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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Arte xávega na Costa da Caparica a Património Imaterial

A Arte-Xávega é uma técnica de pesca tradicional que consiste na utilização de uma rede de cerco envolvente que é lançada no mar e depois puxada para terra.

O mar como patrimonio, exposicão: arte-xávega na Costa da Caparica, 2015.
Imagem: Francisco Silva

A Arte, como é designado o conjunto constituído por cordas, alares e saco, é lançada ao mar a partir de uma embarcação, deixando em terra a ponta da corda designada por banda panda. Depois de largar a rede, a embarcação regressa à praia trazendo a outra ponta de corda, designada por banda barca.

Logo que a segunda corda chega à praia inicia-se o processo de alagem em simultâneo de ambas as cordas, puxando para a praia a rede cuja boca do saco se mantém aberta através da utilização de boias e de pesos.

Praia do Sol, C. Caparica, ed. José Nunes da Silva, s/n
Imagem: Delcampe

Esta técnica de pesca, praticada também em outras regiões do país, foi trazida para a Costa da Caparica por comunidades piscatórias de Ílhavo e Olhão, responsáveis pelo povoamento do lugar. 

Adaptando-se às praias e ao mar da Costa da Caparica, a Arte-Xávega adquiriu características específicas que a distinguem de práticas semelhantes utilizadas em outras regiões do país.

Considerada como arte de cerco envolvente de puxar para terra a Arte-Xávega tem uma origem remota que segundo alguns autores remonta à pré-história, estando documentada em diversas regiões do Mediterrâneo mas também no Índico. 

Barco lua na praia de Cox's Bazar, baía de Bengala, Bangladesh.
Imagem: WATEVER

Em Portugal a utilização das redes da Arte-Xávega nos moldes que atualmente se conhecem remontam ao século XVIII e terão sido introduzidas por armadores andaluzes e catalães nas praias do Algarve e da Costa Nova, na sequência da proibição em 1725 da pesca de arrasto nas praias da Catalunha.

Na Costa da Caparica as condições naturais necessárias à utilização da Xávega: praia aberta e sem obstáculos, fundos de areia sem rocha e abundância de peixe, associada à proximidade da foz e estuário do Tejo, atraíram companhas de pescadores oriundos de Ílhavo e Olhão que aqui vinham pescar sazonalmente tirando partido do mar mais calmo e da proximidade do mercado da capital para o escoamento do pescado, principalmente sardinha.

Costa da Caparica, Entrando no mar, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, s/n, cliché João Martins

A partir de 1770 ter-se-ão fixado definitivamente na Costa as primeiras companhas oriundas de Ílhavo dando início ao povoamento do lugar, até então despovoado e desprezado pelas populações locais, em parte devido à insalubridade derivada da existência de pântanos e juncais que dominavam a paisagem de areal da costa atlântica da freguesia de Caparica.

Como forma de dar resposta a algumas das necessidades da população que então passou a constituir a povoação da Costa os mestres das companhas organizaram o "Cofre dos Quinhões das Companhas", para o qual cada companha contribuía conforme o pescado vendido, com o rendimento do cofre se pagava anualmente ao “cirurgião”, ao padre e ao escrivão.

Costa da Caparica, Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

O muro de cemitério e a sua pequena capela, assim como o poço que abastecia a população de água potável, foram igualmente pagos com dinheiro do "Cofre", que financiava as festas em honra da padroeira, Nossa Senhora do Rosário, a manutenção da capela e o apoio aos mais desvalidos da comunidade.

Praia do Sol, C. Caparica, ed. José Nunes da Silva, s/n, Poço de Bomba.
Imagem: Delcampe

A organização social destas primeiras comunidades locais baseava-se em laços familiares e laborais, sendo que cada companha constituía como que uma família alargada, num segundo nível.

Os locais de origem marcavam de forma mais profunda a separação social entre ílhavos e algarvios, que ocupavam espaços territoriais diferenciados, cuja linha divisória (atual Rua dos Pescadores) separava os descendentes dos ilhavenses, a norte, dos algarvios, a sul.

Identificam-se entre alguns pescadores e pescadoras indivíduos oriundos do Alentejo que se fixaram na Costa da Caparica e desenvolveram a sua atividade em torno da pesca.

Costa da Caparica, Almada, Passaporte, 69, Pescadores transportando as redes.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Acerca da origem dos membros da comunidade piscatória importa ainda referir que a necessidade de força de trabalho utilizada na Arte-Xávega contribuiu para integrar na comunidade muitos indivíduos de origens desconhecidas que procuravam abrigo e trabalho nas companhas da Arte-Xávega.

Eram chamados barraqueiros por habitarem nas barracas da companha, utilizadas para guardar as redes e outros apetrechos de pesca. Esta realidade mantém-se atual, sendo que continuam a habitar nos alvéolos dos pescadores da Costa vários pescadores de origem africana.

A Praia do Sol, O transporte da rede e a faina, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 105.
Imagem: Delcampe

Contudo, na sua maioria, os membros da comunidade piscatória são naturais da Costa da Caparica, sendo a pesca uma atividade que se mantém no âmbito das famílias e um recurso perante a falta de outras oportunidades de ocupação profissional.

A Arte-Xávega seria então o principal método de pesca utilizado de entre outras artes tradicionais de cerco e alar para terra como o Chinchorro, a Rede-Pé, a Mugeira ou o Estremalho, artes que foram proibidas por terem malhagens reduzidas sendo por isso consideradas muito predatórias.

A pesca com a Arte-Xávega, mais precisamente a condução das redes, fazia-se com recurso a embarcações designadas Saveiros ou Barcos de Mar, trazidos pelos pescadores da Beira Litoral (Mira, Torreira, por exemplo onde ainda hoje são utilizados).

Barco de Mar, companha de S. José, praia de Mira.
Imagem: ahcravo's Blog

Eram movidos a remos por tripulações com cerca de vinte remadores a bordo, contudo as condições do mar da Costa da Caparica levaram à transformação dos Saveiros em embarcações mais pequenas e com um desenho ligeiramente diferente a que se chamou Meia-lua (por apresentarem as bicas simétricas enquanto o Saveiro apresenta a bica da proa mais elevada do que a da popa) ou Saveiro da Costa.


Em comum ambas as embarcações apresentavam o fundo plano, que permitia a manobra deslisando sobre a areia, bem como a popa e a proa elevadas para vencer a rebentação das ondas quer à vante quer à ré adaptando-se ao vale da onda.

O meia-lua, de dimensões variáveis consoante o número de remos que levava: dez, oito ou seis, embarcava uma tripulação composta pelo arrais, espadilheiro (manobrava o remo da espadilha colocado à popa que servia de leme), calador (responsável por "meter" e largar a rede), rapaz do pau da corda e os remadores, um por cada remo, conforme a dimensão da embarcação.

Pormenor da praia da Caparica, ed. Fotex, 144
Imagem: Delcampe

A partir de meados do século XX os meias-luas vão sendo substituídos por embarcações mais pequenas designados por "barco de duas bicas", que apresentavam ainda a popa e a proa levantadas mas com as bicas mais baixas, ainda movido a remos mas de mais fácil manobra e adaptado a outros tipos de pesca para além da Arte-Xávega.

Costa da Caparica, Saindo para o mar, ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 173.
Imagem: Delcampe

Na Costa da Caparica a adaptação de motores aos barcos da Arte-Xávega iniciou-se na década de setenta do século XX. Fazia-se nos meia-lua através de um "poço" à popa, onde o motor era introduzido na vertical. Isso obrigava a que, na chegada à praia, o motor tivesse de ser levantado para não bater no fundo.

No sentido de aumentar a segurança e a estabilidade da embarcação, bem como torná-la mais versátil para outros tipos de pesca, foram sendo introduzidas as Lanchas ou Chatas.

Costa da Caparica, Puxando a barca para a pesca,
ed. Centro de Caridade N. Sra. do Perpétuo Socorro, 613.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

A mecanização da alagem através da adaptação de aladores à tomada de força dos tratores, introduzidos na década de setenta do século XX para apoiar as manobras das embarcações e o transporte do peixe, resulta de várias experiências realizadas por alguns armadores locais e generaliza-se a partir de finais da década de oitenta do século XX.

Costa da Caparica, Companha São José, de volta à faina, 2015.
Imagem: Francisco Silva no Facebook

Segundo a opinião de alguns pescadores, recolhida em contexto de diálogo informal, a mecanização dos barcos, do transporte do peixe e da alagem da rede é condição determinante para a sobrevivência da Arte-Xávega na Costa da Caparica, pois já ninguém se sujeitaria ao esforço necessário para realizar manualmente e à força de músculos todas as tarefas necessárias durante uma jornada de pesca.

Costa da Caparica, Pôr do Sol, ed. Passaporte, s/n.
Imagem: Delcampe

A faina da pesca realizada através da Arte-Xávega na Costa da Caparica, sendo praticada no mar e na praia constitui uma atração turística que cativa muitos dos frequentadores da praia nomeadamente banhistas que principalmente durante os meses de verão acorrem em grande número para observar a chegada à praia da rede e a escolha do peixe.

Nesse sentido apesar da proibição desta prática da pesca nas áreas concessionadas entre 09:00 e 19:00 horas, imposta durante a época balnear, alguns concessionários viabilizam o acesso dos tratores através das concessões no sentido de possibilitar a prática da Arte-Xávega.

A possibilidade de comprar peixe na praia diretamente aos pescadores constitui outro atrativo que contribui para a valorização da Arte-Xávega na Costa da Caparica enquanto recurso turístico, para além de favorecer o rendimento das companhas.

Encontram-se jovens de ambos os sexos integrados nas companhas da Arte-Xávega, tendo como principal objetivo auferir de algum rendimento monetário. 

Apesar de se observar alguma falta de interesse por parte das novas gerações em dar continuidade à atividade piscatória na Costa da Caparica, observa-se uma renovação das companhas entre as quais se encontram atualmente três governadas por “donos” com idades na casa dos quarenta anos ou menos.

Nesse sentido considera-se que os conhecimentos e experiência necessária ao governo da Arte, principalmente no que diz respeito à construção e manutenção das redes imprescindíveis à continuidade da prática da Arte-Xávega e sem qualquer viabilidade de produção industrial, se encontram minimamente salvaguardados e com possibilidade de terem continuidade e viabilidade económica.

Costa da Caparica, As redes, aguarela de Manuel Tavares, 1965.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

O património imóvel associado à comunidade piscatória da Costa da Caparica e por inerência à prática da Arte-Xávega relaciona-se com os locais de arrumação dos aparelhos e artes de pesca, bem como a habitação.

Contudo, em virtude do crescimento urbano da cidade da Costa da Caparica, observaram-se a partir da primeira metade do século XX transformações profundas que condicionaram a atual concentração habitacional da comunidade piscatória.

Os primeiros locais de fixação de população na Costa da Caparica dividiam-se em dois núcleos separados pelo traçado da atual Rua dos Pescadores — as famílias de pescadores oriundos do Algarve a norte, e as de Ílhavo a sul.

Costa da Caparica, Vista parcial e Rua dos Pescadores, ed. Passaporte, 72, década de 1960.
Imagem: Delcampe

As habitações primitivas da Costa eram construídas em tábuas e estorno (gramínea que se desenvolve nas dunas).

O primeiro bairro em alvenaria foi construído a norte da Rua dos Pescadores em 1884 por iniciativa do deputado Jaime Artur da Costa Pinto, com a finalidade de alojar as famílias de pescadores cujas habitações haviam sido destruídas por um incêndio.

Costa da Caparica, As novas edificações, 1887, desenho de João Ribeiro Cristino
Imagem: Hemeroteca Digital

Contudo, a partir do primeiro quartel do século XX, com o desenvolvimento da Costa da Caparica enquanto estância balnear e subsequente urbanização da zona norte da povoação as famílias dos pescadores que se aí se haviam instalado foram de alguma forma "empurradas" para sul, onde surgiu o bairro de barracas designado por "Rua 15".

Aspecto do bairro piscatório da Costa da Caparica, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

A partir da década de sessenta do século XX, com a construção do Bairro dos Pescadores, integrada nas medidas de fomento da pesca tradicional promovidas pelo Estado Novo através do almirante Henrique Tenreiro e da Junta Central da Casa dos Pescadores, sedeada na Costa da Caparica, a maioria dos pescadores da Costa da Caparica passa a dispor de habitação no bairro cuja construção se desenvolverá em três fases.

Acerca da habitação dos pescadores foi possível perceber que a proximidade da habitação ao mar é uma condição determinante para a viabilidade da atividade da pesca, pois a decisão acerca da saída para a faina depende da observação do estado do mar, pelo que a proximidade da praia é determinante na decisão dos mestres e na possibilidade de chamar os camaradas para a faina.

Importa referir que tradicionalmente um dos elementos da companha, geralmente uma criança, tinha a função de "chamador": percorria as habitações dos pescadores gritando "chama o arrais" convocando assim os pescadores para a faina.

Uma das zonas referidas pelos pescadores mais idosos, como local de referência para a comunidade piscatória da Costa da Caparica situa-se onde se encontra o Hotel Praia do Sol.

A Praia do Sol - O Hotel, década de 1930
ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia.
Imagem: Delcampe

Esse local era designado "o Alto" onde se concentrava um núcleo habitacional e onde se via o mar. Quando os alcatrazes caiam mergulhando no mar era sinal de sardinha.

Em data não determinada, quatro famílias da Costa da Caparica foram fundar a povoação da Fonte da Telha, onde se juntam também duas famílias da Charneca.

A Fonte da Telha (Costa da Caparica, Praia do Sol), Cruz Louro, 1937.
Imagem: Cruz Louro

A transformação determinante na história da Costa da Caparica e da sua comunidade piscatória opera-se a partir da década de vinte do século passado com a classificação de estância balnear.

As famílias de pescadores passam então a alugar as suas casas aos "banhistas" habitando durante o verão nas barracas de apoio à pesca, alguns pescadores durante esse período passam a trabalhar como banheiros nas praias concessionadas.

A Arte-Xávega, os seus pescadores e principalmente os barcos meia-lua, constitui uma atração turística, passando a imagem do pescador e do barco meia-lua a estar ligada à promoção turística da Costa como "imagem de marca".

Costa da Caparica, barco meia-lua, Adriano Sousa Lopes, década de 1930.
Imagem: Flickr

Diversos fotógrafos registaram imagens da faina piscatória na Costa da Caparica, sendo que algumas dessas imagens foram publicadas em postais e folhetos turísticos.

Artistas plásticos e fotógrafos, entre os quais se destacam José António Passaporte, João Martins e Júlio Dinis, registaram os métodos de pesca então utilizados na Arte-Xávega constituindo um acervo que permite documentar a Costa da Caparica e das suas gentes durante a primeira metade do século XX.

Importa ainda referir que não se realizou nenhum recenseamento da comunidade piscatória, havendo contudo indícios de que algumas pessoas que trabalham na pesca habitem em outras localidades do concelho, nomeadamente a Charneca e o Monte de Caparica, sem esquecer a Trafaria, povoação piscatória cuja ocupação antecede a Costa da Caparica e onde residem muitos pescadores que também pescam e integram as companhas da Costa.

As novas tecnologias de comunicação e a facilidade das deslocações com recurso a meios de transporte próprios terá introduzido algumas alterações ao nível dos locais de habitação dos pescadores, contudo o caracter familiar da atividade contribui para que na sua maioria a classe piscatória habite na Costa da Caparica.

As principais manifestações religiosas da comunidade piscatória da Costa da Caparica já não se realizam, contudo permanecem na memória coletiva das populações locais demonstrando a religiosidade própria dos pescadores que, não frequentando a igreja, possuem uma forte devoção associada à proteção que esperam receber.

As principais celebrações consistiam numa procissão em honra de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Costa da Caparica, durante a qual era transportada uma miniatura de meia-lua cuja tripulação é composta por Jesus Cristo e os apóstolos (imagem conservada na primitiva igreja paroquial).

Costa da Caparica, Procissão da Senhora do Rosário, Revista Ilustração, 1937.

A Nossa Senhora do Cabo Espichel constituiu outra das devoções da comunidade piscatória da Costa que, até às primeiras décadas do século XX participava regularmente no Círio do Cabo, percorrendo parte do percurso pela praia.

As práticas de pesca tradicional utilizadas na Costa da Caparica estão dependentes de um conjunto de fatores naturais que condicionam o sucesso da atividade e os riscos associados à navegação que podem colocar em perigo a integridade física dos pescadores.

Costa da Caparica, Almada, Passaporte, 60, Arribação dos pescadores após o lançamento das redes

Nesse sentido, embora seja difícil aferir as crenças e devoções particulares de cada pescador, alguns dos aspetos referidos no Anexo I em 19.3. [ver anexos], nomeadamente a pintura de um olho de cada lado da proa de algumas embarcações assim como os nomes que lhes são atribuídos, constituem no nosso entender aspetos que caraterizam as manifestações de Património Imaterial associadas à Arte-Xávega na Costa da Caparica. (1)



(1) MatrizPCI: Arte-Xávega na Costa da Caparica

Anexos:
MatrizPCI — Chata
MatrizPCI — Arte
MatrizPCI — Bibliografia
MatrizPCI — Multimédia

Temas:
Arte xávega
Saveiro meia Lua
Costa da Caparica

sábado, 11 de abril de 2015

Nossa Senhora do Cabo

Nossa Senhora do Cabo (do Espichel) — famoso santuário da Extremadora, ao S. do Tejo, na freguesia de Santa Maria do Castello da villa e concelho de Cezimbra, commarca d'Almada.

Sesimbra, Cabo Espichel, vista aérea.
Imagem: Delcampe

Fica o templo, no Cabo do Espichel, a que os romanos chamavam Promontório Barbarico [...]

Sobre um rochedo do Cabo, se vé uma ermidinha, denominada Miradouro, que, segundo a lenda, memora o sitio onde appareceu a Senhora, por isso, chamada do Cabo.

Outros, porem, affirmam que a Senhora foi achada na praia, inferior ao dito rochedo, e que apparecéra sobre uma jumentínha, que subira pela rocha, deixando n'ella impressos os vestígios das suas pegadas — que o tempo fez desapparecer, mas que os mordomos da Senhora fizeram de novo gravar. 

Chegando a este sitio vem com admiracao sobir a Sra pela rocha,
painel de azulejos do interior da Ermida da Memória.
Imagem: O santuário do Cabo Espichel: a Lenda, o Espírito do Lugar e o modo de os dar-a-ver

Diz-se que uns velhos de Caparíca, que vinham a estes sitios cortar lenha, foram os primeiros que acharam a santa imagem da Virgem, e por isso, foi o povo de Caparica o primeiro que festejou a Senhora do Cabo, hindo todos os annos com o seu cirio, em Romaria á Senhora, no primeiro domingo de maio.

A fama dos milagres obrados pela Senhora do Cabo, em breve se propagou por estas redondezas e as offértas e esmolas, foram em tanta quantidade, que, próximo á ermidinha (edicola) primitiva, se construiu o sumptuoso templo que hoje alli admiram.

Não se destruiu a ermidinha, e juncto a ella foi construida (1671) uma fortaleza, para proteger os povos d'estes sítios, das invasões inopinadas dos castelhanos, sendo regente, o infante D. Pedro, depois rei, D. Pedro II, do nome.

Ignora-se o anno em que a Senhora appareceu, só se sabe que foi no principio do reinado de D. João I.

Em 18 de novembro de 1428, Diogo Mendes de Vasconcellos, senhor do terreno em que estavam as ermidas da Senhora, fez disto doação aos frades dominicos de Bemfica, por escriptura publica, lavrada nas notas de Affonso Martins, tabellião publico da villa de Cezimbra.

Era o doador, cavalleiro e commendador de Coimbra e Ourique.

N'esta escriptura se dá ao sitio da ermida, a denominação de "Santa Maria da Pedra de Múa" [...]

A imagem da Senhora do Cabo (a que appareceu no século XIV) é de bôa esculptura, mas tem apenas um palmo d'altura, e está em uma ambula de crystal dentro de um sacrário.

Imagem de N. Sr.a da Pedra Mua.

São muitos os cirios que de varias partes concorrem ao santuário da Senhora do Cabo.

Os giros principiaram em 1430. Os de Caparica, vão todos os annos festejar a Senhora, no primeiro domingo de maio.

À memória do amigo , José Alves Martins (Papo-Seco), o organizador do último "Círio" que saiu da Costa de Caparica para o Cabo Espichel [...]

Adega do Papo-Seco e Pensão Chic, Costa da Caparica, rua dos Pescadores.
Imagem: Costa da Caparica no Facebook

O "Círio" tinha muita grandiosidade, e chegou a ter como juiz monarcas, e quando desembarcava em Porto Brandão ou Banática, as populações acorriam a receber os visitantes com
foguetes e música enquanto os sinos repicavam.

À frente, homens cavalgando, cavalos brancos, e vestidos com trajes romanos que anos depois. passou a ser três garotos que cantavam as "loas" (quadras alusivas ao acto) acompanhados pela música. 

Atrás do carro com os filarmónicos a seguir a berlinda (que se encontra no Museu dos Coches em Lisboa) com
a Imagem. acompanhada por carros de todo o feitio e tamanho, repletos de pessoas. e grande cavalgada com que fechava o cortejo.

O Círio de Nazaré em Belém do Pará, revista Puraqué, 1878.
Imagem: Biblioteca do Círio

Era assim, antigamente, o "Círio do Cabo", e a propósito dele, o britânico Beckford, descrevia o regresso do Marquês de Marialva, no "Cirio" em 3 de Junho de 1787, dizendo cheio de pasmo: "Vinham acompanhados o Marquez de Marialva e o filho D. josé duma multidão de músicos, poetas, toureiros, lacaios, macacos, anões e crianças de ambos os sexos fantasiosamente vestidas".

O inglês que nunca tinha visto um espectáculo daquela grandeza dizia ainda que os criados conduziam gaiolas com pássaros, lanternas, cabazes com frutos e grinaldas de flores.

Seguiam alegres e saltando com grande alegria dos garotos. os quais com as suas vestes, mais pareciam habitantes do Céu do que da Terra, levando casinhas presas aos ombros.

Diz ainda o escritor: "Alguns destes "anjinhos" de teatro eram extremamente formosos e tinham o cabelo garridamente disposto em anéis".

Todo este cortejo quando vinha da margem norte desembarcava em Porto Brandão ou Banática como iá dissemos anteriormente era na capela do lugar que ouviam a primeira missa.

No concelho de Almada, só a freguesia de Caparica fazia o Círio, mas sem a imagem.

Adega do Papo-Seco e Pensão Chic, Costa da Caparica, rua dos Pescadores.
Imagem: ed. desc.

Mas o cortejo tinha o mesmo aparato dos de Lisboa, e contavam os velhos, que num círio, do Porto Brandão, num ano saiu, um barco catraio dos que faziam as carreiras entre Belém - Porto Brandão, em cima de uma galera puxada por seis animais, levando dentro a fílarmónica da Sociedade Marítima da localidade. (4)

O regresso da filarmónica da extinta Sociedade Marítima do Porto Brandão, integrada no círio do Cabo Espichel.
Imagem: Correia, António, Divagando sobre Caparica..., Almada, edição do autor, 1973

in Correia, António, Divagando sobre Caparica: pedaços da sua história, Almada, edição do autor, 1973.

Alem dos cirios comprehendídos no giro vão todos os annos mais os seguintes, que não entram no giro — Lisboa, no 3.° domingo depois do Espirito Santo — Seixal e Arrentella, na 2.a oitava do Espirito Santo — Almada, no domingo da Trindade — Palmella, a 15 d'agosto — Azeitão e Cezimbra, no 1° domingo de setembro. 

Ao principio todas as romarias eram annuaes, e cada uma tinha uma grande tocha (cirio) que accendla durante a sua festa.

É por isso que a estas romarias se dá o nome de cirios.

São 26 os cirios que entram no giro: — Alcabideche, Carnaxide, Tojalinho, Penaferrim, Bellas, Loures, Carníde, Barcarena, Louza, Santo Antão do Tojal, Oeiras, Bemfica, Rana, S. João das Lampas, Monte Lavar, Rio de Mouro, Belém, Cascaes, Odivellas, S. Martinho de Cintra, Almargem do Bispo, Santo Estevam das Gallés, Egreja Nova, Terrugem, Fanhões, e Santa Maria e S. Miguel de Cintra.

Foi instituída a confraria da Senhora do Cabo, pouco depois da construcção do novo templo, mas os seus estatutos só foram approvados em 1672. (Pelo capitulo 2° d'estes estatutos eram excluídos da irmandade o homem que tenha raça de judeu ou de outra infesta nação, e os mulatos. Esta exclusão era imposta em quasi todas as irmandades, até ao fim do século XVIII.)

Também n'este compromisso se determina que, no sabbado posterior á Ascenção, haja na egreja do Cabo, officio de nove lições de canto e orgam, missa cantada e sermão. De tarde procissão e vésperas, e no domingo de manhan, outra procissão, antes da missa.

O capellão da Senhora do Cabo, não pôde intervir nas romarias dos cirios, por lhe ser prohibiáo pelos estatutos.

As freguezias do giro, andam á "compita", a ver qual fará a festa com mais estrondo e magnificência.

Antes de 1710 o arraial estava cercado de casas para abrigo dos romeiros, mas sem ordem nem alinhamento; mas n'esse anno, se deu o risco para o novo arraial, e em 1715, se constrairam hospedarias com dous pavimentos.

O arraial é quadrilongo, com 140 metros de comprido, pelo N., e 100 peio S. com 44 de largo. É aberto pelo E., e fecbado a O. pelo templo. Ao N. e S., estão as hospedarias e mais accommodações, lado com uma arcada geral, onde estão as lojas, podendo chegar-se por baixo d'ella à egreja, ao abrigo do sol e da chuva. Do lado do S. é a residência do capellão.

Do lado do N. ha 63 arcos e 11 escadas de pedra, 21 sobrados, com 46 janellas de frente, e 22 lojas, cada uma com sua janella.

Do lado do S. ha 47 arcos, 9 escadas, 18 sobrados, com 36 janellas, e 18 lojas, cada uma com sua janella.

Cada sobrado e loja, tem uma cosinha, com sua fornalha, uma grande meza, dous bancos e nm cabide.

O senhor d'este terreno (o já referido Diogo Mendes de Vasconcellos) foi o fundador da ermida primitiva, concorrendo para isso o povo de Caparica.


Templo da Senhora do Cabo

Em 1490 se lançou a primeira pedra n'este ediflcio, á custa dos habitantes do termo de Lisboa, e das esmolas e offertas dos fieis. Tendo-o os temporaes damnificado muito, a casa do infantado, padroeira da egreja, desde a extincçâo do ducado d'Aveiro mandou demolir a antiga ermida, e construir o grandioso templo que hoje alli se admira, concluindo-se as obras em 1707. Nos dias 7, 8 e 9 de julho d'este anno, se fez a trasladação com grande pompa, assistindo o infante D. Francisco filho de D. Pedro II, que então era o senhor da casa do infantado. Só nas festas da trasladação, gastou o infante réis 1:660$000.

[Os bens do duque d'Aveiro e seus cumplices, lhes foram tirados, formando-se com elles a casa do infantado, a favor do infante D. Pedro (depois, D. Pedro II) e dos mais Infantes filhos segundos dos nossos reis.]

É um templo magestoso, tendo na frontaria, trez portas e trez janellas que dão luz ao côro. Sobre a cimalha está a estatua da Senhora, feita de mármore branco, dentro de nm formoso nicho.

Tem duas torres, sendo a do N. para o relógio (hoje arruinado.) A do S. tem dous sinos. Á entrada da porta ha um guarda-vento, de bella madeira do Brasil, de boa esculptura. No coro ha am óptimo orgam. As paredes interiores da egreja, são revestidas de mármore branco e preto (extrahido das pedreiras da Arrábida) até à cimalha real.

Tem seis tribanas, e entre ellas, quadros representando scenas da vida da Senhora. O tecto é de abobada, tendo no centro o quadro da Assumpção da Senhora; obra de Lourenço da Canha (pae do famoso José Anastácio da Canha) pintado em 1740. Ao N. (também no tecto) estão pintadas as armas de Portugal, e ao S. as da cidade de Lisboa.

Tem altar-mór, e dez lateraes, sendo estes últimos, feitos á custa de differentes cirios. Em 20 de maio de 1780, houve aqui um desacato. Um monge, natural da Catalunha, roubou a pixide, com as sagradas formas, mas o próprio sacrílego confessou o crime e restituiu a pixide, que foi reposta no seu logar. Em 1770 foi todo o templo restaurado, por ordem de D. José I.


Foi então construida a grande janella da capella mór, fronteira á tribnna real.

As paredes interiores são revestidas de formosos azulejos, e n'elles pintados os emblemas Quasi palma, quasi oliva.

A imagem da Senhora está dentro do sacrário, em um relicário de prata sobre-doirada que foi dado pelo cirio de Lisboa, em 1680.

Tem a Senhora muitas jóias, entre ellas, um ramo de jasmins, de brilhantes, com as folhas de esmeraldas — duas corôas d'ouro, cravejadas de brilhantes: ambas estas jóias, dadas por D. José I. — Tem mais, um ramo de brilhantes e nm manto bordado a ouro, dados por D. Maria I — um manto branco, bordado a ouro, também dado por D. José I — um manto azul, bordado a ouro dado pela rainha D. Carlota Joaquina, mnlber de D. João VI — e, finalmente, um rico manto, dado em 1809, por José Anionio Queiroga e sua mulher. Alem d'estes, outros muitos objectos de muito valor, ainda que inferiores aos mencionados.

Tem o templo duas sachrístias com serventia para a capella-mór, e ambas muito aceiadas.

O templo não preciza de armação, porque os mármores que o revestem, valem mais do que os melhores cortinados.

O throno illumina-se com 60 luzes. Ha dez lustres, de seis luzes cada um: cada altar tem seis castiçaes; e o altar-mór, seis tocheiros — de maneira que nos dias de festa ha duzentas luzes no templo.

A ermida da Memoria, em que já fallei, está próxima e ao N. da egreja. Tem um adro quadrado e o interior da ermida, é lageado de pedra. O tecto é de abobada.

Ermida da Memória.
Imagem: ed. desc.

Em frente da porta, ao E., tem, perto do chão, uma pedra lavrada e apainelada, com esta inscripcão:

CONSTA POR TRADIÇÃO SER ESTE O PROPRIO LUGAR ONDE A MILAGROSA IMAGEM DE NOSSA SENHORA DO CABO APPARECIA, E SE MANIFESTOU AOS VENTUROSOS VELHOS HE CAPARICA E ALCABIDECHE: MOTIVO PORQUE SE FEZ AQUI ESTA ERMIDA, EM QUE PRIMEIUO FOI VENERADA, ATÉ QUE SE TRASLADOU A OUTRA MAIOR, E D'ESTA, Á MAGNIFICA EGREJA EM QUE HOJE EXISTE, NO ANNO DE 1707.

Sobre esta pedra, ha um painel, representando, do alto, sobre nuvens Nossa Senhora com o menino nos braços, e em baixo, os velhos, reclinados, em acção de dormir.

N. S.ra DO CABO
Virgem Maria defendei dos perigos aos que na
vegaó sobre Augoas do Mar

A ermidinha é interiormente ornada com dez quadros, em azulejo, representando a historia do apparecimento de Nossa Senhora do Cabo; tendo cada quadro uma inscripção explicativa.

Do adro d'esta ermida se descobre um magnifico panorama, tanto para terra, como para o mar.

No fundo do rochedo, por este lado, ha uma enseada, onde já tem chegado botes e canoas, com romeiros de Oeiras, Paço d'Arcos e outros logares; mas é muito perigosa.

Próximo à ermida, do lado do O. existem, as ruínas do antigo forte da Senhora do Cabo, principiado em 1672, na regência do infante D. Pedro, depois, D. Pedro II. — Foi construído quando se augmenuram as fortificações das barras do Tejo e do Sado.

Tinha as armas de Portugal, sobre o arco da poria, e por cima d'ella, a casa da guarda. Era defendido por cinco peças de calibre 24.

Ainda em 1800 existia este forte, em bom estado, porem, o tempo, o mar, e o abandono o toem arruinado, e apenas d'eile hoje restam as ruinas.

Fora do arraial, e alem das casas que ficam descriptas, ha outras edificações, que são dependências da casa da Senhora — são — a casa do fôrpo — a casa da lenha — a casa da opera (que fui construida pelo cirio de Lisboa); teve nma ordem de camarotes, mas hoje tem uma galeria geral. A caixa é espaçosa. Teve bom cenario e vestuário, mas hoje tudo está gasto e velho.

Na casa da fabrica do cirio saloio, fronteira á sacristia da egreja, ha grandes armários, onde se guardam vários objectos de copa e cosinha, e de serviço da mesa, para serviço do cirio que entra e do que sáe. Há também uma casa para os pregadores e mais padres que concorrem à festa; e um grande armazém onde se guarda a berlinda, e o carro triumphal.

São notáveis, a casa da agua, e o pharol. Antes de subir à casa da água, ha uma alameda, com cinco ruas, orladas d'arvores, e no fim d'ellas, duas mezas de pedra, com assentos em volta, também de pedra. É n'esta alameda que os romeiros passam grande parte do tempo, em banquetes, danças e descantes [...] (1)

Nossa Senhora do Cabo — No cabo de Espichel (Promontório Barbarico).

Sobre a apparição da imagem veja-se o livro: "Memoria da prodigiosa imagem da Senhora do Cabo; descripção dn triumfo com que os Festeiros, e mais Povo de Benfica, a conduzirão à sua Parrochia em 1810, para a festejarem em 1817," etc, por Frei Cláudio da Conceição — Lisboa, na Impressão Regia. Anno 1817.

O templo é uma fabrica magestosa, com trez portas e duas torres. Ao norte, e perto do templo, está a ermida da Memoria, em cujo sitio é tradição que Nossa Senhora appareceu.

A imagem tem o Menino nos braços. O manto foi bordado pela rainha D. Maria I. A ermida doou-a Diogo Mendes de Vasconcellos, em 1428, aos dominicanos de Bemfica que a habitaram e por fim a abandonaram em razão da aspereza do clima.

Depois passou a administração para a camara de Cezimbra, começando então o cyrio do termo de Lisboa, chamado dos saloios. Um dos duques de Aveiro pediu licença para ir casar ali; desde esse tempo ficou a ermida isenta de direitos parochiaes. (2)

A SAíDA DO CYRIO

PRIMEIRO ANJO

Mãe de Deus! Virgem Santíssima!
Rosa Mystica da aurora,
Estrella da madrugada,
Da terra e dos ceus Senhora!

Porto Brandão, capela da Nossa Senhora do Bom Sucesso, inaugurada em 1864.
Imagem: Correia, António, Divagando sobre Caparica..., Almada, edição do autor, 1973

Da egreja do nosso Monte,
Vamos, piedosos romeiros,
Levar-te ao Cabo, onde guias,
Alta noite, os marinheiros!

Que tu dás, Virgem Maria! —
Entre sorrisos e flores  —
Esperança aos desgraçados,
E perdão aos peccadores!

SEGUNDO ANJO

Um dia, sobre uma cruz,
Beijaste teu filho morto!
Conheces todas as dores,
Para todas tens conforto!

A mãe que vê nos seus braços
Um filhinho moribundo,
Se não se apéga ao teu manto,
Quem lhe ha de valer no mundo?!

Agora, mais do que nunca.
Necessita Portugal,
Que lhe protejas seus filhos,
Padroeira celestial !

Portugal, onde tens sempre
Teus floridos sanctuarios!
Portugal, ameaçado
Pelos herejes corsários!

CORO DOS ANJOS

Romeiros, avante, avante!
Na piedosa romaria.
Levamos por companheira
A Virsem Santa Maria!

Charneca de Caparica, Quinta da Regateira, local de passagem do círio, c. 1900.
Imagem: João Gabriel Isidoro

CHEGADA AO CABO

PRIMEIRO ANJO

Ó mar das aguas sem termo,
Do constante labutar!...
Só tu és fanal, Senhora,
De todo este vasto mar!

Só tu, com teu manto azul,
Morenita, morenita,
Sorrindo, as ondas acalmas!
Bemdita sejas, bemdita!

Nasce do lado do norte
Sempre o musgo no pinheiro!
Também dás norte, na terra,
Ao perdido forasteiro!

PARTIDA DO CABO

CORO DOS ANJOS

Adeus, Senhora do Cabo!
Fica-te agora em teu ermo,
Vigiando os navegantes,
Por essas aguas sem termo!

Adeus, adeus! Voltaremos
Outra vez em romaria,
Nós, teus filhos, teus escravos,
Ó Virgem Santa Maria ! (3)

in Bulhão Pato, Raimundo António de, Nossa Senhora do Cabo, Livro do Monte, georgicas, lyricas, 1896, Typographia da Academia, Lisboa.


(1) Pinho Leal, Soares d'Azevedo Barbosa de, Portugal antigo e moderno..., 1874  Mattos Moreira, Lisboa,
(2) Pimentel, Alberto, História do Culto da Nossa Senhora em Portugal, 1899, Guimarães, Libânio & C., Lisboa

Informação relacionada:
O Occidente
Wikipédia
Santuário de Nossa Senhora do Cabo
A Senhora do Cabo, História e Culto
Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel
O santuário do Cabo Espichel: a Lenda, o Espírito do Lugar ...
Os mistérios do santuário de Nossa Senhora de mua

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Terras da Costa

Era num juncal sáfaro e ruim. 

Com o céu imundo de nuvens a noite adensava-se. O vento e o marulho do oceano fundiam-se num rosnar cavo e profundo. À distância choupanas de colmo, negras e escorridas, figuravam, pelo cair da tarde, guedelhas, lanuça de maltês.

Pequenas hortas denunciavam a presença de gente em tão ermas paragens. 

Costa da Caparica, vista geral (detalhe), Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Ali, uma mulher talhava regos, abrindo e vedando caminho à serpente de água preciosa, que um homem, balde a balde, içava do poço.

Costa da Caparica, vista geral (detalhe), Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Por vezes, suspendiam a tarefa, e olhavam para as nuvens negras, tão negras de esperança: Chove? Não chove? Deus permita que chova! (1)

A Praia do Sol, Uma vista parcial, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 108, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Os "agricultores das Terras da Costa" são um grupo de pequenos e médios agricultores dispersos por pequenas parcelas (sempre inferiores a 1 ha.) ao longo da planície litoral — ocupando cerca de 186 ha. — inserida entre faixa costeira da Caparica e a arriba fóssil que nela desemboca [...]

Os agricultores locais são na sua maioria descendentes de um núcleo original de famílias povoadoras (no final do século XVIII) do local hoje conhecido como Costa de Caparica, famílias oriundas do Algarve e da região de Aveiro e — supostamente — originalmente dedicadas à actividade piscatória.

Especula-se sobre a origem da agricultura nas Terras da Costa, se terá surgido como complemento à actividade piscatória (e portanto realizada pelas mesmas famílias) ou como actividade independente da mesma (hipoteticamente por pessoas oriundas da Trafaria).

A Praia do Sol, As primitivas barracas dos pescadores, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 111
Imagem: Delcampe

[...] a planície das Terras da Costa, junto com os terrenos que a limitam a Sul, terão sido mesmo das últimas áreas a serem povoadas em termos concelhios.

Este facto dever-se-á às mínimas condições de habitabilidade alí verificadas até sensivelmente ao século XVIII, altura em que populações de pescadores terão começado a povoar permanentemente as zonas dunares e pós-dunares.

[...] durante o século XVI deu-se o chamado “grande aterro”, ou seja, o período posterior a uma "pequena idade do gelo" que terminara no século XV, que implicou a subida do nível do mar e consequente açoreamento das grandes barras e entradas de mar ao longo das orlas costeiras, o que alterou significativamente a paisagem local, fomentando bancos de areia e areais na zona posterior ao depósito de vertentes da arriba.

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes (detalhe), Jacques Nicolas Bellin, 1756.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Por outro lado, o terremoto de 1755, para além de provocar inúmeros estragos e perdas, terá ainda implicado um movimento geológico de elevação (emersão) e estabilização da planície litoral onde hoje encontramos a frente de praias, a zona dunar e as Terras da Costa.

Costa ocidental da península de Setúbal, fotografia satélite.

Isto terá permitido a ocupação e utilização de terrenos até então inexistentes – a orla costeira entre a Trafaria e a Lagoa de Albufeira, onde nascerão a Costa de Caparica e, para o interior e Sul, as Terras da Costa.

Em termos gerais, o povoamento da margem sul do Tejo é já antigo: vestígios arqueológicos na chamada Ponta do Cabedelo (ao lado do actual Convento dos Capuchos) evidenciam uma ocupação humana desde o período do paleolítico e indústrias do paleolítico quaternário.

Costa da Caparica, Descida do Cabedelo, ed. desc., década de 1920.
Imagem: Delcampe

[...] as primeiras notícias de povoamento permanente na “Costa do Pescado” datam aproximadamente de 1770, quando alguns grupos de pescadores – que até então migravam sazonalmente do Norte (região de Ílhavo) e Sul (Algarve) em direcção aos extensos areais e alí pernoitavam durante as suas campanhas de pesca – lá se fixaram.

A topographical chart of the entrance of the river Tagus (detalhe), W. Chapman, 1806.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

"Parece terem sido os ilhavenses os que também primeiro ali passaram a viver com carácter permanente; os algarvios regressavam ao Algarve quando acabava a safra.

Ainda em 1770, esta praia era habitada todo o ano por um número muito reduzido de pessoas, e só no ano seguinte ali se fixaram os primeiros "mestres de pesca", dois ilhavenses Joaquim Pedro e José Rapaz e dois algarvios José Gonçalves Bexiga e Romualdo dos Santos — (...) com as suas companhas."

in Oliveira, Ernesto Veiga de, Galhano, Fernando, Pereira, Benjamim, Construções Primitivas em Portugal, Lisboa, Centro de Estudos de Etnologia — Instituto de Alta Cultura, 1969.

Uma constatação frequente nas Terras da Costa é a de que a agricultura lá praticada terá surgido a partir dessa época, por necessidade de subsistência e complementando a actividade pesqueira nos seus períodos de menor produtividade.

Será portanto nesta época que se terá iniciado o progressivo desbravamento de extensos juncais que cresciam nas zonas pantanosas que se formavam entre a arriba e as dunas zonas resultadas da acumulação de águas pluviais e de marés vivas nas diversas depressões dunares.

[...] outro tipo de acções intervieram na constituição da paisagem local, nomeadamente iniciativas individuais e colectivas dos habitantes e trabalhadores locais, que, consoante as suas necessidades e conveniências, foram moldando detalhadamente o seu espaço envolvente, processo contínuo ainda hoje em curso: desde o desvio de cursos de água à terraplanagem de parcelas à plantação de árvores e arbustos...

[...] podemos enumerar os acontecimentos promovidos pelas entidades oficiais que terão sido fundamentais neste processo de "construção paisagística" das Terras da Costa:

Algures durante o século XVIII, D. João V terá ordenado a plantação de pinhais imediatamente a sul da área que nos ocupa, na agora chamada Mata dos Medos, de forma a fixar os medos de areias que invadiam progressivamente a área litoral em direcção à área posterior da arriba (nesta secção já com uma altura pouco elevada), ganhando assim solo produtivo.

Em 1867, a Junta de Melhoramentos Interna terá promovido a construção de valas de drenagem entre a Trafaria e as Terras da Costa, com eclusas de portas automáticas - de forma a melhor aproveitar o escoamento de águas e as marés para eliminar as áreas pantanosas que se acumulavam mais perto da arriba.

[v. Wikipédia: Junta Geral]

Neste contexto, realiza-se em 1883 um termo de contrato entre o Ministério de Obras Públicas, Comércio e Indústria e a Câmara Municipal de Almada para a compra pelo Estado de "(...) todos os terrenos municipais comprehendidos entre a Trafaria até ao extremo do Concelho em toda a parte do littoral, exceptuados tão somente: os comprehendidos dentro das povoações uma superfície de duzentos metros de cada lado Norte e Sul da povoação da Costa, que fica destinada para novas edificações; e uma facha de areias movediças, tendo de comprimento a extensão que vae da Capella de Nossa Senhora da Conceição, na povoação da Costa, até à Fonte da Telha, e de largura a distancia de quatrocentos metros contados à linha de praiamar de águas vivas; facha que fica reservada para os serviços de pesca."

Esta aquisição visava prolongar os trabalhos iniciados em 1867 e inseridos, provavelmente, em campanhas de higiene pública e de ordenamento do território nacional: "(...) tendo sido reconhecida a necessidade de dessecamento do pantano da Costa n’aquelle Concelho e da arborização dos areiaes da Trafaria e Costa de Caparica para os fins de remover as causas da insalubridade d’aquella região e de crear ali uma extensa matta para protecção das margens do rio e barra e para impedir o augmento dos açoriamentos (...)."

A propriedade estatal destes terrenos ainda se mantém parcialmente no dia de hoje (sob gestão do Instituto de Conservação da Natureza), e é sobre o que resta dessa propriedade que alguns dos agricultores que ocupam este trabalho habitam e trabalham...

Ainda na sequência destas campanhas, procede-se em 1929 à demarcação por parte do Ministério de Agricultura dos terrenos estatais – definidos no termo de compra de 1883 (ver citação acima) o que permitiu o levantamento das áreas que pertenciam tanto ao Estado como à Câmara Municipal de Almada como ainda a proprietários privados (donos de terrenos precisamente fora da jurisdicção decidida no termo de compra de 1883).

Já nos anos 50 do século XX verifica-se o melhoramento do caminho que ligava a povoação da Costa de Caparica à já referida Descida das Vacas, atravessando precisamente os terrenos adquiridos anteriormente pelo Estado.

Este caminho – hoje Estrada Florestal – foi construído pelos Serviços Florestais locais com mão-de-obra local (alguns dos que então participaram na infraestruturação rodoviária ainda hoje vivem), tendo sido macadamizada entre 1956 e 1957.

Neste mesmo ano, e na sequência deste empreendimento, será construída a ponte sobre a Ribeira do Rego.

Estes empreendimentos revelar-se-ão fundamentais em termos de comunicação e transporte de pessoas e mercadorias, assim como do próprio trabalho dos Serviços Florestais locais em termos de fiscalização e manutenção das áreas arborizadas.

Sensivelmente na mesma época, ter-se-á promovido uma complexa operação de fixação das dunas da faixa litoral a sul da Costa de Caparica, paralelas à já referida Estrada Florestal – um empreendimento motivado pelas mesmas razões que as campanhas realizadas no século anterior: impedir o avanço da zona dunar e ordenar o espaço interior.

Esta fixação, na qual participaram activamente os habitantes locais (proporcionando força humana e animal), consistiu essencialmente na plantação ordenada de acácias ao longo das dunas, árvores exóticas que se adaptaram perfeitamente ao clima eminentemente marítimo e ao solo arenoso, manifestando uma alta capacidade de colonização, marcando a paisagem que hoje observamos.

Costa da Caparica, Uma Rua da Mata, ed. Passaporte, 27, década de 1960.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Em termos concelhios, este desenvolvimento traduziu-se numa reorganização política e administrativa, onde a original freguesia da Caparica foi sucessivamente seccionada para dar lugar ao nascimento da freguesia da Trafaria (nos anos 20 do século XX) e da freguesia da Costa de Caparica (muito mais recentemente, em 1949). Neste contexto, a vila de Almada foi elevada a cidade em 1973, enquanto que a Trafaria e a Costa de Caparica foram elevadas a vila em 1985).

Na Costa de Caparica, este período caracterizou-se pela construção sucessiva da bairros inteiros, desde o Bairro de Santo António (entre a Costa de Caparica e Trafaria) nos anos 30 até ao Bairro do Campo da Bola (nos anos 70 do século XX, no seguimento das expropriações efectuadas aquando da construção da Ponte Salazar) e o Bairro dos Pescadores, inaugurado ainda nos anos 60 na sequência de investimentos vários efectuados pelas instituições locais e nacionais para a melhoria de condições de trabalho e habitação dos pescadores locais.

Tendo sido decretada "estância de turismo" em 1925, a Costa de Caparica rapidamente se transformou num dos mais importantes lugares de veraneio da região de Lisboa.

Costa da Caparica, vista geral, década de 1980 — 1990.

[...] Em relação à prática agrária propriamente dita, a recolha por nós efectuada permitiu-nos não só elaborar uma caracterização da realidade local actual mas também incorporar a través de testemunhos vários elementos de práticas “antigas”, isto é, escolhas e metodologias que pelas mais variadas razões foram caindo em desuso.

[...] Assim, em termos gerais, o que se verificava até sensivelmente a primeira metade do século XX nas Terras da Costa era uma agricultura realizada em "maceira", isto é, nas áreas dunares – que invadiam a plataforma litoral.

Este tipo de cultura é tido como oriundo da região centro e norte do país (Póvoa de Varzim, inicialmente, e posteriormente a região da Ílhavo, onde ainda se encontrarão vestígios dessa prática (facto que constitui um argumento a favor da ideia da origem piscatória dos primeiros agricultores locais) [...] e caracterizava-se por esse aproveitamento das zonas dunares através de uma horticultura intensiva, beneficiada pelo solo (obviamente) arenoso, pela protecção e abrigo das dunas e pelo aproveitamento de matéria orgânica específica para adubação...

[...] registamos nas Terras da Costa várias estratégias de desenvolvimento de empresas agrícolas.

O formato tradicional, ainda recorrente, são estruturas sócio-económicas de tipo familiar, perpetuadas em processos de transmissão, onde o núcleo familiar se organiza fundamentalmente em redor da produção agrícola, complementando tarefas de produção, transporte e venda das colheitas.

Vários núcleos habitacionais apresentam actualmente este formato; outros no entanto resultam de evoluções similares, onde alguns elementos da família partilham residência mas não participam na lavoura, optando por empregos na área dos serviços ou construção civil na Costa de Caparica, Almada ou Lisboa.

Nestes casos, verifica-se o desenvolvimento de núcleos habitacionais complexos onde coabitam famílias alargadas (ou várias famílias nucleares) de descendência comum, onde apenas um grupo restrito se dedica à exploração das parcelas.

Assim, e dado que estamos a falar de pequenos e médios agricultores, existem nas Terras da Costa muitos casos de empresas de carácter unipessoal ou familiar - onde marido, mulher e eventualmente filhos trabalham em equipa na exploração agrícola.

No entanto, no caso das gerações mais jovens o interesse pela actividade agrícola não é tão generalizado, preferindo aquelas a continuação da formação escolar ou o emprego noutras áreas. Este tipo de factores, que produzem um “desequilíbrio” em termos de manutenção de força de trabalho, obrigam a recorrer a mão de obra assalariada mais ou menos permanentemente. 

Noutras palavras, aqueles que não conseguem "dar conta do recado" em termos de "braços" são obrigados a recorrer a estratégias alternativas, que passam por essa contratação de mão de obra ou acordos de entreajuda entre a vizinhança ou amizades.

É neste contexto que vemos muitos cidadãos oriundos de países estrangeiros, desde as ex colónias portuguesas à Europa de Leste à procura de trabalho (mais ou menos ocasional) nas Terras da Costa, mesmo apesar das eventuais dificuldades de comunicação (sempre ultrapassadas).

Por outro lado, também é neste contexto que se verificam alguns fenómenos de associação (na maior parte das vezes informal) entre agricultores de forma a melhor explorar as parcelas agrícolas, suprindo carências pontuais e correspondendo a eventuais conveniências.

[...] a construção da Ponte Salazar permitiu um escoamento mais eficaz dos produtos locais para o grande mercado consumidor lisboeta; neste sentido, se há três ou quatro décadas colocar hortaliça fresca de manhã, por exemplo no Mercado da Ribeira ou no Martim Moniz, implicava um empreendimento que começava à meia noite do dia anterior, hoje em dia pode ser feito em apenas uma hora...

Antes, o transporte era feito com tracção animal até Porto Brandão e Trafaria — e mais recentemente Cacilhas — apanhando-se depois o barco (que evoluiu do batel a vela ao barco de vapor e, finalmente, ao cacilheiro) que fazia regularmente a travessia do rio Tejo. Conta-se que, naqueles tempos, o tempo era escasso para percorrer o trajecto entre a chegada do barco a Lisboa e a hora de fecho do abastecimento do mercado, pelo que frequentemente se desenvolviam correrias e galopadas pelas ruas da Baixa lisboeta, de forma a não transformar a viagem num empreendimento em vão...

Relatos por nós recolhidos situam a chegada do primeiro tractor às Terras da Costa por volta dos anos 30 ou 40 do século XX; na região da Caparica existiriam poucos (embora já desde o início do século), pertencentes ora ao Sindicato Agrícola ora a particulares com algum poder de compra.

Eram alugados pontualmente para realizar trabalhos mais pesados; hoje em dia a maior parte dos agricultores possui tractor, essencial para lavoura, sementeira, etc.

A utilização de técnicas de adubação tradicionais, como a estrumação (cavalo ou vaca), a queima, a utilização de pescado miúdo (petinga, etc.) – que se espalhava sobre a terra e se deixava secar, sendo posteriormente "enterrado" — ou o "arejamento" (dar a volta à terra, enterrando a camada exposta), embora persistam em alguns casos, foram complementadas ou substituídas por aplicações químicas, modificando precisamente a capacidade de controlo do agricultor sobre a sua terra e o seu produto.

Há algumas décadas, este tipo de fertilização era muito frequente, dada a abundância de peixes e espécies marinhas na costa da Caparica, e consequentes excedentes resultados da faina piscatória, que os agricultores adquiriam por um preço simbólico ou até a troco de hortaliça ou de graça.

Por outro lado, a abundância de gado vacum e de espécies equinas — instrumentalizados na lavoura — permitia acumular estrume suficiente para aplicar sobre as parcelas.

A progressiva mecanização da prática agrária, no entanto, tornou cada vez mais desnecessária (dum ponto de vista economicista) a existência de espécies animais nas Terras da Costa, reduzindo-as na actualidade a "mínimos".

Em relação à "manutenção" das culturas, encontra-se generalizado o uso de pesticidas (contra ácaros, etc.), fungicidas (míldio) e herbicidas, produtos de empresas multinacionais como a Bayer, Monsanto, Zéneca ou a Agroevo (Schering) aplicados manualmente durante o crescimento das culturas — processo resumido pelos agricultores locais no verbo "sulfatar". (2)




(1) Correia, Romeu, Calamento, Lisboa, Editorial Minerva, 1950.

(2) Blanes, Ruy de Llera, Caracterização Sócio-Cultural dos Agricultores das Terras da Costa, Lisboa, 2003.

Artigos relacionados:
A costa no século XIX
Caparica, 1923


Leitura adicional:
Cultura Avieira
, Folhas Informativas: Os palheiros da Costa...
Noutra Costa da Caparica