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sexta-feira, 24 de maio de 2019

António Álvares da Cunha (c. 1700-1791)

(a propósito dos painéis de azulejo da Quinta de São Lourenço em Palença no Pragal)

O título de conde da Cunha fora dado de juro e herdade, por carta de 14 de Março de 1760, a D. António Alvares da Cunha, 

Vista de Lisboa (tomada da margem sul), Alexandre-Jean Noël.
Cabral Moncada Leilões

"tendo consideração aos notáveis e distintos serviços que D. Luís da Cunha me fez, por espaço de sessenta e dois anos sucessivos, nos lugares de desembargador do Porto e da Casa da Suplicação até o ano de 1696, e depois dele, e  até seu falecimento, nos empregos de enviado extraordinário na corte de Londres, de embaixador extraordinário e plenipotenciário no congresso de Utreque, e de embaixador nas cortes de Londres, Haia, Madrid e Paris, atendendo as sucessivas representações com que o sobredito suplicou os referidos serviços lhe fossem despachados em benefício da casa de seus pais e do administrador dela, seu sobrinho D. António Alvares da Cunha,

António Álvares da Cunha (c. 1700-1791).
1.° Conde da Cunha, Vice-rei do Brasil.
Instituto Histórico Brasileiro

contemplando ao mesmo tempo os serviços pessoais com que o dito D. António se tem distinguido também por sua profissão militar até o posto de capitão de mar e guerra das fragatas da armada, e nos empregos de governador e capitão general da praça de Mazagão e do reino de Angola", etc. Carta do título de conde da Cunha, na província do Minho, de juro e herdade, erigindo-se o dito lugar logo em vila. — Chancelaria de D. José, livs. 72,°, fl. 85, e 69, fl. 49. (1)

À semelhança de outras quintas do concelho de Almada, a Quinta de São Lourenço beneficia de uma situação geográfica privilegiada, localizando-se no cume de uma encosta que desce até ao Tejo, onde existiu, outrora, um pequeno ancoradouro de acesso directo à propriedade [...]

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
FRESS

São muito escassas as informações disponíveis que se referem a São Lourenço. Pouco ou nada sabemos sobre a sua origem, e a cronologia que avançamos tem por base o inventários do conjunto de azulejos que reveste boa parte dos espaços da casa, e que ainda se conserva no local. A edificação da casa de habitação, de um piso único, deverá remontar ao século XVII.

Assim o indicam as suas principais características arquitectónicas, corroboradas pela existência de azulejos seiscentistas, de padrão azul e branco, no alpendre e na fachada (DUARTE; MANGUCCI, 1998, p. 57). 

Com planta em forma de L, o edifício é composto por uma ala residencial, e por outra, mais comprida, onde se integra a capela, prolongada por anexos destinados a fins agrícolas. A fachada principal é antecedida por uma estrutura formada por colunas toscanas sobre um soco alto.

No alçado imediatamente perpendicular, a capela destaca-se pelo portal, encimado por frontão triangular e cruz na empena, denunciando uma arquitectura de influência pombalina. O espaço interno divide-se em três naves, separadas por colunas toscanas (aliás, esta é a ordem empregue em toda a quinta), e com tribunas.

A abóbada da nave é pintada, e este espaço separa-se da capela-mor através de um arco triunfal de colunas também toscanas [...]

A depuração e linearidade do desenho evoca o gosto seiscentista, também presente no portão de acesso a este amplo terreiro definido pela habitação. De arco de volta perfeita, com aparelho rusticado, exibe, ao centro, a pedra de armas dos Cunha [encimada por elmo com viseira barrada], proprietários da Quinta. 

O terreiro é delimitado por um muro recortado, formando uma série de bancos. Uma lápide com a data de 1713 poderá indiciar nova campanha de obras [na verdade, a lápide indica a data de 1663, MDCLXIII, reinado de D. Pedro II, ano seguinte ao nascimento de D. Luís da Cunha (e ao casamento de Catarina de Bragança), facto, que entre outros, contextualiza de  modo diferente importância do lugar e da familia Cunha].

Quinta de S. Lourenço, lápide com data de 1663.
Património Cultural

Mas serão os azulejos do interior que estabelecem uma cronologia de intervenções. Assim, em 1742 terão sido encomendados os painéis mais conhecidos deste conjunto, aplicados na sala principal da casa. Um deles, com o brasão dos Cunha, exibe a data referida.

Painel de azulejos com as armas fa familia Cunha.
flickr

Seria, contudo, a iconografia naval, com representações de batalhas, desenhos de navios, e instrumentos náuticos que tornaria notados estes azulejos. (2)

Recheio azulejar: sala de entrada - silhares em azul e branco, com representação heráldica datada - 1742 - e painéis representando animais, alguns refeitos recentemente; sala contígua com silhares em azul e branco com cenas palacianas, revivalistas; cozinha do lado oposto com azulejos de figura avulsa;

Quinta de S. Lourenço, Painel de azulejos.
flickr

sala nobre com lambril em azul e branco, atribuível ao período de grande produção joanina, com 3 grandes painéis representado várias caravelas, um estaleiro naval com uma nau a ser lançada ao mar (cortado por chaminé de lareira), um grupo de geógrafos e navegadores rodeando globos terrestres e experimentando instrumentos de medição da latitude pelo sol, vários painéis menores com figuras masculinas segurando instrumentos de navegação marítima;

Quinta de S. Lourenço, Painel de azulejos.
Museu de Marinha

sala contígua - silhares em azul e branco, com cenas palacianas; casa de jantar - composição enxadrezada recente; pequena sala contígua à anterior - cenas palacianas com molduras rococó (c. 1760/70), algumas refeitas na Fábrica de Santana; varanda alpendrada - composições em axadrezado recentes; capela - silhar de padronagem na nave, figurativo na capela-mor, com cenas hagiográficas em azul e branco, com cercaduras polícromas (c. 1760/70).

Nas paredes da nave, sobre o arco triunfal e do lado oposto sobre a tribuna, 2 cartelas rococó em estuque com figurações emblemáticas de S. Sebastião e S. Lourenço.

No espaldar de acesso ao túnel, no jardim, um brasão gravado sobre o vão de acesso e uma lápide em latim datada de 1713 [1663, v. acima]. (3)

Sabemos que os pintores de azulejos não pintavam à vista os navios autênticos, nem iam para as docas com a intenção de representar os navios existentes tão fielmente quanto possível. O papel dos navios nas composições azulejares era meramente simbólico e destinado a ser apreciado por uma sociedade que não era muito literada nas complexidades do desenho de navios.

Em alguns casos parece que os artistas tentaram adaptar as imagens das gravuras numa tentativa de as fazerem mais portuguesas, como no caso da Quinta de São Lourenço, o simplificando o desenho. Nas palavras de Maria Alexandra Gago da Câmara: "A circulação das gravuras e a sua cópia através da Europa originou representações em azulejo, especialmente essas com lazer e paisagens idealizadas, que não são necessariamente uma realidade nacional. mas em vez disso supra-nacional, que ilustra uma série de valores comuns à época, tais como a invocação da vida do país e um certo modus vivendi" (Câmara, 2005: 163).

A Quinta de São Lourenço no Pragal, perto de Lisboa, tem um programa decorativo interessante que consiste em cenas relacionadas com o mar e a navegação, que datam de 1742, baseadas em gravuras holandesas. 

Uma delas apresenta cenas de um estaleiro naval e mostra a construção de um grande navio à esquerda, quase completo, de acordo com a princípio de construção "o esqueleto primeiro". Um grupo de trabalhadores à esquerda do navio puxa um cabo enquanto que outros escolhem madeira para a estrutura do navio. Atrás deles está um pequeno grupo de nobres, olhando para os navios, provavelmente representando os donos do navio. Uma vez que o navio não está completo não é possivel dizer que tipo de navio será [?].

Quinta de S. Lourenço, Painel de azulejos.
Museu de Marinha

O lado direito do painel é ocupado por outro grupo de trabalhadores calafetando um outro grande navio, que está querenado com a ajuda de uma barcaça (Raposo and Reis, 1994: 110, 111; Simões, 2010: 454).

Três dos painéis da Quinta de São Lourenço, Pragal, apresentam navios isolados, um em cada painel, quase certamente reproduções de gravuras holandesas, todos eles representados com grande detalhe.

Um mostra uma galé com remadores levemente desenhados e uma cruz de malta na ré. Perto do navio está um pequeno barco a remos com um nobre de pé.

Galé remada a scaloccio (quatro ou cinco remadores por remo), Quinta de S. Lourenço.
Museu de Marinha

O segundo painel representa um grande navio de guerra com a bandeira holandesa, três mastros, castelo de popa e de proa, e uma lindamente detalhada figura de proa de uma sereia segurando uma coroa.

Quinta de S. Lourenço Painel de azulejos.
Museu de Marinha

O ultimo painel, talvez o mais interessante, revela um navio mais pequeno do que os precedentes, que é baseado nos navios holandeses mas tem a bandeira portuguesa e outras características como uma vela triangular [?] (Raposo e Reis, 1994: 114, 115; 2010: 454) .

Quinta de S. Lourenço, Painel de azulejos.
Museu de Marinha

A batalha naval apresentada na Quinta de São Lourenço, Pragal, de 1742 e baseada em graviuras estrangeiras, tem sido identificada como a batalha de La Hogue (1692), apesar do facto dessa batalha ter sido travada entre ingleses, franceses e holandeses, e que apenas as duas ultimas bandeiras possam ser identificadas nesse painel.

Batalha naval entre navios com proa ao estilo do século 18 e popa ao estilo do século 17 na Quinta de São Lourenço.
Museu de Marinha

Mostra dois navios de guerra disparando um contra e o fumo esconde detalhes de ambos os navios. Atrás deles podemos entre as velas de dois navios semelhantes (Raposo and Reis, 1994: 114; Simões, 2010: 454). (4)

Pelo grande augmenlo que tinham tido todas as Capitanias meridionaes, e sobretudo pela guerra pendente no Rio da Prata, achando-se ameaçado o territorio do Rio Grande do Sul pela rapida invasão de Cevallos [Dom Pedro de] daquelle Continente, resolveu El-Rei mudar a metropoli do Brasil, da Bahia para o Rio de Janeiro; e para 1.° Vice-Rei e Capitão General de mar e terra foi nomeado D. Antonio Alvares da Cunha, Conde da Cunha, por Carta Patente de 27 de Junho de 1763. 

António Álvares da Cunha (c. 1700-1791).
1.° Conde da Cunha, Vice-rei do Brasil.
Literatura Rio de Janeiro (Nireu Cavalcanti)

Chegando ao Rio de Janeiro, tomou posse a 10 de Oulubro do mesmo anno, e governou até o dia 17 de Novembro de 1767, em que foi rendido.

Arsenal do Rio de Janeiro, no sopé do morro de São Bento.
Criado em 29 de dezembro de 1763 pelo Vice-rei Antônio Álvares da Cunha, 1° Conde da Cunha.
O Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro na História, 1763-1822

No pouco tempo, que durou a sua administração, reparou todas as fortalezas desmanteladas, levantou a da Praia Vermelha, fez construir na ilha das Pombas dois grandes armazens para deposito da polvora, e. uma armaria na fortaleza da Conceição; na fralda do morro de S. Bento assentou o arsenal da marinha, onde se fabricou a nau S. Sebastião [v. São Sebastião (nau)], e na ponta da Misericordia edificou uma grande casa para o trem de artilharia, que hoje serve de arsenal do exercito; e ultimamente foi este celebre administrador quem creou o Hospital dos Lazaros em S. Christovão, como logo se dirá. (5)


(1) Anselmo Braamcamp Freire, Brasões da Sala de Sintra. Vol. I, Coimbra, ,Imprensa da Universidade, 1921
(2) Quinta de São Lourenço... habitação e dependências da lavoura, capela (São Sebastião)...
(3) Casa e Capela da Quinta de São Lourenço
(4) The representation of vessels in early modern portuguese tile
(5) José Inácio de Abreu e Lima, Sinopse ou dedução cronológica dos fatos mais notáveis da história do Brasil, Pernanbuco, 1845

Artigo relacionado:
Palença de Baixo

Leitura adicional:
Oceanos n° 17, 1994: Raposo F. H., Os Azulejos náuticos da Quinta de São Lourenço, p. 109-115
O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis : 1763 - 1808 (pesquisa: conde da cunha)
Guerra e sociedade: a situação militar do Rio de Janeiro no Vice-Reinado do Conde da Cunha, 1763-1767
Joaquim Manuel de Macedo, As Mulheres de Mantilha, Vol. I, Rio de Janeiro, 1870

Mais informação:
Cronologia do Rio de Janeiro colonial em Imagens
Carlos Couto, Os Capitães Mores de Angola
Arquivo Histórico Umltramarino [Governador e Capitão-General de Angola 1753-1758]
Jardim da Quinta de São Lourenço
As quintas da "Outra Banda": de um passado rural a um futuro cultural

terça-feira, 3 de maio de 2016

A procissão de São João

Era costume antigo, supomos que remontando ao século XVI, organizar aquela confraria sediada na igreja de Sant'Iago, um solene procissão do santo da sua devoção que se dirigia à Ramalha (antiga Alvalade na tarde de 23 de Junho de cada ano, pernoitando a imagem alternadamente umas vezes no oratório de Santo Antão, outras vezes na Ermida de Nossa Senhora da Piedade, situada ali próximo na Quinta de Crastos, onde, segundo a tradição, está sepultada uma das filhas de El-Rei D. Dinis, regressando à vila de Almada na manhã do dia seguinte.

Procissão de S João em Almada, segundo uma photographia do sr. dr. Judice Pragana.
Imagem: Hemeroteca Digital, revista Branco e Negro, Julho de 1897

Já em 1730, a Mesa da Irmandade se recusara a organizar a procissão, alegando que o oratório ficava muito distante da vila. Esta atitude provocou insubordinação popular, argumentando João Vieira de Sã Ribeiro que a procissão de São João Baptista se realizava para a Ramalha desde tempos que não havia lembrança nos homens velhos do seu tempo, exigindo que se cumprisse o preceito religioso, pois desde que deixou de ter lugar, não deram as fazendas novidades, o que se reconhecia por castigo divino.

Procissão de S João em Almada, segundo uma photographia do sr. dr. Judice Pragana.
Imagem: Hemeroteca Digital, revista Branco e Negro, Julho de 1897

Apenas em 3 de Junho de 1734, o assunto fica parcialmente solucionado através de uma Provisão do Patriarca de Lisboa, D. Tomás I, na qual ordenava que "levem o santo à dita ermida na véspera do seu dia, e o tragam no dia, como de tempo imemorial se tem praticado, e mandamos que esta se cumpra como nela se contem".

Procissão de S João em Almada, segundo uma photographia do sr. dr. Judice Pragana.
Imagem: Hemeroteca Digital, revista Branco e Negro, Julho de 1897

A partir desse dia foi a população da Ramalha e de mais lugares vizinhos, que se encarregavam dessa tarefa e a procissão jamais deixou de se realizar ao longo dos últimos 266 anos. (1)


(1) Caparica News cf. Jornal da Região — Almada, 15 de novembro de 2000

Artigo relacionado:
Da Ramalhinha aos Crastos

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O Almoxarifado do Alfeite em 1850

As differentes propriedades que se acham comprehendidas no Almoxarifado do Alfeite, estão situadas na peninsula ao sul do Tejo, sendo a principal formada pelo complexo das Septe Quintas, todas unidas e communicaveis por espaçosas ruas,

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

confinantes pelo norte com os sitios do Caramujo, e da Piedade, 

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

pelo poente com a estrada real do Alentejo, azinhaga do Rato, e quintas de Sancto Amaro, da Varegeira e do Rouxinol,

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

pelo sul, com os salgados do rio do Seixal, e pelo nascente com a praia; pega com este grupo o grande areial da ponta dos Corvos, que lhe pertence:

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

dous pinhais no sitio de Corroios,

Planta do Pinhal do Cabral, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Planta do Pinhal das Courellas, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

a Albufeira situada na contracosta do cabo d 'Espichel, com o terreno adjacente, que se acha demarcado, e uma courella de vinha do dominio particular de Sua Magestade a Rainha, incorporada na mais meridional das Septe Quintas, completam o numero das propriedades circumscriptas por este circulo administrativo;

Planta da Lagoa d'Albufeira, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

de cada uma dellas, como se torna indispensável, faremos especial tombação. (1)


(1) Tombo do Almoxarifado do Alfeite, 1850

sábado, 2 de abril de 2016

Quinta do Outeiro do Alfeite

Pertenceu ao conjunto de quintas que faziam parte da Casa do Infantado. Foi adquirida em 1707 pelo infante D. Francisco ao conde de Tarouca. (1)

Viata da Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A Quinta do Outeiro apesar de ser da Capela instituída pelo Doutor Manuel Lucas da Silva, e sua mulher Dona Catarina Josefa de Lima, administrada pelo Doutor José da Silveira Zuzarte, foi incorporada na Quinta do Alfeite por a utorização da Rainha a Senhora Dona Maria 1ª, concedida por Alvará de 15 de Maio de 1789. (2)

Em 1834, pelo decreto lei de 18 de Março é extinta a Casa do Infantado e passados 10 anos é feito um tombo da Real Quinta do Alfeite a 21 de Março de 1844, pelo almoxarife Severiano Fernandes de Oliveira onde nos é dado a conhecer a relação de prédios do circulo administrativo do Almoxarifado do Alfeite [...]

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847

[Relativamente à] Quinta do Outeiro - constituída por um prédio urbano (casas de habitação e várias casas de acomodações, cavalariça e palheiro e seis armazéns grandes) e prédio rústico (um bocado ajardinado, horta, vinha, arvores de pevide e caroço, e de espinho, poço com engenho e dois tanques) [...] (3)

Aproveitando a tradição do local para a prática da querenagem e as condições naturais de um baldio que existia junto à Quinta do Outeiro, uma das sete propriedades que a Casa do Infantado possuía no Alfeite, o industrial António José Sampaio instala um pequeno estaleiro nesse terreno junto ao salgado do rio, confinando a Sul com a referida Quinta do Outeiro, a Poente com a Romeira Velha, a Norte com o Caramujo e a Nascente com o rio Tejo.

Este estaleiro, vocacionado apenas para a construção de embarcações em madeira, encontrava-se em plena laboração em 1850 [...] (4)

[...] a Quinta do Outeiro tinha já sido vendida no tempo do Rei D. Luís à firma Rankin & Sons; (5)

Panorâmica da fábrica William Rankin & Sons na quinta do Outeiro no Alfeite, 1885.
Imagem: Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário...

A propriedade arrendada pela administração da Casa Real à William Rankin & Sons, foi depois comprada pela firma ao rei D. Luis, em hasta pública, em 1887, por vinte contos de réis.

Compreendia cinco armazéns, cavalariça, cocheira, casa para criados, palheiros, adega, lagar, casa de habitação com terreno para logradouro e terreno junto à praianuma área de 5168 m2.

Em 1898, a firma compra, também em hasta pública, ao rei D. Carlos, mais uma porção de terra com uma pequena casa e pomar, por cinco contos de réis e com a condição da William Rankin & Sons construir um muro com dois metros de altura para garantir a privacidade da Quinta Real do Alfeite.

Enseada da Cova da Piedade, c. 1900.
Em 1.° plano o pontão e a entrada da quinta do Alfeite e, em 2.°, o cais da Rankin & Sons.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Segundo Carol Mason, Cunison Deans Rankin adquire, em 1905, um estaleiro junto da fábrica, com anexos situados "na rua da praia" de acesso à quinta do Outeiro, à familia Sampaio, por dois contos de réis. (6)

A corticeira Rankin & Sons Ltd instalou-se na zona ribeirinha do Outeiro do Alfeite em 1884.

A preparação de pranchas de cortiça para exportação foi a actividade principal da fábrica durante os primeiros anos de funcionamento  [...]

A Rankin & Sons Ltd concentrou um grande número de mão-de-obra especializada, homens e mulheres divididos por sectores fabris, correspondentes às diversas fases da cadeia de produção.

Quinta do Outeiro do Alfeite, fábrica da Rankin and Sons, 1937.
Imagem: Rui M. M. Mendes

Esta corticeira constitui um exemplo do tipo de fábricas que se instalaram no Concelho. Acompanhou os períodos de recessão e de incremento no sector, o início das lutas operárias e a mobilização sindical e cooperativa dos trabalhadores. Encerrou definitivamente em 1956. (7)


(1) R. H. Pereira de Sousa, Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003
(2) Susana Maria Lopes Quaresma e Pereira, O palácio real do Alfeite..., Lisboa, Universidade de Lisboa, 2009, 5 Vols., cf. Alexandre M. Flores, António Neves Policarpo, Arsenal do Alfeite: contribuição para a história naval em Portugal, Junta de Freguesia, Laranjeiro, D. L. 1998, 2003
(3) Artur Vaz, Jornal da Região – Almada,  12. de julho de 2000
(4) Deputados do Grupo parlamentar do PCP, Cria o Museu Nacional da Indústria Naval, Lisboa, Parlamento, 2005
(5) Susana Maria Lopes Quaresma e Pereira, op. cit. 
(6) Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário (1860-1930), Câmara Municipal de Almada, 2003, cf. Alexandre M. Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990
(7) Fábrica da Rankin & Sons


sábado, 19 de março de 2016

Da Ramalhinha aos Crastos

A Ramalha situa-se na margem esquerda de uma antiga linha de água, sendo Miocénicos (22.5 milhões de anos a 5 milhões de anos) os terrenos do planalto e Plio-Plistocénicos (5 milhões de anos a 10 mil anos) os da zona mais próxima da linha de água.

Lugar da Ramalha, restauro da capela e edifício (infantário e creche), 2007.
Imagem: Guias de Arquitectura

As diversas estações arqueológicas existentes na zona, localizam-se desde o alto do planalto até à zona de planície e foram identificadas quer através de prospecção sistemática (que vimos fazendo de alguns anos a esta parte), quer pela observação de taludes junto a velhos caminhos ou novas vias, remoção de terrenos para obras diversas, etc.

As construções na Ramalha.
Imagem: Revista Al-Madan, n.° 3, 1984

Em 1976 Carlos Tavares da Silva escavou, de colaboração com o Centro de Arqueologia de Almada e o Museu de Arqueologia e Etnografia da Assembleia Distrital de Setúbal, a estação Neolítica da Ramalha, trabalho que, contrariamente à vontade de todos, não foi ainda possível tornar público.

Aspecto da intervenção arqueológica na estação neolítica na Ramalha, 1976.
Imagem: Revista Al-Madan, n.° 3, 1984

Já em 1983, a estação foi soterrada por algumas toneladas de terra sobre as quais se construiu um parque de estacionamento.

Pela mesma data (1976) e sob a orientação de elementos do Grupo para o Estudo do Paleolitico Portugués (GEPP). realizou-se uma sondagem em área onde se tinham recolhido à superfície alguns instrumentos líticos. 

Porém, as expectativas em relação a esta sondagem, cujos resultados publicaremos brevemente, foram também elas goradas pelas terraplanagens levadas a cabo em 1984 — a estação desapareceu na totalidade. 

Mas outros vestígios foi possível detectar. Assim, da Idade do Bronze encontraram-se alguns materiais num talude à beira da estrada, no local mais elevado do planalto. São na maioria fragmentos de cerâmica de formas carenadas e de grandes vasilhas de armazenamento. 

No mesmo talude eram visíveis restos de estruturas de habitat (fundo de cabana). O talude tem vindo a desmoronar-se por acção das intempéries. Do período Romano foram recolhidos materiais em dois taludes situados a meia encosta — sigillata cinzenta estampada, opus signinum, cerâmica comum, etc. 

Na área atrás referida mas num outro talude. detectaram-se vestígios de construções, inúmeros fragmentos de cerâmica pintada e restos alimentares (cascas de bivalves e ossos de diversos animais), espólio que pensamos poder atribuir-se ao período de ocupação Muçulmana. 

Também os restos de algumas edificações da Quinta dos Castros poderão ter pertencido à antiga ermida de Sto. Antào (Séc. XIV) de que resta hoje, na capela de S. João, uma lápide, dedicatória de um nobre e sua mulher. 

Lápide na parede exterior da capela:
À honra de Deus e Santo Antão,
este Oratório mandou fazer Fernão Gomes
e Mexia Vasques Farinha, no ano de 1456

Imagem: Revista Al-Madan, n.° 3, 1984

Em face do exposto e porque passou já à fase de execução o plano de urbanização da Ramalha. parecem-nos pertinentes algumas considerações. A Ramalha foi até há pouco tempo uma área suburbana e agrícola, uma comunidade cheia de tradições, perfeitamente distinta de outros núcleos populacionais do Concelho.

Aí poderíamos encontrar, como em nenhum outro local, uma forte consciência do passado, uma consciência orgulhosa da ancestralidade da terra e das suas gentes; um passado em que a lenda e a História se confundem na memória colectiva, materializadas em tradições seculares de que são exemplo as festividades de S. João Batista, misto de paganismo e religiosidade.

Uma tarde na Ramalha.
Imagem: José Pereira

Hoje, porém, se a alguns interessa saber "quem fomos", destrinçar a lenda da História, conhecer essas "raízes" de que justamente se orgulham as populações, enfim enriquecer a nossa vivência pelo contacto com a experiência de outros homens que aqui viveram, a outros, pelo contrário, não só tal preocupação é alheia como parecem apostados na eliminação pura e simples de todos os vestígios materiais desse nosso passado, comprometendo assim irremediavelmente o seu conhecimento.

Discursos de gente importante (vinda do "senso comum" tal opinião seria compreensível), veiculam a ideia de que do Passado nada de importante (leia-se "monumental") sobreviveu em Almada [...]

No caso da Ramalha, o projecto de urbanização implica a sua destruição histórica. paisagística e ecológica! Mas este não é um caso isolado da alteração de fachadas pela utilização de materiais inadequados. corno o aluminio, à destruição de estações arqueológicas, vai acontecendo de tudo um pouco [...]

Vestígios de balneário romano na antiga Quinta da Ramalha, 1947.
Imagem: Fundação Mário Soares

A situação criada na Ramalha é já irreversível. Julgamo-nos. no entanto. na obrigação de. pelo menos, recuperar os vestígios do passado desta terra cada vez mais "sem rosto". Por esse motivo solicitámos uma reunião com responsáveis camarários e autorização de escavação ao organismo competente (IPPC). Aguardamos as respostas [...] (1)

Capela da Ramalha, década de 1970.
Imagem: almaDalmada

--ooOoo--

No dia seguinte celebrava-se a festa de S. João na capella da quinta da Ramalha, havia procissão, e depois saía a celebrada dança dos pausinhos, assim chamada por levarem os pares uns bordões pintados de vivas cores, com que faziam muitas sortes e passos agradaveis; e quem diante d'ella ia e a dirigia era Pedro Marques, de casaca de esteira, caraça preta e grande chapéo armado, montado n'um jumento, e com o rosto voltado para a cauda do animal [paródia ao castigo aplicado ao marido submisso] (ler mais...) (2)

A jornada de um heroi moderno para a ilha de Elba,, gravura de 1814.
Imagem: British Library


(1) Em Almada cf. Ana Luisa Duarte, Revista Al-Madan nº 3, Almada, Centro de Arqueologia de Almada, maio/novembro de 1984
(2)  António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863

Informação relacionada:
Oratório de Santo Antão da Ramalha

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Mina de água do Pombal

Por decisão da Senhora presidente da Câmara Municipal de Almada, e na linha da sua preocupação para com a investigação, restauro e preservação do património deste concelho, mandou esta proceder ao desaterro de uma estrutura na zona do Pombal cujas origens remontam à idade Média, constituída por mina de águas, tanque e respectivos acessos, datando seguramente do século XIII, e aterrado por razões que se prendem com a urbanização do local, na década de sessenta deste século.

Chafariz do Pombal, Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Dado o interesse manifestado pelas populações relativamente ao conjunto patrimonial em referência, a Junta de Freguesia da Cova da Piedade decidiu divulgar as poucas informações disponíveis sobre o local, proporcionando aos interessados elementos de caracter histórico por forma a melhor poderem avaliar o interesse deste núcleo no contexto da vida social e económica da região ao longo dos séculos.

Alfeite, vista Geral tomada da Quinta do Pombal (detalhe), ed. desc., década de 1940.
Imagem: Bosspostcard

O conjunto em referência cumpriu durante séculos a dupla finalidade de abastecer de água a população das zonas próximas, e desedentar o gado das redondezas, fazendo-se o acesso por uma rampa empedrada a basalto.

Cova da Piedade, fonte Medieval do Pombal.
Imagem: Flickr

Tudo indica que seriam frequentes os litígios entre os seus utilizadores, acentuando-se os conflitos de tal modo que em 1392, uma sentença repartiu a água entre a Albergaria ou Casa dos Gafos de Cacilhas, que aí tinham uma propriedade, e outros proprietários das redondezas. 

A partir da referida sentença, a utilização da mina e do tanque passou a ser de uso público e, naturalmente, por esse motivo foi encimado pelas armas de Portugal.

Bandeira pessoal de D. João I com a sua divisa "Pour bien".
Imagem: Wikipédia

A atestar a antiguidade do escudo de armas está à disposição das quinas em cruz. Este, quando do aterro a que já fizemos referência, foi retirado do seu lugar de origem e posto a salvo no Convento dos Capuchos, por iniciativa do eminente investigador da história local, arqueólogo e homem de cultura Dr. Mário Bento, para quem Almada tem uma dívida de gratidão.

De resto, deve-se a esta personalidade a recolha da cantaria da entrada monumental da antiga quinta das Rosas do Pombal, recolhida igualmente nos Capuchos, e infelizmente em péssimas condições de conservação.

Portal da Quinta do Pombal, rótulo de garrafa de vinho (detalhe).
Imagem: Soc. Com. Theotónio Pereira, Lda.

Na primeira metade do século XX, já a água da mina do Pombal não era de boa qualidade para consumo e deixou de ser utilizada para esse fim, procedendo a Câmara Municipal de Almada à colocação de um chafariz no cimo da rampa de acesso, ligado à rede pública de abastecimento. 

No século XIV, o sítio compreendia uma extensa área que ia desde a referida mina de água, até à actual Rua de Vera Cruz, compreendendo o actual bairro de Na Senhora da Piedade e a quinta do Pombal que ali existia.

Bairro das Casas Económicas, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Cibersul

Em 1390 a Casa dos Gafos de Cacilhas possuia aí uma propriedade que, por confrontar em toda a volta com caminhos públicos e por dela constar parcelamento por vários aforamentos supomos que abrangia grande parte da área citada.

Os aforamentos mais antigos, e mais interessantes, da Albergaria de S. Lázaro, no Pombal são: 

Em 1393, um casal de "herdade de pão e vinho" que trazia um tal Marcos, escudeiro;

Em 1409, um bacelo que entestava com "caminho público de Pombal para Alvalade", a actual Ramalha;

Em 1539, um cerrado ( junto da mina), aforado a Frutos de Gois, irmão do cronista Damião de Gois, e avô do 19 senhor do morgado de Mutela, Luís de Gois Perdigão de Mendonça;

Em 1539, uma quinta e cerrado, aforados ao adail Diogo Fernandes. Este,coincide em nome e cargo com aquele de que fala Gaspar Correia nas "Lendas da India"."mandou Diogo Fernandes , homem cavaleiro, a que deu o cargo de adail, com doze de cavalo... e com mil piães que passasse à terra firme".

Ainda em 1539, refira-se que uma das propriedades de Albergaria neste sítio confrontava com um morgado de Vasco Lourenço.

Em 1555, uma sentença proferida contra Francisco de Sousa Tavares e sua mulher D. Maria da Silva, obrigava estes a pagarem ao prior e aos beneficiados das igrejas de Almada foro, "por um olival, certas geiras, tudo junto, contíguo e cerrado", que partia do norte com olival e do leste com estradas públicas, tudo isto no Pombal.

José Carlos de Melo.

Finalmente, o último proprietário [anterior à familia Theotónio Pereira] da chamada quinta do Pombal foi o notável publicista almadense, José Carlos de Melo: que aí nasceu em 1885. (1)


(1) Policarpo, António Manuel Neves, Mina de água do Pombal, Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1993

Artigos relacionados:

Rosas do Pombal
José Carlos de Melo


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Pera

A propriedade, ou como é dito na língua portuguesa a Quinta, está situada numa parte do país que, pela sua fertilidade, recebeu o nome de Capa Rica ou Rico Manto. Esta freguesia forma uma espécie de península ou língua de terra que se projeta para oeste, situada entre o rio Tejo, no seu lado norte, e o Atlântico, a sul, que aqui faz a baía tão familiar a todos os lisboetas e que se estende desde a foz do Tejo até ao Cabo Espichel.

Costa da Caparica, Carta dos Arredores de Lisboa — 68 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1903.
Imagem: IGeoE

A Quinta situa-se cerca de uma milha a partir da extremidade ocidental desta língua de terra, e quase a uma distância igual a partir do Tejo e do Atlântico. O nome de Pera foi-lhe dado a ele a partir da abundância de peras anteriormente produzidas na sua vizinhança. A casa não era nem bonita, nem grande nem cômoda, mas cerca de vinte anos atrás, foi consideravelmente ampliada pela construção de uma outra divisão, que foi feita pelo falecido Presidente, o Right Rev. Monsenhor Baines [bispo eq.], e, atualmente, é suficientemente grande para acomodar, sob seu teto, todos os internos do Colégio. 

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

No piso térreo é composta por uma adega razoavelmente grande, notável pela sua frescura, usada para o armazenamento dos barris de vinho e os quartos destinados ao alojamento do caseiro ou fazendeiro e seus trabalhadores. No primeiro andar há uma boa cozinha, uma pequena capela, e seis quartos, um dos quais é grande e serve como um refeitório quando a comunidade aí está. No andar superior são quartos para os Superiores e o dormitório. Os espaços exteriores consistem numa destilaria nova e limpa, adega, lagar, e estábulo.

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

A simplicidade do edifício é amplamente compensada pelo cenário encantador que o rodeia. Indo de leste para oeste, situa-se a meio caminho da encosta norte de um belo vale, ou melhor, depressão com cerca de uma milha de diâmetro, com colinas opostas suavemente inclinadas, e de quase igual altura embora sem grande elevação, estendendo em direcção oeste, até ao Atlântico cujas margens sobrepõe. Todo o vale é vestido, desde a sua base ao seu bordo, com vinhas intercaladas aqui e ali com campos de milho.

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

Inúmeras casas brancas estão espalhadas nos lados suavemente inclinados, enquanto no cume das colinas podem ser vistos ao sudoeste uma igreja e um convento, agora, infelizmente, em ruínas e servindo como celeiro mas que até a supressão das ordens religiosas foi ocupado pelos frades da Ordem de S. Francisco.

Caparica, Convento dos Capuchos, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

A sul, frente à Quinta, a cena é variada, aldeias, moinhos de vento, e pequenas plantações de pinheiros, enquanto a norte, atrás da Quinta encontram-se as duas vilas de Pera, cada um com seu moinho de vento. Pelo meio do vale passa uma estreita estrada pública ladeada de canas, que lhe dão a aparência de um riacho. 

Caparica, Pera, Quinta dos Ingleses, vista sul, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

Na extremidade ocidental onde o vale atravessa as colinas, e à distância de cerca de uma milha, uma parte do Atlântico é avistável, o rugido oco das ondas que batem na costa é incessantemente ouvido.

Vista de Caparica, tomada dos Capuchos, anterior aos trabalhos de construção do IC 20.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Vista de Caparica tomada dos Capuchos, após os desaterros no vale cego de Brielas para a construção do IC 20.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Imediatamente abaixo da Quinta fica a casa de campo, anteriormente pertencente ao Marquês de Valada, que, meio escondida atrás de um tufo de altas árvores antigas, forma um objeto pitoresco, especialmente numa noite de verão, quando como nos tempos antigos o gado era deixado solto para se alimentar nos campos vizinhos. 

Caparica, Pera, casa de campo, anteriormente pertencente ao Marquês de Valada, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

O vale é refrescado durante os calores do verão pela brisa do mar que entra na abertura a oeste, e o local é tão salutar que os seus habitantes geralmente chegam a uma velhice extrema. As terras do Colégio, que consistem quase inteiramente de vinhas ficam em volta da casa, estendendo-se desde o cume da colina norte, sobre a qual fica, até à estrada a sul, que atravessa o meio do vale . De tempos a tempos, conforme as oportunidades, apareciam acrescentos de terra, que por compra, eram feitos à propriedade original.

Encantador como este lugar de beleza natural, o amor dos filhos de Lisboa para com a Quinta deve ser procurado em dias felizes nos quais eles possam olhar para trás durante a "quinzena em Pera", que anualmente em setembro, a Comunidade aí passa.

A liberdade absoluta e sem contenção, que a reclusão da freguesia em que a Quinta está situada, torna possível o relaxamento da rigorosa disciplina do Colégio, a deliciosa sensação do "dolce far niente", que sucede à grave tensão mental da preparação para exames; a suave atmosfera ainda pura, revigorante e enriquecida carregada pela brisa a partir da ampla extensão do Atlântico, conferem um charme especial para as duas ou três semanas que aí são anualmente gastas lá, e que são familiarmente conhecida como "tempo da Quinta ".

Jardins do Colégio em Lisboa, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

A estas devem ser adicionadas a beleza da paisagem com "grupos de vinha nas colinas e suas frequentes divagações pelo vale [They had oft rambled forth along the vale...]", e os inúmeros pontos de interesse e de extrema beleza que se encontram ao alcance de um agradável passeio à noite .

Learn Your Homophones: Pear, Pair, and Pare
Imagem: grammarly

A simples menção do cume das alturas escarpadas que aqui formam a linha de costa, defrontando o vasto Atlântico, será suficiente para trazer de volta uma série de aprazíveis reminiscências a cada sucessiva geração de estudantes de Lisboa.

A Praia do Sol, Panorama dos Capuchos, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 107, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Para ver os resistentes pescadores puxar com as suas redes o tributo prateado exigido ás águas prolíficas, ou para passear ao longo da costa desolada e contemplar as ondas a arfar e a curvar soberbas, enquanto gradualmente se aproximam, como que impacientes de contenção, e, soando oco, se joguem furiosamente contra a praia, foram fontes de prazer que repetidas visitas nunca roubaram a sua frescura.

A Praia do Sol, Alando a rede, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 106, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Aqui os grandiosos aspetos da natureza desvelam-se à vista, e o poderoso oceano poderia ser estudado nos seus humores sempre variáveis. (1)


(1) Croft, William, 1836-1926; Gillow, Joseph, 1850-1921; Kirk, John, 1760-1851 Historical account of Lisbon College, 1902, St. Andrew's press, Barnet

Informação relacionada:
Pontifical English College of Sts Peter and Paul - Lisbon