sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Os barcos grandes

A revista do ACP publicou várias informações sobre a exposição [de Sevilha em 1929], nomeadamente sobre a emissão de cadernetas de passagem nas alfândegas para automobilistas não sócios do clube, o que constituía uma excepção, e sobre os itinerários de Lisboa para Sevilha, contando com a travessia por barco de Lisboa para Cacilhas [...]

Largo do Costa Pinto ou de Cacilhas, terminal rodoviário e fluvial, c. 1969.
Ferries da S.M.T., Almadense (atracado) e Alentejense (a chegar).
Imagem: Nuno Bartolomeu

Numa fase inicial, o automóvel, sendo um objecto frágil que apenas funciona num sistema socio-técnico construído em função da sua circulação, teve de recorrer a outros veículos para suplantar as suas limitações.

Largo do Costa Pinto ou de Cacilhas, terminal rodoviário e fluvial, c. 1969 (detalhe).
Imagem: Nuno Bartolomeu

Assim, na travessia de certos obstáculos naturais, como rios que ainda não tinham pontes rodoviárias, tinham de ser transportados por barcos, e no longo curso, devido ao mau estado ou inexistência de estradas, recorriam aos comboios.

Largo do Costa Pinto ou de Cacilhas, terminal rodoviário e fluvial, c. 1969 (detalhe).
Imagem: Nuno Bartolomeu

Neste âmbito, o ACP, como outros clubes automóveis e de turismo europeus, negociaram com companhias de navegação e de caminhos-de-ferro descontos e outras condições especiais para o transporte dos automóveis dos seus associados.

O Almadense chegando a Cacilhas em 1950.
Imagem: José Luis Covita

Assim, desde pelo menos 1908, o ACP tentou estabelecer um acordo com a Parceria de Vapores Lisbonenses, empresa que dominava o transporte fluvial entre Cacilhas e Lisboa desde a segunda metade do século XIX, no sentido de obter descontos para o transporte de automóveis nessa travessia. (1)

Vista do paquete France fundeado no Tejo.

A Parceria de Vapores Lisbonenses foi criada na década de sessenta do século XIX (tinha então o nome de Empresa de Vapores Lisbonenses e era propriedade de Guilherme Burnay). 

Embarque no ferry-boat em Cacilhas.
Imagem: Fotold (fb)

Nos anos trinta do século XX inaugurou uma carreira de ferry-boats para o transporte de veículos e passageiros para o Cais do Sodré, mantendo barcos mais pequenos com destino a Cacilhas. (2)

Veículos de tracção animal na travessia do Tejo, década de 1970.

Nas primeiras décadas do século XX fez alterações, como a introdução de barcos a diesel (1922) ou o alargamento dos cais devido ao aumento do tráfego rodoviário.

Ferry-boat Palmelense (ou Almadense), Amadeu Ferrari.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Nos anos trinta do século XX, gozando então os sócios do ACP de descontos de dez por cento, esta empresa inaugurou uma carreira de ferry-boats para o transporte de veículos e passageiros para o Cais do Sodré.

Transporte de automóveis num ferry-boat.

O transporte por ferry-boat nesta travessia manteve-se extremamente importante, mostrando-se, no entanto, manifestamente insuficiente face ao aumento do tráfego, até à abertura de uma via continua com a inauguração da ponte Salazar em 1966. (3)


(1) M. Luisa Oliveira e Sousa, A mobilidade automóvel em Portugal, 2013
(2) Jorge de Sousa Rodrigues, Infra-estruturas e urbanização da margem sul, 2000
(1) M. Luisa Oliveira e Sousa, Idem

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Rua da Barroquinha

Quem quizer comprar humas cazas com seus quintaes, em Almada, com frente para a rua da Barroquinha n.° 10, e para a Rua da Judiaria n.° 7, dirija-se á loja de relojoeiro na Rua Nova da Palma, aonde lhe darão as necessarias informações. (1)

Largo da Boca do Vento, José Artur Leitão Bárcia, antes de 1945.
Burros de aguadeiros a caminho da Fonte da Pipa frente ao edifício do departamento de Administração Geral e Finanças da Câmara de Almada.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No século XIX, a Rua da Judiaria era lugar de passagem para a Calçada da Barroca onde estavam localizadas a sede da Administração do Concelho (até cerca de 1890) e a Repartição de Finanças de Almada. 

Almada, Calçada do Barroquinho (Rua da Barroquinha), década de 1950.
Imagem: Jorge Pires

Paralela à Rua da Judiaria localiza-se a antiga Rua do Açougue, actual Rua Henriques Nogueira, conhecida por albergar o antigo matadouro e a abegoaria municipal, que, a partir de 1913, serviu de sede aos Bombeiros de Almada. (2)

Escondidinho Boca de Vento, vista tomada da rua Trigueiros Martel, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A Rua da Judiaria, uma das artérias reconstruídas após o terramoto de 1755, localiza-se no núcleo da antiga vila de Almada. Os materiais existentes e excedentes da recuperação de Lisboa serviram a técnica da “gaiola pombalina” na construção das novas habitações: os materiais derrocados foram usados para enchimento das alvenarias e as paredes foram reconstruídas utilizando a pedra e a cal.

J Incrível Almadense Biblioteca Escadinhas do Ginjal 01 (detalhe), ed. Manil, 3010 J.
Imagem: Delcampe
Estas ruas eram locais centrais de passagem para pessoas, mercadorias e animais desde o castelo à zona ribeirinha do Ginjal ou para o centro da vila onde se localizava o importante conjunto dos Paços do Concelho, a cadeia e o tribunal judicial (construção de 1795 a 1831). (3)


(1) Gazeta de Lisboa n° 212, segunda-feira 8 de setembro de 1823
(2) A centralidade da Rua da Judiaria na transição para o século XX
(3) Idem

Artigos relacionados:
Sociedade de Pedro Marques de Faria
O Caramujo, romance histórico (7/18), Melampigo
Rua da Judiaria, impressões de Silva Porto
Toponímias urbanas oitocentistas
Música velha, música nova

Tema:
Boca do Vento

sábado, 25 de novembro de 2017

O rapaz dos burros (com Angelo Frondoni e Jan Verhas)

(Com musica do Sr. Angelo Frondoni)

Aquella de verde.
que vae no meu russo,
que tem pela cara
sombrinhas de buço:

Verão na praia de Heist (detalhe), Jan Verhas, 1890.
Imagem: Pinterst

sempre é forte franga!
Nunca vi tal flor!
Vou-me aqui suando
de sede e de amor.

Toca os teus. Canhoto,
bota-os para a estrada
arre burros, burros,
vamos para Almada.

Passeio de burro de Knokke a Heist (detalhe), Jan Verhas.
Imagem: Wikimedia

Se aquella mãosinha
pagasse um almude.
levava-o d'um sorvo
á sua saúde.

Que boca de risos !
Que modo jingão!
Que olhinhos tão gaios!
Ai meu coração!

Passeio de burro na praia, Jan Verhas, 1884.
Imagem: Wikipedia

Levo uma princeza
para a mascarada;
arre burros, burros,
vamos para Almada.

Por lhe dar um choxo
em cima do buço,
dava a vestia nova,
dava mesmo o russo;

Um passeio nas dunas (detalhe), Jan Verhas, 1885.
Imagem: Pinterest

só não dava as calças:
não dava, nem dou:
que n' este joelho
seu pé s'estribou.

Vou aqui, vou morto,
morri de facada;
arre burros, burros,
vamos para Almada.

Não olha, não ouve,
por mais que m'esturro,
correndo e gritando
arre burro, burro.

Burros.
Imagem: Wallpaper

Pois pico-lhe o russo,
pois faço-a estender,
só por ver-lhe as ligas
e depois morrer.

Fica atrás, Canhoto,
vá de galopada ;
arre burros, burros,
vamos para Almada.

Senhoras que passeiam montadas sobre burricos, c. 1814.
Imagem: Google Books

Ha mais de dois annos
que sou burriqueiro,
nunca vi corpinho
tão bom cavalleiro.

Com trote, pinotes,
e couce a zunir,
nem quer que a segurem,
nem sabe cair.

Oferta de Cacilhas ao Hospital da Misericórdia, 1947.
Imagem: António Correia

Nas calças ao menos
quero outra pegada:
parae burros, burros,
chegámos a Almada. (1)


(1) António Feliciano de Castilho, O Outono..., Lisboa, Imprensa Nacional, 1863

Leitura relacionada:
Alforges & Cangalhas

terça-feira, 14 de novembro de 2017

O sr. Moreira da fábrica de conservas A. Leão & Cia., Sucessores de Lino & Cia.

Fernando Moreira García era efetivamente galego, nascido em 1855 em Mañufe (Gondomar, Espanha), de família humilde, tendo que estudar para emigrar e conseguir trabalho em Portugal, como fazia grande parte dos jovens galegos da sua época.

Sociedade Mercantil Luso-Brasileira, Lda. Sucessores de "A. Leão & Cia. e Lino & C.
Detalhe de cartaz P. Ross & Deichsel.

Passaram-se muitos anos até que chegasse, por volta dos finais da década de 1880, a ser um dos donos da fábrica A. Leão & Cia., Sucessores de Lino & Cia., a princípio localizada na Rua do Poço dos Negros e depois trasladada ao Ginjal.

Praia das Lavadeiras, Ginjal, Alfredo Keil.
Imagem: Casario do Ginjal

Tinha dois sócios, sendo pelo menos um deles português, já que um estrangeiro näo podia, como tal, ser dono de uma empresa naquele país. Vivia ao lado da fábrica. 

Sociedade Mercantil Luso-Brasileira, Lda. Sucessores de "A. Leão & Cia. e Lino & C.
Detalhe de cartaz P. Ross & Deichsel.

Logo que começou a ter mais dinheiro, Fernando Moreira investiu em terras na sua aldeia natal, comprando em 1890 ou 92 e em nome de seus pais a finca Seidones, com mais de 40.000m2, onde anos mais tarde seu único genro, Francisco Casás Fajo, casado com sua filha Rosa Moreira Pérez, construiu sua casa, ainda hoje na família. 

Entre as antiguidades que se encontravam ali haviam dois calendários de papel, tridimensionais, da primeira década do século XX, época áurea da Fábrica, e um álbum onde estão coladas as belíssimas etiquetas dos seus produtos, muitas com impressão especial dourada e em relevo, que eram exportados ao Brasil e à Inglaterra, embarcados no cais da própria fábrica.

Fim de Tarde no Ginjal, Luis Alves Milheiro, 2015.
Imagem: Casario do Ginjal

No final e antes de morrer, no período conturbado entre uma revolta que houve em Portugal e a guerra civil española, Fernando Moreira García já tinha vários sócios na fábrica, de onde um deles chegou a roubar documentos da caixa-forte. 

Sociedade Mercantil Luso-Brasileira, Lda. Sucessores de "A. Leão & Cia. e Lino & C.
Detalhe de cartaz P. Ross & Deichsel.

Depois, na ausência dos herdeiros, um barco atracou no cais particular dos Moreira, levando móveis e outros bens da residência e da própria fábrica. (1)


(1) Mina Marx, novembro de 2017

Artigo relacionado:
A praia das lavadeiras no Ginjal

Mais informação:
Can the Can (A. Leão & Cª, Almada)
Can the Can (Sociedade Mercantil Luso-Brasileira, Almada)
Can the Can (Empresas conserveiras em Almada)

Leitura recomendada:
Elisabete Gonçalves (coord.), Memórias do Ginjal, Almada, Centro de Arqueologia de Almada, 2000

Informação relacionada:
UTL Repository
O Espaço e as Memórias: Os Armazéns do Ginjal

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O Monumento

Orgão da Propaganda do Monumento Nacional a Cristo Rei

MIÚDOS DE PORTUGAL são estes os vossos colegas da Escola Recreativa de S. José de Lisboa. Deram o ano passado para o Monumento de Cristo Rei MIL TREZENTOS E OITENTA E DOIS ESCUDOS de Pedras Pequeninas. E vós quanto quereis dar? As vossas PEDRINHAS e CORTEJOS INFANTIS DE OFERENDAS são capazes de acabar muito depressa o Monumento. É SÓ QUERERDES. (1)

Alunos da Escola Recreativa de S. José em Lisboa, 1955.
Imagem: Hemeroteca Digital

Vai a obra em mais de meio. Gastaram-se nela já para cima de DEZ MIL CONTOS.

No fim de Setembro [de 1955]o pedestal ficou na altura de 60 metros.
Faltam-lhe ainda 20 metros para chegar à base da estátua.
Imagem: Hemeroteca Digital

O que falta para a concluir — DOIS MIL CONTOS no pedestal e TRÉS MIL CONTOS com a estátua — repartido por todo o pais é uma migalha de contribuição de cada terra, de cada pessoa.

Eis o Santo Mealheiro...
— Quem não dá um pó de terra
A quem deu o Céu inteiro?!

O Santo Mealheiro, Abel Cardoso, 1938.
Imagem: Delcampe

A Campanha do Monumento dura há 17 anos! É tempo de se lhe pôr fim, que será glorioso. (2)


(1) O Monumento n.° 19, dezembro de 1955
(2) O Monumento n.° 18, outubro de 1955

terça-feira, 7 de novembro de 2017

O Escoveiro (á Cova da Piedade)

No tempo de D. Miguel havia reuniões, a que se chamavam frescatas, termo favorito de um também engraçado, franco e generoso conviva, e que depois tomou por apellido Frescata, João Maria Frescata, cavalheiro de fino trato, que bem merecia ter um fim mais feliz do que teve (F. J. de Almeida, Apontamentos da vida de um homem obscuro, pag. 137).

Retrato de D. Miguel I, João Baptista Ribeiro, c. 1828.
Imagem: MNSR

Nas frescatas nas hortas dos arredores da Lisboa de 1833, guitarreavam-se modinhas. Assim acontecia na Gertrudes da Perna de Pau, no Manuel Jorge, ás portas de Sacavem, no Zé Gordo, na calçada de S. Sebastião da Pedreira, no Quintalinho, á Cruz do Taboado — onde se vendiam iscas de vitella espetadas em palitos — e no Calazans, á Cruz dos Quatro Caminhos.

Uma borga na horta das tripas, Raphael Bordallo Pinheiro, O António Maria n.° 305, 1891.
Imagem: Hemeroteca Digital

Nas suas succedaneas de 1846, já se guitarreava o fado, como succedia na Horta das Tripas, no Escoveiro (à Cova da Piedade), no Ezequiel ao Dafundo, no Miséria da estrada de Palhavã, na Vitelleira da travessa dos Carros, na Rabicha, no Campo Pequeno, no Arco do Cego, na Madre de Deus e no Beato António [...] (1)

*
*     *

Durante a mocidade de nossos paes, a Cova da Piedade foi celebre pela casa de pasto do antigo Escoveiro, theatro de memoráveis noitadas de amor e de batota.

Vista Geral — Cova da Piedade ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe

O pretexto da concurrencia ao Escoveiro era a sua afamada sopa de camarões e os salmonetes, que elle preparava do um modo especial, mettendo-os no forno envoltos n'um papel com manteiga, e servindo-os em sumo de limão, polvilhados de pimenta. 

Uma belleza! Comidos os salmonetes, armava-se a mesa do monte e muitos dos estroinas celebres da terrível Lisboa de ha trinta annos abancavam ao jogo até o outro dia pela manhã.

Chafariz do Pombal, Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

N'uma noite que lhe deveria ter ficado de memória, o pobre Escoveiro deixou as caçarolas, para ver a jogatina, em que se faziam, paradas de cincoenta moedas, e arriscou de porta um cruzado novo. 

Cruzado novo foi elle, qua puxou atraz de si para o panno verde, dentro de pouco tempo, toda a linda fortuna que o Escoveiro accumulara om longos annos de sabia economia e de lucrativa gloria culinária. 

Cova da Piedade, zona rural, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O infortúnio do estalajadeiro destingiu lugubremente na estalagem, e toda clientella — noivados, que por vezes vinham aos sabbados com os padrinhos, os parentes e os convidados celebrar os bodas com um jantar; raparigas alegres, rapazes patuscos, simples burguezes, pacatos amantes da boa mesa, e os próprios batoteiros, — fugiu, como de um lugar sinistro, da assignalada casa do Escoveiro arruinado.

Almada [Cova da Piedade], Uma Burricada, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 14, década de 1900.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Ainda hoje, depois de tantos annos, o prédio respectivo, á entrada da estrada de Cezimbra, sempre fechado, de frontaria apalaçada, mas ennegrecida, tem como um ar de desgraça. (2)


(1) Pinto de Carvalho (Tinop), História do Fado, Lisboa Empreza da História de Portugal, 1908
(2) Ramalho Ortigão, Gazeta de Noticias, 7 de dezembro de 1886

sábado, 28 de outubro de 2017

Empreza d'Automoveis Almadense

Realizou-se já a primeira experiência de um omnibus automóvel adquirido pela Sociedade Portuguesa de Automóveis e que se destina a fazer carreiras para transporte de passageiros entre Cacilhas, Costa de Caparica e Sesimbra.

Omnibus "de Dion-Bouton" de 24cv, 1905-1906.
Imagem: Museu do Caramulo

Saiu o omnibus das garagens da Sociedade Portuguesa de Automóveis, na rua Jardim do Regedor, guiado pelo chauffeur Laurencel, contramestre na fábrica De Dion, levando além do sr. Serra e de alguns amigos, os srs.engenheiro Júlio de Vasconcelos e Carlos Bleck, directores da Sociedade Portuguesa de Automóveis, agentes exclusivos da casa Dion Bouton.

O primeiro autocarro português, "de Dion Bouton" de 1902, conduzido por Louis Laurencel.
Imagem: José Luis Covita, Memórias de um Século de Autocarros a Sul do Tejo, Lisboa, Scribe, 2013.

O omnibus carregado com 18 pessoas foi direito a Algés, estrada da Circunvalação, Benfica, Avenida e Campo Grande onde andou na fila. A Sociedade Almadense está à espera de outro automóvel igual a esse para imediatamente inaugurar as carreiras para Sesimbra. (1)


 *
*     *

A 29 de Maio [de 1905], uma segunda‑feira, a Empresa de Automóveis Almadense “(…) inaugurou um serviço provisório de carreiras, entre Cacilhas, Almada e Piedade, começando esse serviço, todos os dias, na sahida do vapor das nove da manhã, terminando na carreira das 7h40 da tarde, sendo o preço de cada logar até Almada, 40 réis e à Piedade de 50 réis” [...] (2)

Cacilhas a Piedade,
Bilhete da Empreza de Automoveis Almadense, serviço provisório .
Imagem: José Luis Covita, Memórias de um Século de Autocarros a Sul do Tejo, Lisboa, Scribe, 2013.

Inaugurou-se a semana passada o serviço de carreiras de automóveis entre Cacilhas, Cova da Piedade e Almada, organisado pela Empreza d'Automoveis Almadense, á testa da qual estão os conhecidos e importantes capitalistas Serras [João Baptista de Carvalho Serra, Sucessores, de Cacilhas] e Luís Fernandes. 

Omnibus de Dion Bouton.
Imagem: Delcampe

É este um importante melhoramento para as povoações da margem sul do Tejo pois não se limita a este pequeno percurso, o trajecto a percorrer pelos automóveis da Empreza Almadense.

Tendo já carros encomendados [à Empreza Portugueza de Automoveis (Auto Palace), "4 omnibus, Dion Bouton, sendo 2 de 15 cavalos e 2 de 24 cavalos" cf. Tiro e Sport n.° 302, 15 de março de 1905], conta-se em pouco tempo começar com as carreiras entre Cacilhas, Cezimbra, Azeitão e Setúbal, ficando assim substituídas as antiquadas diligências que actualmente fazem essa carreira.

Esse serviço é feito por modernos automóveis de Dion-Bouton, do modelo mais aperfeiçoado e moderno, e deve ser motivo de orgulho para o nosso paiz o saber que se está dando applicação prática a este novo invento, ao mesmo tempo que no estrangeiro se faz o mesmo, o que em geral não tem acontecido até aqui, aonde só tardiamente se imita o que de util há lá por fóra.

Omnibus de Dion Bouton.
Imagem: Delcampe

Nenhuma dúvida há que, em breve, teremos em Portugal a maior parte dos nossos serviços de diligências substituídos por serviços de automóveis, visto já não haver as legítimas apreensões que há pouco anos ainda existiam no espírito de pessoas ou empresas querendo entrar nesse caminho. (3)

Corpo do Estado Maior do Exército, assinaladas a Estrada Distrital 156 e a Estrada Real 79, 1902.
Imagem: IGeoE

Logo que estejam concluídos os arranjos a que se está procedendo em vários pontos da estrada, recomeçarão as carreiras de automóveis entre Cacilhas, Caparica e Vila Nova, que há tempo foram interrompidas. (4)


(1) JCB Rodrigues, A implantação do Automóvel em Portugal (1895-1910)  cf. Gazeta dos Caminhos-de-Ferro (Lisboa), Fevereiro, 1905, 71.
(2) José Luis Covita, Memórias de um Século de Autocarros a Sul do Tejo, Lisboa, Scribe, 2013
(3) Tiro e Sport n.° 302, 15 de março de 1905
(4) JCB Rodrigues, A implantação do Automóvel em Portugal (1895-1910)  cf. Gazeta dos Caminhos-de-Ferro (Lisboa), Maio, 1905, 362.

Informação relacionada:
José Barros Rodrigues, Os Automóveis na Rede de Transportes Públicos...

Leitura recomendada:
José Luis Covita, Memórias de um Século de Autocarros a Sul do Tejo, Lisboa, Scribe, 2013

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Bombeiros Voluntários do Caramujo

Já está definitamente organisada a companhia dos bombeiros voluntarios do Caramujo. Assim o communicou á Camara Municipal d 'Almada uma commissão nomeada para tal effeito.

Manoel José Gomes & Filhos, fábrica de moagem do Caramujo, nota de divida de 1881 (detalhe).
Imagem: Delcampe

Existe desde alguns meses a associação dos bombeiros voluntarios de Almada, que n'aquella localidade estabeleceu esse philantropico serviço. Tem aquella associação feito successivos exercicios no Alfeite com a bomba ali existente, e deseja augmentar os seus socios para poder realisar com mais vantagem os serviços a que se destina. 

Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo, edifícios de 1864, 1872 e 1889.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

Algumas divergencias, cremos nós havidas na associação, o que são sempre para lastimar, deram logar a que se creasse outra sociedade de bombeiros voluntarios no Caramujo. Parece-nos existir inquieta rivalidade d'esta com aquella sociedade.

Praia do Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

Mas esse sentimento deve ser substituido pelo da confraternidade sincera, se o desejo da nova sociedade, como o da mais antiga, é unica e simplesmente, como deve ser, o de servir a causa da humanidade e da sociedade. Rivalisar só no amor do bem. Fraternidade no exercicio do mesmo apostolado.

Bombeiro em Lisboa,
Typos Costumes Portugueses n.° 41,  João Palhares c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Exclusão absoluta das paixões pequenas, e ávante. (1)
Simbologia dos Bombeiros Voluntário d'Almada, 1882.
Imagem: bombeiros-portugal.net

Do sr. presidente d'esta associação recebemos a seguinte carta a que gostosamente damos publicidade fazendo sinceros votos para que a associação dos bombeiros voluntarios do Caramujo se torne digna pela sua seriedade e pelos seus bons servi ços, da consideração publica.

Eis a carta a que nos referimos:

"Sr. redactor.

A associação dos bombeiros voluntarios do Caramujo, acha-se penhoradissima para com v ., pela noticia inserida no Bombeiro de 15 de junho proximo passado.

Emquanto ás divergencias havidas na associação dos bombeiros voluntarios d 'Almada é na verdade para lastimar que as houvesse, porém d'ellas emanou esta associação que soube á custa de mil sacrificios e prívações e estabelecer no curto espaço de 60 dias a 1.a estação no concelho a que pertence, tencionando no dia 20 fazer a inauguração com a sua machina.

Bomba a vapor Jauck n.° 1.
Consome esta machiina 1500 litros d'agua por miuuto, e o jacto alcança a distancia de 60 metros...
Imagem: O Bombeiro Portuguez n.° 8, 15 de julho de 1282

Sendo effectivamente os socios d'esta associaçãto desprovidos de paixões mesquinhas, trabalhando apenas em prol da humanidade, veem os mesmos demonstrar publicamente que nenhuma rivalidade existe entre esta corporação e os bombeiros voluntarios d'Almada; por isso pedimos á redacção a publicação do presente officio pelo que nos consideramos summamente agradecidos.

Lisboa 11 de julho de 1882.

Sr. redactor do Bombeiro Portuguez.


O presidente, José Maria Subtil d'Andrade" (2)

Piedade, D. Carlos de Bragança 1885.
Imagem: ComJeitoeArte

No dia 23 do passado a Associação dos bombeiros voluntarios do Caramujo abriu a sua primeira estação, na rua de S. Thiago, em Almada, tendo o material necessario para o serviço do incendios. (3)


(1) O Bombeiro Portuguez n.° 6, 15 de junho de 1282
(2) O Bombeiro Portuguez n.° 8, 15 de julho de 1282
(3) O Bombeiro Portuguez n.° 9, 1 de agosto de 1282

Artigos relacionados:
O incendio da fabrica da Margueira
Museu de Bombeiros

Mais informação
Hemeroteca Digital de Lisboa: O Bombeiro Portuguez

[Abaixo publicamos algumas referências cordialmente elaboradas pelo professor Alexandre Magno Flores, relativas à efémera associação dos Bombeiros Voluntários do Caramujo e ao material contido nesta mensagem:]

Para quem estiver interessado em aprofundar a história dos «Bombeiros Voluntários do Caramujo», aconselhamos também a consulta de trabalhos sobre a mesma temática, publicados há vários anos. Registamos, por exemplo, os seguintes títulos: «Bombeiros Voluntários do Caramujo (...)», da autoria de Manuel Lourenço Soares, in "Jornal de Almada", n.º 1687, 25 de Dezembro de 1983, páginas 17 e 18 // «Almada Antiga e Moderna - Roteiro Iconográfico -II. Freguesia de Cacilhas, CMA, 1987, página 108 // «Almada Antiga e Moderna - Roteiro Iconográfico - III. Freguesia da Cova da Piedade, CMA, 1990, páginas 73, 84, 85 e 94 // «Bombeiros do Concelho de Almada (século XIX)», (separata revista e actualizada da publicação periódica «Anais de Almada», 2004-2005, n.ºs 7 e 8, páginas 113-150), da autoria de Alexandre M. Flores, Edição dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 2007, páginas 18,19,20,21,22,38,39. Em relação às imagens reproduzidas no texto do «Almada Virtual Museum», importa referir que a foto da "Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo"(de Maria Conceição Toscano) , nos foi cedida pelo por Mário Faria de Carvalho, bisneto do industrial e benemérito António José Gomes, para reprodução no livro «António José Gomes: o Homem e o Industrial (1847-1909)», editado pela Junta de Freguesia da Cova da Piedade, em 1991, na página 30. Quanto à reprodução do «símbolo dos Bombeiros Voluntários de Almada», a imagem foi plagiada por alguém e a colocou no «bombeiro-Portugal.net.», a partir da referida revista cultural «Anais de Almada», 2004-2005, n.ºs 7 e 8, na página 120 // ou a partir do livro, atrás citado, «Bombeiros do Concelho de Almada», 2007, na página 19.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Jackass Bay (ou Os ingleses em Cacilhas)

No século XIV, os peregrinos ingleses levantaram, em Cacilhas, a Casa dos Palmeiros, ainda existente em meados de quinhentos e destinada a agasalhar os peregrinos: "Nos tempos passados, escreve o autor quinhentista, vierão a este reyno os ingleses romeiros e chegando a Cacilhas, lugar dalém pegado com o mar, não acharam gasalhado, e vindo a esta cidade acharam a mesma falta.

A entrada em Jerusalém, Giotto (c. 1266 - 1337), c. 1305.
Imagem: The Athenaeum

Espantados muyto de em tão nobre cidade não aver gasalhado para os peregrinos determinarão fazer aas suas custas dous espritaes hum no mesmo lugar de Cacilhas e o outro na cidade". Era o Sprital dos Palmeiros. (1)

O almirante John Leake, comandante da expedição a Málaga em 1704, e cuja base era Lisboa procurou instalar, nesta cidade, um hospital destinado à Marinha de Guerra Inglesa. As negociações, levadas a cabo pelo embaixador inglês, foram difíceis e longas a ponto do almirante se referir, em termos pouco abonatórios, à colaboração, ou falta dela, dos portugueses.

A squadron of the Red lying in the Tagus off the Belem Tower, Lisbon, Peter Monamy (1689-1749).
Imagem: artnet

O que é um facto é que, um ano depois, estava em funcionamento, o hospital identificado como sendo "near Almeida on the south bank of River Tagus", povoação esta que não pode ser outra que Almada. Pese embora as várias diligências efectuadas não foi possfvel conhecer qual a data em que este hospital foi encerrado o que se averiguou foi que, em 1745, o hospital estaria instalado em Lisboa de onde, por determinação régia, teria de sair.

De acordo com o cônsul britânico Charles Compton as freiras do convento que se encontrava nas proximidades do hospital ter-se-iam queixado que haveria perigo de contágio o que teria levado a Coroa a mandar encerrá-lo. De acordo com o cônsul as acusações não tinham qualquer fundamento mas, apesar disso, o cirurgião tinha transferido os doentes para bordo de alguns navios. Em carta de 22 de Março de 1745 o cônsul informa já ter encontrado uma casa adequada à instalação do hospital, mais uma vez na margem Sul do Tejo.

É esse hospital que aparece retratado numa pintura de Noel com o titulo de "A view taken from Lisbon , the english Hospital and the Convento of Almada" de 1793.

Vista norte de Cacilhas. Em primeiro plano ao lado esquerdo, dois marinheiros carregam cestos a partir de uma barcaça, com a inscrição 'JWells Aqua', para o convés de um ferry-boat onde uma mulher e dois homens aguardam. Do lado direito um barco transporta um passageiro abrigado por um dossel e seis remadores. Vista da igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso, do porto e do lugar de Cacilhas. A bandeira inglesa sobre o hospital. Ao fundo, veleiros no rio Tejo.
in British Library 
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Em 1798 Heinrich Friedrick Link [Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha] refere a existência, logo abaixo de Almada, no sopé da colina, de um grande hospital inglês para a marinhagem, em especial a das frotas e que ficava junto a um armazém grande de vinhos.

Edward Thornton, 1.° Conde de Cacilhas, c. 1799.
Imagem: Wikipedia

Um dos doentes que foi tratado naquele hospital foi o almirante Francis Beauford, o inventor da ainda em uso escala de ventos, que tendo sido ferido em 28 de Outubro de 1800, aquando da captura do navio espanhol S. José, veio completar a cura em Almada onde, segundo refere, dava grandes passeios pelos arredores. Beauford só veio a largar de Lisboa, findo o tratamento, em 18 de Agosto de 1801. 

Em 15 de Janeiro de 1802 a Gazeta de Lisboa publicava o seguinte anúncio: Terça feira 19 do corrente mês, pelas 10 horas da manhã, na casa da Praça do Comércio se hão de vender em leilão vários restos de medicamentos, instrumentos de cirurgia, camas, lençóis, cobertores e outras pertenças do Hospital da Marinha Britânica, sito no lugar de Cacilhas, aonde se poderão examinar os ditos artigos nos três dias antecedentes à venda; e tanto ali, como na Casa da Praça, se achará a sua relação, e as condições da arrematação. (2)

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O lado sul do Tejo ou Outra Banda [...] consiste numa cadeia de colinas revestidas de vinha que se estendem até Cacilhas, em frente ao Arsenal, onde a margem faz uma curva em direção a sudeste, formando uma baía espaçosa chamada Cova da Piedade, conhecida dos marinheiros ingleses pelo menos eufórico título de "Jackass Bay" [Baía dos Burros]. (3)


Os ingleses em Cacilhas, Os costumes antigos - Portugal de algum dia, ilustração de Roque Gameiro, 1931.
Imagem: Roque Gameiro.org

O Tejo, que lava as fundações a todo o comprimento da cidade, estende-se para o leste numa baía espaçosa chamada Cova da Piedade, e elegantemente pelos marinheiros ingleses, "Jackass Bay", provavelmente devido ao número da raça de orelha comprida que estão constantemente à espera no seu extremo para transportar os visitantes pelo país. (4)

Costa da Caparica, 1907.
Imagem: Delcampe

Um dia, depois do nosso regresso, navegamos o Tejo até Cacilhas, a aldeia no Alemtejo, frente à cidade. O lugar de atracagem tem sido chamado "Jackass Bay" pelos marinheiros ingleses, por causa da multidão de burros e rapazes, clamorosos por emprego, que assaltam os estranhos que lá chegam.

Edward Thornton, 2.° Conde de Cacilhas, 1886.
Imagem: Wikipedia

Montados em burros robustos, subimos até a estação do telégrafo, da qual tivemos a vista panorâmica mais esplêndida de "Lisboa antiga". (5)

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Partiu o comboio ao longo das margens do Tejo, que logo se abriram no amplo lago de esteiros  conhecido pelos marinheiros ingleses como Jackass Bay. (6)

Almada [Cova da Piedade], Uma Burricada, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 14, década de 1900.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Do Portugal de ha século e meio escasseia o documento, e a não juntarem-se agora os elementos fragmentádos, e a não apontarem-se as memórias que sôbrevivem, cerzindo-se umas a outras neste Portugal de algum dia, êsse período tão longínquo, e ainda tão perto da nossa sensibilidade, ficaria impreciso n'uma das suas facêtas mais reverberantes e mais comunicativas. (7)


(1) Mário Martins S. J., Peregrinações e livros de milagres..., Lisboa, ed. Brotéria, 1937
(2) Revista da Armada  nº 459, janeiro de 2012
(3) Joaquim António de Macedo, A guide to Lisbon and its environs..., 1874
(4) The stranger's guide in Lisbon, 1848
(5) William Edward Baxter, The Tagus and the Tiber, 1852
(6) J. Richard Digby Beste, Nowadays; or, Courts, courtiers, churchmen..., 1870
(7) Roque Gameiro/Matos Sequeira, Portugal de algum dia..., 1931