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domingo, 22 de novembro de 2015

O centro cívico

Pela apreciação do Conselho Superior de Obras Públicas ficamos, ainda, a saber que a primeira fase de execução do Plano de Almada passava pela construção de um novo Centro Cívico nesta vila.

Plano Parcial de Urbanização de Almada (PPUA), Implantação do Cento Cívico, 1947.
Imagem: Ver Almada crescer: 10 anos do Museu da Cidade (catálogo)

Intervenção que pelo rigor e pormenor com que é elaborada não levanta quaisquer objecções por parte daquele organismo [...]

Almada, Tribunal, J Lemos, 03, década de 1960.
Imagem: Delcampe

Em conclusão, o Parecer considera "que a parte que se refere à análise, programa e estudo da urbanização do concelho de Almada, está em condições de servir de base aos ante-planos dos vários aglomerados" [...] (1)

Almada, Jardim Sá Linhares, ed. Postalfoto, 11, década de 1950.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard


(1) Lobo, Susana Luísa Mexia, Arquitectura e Turismo: Planos e Projectos. As Cenografias do Lazer na Costa Portuguesa. Da 1.ª República à Democracia, Coimbra, Faculdade de Ciências e Tecnologia, 2013

Artigos relacionados:
Largo Gil Vicente
Praça da Renovação
Horizontes

terça-feira, 30 de junho de 2015

Empresa de Camionetes Piedense

A empresa Piedense tem uma frota de 44 veículos, a maioria dos quais com base nos chassis Volvo e Berliet de motor frontal.

Cacilhas, Lisboa vista de Cacilhas, ed. Postalfoto, 468, década de 1950.
Imagem: Delcampe

As carrocerias em alumínio foram construídas pela empresa em oficinas próprias, na Trafaria. O material utilizado foi em grande parte fornecido pela Aluminium Union, Ltd., da Grã-Bretanha, e o diretor e gerente geral, sr. Agostinho Ramos Munhá, está satisfeito com os resultados.

Cacilhas, autocarro Volvo, viatura 24 ou 26 da da Empresa de Camionetes Piedense, largo do Costa Pinto (detalhe), Mário Novais, c. 1947.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

As taxas de consumo de combustível dos veículos são baixas e uma grande poupança é feita em direitos de importação.

Versatilidade do chassis Berliet PCK 8 adaptável a diferentes carrocerias.
Imagem: Bus America

As carrocerias apresentam-se sem pintura, e têm-se revelado particularmente fáceis de limpar e manter.

Cacilhas, comemorações do centenário da Incrível Almadense, Júlio Dinis, Outubro de 1948.
Em segundo plano, autocarros com cabine recuada e, outros, com a volumetria do motor integrada no habitáculo.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

As grandes janelas curvas, à frente e atrás, e as portas de dobrar são características do design. O sistema de entrada de passageiros pela traseira e saída pela frente, com o sistema de portas dobráveis, operadas manualmente, é generalizado em Portugal.

Trafaria, paragem de autocarros, Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Os interiores são revestidos a alumínio natural, com estofos em vermelho. As janelas são de correr, de manuseamento rápido, com cortinas, e as luzes do teto têm painel antirreflexo. As camionetes têm instalado um relógio e um aparelho de rádio porque também são usadas ​​em serviços interurbanos e de turismo.

Berliet PCK 7, autocarro com carroceria do fabricante.
Imagem: Delcampe

Acima do lugar do motorista está um espelho à largura total que lhe dá uma visão completa do interior e, a seu lado, está disponível um assento especial para funcionários da empresa e da polícia, que são transportados gratuitamente.

Berliet PCR 10, interurbano com carroceria do fabricante.
Imagem: Delcampe

São transportados pelos veículos mercadorias, correio e passageiros. As mercadorias são transportadas no tejadilho [...] Na parte traseira do veículo, do lado de fora, há uma caixa de correio [...]

Berliet PCK, viatura 29 da Empresa de Camionetes Piedense, c. 1952.
Imagem: Publi Transport in Portugal

Muitos passageiros obtêm os seus bilhetes nos escritórios da empresa antes do embarque.

Às 62.000 milhas cada veículo é sujeito a uma inspeção geral e revisões pontuais são efetuadas nos intervalos de 42.000, 36.000 e 30.000 milhas. Duas grandes manutenções são feitas a cada mês, de maneira que nenhuma das camionetes trabalha mais de dois anos sem uma revisão completa.

Berliet PCK, viatura 29 da Empresa de Camionetes Piedense, década de 1950.
Imagem: José Luis Covita

As bombas de combustível são recalibrados numa máquina inventada por um empregado da empresa. O seu sucesso é tal que é frequentemente emprestada aos operadores de Lisboa.

Uma nova área de desenvolvimento da empresa é a construção de alguns atrelados de 16 lugares, que serão rebocados por pequenas unidades de tração, para o serviço de curta distância a partir do terminal na Costa da Caparica até à praia, que se está a tornar uma estância de fim de semana favorita dos lisbonenses.

Costa da Caparica, Almada, Largo Comandante Sá Linhares, ed. Passaporte, 08, década de 1950.
Imagem: Fundação Portimagem

Além das carreiras regulares, são também efetuados oito serviços de longa distância pelo sul e centro de Portugal. Estes serviços abrangem uma rota total de 1.020 milhas.

Cacilhas, Berliet PCR, viatura 31 (?) da Empresa de Camionetes Piedense, c. 1952.
Imagem: Publi Transport in Portugal

No total, 2 milhões de passageiros são transportados pela empresa em cada ano e os veículos cobrem 21 milhões de milhas.

Cacilhas, autocarro Berliet da Empresa de Camionetes Piedense, com o pára brisas em lanterna.
Imagem: José Luis Covita

Embora a qualidade dos veículos britânicos seja admirada pelo diretor geral, o mesmo acredita que, por causa do seu preço, não é atualmente possível a compra de veículos britânicos.

Cacilhas, autocarro Berliet, viatura 53 da Empresa de Camionetes Piedense.
Imagem: José Luis Covita

Os veículos franceses e suecos sempre prestaram um excelente serviço. (1)


(1) Commercial Motor (Archive),  Publi Transport in Portugal,  31 de outubro 1952, pág. 41

Artigo relacionado:
Uma empresa que se impõe


Bibliografia:
Covita, José Luis Gonçalves, História da Camionagem no Concelho de Almada, Almada, Câmara Municipal de Almada, 2004

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Postais fotográficos J. Lemos

A reportagem regional da coleção de postais J. Lemos descreve aspetos e transformações urbanas da então vila de Almada, durante as décadas de 1950 e 1960.

Almada, Miradouro (detalhe), J Lemos, 07, década de 1950
Imagem: Delcampe

Lamentavelmente não dispomos de qualquer referência relativa à pessoa de J. Lemos, pelo que nos limitaremos à análise da edição dos postais fotográficos. Como também não é do nosso conhecimento outras edições fora do contexto já referido, supomos que se trata de um fotógrafo independente, ou de um editor local, provavelmente com estúdio fotográfico, estabelecido em Almada à semelhança da Foto Cristo Rei, que fotografou para o folheto da inauguração das novas instalações dos Correios, da Administração Geral dos CTT,  em 1956).

Almada, Praça da Renovação, ed. J. Lemos, 29, década de 1950.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna... Freguesia de Almada

Se nos determos nos motivos e apresentação, é possível que J. Lemos, no caso da edição de postais, tenha trabalhado com, e/ou para, outros editores nacionais, tais como os Fotoselos ROTEP ou a Postalfoto que produziu postais para as papelarias Jubal e Valverde, ou que simplesmente, do mesmo modo, tenha seguido tendências mais recentes.

Almada, Vista Parcial, J Lemos, 31, década de 1960.

A composição dos objetos representados respeita e destaca os motivos e o contexto, evidenciando a sua qualidade documental.

Almada, Mercado, ed. J. Lemos, 103, década de 1950.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna... Freguesia de Almada

No aspeto técnico, nomeadamente quanto aos enquadramentos, a linha de horizonte, ou a perpendicular a esta no ponto de fuga, em algumas das imagens, não respeitam o alinhamento paralelo com as margens, o que as torna menos profissionais, dificultando a sua leitura.

Almada, Mercado, ed. J. Lemos, 103 (imagem corrigida), década de 1950.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna... Freguesia de Almada

Foram distribuídas no mercado postais de diversas séries agrupadas por localidade, Almada e Cacilhas, numerados em arábico de forma crescente.

A numeração aparecia na margem inferior do postal, seguida da localidade e de uma pequena descrição, sendo que um mesmo tema, nas diversas edições poderia, não ser reeferido pelo mesmo número da edição precedente.

As reproduções apresentavam a assinatura J. Lemos no canto inferior esquerdo no corpo da fotografia. O tipo de letra usado, foi, na maioria dos casos, cursivo e no corpo da fotografia nas primeiras edições, normal em margem própria nas posteriores ou em etiqueta sobreposta no corpo da fotografia, ou ambos, respetivamente assinalados na lista abaixo: c, n ou a.

O bordo dos postais apresenta-se recortado nas primeiras edições e liso nas posteriores.

Almada, Rua Bernardo Francisco da Costa, J Lemos, 68, década de 1960.
Imagem: Delcampe

  • 001 n Almada Vista do miradouro
  • 002 c Almada Praça da Renovação
  • 003 n Almada Seminário
  • 004 n Almada Jardim Comandante Sá Linhares
  • 006 n Almada Avenida D João I xx
  • 006 n Almada Vista Parcial
  • 007 n Almada Miradouro
  • 007 n Almada Miradouro (edição de natal e Ano Novo)
  • 008 n Almada, Jardim do Castelo
  • 008 n Almada, Jardim do Castelo (edição de Natal e Ano Novo)
  • Almada, Jardim do Castelo, ed. J. Lemos, 08, década de 1960.
    Imagem: Delcampe
  • 009 n Almada, Jardim do Castelo
  • 010 c Almada Castelo
  • 011 i  Almada Jardim Sá Linhares
  • 012 i  Almada Durante as Festas de S joão
  • 013 n Almada Durante as Festas de S joão
  • 016 i  Almada Avenida D Afonso Henriques
  • 018 i  Almada Avenida D Afonso Henriques
  • 021 n Almada Jardim Comand. Sá Linhares
  • 021 n Almada Vista Parcial
  • 027 n Almada Câmara Municipal
  • 028 n Almada Mercado
  • 029 n Almada Praça da Renovação
  • 031 n Almada Vista Parcial
  • 057 n Cacilhas
  • 061 i  Almada Rua Francisco Andrade
  • 064 i  Almada Largo das Andorinhas
  • 068 i  Almada Rua Bernardo Francisco da Costa
  • 075 a Almada Largo Gil Vicente
  • 103 a Almada Mercado
  • 105 a Almada Praceta de Olivença
  •  
  • s/n  a Almada Avenida D Afonso Henriques
  • s/n  a Almada Av D Nuno Alvares Pereira década de 1950 02
  • s/n  a Almada Jardim Público
  • s/n  i  Almada Largo Fernão Lopes
  • s/n  a Almada Praça da Renovação
  • Almada, Praça da Renovação, ed. J. Lemos, s/n, década de 1960.
  •  
  • 016 n  Cacilhas Estaleiro
  • Cacilhas, Estaleiro, ed. J. Lemos, 16, década de 1960.
    Imagem: Delcampe
    017 n  Cacilhas Vista Geral do Cais
  • Cacilhas, Estaleiro, ed. J. Lemos, 17, década de 1960.
  •  
  • s/n  a Cacilhas Vista Parcial


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

H. Parry & Son, estaleiro em Cacilhas

ver Artigo relacionado: H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal
1893 — Promessa de venda do estaleiro do Sampaio na Praia da Lapa em Cacilhas à firma Parry & Son pela importância de 90.000$000 réis.

O farol e a doca de Cacilhas, colecção Henrique Seixas, Museu da Marinha, in Loureiro, Carlos Gomes de Amorim, Estaleiros Navais Portugueses...
Imagem: Livreiro Monasticon

1899 — Concretização da venda do estaleiro do Sampaio à Parry & Son.  

Vista tomada no porto de Cacilhas, face a Lisboa, Hubert Vaffier,  1889.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

1903 — Lançamento à água da lancha-canhoeira Tete.

1904 — Lançamento à água da lancha-canhoeira Sena.

Publicidade à actividade da H. Parry & Son, década de 1900.
Imagem: Restos de Colecção

Alguns navios construídos:

Vapor Alcântara;
Vapor Progresso;
Vapor Lisbonense;
Vapor Belém;
Vapor Príncipe D. Carlos;
Vapor Setúbal;
Vapor n.º 1;
Vapor Alcácer do Sal;
Vapor Bom Sucesso;
Vapor Mercúrio; Vapor O'Neill;
Vapor Hugo Parry;
Vapor Lúcifer;
Vapor Trafaria;
Vapor n.º 9;
Vapor n.º 10;
Rebocador Voador;
Vapores Marianno de Carvalho, n.º 1 e n.º 2;
Vapor Girafa; Rebocador Leão;
Vapor Mineiro;
Vapor Juno;
Lancha-canhoneira Honório Barreto;
Lanchas-canhoneiras Diogo Cão e Pedro Annaya;
Rebocador Santa Maria;
Canhoneira Chaimite;
Vapor Neves Ferreira;
Vapores n.º 3 e n.º 7;
Vapor n.º 8;
Lanchas-canhoneiras Sena e Tete;
Escuna Três Macs;
Rebocador S. Thomé.;
Lancha Ginjal;
Rebocador António Serra.

in Loureiro, Carlos Gomes de Amorim, Estaleiros Navais Portugueses, Subsídios para a história da construção naval de ferro e aço em Portugal, Vol. II: H. Parry & Son, Lisboa, 1965
1938 — Fim d contrato de arrendamento dos estaleiros do Ginjal.

Estaleiros H Parry & Son em Cacilhas, antes da abertura da Estrada Nacional.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas

O troço [viário e consequentes desaterros] entre a Cova da Piedade e Cacilhas foi construído entre 1948 e 1951,

Plano de arranjo e ampliação dos estaleiros em Cacilhas, 1949.
Imagem: Restos de Colecção


em grande parte sobre o rio, após o entulhamento das baías da Margueira e da Mutela.

Estaleiros H Parry & Son em Cacilhas, antes e depois da abertura da Estrada Nacional.

A ligação a Cacilhas fez-se à custa da ruptura do morro que, até então, isolara esta povoação da Margueira.

Plano de arranjo e ampliação dos estaleiros em Cacilhas, 1949.
Imagem: Restos de Colecção


in Rodrigues, Jorge de Sousa, Infra-estruturas e urbanização da margem sul: Almada, séculos XIX e XX, 2000, 35 págs.

Cacilhas, Estaleiro, ed. J. Lemos, 16, década de 1960.
Imagem: Delcampe

1986 — Declaração de falência dos estaleiros Parry & Son.

A Parry foi o primeiro estaleiro privado a possuir docas e o primeiro construtor a planear inteiramente um navio de chapa de aço e a proceder à sua execução desde o casco às caldeiras [...] (1)


(1) Luzia, Angela, Esteves, Joana, Santos, Maria José E., A indústria naval em Almada: na rota do progresso, Almada, Câmara Municipal, 2012, 97 págs.

Artigos relacionados:
H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal
O torreão e a Lapa


Leitura relacionada:
Loureiro, Carlos Gomes de Amorim, Estaleiros Navais Portugueses, Subsídios para a história da construção naval de ferro e aço em Portugal, Vol. II: H. Parry & Son, Lisboa, 1965

Veiga, Luís Bayó, Boletim O Pharol, n° 22 

domingo, 18 de maio de 2014

Alcipe

Marquesa d'Alorna, Franz Joseph Pitschmann, Viena, 1780
Imagem: Wikipédia

Tomando posse da sua casa, foi viver por algum tempo na Quinta de Almeirim, e n'outra em Almada, 

Almada. Rua Direita e Egreja de S Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900
Imagem: Fundação Portimagem

onde practicava toda a liberalidade e todo o bem que n'outro tempo fizera em Almeirim, soccorrendo agora dalli particularmente os habitantes pobres de Cassilhas, que por isso lhe chamavam a Màe de Cassilhas, demonstrando e agradecendo os benefícios que delia recebiam.

Muitas vezes dizia ella, que presava mais este titulo do que os outros que tinha, ou poderiam dar-lhe, porque deste lhe resultava maior gloria. (1)

O Tejo, que algum dia, se eu cantava,
Erguido sobre as ondas m'escutava,
Hoje nem se enternece,
E ao som dos meus gemidos adormece.

Escarpas na margem sul do Tejo.
O Pintor Eduardo Leite ladeado de duas crianças, João Alves de Sá, 1926
Imagem: Palácio do Correio Velho

"Na sua quinta d'Almeirim costumava meu pae residir uma grande parte do anno, especialmente no inverno, recreando-se com a Musica e a Poesia, a que era muito aífeiçoado; e quando se aproximavam os calores do Estio, passava á outra quinta d'AImada, onde se entretinha com a Astronomia, sciencia de que possuia não vulgares conhecimentos." (2)

Inflamma o peito com paixões sublimes:
Té que em fim, transportado e fervoroso,
Extático apercebe a Divindade;
E no mundo, feliz, os gostos prova
Que a angélicas essências só competem.

Estes sào os sagrados sentimentos
De tua alma elevada, ó Pae amado!
Teus pensamentos e paixões ditosas
Assim suavemente modificas.


D. Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre (1750 - 1839), Marquesa de Alorna, conhecida como Alcipe nos meios literários, era filha de D. João de Almeida Portugal, conde de Assumar, e avó de D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto, Marquês de Fronteira.

[A Quinta do Conde era uma] quinta de grande dimensão localizada entre Almada e os Caranguejais, de limites mal conhecidos.

Vista parcial do lado sul de Almada, Possidónio da Silva, 1863
Imagem: Revista pittoresca e descriptiva de Portugal

Em 1811 quando se construiu o reduto que teve o nome de Forte do Conde, o lugar da construção, perto da escola Frei Luís de Sousa, era terreno da Quinta do Conde.

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal, José Maria das Neves Costa, 1813 (detalhe)
Imagem: Instituto Geográfico do Exército

No mesmo lugar se construiu a parte de linha de defesa de Almada e Cacilhas que teve o nome de "frente da Quinta do Conde".

O conde em causa é um dos condes de Assumar, muito provavelmente D. João de Almeida Portugal [...] Provedor da Misericórdia entre 1796 e 1802.

Mais a Norte desta propriedade, contígua a casas e quintal da Misericórdia, na Rua Direita, existiu uma propriedade que no século XIX era designada por Quinta do Conde. 

Almada, Vista parcial, ed. J. Lemos, 31 (detalhe)

Esta quinta pertencia ao Marquês de Fronteira [...] (3)

Prédio Queimado, Tenda Moderna, Almada
Imagem: Delcampe, Oliveira


(1) Alorna, Marquesa de, Obras poéticas, Vols. I e II, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844

(2) Alorna, Marquesa de, Obras poéticas, Vols. III e IV, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844

(n. do ed.) Alorna, Marquesa de, Obras poéticas, Vols. V e VI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1844

(3) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Leitura adicional: Biografia de Alcipe, Fundação das casas de Fronteira e Alorna

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O Meijão Frio

Fernão Lopes
Excertos publicados da Crónica de el-rei D. João I:

  1. O cerco castelhano de 1384
  2. O Meijão Frio
  3. A ribeira do arrabalde descontra Coina

E vendo o Mestre a desegualança da frota e as grandes avantagens que el-rei tinha em similhante feito, começou cessar em este comenos, havendo já acerca de dois mezes que a villa d'Almada era cercada desde aquelle dia que Diogo Lopes foi preso como dissemos.

Vista parcial do lado sul de Almada, Possidónio da Silva, 1863
Imagem: Revista pittoresca e descriptiva de Portugal

Na villa havia assaz de gente que a podesse defender doutros estrangeiros que se acolheram a ella, que se vinham lançar com o Mestre, e não poderam por azo da frota, e d'elles tinham mantimentos de pão e vinho e carnes e doutras cousas pêra seis mezes, mas não havia outra agua, salvo d'uma pequena cisterna, e sobre esta foi posta grande guarda, dando a cada pessoa cada dia uma canada, mais não.

Rua do Castelo, Entrada do Jardim, Almada, ed. desc., década de 1900
Imagem: Fundação Portimagem

E não embargando isso, os da villa sairam fora a esperar os castellaos em certos passos, os quaes iam á forragem pelo termo, e a Gezimbra, matavam d'elles, e feriam em tanto, que já não ouzavam de ir, senão muitos juntos.

E assim esperavam os que iam nos bateis a Arrentela e assim a roubar, de guisa que um dia mataram mais de trinta em uma lama, querendo-se acolher aos bateis não sabendo o porto.

Esta saida e tornada, quando queriam era por a porta da Barroca, que chamam Mejão frio*, que é contra o mar, e sendo muitas vezes combatida, e não lhe podendo fazer cousa de que nojo recebesse, mandou el-rei que lhe fizessem uma cava sob a terra, a qual começaram de longe, que ia direita a uma alta torre que está sobre a porta do castello, pêra a poerem em campo, e com fogo a derribar, segundo se costuma.

Almada, Miradouro (detalhe), J Lemos, 07, década de 1950
Imagem: Delcampe

El-rei houve grande menencoria quando isso soube, e por seu corpo passou á dita villa com parte de suas gentes e capitães, pêra a fazer combater á sua vontade. 

E mandou que lhe fizessem no campanário da egreja de Santiago, que é perto do dito castello, um cadafacens forte de mandeira, d onde elle visse toda a villa como se combatia.

Igreja de S. Tiago, Branco e Negro Semanário Ilustrado, 1897
Imagem: Hemeroteca Digital 

Os da villa sentindo que el-rei estava n'aquelle cadafacens, como quer que d'elle não haviam combate, salvo das setas, ordenaram de lhe tirar um tiro.

Massano, Pedro, A Batalha — 14 de Agosto de 1385, Lisboa, Gradiva, 2014
Imagem: Central Comics (detalhe)

Em esto faleceu a agua da cisterna, e foi-lhe forçado tornar a beber outra muito davorrecer s. que jazia na alcáçova, que chovera na alcáçova, na qual as mulheres ante que fosse cercada lavavam as roupas infundidas e os trapos dos meninos, a qual era muito verde e muito suja, e jaziam em ella bestas mortas, e cães e gatos, que era nojosa cousa de ver. (1)

Olha que dezessete Lusitanos,
Neste outeiro subidos se defendem,
Fortes, de quatrocentos Castelhanos,
Que em derredor, pelos tomar, se estendem;
Porém logo sentiram, com seus danos,
Que não só se defendem, mas ofendem,
Digno feito de ser no mundo eterno,
Grande no tempo antigo e no moderno. (2)

* "A Crónica de D. João I destaca a região de Almada, em termos militares e geoestratégicos, como sendo um espaço privilegiado para a protecção e defesa de Lisboa, quando os Almadenses decidiram adoptar a causa da revolução, em 1 de Janeiro de 1384. No que concerne à toponímia local, a crónica de Fernão Lopes faz menção a alguns dos mais antigos topónimos do termo de Almada, tais como Cacilhas, Margueira, Meijão Frio ( actualmente desconhecido ), Barroca ( actual barroca ou escadinhas de acesso à praia das lavadeiras no Ginjal ) e Sovereda ( actual Sobreda ). Segundo a crónica, a " Vila " de Almada correspondia apenas ao espaço do castelo ou da fortificação, destacando-se a torre ( junto a uma porta ) e as muralhas com uma ou duas portas: a porta da vila ( orientada para o povoado ) e um postigo ( provavelmente correspondente à porta da traição ). No interior, existia nesta época a igreja de Santa Maria do Castelo e outras casas. Fora do recinto da fortaleza localizava-se, a pouca distância, a Igreja de Santiago, talvez a mais antiga sede de paróquia e/ou freguesia de Almada."
in Solares de Portugal 


José Pedro Machado (Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa) faz remontar Mesão ao latim mansione, e Frio, não ao latim frigidu-, mas ao germânico frithu, «paz», argumentando que não «faria sentido que um estabelecimento de protecção e de bom acolher do viajante fosse, de princípio, "casa fria"».
A. de Almeida Fernandes (Toponímia Portuguesa, Associação para a Defesa da Cultura Arouquense, 1999, págs. 422/423) refuta esta hipótese:
«[...] o que o topónimo significa era albergue rudimentar sem lar aceso, "frio": o viandante é que teria de prover contra isso no abrigo. Além disso, não consta que o vocábulo germânico tivesse sido usado entre nós fora da antroponímia: isto é, foi-o nesta somente, como elemento de composição.
[...] O próprio carácter rudimentar do "mesão" no caso se atesta no sentido que assumiu "meijão" (outra forma do top., Meijão Frio bem provado), como arribana em pastagens na serra de Arga, etc. E, de resto, casa de paz é que uma albergaria não poderia, em geral, ser, acolhendo gente de toda a casta, boa e má. Até por aqui cinca a ideia do autor [Machado], de "casa de paz" em vez de "casa fria". Isto não quer dizer que um "mesão frio" não evoluísse a albergaria notável: assim Albergaria-a-Velha tem essa origem [...]. Compreende-se.»
in Ciberdúvidas


(1) Lopes, Fernão, Chronica de el-rei D. João I, Vol. II, Caps. CXXXV, CXXXVI, CXXXVII, Lisboa, Escriptorio, Bibliotheca de clássicos portugueses, 1897-1898.

(2) Camões, Luis de, Os Lusíadas, Canto VIII, Estância 35, Lisboa, Antonio Gõçaluez impressor, 1572

sábado, 12 de abril de 2014

A ribeira do arrabalde descontra Coina

Fernão Lopes
Excertos publicados da Crónica de el-rei D. João I:

  1. O cerco castelhano de 1384
  2. O Meijão Frio
  3. A ribeira do arrabalde descontra Coina

Então se trigou Nuno Alvares de andar mais rijo, e, saindo o sol, chegou a um lugar que chamam a Sovereda, que é a cerca de uma légua de Almada, e vendo tão tarde, fallou aos seus, que andassem a trote e a galope, quanto as bestas os levar podessem, e elles o fizeram, de guisa que pareceu que toda a terra era já cercada e cobrida do sol, ainda elles chegaram a tempo, que muitos dos castellãos ainda jaziam nas camas, que mal prestou o somno da manhã.

Vista parcial do lado sul de Almada, Possidónio da Silva, 1863
Imagem: Revista pittoresca e descriptiva de Portugal

Portugal, Alfeite, Vista Geral, ed. desc., década de 1940
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

O primeiro que ás barreiras chegou foi Nuno Alvares com três escudeiros, que á pressa deram por terra, e com estes entrou Nuno Alvares pela ribeira do arrebalde descontra Coina, dando-se ás lanças com alguns castellãos, que o embargar queriam, depois chegou logo a sua bandeira, que vinha muito perto, com todos aqueles que a guardavam, e tomaram a rua direita que vai contra Cacilhas, fazendo cada um o melhor que podia.


Prédio Queimado, Tenda Moderna, Almada
Imagem: Delcampe, Oliveira

A bandeira de Nuno Alvares chegou bem acompanhada até à porta do castelo, cuidando de a achar aberta como levavam divisado, mas os do castelo cerraram as portas, recolhendo primeiro lá dentro aqueles que puderam; dos restantes, alguns deles lançavam-se na barbacã, e outros pelas barreiras, cada um como melhor podia. (1)

Vista do castelo de Almada e de Lisboa, 1663 (detalhe)
Imagem: MALLET, Alain Manesson, Les Travaux de Mars, ou l'art de la guerre


[Courelas,] sítio entre a Praça do Comércio e a Praça Gil Vicente, a sul da Pedreira.

Dava também o nome à azinhaga das Courelas (rua José Fontana e rua de Olivença), que no século XIX era conhecida popularmente por azinhaga do Mata Cães.

Almada, Mercado, ed. J. Lemos, 103, década de 1950
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia de Almada

É possível que esta saída fosse a saída da vila para sul, onde estaria a porta da cerca "descontra Coina", de que fala Fernão Lopes, dizendo que por ela entrou Nuno Álvares Pereira quando atacou a vila ocupada por castelhanos, em 1384.

No primeiro quartel do século XIX algumas da primeiras casas da azinhaga pertenciam ao Marquês de Castelo Melhor. (2)


(1) Lopes, Fernão, Chronica de el-rei D. João I, Vol. III, Cap. CXLVII, Lisboa, Escriptorio, Bibliotheca de clássicos portugueses, 1897-1898.

(2) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.