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segunda-feira, 1 de novembro de 2021

À margem do rio, Manuel Tavares Junior

Manuel Tavares é uma figura algo lendária, porque pouco se sabe sobre a sua vida pessoal, exceto que nasceu no Couto de Cucujães (concelho de Oliveira de Azeméis), no ano de 1911, e que faleceu no ano de 1974.

Vista do Tejo e de Lisboa a partir de Almada, Manuel Tavares Junior, 1963.

... distinguiu-se como paisagista, tema em que se destacam as marinhas e a ria, e também como retratista de trechos citadinos. Das muitas exposições que realizou individualmente há que realçar as que tiveram lugar em Lisboa, no ano de 1942, em Almada (1961), Coimbra (1936).

Cista de Cacilhas (Ginjal), Manuel Tavares, 1950.
Cabral Moncada Leilões

Das mostras coletivas em que participou, os destaques vão para as ocorridas na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa (1950 e 1952), a primeira Exposição dos Artistas de Aveiro (1970), a Grande Exposição dos Artistas Portugueses (1935) e ainda exposições realizadas em Lisboa (1952, 1966 e 1974), Almada (1961), Faro (1968), Matosinhos (1953 e 1963) e Porto (1935).


Olho de Boi - Beira Tejo, Manuel Tavares, 1960
Cabral Moncada Leilões

Manuel Tavares está representado em diversos museus, nomeadamente no Museu Soares dos Reis (Porto), de Aveiro, de Beja, de Faro e de Matosinhos, bem como em coleções privadas, portuguesas como estrangeiras. (1)


(1) Cardoso Ferreira, Aveirense ilustre – Manuel Tavares, aguarelista de renome internacional, 2017

Artigo relacionado:
À margem do mar, Manuel Tavares Junior

sábado, 24 de fevereiro de 2018

A SFUAP e a PIDE

A SFUAP (Sociedade Filarmónica União Artística Piedense) é uma Sociedade de largas tradições populares na Cova da Piedade. Tem cerca de 80 anos de existência [est. 1889], é a mais velha colectividade de Almada e a sua banda, com quarenta elementos, a sua biblioteca e o seu grupo cénico, (além da sala de cinema) sempre foram motivo de orgulho da terra pois muitos contribuíram para manter o espírito popular e de união entre os piedenses. 

Cova da Piedade, a sede da SFUAP em 1962.
Imagem : Arquivo Municipal de Lisboa

Daí que a Sociedade tenha cerca de 6000 sócios. Teatro, música, leitura, bailes, futebol (no Clube Desportivo), festas populares e mais tarde cinema, foram sempre actividades que "animaram" o povo da Cova da Piedade.

Até que... em 1960, a Sociedade vê-se a braços com alguns problemas, O número de sócios é cada vez maior, e as instalações vão-se tornando cada vez mais pequenas para comportar tantos sócios, principalmente na altura das festas.

Começa-se assim a pensar no alargamento das instalações da Sociedade. Mas para isso é preciso "muito dinheiro" e só a Câmara de Almada poderia ajudar.

Mas para isso era preciso ter influências lá dentro. Por isso, nesse ano, os sócios resolveram eleger para presidente da Assembleia Geral da Sociedade, o presidente da Junta de Freguesia, Mário Pinto, homem rico, segundo se diz, pois é genro dum grande corticeiro da Cova da Piedade e com "conhecimentos" na Câmara de Almada.


Cova da Piedade, a Junta da Freguesia em 1962.
Imagem : Arquivo Municipal de Lisboa

Instalado o "amigo" Pinto dentro da Sociedade, este resolve convidar o seu particular "amigo" Orlando Soares — funcionário da PIDE, para a Direcção da Sociedade, apresentando-o aos sócios como uma pessoa com muitas influências" e capaz de dar à Sociedade a ajuda desejada.

E assim temos a "Pide" a tomar conta dos destinos desta agremiação popular. Aos poucos vão entrando para a Direcção, os outros comparsas da camarilha do OrlandoDiamantino Xavier, José Maria (um caixeiro viajante), Anselmo (presidente da Comissão de Festas da Nossa Senhora da Piedade),e outros indivíduos (por agora não sabemos o nome deles, em breve poder-se-á informar) jk 

Ingenuamente, o povo da Cova da Piedade tinha-se deixado levar.

Cova da Piedade Largo 5 de Outubro Mercado 02

Em breve vao-se sentir os efeitos da política de tal dírecção: 

— o teatro vai morrendo (não se pode gastar o dinheiro da Sociedade com teatros)
— os bons livros da Biblioteca vao desaparecendo (o ano passado foi queimada a história da Filosofia de Bertrand Russel, publicada em fascículos e a "Vértice") 
— os bailes, antigamente autênticos pretextos para uma boa convivência, tornam-se agora no dizer do povo, numa verdadeira "xungaria" 
— a banda de música quase que deixa de existir 
— o cinema torna-se um foco de mentalização "pro-americana" — filmes de terror e cow-boys a 2$50 por sessão 

O pior ainda é que a Sociedade serve de coio à PIDE, como agente de repressão do povo da Cova da Piedade - a ordem de prisão do Sr. Sim-sim, funcionário do Arsenal do Alfeite, foi redigida por Orlando Soares na Sede da Sociedade. 

Quando se fez uma campanha para a compra de uma ambulância a oferecer para a guerra de Angola, estava o amigo Orlando a querer utilizar os fundos da Sociedade para dar uma contribuiçao e se nao o fez, foi devido à oposição de alguns dos sócios honestos que tiveram conhecimento disso e o impediram.

No entanto nao se chegou a saber se desviou ou nao algum dinheiro da Sociedade. E muito mais coisas que resta ainda averiguar. Por fim eram os ficheiros dos sóciosquase todos os homens da Piedade são sócios da SFUAPque serviam à PIDE para efectuar as suas prisõesServiço facilitado!

Uma telefonadela para o amigo OrlandoOuve lá, fulano, conheces o tipo X? Onde é que ele mora? Onde trabalha?E no outro dia de manhã, às 6 horas, à porta desse amigo, ou à porta do empregolá estava um Volkswagen verde com três pides para o ir buscar Foi assim que sucedeu com vários democratas presos não há muito tempo.

Então e quanto a ajudas à Sociedade, quanto ao seu alargamento? Bom, fizeram-se grandes projectos,  um deles, o projecto da nova sala de espectáculos, até custou 300 contos (só o projecto). 

Construiu-se até - para o povo ver que o amigo Orlando tinha na verdade grandes influênciasuma piscina que importou em cerca de 3500 contos, uma piscina que seria o orgulho do concelho - segundo as suas palavras.

Cova da Piedade, piscina da Sociedade Filarmónica União Artística Piedense, 1966.
Dimensões, em metros: comp. máx., 25; larg. máx., 21; larg. mín., 16; prof. mín., 1,20; prof. máx., 5,40; alt. máx. das pranchas de salto, 15.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

O dinheiro arranjava-se com facilidade, Contraiu-se um empréstimo à Caixa Económica o dinheiro feito nas festas de Nossa Senhora da Piedade (que estava destinado à construção de uma creche) também foi emprestado, puseram-se as entradas para a piscina a 10$00, iam pedir-se uns subsídios à Câmara e o problema resolvia-se. Na verdade está quase resolvido.

Em fins do ano passado os sócios tomam conhecimento que a Sociedade iria ser penhorada pois tinha que pagar imediatamente encargos no valor de 61 contos; dinheiro que a Sociedade não possuía que os cálculos apresentados pelo Orlando Soares tinham saído furadosos sócios não acorriam à tão bela piscina. 

Evidentemente a poucos quilómetros da Costa da Caparica gastando apenas 5$00 numa ida e volta o povo da Cova da Piedade continuava a preferir a praia. E os subsídios da Camarabom, o dinheiro da Câmara nunca ninguém sabe para onde vai!não apareciam.

E depois a piscina não foi muito ao agrado dos sócios e a opinião deles também não tinha sido pedida (aliás nem os consultaram)Só uma coisa resultara na ideia de Orlando: fazer acabar com a SFUAP; tira-la das mãos do povo.

Cova da Piedade, piscina da SFUAP, 1967.

Mas alto lá, povo agora tinha aprendido com esta experiência longa de 8 anos Não se acaba com a sua Sociedade" assim com duas cantigas. 

Ao grito de alarme "A Sociedade vai ser penhorada" acorreram os sócios em massa. Estamos em fins de Dezembro 1967. A Direcção que se mantivera na Sociedade durante 8 anos tinha que apresentar o seu relatório de contas e explicar o que se passava. 

Faz-se uma Assembleia (nunca na Cova da Piedade se fez uma tão grande Assembleiaeram centenas de sócios a encher a sala de espectáculos, a exigir uma explicação). O Orlando Soares aparece mas vendo o caso mal parado desaparece e não põe mais os pés nas Assembleias que se irão seguir.

O povo exige: o julgamento da comissão-pide tem que ser completo, o problema tem que ser esclarecido, façam-se as assembleias que se fizerem. O relatório é feito, a situação torna-se clara para todos. A Direcção fez despesas insuportáveis para a Sociedade, há dinheiro que desapareceu não se sabe para onde. É evidente que os sócios tém sido espoliados.

Então o povo reage, reage fortemente como só ele sabe reagir nestas ocasiões. "Estamos a ser burlados, sim, e a culpa é nossa porque temos medo"é a voz corrente. Um sécio sobe ao palco da sala e diz em voz alta para a assistência:Meus senhores, eu não tenho medo! Quando uma direcção não é capaz de dirigir uma sociedade o melhor é ir-se embora.Apoiado! Nós também nãotemos medogrita a multidão na salaFora, fora com eles! É a apoteose final. 

A Direcção é obrigada a demitir-se, levando "em cima" um voto de desconfiança de todos os sócios. O Conselho Fiscal recusa-se a aprovar o relatório de contas (Está falseado! - afirmam os sócios entre si). 

É eleita uma nova Direcção, constituída agora por sócios que já deram garantias de seriedade noutras instituições da terra. Aliás o seu programa para já, é mesmo democrático: os problemas da sociedade serão resolvidos se todos quiserem colaborar.

Programa do 79.° Aniversário da Sociedade Filarmónica União Artística Piedense (23/10/1968).
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

O povo começou a organizar-se. Formou-se já uma "comissão de angariação de fundos", com 15 elementos, que tém vindo a pedir dinheiro a toda a gente (batem a todas as portas). Já conseguiram arranjar mais do que é necessário para pagar a dívida mais imediata: os 61 contos de encargos. Alias as sociedades irmãs lá da terra, prontificaram-se a dar uma grande ajuda. Até as mais pequeninas, com muitos sacrifícios. É verdade, não quiseram deixar de participar neste acto de solidariedade.

A Sociedade, por um descargo de consciéncia ainda, resolveu pedir a ajuda da Câmara. Que ao menos lhes desse agua para a piscina. Mas foi uma nova ilusão. "O Senhor Presidente" informa que a Câmara não pode "fornecer agua de borla". 

Mais uma liçào que aproveitará muito ao povo. Agora todos começam a convencer-se de que só eles é que poderão e saberão construir. Começa a surgir um movimento de unidade ente as colectividades populares, não só da zona, mas de toda a margem Sul.

A SFUAP fez um apelo a todas as outras Sociedades para que a ajudem a resolver os seus problemas. Quanto ao "Orlando" parece que as coisas estao a correr mal. A sua demissão deu tal brado que segundo consta vai ser transferido para a cidade da Guarda. Atenção Guarda mais um patife para a vossa terra.

NOTAS

Acerca destes indivíduos, não consta que sejam da Pide, mas sempre se prestaram a colaborar com o Orlando e a manter-se com ele na Direcção.

Uma outra actividade dos pides: o Orlando e camarilha tém um programa de radio, chamado "Imagens Piedenses" [emitido entre 18 de Abril de 1966 e 25 de Abril de 1974] e transmitida pelos "Emissores Associados de Lisboa" aos domingos de manhã. 

A coberto deste "programa, o reporter do Orlando "metia-se em todas as realizações das colectividades do concelho para gravar conversas. Pez isto especialmente na Homenagem feita pelas colectividades da Piedade e do Laranjeiro ao escritor Ferreira de Castro.

Ferreira de Castro na Cooperativa de Consumo Piedense, 1964.
Imagem: Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

Depois mais tarde, cem uma grande lata, informou alguns amigas que e pide o tinha abordado e lhe levara as fitas de gravação [...] (1)


(1) Casa Comum, A PIDE foi expulsa da Cova da Piedade, 1967

Artigo relacionado:
SFUAP, origens, teatro e escola

Mais informação:
Casa Comum, Relato de situação na Sociedade Filarmónica União Artistica Piedense, 1967
Diário de Lisboa, 16 de janeiro de 1968

terça-feira, 13 de junho de 2017

Almada 1945-1965

Já não é difícil prognosticar o futuro da margem sul, sob os aspectos urbano, industrial, turístico, etc., porque se vé nitidamente a direcção do movimento, iniciado há cerca de 20 anos e que ultimamente se vem tornando cada vez mais firme.

Um dos actuais encantos de Almada está precisamente nos imprevistos aspectos que a cidade satélite nos desvenda: eis o velho e romântico petroleiro de carro puxado a mula, contrastando com a moderna linha dos edifícios.
Fotografia de António Homem Christo, in Almada, a cidade satélite, Revista Eva, Dezembro de 1960.
Imagem: Dias que Voam

A vila de Almada teria em 1940 sete ou oito mil habitantes, praticamente na totalidade oriundos de almadenses. Lisboa saltou o Tejo e desenvolveu rapidamente Almada, que transformou em cidade sua satélite e sua zona residencial. 

Almada, Vista Geral (tomada do Campo de S. Paulo), ed. desc., década de 1940.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Não tardará muito que Almada atinja o décuplo da sua população de há um quarto de século. Quem como nós, viveu em Almada a maior parte deste espaço de tempo, viu rasgar avenidas e alinhar prédios pelas quintas que alastravam pelas encostas do Vale Caramujo-Caparica; 

Paisagem rural. A caminho de Caparica, década de 1940. Pintura de José de Azevedo (1914-2000).
Imagem: Alexandre Flores no Facebook

viu deslocar-se o centro cívico de Almada e modificar-se radicalmente o aspecto de Cacilhas; 

Plano Parcial de Urbanização de Almada (PPUA) relativo à localização do Cento Cívico, 1947.
Imagem: Câmara Municipal de Almada

viu regular-se a margem do rio entre Cacilhas e a Cova da Piedade;

Porto de Lisboa, vista aérea de Cacilhas e dos lugares de Ginjal e Margueira, década de 1950.
Imagem: Porto de Lisboa

viu surgir no Laranjeiro-Feijó um grande centro, que não tardará a ser freguesia independente; viu lançar as bases da fixação populacional com a criação de escolas médias particulares e oficiais e com o auspicioso início da construção de um dos maiores estaleiros do mundo.

Vista aérea da variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958
Imagem: IGeoE

Os últimos 20 anos abriram a Almada perspectivas inteiramente novas: — de pequeno burgo monolítico, constituído pelo aglomerado de algumas famílias conhecidas, passou a ser a cidade sem coesão, formada na maioria por emigrados imigrados provindos de todos os recantos do País.

Praça da Renovação, década de 1960.
Imagem: Delcampe

Sob o ponto de vista urbano, Almada tornou-se grande; sob o ponto de vista social, não enriqueceu com o mesmo ritmo; e perdeu a unidade que tinha dantes. Almada deixou de ser um meio pequeno, para residência e trabalho de vizinhos; agora é uma cidade cujos habitantes mútuamente se desconhecem. 

Almada, Cacilhas - Vista Parcial, ed. J. Lemos, s/n, década de 1950.
Vista da Avenida Frederico Ulrich, atual 25 de Abril, Vila Brandão e morro do moinho.
Imagem: José Luis Covita

É fácil de prever o progressivo encarecimento de rendas e a consequente fixação na zona de Almada de pessoas de um mais alto nível de vida. Em contrapartida, é fatal que mais longe venha a construir-se a zona habitacional de classes pobres, para a qual veremos partir, infelizmente, muito bons almadenses de hoje.

Transportando a água, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: O Pharol

Sob o ponto de vista industrial, Almada aproveitará principalmente a sua privilegiada situação sobre a margem do Tejo, em grande parte ainda por explorar. Aparecerão, por certo, novas instalações portuárias, para passagem de mercadorias destinadas ao "além-Tejo" ou dali provenientes. 

Cacilhas, ed. Supercor, 1808, década de 1980.
Imagem: Delcampe

É natural que a política de fixação à terra não permita o estabelecimento de muitas indústrias de outra natureza tão próximo da capital. Mas é sob o ponto de vista turístico que Almada aguarda um grande futuro.

Cova do Vapor, vista aérea (detalhe), 1953.
Imagem: Flickr

Rica de praias e de matas, incomparáveis pela grandeza e pela beleza, c colocada como obrigatória porta de passagem para a extraordinária península de Setúbal, Almada poderá ter no turismo urna das suas grandes fontes de riqueza.

Costa da Caparica, O Transpraia, ed. Passaporte, 615
Imagem: Delcampe, Oliveira

É isto, em linhas muito rápidas, o que será o futuro próximo de Almada. — E o distante?

O Berlinde por um Óculo, fotografia de Fernando Barão.
Imagem: Casario do Ginjal

Para esse, cumpre-nos lançar os alicerces, para que os futuros habitantes o construam. (1)


(1) Jornal de Almada 07 de agosto de 1966

Artigos relacionados:
Almada em 1960
O centro cívico

sábado, 27 de agosto de 2016

Memórias simples

Ha no destricto desta Freguesia dous pórtos de mar, hum he о da Fonte da Pipa, com seu Forte para a banda do Poente, com huma praya como a deu a natureza sem artificio algum, frequentado de muitas embarcações, especialmente lanchas, que a ella vem fazer aguadas, e pode admittir até dezoito désta casta de embarcações.

Cacilhas, Praia da Fonte da Pipa e Olho-de-Boi, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

O outro porto he o do Cubal, com huma praya mais espaçosa, que a do primeiro, assim no comprimento, como na largura, tambem sem artificio, frequentado de varias embarcações, como são; bateiras, e fragatas, e as que o frequentão todos os dias fao dezasseis, e tem capacidade para admittir até cincoenta embarcações, como barcos de Cassilhas, que em muitas occasioens do anno vem amarrar nella, pela causa de ser abrigado das tormentas dos Nordestes, e Lestes, que por aqui correm com grande violencia. (1)

Vista de Cacilhas e do Tejo, Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Além de subsistirem traços “do cais e instalações [...] com características identificáveis de final do séc. XVII e XVIII [...],” sofrendo, no entanto, "sucessivos acrescentos e alterações, particularmente após meados de oitocentos," também é verdade que no século XVIII se construíram de raiz "armazéns e cais de alvenaria. A impossibilidade de expansão para a arriba obriga à extensão do cais pela margem à medida das necessidades".

Em 1813, "parte significativa destes armazéns eram propriedade da família Paliarte [...]." Dedicava-se, como de resto a maioria dos comerciantes de vinho ali estabelecidos, à actividade exportadora. (2)

Cacilhas Ginjal Grémio Vista aérea 01 c 1960
Imagem: OBSERVADOR

Segundo os poucos testemunhos disponíveis, a actividade comercial exercida pela Sociedade Theotónio Pereira no século XIX e, ainda, na primeira metade do século XX, tinha por base uma série de produtos agrícolas já transformados, de que se destacavam, entre outros, os vinhos, as aguardentes e o azeite.

A firma que, tanto quanto se sabe, nas suas várias fases em momento algum se dedicou à produção ou sequer à transformação dos produtos que transaccionava, pelo menos em grande escala, tinha a sua sede em Lisboa, sendo possível, ou bastante provável, que até à aquisição dos armazéns localizados no Cais do Ginjal — não sendo de descartar a possibilidade de aqui ter funcionado sempre a actividade armazenista —, toda a mercadoria ficasse acondicionada em depósitos situados na zona ribeirinha de Lisboa ou nas imediações desta.

Panorama de Cacilhas (Ginjal, Fonte da Pipa, Olho de Boi, Quinta da Arealva), 1967.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A de qualquer modo precoce localização, na vida da empresa, dos seus armazéns no Cais Ginjal, encontra-se indirectamente documentada por se saber que quando em Agosto de 1871 foram adquiridos por Theotónio Pereira vários prédios no dito cais, dos números 12 ao 22, havia pelo menos um deles que confrontava com a propriedade da Viúva Theotónio Pereira & Filhos [...]

[...] um prédio na Rua Direita em Almada; um prédio rústico no Ginjal; um outro, também no Ginjal, descrito como rústico e urbano (composto de vinhas – parreiras – árvores de fruto, horta, com duas nascentes de água, casa para caseiro, telheiro e forno); sete prédios urbanos no Ginjal, quase todos eles armazéns com um ou dois pisos; um "domínio" principal de uma "praia denominada do baixo mar, no sítio do Ginjal" de que era "senhoria" a Câmara Municipal de Almada; um segundo "domínio" principal de "uns armazéns, casa e pátio no Ginjal" de que era "senhoria directa" a mesma Câmara Municipal [...] 

Cais do Ginjal, Óleo, Alfredo Keil.
Imagem: Casario do Ginjal



Das vinhas do citado prédio rústico e urbano, "uma quinta encantadora, encostada à rocha de Almada", com o seu "grande parreiral de belíssimas uvas", seguia este seu fruto "em caixas para o estrangeiro" [...]

Foi no Ginjal que nasceu de madrugada Virgínia Theotónio Pereira, a mais nova dos cinco irmãos. Na altura, e como sucedia não poucas vezes, seu pai encontrava-se num pequeno bote a pescar "ao candeio acompanhado de dois pescadores vizinhos". No fim dessa madrugada, levou para casa, entre outro pescado, um "possante congro de 15 quilos." Regressou entusiasmado pela pescaria mas "mal passou os umbrais ouviu um cué-cué de bebé nascido" [...]

Almada, Ginjal, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 21, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Era naquela mesma casa "de fora" do Ginjal que José Correia [avô do escritor Romeu Correia], o encarregado das adegas e dos armazéns de vinhos, marcava os "pas de quatre e as quadrilhas". Juntava-se-lhes "sempre que possível o pessoal menor, depois de se assear", para dar o "seu pé de dança, que acabava sempre num galope à roda mesa da sala de jantar". (3)


(1) P.e Luís Cardoso, Diccionario geografico, ou noticia historica de todas as cidades..., Lisboa, na Regia Officina Sylviana e da Academia Real, 1747, 2 vol.
(2) Martinez, ... ser mestre do vapor de Cacilhas, 2005
(citações de Maria Ângela Correia Luzia, A memória, a cidade e o rio, Lisboa, 1996)
(3) Martinez, idem

Leitura relacionada:
Cais do Ginjal. Da fortuna à decadência

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O Ginjal não é para raparigas solteiras

Tema:
Ginjal

quarta-feira, 20 de julho de 2016

O grupo do Dragão Vermelho

Se observarmos o panorama cultural almadense, de meados do séc. XX, partindo das transformações urbanísticas, ao invés dos orgãos institucionais e seus equipamentos, podemos detectar acções paralelas.

Almada, Jardim Sá Linhares, ed. Postalfoto, 11, década de 1950.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Figuram, nessa perspectiva, os cafés e as personagens locais, resultando da sua articulação um novo fragmento da iniciativa cultural: os eventos realizados no café Dragão Vermelho, entre 1959 a 1961.

Almada, Praça da Renovação, ed. J. Lemos, s/n, década de 1950.
Imagem: almaDalmada

Postos em cena por um grupo de artistas locais, com vista a introdução da arte moderna em Almada, esses eventos são aqui reconstruidos, através dos registos documentais da epoca e dos relatos de Alfredo Canana, Francisco Bronze e Louro Artur - três dos elementos que compõem o "grupo do Dragão Vermelho" [...]

Francisco Bronze.
Imagem: IMARGEM

No contexto local, e na segunda metade do séc. XX, com as implementações do Plano Parcial de Urbanização de Almada (1947), que surgem os primeiros indicadores do urbanismo moderno.

Plano Parcial de Urbanização de Almada (PPUA), Implantação do Cento Cívico, 1947.
Imagem: Ver Almada crescer: 10 anos do Museu da Cidade (catálogo)

Uma área emergente, que motiva um fluxo populacional, marca a fronteira com uma morfologia rural, descaracterizando a paisagem e destruindo parte das rotinas que se ligam ao lugar.

Romeu Correia e o Cais do Ginjal, Louro Artur.
Imagem: Programa Comemorações 25 de abril 2014

Também em consequência do processo de modernização, o centro da vila sofre um deslocamento da zona antiga para a zona moderna e o núcleo encontra-se agora na Praça da Renovação (actual Praça do M.F.A) [...]

Praça da Renovação, década de 1960.
Imagem: Delcampe

Inserindo-se numa paisagem que ainda tem muito de rural, marcada pela escassez de infraestruturas sociais, os cafés vão assumir um grande poder agregador; implicando a reformulação dos palcos das práticas quotidianas.

Jorge Norvick Pintura.
Imagem: IMARGEM

Nestes cafés, o convívio faz-se essencialmente entre as pessoas da terra e entre os vários tipos sociais encontram-se os jovens artistas que vão formar a grupo do Dragão Vermelho: Francisco Bronze, José Bronze, Jorge Norvick, José Zagallo, Louro Artur, Luiz Suarez, Peniche Galveias, e os colaboradores Alfredo Canana, Jaime Feio, P.e Antonio Leitão, e Sérgio Só [...] (1)


(1) Jani Maurício, O grupo do Dragão Vermelho, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2009

sábado, 6 de fevereiro de 2016

La Paloma

Mãe e filha vieram de Peniche e viviam ali num barracão, paredes meias com a fábrica, talvez uma dezena de operárias, encamadas naquele exíguo pardieiro, como sardinhas em lata [...] (1)

Cais do Ginjal (detalhe), Julio Diniz, década de 1960.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Agora, o apito da fábrica de conservas berrou duas, três vezes, e prolongou-se indefinidamente. Estão a chamar mulheres! exclamaram todos. No rio, aproximava-se um alegre cortejo fluvial. Um gasolina rebocava um buque na direcção do cais e o tombadilho da embarcação vinha berrante de varinas. Um tecto branco de gaivotas sobrevoava o barco, com estridentes pios de gula.

Cais do Ginjal. Embarcações na praia das lavadeiras, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

A miudagem pulou de gáudio. Vestiram-se os que a briga atrasara. Chico Trinta botou aviso: 
— Cada um par seu lado! Nada de ajuntamentos!

Outros rapazes, mais espigados surdiram da garganta da rocha. Chegavam também as primeiras mulheres ao chamamento sôfrego da fábrica. Próximo de terra, o gasolina singrou numa elegante curva e o homem do linguete soltou o cabo de reboque deixando vir o buque a navegar para o cais.

Cais do Ginjal e fábrica La Paloma, Amadeu Ferrari, década de 1940.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Já o gasolina se afasta, veloz, ante as chalaças dos poucos tripulantes, que não poupam as varinas.
— Ó lindeza! Logo vou lá bater ao ferrolho, ouviste?
— Olha, bate com os cornos!...
Perde-se a réplica, mas há ainda novos gracejos.

A embarcação aborda a terra e saltam os tripulantes. As varinas trazem as canastras. Os marítimos encamisados de flanelas berrantes arrastam saveiros de borracha, de canos a roçagar pelas virilhas. Pessoal gingão, metediço e reinadio. Num voltar de braços, as mulheres estendem a lona na canastra e botam-nas à cabeça.

Ti Maria Lancha, capataza veterana, deu o primeiro berro — a primeira ordem:
— Ó gente, vamos ao sal!
Três estivadores despiram as calças e arregaçaram as ceroulas acima das coxas. Calças, casacos e saveiros foram unidos em froixa, que se acomodou num forro da vela.

Abre-se o porão duas portas pesadonas, que tombaram, uma para bombordo e outra para estibordo e a sardinha, um chão de prata, brilhou para o cais, atiçando a gula das gaivotas e do rapazio.

Alfredo ouviu que o chamavam. Na escadaria da fábrica, enxergou a mãe debruçada, com o braço a acenar.
— Senhora!?
— Vai pra Almada, não ouves!? Eu fico na fábrica a trabalhar! O teu pai larga às cinco e quer-te ver ao pé de casa!...
Já vou...

La Paloma, conservas de peixe, anúncio de 1947.
Imagem: Elisabete Gonçalves, Memórias do Ginjal.

As fabricantas, apressadas, iam entrando. E, quando alguma parava e impedia caminho, sofria empurrões e apupos:
— Sobe, Gracinda! Deixa, que o teu rapaz não entra em casa com as mãos a abanar!

A mulher de Leonel não gostou da piada... mas só lhes resmungou a resposta sob os tectos fabris.

Outras e outras se seguiram, escada acima: raparigada nova, de seios a tremelicarem sob as blusas; mulheres gastas, de mau passadio, roto e trajar sem cuidados; e ainda uma cauda molengona de velhas rugosas e ossudas.

Sumidas as últimas entre umbrais, o apito cessou de berrar, enfim. Sobre o cais, numa pressa, concluiu-se a moira, canastras de sal vazadas no porão, juntamente com baldes de água arrancados ao rio.

Depois, um dos homens veio para a muralha, outro ficou no tombadilho e o terceiro alojou-se no porão, mergulhando as pernas no peixe.

Ti Maria Lancha, a capataza, ainda não parou de berrar:
— Vamos a isto, ó gente! Ai, que estamos desgraçadas! Quem não pode, arreia!

Descarga e lavagem do peixe, ed. Martins/Martins & Silva, c. 1900.
Imagem: Delcampe

É uma velha alta, seca, tez acobreada por muitos sóis, e a sua boca desdentada treme, sobre o queixo, ao peso de muitas pragas:
— Ó Rita, tu hoje andas na avenida ou quê? Por esse andar, temos buque inté à noite!

O Zé Lula, um apanhador de cabazes, de nariz arrebitado, olhos à china, tem as pernas mergulhadas no mar de peixe do porão. As suas mãos não param: mergulham os catitas de verga e retiram-nos pejados de sardinha, a escorrer de moira.

Arremessado o cesto, este viaja, num curto voo, até às mãos do camarada do tombadilho. É posse que só dura um novo balanço, pois o cesto logo sobe em voo mais longo, até que o terceiro apanhador, que mãos! o capta com perícia de malabarista.

A borda do cais está uma barrica de pé. Sobre o tampo, as varinas, uma a uma, assentam canastras, que recebem peixe. Canastra cheia canastra à cabeça. Outra varina toma a vez...
— Então, Emilia, o teu homem já voltou à estiva? Isso voltou ele... Aquilo foi trambolhão maldito, pancada ruim...

As mulheres sucedem-se. Num vaivém fatigante, o trajecto da muralha ao primeiro andar da fábrica é calcorriado com frenesi. Na lama do caminho ficam moldados os pés, muitos pés: largos, sapudos, dedos espalmados, quase primitivos.

A Varina, Ilustração Portugueza, 2.aSérie n.a 339, 19 de agosto de 1912.
Imagem: Hemeroteca Digital

Canastra à cabeça, tronco vertical, um braço amparando a carga e o outro aos sacões balanceados da correria.

Quadris bailões, safam, em passadas curtas, as pernas raiadas de varizes. Escorre a moira pelas roupas — e o ar, ao secá-las, deixa manchas brancas de sal.

A boca, num ricto doloroso, cospe baba e dichotes aos metediços.
— Arreda, lingrinhas!...
Os olhos encovados da capataza não perdem as manobras do rapazio.

Ela bem os topa, sorrateiros, um aqui,outro acolá, gancheta de arame rapinando o peixe das canastras.
— Ó Irene, dá uma porrada nesse canalha!
Três, quatro sardinhas são apanhadas do chão, e o fedelho esgueira-se para novo couto.

O guarda-fiscal desafivela o cinturão e aguarda nova oportunidade...
— Arraúl, quantas?
— Quase um quarteirão! E tu, pá?
— Ela por ela...

Chico Trinta a todos ultrapassa na colheita. Para cima de um cento! E quase sem se ralar e expor...

Albaneco morde-se de inveja. Ele não pode ver a varina fazer o jeito ao companheiro... Barafusta, intromete-se, torna-se abelhudo e embirrante.

Maria do Carmo é a mais linda rapariga da descarga; mas, para todos, e só a Carmo. Carita oval, olhos negros, cintura de cabaça e perna airosa. Todo o rapazio a nota à chegada e à partida: "Ainda não está a Carmo..." ou: "A Carmo já abalou..."

Ercília Costa.
Imagem: du bleu dans mes nuages

Quando calha também, Ti Maria Lancha não a poupa de responsos, o que faz a varinita perder a estribeira... Arremeda, resmunga — e vinga-se logo, inclinando a canastra...
— Apanha, Chico!...

Varinas e pessoal do cais namoravam-se sempre. O peixe os punha frente a frente, a meter braços à descarga, a enleá-los naquele clima franco e rude. 

Cedo os catraios volviam olhos de admiração para as mulheres da descarga: decoravam-lhes os nomes, ofereciam-lhes os seus préstimos e sorrisos.

Sophia Loren, Agnès Varda, 1956.
Imagem: Pinterest

Assim nasciam simpatias, amizades que o tempo arraigaria no sangue, ao calor de uma certeza:

Peixeira de Buarcos, Zé Penicheiro, 1954.
Imagem: almanaque silva

— "Não há mulher prà ajudar um homem como uma varina!" (2)


(1) Romeu Correia, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.
(2) Romeu Correia, Os Tanoeiros, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1976

Artigo relacionado:
A praia das lavadeiras no Ginjal

Leitura adicional:
Les conserves de sardines à l’huile, ou le luxe français sur les grandes tables du monde

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Filmarte

Ainda muito jovem [António Paixão (1915-1985),] veio para a capital, onde continuou a trabalhar em fotografia, em algumas das maiores casas. Com a Filmarte foi sócio de uma das maiores e mais prestigiadas.

Almada, vista panorâmica tomada do monumento a Cristo Rei (montagem), Filmarte, 1960.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Estabelecido a sua residência em Almada onde viveu uma grande parte da suas vida, em Almada também criou um pequeno estúdio dedicado sobretudo ao retrato.

Almada, no monumento a Cristo Rei, retrato, Filmarte, 1960.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Foi nos laboratórios da Filmarte que imprimiu para os maiores fotógrafos portugueses do tempo [...] (1)


(1) Nuno Pinheiro, António Paixão (texto incluído no catálogo da exposição da Imargem - 2014)

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Galeria da Cova do Vapor

Memórias Coletivas da Cova do Vapor integra-se no âmbito do projeto Casa do Vapor que visa a valorização da Cova do Vapor, assim como a sua divulgação, através da memória subjacente à imagem, que se procura simultaneamente salvaguardar [...]

clique para aceder às imagens

Esta plataforma online consiste basicamente numa base de dados ilustrada, que permita apresentar a um público extenso, os resultados deste trabalho. O site é uma ferramenta aberta, ou seja, que contempla a sua atualização e desenvolvimento. (1)


(1) Memórias Coletivas da Cova do Vapor

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O morro do moinho

Bem perto das Margueiras, existiam terras de cultivo, que garantiam a sustentabilidade dos ocupantes do espaço.

Vista poente de Cacilhas junto ao rio Tejo (detalhe), Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Durante séculos, o trigo, o milho, a cevada e outros cereais, chegavam ao morro sobranceiro ao Tejo, onde os moinhos aí existentes cumpriam a sua função de fornecer aos habitantes a farinha, tão necessária à confecção do pão e de outros alimentos de uso quotidiano [...]

Vista nascente de Almada e Cacilhas junto ao rio Tejo (detalhe), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Para facilitar a ligação entre o cais de Cacilhas e a Margueira existia um túnel, que passava por baixo do morro, logo a seguir à Lapa.

Junto à Lapa, encostado ao morro, existia um mirante, que se destacava pela sua altura a par do morro, cuja existência alimentou durante muitos anos a imaginação popular [...]

Detalhe da torre e mirante (arquvivo "O Século", Grupo de Obuses Pesados, Manobras militares do Outono), 1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

No início dos anos 50 instalou-se aí a fábrica de Manilhas do senhor Patraquim, na sequência do qual foi derrubado o muro existente que delimitava a propriedade e impedia o seu livre acesso, e abriu espaço à instalação de famílias no morro do Moinho.

O Berlinde por um Óculo, fotografia de Fernando Barão.
Imagem: Casario do Ginjal

Este local era conhecido de forma carinhosa por ilha do Papagaio Cinzento [...]

Construções no morro do moinho, c. 1950.
Imagem: Bildarchiv Foto Marburg

Como se torna evidente as habitações eram bastante modestas, sem electricidade, água canalizada e saneamento. 

Porém, no núcleo do moinho, algumas delas estavam acabadas com algum esmero, onde não faltava um pátio de entrada, perfeitamente delimitado com gradeamentos de madeira e passadiço do mesmo material até à porta de entrada das casas, onde pontificavam caramanchões e outras plantas ornamentais [...]

O abastecimento de água era feito através de chafarizes públicos. Inicialmente os habitantes do núcleo norte, desciam a encosta e recolhiam-na num chafariz existente no início do Beco do Bom Sucesso, os habitantes do núcleo do moinho transportavam-na do chafariz que também abastecia a Vila Brandão.

Chafariz de Cacilhas, década de 1950.
Imagem: Flores, A. M., Almada antiga e moderna,
roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas

Mas no início dos anos sessenta a CMA com trabalho voluntário dos moradores levou a água ate à "Rocha", designação também dada à quinta da "Margueira Velha", onde foram implantados dois chafarizes, um no cimo do caminho por onde se acedia ao morro através do então Largo Costa Pinto que servia o núcleo norte e outro junto ao moinho, a poente, que servia esse núcleo.

Miúdos do Moinho, fotografia de Hélio Quartim, 1976.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Por esta altura foram também construídos balneários públicos com duas ou três cabinas de duche (água fria), um luxo [...]

Demolição de algumas barracas no morro de Cacilhas, c. 1970.
Imagem: Lurdes B. Ferreira

Porém, a centralidade da "Rocha" era, e ainda hoje é, o seu moinho de vento. Ao tempo deste relato era habitado pelo sr. João (João do moinho).

Solteirão, com várias namoradas, recriminado por isso pela sua "velha" mãe quando o visitava. (1)


(1) Farol, O, Associação de Cidadania de Cacilhas, As Margueiras, Contributos para a história de Cacilhas, Junta de Freguesia de Cacilhas, O Farol, 2013, 248 págs.

Artigos relacionados:
O torreão e a Lapa
O incendio da fabrica da Margueira
A menina do mirante




Moinho e moleiro do Oeste, Domingos Alvão, 1934.
Imagem: Moinhos de Portugal no Facebook