Mostrar mensagens com a etiqueta 1859. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1859. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Almada, a propósito de Nogueira da Silva (II de II)

Estamos em 1868, em Lisboa. A época não é das mais propícias ao florescimento das artes, o que ninguém deve estranhar, porquanto impera um gosto acentuadamente provincial nos costumes, nos trajos, no jornalismo, nos interiores das casas, no teatro, na literatura, em toda a vida citadina. 

Lisboa vista do Pragal, na Outra-Banda, gravura, Nogueira da Silva, 1858.

Não interessa averiguar se este gosto é bom ou mau. Os vindouros que se deem, querendo, a esse trabalho crítico, aliás desprovido, quanto a nós, senão de significado, pelo menos de eficácia. O que dá encanto e razão de ser às modas e aos estilos de vida social, é justamente aquilo que melhor distingue as épocas umas das outras:  quase sempre; os traços mais exorbitantes, os pormenores mais caricatos. 

Quem sabe se no século XX, por exemplo (aí por 1946) as lisboetas elegantes não se atreverão a exibir uma indumentária mais aparentemente ridícula do que esta, em uso nos nossos salões e avenidas?... Todas as épocas têm os seus grotescos, as suas manias, os seus telhados de vidro. E é isso mesmo que lhes confere, meu caro leitor, nitidez, graça, distinção. 

Panorama n.° 30, 1946

Mas íamos dizendo que estamos em 1868  exactamente no dia 13 de Março. Como densa e escura núvem que de súbito cobrisse uma paisagem primaveril, acaba de espalhar-se pela cidade a notícia da morte de Nogueira da Silva. O leitor não ignora, decerto, de quem se trata, nem quanto o país fica devendo ao fino espírito, ao poderoso talento e à infatigável capacidade de trabalho do malogrado artista que esse nome usou:  nem mais nem menos do que centenas de admiráveis desenhos e gravuras em madeira.

Sim, muitas centenas! Paisagens, retratos, composições livres, ilustrações, caricaturas, cópias rigorosas (e quantas de inestimável valor documental!) de monumentos arquitectónicos, de esculturas, de peças de ourivesaria, de tábuas e azulejos dispersos pelo país - tudo atraía e impressionava a sensibilidade plástica de Nogueira da Silva, e era por ele interpretado ou transposto para o papel e a madeira com uma destreza inexcedível e uma graça inimitável.

Panorama n.° 30, 1946

Merecia a pena que alguém, algum dia, preenchesse os lazeres de umas férias com o benemérito labor de contar e classificar esses trabalhos, insertos na "Revista Popular", no "Jornal para rir", nas "Celebridades contemporâneas" e, principalmente, nos numerosos volumes do "Archivo pittoresco".

Claro está que nem todos os desenhos e gravuras do ilustrador das Obras completas de Nicolau Tolentino têm o mesmo interesse, a mesma altura.

Panorama n.° 30, 1946

Deve mesmo dizer-se, por respeito à verdade e à sua memória, que as produções de Nogueira da Silva são de irregularíssima qualidade. Nem todos os géneros se quadravam à sua vocação e ao seu temperamento. 

Na interpretação da figura, por exemplo (e particularmente no retrato) foi, por vezes, deplorável. No entanto, não era por gosto de contrariar-se nem por doentia atracção abísmica que o artista insistia nesse cultivo; - era, sem nenhuma dúvida, por mera necessidade, por obrigação profissional. 

Panorama n.° 30, 1946

Aqui temos um traço bem distinto da personalidade de Nogueira da Silva: num país em que são raros os artistas profissionais, e sobretudo na sua época, ele nada tinha de amador. Quem sabe, mesmo, se não terá sido o primeiro desenhista português verdadeiramente profissional  menos livre do que nenhum outro de satisfazer os imperativos do seu temperamento, mais vítima da fatalidade de ser "pau para toda a obra?"

A infelicidade obstinou-se em perseguir e ensombrar a sua estrela, que tinha brilho bastante para resplandecer no pardo firmamento da arte nacional. Quase não houve revez que não o afligisse, injustiça que não o ofendesse, miséria que não o ameaçasse.

Panorama n.° 30, 1946

Desde a incompreensão paterna à quase cegueira, desde a fome ao vexame de ser acusado de curandeiro, Nogueira da Silva conheceu e suportou, com um estoicismo exemplar, as maiores adversidades - inclusivê a de ter prestado as melhores provas num concurso para a regência da cadeira de Desenho da Escola Politécnica, e ficar aguardando ein vão (por razões que nunca se chegaram a apurar) a decisão do juri...

A arte venceu, mais uma vez, mas também mais uma vez saíu mal-ferida da batalha. As mutilações que sofreu esta forte e singular personalidade, são. bem notórias e confrangedoras. No entanto, cabe ao laborioso artista o mérito de ter reformado e desenvolvido, entre nós, a gravura em madeira, até então só apreciàvelmente cultivada por Manuel Maria Bordalo Pinheiro e José Maria Batista Coelho.

Vista de Almada tomada do Campo de S. Paulo, Nogueira da Silva, grav. Coelho Junior, 1859.
Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

É aí, repetimos, que se encontra o maior número de trabalhos de Nogueira da Silva, atestando, além da espantosa multiplicidade do seus recμrsos técnicos, a penetrante acuidade do seu espírito de observação e o afinado gosto do seu humorismo  virtudes às quais não foi estranha a influência dos mais famosos desenhadores e gravadores franceses contemporâneos, sobretudo de Gavarni. 

Panorama n.° 30, 1946

Como ilustrador, julgamos possível e justo que algum cronista do próximo século (aí por volta do ano de 1942...) afirme que o volume das Obras completas de Nicolau Tolentino é "uma das raras edições portuguesas do século XIX que, não sendo classificável como livro de arte  por excesso de tiragem e modéstia de materiais  é, todavia, um espécime perfeito de livro ilustrado. Pois onde se vê, como nele, uma harmonia tão grande entre o espírito do autor e dp ilustrador da sua obra?" 

— "Nogueira da: Silva não ilustrou mais nenhum livro. Sete anos depois, morreu. Faz de conta que tivemos dezenas de Nogueiras da Silva. Vale lá a pena recordar o seu nome?"


Panorama n.° 30, 1946

Como caricaturista, Francisco Augusto (iamo-nos esquecendo de dizer que eram estes os seus prenomes) foi dos mais engraçados que desde sempre se contam na história da arte nacional. O "D. Quichote" do século XIX e muitas das caricaturas que publicou  acompanhadas de biografias, crónicas e legendas humorísticas da sua autoria  nas "Celebridades contemporâneas", no "Jornal para rir", no "Archivo pittoresco" e noutros periódicos da época, deram brado e fizeram escola. 

A ironia do seu traço, apontada aos ridículos da baixa burguesia, aos narizes-de-cera, às vaidades balofas, era por vezes contundente, mas nunca grosseiramente ofensiva. É que o seu humor provinha menos de ressentimentos, do que de uma visão mais evoluída, ·mais urbana dos homens e das coisas.

Panorama n.° 30, 1946

Nogueira da Silva foi um artista da cidade. Por isso lhe repugnava, mais do que tudo, o "arrivismo", o recem-chegadismo provinciano. E afinal, feitas bem as contas, talvez tenha sido essa pecha da vida portuguesa — tão evidentemente acentuada no seu tempo — a causa fundamental das suas vicissitudes.


(Conforme com o original).

CARLOS QUEIROZ (1)


(1) Panorama n.° 30, 1946

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Almada, a propósito de Nogueira da Silva (I de II)

Fica esta villa fronteira á cidade de Lislooa na outra margem do Tejo. São duas irmãs apartadas que folgam de se estar vendo, assentadas no alto uma e outra e ambas namoradas dos navios que vêm de todo o mundo, rio acima, lançar ferro por entre ellas.

Vista de Almada tomada do Campo de S. Paulo, Nogueira da Silva, grav. Coelho Junior, 1859.
Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

Lisboa, a morgada, não tem mais escondida, em sombra e fabulas a sua origem, de que. Almada a sua. 

Sôa porém, e se crê, haver esta sido fundada imoles inglezes de Guilherme de Longa-espada, do quem D. Afonso. Henriques se ajudou no arrancar Lisboa oro mouros; e que nome de Amada lhe ficara por corrupção de Vimadel; que na linguagem de então significava povoado grande; nome que da terra se pegou a um nobre seu morador, de quem descende, ao que rezam genealogicos, a esclarecida familia dos Almadas; ainda que outros querem que Almada se appellidasse o sitio, por ser esse. ou com esse parecido, o nume de um arabe (Almades ou Almadão) que alli dominava. 

Conjectura-se todavia que a primeira fundação do logar fôra muito mais antiga, existindo já elle em tempo dos romanos dos romanos com a denominação Caetobrix ou Caetobrica. 

Em nossos dias, na guerra civil em que se pleitearam e sentenciaram a final os direitos da dinastia representou Almada e Cacilhas, que sob dois nomes são uma e mesma povoação, um papel que a historia, seja quem for que a escrever, ha de sempre qualificar por guapamente heroico: d'alai arrancou vôo de águia sobre Lisboa o duque da Terceira, coroando-se com a mais brilhante fortuna a temeridade mais inaudita. 

Ares puros, aguas doces e salubres, abundância de todo o necessario, prospectos infindos terras e mar, tornam Almada sitio mui cobiçado para saude e para regalo, é para as calmas do verão um suplemento de Cintra, se o póde haver, e com duas vantagens: a da economia e da facil e continuada comunicação com Lisboa, por via dos vapores que sem descanso, vão e vêm.

Possue também a sua gloria literária: alli nasceu, viveu, se finou, e jaz sepultado o nosso poeta latino Diogo de Paiva de Andrade. (1)


(1) Archivo Pittoresco n.° 37, 1859

sexta-feira, 25 de março de 2016

O dragoeiro

No Jardim Botânico da Ajuda havia um dragoeiro de tamanho desconforme, e cuja sombra era propicia aos idyllios.

Lisboa, Vista do Paço da Ajuda, Louis Lebreton, c.1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Um dia a Bella Infanta abrigara-se de um aguaceiro n'aquelle asylo de Vénus com o moço inglez.

Princesa, Maria da Glória, futura rainha D Maria II, 1833.
Imagem: Wikipédia

De súbito apparece o jardineiro. O inglez tirou do bolso uma pistola e ia a desfechar com elle quando a Infanta, n'um bom impulso, lhe teve mão. O jardineiro, nos meus primeiros tempos da Ajuda, seria homem dos seus sessenta annos, e contava o caso a toda a gente.

Vista de Lisboa — Tejo e Palácio da Ajuda, Isaías Newton (1838-1921), 1859.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Garrett, passando o verão de 1849 na casa de Herculano, improvisou a lápis, debaixo da sombrio dragoeiro, os versos das "Folhas cahidas" que se intitulam: "Gôso e Dôr". (1)

Na tapada d'Ajuda, Arthur Loureiro, 1879.
Imagem: Hemeroteca Digital

Se estou contente, querida,
Com està immensa ternura
De que me enche o teu amor?
— Não. Ai! não; falta-me a vida,
Succumbe-me a alma a ventura:
excesso do góso é dor.

A Ajuda vista das Necessidades, Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Doe-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua belleza,
Nào sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

Paisagem e rio Tejo, Isaías Newton (1838-1921).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

É que não ha ser bastante
Para este gosar sem fim 
Que me inunda o coração.
Tremo d'elle, e delirante
Sinto que se exhaure em mim
Ou a vida — ou a razão... (2)

O Tejo visto do Alto da Ajuda, Casimir Leberthais (????-1852).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Quantos suspiros de amantes não terá ouvido o monstro vegetal! (3)

Dracaena draco do jardim do Paço Real d'Ajuda, 1879.
Imagem: Mãos Verdes


(1) Bulhão Pato, Memórias Vol. III, Quadrinhos de outras éphocas, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1907
(2) Almeida Garrett, Folhas cahidas, Lisboa, Em casa da viúva Bertrand e filhos, 1853
(3) Bulhão Pato, Idem

Informação relacionada:
Archivo Pittoresco, n.° 27, 1862

Archivo Pittoresco, n.° 28, 1862

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Nas arribas do mar

Na margem esquerda, encontra-se a modesta estação da Trafaria, ao mesmo tempo povoação de pescadores. Bulhão Pato, que habita perto d'ahi, em Caparica, dá-nos uma viva descrição de uma pesca de sardinha, cheia de pitoresco local. (1)

O poeta Raimundo Bulhão Pato,
Miguel Angelo Lupi, c. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

Há dias, abrindo o jornal — "A Caça" — deparou-se-me um artigo intitulado: Législation sur la chasse. Dizia: ..."Je revois encore les dunes sauvages qui s’étendent de Trafaria à Costa, où j’ai fait ma première chasse avec Bulhão Pato; les rizières et les côtes boisées du vallon d’Apostiça, etc."

O artigo era de Sampayo Osborne, que esteve em Portugal cerca de 25 annos; rapaz muito intelligente, illustrado, da família do conde da Povoa e primo da casa Palmella.

Caçador de sangue. Um desastre varou-lhe com um tiro, em França, uma das mãos, não sei se a direita, se a esquerda. Continuou, apesar d'isso, a ser espingarda de primeira ordem e, o que é mais, ao piano primoroso artista.

Durante largo tempo bateu as tapadas e montados com os reis do throno e os reis da caça. É provável que não o torne mais a vêr. D'aqui lhe envio um cordial e saudoso aperto de mão.

Em 1859 José Augusto Sacotto Galache e eu principiámos as nossas caçadas no Juncal da Costa. Pelas arribas as perdizes saltavam aos bandos; na planura as codornizes, as narcejas e outra caça de arribação abundantíssima. Vivíamos em Buenos-Ayres [à Lapa, Lisboa].

Vista do Tejo e da Torre de Belém tomada da legação britânica,
George Lennard Lewis, 1880.
Imagem: Sotheby's

No inverno, noite ainda, Lourenço da Pinha estava no caes de José António Pereira [freg. de Santos-o-Velho, anterior ao aterro da Boavista, actual Beco da Galheta], com os seus três filhos: o mais velho José, o segundo João, o terceiro Francisco, este muito mocinho ainda para as fainas da travessia do Tejo, às vezes bravias. 

É piloto da Barra há já muitos annos. Lourenço da Pinha nascera em Olhão, terra de marítimos, que folgam com o esbravejar das ondas como as aves marinhas.

Moço, veio para Belem e, ora com a mão no leme e na escota, ora no punho do remo, sempre de ânimo folgazão, coartada pronta e verboso como algarvio, lá foi mareando o barco, sustentando a mulher e criando os filhos.

Torre de Belém,
Frank Dillon, 1850.
Imagem: BBC Your Paintings

Morreu há bastantes annos, mas por todo o bairro de Belem e por todo este almaraz lhe relembram o nome honrado e benquisto.

José Augusto Galache, sem jactâncias nem farroncas, era um rapaz que não tinha medo do diabo à meia-noite. Agora lá está na sua propriedade do Freixo, ao pé de Valle de Lobos, tratando da sua lavoira, beijando a terra para manter as forças, sempre jovial e gentil-homem. 

A bravura e galhardia do cabo de forcados nas toiradas de amadores no Campo de Sant'Anna foi tal que ainda hoje corre na lenda entre os novos.

Um dia, em Dezembro, véspera de Nossa Senhora da Conceição, embarcámos, noite cerrada ainda, com Lourenço e seus dois filhos mais velhos. 

Lisboa, Sol Nascente,
Ivan Aivazovsky, 1860.
Imagem: WikiArt

Tempo sêcco, sem vento, e intensamente frio; a geada caía em carambinas. Proa ao Torrão. Lourenço da Pinha, expansivo, animava os filhos:

— Vamos, rapazes, de voga arrancada, que é para aquecer.

Havia águas de monte e o barco, mal clareando, abicou defronte da Quinta do Miranda.

Os dois rapazes acompanharam-nos, e o pae ficou guardando o barco à nossa espera. Os terrenos planos e à beiramar do Juncal eram lenteiros, enchabocados, como dizem os homens do campo e os caçadores. 

Nós tínhamos dois cães soberbos: o Black de José Augusto e o meu Faliero. Ambos muito bem parados, cobrando de ferido, e trazendo à mão toda a espécie de caça.

Depois do ímpeto da primeira batida sentámo-nos num médão de areia, acudimos ao almoço, que vinha nas redes, e matámos a fome. Engolfámo-nos Juncal dentro. Quando demos por nós estávamos muito adiante das barracas da Costa.

Costa da Caparica, Praia do Sol, cliché João Martins, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

O estômago não tinha a mais leve memória do almoço; a ambição de caçar no dia seguinte não nos mordia menos de que o apetite voraz. Resolvemos ficar; mas ficar aonde e comer o quê? À sorte.

Entrámos na povoação. Tudo choças de colmo; muitas levantadas sobre o arcaboiço de um velho barco. 

Uma casa de um só andar, com armas reais, bojudas como o abdómen do ladino e bondoso monarca D. João VI, que foi alli por mais de uma vez. De pedra a cal meia dúzia de casitas mais, quando muito. 

Íamos andando por aquele labyrintho de cubatas e à porta de um ferrador demos com uma rapariguinha dos seus dez annos, de cara insinuante, vestido de chita, meias muito brancas, socos, cabello em trança e bem tratado.

— Ó pequena, olha lá. Haverá aqui alguma casa onde se possa ficar e se coma alguma coisa?

— Pois não há, meus senhores!... É a tia Maria Rita do Adrião — acrescentou, dando à sua voz crystallina certa expressão que indicava a grandeza da personagem a quem se referia.

Levou-nos à tia Maria, e tal foi o agasalho que por mais de trinta annos frequentei aquela casa com o melhor dos meus amigos. 

A Claudina, a rapariguita que fora a nossa salvação e a nossa guia, passados tempos casou e, já mãe de filhos, depois de eu estar n'este Monte, morreu, coitada, de uma pneumonia. 

Maria Rita do Adrião vive ainda; há dois annos que veio visitar-me, na sua burrita, muito lépida, com os seus noventa e três. 

Costa da Caparica,
Alfredo Keil (1851 - 1907).
Imagem: Palácio do Correio Velho

Teve sempre boa estrella; até na sua visita a minha casa o azar apenas lhe deu um rebate falso. Quando voltava para a Costa perdeu um objecto de certo valor, creio que um brinco, que mão piedosa achou e foi logo anunciar no Século.

Caparica, convento de Santo António,
Alfredo Keil (1851 - 1907).
Imagem: Rui Manuel Mesquita Mendes

Depois de devorarmos o jantar e pelos barqueiros mandar aviso aos nossos, sol alto ainda, sahimos até à praia. Era véspera de Nossa Senhora da Conceição, a grande festa annual da terra. 

Os habitantes é que estavam descoroçoados e tristes; a sardinha, a famosa sardinha da salga, não tinha dado nada ou quase nada. Mais uns dias de escassez e lá se iam as esperanças... o pão por muito tempo! 

Mar calmo. Na crista dos médãos, homens, mulheres, rapazes, mudos, immoveis, olhos cravados na companha, que lá muito ao largo vinha regressando. 

De manhã os alcatrazes [gansos-patola], de aza fechada, cahindo do alto como raios, picavam a flor das águas, indício de  grandes negras de sardinha. Pelo cariz do tempo, o lanço devia de ter sido grande. Chegaria a salvamento ou rebentaria o sacco?!

Silêncio profundo nos de mar e nos de terra. O silêncio é signal certo de grande preoccupação de espírito nos moradores de povoações marítimas, tão vivos e loquazes.

Ao rés do mar grandes grupos moviam-se visivelmente inquietos. Com o sol, que já no ponente batia o areal, aquelas figuras pareciam tomar proporções gigantescas, cingidas de nimbos de oiro. 

Costa da Caparica, Praia do Sol, cliché João Martins, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

O sol, as montanhas, o mar, as soberbas e solemnes paizagens, em vez de apoucarem o homem, engrandecem-no. 

Numa linha de fortificações ondulada de montes e crespa de píncaros, antes de romper o assalto, os ajudantes-de-ordens, cruzando-se na carreira, a dois exércitos podem afigurar-se hipogrifos phantasiados pela veia fecunda de Boiardo ou de Ariosto [in Orlando Innamorato e Orlando Furioso resp.].

A paizagem parece dar e receber, às vezes, commoções trágicas. O facto é que exerce nos espíritos acção profunda, embora ignota. Uma tempestade, nas serranias ou no oceano, improvisa heroes, como os relâmpagos das espadas e o trovão das baterias no campo da batalha.

À beira de água principiou a correr um torvelinho, levantando pyramides de areia. De repente uma lufada súbita correu violenta.

Os prodromos do furacão têm rugidos dolorosos como os do leão na entrada da febre. Daria numa tempestade? Quantos corações ficaram apavorados em tal momento!

Os barcos aproximaram-se de terra. A multidão silenciosa. A vaga alta como de mar movido ao longe, embora não arrebatada. Num ai tudo salvo ou tudo perdido!

O sacco... a montanha de prata, estava a salvamento na praia. Raros olhos ficariam enxutos vendo rebentar a alegria d'aquelle povo!

Costa da Caparica, Praia do Sol, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

O sol, disco de fogo, tocava a superfície das águas, que serenavam, passada a borrasca ephemera, permitindo que olhos humanos se cravassem no seu ocaso esplêndido.

Em breve a linha arenosa e já desmaiada, que segue até o Cabo, a bahia de Cascais, os picos de Cintra, os montes e povoações do norte, o Tejo dormente, desvaneciam-se no breve crepusculo das tardes de inverno.

O pharol do Espichel, girando as suas aspas de fogo intermittentes, parecia abrir sulcos luminosos pelo mar levemente enrugado. 

Bugio e São Julião accendiam-se. As estrellas estremeciam no firmamento límpido. Noite coroada de lumes.

Bugio e Forte de São Julião da Barra.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

A aragem era um alento virgínio, e a vaga na praia um suspiro amoroso. As redes voltaram ao mar. A companha bradou a uma voz:

Bulhão Pato,
Columbano Bordalo Pinheiro, 1883.
Imagem: MNAC

— Avé, Maria puríssima! (2)



(1) Teixeira Judice, Antonio Arroyo, Notas sobre Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908
(2) Bulhão Pato, Raimundo António de, Memórias, Vol. III, Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciencias, 1894


Artigo relacionado:
O Juncal

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A falua do Bugio

José António Rocha casou com D. Ermelinda Maria Madalena Lopes Rocha, neta do muito conhecido e não menos famoso "patrão Lopes", de Paço de Arcos, de cujo matrimónio houve os seguintes filhos: João, Manuel, Domingos, José António Rocha Júnior, Carlos, Ermelinda, António, Ana, Vasco e Quirino; (1)

Trafaria, Vista parcial e estrada da Costa, ed. J. Quirino Rocha, 2, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Joaquim Lopes (1798-1890)

Nem só os homens que illuminam o mundo com descobertas scientificas beneficiam a humanidade. Eguaes, se não superiores, serviços prestam tambem aquelles que enxugam as lagrimas dos desgraçados, e salvam os afflictos dos perigos que os roubariam á vida, ao amor, e á felicidade da familia. Estes, além de admirar a intelligencia pela raridade da abnegação e heroicidade da coragem, tocam e purificam o coração [...]

Patrão Lopes, Archivo Pittoresco, 1859.
Imagem: Hemeroteca Digital

Grande satisfação é ver correr o nome nas azas velozes da fama por todo o orbe terrestre; mas muito maior deve ser a que se experimenta ao sentir o peito banhado pelas lagrimas e fervorosamente apertado pelos abraços do reconhecimento de um homem que nos agradece a salvação da sua vida e do amor, porque toca os extremos do gozo espiritual, e é filho da maior homenagem que se pôde prestar a um ser humano, que o assimila a Divindade. Deixando-nos, pois, guiar pela gratidão e pela justiça, traçamos o retrato biographico do humanitario Joaquim Lopes.

O intrepido maritimo, o ousado nadador, e inexcedivel amigo da humanidade, que tantos naufragados ha salvado das ondas famintas que banham os escolhos da barra de Lisboa, nasceu em Olhão a 19 de Agosto de 1798, e é filho de Francisco Lopes, pescador e de Rosa Maria.

Aos seis anos de edade entrou na eschola, onde prendeu a ler e escrever, como se póde aprender uma eschola em Olhão. Como, felizmente, ainda não chegou aos pescadores a monomania de metter os filhos na universidade e Coimbra, e quando mesmo houvesse chegado, lhe faltariam os meios, o nosso joven algarvio saiu, aos dez annos, da eschola para cultivar com seu pae arte da pesca, onde, mais tarde, devia adquirir esse ;afiliar conhecimento da barra de Lisboa, a que desde o triumpho dos  nobres arrojos que o recommendam á gratidão da humanidade.

Naufrágio de embarcação com bandeira portuguesa, Luis Ascêncio Tomasini (1823 - 1902), 1880.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

N'esse tempo, Joaquim Lopes não pensava senão em ser pescador dos largos mares, e, sobre tudo, rico. Porque mui pouco lucrativa era a pesca nas costas do Algarve, pediu a seus paes que o deixassem ir exercel-a em Gibraltar, para onde, com effeito, partiu; mas, tendo-lhe a sina decretado á nascença lhe só seria rico e bem succedido pelos dotes inexcedivelmente elevados do seu coração e da sua alma, não foi ahi mais feliz, e regressou á patria, mallogrado nos seus intentos, 11 mezes depois.

Então, parece que a Providencia, querendo representar-se por um homem nos perigos que as tempestades arrojam á barra de Lisboa, o aconselhara a ir para as canóas de pesca de Paço d'Arcos. Foi n'estas canóas que Joaquim Lopes, dotado do nobre estimulo da distincção pelo proprio merito, fez, como elle diz, um estudo particular da barra, e se tornou, em mui pouco tempo, o mais profundo conhecedor dos baixos, chamados cachopos, que a marginam.

Paço d'Arcos, Vista parcial, ed. Alberto Malva/Malva & Roque, 113, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Estamos ás portas d'esse futuro que abriu ao nosso vencedor das tormentas uma vida, não de interesses materiaes, mas de triumphos e glorias. Tão honrado, affavel, sincero e leal para com seus companheiros, quanto intrepido e habilidoso na navegação da barra, Joaquim Lopes conquistou de rapido um nome duplamente prestigioso, e, em breve, pela fama, o procuram para remador da falua do Bugio, lugar que acceitou em 1820.

A datar d'esta epocha não temos a folhear na sua vida senão paginas de amor e heroismo. A primeira que a sua humanidade e coragem lavraram foi em 29 de julho de 1823.

Assistia Joaquim Lopes a uma funcção religiosa na quinta do Arieiro, proxima ao rio da praia de Oeiras, o qual, n'esse dia, por ter a bocca obstruida pelas areias, formava pela terra dentro uma larga lagoa, em alguns pontos caudalosa, quando sentiu um grande alarido entre o povo, e, attentando, viu que era por causa de um homem que, atravessando a dita lagoa com um rapaz, seu irmão, ás costas, e, tendo-lhe faltado pé, largara a pobre criança, para só tratar de salvar-se.

— "Assim que deparei com similhante scena ", diz elle, "parece que a Divina Providencia me deu um rasgo tão forte no coração, que mesmo vestido e calçado me lancei á agua, e fui na direcção do desgraçado mancebo."

Inda assim, todos reputaram perdida a victima, quando a viram afundar-se. Mas Joaquim Lopes não descrê: prosegue com mais velocidade, ganha n'um momento a distancia de uns trinta passos, que tanto faltava para chegar ao logar fatal, e ali desapparece. Succedem alguns instantes de pavoroso silencio, durante os quaes o grito da consternação pende, apenas, dos labios dos espectadores receiosos. 

De repente, dois vultos assomam ao lume d'agua: é Joaquim Lopes que, segurando com o braço esquerdo a criança, ja meia moribunda, nada para a terra com o fogo da alegria scintillando-lhe nos olhos! 

Não termina, porém, aqui, esta verdadeira epopéa. Depois dc ter posto o infeliz em terra, lança-se outra vez ao rio para salvar o outro, prestes a afogar-se lambem; e, não obstante haver excedido as forças, o estorvo e peso enorme que o fato encharcado lhe o seu nado é ainda ligeiro, activo, veloz. 

O resultado não foi menos triumphante, e, a uma hora, Lopes volvia a folgar na festividade, por entre os abraços freneticos dos seus amigos e enthusiasticas saudações do povo. 

Folheemos.

Pouco tempo depois, estando o nosso heroe na torre do Bugio, uma onda envolve um cabo de artilharia que passava de uma cabeça d'areia para a fortaleza.

— "Joaquim Lopes! Joaquim Lopes!"

Foi o brado de soccorro que a um tempo rebentou logo nos labios de seus companheiros. Tão expedito na reflexão, como corajoso e humano, Joaquim Lopes toma immediatamente um cabo, deixa uma das pontas d'este nas mãos dos seus companheiros, lança-se ao mar, e, conseguindo segurar a victima, amarra-a por debaixo dos braços, grita aos collegas que a puxem, e amparando-a, ao passo que nadava, assim consegue salval-a. 

Pela mesma forma livrou do abysmo das ondas, em 1828, um sargento de veteranos, por nome Francisco de Sales.

A 18 de maio de 1833 fallece o patrão da falua. Segundo a lei, o logar pertence ao mais antigo dos remadores; mas sendo estes chamados pelo governador para darem o seu voto sobre o novo patrão, a eleição recae unanime e acaloradamente sobre Joaquim Lopes, não obstante ser o mais moderno. 

Falúa, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Esta rara cedencia dos direitos adquiridos significou como a consagração da alliança das forças para emprehender os actos de incrivel coragem e temeridade, cujos principaes vamos admirar. 

Em 16 de fevereiro de 1856, ás tres e meia horas da manhã, encalha, no baixo de Alpeidão, a escuna ingleza Howard Primrose Primrose.

O mar debatia-se horrivelmente, e parecia querer, no galgar furioso das suas vagas, engulir as proprias nuvens, que pela atmosphera corriam, como se fugissem, com a velocidade do raio. Quando as torres davam o signa] de soccorro, já o intrepido Joaquim Lopes, que está constantemente com um oculo, qual sentinela vigilante da humanidade, a revistar da sua casa, d'onde descobre a barra toda, os perigos que ahi, auxiliados pela violencia da tempestade, esperam, traiçoeiramente occultos nas ondas, o perdido navegador, exclamava á guarnição da falua:

— "Vamos salvar nossos irmãos! O mar é muito! mas os homens inspirados pelos sentimentos de Deus tem tanta força como elle!" E, largando de Paço d'Arcos, ia caminho do sinistro. Mas, chegados ahi, uma dificuldade invencivel zomba d'essa força: a falua não pôde navegar sobre o baixo, e, portanto, aproximar-se dos infelizes naufragados que, subidos nas enxarcias, viam,a seus pés, o navio despedaçar-se e absorver-se de mais em mais nas ondas embravecidas, e, a pouca distancia, retirar-se, por impotente, o unico recurso onde haviam chegado a conceber salvação!

Joaquim Lopes recua: por cobardia? desistindo da nobre empreza? Não! O nosso heroe não teme a morte; ao contrario, vae a Paço d'Arcos buscar um pequeno barco de pesca seu, que, suppõe, poderá navegar sobre o baixo, para de novo e decididamente affrontal-a.

Embarcação portuguesa com velas latinas, Lisboa, 1856.
Imagem: Royal Museums Greenwich

— "Partia-se-me o coração de dor," diz elle, "ao ver aquelles desgraçados a pedirem de mãos postas um soccorro impossível, e ao receiar que quando voltassemos houvessem já sido engulidos pelo mar."

Joaquim Lopes retirava, pois, com uma esperança no coração, e ás duas e meia horas da tarde, volvia no seu barquinho de pesca em demanda dos infelizes. Quando chegou, ja estes, agarrados aos fragmentos do navio, andavam á mercê das vagas.

— "Que é isso!" exclama elle aos seus camaradas, vendo-os empallidecer; "não é este, nem dobrado deste mar, que nos ha de metter a pique. Onde está o perigo é alli," prosegue apontando para o  logar fatal ; "alli é que estão doze horas de agonia, e, dentro em pouco, uma morte irremediavel! Avante! Pois. Nossa Senhora da Guia está-nos vendo. Ou morrermos todos, ou um nome eterno para os valentes que salvarem aquelles tristes!"

O patrão da falua do Bugio é tão eloquente como arrojoso e humanitario. O leitor já observou, por certo, que em vinte volumes de sessões da camara dos deputados ou dos pares, não se encontram dez discursos que valham uma d'estas brevissimas exhortações. Aquelle brado foi intensa faisca de lume que cegou os olhos do temor, e incendiou a energia, quasi desfallecida, da coragem.

Agora o leve barquinho não fende, vôa por sobre as ondas. De quando em quando desapparece entre uma nuvem d espuma; mas esta desfaz-se rapidamente ao sopro desenfreado do vento, e o barquinho torna à deixar-se ver, galgando com mais velocidade o cume das vagas. Nossa Senhora da Guia está, por certo, com elles, porque o valor com que se immergem no seio do perigo, e conseguem arrancar-lhe as presas, tem alguma cousa de sobrehunano.

Ás quatro horas eslava salva a guarnição da Primrose Primrose, composta de capitão e cinco marinheiros.

As primeiras das condecorações que hoje cobrem o peito generoso do ousado maritmo, foram devidas a este acto verdadeiramente heroico de coragem e humanidade.

Em março do mesmo anno, Joaquim Lopes ia sendo victima do seu arrojo e humanidade. Tirando debaixo de uma canóa, que se virou na praia da Sardinha, em Paço d'Árcos, um homem que ahi tinha ficado, por tal modo, já nas agonias da morte, se lhe agarrou e fixou nas pernas, pesando-lhe e embaraçando-lhe o nado, que, se não fosse o auxilio dos tres catraeiros que se lançaram logo ao mar, e, firmando-o pelo hombro, o ajudaram a subir para um rochedo, teria infallivelmente succumbido com o naufrago. Por esta acção difficil e arriscada, o premiou novamente a Real Sociedade Humanitaria, com a medalha de segunda classe.

Em 21 de fevereiro de 1858, pelas 8 e meia horas da manhã. encalha uma outra escuna ingleza, a British Queen, no fatal baixo de Alpeidão. Apenas as Torres dão o signal de soccorro, Joaquim Lopes convida os seus companheiros a seguil-o, e, embarcando na sua abençoada canoasinha de pesca, parte em demandados naufragados. D'esta vez, a sua piedade não é tão feliz, porque o navio submerge-se todo de um só jacto, quando os ousados barqueiros tentavam aproximar-se d'elle pela terceira vez; mas ainda conseguem salvar o capitão, para o qual milagrosamente se desprendeu uma verga onde se agarrou. Como o estado do naufrago reclamava promptos soccorros, fez-se, com graves riscos, caminho da torre do Bugio.

Chegado, porém, ahi, um vulto negro se descobre no logar do sinistro.

— "Naufrago!" gritam todos.
— "É um cão" , diz um.
— "Eia!" exclama Joaquim Lopes, "aquelle tambem tem vida, e é o antigo mais fiel do homem!"

E, lançando-se de novo ao abysmo, que por duas vezes quasi lhe ia sorvendo a fraca embarcação, salva esse fiel amigo do homem. Joaquim Lopes tem uma alma e um coração grandes por excellencia. Um homem d'estes nada tem a invejar aos outros: deve viver contente, satisfeito, alegre de si proprio. Em si tem a virtude, na virtude tem o merito, no merito tem a honra: n'esta virtude, deste merito, n'esta honra, gozos raros e inexcediveis para o espirito.
Joaquim Lopes! ao traçar d'estas linhas, envio-te, nas azas do pensamento, um abraço enthusiastico!
O governo britannico condecorou pela segunda vez o nosso heroe com a medalha de oiro, e os remadores com a de prata.

Ultimamente, pela occasião do naufragio do brigue francez Esthefanie Stéphanie, no qual Joaquim Lopes salvou tres marinheiros, alguns jornaes lembraram ao nosso governo um distinctivo mais honroso, para galardoar os serviços d'este homem. Que anachronismo!

Barcos no Tejo, Luis Ascêncio Tomasini (1823 - 1902).
Imagem: Palácio do Correio Velho

Oxalá que a lembrança continue a ficar no esquecimento; que esse ou outro distinctivo mais honroso não vá manchar o peito, onde o coração pulsou sempre pelo santo amor da humanidade. Se, porém, os nossos governos, que, sobre tal assumpto, com tanto siso hão andado, se decidirem a lavrar mais esse disparate, d'aqui reiterámos ao benemerito Joaquim Lopes os rogos que, em nome da dignidade das suas virtudes, lhe fizemos quando tivemos a boa fortuna de o conhecer pessoalmente, e a honra de nos acceitar como seu amigo.

Rejeite!

Na verdade, não chegámos ainda aos tempos das ordens de cavallaria approvarem o uniforme da jaqueta; e em quanto esperámos por elles, não confundamos os benemeritos com muitos parvos e malvados.

Joaquim Lopes conta perto de 59 annos, e, apesar d'esta edade, já não pouco avançada, nem propria para temeridades, continua a affrontar os perigos com o mesmo denodo e pericia que desenvolvia aos 30. Só tem de velho os cabellos e as rugas.

Talvez seja por isso que o governo o não tenha reformado, conservando-lhe o ordenado, e garantindo-o a sua mulher, no caso d'esta enviuvar, como já por vezes, com tanta justiça, ha pedido.

Homem privilegiado por Deus tem na fronte estampadas as virtudes do seu coração e a historia da sua vida. A extrema brancura de sua pelle, sua testa espaçosa, seus labios estreitos e cerrados, a penetração de seu olhar, o intumescimento rosado de suas palperas, revela-nos logo o homem que ha passado a sua vida mais banhado pela agua do que pela luz solar; o homem cujo cerebro se move e anima pela inspiração; o homem que, firme e ousado nas suas concepções, não afraca nunca perante o medonho aspecto dos perigos; o homem que, de um só golpe de vista, abraça e resolve as dificuldades; o homem, finalmente, que ha repetidas vezes vertido esse pranto de alegria que assoma aos olhos nos triumphos ganhos pelo amor da humanidade.

Mas o retrato de Joaquim Lopes desenha-se em menos palavras: é a Providencia dos naufragos na barra de Lisboa. (2)

Wilk Wieslaw, óleo sobre tela.
Imagem
Wilk Wieslaw no Facebook

A morte prostrou, finalmente, o benemerito homem do mar [...]

Quando olhavamos para esse velho, de corpo já alquebrado pelos 91 annos, mas em cujo espirito apparecia ainda de vez em quando umas chispas do antigo fogo, sentiamos um indizivel prazer, lembrando-nos de que elle era um dos poucos cujos serviços tinham sido moral e materialmente recompensados. Ainda n'este mundo não é tudo ingratidão e egoismo.

A sua casa estava toda cheia de commemorações dos seus actos de philantropia. Tinha cheias as paredes de diplomas conferidos por sociedades humanitarias portuguezas e estrangeiras, de quadros com as suas medalhas, nada menos de dez, de ouro e de prata, cada uma das quaes commemorava uma das suas luctas com o mar, luctas das quaes sabia sempre victorioso. Em uma lapide que os seus admiradores, srs. marquez de Fronteira e conselheiro Thomaz Ribeiro, lhe mandaram collocar na frontaria da casa, leem-se dois versos que bem o mostram.

"Ganhou que as trás ao peito, hábitos e medalhas,
não a matar irmãos, mas a rasgar mortalhas."

Era official da Torre e Espada e tenente honorario da marinha real, com o soldo correspondente.

O Patrão Joaquim Lopes morava em Paço d'Arcos numa casa terrea do lado esquerdo da estrada, junto ao posto fiscal. A casa, de pobre apparencia, tem para a estrada a porta de entrada e uma janella. Entre a porta e a janella uma lapide, coberta de crepe. Na casa da entrada uns homens collocavam a um canto tabolleiros com archotes e peças de pano preto que estavam sendo descarregadas d'uma carroça que viera de Lisboa.

A casa de Patrão Lopes no dia do funeral, rua Direita em Paço d Arcos, Revista Illustrada.
Imagem: Vila de Paço de Arcos

Á direita uma porta que dá ingresso ao quarto onde morreu o valente marinheiro. É uma casa sobre o comprido, com uma porta ao fundo. Encostada a uma parede uma pequena commoda tendo em cima um crucifixo e 2 castiçaes. Dependurado da parede, n'um pequeno caixilho dourado, viam-se as medalhas que em tempo conquistou, 3 d'ouro e 4 de prata, nacionaes e estrangeiras; o fallecido tinha mais 3 inglezas que as devolveu ao ministro inglez em janeiro d'este anno.

Em frente da porta vimos uma pequena cama de ferro bronzeado, onde jaz o cadaver coberto por um lençol.

Vimol-o. Está fardado com o seu uniforme de official de marinha ostentando os galões de 2.) tenente. (3)

O funeral de Joaquim Lopes foi urna verdadeira demonstração publica do alto apreço em que eram tidas as suas excepcionaes qualidades.

Flotilha do funeral.
Imagem: Hemeroteca Digital

A ellas se associou desde o chefe do Estado, que mandou o seu yacht Amelia seguir na esquadrilha, até ao mais humilde filho do povo que se encorporou no funebre prestito. 

O dia estava chuvoso e de vento rijo. Era a tempestade que saudava com os seus roncos ferozes, o cadaver d'aquelle que tantas vezes a vencera.

Em Paço d'Arcos juntaram-se os vapores Victoria, Relampago, Marianno de Carvalho e Lidador que rebocava o Salva Vidas em que foi conduzido até ao Arsenal o cadaver de Joaquim Lopes.

O cortejo fúnebre sobre as águas do rio Tejo.
Imagem: Navios e navegadores

Os srs. Antonio Ennes, ministro da marinha, Marquez de Fronteira, duque de Palmella, Francisco Costa, Jayme Arthur da Costa Pinto e o sr. presidente da camara de Oeiras e João da Cruz empregado do Salva Vidas, pegaram ás borlas do caixão, desde a humilde casa de Joaquim Lopes até ao embarque no Salva Vidas.

A fanfarra de Oeiras seguia o prestito tocando uma marcha funebre a que o sibilar do vento e os bramidos das ondas faziam um singular acompanhamento. No mar a viagem foi difficil e só pelas quatro horas da tarde chegou ao Arsenal o fluctuante cortejo.

No Arsenal foi feita a encommendação do corpo na capella de S. Roque, e depois o cortejo seguiu para o cemiterio Occidental, sendo o feretro transportado em uma carreta conduzida por bombeiros e marinheiros, que assim prestavam homenagem ao valente humanitario.

No prestito iam os cavalheiros que já mencionámos e os srs. Thomaz Ribeiro, ministro das obras publicas, Marianno de Carvalho, Baptista de Andrade, Eduardo Pinto Basto, alumnos da Escola Naval, jornalistas, corporação dos carteiros, bombeiros da Imprensa Nacional com uma corôa, escola Fernandes Thomaz, banda Guilherme Cossoul, e muitos cavalheiros de distincção que todos esperavam o cadaver no Arsenal.

O povo aguardava nas ruas a passagem do prestito ao qual se reunia engrossando o cortejo. No cemiterio estava uma força do regimento de caçadores n.° 2 para prestar as honras militares e a charanga da armada.

Patrão Joaquim Lopes.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Era já noite quando se concluiram as ultimas ceremonias frouxamente illuminadas pela lua, encoberta a espaços por formidaveis nimbos que se esfumavam no firmamento. A tempestade fazia o seu cortejo ao que ali ficava descançando em paz. (4)


(1) Soares, Manuel Lourenço, Trafaria e sua toponímia, subsídios para a sua história, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1986
(2) Silva, Nogueira da, Archivo Pittoresco, vol. II n° 27, 1859
(3) Diário Illustrado, 22 de dezembro 1890
(4) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 433, julho, 1891

Informação relacionada:
Caxinas... de "Lugar" a Freguesia
Os bardinos
Navios e navegadores