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quarta-feira, 17 de julho de 2019

Ninette

O baptismo do "inrigger" do Ginásio Clube do Sul, construído em Cacilhas [...]

Inrigger do Ginásio Clube do Sul, Ninette, Baptismo, 1926.
Museu de Marinha

Foi-lhe atribuído o nome de "Ninette".

Inrigger do Ginásio Clube do Sul, Ninette, Baptismo, 1926.
Museu de Marinha

A cerimónia a que assistiram várias individualidades realizou-se pelas 14 horas do dia 14 de março de 1926.

Inrigger do Ginásio Clube do Sul, Ninette, Lançamento à água, 1926.
Museu de Marinha

Lançamento à agua em Cacilhas do inrigger "Ninette" [...]

Inrigger do Ginásio Clube do Sul, Ninette, Lançamento à água, 1926.
Museu de Marinha

Construido no Ginjal, no estaleiro do desportista Augusto Salgado, que também dirigiu a respectiva construção.

Inrigger do Ginásio Clube do Sul, Ninette, Treino no Rio Tejo, 1926.
Museu de Marinha

Tripulações de embarcações do Ginásio Club do Sul, treinando-se no rio Tejo. É a "Ninette". (1)

Inrigger do Ginásio Clube do Sul, Ninette, Treino no Rio Tejo, 1926.
Museu de Marinha

Prova de mar da guiga "Ninette", do prestigiado Ginásio Clube do Sul, descendo o Tejo, entre a antiga Fábrica Symington & C.ª e o Farol de Cacilhas, em 14 de Março de 1926. 

Inrigger do Ginásio Club do Sul, Ninette, reprodução de foto original de F. Santos (1926).
Colecção de Alexandre Flores

Na imagem, da esquerda: António Carbone, Tomaz Raimundo da Silva, Hernâni Jorge da Silva, Manuel da Luz "Maçangão" e Augusto Salgado.

Com a modalidade do remo, o Ginásio Clube do Sul obteve uma série de triunfos dignos de menção, entre os quais: a "Grande Travessia de Lisboa" (1929), onde a equipa de remadores estabeleceram o "record" de fundo de 9. 260 mil milhas; a valiosa taça "Dr. Manuel de Arriaga", disputada em "in-riggers" de 4 remos, durante 4 anos consecutivos; o campeonato de "out-riggers" de "g", na Figueira da Foz (11 de Setembro de 1927), onde a equipa apenas com um treino na véspera da corrida, com um barco emprestado da Associação Naval 1.º de Maio da F. da Foz, alcançou o 1.º lugar. 

A equipa vencedora do Campeonato Nacional do Remo na Figueira da Foz era constituída por: António Carbone (timoneiro), João Jurado (voga), Domingos R. Pinto (7), António Nunes (6), José Antunes (5), Carlos Henriques (4), Hernâni Jorge da Silva, Aurélio Joaquim (2) e Américo Morais. (1)

(1) Museu de Marinha
(2) Alexandre Flores

Artigo relacionado:
Ponte dos vapores da Trafaria

Leitura relacionada:
Fernando Barão, Henrique Mota, Ginásio Clube do Sul - 75 Anos de Glória, 1995

sexta-feira, 10 de junho de 2016

A Procissão

Tocam os sinos, da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia — que Deus a proteja!
Vai passar a procissão.

Costa da Caparica, procissão, 1929.
Imagem:
Delcampe - Bosspostcard

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o sol-e-dó.
Quando o regente lhe acena co'o braço,
Logo o trombone faz pó-pó-pó-pó.

O regresso da filarmónica da extinta Sociedade Marítima do Porto Brandão, integrada no círio do Cabo Espichel.
Imagem: Correia, António, Divagando sobre Caparica..., Almada, edição do autor, 1973

Olha os bombeiros, tão bem alinhados
Que se houver fogo, vai tudo num fole!
Trazem ao ombro, luzentes machados
E os capacetes a rebrilhar ao sol.

Bombeiros Voluntários de Cacilhas, vista tomada do antigo quartel para o rio.
Imagem: Mário Feio

Tocam os sinos, da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Costa da Caparica, procissão, 1926.
Imagem:
Delcampe - Bosspostcard

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes, nas opas vermelhas!
Ninguém supunha que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Costa da Caparica, procissão com a imagem do Menino Jesus do Sarrico ou da Praia, 1926.
Imagem:
Delcampe - Bosspostcard

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Costa da Caparica, procissão, 1926.
Imagem:
Delcampe - Bosspostcard

Tocam os sinos, na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Costa da Caparica, procissão, 1926.
Imagem:
Delcampe - Bosspostcard

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que sobem ao Céu!

Costa da Caparica, procissão do Senhor dos Passos, década de 1940.
Imagem: Sandra Barros Simões

Com o calor, o Prior vai aflito
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

O padre Baltasar pregando à multidão na praia da Costa da Caparica, 1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Tocam os sinos, na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia  que Deus a proteja!
Já passou a procissão. (1)



(1) Antóno lopes Ribeiro, A Procissão ou Festa na Aldeia

domingo, 24 de maio de 2015

A ponte

O atravessamento contínuo do rio Tejo na área urbana da capital, uma aspiração quase secular, foi traduzido em termos técnicos, e pela primeira vez, pelo Eng.º Miguel Pais que propôs em 1876, em desenho, uma ponte entre o Grilo e o Montijo.

World without us, Lisbon bridge, josh, 2007.
Imagem: Space Collective

Esta proposta contemplava uma solução mista para os tráfegos rodoviário e ferroviário, de tabuleiro duplo e com setenta e seis tramos, dos quais setenta e quatro tinham 60 metros de vão e os dois extremos, 48 metros.

Post Apocalyptic bridge on Tagus river..., Peter Baustaedter, 2013.
Imagem: viralscape

Apesar do grande apoio que colheu nos meios técnicos, na opinião pública e em departamentos oficiais, este projecto não teve seguimento, tendo surgido ao longo dos anos outras ideias para a ligação da capital à margem Sul.

Ponte sobre o Tejo, estudo do engenheiro Miguel Pais, 1872.
Imagem:  Arquivo Municipal de Lisboa

Em 1888 o Eng.º Lye, de nacionalidade norte-americana, propõe a construção de uma ponte entre Almada e a zona do Tesouro Velho (atual Chiado) com uma estação ferroviária próxima do Largo das Duas Igrejas.

Posteriormente, em 1889, os engenheiros franceses Bartissol e Seyrig propõem uma ligação mista entre a Rocha do Conde de Óbidos e Almada, através de uma ponte com 2500 metros de comprimento, que seria assente numa série de arcos com vãos diferentes.

Ponte sobre o Tejo, projecto de E. Bartissol e T. Seyrig, O Occidente n.° 380, ilustração L. Freire, 1889.
Imagem: Hemeroteca Digital

Em 1890 surge nova proposta subscrita por uma empresa metalomecânica de Nuremberga que pretendia construir uma ponte entre o Beato e o Montijo, sugerindo uma localização muito próxima à que tinha sido proposta pelo Eng.º Miguel Pais.

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Imagem: Hemeroteca Digital

Já no século XX, em 1913, foi proposto ao Governo, por uma firma portuguesa, fazer a ligação entre a Rocha do Conde de Óbidos e Almada.

Elegante projecto da ponte Lisboa Cacilhas,
propaganda republicana, década de 1910.
Imagem: O Mundo do Livro

Porém, em 1919, a empresa H. Burnay & C.ª, considerava que a travessia do Tejo deveria ser feita através de um túnel e não de uma ponte. Este túnel teria 4500 m de extensão e ligaria a capital a Almada entre Santa Apolónia e Cacilhas.

Vista do estuário do Tejo anterior à construção da ponte, c. 1960.
Imagem: ed. desc.

Dois anos mais tarde é feita nova sugestão para outra ponte mista, pelo Eng.º Alfonso Pena Boeuf, espanhol, a implantar entre a Rocha do Conde de Óbidos e Almada, com um comprimento total de 3 347 metros.

Curiosamente, esta proposta previa apenas um tabuleiro com via férrea dupla e quatro vias para circulação rodoviária. Em 1926, estando ainda de pé esta proposta, a empresa do Arq.º José Cortez - Cortez & Bruhns, apresentou, em esboço, a sugestão duma grande ponte suspensa de três vãos a lançar entre a parte alta da Rua do Patrocínio e as proximidades de Almada.

O Eng.º António Belo, em 1929, solicitou a concessão de uma linha férrea a construir entre o Beato e o Montijo, que incluía a respetiva ponte para a travessia.

Esta proposta mereceu, por parte do Ministro Duarte Pacheco, a atenção devida, tendo-se aberto para o efeito um concurso público em 1934, que não teve resultados concretos, visto que nenhuma das propostas correspondeu ao que o caderno de encargos estipulava sobre o regime de concessão.

Quatro anos mais tarde, retomada por um dos concorrentes - United States Steel Products - esta proposta também não obteve acordo, apesar da simplificação e redução de custo apresentadas.

Em 1942 foi nomeada uma comissão para o estudo das comunicações entre a zona oriental de Lisboa e o Sul do país, como consequência de diligências promovidas pelas Câmaras Municipais do Barreiro, Alcochete, Moita e Seixal para a melhoria das comunicações entre as sedes dos respetivos concelhos e Cacilhas.

Porém, com a decisão da construção da Ponte de Vila Franca de Xira, foram suspensos os trabalhos desta comissão. O Eng.º Pena Boeuf, em 1951, sugeriu uma nova travessia entre Almada e o Alto de Santa Catarina em Lisboa, propondo uma ponte suspensa.

Finalmente, para o estudo e resolução do problema das ligações rodoviária e ferroviária entre Lisboa e a margem Sul do Tejo, foi nomeada, por Portaria dos Ministérios das Obras Públicas e das Comunicações de junho de 1953, uma nova comissão que concluiu pela viabilidade técnica e financeira da travessia através de uma ponte ou de um túnel.

"Julgo meu dever, agora, se isso me é permitido, sem que a minha atitude pretenda ferir posições ou possíveis interesses criados, que na minha qualidade de Português, e nascido em Lisboa, e ainda como técnico, apresente também o meu parecer pessoal, fruto de muitos anos de análisee de estudos vários relacionados com as soluções das obras que mais uma vez se diz que vão empreender-se no estuário do Tejo.

Ponte sobre o Tejo, projecto de Cassiano Branco, 1958.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Não é, por certo, num simples artigo de jornal que poderei desenvolver amplamente problemas tão vastos e de tão grande complexidade técnica, no entanto vou tentar ser breve e claro nas considerações que se seguem.

Perspectiva da ponte sobre o Tejo vista do lado de Lisboa, Cassiano Branco, 1958.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Direi, pois, que ao projectar-se uma ponte que ligue as duas margens do Tejo, Lisboa - Almada, o problema impõe em primeiro lugar a escolha do sítio exacto do témino da directriz do seu tabuleiro Norte.

Perspectiva da ponte sobre o Tejo vista do lado de Almada, Cassiano Branco, 1958.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Este é o principal ponto nevrálgico [...]"

Cassiano Branco in "A ponte sobre o Tejo será a maior do Mundo", Diário de Lisboa 23 de março de 1958

O Governo optou pela construção de uma ponte e pelo Decreto-Lei n.º 42 238, autorizou o Ministério das Obras Públicas a abrir concurso para a sua construção.

Ponte sobre o Tejo, ilustração de Carlos Ribeiro, Revista Eva, dezembro de 1960.
Imagem: Dias que Voam 

Em Dezembro de 1960, foi criado, na dependência do Ministro das Obras Públicas, para a condução deste empreendimento, o Gabinete da Ponte sobre o Tejo, dirigido pelo Eng.º José Estevam Abranches Couceiro do Canto Moniz, na altura director dos Serviços de Conservação da Junta Autónoma de Estradas.

A viga mais comprida do mundo, edição do Ministério das Obras Públicas.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Em Março de 1960 abriu-se concurso internacional para a execução da obra, tendo esta sido adjudicada à United States Steel Export Company em maio de 1962.

A ponte sem tabuleiro, c. 1965.
Imagem: Estação Chronográphica

Compreendia a construção da ponte sobre o rio, a realização de um complexo rodoviário que incluía 15 km de autoestrada, trinta e duas estruturas de betão armado e pré-esforçado, o Viaduto Norte sobre Alcântara (com 945,11 m de extensão e catorze vãos, cujo tabuleiro de betão pré-esforçado é apoiado em pilares gémeos de betão armado, ligados por uma travessa horizontal a 10 metros do topo, destinada a suportar o tabuleiro ferroviário), um túnel sob a Praça da Portagem (com cerca de 600 metros de comprimento e destinado a receber a plataforma ferroviária do eixo de ligação da rede a Norte com a rede a Sul do rio Tejo), a sinalização e iluminação de toda a obra. (1)

Viagens escolares a Portugal.
Imagem: Herolé Reisen


(1) Estradas de Portugal

N. do E.: algumas imagens apresentadas são meramente ilustrativas ou conceptuais e não representam a vista real do empreendimento.

Artigos relacionados:
Projecto de travessia do Tejo em 1889
Lisboa monumental em 1906


Leitura relacionada:
Restos de Colecção

quinta-feira, 19 de março de 2015

2 de fevereiro de 1926

O GOVERNO
CONTA DOMINAR
O MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO
DURANTE ESTA NOITE

Cacilhas, movimento de dois de Fevereiro de 1926, major Faria Leal.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

O sr. Governador Civil declarou-nos, ás 18,30,  que até agora não há suspensão de garantias.
Aconselhamos a população amanter calma, e a recolher cedo a casa, embora não haja intimação para isso.
O Governo conta dominar os elementos revolucionarios de Almada durante a noite. (1)

Movimento de dois de Fevereiro em Almada, forças de infantaria 16 e GNR após o desembarque em Cacilhas, 1926.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

O CASO DE ONTEM

Por muito habituados que todos estejamos a aventuras sem consistência nem finalidade, a que mereça a pena sacrificara tranquilidade pública, não deixamos de nos confessar surpresos com o movimento de ontem.
É mais um caso de sentimentalidade politica.
Em boa verdade, descontentes que todos estejamos com a marcha dos negócios públicos e o descontentamento não vem do agora, não vemos, sinceramente, imparcialmente, conscientemente, razão para se pretender levar a cabo um golpe de Estado contra a actual situação politica.
Um estrangeiro que entre nós vivesse para estudar a nossa psicologia politica e social não seria capaz de compreender o movimento de ontem. Nós proprios, um pouco mais familiarizados com o caracter politico e partidario da nossa gente, não encontramos explicação directa.
lndirectamente, como dizemos, o acontecimento, tão lamentável, fundamenta-se em razões platónicas de sentimetalismo.

Cacilhas, largo do Costa Pinto, forças da GNR preparando-se para o ataque aos revoltosos, 1926.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Mas esse sentimentalismo de revolta não tem raízes na alma popular. Não significa isto que o pais reconheça como perfeito o estado actual de coisas.
Mas as revoluções estäo desacreditadas, e muito mais o estão os movimentos isolados, sem preparação séria, sem ambiente, sem condições de qualquer sorte.
São aventuras, símpáticas a alguns, mas antipáticas ai grande maioria da Nação.
Este governo, que está constituído em condições normais, não será melhor do que os antecedentes, segundo o pensamento dos seus adversários.
Mas não é peor do que os outros, e antes oferece garantias — as garantias possíveis n nossa indisciplinada sociedade-de realizar uma obra lenta e serena de reconstrução. Os seus componentes são honrados, patriotas, decididos a uma obra de purificação.
As divergências politicas, de resto, repetimo-lo, resolvem-se dentro da legalidade.
E os republícanos não devem nunca afastar-se deste campo, por maiores que sejam, e mais fundas, e mais patrióticas, as suas incompatibilidades pessoais e partidárias.

Cacilhas, rua Cândido dos Reis, forças da GNR assestando uma metralhadora, 1926.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

O governo dominou a situação. Que a aventura de ontem, que algumas vítimas causou, estragos materiais e péssimo ambiente moral, sirva de lição — quantas vezes temos escrito isto! — é o nosso desejo, e certamente o de toda a Nação.

Uma granada dos revoltosos cortou ao meio o pau de bandeira da Cadeia de Almada.
Na Outra Banda, não caiu nenhuma granada atirada de Lisboa, parece que em virtude dos propósitos da artilharia do Castelo.

Auto-retrato (detalhe), 1929.
Imagem: Tamara de Lempicka
Uma senhora estrangeira, ontem, à noite no Avenida Palace:
— E ganham os revolucionários?
— Não minha senhora, não têm probabilidades.
— Pobre familias deles, que vão ficar presos por toda a vida!
Ninguem retorquiu nada.


O CHEFE DO DISTRITO
FALA
AO DIÁRIO DE LISBOA

 
Ás 16 horas, o sr. dr. Barbosa Viana entre no seu gabinete do governo civil.
Pouco depois, chega o sr. dr. Crispiniano da Fonseca.
O sr. dr. Barbosa Viana recebe-nos:
— Há duas noites que não sei o que é dormir!
— Como teve v. exa. conhecimento da revolução?
— Pela polícia de informação. Imediatamente avisei os ministros da Marinha e da Guerra.
— Soube logo no dia 1, do plano dos revolucionários?
— Tinha apenas vagas informações. Ontem, de manhã, é que soube que eles haviam ido sublevar as forças que se encontravam em Vendas Novas.
— Tinham possibilidades do vencer?
— Não há nenhum movimento revolucionário que tenha possibilidade do triunfar. desde que as autoridades constitucionais tomem logo providências enérgicas e adoptem uma acção decisiva.

Almada, o acampamento dos revoltosos após a rendição às tropas sitiantes, revista Ilustração n.° 4, 16 de fevereiro de 1926.
Imagem: Hemeroteca Digital

Continuando:
— As revoluções são sempre iniciadas por meia duzia de audaciosos. e so os deixarem tomar posições à vontade e ganhar terreno podem vencer.
— Diz-se que a Marinha se recusou a combater os revoltosos?
— Creio que tal não se deu. O quo posso afirmar, com enorme satisfação, é que o Exército e a Guarda procederam com a maxima disciplina, não se poupando a sacrifícios para a manutenção da ordem. (2)

Os revolucionários presos, conduzidos, entre a escolta, para o Porto Brandão.
Imagem: Hemeroteca Digital

GOVERNE!

Agora o Governo que Governe.
O incidente passou e, feitas as declarações necessárias no Parlamento, o acontecimento deixa o rescaldo para os jornaes, e o resto será com a justiça.

Os revoltosos de Almada, dirigindo-se para o Porto Brandão a fim de embarcarem para o navio onde ficarão detidos.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Simpatias, antipatias, ódios, se os ha, lamentações, aplausos e críticas — deve a eles ser o Governo alheio.
E é, com certeza.
Não suponha o sr. Antonio Maria da Silva que só são seus amigos e confiantes da sua obra aqueles que o incensam. Não creia o sr. presidente do Ministerio que são mais patriotas e mais republicanos os que andam cerca dos seus gabinetes. A posição de independência de um jornal, como de um individuo, não lhes arrebata o sentimento de justiça.

Dr. Lacerda de Almeida e Martins Júnior, chefes dos revoltosos posando para O Século em Porto Brandão, 1926.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Com a sua experiencia, honradez, decisão e prudência reconhecidas, continue o sr. Antonio Maria da Silva imprimir ao seu Governo uma orientação de trabalho ponderado e constante. Alguns dos seus colaboradores bem merecem por sua inteligência e boa vontade.
 Há muito que fazer. Preparar a proposta da questão dos Tabacos. É uma questio aberta do Governo — disse-nos o sr. ministro das Finanças. Mas tem que haver uma base. Ela que surja.
Qualquer solução nos interessa, desde que ela seja a mais favoravel e ao interesse do Estado. O Monopólio é antipático. A Regie — pela qual não quebramos lanças — tem defensores, entre os quais o próprio ministro das Finanças, e muitos adversários. O regime de liberdade e concorrência parece preferível. O governo que se habilite, sondando a opinião pública autorizada.

Porto Brandão, movimento de 2 de Fevereiro, os revoltosos subindo para bordo do Pêro de Alenquer, 1926.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

A obra de reconstrução financeira e económica deve merecer a este governo atenção "imediata". O "deficit", se não é relativamente grande, tem de ser combatido.
Não pode este governo considerar-se desapoiado. Adversários todos os governos os têm. Alguns honram. Para deante!

Diário de Lisboa, 5 de fevereiro de 1926.
Imagem: Fundação Mário Soares

Para o caso da ordem publica — da qual é preciso não fazer espantalho — tem o ministro do Interior os seus delegados indicados.
Estas palavras escrevemo-las com simplicidade, sem afectação nem reservados intuitos.
Por pouco que valha o apoio de um jornal modesto corno o nosso, não trocamos a sinceridade dos nossos escritos por mercê alguma da terra.

Diário de Lisboa, 8 de fevereiro de 1926.
Imagem: Fundação Mário Soares

Governe o governo do sr. Antonio Maria Silva! (3)


(1) Fundação Mário Soares, Diário de Lisboa, 2 de fevereiro de 1926
(2) Fundação Mário Soares, Diário de Lisboa, 3 de fevereiro de 1926
(3) Fundação Mário Soares, Diário de Lisboa, 4 de fevereiro de 1926

segunda-feira, 28 de abril de 2014

O concelho de Almada

Depois da concessão do foral, [por D. Sancho I em 1190, Almada] passou a concelho independente com os seus magistrados próprios como é natural.

El Atlas del Rey Planeta (detalhe), Pedro Teixeira, 1634
Imagem: La descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos

As suas confrontações primitivas eram: ao norte, o rio Tejo; ao sul, o concelho de Sesimbra; a oeste o oceano Atlântico, e a leste os rios Tejo e Coina.

Descripcion del reyno de Portugal (detalhe), Pedro Teixeira, 1662
Imagem: Biblioteca Nacional de España

Em 1350, como do concelho de Sesimbra se desanexou Vila Nogueira de Azeitão e outras freguesias, para formarem o concelho de Azeitão, ficou Almada sendo limitada ao sul por Sesimbra e Azeitão.

Sabemos que as freguesias de N. Sra. da Anunciação [sic, leia-se Assunção] do Castelo e de S. Tiago de Almada são muito antigas.

Presumimos que, para além destas, existam já também as freguesias de  N. Sra. da Graça de Corroios e N. Sra. da Conceição [sic, leia-se Consolação] de Arrentela.

Arrentela, vista geral, Jorge Almeida Lima, 1886
Imagem: Representações do Seixal e da Época no Olhar de Jorge Almeida Lima

Em 1472, à custa da freguesia da N. Sra. da Assunção, formou-se a freguesia de N. Sra. do Monte de Caparica.

Desde 1472 até 1724, ficou constituído o nosso concelho com as seguintes freguesias:
  • N. Sra. da Assunção do Castelo de Almada (também conhecida pela invocação de Santa Maria do Castelo de Almada);
  • S. Tiago de Almada;
  • N. Sra. do Monte de Caparica;
  • N. Sra. da Graça de Corroios;
    N. Sra. da Graça de Corroios (parece que desta freguesia fazia parte N. Sra. de Monte Sião de Amora que depois teria passado a ser freguesia);
  • N. Sra. da Consolação de Arrentela.

Por provisão do Cardeal Patriarca de Lisboa, D Tomás de Almeida, em 28 de Junho de 1734, foi desanexado da Arrentela o lugar do Seixal, que ficou constituindo uma paróquia sob a invocação de N. Sra. da Conceição.

Seixal, lado do nascente, Jorge Almeida Lima, 1886
Imagem: Representações do Seixal e da Época no Olhar de Jorge Almeida Lima

Da mesma foi também desanexado o lugar, depois freguesia, denominado Aldeia de Paio Pires.

Aparece-nos por estes tempos também a freguesia da Amora.

Vista da Amora, Tomás da Anunciação, 1852
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Almada foi assim uma grande circuncrição territorial que se manteve até 1834 com estas oito freguesias:
  • N. Sra. da Assunção,
  • S. Tiago,
  • Caparica,
  • Amora,
  • Corroios,
  • Arrentela,
  • Seixal,
  • e Aldeia de Paio Pires.

Moinho de maré de Corroios
Imagem: Pimentel, Alberto, A Estremadura portuguesa

Começa então a decadência.

Em Novembro de 1834, a freguesia de N. Sra. da Assunção foi anexada à de S. Tiago.

Em 6 de Novembro de 1836 foi constituído o concelho de Seixal, à custa do de Almada.

Aquele ficou com as Freguesias de Amora, Corroios (que estava anexado a Amora, sendo depois desanexado), Arrentela, Seixal e Aldeia de Paio Pires.

Almada conservou apenas as freguesias de S. Tiago e de Caparica.

Em 1895 foi extinto o concelho do Seixal, passando para o de Almada a freguesia de Amora (de que já fazia parte a de Corroios) [as outras freguesias, Arrentela, Seixal e Aldeia de Paio Pires, passaram para o concelho do Barreiro, tendo, em 1898, voltado para o concelho do Seixal].

Mas logo por decreto de 13 de Janeiro de 1898 foi criado de novo o concelho do Seixal, perdendo Almada mais uma vez a freguesia de Amora.

Almada fazia parte do distrito de Lisboa, mas passou a pertencer ao de Setúbal, quando este foi criado em 23 de Dezembro de 1926.

Mais tarde, em 7 de Fevereiro de 1928 (por Decreto n.° 15.004, publicado no Diário do Governo de 10 de Fevereiro de 1928), foi desanexada da freguesia de S. Tiago a freguesia da Cova da Piedade;

Limites da freguesia da Cova da Piedade
Imagem: Diário do Governo de 10 de Fevereiro de 1928

e, da freguesia do Monte de Caparica, a da Trafaria [criada pelo decreto n.º 12 432 de 7 de Outubro de 1926].

Trafaria (Portugal), Vista geral e rio Tejo, ed. Martins/Martins & Silva, 28, década de 1900
Imagem: Delcampe

Quanto à Costa da Caparica, essa torna-se freguesia pelo  Decreto n.° 37.301, publicado no Diário do Governo de 12 de Fevereiro de 1949. (1)

Costa da Caparica, Mário Novais, 1946
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian


(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.