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segunda-feira, 20 de março de 2023

Encerrado desde março de 2023

A praia do Alfeite junto à Quinta do Outeiro com o lugar do Caramujo e Almada em fundo, pintura do jovem Antóno Ramalho, encerra o ciclo de publicações deste blog.

Como resposta às lacunas de informação e objectividade apresentadas pelo Museu da Cidade de Almada, inaugurado em novembro de 2003, pretenderam os espaços Almada virtual museum (2014) e Mar da Costa (2016) promover o estudo, a investigação e o interesse pelas memórias e património de Almada e do seu termo, disponibilizando fontes, factos e eventos, ordenar, relacionar e contextualizar a informação, estabelecer uma plataforma de acesso a conteúdos externos, registar, indexar e cruzar informação e referências, atribuir palavras-chave de modo a agrupar e/ou filtrar expressões ou termos e optimizar o desempenho dos motores de busca online.

Tejo junto à Praia do Alfeite, António Ramalho, 1880.
Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

Atingidos esses objectivos resta dar por concluídas a edição e actualização deste blog dedicado a Almada e daquele dedicado a Caparica,  onde ontem se fez O último "lance"...). A plataforma associada de discussão no Facebook (Almada virtual) vai manter-se activa.

Com uma perspectiva mais abrangente,
atravessando margens, Eventualmente Lisboa e o Tejo (Arte e Memórias) irá incluir sempre que necessário as temáticas dos espaços agora encerrados.

Resta agradecer a vossa companhia nesta viagem.
Um grande bem-hajam!

Rui Granadeiro, março de 2023

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Conductor: rebocador (e cacilheiro) a vapor

Luís Ascêncio Tomasini (1823-1902) é o nome desse pintor, que foi, de profissão, capitão de navios e nos deixou uma obra notável. A tela que reproduzimos, está datada de 1887 e tem um interesse especial porque representa uma cena que não temos visto na pintura do século XIX.

Rebocador de vapor com o brigue entrando no Tejo (detalhe), Luís Ascêncio Tomasini, 1887.
Museu de Marinha

Como é sabido, a utilização do vapor na propulsão dos navios, constituiu um enorme salto tecnológico, em relação à navegação à vela, porque passou a ser possível fazer viagens cumprindo datas de largada e de chegada, independentemente de haver ou não vento e, mesmo, quando o houvesse, nem sempre era favorável.

Em Portugal tivemos o primeiro navio de passageiros em 1819 mas, na Marinha de Guerra, o vapor só entrou ao serviço em 1833. (1)

* * *

REGATA NO TEJO PROMOVIDA PELA REAL ASSOCIAÇÃO NAVAL

Realisou-se no dia 21 do mez que findou, a regata no Tejo promovida pela Real Associação Naval, conforme é costume nos mais annos, e á obsequiosa collaboraçáo do sr. José Pardal devemos o poder publicar hoje um desenho d'esta festa.

A regata no Tejo no dia 21 de agosto promovida pela Real Associação Naval
(Desenho do natural, pelo artista amador sr. José Pardal)
O Occidente n.° 313, 1 de setembro de 1887

A regata effectuou-se no Dáfundo em presença de sua magestade el-rei D. Luiz, que de bordo do seu yacht de recreio Syrius assistiu ás corridas dos barcos. Muitos vapores, fragatas e barcos de recreio embandeirados conduzindo grande numero de espectadores assistiram á festa.

Viam-se alli o vapor Dragão de S. M. El-rei D. Luiz, os yachts Amelia de S. A. o Principe D. Carlos, o Aura de S. A. o Infante D. Alfonso, e o Gypsy, Surpreza, Gwendoline, Irene, Iris, Gavina, Relampago, Hilda, Ninni, e o escaler a vapor do yacht francez Velox que estava no Tejo com o seu proprietario barão E. Boissard de Bellet, do Havre, que representava o Yacht Club dc França.

Os socios da Real Associação Naval com suas familias iam a bordo do Conductor, onde tocava charanga da armada.  

Vapor de pás Conductor, festival náutico no Tejo 1888/1889.
Museu de Marinha (digital)

Pelas 3 horas principiaram as corridas por duas guigas de quatro remos tripuladas pelos alumnos do collegio Arriaga, sendo a primeira, a Sereia tripulada pelos srs. Raul Borges, Ignacio Avellar, Arthur Fortes e Voga José Gd, tendo por timoneiro a sr.a D. Maria da Camara Arriaga, e a segunda a Attempt, tripulada pelos srs. Alfredo Pereira, Raul Garcia, José de Freitas e Voga José de Sousa, tendo por timoneira a sr.a D. Maria da Gloria Loureiro... (2)

Conductor (1880).
Conductor National Maritime Museum, Greenwich, London

Name: CONDUCTOR
Launched: 1879
Completed: 01/1880
Builder: Joseph T Eltringham, South Shields
Yard Number: 87
Dimensions: 150grt, 31nrt, 117.6 x 19.6 x 10.3ft; (1892: 165grt, 10nrt); (1914: 165grt, 63nrt)
Engines: 2 x SL1cyl (30.5 x 54ins), 90nhp; (1892: 62nhp, 11.5knots)
Engines by: Hepple & Co, South Shields
Propulsion: Paddle
Construction: Iron
Reg Number: 81606


History:
17/01/1880 William Hepple, South Shields; registered at London
01/1880 John Mitchell, Gravesend
07/1880 Frederico G Burnay, Lisbon; registered at Lisbon
19/05/1892 Sunshine Steam Tug Co (Adolph Gottschalk & Joseph Stuart managers), Liverpool
19/05/1892 Registered at Liverpool
03/1901 The Steam Tug Conductor Ltd (Adolph Gottschalk & Joseph Stuart managers), Liverpool
03/1914 Joseph John King & Sons Ltd, Garston
06/1914 William Cooper & Sons Ltd, Widnes
1929 Broken up


Comments: 1881: Stationed at Lisbon, Portugal

29/12/1899: Beached at Egremont, Wallasey, on the Wirral, following a collision

02/01/1900: Refloated and placed in Clover’s Dry Dock at Birkenhead

01/1923: Converted to a dumb dredging barge (151grt, 131nrt) (3)



(1) Revista da Armada n.° 385, abril de 2005
(2) O Occidente n.° 313, 1 de setembro de 1887
(3) Tyne tugs and tug builders

Mais informação:
ALERNAVIOS: «CONDUCTOR»

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Rua da Judiaria, impressões de Silva Porto

A rua da Judiaria em Almada foi sempre, como ainda é, uma rua feia e immunda, com a diferença de que hoje varrem-na mais amiudo do que antigamente, e é illuminada de noite a azeite de peixe; mas apesar d'isso era ali, n'uma casinha de primeiro andar, que se reunia a rapaziada fina de Almada e dos logares próximos.

Rua da Judiaria (Almada), Silva Porto, 1879-1893.
Imagem:Nuno Prates, Casa dos Patudos

O dono da casa, Pedro Marques de Faria, era um velho folgasão, em cujo animo nunca entrou a tristeza, ainda mesmo nos momentos mais graves da vida. Dizidor e peteiro, sempre tinha alguma nova anecdota que contar, alguns versinhos que recitar, algum caso notavel de que ouvira fallar em Lisboa, ou as novidades politicas falsas e verdadeiras de que a epoca era abundante [ler mais...] (1)

Almada, rua da Judiaria, Barata Moura, 1961.
Imagem: Câmara Municipal de Almada

Era magro [o mestre Damião], afilado, guedelhas brancas e olhar vivo. Arrastava uma perna, dava saliência as ancas, curvava o tronco adiante da linha dos pés. Desprovido de abalos e de conforto. aparecia, em muitas noites de chuva, encharcado, triste de figura, a ponto de provocar compaixão aos rapazes. Residia na Rua da Judiaria, num vago casebre, onde reunia, numa balbúrdia de pocilga, os seus parcos tarecos caseiros com a tralha do ofício. (2)
No "Catalogo dos trabalhos de Silva Porto: expostos na Escola de Bellas-Artes de Lisboa, em junho de 1894", aparece a pequena pintura Rua da Judiaria (em Almada) (19x13 cm) como pertença do sr. Bernardo Pinheiro (Pindella), conde de Arnoso, secretário pessoal do Rei D. Carlos.

Trata-se, de uma anotação de formas, cores e luminosidade que Silva Porto eventualmente usaria numa composição maior e mais elaborada. A silhueta humana que o pintor esboça ao centro é voluvel e inacabada. Poderia ser o vendedor de peixe transportando no ombro as canastras enfiadas numa vara, ou, o aguadeiro e o burro transportando os barris com água, sugerido pelos meios-tons da sombra atrás. Os edifícios representados no primeiro plano à esquerda e no segundo à direita ainda existem.

Hoje, esta representação rápida , uma pochade, inclui-se na significativa colecção de obras de Silva Porto, adquiridas por José Relvas. Encontra-se exposta na Casa dos Patudos, Museu de Alpiarça, cujo curador, Nuno Prates, teve a cortesia de nos ceder a imagem em vista deste apontamento.

A Rua da Judiaria, uma das artérias reconstruídas após o terramoto de 1755, localiza-se no núcleo da antiga vila de Almada.

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Assinalam-se a branco, na Rua da Judiaria, as fachadas de alguns edifícios viradas a poente.

Os materiais existentes e excedentes da recuperação de Lisboa serviram a técnica da "gaiola pombalina" na construção das novas habitações: os materiais derrocados foram usados para enchimento das alvenarias e as paredes foram reconstruídas utilizando a pedra e a cal.

Rua da Judiaria (Almada), Silva Porto, 1879-1893.
Imagem:Nuno Prates, Casa dos Patudos

No século XIX, a Rua da Judiaria era lugar de passagem para a Calçada da Barroca [e Largo Boca de Vento] onde estavam localizadas a sede da Administração do Concelho (até cerca de 1890) e a Repartição de Finanças de Almada. (1)


(1) António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.
(2) Romeu Correia, Os Tanoeiros, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1976
(3) A centralidade da Rua da Judiaria na transição para o século XX

Informação relacionada:
Catalogo dos trabalhos de Silva Porto: expostos na Escola de Bellas-Artes de Lisboa...,, Lisboa, Typ. Franco-Portugueza, 1894

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Alfeite em 1881, a pintura naturalista ao ar livre de António Ramalho

Em 1880, ainda aluno das Belas-Artes, nas suas peregrinações artísticas em companhia do mestre Silva Porto descobrem um determinado recanto da praia do Alfeite, na margem fronteira a Lisboa. Trata-se de uma pequena enseada bordejada por falésias, com o casario de Almada recortado ao fundo na linha do horizonte.

Tejo junto à Praia do Alfeite, António Ramalho, 1880.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

Ambos irão pintar o local, colocando o cavalete em pontos próximos. Ramalho retomará, ao longo dos meses seguintes, o mesmo ponto de vista em diversas versões, utilizando quer o óleo quer a aguarela, de que desde cedo se tornou exímio executante [...]

Praia do Alfeite, aguarela, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

Com o recuo do ponto de vista, o volume dos rochedos e da massa do casario perde peso no interior da composição, que, entretanto, ganha uma nova espacialidade interior, através do prolongamento da extensão do areal [...]

Praia do Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

Guiado pelo exemplo tutelar de Silva Porto, através do seu convívio e ensinamentos, António Ramalho enfrenta o tema da paisagem, procurando-se a si próprio. A lição do paisagismo francês e dos pintores de Barbizon só a conhece por intermédio das notícias e dos trabalhos do próprio Silva Porto [...]

Paisagem na Real Quinta do Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

Quase despercebida entre os troncos e as sombras, deparamo-nos com a figura do pequeno cavador que trabalha para manter aberto e limpo o canal de rega, veio de vida neste espaço cultivado [...]

Pomar do Antelmo, Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

O tema da paisagem com laboriosas lavadeiras [...] parecia agradar ao público e à crítica. As comuns tarefas quotidianas, desempenhadas por homens e mulheres do povo, passavam a constituir motivo de interesse para os pintores.

Lavadeiras na Romeira, Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

A Ramalho não interessava, porém, registar o aspecto documental dessas cenas mas antes reforçar a sua valorização poética. (1)


(1) Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004 

Artigos relacionados:
António Ramalho na praia do Alfeite em 1881
Praia do Alfeite e Lavadeiras na Romeira

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (3/18), notas biográficas

António Avelino Amaro da Silva (c. 1821 – 1889)



Proprietário, engenheiro civil, agrimensor, piloto de navios.

Fazenda Flores do Paraízo, Nicolau Facchineti, 1875.
Imagem: Instituto Estadual do Patrimônio Cultural

Não sei si nasceu no Brazil ou si naturalizára-se brazileiro, tendo seu berço em Portugal.
Sendo piloto examinado pela escola naval portugueza, serviu alguns annos como agrimensor na cidade de Valença, provincia do Rio de Janeiro.
Escreveu: — O Caramujo: romance historico original. Rio de Janeiro, 1863 [...]

in Sacramento Black, Augusto Victorino Alves, Diccionario Bibliográfico Brasileiro, Vol. I, pág. 116, Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1883

Filho de António Silva (1801 - 1879), natural de Adão Lobo, Cadaval, e de D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de Manuel da Costa Telles Almas, de Lamego, casados em 1821, ou mesmo em 1820. Deste casamento teriam nascido catorze filhos.

António Avelino Amaro da Silva poderá ter sido o primeiro filho do casal, tendo, por isso, o nome igual ao do pai, como era costume nesse tempo.

Conhecem-se-lhe quatro irmãos: Francisco Emygdio da Silva (1823 - 1887), primeiro taquígrafo da camara dos deputados; Christiano Gerardo da Silva, professor de música e artista (em 1908, proprietário, idoso, encontrava-se doente); Pedro de Alcântara e Maria da Gloria, estes ultimos gémeos, nascidos na freguesia da Encarnação, em Lisboa.

Entre 1831 e 1833 decorre a ação de O Caramujo.

Segundo D. Francisco de Melo e Noronha e José Carlos de Melo, António Avelino Amaro da Silva, foi testemunha ocular da batalha e da vitória ocorridas em 23 de julho de 1833.

António da Silva, seu pai, recebe a medalha das Campanhas da Liberdade, instituída em 1861, com o algarismo 5, correspondente aos anos de serviço durante a Guerra Civil de 1826 a 1834, pelo que existe a clara possibilidade deste ter participado nos acontecimentos relatados no romance, assim como, na descrição dos lugares e caraterização dos personagens.

António Avelino Amaro da Silva entra para a Escola Naútica (Academia Politécnica do Porto) em 1844.

Em 19 de março de 1847, aspirante de 3.a classe a guarda marinha, é promovido a guarda marinha  [O Progressosta n.° 135, 1847]  e, com o curso de piloto, permanece na Armada até 1855.

Chega ao Rio de Janeiro, como passageiro, no bergantim Clara [Bremen], proveniente de Santa Helena, após 12 dias de viagem.
[Correio Mercantil, 19 de julho de 1852]

De 1855 a 1859 publicita a sua actividade de agrimensor no Almanak Administrativo, mercantil e Industrial do Rio de Janeiro.

Bandeira do Império do Brasil de 1822 a 1870
Imagem: Wikipédia

Em 1859 casa com D. Delfina Amelia de Aquino Silva (1840 - 1872), filha de Joaquim Rodrigues de Aquino, tenente, e de Mariana Osória Leite, então já falecida.
Valença

Antonio Avelino Amaro da Silva. agrimensor, piloto, examinado e approvado, etc.:

Faz publico a quem interessar, aos que o tem honrado com sua confiança e aos seus amigos. que se mudou para a fazenda de seu sogro, o Illm. Sr. tenente Joaquim Rodrigues de Aquino no logar denominado Montacavallo, divisa das provincias do Rio de Janeiro e Minas, margens do Rio-Preto, para onde lhes podem dirigir quaesquer correspondencias pelo correio de Santa Theresa de Valença.

Por esta mesma occasião agradece summamente as felicitações que lhe tem sido dirigidas pelo seu feliz consorcio com D. Delfina Amelia de Aquino Silva, e o faz sciente aos que no numero daquelles não tenhão recebido participação.

in Correio Mercantil, 7 de fevereiro de 1859

Instala-se na residência do sogro, na fazenda de Montacavallo, margens do Rio Preto, Santa Theresa de Valença, a região maior produtora mundial de café, nesse tempo.
Monta Cavalo e Mont’Alverne, criadas por Tomás Alves de Aquino, que viera do Turvo ou do Campo, como chamava a faixa do terreno além do Boqueirão. Tomás Alves deixou os seguintes filhos: Manoel Tomás, Joaquim Rodrigues de Aquino, Francisco de Assis Alves, Anastácio Rodrigues de Aquino, Dona Mariana, esposa de Joaquim de Paula e Souza e finalmente a esposa do Coronel Francisco de Assis Vieira, chefe do Partido Liberal até a queda do Império. Manoel Tomás Alves e Joaquim Rodrigues de Aquino tornaram-se proprietários das duas Fazendas comprando as partes dos outros herdeiros [...]

in Porto da Flores, Perfeitura de Belmiro Braga
Em 1862, noticia a liquidação de uns escravos de orfãos em que tem parte [Correio Mercantil, 25 de março de 1862].

No mesmo ano, legitimou-se a fim de obter o passaporte [Correio Mercantil, 12 de abril de 1862].

Em 1863 publica o romance histórico O Caramujo.

Em 1865 faz público que regressou da sua viagem á Europa, e que continuará com os seus trabalhos de medições de terras no Brasil, onde os exercia desde 1852.

Regressa ao Rio de Janeiro, em 19 de janeiro de 1871, no paquete inglês Magellan [Diário do Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 1871].

A 7 de março volta a partir para Lisboa, no paquete francês Sindh, por motivos alheios à sua vontade [Diário do Rio de Janeiro, 8 de março de 1871].

Ainda no mesmo ano, 1871, propõe ao governo de Portugal, para Lisboa, um caminho-de-ferro americano de tração animal.

A sua esposa falece em Lisboa a 1 de abril de 1872.

Falecimento em Lisboa; Lê-se no Dário de Notícias de Lisboa em data de 2 do corrente: "Faleceu hontem ás 11 horas e 43 minutos da manhã, a Sra. D. Delfina Amelia de Aquino Leite e Silva, esposa do nosso amigo o Sr. António Avelino Amaro da Silva, proprietário e engenheiro civil. Era natural da provincia do Rio de Janeiro, onde conta muitos e abastados parentes. Contava 32 annos de idade. O seu funeral verifica-se hoje pelo meio dia. O inconsolavel esposo não faz especiais convites."

in Diário do Rio de Janeiro, 21 de abril de 1872

Em 24 de abril é rezada na igreja da Candelária, uma missa por D. Delfina Amelia de Aquino Leite e Silva [Diário do Rio de Janeiro, 24 de abril de 1872].

Tendo sido offerecida pelo directores da Companhia Economia a sua chacara das Larangeiras pareceu á commissão benefico alvitre o de estabelecer nella casa de convalescença. Foram encarregados desse trabalho os dignos membros da commissão dos hospitaes commendador Miguel Couto dos Santos, Caetano Pinheiro e o Sr. António Avelino Amaro da Silva, dignissimo gerente daquella companhia, que infelizmente enfermou logo após os primeiros trabalhos de seu cargo. [...]
No dia 1 de fevereiro fomos privados dos valiosos serviços do nosso companheiro o Sr. António Avelino Amaro da Silva, que, tendo trabalhado e dirigido os trabalhos de limpeza e reparos da casa (o que fez com a mais energica e boa vontade) debaixo de chuva constante cahiu doente e foi obrigado a retirar-se. Desde então tem sofrido constantemente a ponto de não ter podido até hoje voltar ás suas occupações civis [...]

in Diário do Rio de Janeiro 14 de setembro de 1873

Parte para Lisboa, na companhia da filha, em 29 de outubro no paquete inglês Araucania [Diário do Rio de Janeiro 30 de outubro de 1873].
Distinção honorifica — A Sociedade 1° de Dezembro de 1640 [posteriormente Sociedade Histórica da Independência de Portugal], de Lisboa, conferiu ao Sr. António Avelino Amaro da Silva o diploma e medalha de ouro de socio honorario da mesma sociedade pelo importante donativo que fez á comissão representativa daquela sociedade nesta mesma Côrte. O Sr. Avelino é um dos bons cidadãos portugueses que entre nós teem residido não só pela sua honradez como pela estima em que teem os brasileiros, do que muito folgamos em dar testemunho proprio pelo conhecimento intimo que temos do seu excellente caracter.

in Diário do Rio de Janeiro 19 de dezembro de 1873

Distinção honorifica — Sr. redactor, lemos a noticia que V. deu no seu numero de hoje, de haver sido condecorado o sr. Antonio Avelino Amaro da Silva, pelo serviço prestado na concessão feita de algumas acções da companhia que S. S. Era gerente, á Sociedade 1° de Dezembro de 1640. Não é nosso fim reprovar essa distinção, nem entrar na analyse se ella foi bem ou mal merecida; o que nos cumpre protestar é contra a boa intenção com que aquelle senhor fez esse donativo. Quem sabe o modo arrogante com que este senhor tratou aos dignos directores da companhia que havia confiado ao Sr. Avelino a gerencia dos seus negocios, a ponto de aggredir aum delles em pleno publico, apellidando-os com a grosseira expressão — gallegos — e outras de igual jaez, certamente terá comprehendidoque nem o patriotismo, nem o amor á Sociedade Primeiro de Dezembro de 1640 levaram o Sr. Avelino a semelhante acto. Quem insulta em publico os seus compatriotas, homens distinctos, cheios de serviços e de reconhecida posição social, chamando-os por um nome que aqui só é conhecido por injurioso, certamente que não merecia semelhante distincção. É neccessario não confundir patriotismo com fanfarronadas filhas do despeito.

in Diário do Rio de Janeiro 20 de dezembro de 1873

Em 1874, protesto de Antonio Avelino Amaro da Silva da Companhia Economia de lavanderia do Rio de Janeiro contra a accusação que lhe faz o relatorio da directoria de 31 de Julho de 1874 e analyse do mesmo relatorio [Biblioteca Nacional de Portugal].
A camara municipal desta cidade concedeu a auctorização ao sr. Antonio Avelino Amaro da Silva para estabelecer uma linha de caminho de ferro americano a partir do largo de Andaluz, pelas terras de Valle de Pereiro, rua do Salitre até ao Rato.

in Diário Illustrado, ed. 17 de novembro de 1874
Em julho de 1875 é noticiado e publicitado o falecimento de sua mãe.
Falleceu a Exma. senhora D. Joanna Francisca da Costa e Silva, esposa do sr. Antonio da Silva, um dos veteranos da liberdade, e mãe dos nossos amigos os srs. Francisco Emygdio da Silva, antigo sub-chefe da repartirão tachigraphica da camara dos srs. deputados, André [António] Avelino Amaro da Silva, engenheiro, e Christiano Gerardo da Silva, distinto musico. Tinha 75 annos de idade.

Senhora muita respeitavel, estremecia seu marido e seus filhos e era por elles adorada. Poucas vezes se terá visto mais amor maternal, poucas vezes terá havido mais dedicação filial.

Compartimos a dôr dos nossas amigos.

Acerca do enterro do finada, publicamos n seguinto convite :


Antonio da Silva, e seus filhos Francisco Emygdio da Silva, Antonio Avelino Amaro da Silva, e Christiano Gerardo da Silva, participam aos seus parentes e relações, que acaba de fallecer sua chorada esposa e mãe, a sr.a D. Joanna Francisca da Costa e Silva que se ha de sepultar hoje 24 pelas 11 horas da manhã, saindo o feretro da rua de S. Filippe Nery n.° 26, 2.° andar [residência de Innocencio Francisco da Silva, autor do Dicionnario Bibliographico Português, conforme atesta ainda hoje a placa apensa no edifício].

in Diario Illustrado, ed. de 24 de julho de 1875
Em Portugal, porém, onde effectivamente a palavra partidos é uma denominação completamente arbitraria, onde essa palavra não significa mais do que a reunião de um certo numero de homens, ligados não pelas mesmas idéas mas pelos mesmos interesses, comprehende-se que haja quem aspire vêr reunidos em uma mesma vereação os homens mais illustrados na certeza de que logo que se acharem debaixo do mesmo tecto, verão que há entre elles a mais completa uniformidade de principios e de opiniões. [...]
É evidente que o governo favorece a listas do Srs. Rosa Araujo, Visconde da Azarujinha, etc. apoiando assim a reeleição da camara transacta. A lista que lhes faz guerra é composta dos seguintes cavalheiros: Conde de Paraty, Luiz Manoel da Costa, Francisco Simões Carneiro, Joaquim António de Oliveira Namorado, José Elias Garcia, Antonio Ignacio da Fonseca, Manoel Gomes da Silva, Antonio Moura Borges, Zeferino Pedroso, Gomes da Silva, José Isidoro Vianna, Antonio Avelino Amaro da Silva e José Carlos Nunes [...]

in Diário do Rio de Janeiro, ed. 20 de novembro de 1875
Aproxima-se o dia para a eleição da vereação municipal que ha de gerir os negocios do municipio de Lisboa no proximo biennio e de dia a dia se activam os trabalhos preparatorios [...]
A segunda [lista] é composta dos seguintes cavallheiros: Conde de Paraty, par do reino, proprietario e grão-mestre do Grande Oriente Luzitano Unido; Joaquim Namorado, facultativo; José Izidoro Vianna, idem; Zophimo Pedroso Gomes da Silva, idem; Elias Garcia, lente da escoma do exercito e redactor da “Democracia”; José Carlos Nunes, negociante; Luiz Manoel da Costa, idem; Antonio Moura Borges, capitalista e negociante; Francisco Simões Carneiro, idem; Manoel Gomes da Silva, idem; Antonio Avelino Amaro da Silva, proprietario e engrenheiro; e Antonio Ignacio da Fonseca, cambista [...]

in O Liberal do Pará, ed. 7 de dezembro de 1875

Em 1876, Brito Aranha, confirma a presença de Antonio Avelino Amaro da Silva no funeral de Inocêncio Francisco da Silva, ambos pertenceram à loja maçónica 5 de novembro, mais tarde Loja Elias Garcia. No mesmo acontecimento é notada também a presença de António de Silva, seu pai [Silva, Innocencio Francisco da, Aranha, Brito, Dicionnario Bibliographico Português, Estudos..., Lisboa, Imprensa Nacional, 1883].

Em 15 de março de 1877, regressou ao Rio de Janeiro, acompanhado de sua filha, no paquete inglês Sorata [Diário do Rio de Janeiro, ed. 16 de março de 1877].

The Pacific Steam Navigation Company's Royal Mail Steam Ship, Cotopaxi, 4,022 Tons, 1873.
Imagem: Picture Gallery of Steamers

No mesmo ano regressou a Lisboa, acompanhado pela filha, no paquete Cotopaxi, em 8 de julho.

Em 1879 falece o seu pai, António Silva, com 79 anos.

Em 20 de dezembro de 1887 falece o seu irmão, Francisco Emygdio da Silva, com 64 anos [Diário Illustrado, ed. 21 de dezembro de 1887].

Em 1889, António Avelino Amaro da Silva, falece na sua casa, em Carnide.
Falleceu na sua casa de Carnide, onde residia, o Sr. Antonio Avelino Amaro da Silva, que durante muitos annos esteve no Imperio do Brazil onde desempenhou em varias provincias diversas comissões de engenharia cívil. O fallecido havia começado sua carreira na marinha mercante, tendo servido mais tarde à junta [governativa] do Porto, em 1846. Deixou um romance histórico intitulado "O Caramujo", onde são descriptas diversas scenas da lucta liberal.

in Tribuna Liberal, Domingo, 24 de Março de 1889


Referências:

Biblioteca Nacional de Portugal
Biblioteca Nacional Digital Brasil
Projeto Compartilhar


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Margens do Tejo

Saindo do Terreiro do Paço em um vapor, chega-se com poucos minutos de viagem ao caes de Cacilhas, do outro lado do Tejo;

Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, A. F. Lopes e Rodrigues Thomaz, gravura, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

ahi inúmeros rapazes vos offerecerão burrinhos, que é a viatura ordinária d'este sitio, e são seguros, fortes e tão bons como os do Egypto; 

montareis, e deixando pelas costas o magnifico Tejo e o soberbo panorama da cidade que orla a outra margem, o caes de Cacilhas onde foi assassinado o general Telles Jordão em 1833, e o pequeno fortim adjuncto, ireis por entre casas de mais ou menos formosa apparencia, lindos jardins e valiosas quintas, disfructar a óptima vista do castello de Almada, ou a Fonte da Pipa, d'onde se fornecem de agua muitos navios, e também dos preciosos vinhos encerrados nos armazéns contiguos;

ahi perto é a fabrica da Margueira, bello estabelecimento fabril, e mais longe fica o Pragal, e o Caramujo, e a Cova da Piedade, ludo logares pittorescos, de ares salubres e abundantes comestíveis.

A morada e quinta real do Alfeite é de todos o mais agradável, e depois a quinta da princeza, na Amora.

Palácio e Quinta Real do Alfeite, João Ribeiro Cristino, in Occidente Revista Illustrada, março, 1887.
Imagem: Hemeroteca Digital

Quem do alto do castello de Almada, lança a vista para o outro lado do rio, e abraça n'um relancear toda a senhoril Lisboa, desde Xabregas até Belém, e até á barra, pode dizer que viu um dos mais grandiosos quadros que a Europa apresenta no seu género.

E se alongando a vista pelo Tejo abaixo, transpozer com os olhos a torre do Bogio, enxergará lá fora o Oceano em toda a sua magestade e inúmeros barcos de vários tamanhos e estruturas, que se confundem no horisonte, como uma pequena mancha do firmamento ou do mar.

Saindo de Cacilhas e Almada pela margem sul do Tejo, encontram-se algumas insignificantes povoações para o Occidente, encravadas em areiaes, Porto-Brandão, a Trafaria, Caparica, e outras ainda menos importantes;

para leste do pontal de Cacilhas ha as povoações de pescadores do Barreiro, Seixal e Arrentela, o paiz vinhateiro do Lavradio, Valle de Zebro, e muitos outros logares até Alhos Vedros e Aldeagallega.

Vista de Lisboa tomada de Almada
Imagem: Byron, George Gordon, Childe Harold's Pilgrimage..., London, John Murray, 1869

Nos dias das festas particulares de cada uma d'estas terras o seu aspecto é risonho, as suas galas brilham á luz do sol ; no resto do anno é miserável a apparencia das pobres villas e aldeias, não pagam em graças ao forasteiro o trabalho da jornada. (1)


(1) Novo guia do viajante em Lisboa, Lisboa, J. J. Bordallo, 1880.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Francisco Inácio Lopes

Francisco Inácio (Ignacio) Lopes (1806-1893)

Aos 21 anos licenciou-se pela escola médica de Lisboa, tendo logo evidenciado a sua rara habilidade para o exercício da profissão, que imediatamente iniciou na terra da sua naturalidade [Almada], o que levou a Câmara, com o apoio da opinião pública, a nomeá-lo médico do partido do município, em junho de 1830 [...]

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830
Por decreto de 19 do corrente mes

Cirurgião Mór das Fortalezas e Baterias ao Sul do Tejo, sem vencimento algum, o Cirurgião do partido da Camara da Villa de Almada
Francisco Ignacio Lopes.

in Gazeta de Lisboa, n.° 131, 4 de junho de 1833.
[...] em 1850, aquando das eleições municipais, foi eleito vereador, e a Câmara em breve, o elegeu Presidente.

Por duas vezes e em épocas diferentes foi o dr. Francisco Inácio Lopes presidente da Câmara Municipal de Almada, onde realizou uma obra notabilíssima.

Vue de la rade et de la ville de Lisbonne
Imagem: Le Monde illustré, 1858, M. de Bérard.

Funda o Serviço de Socorros de Incêndios em 1850; manda construir poços em Vale de Rosal e Romeira; reedifica o chafariz da Fonte Santa; restaura o caminho novo para a Costa de Caparica, a calçada da Fonte da Pipa,

Vista parcial do Tejo, Casa da Cerca e estrada da Fonte da Pipa, 1858.
Aguarela, aut. desc., datada 14 de Março de 1858.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

a calçada da Trafaria, as estradas da Amendoeira, da Mutela e do Pombal, e promove muitas outras obras, entre as quais o cais de embarque e desembarque em Porto Brandão.

Enseada da Paulina, revista Branco e Negro n° 60, 1897 (ver artigo dedicado)
Imagem: Hemeroteca Digital

Contribui também para a construção da Capela do Cemitério; da Praça e Casa do Açougue; da Casa para a "Bomba", e, em 1860, voltando a ser presidente da Edilidade, promoveu a iluminação pública de Cacilhas e de Almada (luz de azeite).

Lisbonne
Imagem: L'Illustration, Journal Universel, 1860, Anastasi.

Finalmente, como último empreeendimento, manda construir o Grande Cais do Ginjal.

Cais do Ginjal, Óleo, Alfredo Keil
Imagem: Casario do Ginjal



Foi deputado às corte pelo círculo de Almada, vindo a ser reeleito três vezes até 15 de Janeiro de 1868 e, no ano de 1880, é novamente eleito procurador à Junta Geral do Distrito, o mesmo acontecendo no ano de 1886. (1)

Dr. Francisco Inácio Lopes.
Imagem: Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada
O resultado das eleições supplementares para deputados foi quasi todo favoravel ao ministério; apenas três candidaturas da oposição puderam vingar, e por pequena maioria: foram ellas as dos srs. Francisco Ignacio Lopes (cirurgião) [...]

in Diário do Rio de Janeiro, 18 de novembro de 1860




(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.

Mais informação:
Occidente n° 541, 1 de janeiro de 1894

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Quarentena

Rafael Bordalo [Raphael Bordallo] Pinheiro (1846 - 1905), presença no Brasil de 1875 a 1879.

Rafael Bordalo Pinheiro.
Imagem: Hemeroteca Digital

Meu caro Tejo de Cristal. Cheguei há dias do Brazil.

The Pacific Steam Navigation Company's Royal Mail Steam Ship, John Elder 3,500 Tons, 600 HP. Built by John Elder & Co., Glasgow, 1869.
Imagem: 19th Century Ship Portraits in Prints

Desembarco considerado para todos os effeitos um emissario do Vomito Negro.

Panorama visto da Trafaria, Vista de Lisboa e do Tejo tirada do Lazareto, ed. Tabacaria Costa, década de 1900. .
Imagem: Delcampe

Os quartos de 1.a classe. Os de 2.a. Os de 3.a. isto é: 3 classes distintas e uma só verdadeira.

No Lazareto de Lisboa, o quarto, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A peça de luxo, a melhor peça de architectura do edifício.

No Lazareto de Lisboa, a peça de luxo, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal>

No vão inferior desta escada é a hygienica sala de jantar da 3.a classe.

No Lazareto de Lisboa, a sala de jantar da 3.a classe, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal


Oh! como eu me recordo do sumptuoso serviço do Joaquim dos Melões, de Cacilhas. (1)

No Lazareto de Lisboa, Joaquim dos Melões, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O namoro da janella abaixo, imprevidente, como não pôde deixar de ser, arrisca uma mulher a ligar-se para sempre a um vadio; ou um homem laborioso a cabir na armadilha que lhe preparou a menina que só via no casamento a possibilidade de assistir na rua dos Condes à representação de uma magica, ou de ir no dia de S. João à Outra Banda merendar a casa do Joaquim dos Melões.
Em conclusão, o namoro da janella abaixo devia ter sido prohibido pelo Código civil como attentato-rio da dignidade da familia, e conductor seguro e rápido do divorcio judicial.

in Galeria de Figuras Portuguezas
 

Montar, galopar, correr, correr ainda que seja n'um jerico de Cacilhas, por essas azinhagas floridas da outra banda do Tejo, gaiato ao couce, sobre um albardão berrante e jaezes polychromos, onde a figa negreja na testeira do jumento entre ourellos de algodão, vermelho como as cerejas de Ceragonte!
Montar, cavalgar, é a preoccupação o pensamento de metade da humanidade, desde o juvenil escolar até ao pacato burguez, que por dias santificados vae divertindo a rotunda esposa até abancarem no Joaquim dos Melões, saboreando a bella salladinha com pimpínella e aipo, e a boa pescadinha frita digna de figurar no banquete, entre as matees e os ganços da Germânia, quando Lucullus jantava em casa de Lucullus!

in Recordando


Ter uma pessoa uns cobres a mais nas algibeiras e desejar divertir-se, não é caso para se surprehender ninguem; é mesmo um caso naturalissimo!
Escolher o outro lado do Tejo para dar uma passeata, é igualmente um caso muito natural! 
Ter fome e ir petiscar, continua a ser o caso mais natural do mundo! Dar a preferencia á antiga casa do defunto poeta Joaquim dos Melões, não é para admirar, pela fama do estabelecimento e, ainda mais, pela fama dos petiscos! 
Mas... fazer um roubo em domicilio proprio, isso é que é realmente um facto digno da maior censura e punido rigorosamente pelo nosso codigo civil. 
Pois é verdade. . . roubamos! 
Mêa culpa, mêa culpa, mêa maxima culpa!!! 
O arrependimento. porém, salva, e aqui vimos depôr o roubo tal qual o encontrámos sobre uma das mesas da casa do poeta, onde petiscâmes no dia 15 de setembro, por occasião da festa no largo da Piedade.
Eil-o sem lhe faltar nada:

"Lista"
Sopa de Masa. 
dita Juliana. 
canga de galina. 
haros. 
came cocida. 
carne hasada de Baca. 
dita porco. 
costa letas panadas. 
Lingoa hagardincira. 
carnes estopada hargerdineira. 
pato courado com haros. 
galina courada. 
Dita d'fricace. 
dita de celbid'la, 
cuello gisado. 
carneiro gisado
pato com feigon carapato 
carne pre fifes
Frangos de fricace.
"sobre mensas"
ceijo falmengo
dito branco al farina
Peras
Pecegos
Larangas
hubas
Macanis
Melons
Toda hacalidade de dose

Se ainda fosse vivo o velho Joaquim dos Melões, diria na sua linguagem pittoresca e metrificada:

É uma coisa nunca vista,
a redacção d'esta lista!
É discipulo o intrujão
Do seu "Brabozá Lião"!
Merece o autor do "menú"

Um pontapé no... etc.

Zé Povinho, Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro Lda.
Imagem: Restos de Colecção


in Almanach do Trinta 1881, Lisboa, Typographia Popular, 1880

Alguns dos companheiros de quarentena no Lazareto.
Imagem: Correia, António, Divagando sobre Caparica: pedaços da sua história, Almada, edição do autor, 1973.


(1) Pinheiro, Raphael Bordallo, No Lazareto de Lisboa, Lisboa, Empreza Litteraria Luso-Brazileira Editora, 1881.

Artigos relacionados: 
Lazareto de Lisboa, em 1897
Decauville Cacilhas Lazareto em 1894

Informação adicional:
O Lazareto, Gazeta dos Caminhos de Ferro n.° 1374, 16 de março de 1945
Restos de Colecção, Raphael Bordallo Pinheiro

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Almada de Francisco Inácio Lopes

Francisco Inácio (Ignacio) Lopes (1806 — 1893)

Aos 21 anos licenciou-se pela escola médica de Lisboa, tendo logo evidenciado a sua rara habilidade para o exercício da profissão, que imediatamente iniciou na terra da sua naturalidade [Almada], o que levou a Câmara, com o apoio da opinião pública, a nomeá-lo médico do partido do município, em junho de 1830 [...]

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830
Por decreto de 19 do corrente mes

Cirurgião Mór das Fortalezas e Baterias ao Sul do Tejo, sem vencimento algum, o Cirurgião do partido da Camara da Villa de Almada
Francisco Ignacio Lopes.

in Gazeta de Lisboa, n.° 131, 4 de junho de 1833.
[...] em 1850, aquando das eleições municipais, foi eleito vereador, e a Câmara em breve, o elegeu Presidente.

Por duas vezes e em épocas diferentes foi o dr. Francisco Inácio Lopes presidente da Câmara Municipal de Almada, onde realizou uma obra notabilíssima.

Vue de la rade et de la ville de Lisbonne
Imagem: Le Monde illustré, 1858, M. de Bérard.

Funda o Serviço de Socorros de Incêndios em 1850; manda construir poços em Vale de Rosal e Romeira; reedifica o chafariz da Fonte Santa; restaura o caminho novo para a Costa de Caparica, a calçada da Fonte da Pipa,

Vista parcial do Tejo, Casa da Cerca e estrada da Fonte da Pipa, 1858.
Aguarela, aut. desc., datada 14 de Março de 1858.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

a calçada da Trafaria, as estradas da Amendoeira, da Mutela e do Pombal, e promove muitas outras obras, entre as quais o cais de embarque e desembarque em Porto Brandão.

Enseada da Paulina, revista Branco e Negro n° 60, 1897 (ver artigo dedicado)
Imagem: Hemeroteca Digital

Contribui também para a construção da Capela do Cemitério; da Praça e Casa do Açougue; da Casa para a "Bomba", e, em 1860, voltando a ser presidente da Edilidade, promoveu a iluminação pública de Cacilhas e de Almada (luz de azeite).

Lisbonne
Imagem: L'Illustration, Journal Universel, 1860, Anastasi.

Finalmente, como último empreeendimento, manda construir o Grande Cais do Ginjal.

Cais do Ginjal, Óleo, Alfredo Keil
Imagem: Casario do Ginjal



Foi deputado às corte pelo círculo de Almada, vindo a ser reeleito três vezes até 15 de Janeiro de 1868 e, no ano de 1880, é novamente eleito procurador à Junta Geral do Distrito, o mesmo acontecendo no ano de 1886. (1)

Dr. Francisco Inácio Lopes.
Imagem: Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada
O resultado das eleições supplementares para deputados foi quasi todo favoravel ao ministério; apenas três candidaturas da oposição puderam vingar, e por pequena maioria: foram ellas as dos srs. Francisco Ignacio Lopes (cirurgião) [...]

in Diário do Rio de Janeiro, 18 de novembro de 1860


(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.

Mais informação:
Occidente n° 541, 1 de janeiro de 1894