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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Almada na História de Portugal Restaurado

Despedidas as Cortes, passou ElRey de Thomar a Almada, Villa que o Tejo, aonde he mays estreyto, divide de Lisboa: em Almada aguardou ElRey alguns dias as prevenções da entrada que havia de fazer em Lisboa [v. Filipe II, Almada, 26 de junho de 1581]. 

Lisbona citta principale nel regno di Portogallo
fu presa dall'armatta con l'esercito del re catolico all ultimo d'agosto l'anno 1580, Mario Cartaro.
Universität Salzburg

Entendeu-se que se detivera, esperando reduzir o Prior do Crato D. Antonio por meyo do Duque de Medina Sidonia, com quem professara sempre estreyta amizade: mas desvaneceuse esta negoceação, e D. Antonio conseguiu salvar-se, passando em hum navio do Porto a França [...]

Trivmpho Primero Imperial, Lorenzo de San Pedro.
Hipotética entrada triunfal de Filipe de Habsburgo na cidade de Lisboa, ant. 1581.
Poderes concorrentes na entrada régia de 1581

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Elegem o Duque Capitão General do Reyno: passa a Almada: visita a Duqueza de Mantua e volta para Villa Viçosa. Altera-se Cathalunha. Chama ElRey o Duque, e a Nobreza a Madrid com o fim de fazer Portugal Provincia. Resolve-se a Nobreza a entregar a Coroa ao Duque de Bragança. Aceyta a offerta que lhe fizerão. Acclama-se ElRey felicemente em Lisboa, e em todo o Reyno. Morre Miguel de Vasconcellos. Prendem a Duqueza. Entra ElRey em Lisboa.

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Nesta contenda estavaõ os discursos dos Portuguezes sem poder tomar forma, crecendo com os apertos do Conde Duque por instantes a matéria, quando chegou ordem ao Duque de Bragança, entrando o anno de 1639 para que com titulo de Governador das Armas General das de todo o Reyno passasse a Almada a prevenir a defensa delle, por se haver entendido que em França se aparelhava hua grossa Armada contra Portugal.

D. João, duque de Bragança, Peter Paul Rubens,  c. 1628.
Wikipédia

O Duque discursando que se lhe seguiriaõ grandes inconvenientes deíla occupação, tratou de divertila, não perdoando por conseguir esse fim a diligencia alguma; porem não admittíraõ era Castella as muytas escusas que representou, e foy-lhe preciso aceytar o posto, e passar a Almada, julgáraõ muytos por desacerro do Conde Duque esta eleyção, dizendo que entregar as armas ao que avaliava aquella Coroa pelo mayor inimigo, era querer segurar-lhe a vitoria, antes de ter principio a contenda e que Discursos o Duque com os espiritos vigorosos das vozes que o acclamáraõ Rey nas alterações de Evora, disporia as armas do Reyno como lhe mandavaõ, para usar dellas como lhe parecesse [...]

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Averiguou-se depoys não haver duvida em ser esta a tençaõ do Conde Duque, e a causa de fazer Governador das Armas ao Duque de Bragança;porèm o successo mostrou, que o primeyro discurso que o condenava, acertara melhor os fins, do que elle dispuzera os principios: porque o Duque tanto que chegou a Almada, foy visitado de toda a Nobreza, e muytos se resolveraõ a descobrir-lhe o animo com que se dedicavaõ a seu serviço, outros a tentalo querendo especular o seu intento; porem o Duque não conhecendo os de que devia fiar-se, sondava os corações de rodos, sem se declarar com algum delles; e ainda que esta destreza foy naquelle tempo contada como irresoluçaõ, depoys foy celebrada como grande prudência, porque como os homés avaliaõ ordinariamente só pelo que entendem, e não como aquelles com que trataõ, se acautelaõ; esses fidalgos, que entregavaô ao arbitrio do Duque os ânimos sem malicia, condenavaô-lhe não os aceytar sem reparo, como se as razões com que se lhe offereciaõ não fossem as mesmas, que muytas vezes servem de rebuço ao falso trato.

Margarida de Sabóia, Duquesa de Mantua  (1589-1655),
Federico Zuccaro (1542-1609), c.1605.
Historical portraits

Passou o Duque de Almada a Lisboa a visitar a Duqueza de Mantua, desembarcou no Paço, dilatou-se pouco na visita, e havendo ordenado a Duqueza que com destreza se lhe mudasse a cadeyra de espaldas, quando se assentava, do lugar que lhe competia; Thomé de Sousa com resoluçaõ, e valor arrojou a cadeyra para a parte em que era razão que estivesse.

D. João IV,  retrato mniatura no Museu  de Évora.
Estudo arqueométrico de pinturas a óleo sobre cobre dos séculos XVII/XVIII

Voltou o Duque para Almada na mesma tarde. Concorreu toda a Corte, huns a assistir-lhe,outros a velo, e todos a festejalo com tam claras demonftrações a todas as luzes, que fizeraõ mays condemnada a resoluçaõ do Conde Duque, que todos os affeyçoados aos interesses de Castella haviaõ anticipadamente reprovado. Na entrada do inverno se recolheu o Duque a Villa-Viçosa livre dos laços dos Castelhanos, porque advertido de seguras intelligencias se desviou dos perigos que o ameaçavaõ [...]

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Em Lisboa os que fundavaõ na resoluçaõ do Duque a liberdade da Patria, perdèraõ muyto o animo com a cautela de que usou em Almada, divertindo todas as praticas que se encaminhavaõ a coroa-lo.

D. Filipa de Vilhena, Vieira Portuense (1765-1805), 1801.

Este fentimento levou outra vez os discursos a Alemanha, esperando do valor de D. Duarte a assisstencia no que emprendiaõ; porem como o perigo estava mays visinho que as esperanças tornáraõ a fazer novas instancias ao Duque de Bragança [...]

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Chegou ao Duque de Bragança segunda ordem para passar a Almada; replicou, e desvaneceu-se. Porem dentro de poucos dias recebeu húa carta d’ElRey, em que depoys de largas persuasões, e promessas, lhe ordenava que se prevenisse para passar a Catalunha com elle, aonde determinava marchar brevemente a socegar as revoluções daquelle Estado: outras da mesma substancia vieraõ a todos os fidalgos do Reyno [...]

El Atlas del Rey Planeta (detalhe), Pedro Teixeira, 1634.
La descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos

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No mesmo dia que o Castello, se renderão as Torres Bellem, Cabeça Seca, Torre Velha, S. Antonio, e o Castello de Almada; receberão ordem da Duqueza de Mantua, e sem resistencia alguma se entregaram; fazendo o medo o effeyto que não pudera facilmente conseguir o poder dos confederados [...] (1)

Detenção da Duquesa de Mântua, em 1 de Dezembro de 1640, Caetano Moreira da Costa Lima, 1888.
Wikimedia


(1) D. Luiz de Menezes, Conde de Ericeira, História de Portugal Restaurado

Artigos relacionados:
Filipe II, Almada, 26 de junho de 1581
Pátio do Prior
Os Almadas
Torre Velha por dom António (?!)
Cronologia breve da Torre Velha (2 de 3)
Os conjurados de 1640
A Arte da Guerra e o Castelo de Almada

...

Leitura adicional:
Poderes concorrentes na entrada régia de 1581
Rossio. estudos de Lisboa n.° 5, junho 2015
História de Lisboa - Tempos Fortes

Mais informação:
Affonso Guerreiro, Das festas que se fizeram na cidade de Lisboa na entrada del Rey D. Philippe primeiro de Portugal, Lisboa, Francisco Correa, 1581
Virgínia Rau, Um "trabalho divertido" do Conde da Ericeira
Guerra da Restauração (1641-1668)

terça-feira, 7 de julho de 2015

Os Almadas

O appellido Almada recorda os varões doutos, soldados valorosos, patriotas dedicados, que tantos tem havido em Portugal, porque todas estas qualidades prestigiosas se encontram nos que o teem usado. (1)

Armas de Almada chefe, livro do Armeiro-Mor.
Imagem: Wikipédia

ABRANCHES — Trazem as armas dos ALMADAS de que são chefes. 

ALMADA (Port. e Esp.) — De oiro, banda de azul carregada de duas cruzes floridas do campo e vazias da banda, e esta acompanhada de duas águias de vermelho, armadas e membradas de negro (1). T. : uma das águias (2). E. de prata, aberto, guarnecido de oiro. P. [paquife] e V. [virol] de oiro e azul.

(1) A. M., fl.eOv. ; T. T., fl. 12 ; S. S., n.° 24; M. L. III, 174v.; B. P., fl. 46 ; T. N. P., a-22.— B. L., II, 463 e T. N., fl. 28, diferem apenas em não armarem nem membrarem as águias de negro.

(2) T. T., M. L., B. L., B. P. e T. N. P.
— Em S. S.  a águia é armada e membrada de oiro, e em T. N.  é toda vermelha.


O. B., com outros apelidos, em 1783 e 1797 (A. H., 887 e 156). — Conta-se que Henrique VII, Rei de Inglaterra, dera, em 2 de março de 1501, carta de acrescentamento de armas a Pedro Alvarez de Almada e o fizera cavaleiro da Jarreteira!
A verdade é que elle era em 1499 um modesto recebedor do almoxarifado e alfandega do Porto, a quem foi passada carta de quitação no anno de 1502 (Arch. Jiist. port, V, 73).
Vide também as judiciosas observações de Albano da Silveira Pinto na Resenha das famílias titulares I, 185, nota.


ALMADA, Condes de ABRANCHES — (Conde de Avranches, na Normandia, 4 de agosto de 1445, reconhecido em Port.; já em 1446, extincto em 1449 ; renovado em 1478, outra vez extincto já em abril de 1496.) As armas dos ALMADAS.

Brasões dos Grandes de Portugal, Conde de Abranches.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

ALMADA, Condes de ALMADA — (Conde, 4 de maio de 1793; extincto, 1874.) As armas dos ALMADAS.

Brasão d´armas de conde de Almada e Abranches.
Imagem: Wikipédia

ALMADA, Viscondes de VILA NOVA DE SOUTO DEL REI — (Visconde, 17 de maio de 1774; extincto, 1862.) As armas dos ALMADAS, e depois partido de LANCASTRE e ALMADA (2).

Em primeiro logar deve notar-se Antão Vasques de Almada (? - 1388), um dos heroes de Aljubarrota, citado por Luiz de Camões nos "Luziadas" e que muito contribuiu para o completo desbarato dos castelhanos n'aquella famosa batalha, sendo quem se apoderou do estandarte real de Castella, que lançou aos pés de D. João I, findo o combate.

Batalha de Aljubarrota, 14 de agosto de 1385.
Imagem: História de Portugal
E da outra ala, que a esta corresponde,
Antão Vasques de Almada é capitão,
Que depois foi de Abranches nobre Conde,*
Das gentes vai regendo a sestra mão.
Logo na retaguarda não se esconde
Das quinas e castelos o pendão,
Com Joane, Rei forte em toda parte,
Que escurecendo o preço vai de Alarte.


* Camões confunde-o com Álvaro, seu sobrinho.
Álvaro Vaz de Almada (1390 - 1449), da casa dos condes de Pombeiro, em torno do qual se condensa uma lenda poética de valor e lealdade incomparáveis. Foi irmão de armas do infante D. Pedro, duque de Coimbra, victima das intrigas palacianas.

Militou muito tempo em Inglaterra e nos exércitos do imperador Segismundo, de maneira que se falava d'este cavalleiro na Europa como n'um dos doze pares de França, que se mediam com gigantes e desbaratavam exércitos de muitos milhares de soldados. 


Cota d´armas de Álvaro Vaz de Almada, 1.º Conde de Avranches.
Imagem: Wikipédia

Sabedor das machinaçôes contra o infante D. Pedro, regressou logo a Portugal e nunca mais o deixou na vida nem na morte, pois que travada a batalha de Alfarrobeira, D. Álvaro Vaz de Almada pelejava como um leão, longe do infanfe, quando um pagem hie foi dizer, chorando: "Que fazeis, senhor o infante D. Pedro é morto". 

Dom Álvaro Vaz d'Almada.
Imagem: Wikipédia

D. Álvaro recebeu a noticia com semblante sereno, como se aquellas palavras, annunciando-lhe o passamento do amigo, não proferissem também a sua sentença. "Cala-te, e não o digas a ninguém", acudiu elle, e, sem mais demora, correu á sua tenda, tomou pão e vinho para cobrar esforço, que lhe prometesse morrer vingando-se.

Logo se lançou onde mais revolta andava a peleja. Apenas os inimigos o conheceram, todos os seus esforços convergiram contra elle, mas Álvaro Vaz, immovel entre as ondas dos inimigos, traçando em torno de si com a larga espada um circulo relampejante, derribava a seus pés todos quantos lhe passavam ao alcance do braço destruidor. Cançado de vencer, deixou pender o braço e disse com tristeza: "Ó corpo, já sinto que não pódes mais: e tu, minha alma, já tardas". 


Infante D. Pedro (?), 1.° Duque de Coimbra.
Painel dos Cavaleiros, Paineis de S Vicente.
Imagem: Wikipédia

Depois, estendendo-se no chão e offerecendo o peito ás espadas ardentes de vingança, que anciavam por se cravar n'elle, exclamou: "Ora fartar rapazes" ou "ora vingar villanagem!" Não foi necessário repetil-o, vinte espadas e lanças se enterraram ao memo tempo n'aquelle heroico peito, onde pulsava tão nobre coração. O dia 20 de maio de 1449 viu assombrosa lealdade cahir victima da mais requintada má fé.

D. Antão de Almada (1573 - 1644), tronco da casa dos condes d'este titulo, é porém o mais popular de quantos usaram este appellido, que parece ter sido bemfadado; foi um dos fidalgos que mais contribuíram para o feliz resultado da conjuração promovida por João Pinto Ribeiro para restaurar, em 1640, a autonomia de Portugal.

D. Antão de Almada (1573 - 1644).
Imagem: Wikipédia

Arriscou a vida, porque Miguel de Vasconcellos certamente lhe teria feito pagar caro o trama se o houvera descoberto. Era em sua casa que se reuniam os conjurados; foi ahi que se planeou o arro jado golpe de mão; foi elle quem conseguiu resolver a duqueza de Mantua a assignar-lhe uma ordem para o governador do castello de S. Jorge entregar a fortaleza aos sublevados.

Coroada de tão feliz successo a patriótica revoluçAo, ainda D. Antão foi um dos emissários enviados a todas as cortes europeas para obterem o reconhecimento da nova situação politica do paiz, competindo-lhe a corte ingleza, onde foi bem acolhido por Carlos II, que mais tarde veiu a desposar uma filha do novo rei, a qual em dote lhe levou a chave das índias. Morreu em 1644.

Francisco de Almada e Mendonça (1757 - 1804), a quém o Porto deve a sua prosperidade e os seus mais preciosos monumentos. Foi classificado por um auctor o "Pombal do norte".

Francisco de Almada e Mendonça.
Imagem: Wikipédia
Leitura recomendada:
Os Planos para o Porto - dos Almadas aos nossos dias

Ferreira Alves, Joaquim Jaime B., O Porto na época dos Almadas, 3 vols, Porto, Câmara Municipal do Porto, 1988

E outros muitos.

Brasão de armas da Villa d'Almada.
Imagem: A Villa de Almada

Estes citámos por constituírem glorias nacionaes; não são filhos de Almada, mas ramos da familia que ali teve seu solar e que não podem ser esquecidos, tratando-se da historia local. (3)


(1) Archivo Histórico, História da fundação das cidades e villas do reino, seus brasões d'armas etc., n.° 7, 1889
(2) Braamcamp Freire, Anselmo, Armaria Portuguesa, Lisboa, 1908
(3)
Archivo Histórico, idem

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Os conjurados de 1640

El Atlas del Rey Planeta (detalhe), Pedro Teixeira, 1634.
Imagem: La descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos

A Hespanha estava nesse tempo em guerra com a França e como desta Nação tinha apparecido huma esquadra pelas Costas de Portugal, pareceo ao Ministro ter hum pretexto favorável aos seus desígnios: era necessário que em Portugal houvesse hum General em Chefe para commandar as Tropas que se destinassem para defender os Portos, onde os Francezes podessem fazer alguma invasão;

e nestas circumstancias enviou ElRei de Hespanha ao Duque de Bragança a nomeação deste emprego com muitas distincçôes, e com huma authoridade absoluta de fazer fortificar as Praças marítimas que devia visitar, augmentando, ou dirninuindo as suas guarnições como bem lhe parecesse, o que fez murmurar altamente a Corte de Hespanha, vendo a céga confiança com que parecia entregar-se o Reino todo á discrição do Duque de Bragança.

O segredo desta Commissão tão franca estava só entre o Rei do Hespanha, e o seu primeiro Ministro: tinha este mandado huma ordem muito secreta aos Governadores das Praças marítimas, que erão quasi todos Hespanhoes, para se assegurarem da pessoa do Duque achando favorável occasião, e para o fazerem passar logo á Hespanha, para cujo fim andavão costeando Portugal algumas naos Hespanholas.

O Duque de Bragança que via muito bem quão pouco sinceras erão tantas, e tão extraordinárias distincções da parte de Hespanha, fêlla cahir nos mesmos laços que lhe armava.

Escreveo ao primeiro Ministro para que representasse a ElRei o prazer com que elle acceitava o Posto que lhe conferira e no qual esperava justificar a sua escolha.

Foi então que o Duque vio quasi chegado o momento da sua exaltação ao Throno de seus Avós.

A authoridade do emprego de Governador das Armas lhe facilitou o poder nomear moderadamente os seus amigos, nos Postos em que hum dia lhe viessem a ser mais úteis.

Fez-se acompanhar de alguns Officiaes escolhidos, e de huma equipagem magnifica y própria da sua Grandeza, de sorte que nas Praças que visitou fez perder todas as esperan ças de se attentar contra a sua Real Pessoa.

Ninguém se lhe atreveo.

Em toda a parte por onde passava atrahia o coração dos povos y que admiravão a sua liberalidade, ouvindo a todos benignamente, e familiarizando-se còm a Nobreza de tal modo que todos absolutamente no interior o desejavão ter por seu Soberano.

Desta sorte chegou o Duque á Villa de Almada, (proposta dos Fidalgos) onde apenas se soube da sua chegada foi a Nobreza toda visitallo.

Portogallo, Lisbona dal promontorio.
Gravura executada por Terzaghi sobre desenho de Barbieri reproduzido de um original do século XVII.

D. Miguel de Almeida, D. Antão de Almada, e Pedro de Mendonça Furtado, estando sós com elle lhe communicárão a resolução em que elles, e muitos da sua qualidade estavão de o acclamarem Rei de Portugal, representando-lhe vivamente a desgraçada situação em que se achava este Reino, e que só se podião remediar tão lamentáveis ruinas querendo elle acceitar a Coroa.

Armas de Almada chefe, livro do Armeiro-Mor.
Imagem: Wikipédia

Que elles, e hum grande número de Fidalgos lhe offerecião todas as suas faculdades para o ajudarem a subir ao Throno, sacrificando com efficacia os seus bens, e as suas vidas, para vingarem a Nação da tyrannia dos Hespanhoes.

O Duque respondeo com muita modéstia, e com mais cautela y dizendo que convinha com elles no que lhe representavão a respeito da situação de Portugal, reduzido á ultima calamidade.

Que louvava muito o zelo que mostravão ter pela bem da Pátria, e que em particular agradecia muito a toda a Nobreza o quanto se interessava por elle; porém que duvidava do bom succesfo da empreza, por lhe parecer que não era ainda tempo opportuno de a pôr em execução, sem se tomarem todas as necessárias medidas com madura prudência.

Com esta resposta que o Duque não quiz fazer mais positiva partirão os tres Fidalgos, não desanimados do bom êxito da sua resposta, e determinarão logo fazer a primeira Junta dos Confederados com muito segredo, e cautela.

Os conjuração de 1640, Manuel Lapa, c. 1936.
Imagem: almanaque silva

Passou o Duque a visitar a Vice-Rainha Duqueza de Mantua , desembarcando no Terreiro do Paço onde se achava innumeravel povo para o verem passar. Taes forao as demonstrações de prazer , e de contentamento, que motivarão novo y e decisivo ciúme aos Hespanhoes que as observavão.

Entrando no Paço a visitar a Vice-Rainha, estavão na grande sala duas cadeiras, huma debaixo do docel para a Duqueza de Mantua, outra da parte de fora para o Duque de Bragança.

Thomé de Sousa Fidalgo de grande valor, e tronco dos Condes de Redondo, inflammado em zelo da honra do Duque, que, em presença de toda a Nobreza levantou a cadeira, e a collocou debaixo do Sólio, porque o Duque não tivesse a Audiência com menos decoro.

D. João (1604 - 1656), Duque de Bragança.

Este arrojo capitulado pelos Hespanhoes como hum crime, o trouxe em tribulação com a Corte de Hespanha dalli por diante.

Passados alguns dias recolheo-se o Duque a Villa Viçosa, livre dos laços que a malícia do primeiro Ministro lhe quizera urdir.

Tinha ficado em Lisboa o Doutor João Pinto Ribeiro criado particular do Duque e seu Confidente.

Este homem era activo , e com muita instrucçáo de negócios politicòs, aquém D. Miguel de Almeida chamou para a Conferencia da primeira Junta da Nobreza por conhecer a sua capacidade, esaber o quanto elle seriamente se interessava pela exaltação do Duque.

Juntárão-se em casa do Monteiro-Mór Francisco de Mello, (primeira Junta dos Fidalgos) seu irmão Jorge de Mello, D. Miguel de Almeida, D. Antão de Almada, Pedro de Mendonça Furtado, Antonio de Saldanha, e João Pinto Ribeiro , onde depois de bem ponderadas reflexões, assentarão em escrever ao Marquez de Ferreira, D. Francisco de Mello, e a D, Affonso de Portugal, Conde de Vimioso, que assistião em Évora, para representarem ao Duque de Bragança os irreparáveis damnos, que se seguirião aos Portuguezes, se elle não aceitasse a Coroa que lhe offerecião, e que injustamente fora pelos Hespanhoes roubada a seus Avós.

D. Antão de Almada (1573 - 1644).
Imagem: Wikipédia

Que a occasião na conjunctura presente era a mais favorável, e opportuna, pois que as forças de Hespanha se achavão divididas pôr muitas partes.

Recebia o Duque estas persuasões, sem se determinar ainda a huma declaração aberta.

Pensava nas difficuldades que haviáo a vencer, e queria informar-se bem das medidas que se tomavão para emprehender huma acção que decidia da tranquilidade da Nação inteira, ou a precipitava na sua total ruina.

Tal era a sua prudência, esperando que João Pinto Ribeiro fosse de Lisboa, para lhe dar conta do que a este respeito se passava.

As demonstrações de alegria que o povo de Lisboa fizera, quando o Duque passou de Almada a visitar a Vice-Rainha, inquietarão muito a Corte de Madrid, fazendo grande impressão ao primeiro Ministro.

Lisboa, Terreiro do Paço, Dirk Stoop, 1650.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

Começárão a haver suspeitas, de que a Nobreza de Portugal fazia particulares, e acauteladas Assembléas;

e certas vozes que se espalhavão, como presagas de grandes acontecimentos, tinhão augmcntado mais aquella inquietação.

ElRei de Hespanha convocou o seu Conselho, e para tirar aos Portuguezes a esperança de ganharem partido em alguma revolução que podessem meditar, resolveo que immediatamente fosse chamado a Madrid o Duque de Bragança, único Chéfe que em Portugal se podia temer.

Despachou-se logo hum Correio a Villa Viçosa com carta do próprio punho d'ElRei para o Duque, cheia de artificiosas promessas, na qual lhe ordenava que partisse a Madrid sem perda de tempo, para o acompanhar á expedição da Catalunha.

O mesmo Correio marchou immediatamente para Lisboa com ordem a todos os Fidalgos, para também partirem para Madrid.

Foi errado este ultimo plano do Duque de Olivares, porque sendo o seu fim tirar o Duque de Bragança deste Reino, e a Nobreza principal, aquelle tomou finalmente a resolução de acceitar a Coroa que lhe pertencia por Direito, e esta irritou-se novamente com as ordens que recebia, para ir acompanhar o Rei de Hespanha á expedição de Catalunha. [...]

Chegou finalmente o sempre memoravel, e glorioso dia de sabbado, primeiro de Dezembro de mil seiscentos e quarenta.

Armas do Rei de Portugal, livro do Armeiro-Mor.
Imagem: Wikipédia

Apenas amanheceo, todos os Fidalgos Confederados, e os seus adjuntos se armarão, (dia feliz da acclamação) ajuntando-se huma grande parte delles em casa de D. Miguel de Almeida, d'onde partirão separados huns dos outros para o Paço, e para outros lugares a occuparem os Postos, que lhes estavão já destinados, D. Filippa de Vilhena, Condeça da Atouguia, heróica, e varonilmente ajudou a armar com as suas próprias mãos a seus dois Filhos, D. Jeronymo de Ataíde y e D. Francisco Coutinho exhortando-os com todo o valor para a gloriosa empreza a que hião.

D. Filipa de Vilhena, Vieira Portuense (1765-1805), 1801.

Conta-se que o mesmo fizera D. Marianna de Lencastre a seus Filhos, Fernão Telles, e Antonio Telles da Silva. [...]

D. João da Costa, e João Rodrigues de Sá com outros Fidalgos, e Pessoas Confidentes, forão a bordo dos dois Galeões de Hespanha que se achavão surtos no Tejo, armados em guerra, que sem mais resistência se renderão, a pezar de terem toda a guarnição de Infanteria Hespanhola, e estarem promptos a a fazer-se á vela.

Forão outros ao Castello, e mandarão a D, Luiz del Campo a Ordem da Duqueza, para que o entregasse; e duvidando este da Ordem, por não ir com a formalidade que elle queria, Mathias de Albuquerque, que alli se achava prezo, e que nada sabia com certeza da Acclamação, aconselhou ao Governador, que ou sahisse com o presidio que guarnecia o Castello, ou se puzesse em defensa, se o rumor que se ouvia pela Cidade passasse a mais.

Com effeito fechárão-se as portas, e prevenio-se a artilheria.

Requererão os Governadores á Duqueza segunda Ordem, para que se não fortificasse o Castello, a que D. Luiz del Campo obedeceo, e já Mathias de Albuquerque que nada lhe disse a este respeito, por ter noticias certas da Acclamação;

e como não houve tempo para se entregar com a solemnidade que o Governador queria, ficou naquella noite rodeado o Castello de todas as Companhias das Ordenaraças.

No dia seguinte foi D. Alvaro de Abranches, Thomé de Sousa, e D. Francisco de Faro com ordem definitiva para D. Luiz del Campo entregar o Castello.

Immediatamente mandou abrir as portas, entrou dentro D. Alvaro de Abranches, e tomou posse finalmente do Castello, em quanto não vinha ElRei y ou não chegava D. Alvaro Pires de Castro, Conde de Monsanto, e Aicaide-Mór de Lisboa.


Soltou Mathias de Albuquerque, e a Rodrigo Botelho, Conselheiro da Fazenda, que também se achava prezo.

Sahírão os Hespanhoes com a sua Equipagem, e com as honras militares por privilegio da Capitulação que fizerão, e forão conduzidos por D. Antonio Luiz de Menezes até ás Tercenas, onde se alojarão, e onde tiverão depois Passaportes d'ElRei com ajudas de custo, para que divididos passassem para Hespanha.

Rendido o Castello se entregarão nesse dia as Torres de Belém, Cabeça secca, Torre velha, Santo Antonio da Barra, e o Castello de Almada.

A barra do Tejo baseada no Regimento de Pilotos de António de Mariz Carneiro de 1642, reprodução de 1673.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Tanto pôde o exemplo e tanto pôde o medo. [...] (1)


(1) Roque Ferreira Lobo, Historia da feliz acclamação do Senhor Rei D. João o Quarto..., Lisboa, Na Officina de Simão Taddeo Ferreira, 1803.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Pátio do Prior

À Boca do Vento, do lado sul, fica o Pátio do Prior, assim chamado por as suas casas terem pertencido a D. António, Prior do Crato.

Herdara-as de seu pai D. Luís, Duque de Beja e donatário de Almada, que consta ter ordenado a sua construção. (1)

Pátio do Prior, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Visita Virtual Rotas de Almada

A figura de D. António o prior do Crato (1531-1595) despertou interesse e paixões entre historiadores e escritores, refletindo em uma vasta bibliografia [...]

Tal interesse reside no fato que D.António foi um dos protagonistas de um dos momentos mais simbólicos para a memória portuguesa: a crise dinástica e o seu desfecho na União das Coroas Ibéricas (1580-1640).

Filho de D.Luís, irmão de D.João III, teve uma esmerada educação marcada pela influência humanista.

Como nobre acumulou títulos e privilégios, entre eles o priorado do Crato em 1555. 

Participou de missões no norte da África em 1568 e 1571, sendo governador de Tanger em 1574.

Lutou ao lado de D. Sebastião em Alcácer-Quibir (1578). Após sobreviver retorna a Portugal lançando-se na disputa pela coroa contra Felipe II [...]

Pátio do Prior, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Visita Virtual Rotas de Almada

Após um período de esquecimento no XVIII os historiadores do século XIX deram prosseguimento à tradição dos Braganças referente ao prior do Crato.

N. Sra. do Cabo, painel de azulejos.

Para Alexandre Herculano, o prior do Crato era: "(...) um miserável, que só se colocou à frente das resistências, as quais dirigiu sem ordem, sem juízo e sem energia, porque não lhe chegaram os castelhanos ao preço por que lhes queria vender alma e corpo". (2)

A placa em pedra colocada sobre a entrada do pátio do Prior evoca os 300 anos da restauração da independência. Nela  pode-se ler:



Não consta, no entanto, que ele aí alguma vez tenha vivido ou sonhado com grandeza, ou independência.


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

(2) Coral, Carlos Jokubauskas, O último Avis: D. Antônio, o antonismo e a crise dinástica portuguesa (1540-1640), 2010, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, São Paulo.

Leitura relacionada:
Castelo Branco, Camilo, D. Luiz de Portugal neto do Prior do Crato, 1896, Chardron — Lello, Porto.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 30 — 32.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 37 — 39.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 52 — 55.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 59 — 61.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 74 — 76.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 91 — 93.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 107 — 109.
Archivo Pittoresco, vol. II n° 4, 1858, págs 138 — 141.