accendeu almeuáras para avisar os de Lisboa, que alli se achava. De cá responderam-lhe com muitas tochas no eirado dos Paços, onde o Mestre pousava.

Termina o pittoresco Fernão Lopes, dizendo: "Nuno Alvares apagou seus fogos por cobrar o somno que de antes perdera, onde fique com boas noites; nós tornemos ver esta atribulada Lisboa em que ponto está!!"

Fernão Lopes

Durou ainda um mez o cerco que o Rei de Castella lhe pozera havia mais de trez.

A peste que dizimava o brilliante arraial, atacou a Rainha, a quem deram duas tramas. No sabbado trez de Setembro, o Rei de Castella, roído de raiva, ordenou que o cerco fosse levantado e que o fogo consumisse o arraial. Ardeu durante todo o domingo.

D. João de Castela levanta o cerco à cidade de Lisboa, Constantino Fernandes, 1878-1920.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

O exercito castelhano arrastou-se, combalido, com a Rainha doente, por Santo Antão, Torres Vedras, até Santarém. Lisboa estava salva! (1)


(1) Sabugosa, Conde de, Embrechados, Lisboa, Portugal-Brasil Lda., 1911

Versão integral impressa:
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte I)
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte II)

Artigos relacionados:
Manuel de Sousa Coutinho
O cerco castelhano de 1384
O Meijão Frio
A ribeira do arrabalde descontra Coina

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Embrechados (1 de 5)

Embrechados são os mosaicos caprichosos as incrustações variegadas feitas de seixos multicôres, de búzios e conchas, de fragmentos de louças finas, de contas e crystaes coloridos que adornavam as grutas, os nichos e alegretes dos jardins e quintas portuguezas [...]

Almada, Serões, revista mensal ilustrada, n° 2, 1905.
Imagem: Hemeroteca Digital

Entre os quadros que Lisboa, a linda Lisboa, Lisbon the fair, como lhe chamou um escriptor americano [escocês, Mickle, William Julius, Almada hill: an epistle from Lisbon, Oxford, W. Jackson, 1781], offerece para regalo dos olhos dos seus habitantes, figura o panorama da Outra Banda.

Panorama de Lisboa, ed. Tabacaria Costa, c. 1900.
Imagem: Bosspostcard

Na sinuosa linha que além do Tejo corre desde as indecisas planuras do Montijo, subindo longe ao altivo castello de Palmella, e dobrando pelo Barreiro e Seixal, vem quebrar-se no Pontal de Cacilhas, para, depois d'uma ascenção rápida, se prolongar com acidentes vários ao largo, até ás costas da Trafaria, e alcançar o isolamento do Bugio;

Baixa e Rio Tejo (montagem), Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

n'essa linha que traça uma das mais bellas paysagens do mundo, o olhar de quem sabe olhar, e de quem sente o que olha, descança docemente n'um dos refegos da encosta, onde se aninha a casaria branca de Almada.

Regata dos barcos da Channel Fleet em Lisboa, 1869
Imagem: amazon

Ou seja nas tardes claras em que a humidade da atmosphera serve de lente e approxima de nós as minuciosidades do quadro, mostrando-nos nitidamente as fachadas das casitas claras, os campanários graciosos de Santa Maria e S. Thiago, o castello, as copas verdes e ramalhudas das arvores, e mais para a direita do espectador, em contraste com a risonha villa, o severo e sisudo convento de S. Paulo; 

Almada, Lado Sul, Lado norte, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 09, 10, c. 1905.
Imagens: Delcampe

ou seja, nas manhãs de outomno, em que a paysagem se distanceia mais e uma ténue neblina esbate os contornos dando aos objectos phautasticas formas, cheias de indeciso e de mysterio; ou seja nas noites de plenilúnio, em que, batidas de luar claro, as casas, a torre e o castello tomam o ar d'um scenario de bailada, e dominam com poesia severa a prata liquida do Tejo;

Almada, a loureira visinha de Lisboa, tem sempre um encanto a que só se escapa o paladar embotado de espectador alfacinha que nasceu a ver a Outra Banda, e que, distrahido, n'ella não attenta.

E, comtudo, quem nos carros eléctricos, percorrendo cada dia a margem direita do Tejo, levado aos seus negócios ou attrahido pelos seus prazeres, olhar pelos intervallos das monstruosidades que se amontoam ao longo da linha marginal, como biombo asqueroso, e quem subindo a Santa Catharina, onde discreteavam os velhotes do Tolentino, 

Vista de Almada, cais da Ribeira Nova e Fabrica de Gás da Boavista (detalhe), 1905.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

ou ao adro das Chagas, onde galanteava Camões, reparar na margem fronteira, e deixar cahir a vista n'essa pequenina villa, tão garrida, sente decerto, além do pittoresco do espectáculo, aquelle phenomeno de evocação, que nasce das coisas que atravessaram a Historia.

Panorâmica de Lisboa e do rio Tejo vendo-se a igreja das Chagas de Cristo, 1905.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

De facto, Almada tem no grande livro dos fastos da Península alguns pequenos capitulos, ou pedaços d'elles, que lhe dão foro de fidalguia, e chamam o nosso interesse. (1)


(1) Sabugosa, Conde de, Embrechados, Lisboa, Portugal-Brasil Lda., 1911

Versão integral impressa:
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte I)
Almada pelo conde de Sabugosa, em 1905 (parte II)

Artigo relacionado:
Colina de Almada

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Panorâmica da villa d'Almada

A villa d'Almada, assente num planalto, para o qual se vai subindo desde o cais de Cacilhas, coroa nobremente o território do concelho. (1)

Almada, Lado Sul, Lado norte, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 09, 10, c. 1905.
Imagens: Delcampe

É uma coisa sabida por toda a gente que os garotos de Almada, são os mais desinquietos e indisciplinados de todo o mundo.

Apedrejam as árvores, partem os vidros das janelas, empoleiram-se nas camionetes, e fazem os miolos em água a muita gente. Nos jardins públicos são eles a arrelia dos pobres jardineiros que esgotam com eles um extenso vocabulário de salão, em alta grita, durante horas e horas.

São tão impertinentes como os mosquitos que nos obrigam a passar as noites ás palmadas á cara e a coçar os braços.

No passeio do Castelo, durante as festas são eles de uma arreliadora impertinência.

Penetram no recinto, misteriosamente, ás centenas, e vá de andar toda a noite em correrias, rebentando os arames das vedações invadindo tudo, empoleirando-se no palco, misturando-se com os músicos, rasgando a tela, e fazendo diabruras de todos os feitios e de todos os calibres.

Popular "Tio" Resgate explicando a Bíblia no adro da egreja do extincto convento de S. Paulo em Almada, 1911.
Imagem: Illustração Portugueza, Hemeroteca Digital

Se alguém os corrige, se alguém os obriga a sair dos recintos reservados eles arranjam maneira de dentro de cinco minutos, estarem todos outra vez no mesmo local. São únicos, estes garotos de Almada, e são precisas medidas especiais para nos defendermos deles. (2)

Almada, rua D. José de Mascarenhas, dia de "Mata o Judas",
fotografia de Júlio Pereira Dinis, c. 1975.
Imagem: Museu da Cidade de Almada


(1) Pimentel, Alberto, A Estremadura portuguesa, Volume II, Lisboa, Empreza da História de Portugal, 1908
(2) O Almadense: Semanário Republicano Regionalista, Ano II, n.º 64, domingo, 29 de Setembro de 1929


Artigo relacionado:
Almada em 1908
Cacilhas 1900, cliché Paulo Guedes
Ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Caparicanas

Ercília Costa (1902 - 1985)

No inicio do nosso século havia um pescador caparicano que nas horas de ócio dedilhava a guitarra. Tocava e desabafava, inconformado com aquilo que, na sua singeleza, chamava triste sina...

A Praia do Sol, As primitivas barracas dos pescadores, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 111
Imagem: Delcampe

Havia constituído lar, e nele nasceram três meninas. Uma, a mais viva, de nome Ercília, muito cedo brincou com a guitarra e cantarolou, numa inocente imitação do progenitor. Aos quatro anos, acompanhava a mãe quando esta viajava até Lisboa, e durante a travessia do Tejo, nos vapores da carreira, lá os passageiros achavam graça às cantigas da pequenita, presenteando-a com moedas de cobre. Foram os primeiros aplausos e os primeiros ganhos da futura actriz-cantora.

Mais mulherzinha, veio residir em Lisboa e aprendeu o ofício de costureira de alfaiate. E tudo parecia ser mais uma rica vocação abortada pelo condicionalismo do dia-a-dia.

Ercília Botelho Farinha Salgueiro nasceu na Costa de Caparica a 3 de Agosto de 1902. Filha de Manuel Farinha e de D. Virgínia Maria Botelho. O apelido de Salgueiro adoptou-o apos o casamento com o funcionário bancário José Salgueiro, falecido em 27 de Junho de 1977.

Mas a vocação da jovem Ercília não se iria perder, e o interregno acabaria no dia em que, estando a trabalhar no oficio, alguém (ouvindo-a cantar...) lhe pergunta se queria tomar parte num coro de alunos do Conservatório Nacional, ali perto à Rua dos Caetanos. Tratava-se do Auto do Fim do Dia, prova de exame que teria lugar dali a dias no Teatro de S. Carlos.

O mestre da oficina dispensou-a por umas horas, e a bela voz de Ercília logo foi notada no improvisado coro. Dirigiam os ensaios o Maestro Hermínio do Nascimento, na parte musical, e Mestre António Pinheiro, quanto ao poema. E todos foram unânimes em classificar de esplêndida aquela voz surpreendida numa oficina de alfaiate.

Várias circunstâncias impediram a incipiente cantora de se cultivar. Rapariga pobre, nunca poderia empatar sete anos nos estudos. Mas uma nova oportunidade iria surgir pouco depois e, em 1928, estimulada pelos actores Mario Campos e Eugénio Salvador teste ao tempo doublé de futebolista do 1." team do Sport Lisboa e Benfica). começou a cantar o fado e outras canções.

Ercilia, que, entretanto, se baptizara como artista, unindo o primeiro nome ao da sua terra natal, passou a ser anunciada e conhecida por Ercília Costa.

Ercília Costa.
Imagem: du bleu dans mes nuages

Primeiro cantou fados no Olimpia, de Lisboa. Ferro de Engomar, em Benfica. e nos conhecidos retiros da Capital Café Luso, Solar da Alegria e Retiro da Severa. Dois meses após a sua estreia, gravou discos para a Brunswich e Odéon e, terminada essa tarefa, estreou-se no teatro, contratada pelo empresário José Loureiro.

Entretanto, recebia o cartão de artista de variedades. No Trindade, estreou-se na revista A Cigarra e a Formiga. Tempos depois, na Feira da Luz, no Apolo; no Variedades, com Satanela, Raul de Carvalho e Assis Pacheco no Canto da Cigarra; no Coliseu dos Recreios, na História do Fado; no Avenida, no Fogo-de-Vistas; no Maria Vitória, no Rei dos Fadistas: de novo no Coliseu, no Fim do Mundo e Última Maravilha.


Em 1931, visitou as Ilhas, tendo representado em todos os teatros da Madeira e Açores. Depois ici percorrendo todos os palcos do Minho ao Algarve. Em 1934, esteve presente em Vigo, nas festas luso-galaicas, aquando da inauguração da estátua a Camões: e segue logo para Madrid, onde actua em teatros e grava um disco no mesmo dia e na mesma firma em que gravava o argentino Carlos Gardel.

Ercilia é do tempo em que o artista actuava sem o auxílio do microfone. Então era exigido ao cantor, para lá do valor e da qualidade da peça a executar, um domínio absoluto sobre o auditório.

A forte personalidade do cantor tornava-se um factor de extrema importância. Ercilia Costa tinha esta última qualidade em elevado grau, ao ponto de, no enorme Coliseu dos Recreios, com a lotação esgotada (6000 espectadores), quando ela cantava, não se ouvia sequer uma mosca...

Um aspecto da formidável enchente do Coliseu dos Recreios, em cujo palco foi representada a revista O Fim do Mundo, com a participação de Ercília Costa e Leonor d'Eça, 1934.Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

E, como a sua concentração, nesses momentos de transe, a levava, mimicamente, a pôr as mãos como numa prece, alguém, impressionado, disse um dia que ela parecia uma santa a cantar o fado...

Diante do microfone, Ercília foi uma pioneira: no Posto Radiofónico CT1AA, de Abílio Nunes dos Santos, dos Grandes Armazéns do Chiado, foi o primeiro artista a actuar para ser ouvido no estrangeiro.

A nossa biografada, para lá do valor das orquestras que com ela colaboraram em inúmeros espectáculos e audições, pede que não nos esqueçamos do espantoso Armandinho, cuja guitarra por si dedilhada se transformava num coração humano com vida própria.


Quando do seu funeral, Ercília pediu licença à viúva do grande guitarrista para lhe beijar as mãos.

Continuando a citar os vários países e lugares onde a actriz-cantora actuou, temos que: em 1936, foi pela primeira vez ao Brasil, integrada na Companhia de Revista Adelina Abranches-Eva Stachino; por mais duas vezes visitou este país, em 1938 e 1945; nestas digressões percorreu de lés a lés a grande nação sul-americana.

Em 1937, esteve na Exposição Universal de Paris, actuando numa récita de gala no Teatro Campos Elisios, cantando ainda na emissora Rádio-Parisiènne. Em 1939, cantou na Exposição Mundial de Nova Iorque, demorando-se um ano na América do Norte, onde visitou 26 estados, indo até à Califórnia. Voltou aos Estados Unidos oito anos depois. Bing Crosby, Gary Cooper, Leo Carrillo e outros astros de Hollywood foram seus admiradores, presenteando-a com elogiosos autógrafos nas suas fotografias.

Ercilia Costa foi, no seu tempo, o artista português que gravou mais discos, sendo ainda (e isto constitui uma curiosa revelação...) a autora de várias músicas dos seus fados.

Interpretou dois filmes: Amor de Mãe, para a Aguia Filme, e Madragoa, de Perdigão Queiroga.




Leonor de Eça (1905 -1940)

Leonor da Cunha Eça Costa e Almeida veio ao mundo na Caparica a 8 de Agosto de 1905. Filha de João Lopo da Cunha de Eça e Almeida e de D. Maria Madre de Deus Dinis Almeida.

Leonor de Eça,
Margarida no filme As Pupilas do Senhor Reitor,
Leitão de Barros, 1935.
Imagem: Hemeroteca Digital

Actriz teatral e cinematográfica. Estreou-se em Abril de 1926 no Teatro Nacional, substituindo a actriz Ester Leão na protagonista de O Amor Vence, onde obteve êxito.

Desempenhou cerca de duas dezenas de papéis neste palco, dirigido por Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro. Foi duas vezes ao Brasil e trabalhou em quase todos os teatros de Lisboa, Porto e outras cidades.

A chegada, a Lisboa, da artista brasileira Aracelis Castor Bastos, na foto Estêvão Amarante, Aracelis Castor Bastos, Maria Velez, Maria Castelar, Leonor de Eça, Raul de Carvalho, 1936.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

No cinema, toma parte nos filmes As Pupilas do Sr. Reitor, de Leitão de Barros, e Pão Nosso, de Armando de Miranda. No primeiro filme foi premiada no Rio de Janeiro pelo seu desempenho de "Margarida". (2)




(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.
(2) Idem 

Informação relacionada:
Interpretações de Ercília Costa
Leonor de Eça no Dicionário do Cinema Português de Jorge Leitão Ramos

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Quarentena

Rafael Bordalo [Raphael Bordallo] Pinheiro (1846 - 1905), presença no Brasil de 1875 a 1879.

Rafael Bordalo Pinheiro.
Imagem: Hemeroteca Digital

Meu caro Tejo de Cristal. Cheguei há dias do Brazil.

The Pacific Steam Navigation Company's Royal Mail Steam Ship, John Elder 3,500 Tons, 600 HP. Built by John Elder & Co., Glasgow, 1869.
Imagem: 19th Century Ship Portraits in Prints

Desembarco considerado para todos os effeitos um emissario do Vomito Negro.

Panorama visto da Trafaria, Vista de Lisboa e do Tejo tirada do Lazareto, ed. Tabacaria Costa, década de 1900. .
Imagem: Delcampe

Os quartos de 1.a classe. Os de 2.a. Os de 3.a. isto é: 3 classes distintas e uma só verdadeira.

No Lazareto de Lisboa, o quarto, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A peça de luxo, a melhor peça de architectura do edifício.

No Lazareto de Lisboa, a peça de luxo, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal>

No vão inferior desta escada é a hygienica sala de jantar da 3.a classe.

No Lazareto de Lisboa, a sala de jantar da 3.a classe, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


Oh! como eu me recordo do sumptuoso serviço do Joaquim dos Melões, de Cacilhas. (1)

No Lazareto de Lisboa, Joaquim dos Melões, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O namoro da janella abaixo, imprevidente, como não pôde deixar de ser, arrisca uma mulher a ligar-se para sempre a um vadio; ou um homem laborioso a cabir na armadilha que lhe preparou a menina que só via no casamento a possibilidade de assistir na rua dos Condes à representação de uma magica, ou de ir no dia de S. João à Outra Banda merendar a casa do Joaquim dos Melões.
Em conclusão, o namoro da janella abaixo devia ter sido prohibido pelo Código civil como attentato-rio da dignidade da familia, e conductor seguro e rápido do divorcio judicial.

in Galeria de Figuras Portuguezas
 

Montar, galopar, correr, correr ainda que seja n'um jerico de Cacilhas, por essas azinhagas floridas da outra banda do Tejo, gaiato ao couce, sobre um albardão berrante e jaezes polychromos, onde a figa negreja na testeira do jumento entre ourellos de algodão, vermelho como as cerejas de Ceragonte!
Montar, cavalgar, é a preoccupação o pensamento de metade da humanidade, desde o juvenil escolar até ao pacato burguez, que por dias santificados vae divertindo a rotunda esposa até abancarem no Joaquim dos Melões, saboreando a bella salladinha com pimpínella e aipo, e a boa pescadinha frita digna de figurar no banquete, entre as matees e os ganços da Germânia, quando Lucullus jantava em casa de Lucullus!

in Recordando


Ter uma pessoa uns cobres a mais nas algibeiras e desejar divertir-se, não é caso para se surprehender ninguem; é mesmo um caso naturalissimo!
Escolher o outro lado do Tejo para dar uma passeata, é igualmente um caso muito natural! 
Ter fome e ir petiscar, continua a ser o caso mais natural do mundo! Dar a preferencia á antiga casa do defunto poeta Joaquim dos Melões, não é para admirar, pela fama do estabelecimento e, ainda mais, pela fama dos petiscos! 
Mas... fazer um roubo em domicilio proprio, isso é que é realmente um facto digno da maior censura e punido rigorosamente pelo nosso codigo civil. 
Pois é verdade. . . roubamos! 
Mêa culpa, mêa culpa, mêa maxima culpa!!! 
O arrependimento. porém, salva, e aqui vimos depôr o roubo tal qual o encontrámos sobre uma das mesas da casa do poeta, onde petiscâmes no dia 15 de setembro, por occasião da festa no largo da Piedade.
Eil-o sem lhe faltar nada:

"Lista"
Sopa de Masa. 
dita Juliana. 
canga de galina. 
haros. 
came cocida. 
carne hasada de Baca. 
dita porco. 
costa letas panadas. 
Lingoa hagardincira. 
carnes estopada hargerdineira. 
pato courado com haros. 
galina courada. 
Dita d'fricace. 
dita de celbid'la, 
cuello gisado. 
carneiro gisado
pato com feigon carapato 
carne pre fifes
Frangos de fricace.
"sobre mensas"
ceijo falmengo
dito branco al farina
Peras
Pecegos
Larangas
hubas
Macanis
Melons
Toda hacalidade de dose

Se ainda fosse vivo o velho Joaquim dos Melões, diria na sua linguagem pittoresca e metrificada:

É uma coisa nunca vista,
a redacção d'esta lista!
É discipulo o intrujão
Do seu "Brabozá Lião"!
Merece o autor do "menú"

Um pontapé no... etc.

Zé Povinho, Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro Lda.
Imagem: Restos de Colecção


in Almanach do Trinta 1881, Lisboa, Typographia Popular, 1880

Alguns dos companheiros de quarentena no Lazareto.
Imagem: Correia, António, Divagando sobre Caparica: pedaços da sua história, Almada, edição do autor, 1973.


(1) Pinheiro, Raphael Bordallo, No Lazareto de Lisboa, Lisboa, Empreza Litteraria Luso-Brazileira Editora, 1881.

Artigos relacionados: 
Lazareto de Lisboa, em 1897
Decauville Cacilhas Lazareto em 1894

Informação adicional:
O Lazareto, Gazeta dos Caminhos de Ferro n.° 1374, 16 de março de 1945
Restos de Colecção, Raphael Bordallo Pinheiro