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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

J. Marciano, Tanoaria e Estabelecimento de banhos no Ginjal

É um cidadão duma gordura hyperbolica o meu amigo J. Marciano. Antes do alvorescer da mocidade, já elle movia entre as mãos infantis arcos e aduelas. A julgar pelos seus olhos pequenos e vivos, que ainda hoje scintillam de alegria e bom humor, devia ser um rapaz endiabrado. Com o tempo e o trabalho o corpo, na sita forte musculatura, engrossou de tal sorte, como que avolumando-se segundo a forma dos productos da sua industria, que hoje parece um pequeno tonel. 

Cais do Ginjal, Óleo, Alfredo Keil
Casario do Ginjal



J. Marciano, porém, apesar da grande materia ponderavel, que a natureza houve por bem justapor em camadas adiposas á sua estructura, conserva ainda uma grande agilidade do movimentos, é sempre o primeiro a apparecer na sua tanoaria, onde trabalham dezenas de operarios, e nunca o sol ao nascer o apanhou na cama.

É um gosto vêl-o. em mangas de camisa, ao raiar d'alva, defronte d'esse bailo horisonte do Ginjal, que tem por fado as dentadas ameias graníticas da serra de Cintra, e no primeiro plano a magnifica foz do Tejo cristalino, é uma delicia vêl-o a destacar-se na penumbra crepuscular como um collosso de bronze, porque elle é trigueiro como um Beduíno. 

Dá as suas ordens a sessenta, oitenta, cem operarios, e toda aquella engrenagem viva de intelligencia  e vontades entra em movimento methodico, regular, preciso, como as rodas d'uma machina. É sobretudo distincto como elle mantem a desse o modo, a disciplina do trabalho. 

Nunca, no meio de tantos operarios, e n'um dos lugares mais afastados do centro do povoado, houve a minima desordem. Os operarios de J. Marciano seguem o exemplo do patrão; em regra pode dizer-se que são os mais bem comportados de Almada. 

Fabricam-se n'aquella tanoaria toneis dama grandeza collossal ao pé dos quaes o meu é como a cabana do pescador junto do Kremelin, por hypothese.

Já, em noite de borrasca, eu e uma caravana de rapazes fomos surprendidos por um d'estes aguaceiros de verão, que despejam sobre as cabeças torrentes de chuva em que se rasgam as cataratas do ceu; e salvou nos um desses toneis monstruosos, que não tinha ainda os tampos, e em que entramos á vontade, como na Arca de Noé. 

Mas a actividade industrial de J. Marciano não se limita, nem se podia limitar, a fazer toneis. Sendo o Ginjal uma das mais pitorescas margens do Tejo, lembrou-se de construir ali um chalet para banhos. 

Lisboa vista do Ginjal, Alfredo Keil.
Casario do Ginjal

Dito e feito. Tudo o que havia de carpinteiros e pedreiros em disponabilidade no concelho de Almada marchou logo para dar começo á portentosa fabrica, e em menos de tres meses uma longa casaria branca flanqueada de elegantes ogivas envidraçadas, surgia como por encanto sobre a arenosa praia do Ginjal. 

Dentro ha banhos de todas as qualidades, deste a torrente, que e despenha dos altos rochedos, até a simples "douche", desde o banho russo, ou a vapor, até á delicada immersão em urna de marmore em tepida agua perfamada. 

J. Marciano fez e ezornou aquillo com um gosto verdadeiramente oriental.

Avultam as estatuas de alabastro nos mosaicos dos nichos das piscinas; tranças de flores de nacar suspendem da aboboda de crystal petriticações marinhas, conchas das mais bellas reverberações prismaticas, naiades e ondinas, de fôrmas voluptuosas, destacam nadando no ether dos frescos das paredes; plantas aquaticas de largas folhas avelludadas fluctuam em vasos collossaes de porcelana; todo o que o requinte da arte e do luxo póde inventar para deleite da vista o do olfato ali se ostenta como palacio de fadas. 

Por isso tambem os banhos do Ginjal são boje os mais concorridos de damas, donzeis e trovadores. Fazem-se ali n'estes dois meses proximos futuros sonetos, odes e poemas, como nunca os fez a antiga Arcadia Portugueza. 

Vidal já cantou aquella praia em redondiiba maior, e Florencio Ferreira sagrou-lhe na harpa magoada uma das suas mais harmoniosas endechas. 

Vapor da carreira de Cacilhas, 1890, Óleo, Alfredo Keil
Casario do Ginjal



Este anno consta-nos que ha de descer para aquellas bandas do Tejo uma constellação de poetas. J. Marciano recebe-os a todos de braços abertos, e é muito capaz de lhes abrir a torneira da fonte Castalia de qualquer dos seus mais bojudos toneis de Malvasia. (1)


(1) Diário Illustrado, 26 de julho de 1882

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Bombeiros Voluntários do Caramujo

Já está definitamente organisada a companhia dos bombeiros voluntarios do Caramujo. Assim o communicou á Camara Municipal d 'Almada uma commissão nomeada para tal effeito.

Manoel José Gomes & Filhos, fábrica de moagem do Caramujo, nota de divida de 1881 (detalhe).
Imagem: Delcampe

Existe desde alguns meses a associação dos bombeiros voluntarios de Almada, que n'aquella localidade estabeleceu esse philantropico serviço. Tem aquella associação feito successivos exercicios no Alfeite com a bomba ali existente, e deseja augmentar os seus socios para poder realisar com mais vantagem os serviços a que se destina. 

Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo, edifícios de 1864, 1872 e 1889.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

Algumas divergencias, cremos nós havidas na associação, o que são sempre para lastimar, deram logar a que se creasse outra sociedade de bombeiros voluntarios no Caramujo. Parece-nos existir inquieta rivalidade d'esta com aquella sociedade.

Praia do Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

Mas esse sentimento deve ser substituido pelo da confraternidade sincera, se o desejo da nova sociedade, como o da mais antiga, é unica e simplesmente, como deve ser, o de servir a causa da humanidade e da sociedade. Rivalisar só no amor do bem. Fraternidade no exercicio do mesmo apostolado.

Bombeiro em Lisboa,
Typos Costumes Portugueses n.° 41,  João Palhares c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Exclusão absoluta das paixões pequenas, e ávante. (1)
Simbologia dos Bombeiros Voluntário d'Almada, 1882.
Imagem: bombeiros-portugal.net

Do sr. presidente d'esta associação recebemos a seguinte carta a que gostosamente damos publicidade fazendo sinceros votos para que a associação dos bombeiros voluntarios do Caramujo se torne digna pela sua seriedade e pelos seus bons servi ços, da consideração publica.

Eis a carta a que nos referimos:

"Sr. redactor.

A associação dos bombeiros voluntarios do Caramujo, acha-se penhoradissima para com v ., pela noticia inserida no Bombeiro de 15 de junho proximo passado.

Emquanto ás divergencias havidas na associação dos bombeiros voluntarios d 'Almada é na verdade para lastimar que as houvesse, porém d'ellas emanou esta associação que soube á custa de mil sacrificios e prívações e estabelecer no curto espaço de 60 dias a 1.a estação no concelho a que pertence, tencionando no dia 20 fazer a inauguração com a sua machina.

Bomba a vapor Jauck n.° 1.
Consome esta machiina 1500 litros d'agua por miuuto, e o jacto alcança a distancia de 60 metros...
Imagem: O Bombeiro Portuguez n.° 8, 15 de julho de 1282

Sendo effectivamente os socios d'esta associaçãto desprovidos de paixões mesquinhas, trabalhando apenas em prol da humanidade, veem os mesmos demonstrar publicamente que nenhuma rivalidade existe entre esta corporação e os bombeiros voluntarios d'Almada; por isso pedimos á redacção a publicação do presente officio pelo que nos consideramos summamente agradecidos.

Lisboa 11 de julho de 1882.

Sr. redactor do Bombeiro Portuguez.


O presidente, José Maria Subtil d'Andrade" (2)

Piedade, D. Carlos de Bragança 1885.
Imagem: ComJeitoeArte

No dia 23 do passado a Associação dos bombeiros voluntarios do Caramujo abriu a sua primeira estação, na rua de S. Thiago, em Almada, tendo o material necessario para o serviço do incendios. (3)


(1) O Bombeiro Portuguez n.° 6, 15 de junho de 1882
(2) O Bombeiro Portuguez n.° 8, 15 de julho de 1882
(3) O Bombeiro Portuguez n.° 9, 1 de agosto de 1882

Artigos relacionados:
O incendio da fabrica da Margueira
Museu de Bombeiros

Mais informação
Hemeroteca Digital de Lisboa: O Bombeiro Portuguez

[Abaixo publicamos algumas referências cordialmente elaboradas pelo professor Alexandre Magno Flores, relativas à efémera associação dos Bombeiros Voluntários do Caramujo e ao material contido nesta mensagem:]

Para quem estiver interessado em aprofundar a história dos «Bombeiros Voluntários do Caramujo», aconselhamos também a consulta de trabalhos sobre a mesma temática, publicados há vários anos. Registamos, por exemplo, os seguintes títulos: «Bombeiros Voluntários do Caramujo (...)», da autoria de Manuel Lourenço Soares, in "Jornal de Almada", n.º 1687, 25 de Dezembro de 1983, páginas 17 e 18 // «Almada Antiga e Moderna - Roteiro Iconográfico -II. Freguesia de Cacilhas, CMA, 1987, página 108 // «Almada Antiga e Moderna - Roteiro Iconográfico - III. Freguesia da Cova da Piedade, CMA, 1990, páginas 73, 84, 85 e 94 // «Bombeiros do Concelho de Almada (século XIX)», (separata revista e actualizada da publicação periódica «Anais de Almada», 2004-2005, n.ºs 7 e 8, páginas 113-150), da autoria de Alexandre M. Flores, Edição dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas, 2007, páginas 18,19,20,21,22,38,39. Em relação às imagens reproduzidas no texto do «Almada Virtual Museum», importa referir que a foto da "Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo"(de Maria Conceição Toscano) , nos foi cedida pelo por Mário Faria de Carvalho, bisneto do industrial e benemérito António José Gomes, para reprodução no livro «António José Gomes: o Homem e o Industrial (1847-1909)», editado pela Junta de Freguesia da Cova da Piedade, em 1991, na página 30. Quanto à reprodução do «símbolo dos Bombeiros Voluntários de Almada», a imagem foi plagiada por alguém e a colocou no «bombeiro-Portugal.net.», a partir da referida revista cultural «Anais de Almada», 2004-2005, n.ºs 7 e 8, na página 120 // ou a partir do livro, atrás citado, «Bombeiros do Concelho de Almada», 2007, na página 19.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

António Ramalho na praia do Alfeite em 1881

D'entre os quadros expostos pelo sr. Antonio Ramalho, um rapaz que começa, com uma bella arrogancia sustentada por um temperamento robusto d'artista, o intitulado "Praia do Alfeite" (n.° 31) é um dos mais notaveis.

Praia do Alfeite, António Ramalho (Ramalho Junior), 1881.
Imagem: YouTube

Ha n'elle uma riqueza enorme de tons amarellos, largamente espalhados por toda a parte, — nos altos saibros que se levantam pesadamente á esquerda, no areial immenso que vem descendo até ao rio, e ainda em mais saibros que se alastram, lá ao fundo, reflectindo-se fortemente nas aguas quietas.

Praia do Alfeite (detalhe), António Ramalho (Ramalho Junior), 1881.
Imagem: YouTube

Até, uma pobre mulher que está toda curvada para o chão no primeiro plano, sobre a areia, tem uma saia amarella! Entretanto, todos aquelles tons embaraçosos foram achados com uma felicidade rara, excepto o do grande areial, que é alvejante de mais frio.

Praia do Alfeite (detalhe), António Ramalho (Ramalho Junior), 1881.
Imagem: YouTube

As figuras elegantes das banhistas que passeiam na praia, umas de toilettes simples mas vistosas, e com sombrinhas listradas, outras de lucto, funereas, são d'um desenho primoroso ; e o rapazito que sentado na areia n'ella enterra as mãos, entretido e deliciado, é realmente uma nota curiosa diurna observação feliz.

Praia do Alfeite (detalhe), António Ramalho (Ramalho Junior), 1881.
Imagem: YouTube

As aguas, d'um socego somnolento, são soberbamente tocadas, bordadas d'espumas claras e manchadas d'esverdeamentos fluctuantes d'algas. E todo o quadro, com o monte verdejante que, salpicado de casarias brancas, vae subindo, ao fundo, até ao azul sereno da atmosphera inundada de sol, é d'uma perspectiva excellente, e d'um effeito geral esplendido. (1)


(1) O Occidente, n.° 115, 1 de Março de 1882

Artigo relacionado:
Praia do Alfeite e Lavadeiras na Romeira

segunda-feira, 28 de março de 2016

Praia do Alfeite e Lavadeiras na Romeira

D'entre os quadros expostos pelo sr. Antonio Ramalho, um rapaz que começa, com uma bella arrogancia sustentada por um temperamento robusto d'artista, o intitulado "Praia do Alfeite" (n.° 31) é um dos mais notaveis.

Praia do Alfeite — Quadro de Ramalho Junior comprado pelo sr. Dr. Luiz Jardim (desenho do mesmo auctor), 1882.
Imagem: Hemeroteca Digital

Ha n'elle uma riqueza enorme de tons amarellos, largamente espalhados por toda a parte, — nos altos saibros que se levantam pesadamente á esquerda, no areial immenso que vem descendo até ao rio, e ainda em mais saibros que se alastram, lá ao fundo, reflectindo-se fortemente nas aguas quietas.

Até, uma pobre mulher que está toda curvada para o chão no primeiro plano, sobre a areia, tem uma saia amarella! Entretanto, todos aquelles tons embaraçosos foram achados com uma felicidade rara, excepto o do grande areial, que é alvejante de mais frio.

As figuras elegantes das banhistas que passeiam na praia, umas de toilettes simples mas vistosas, e com sombrinhas listradas, outras de lucto, funereas, são d'um desenho primoroso ; e o rapazito que sentado na areia n'ella enterra as mãos, entretido e deliciado, é realmente uma nota curiosa diurna observação feliz.

Na praia do Alfeite, finais do século XIX.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

As aguas, d'um socego somnolento, são soberbamente tocadas, bordadas d'espumas claras e manchadas d'esverdeamentos fluctuantes d'algas. E todo o quadro, com o monte verdejante que, salpicado de casarias brancas, vae subindo, ao fundo, até ao azul sereno da atmosphera inundada de sol, é d'uma perspectiva excellente, e d'urn effeito geral esplendido.

Quadro d'uma execução muito feliz, as "Lavadeiras. na Romeira" (n.° 35). No primeiro plano, ao meio d'um largo prado atapetado de relvas frescas, d'um verde tenro, ha uma grande poça cheia d'aguas ensaboadas, de roda da qual as lavadeiras atarefadas, umas em pé e outras de joelhos, sacodem, ensaboam, e esfregam valentemente as suas roupas, numa faina dura sem duvida alegrada por conversas mexeriqueiras; as figuras rudes d estas mulheres, de mangas arregaçadas, vestidos molhados e lenços baratos de cores diversas na cabeça e nos hombros, são d'um desenho bem indicado, vigoroso; — apenas se pôde notar em algumas d'ellas uma certa transparencia, verdadeiramente inexplicavel. 

Lavadeiras na Romeira, Alfeite — Quadro de Ramalho Junior comprado pelo sr. Pereira da Costa, 1882.
Imagem: Hemeroteca Digital

Á esquerda, sobre uns ramos verdes, estão a enxugar varias roupas, brancas e de côr; depois, estende-se uma espessura de grandes choupos, de ramarias esbranquiçadas e redondas, e por cima d'uns saibros muito escuros que correm a todo o fundo até á direita, perfila-se um canavial extenso, por traz do qual apparecem confusamente manchas irregulares de pinheiros mansos melancolicos.

É um dia de outomno, humido, e a atmosphera um tanto brumosa escorre como que uma penetrante frescura triste.

Arredores de Lisboa: na Romeira próximo da Cova da Piedade — Um lavadouro, 1905.
Imagem: Hemeroteca Digital

Este quadro, tocado com uma espontaneidade soberba, é d'uma impressão profunda, bem sentida pelo artista; e só a franqueza rapida e sincera com que está pintado é que fez que alguns pontos se achem quasi que apenas ligeiramente esboçados,— o que, ainda assim, nada prejudica o çonjuncto admiravel da tela. (1)


(1) O Occidente, n.° 115, 1 de Março de 1882

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A Hollanda

Scheveningue [Scheveningen] é uma das principaes estações da pesca riquíssima do harenque. Mas em Scheveningen, e nas demais aldeias marítimas na Hollanda, assim como na Povoa e na costa da Caparica em Portugal, são os proprietários dos barcos e das redes que empolgam o melhor dos lucros, e o pescador propriamente dito é vilmente explorado pelo empreiteiro.

Scheveningen, cromolitografia, c. 1900.
Imagem: Wikimedia

O bairro dos indígenas é quasi tão pobre, em Scheveningen, a duas milhas da Haya, como na Trafaria em frente de Lisboa. A população tem porém aqui um caracter mais grave, uma apparencia mais austera, porque os homens são verdadeiramente navegadores e não catraeiros como na bacia do Tejo.

Scheveningen. Secagem de solhas, aguarela, Vincent van Gogh, 1882.
Imagem: Wikimedia

Quando chega a estação da pesca, no principio de junho, os de Scheveningen partem para o largo, até os mares da Escossia, n'uma flotilha de solidas embarcações cobertas, largas, de um só mastro, com uma vela quadrada, protegidas por uma corveta de guerra, que as acompanha, representando o governo neerlandez na policia do mar.

Scheveningen. Despedida do pescador, pai e marido, Philip Sadée (1837 -1904).
Imagem: paintings old masters blog

Os harenques pescados vêem em cada dia para Scheveningen, com o demais peixe da costa vendido na praia em leilão, mas a grande companha de pescadores do alto não regressa senão quando a faina termina aos vendavaes do outomno.

Scheveningen. Partida dos pescadores para o mar, Philip Sadée (1837 -1904).
Imagem: Scheveningen Toen en Nu

Esses homens tão valorosos, tão simples, tão despremiados, tão pobres, sabem todos ler e escrever. Levam comsigo, ao partir, uma biblia, que lêem em grupo no convez ás horas da folga, e não bebem senão agua emquanto permanecem a bordo.

Scheveningen. Barcos de peca nas vagas, Hendrik Willem Mesdag,  (1831-1915).
Imagem: Scheveningen Toen en Nu

Quando a tempestade rebenta, e depois de grande luta elles se convencem de que não podem dominar a inclemência do mar, fecham as escotilhas, e immoveis na pequena camara, silenciosos, de mãos debaixo dos braços, esperam heroicamente a morte, ao mesmo tempo que em terra, ao abrigo das dunas em que escachôa o mar, como por traz das trincheiras de uma bateria bombardeada, nas cabanas sacudidas pelo tufão, junto do lar querido, n'um aceio religioso de altar, as mulheres pallidas de terror, cantam os psalmos.

Praia de Scheveningen durante um tempo tempestuoso, Van Gogh, 1882.
Imagem: Wikipedia

Em todo o tempo da pesca ninguém vê em terra um só homem valido.

As ruas da aldeia, bem differentemente das aldeias da beira-mar em Portugal, são tão escrupulosamente aceiadas como o tombadilho de um navio de recreio. Nem a pilha de estrume, nem o lixo esparso debicado pelas galinhas ao sol, nem a camada que sobeja do isco dos anzoes a fermentar na areia, nem as creanças sujas por vestir e por assoar, nem os peixes escalados presos com três pregos ás portas escancaradas.

A aldeia de Scheveningen, Hendrik Willem Mesdag, 1873.
Imagem: Geheugen van Nederland

Todas as casas de Scheveningen estão fechadas ê reluzem pintadas de novo. Atada ás janellas alveja a cortina de cassa, e poisa no peitoril um vaso de flores.

Os pequenos ou vão para a escola ou vêem da escola, e trazem debaixo do braço a sua lousa.

Branquear a roupa em Scheveningen, Van Gogh, 1882.
Imagem: Wikimedia

As casas de cada escola distinguem-se das demais pelo montão dos tamancos que os alumnos de um e de outro sexo descalçam á porta. Esta ceremonia não os arrefece consideravelmente porque a escola é confortavelmente aquecida nos mezes de inverno, e as grossas meias de lã dos alumnos teem a consistência de sapatos.

Praia de Scheveningen, Johannes Joseph Destrée, 1871.
Imagem: Wikimedia

As mulheres vendedoras de peixe usam a saia curta, uma romeira cinzenta e um amplo chapéu que as abriga do sol e da neve e que ellas carregam sobre os olhos quando no tempo da neve partem em patins sobre os canaes gelados, com uma velocidade vertiginosa, de quatro léguas por hora.

Scheveningen. Pontão rainha Guilhermina, 1908.
Imagem: writer's block

A população dos banhistas habita quasi toda sobre as dunas, á beira d'água, no Hotel Belleville, no Hotel Ganil, no Hotel des Bains, ou em pequenas villas pittorescamente dispersas pela cordilheira em miniatura, formada pelas successivas serras de areia adhefida pela vegetação e plantada de urzes e de giestas salpicadas pelas escabiosas selvagens, conhecidas em Portugal pelo nome de saudades do campo.

Cavaleiros na praia de Scheveningen, Anton Mauve (primo de Vincent van Gogh), 1876.
Imagem: Rijksmuseum

Nada mais risonho nos dias de verão, sob a luz dourada do sol descoberto e do céu azul, do que o aspecto matinal, á hora do banho, d'esta immensa praia de areia finissima, sem pedras, sem conchas, semelhante á da costa portugueza no espaço que medeia entre o Cabo de Espichel e a Torre do Bugio. (1)


(1) Ramalho Ortigão, A Hollanda, Porto, Magalhães & Moniz, 1885

Imagens adicionais:
Scheveningen Toen en Nu

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O pântano

DESSECAÇÃO DO PÂNTANO DO JUNCAL, FIXAÇÃO DAS DUNAS E ARBORIZAÇÃO DOS TERRENOS DA TRAFARIA E COSTA DE CAPARICA

Em virtude dos esforços do sr. Jayme da Costa Pinto esclarecido e zeloso representante às cortes pelo círculo de Almada trata-se de realizar, como já dissemos, este importante melhoramento de há muito reclamado.

De um relatório do senhor Henrique de Mendia, com grande senso scientifico e profundo conhecimento do assumpto, vamos extrahir alguns dados interessantes relativos a esses trabalhos.


Os terrenos a que nos referimos, occupam uma superficie de 1,800 hectares e constituem as dunas ou areias, moventes de Caparica, Valle de Trafaria e pantano do Juncal, o beneficio projectado é orçado em pouco mais de 58 contos ds réis. 

As dunas da costa de Caparica são constituídas par um trato de areias moveis limitadas pela Torre do Bugio, onde tem a sua menor largura, margem esquerda o Tejo, até próximo da povoaço da Trafaria, recurvando-se com a linha da costa banhada pelo oceano, estende-se para sul até ás proximidades da lagoa de Albufeira, tendo por limite para o interior das terras a base da escarpa e uns terrenos mal cultivados denominados a Charneca.

Costa da Caparica, ponte de madeira sobre a vala, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

Não nos podemos eximir á satisfação do desejo de transcrever aqui as palavras eloquentes com que o sr. Henrique de Mendia descreve as condições de existencia na povoação da Costa:

"Não se descreve, diz o illustrado agrônomo, porque difficilmente se imagina o árido e desolador aspecto d'estes incultos areaes formados por uma infinidade de dunas de mediana altura em extremo moveis nos logares mais desguarnecidos da pobre é dispersa vegetação rasteira, que n'outros pontos existe com proveito e castigados por um sol ardente que se reffecte e espelha de continuo na silica brilhante.

Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa (detalhe), Francisco M. Pereira da Silva, 1857.
(sondada e rectificada a margem sul em 1879)

É esta a paisagem que o viajante descobre á entrada do nosso primeiro porto e da nossa primeira cidade, e é n'este meio que existe uma povoação de muitas almas, acossada pelas areias que procuram de continuo atacar-lhe as trincheiras rudemente defendidas, sem uma estrada regular, que a ponha em eommunicação com os logares populosos, tendo no mar o seu quasi exclusivo sustento, procurado á custa de heroicos esforços tantas vezes impotentes e nas exhalações deletérias dos pantanos do Juncal o germen constante das febres paludosas de que annualmente enfermam familias inteiras.

Costa da Caparica, Praia do Sol, cliché João Martins, 1934.
Imagem: Praia do Sol (Caparica)..., Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico

Bem triste povoado e desgraçados habitantes que teem por unico abrigo a choupaqa de colmo, mais pobre do que  a cubata de negro, sem que ao menos encontrem na organisação d'este as forças indispensaveis para reagir e lutar contra os miasmas exhalados pelas águas estagnadas e putridas que os prostam ás vezes tão repentinamente como se um accidente os accommettera de imprevisto."

O sr. Henrique de Mendia considera a arborisação das dunas cuja supercie se avalia em cerca de 1,400 hectares como o unico meio de melhorar as más condições d'aquelle trato de terreno.

Trafaria — Valla e estrada da Costa.
Delcampe

Como a verba mais importante n'este revestimento dé terrenos é o transporte do matto para cobrir as sementeiras, lembrou-se o illustre agronomo de substituir o transporte do matto dos Pinhaes do Conde dos Arcos e Caparica cuja verba não seria inferior a 2$400 rs. por hectare de sementeira pelo transporte fluvial da Matta da Machada e de Valle de Zebro á Trafaria, ficando assim o custo médio da carrada por 630 rs. em vez de 2$400 réis e portanto o hectare por 50$400 réis, verba á qual adicionando-se outras despesas, guarda do terreno, etc se eleva apenas a 66$000 réis.

A Praia do Sol, Estrada do Parque Florestal, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 114, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Calculando o terreno a cobrir êm 900 hectares em consequencia de se deixar 500 hectares para logradouro dá povoaçao, facha de resguardo, zona invadida pelo oceano, etc. a importancia total do revestimento das dunas, sem duvida um dos mais urgentes e uteis melhoramentos do nosso porto, fica em 52:800$000. Ao sr. Henrique de Mendia cabem bem merecidos encomios pelo modo intelligente e economico como indica a realisação d'esse melhoramento.

Costa da Caparica, Alameda de Santo António, ed. Passaporte, 25, década de 1960.
Imagem: Delcampe, Oliveira

O valle areiado da Trafaria passa próximo de Murfacem, toca na costa do Cão e estende-se além de Pera, mede 2 kilometros de extensão sobre 300 metros de largura media, o que dá 80 hectares de superficie. As obras indicadas são, além da sementeira, uma boa e bem construida sebe de defesa na linha de incidência dos ventos reinantes o alguns abrigos internos de mais ligeira construcção entrecrusadas de espaço a espaço, orçadas importancia de réis 3:600$000.

Uma superfície de 30 a 40 hectares, que rodeia a povoação da costa e fica encravada entre as dunas da costa de Caparica e a Charneca é constituida por terrenos alagados, conhecidos pelo nome de Juncal, denomipação proveniente da abundância de juncos, que ali crescem. 

Costa de Caparica, passagem sobre a vala à entrada da vila, década de 1940 (?).
Imagem: Delcampe - Oliveira

Esse pântano alimenta-se das águas pluviaes e do oceano; que por vezes irrompe atravez das areias, depositando ali as suas águas, que ali fjcam represadas por falta de escoantes, em consequencia do nivel do terreno ser inferior ao do oceano. Esta mistura e estagnação produzem miasmas deleterios, ainda mesmo no inverno.

Costa de Caparica, passagem sobre a vala à entrada da vila, década de 1960 (?).
Imagem: Costa da Caparica, anos 60

Para combater estas condições são indicadas as vallas profundas e bem orientadas e uma plantação bem dirigida do encalyptus globolus, arvore de grande poder esgotante e de efficasissimas propriedades hygienicas, estas arvores serão no numero de 39,990 o as vallas occuparão 2,000 metros correnles. 

Costa da Caparica, acesso à Via-Rápida,década de 1960.
Imagem: Costa da Caparica, anos 60

A despeza total para a dessecação e plantação do pântano do Juncal, incluindo o ordenado do guarda no 1.° anno, está calculada em 2:586$900 réis.


(1) Artigo original de Gervásio Lobato publicado no Diário de Notícias e republicado em A Realeza, de Duarte Joaquim Vieira Júnior, edição 1 de de 2 de setembro de 1882, e no Diário de Belém, edição de 3 de outubro de 1882.

Artigos relacionados:
O Juncal
A costa no século XIX
Mata do Estado e Quinta de Santo António


Leitura relacionada:
Material vegetal da Margem Sul do Tejo: da Costa de Caparica até ao Seixal

domingo, 15 de junho de 2014

Fonte da Pipa e seu caminho

"A obra desta fonte e seu caminho, se fez por ordem de sua magestade, à custa do povo desta vila e seu termo, por tributo que se lhes impôs nos açougues desta vila e seu termo de três reis em cada arratel de carne para pagamento da dita obra na era de 1736".

Fonte da Pipa, construída em 1736.
Imagem: Visita Virtual Rotas de Almada

Cais da Fonte da Pipa (Olho de Boi), gravura, Pierre Eugène Aubert, 1820.
Lisboa, vista tomada de Almada (detalhe).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

"Acordarão os ditos oficiais e homens bons que nenhum homem solteiro de qualquer estado e condição que seja, não esteja quedo na Fonte da Pipa nem passeie no caminho dela, sob pena de duzentos reis [de multa] e da cadeia, a metade para o Concelho, e a outra para quem acusar" [édito do Senado da Câmara, c. 1750].

Vista parcial do Tejo, Casa da Cerca e estrada da Fonte da Pipa, 1858.
Aguarela, aut. desc., datada 14 de Março de 1858.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Digno feito de ser no mundo eterno
grande no tempo antigo e no moderno
Camões — canto 8, estrofe 35
C.M.A. 10-6-1880

Pedra de armas de D. João V.

Já se acha concluída a grande reparação da estrada da Fonte da Pipa: tendo a respectiva camara municipal d'Almada recebido para a mesma obra, no dia 17 de novembro ultimo dos srs. Domingos Affonso [Quinta da Arealva] 200$000 réis; E. Prince Son & Companhia 100$000 réis e Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense [Quinta do Olho de Boi] 60$000 réis.

Almada, Miradouro do Jardim do Castelo, ed. Manil.
Imagem: Delcampe

Além destes donativos, os srs. Affondo e Price emprestaram desde o começo da obra até à sua conclusão, os seus carros, bois e trabalhadores para a remoção de terra e pedra para o concerto da estrada.

Reparação da estrada da Fonte da Pipa, 1882- 1883.

Fonte da Pipa — Almada, Olho de Boi, ed. desc.,década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Cavalheiros como estes, honram sempre o munícipio a que pertencem, e as suas obras são dignas de ficarem registadas. (1)

Miradouro Boca do Vento, Olho de Boi e Fonte da Pipa, ed. Manil, 3010 D.
Imagem: Delcampe


(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Passagem pelo grupo do Leão

O grupo chamou-se do Leão, por causa de um café da rua do Principe [hoje 1° de Dezembro], onde ás noites iam cavaquear e beber cerveja, artistas n'elle incorporados, e o seu advento nas exposições do Commercio de Portugal é trepidação de um hausto novo na maneira portugueza de pintar.

Cervejaria Leão de Ouro, 1885.
Imagem: Hemeroteca Digital

O Grupo do Leão, Columbano Bordalo Pinheiro, 1885.
Representados, da esquerda para a direita: em fundo, João Ribeiro Cristino, Alberto de Oliveira, criado Manuel, Columbano, criado António, Braz Martins; sentados, em segundo plano, Manuel henrique Pinto, João Vaz, Silva Porto, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro; em primeiro plano, José Malhoa, Moura Girão, João Rodrigues Vieira.
Imagem: Wikipédia

Annos depois de organisado o grupo do Leão, bolorencias inherentes à natureza pantanosa d'este género de sociedades, levaram alguns artistas a se separarem d'elle, e a incorporarem-se-lhe outros, e a nova confraria a alargar-se num programma mais íngreme de letras e artes, com saraus, banquetes, exposições e regalos, que, pela vida periclitante da nova milí­cia, intitulada Grémio Artístico, não chegaram a cabal execução, à parte as exposições, decaídas, que o profissional hoje evita, e que a invasão do furioso amador quasi tornou fastidiosas. (1)

Lago do Antelmo — Alfeite, João Ribeiro Cristino, 1883.
Imagem: Veritas leilões

[Manuel Henrique Pinto] Pintor do Naturalismo. Com Malhoa descobre o "Figueiró das Cores", com ele inicia a dita "odisseia rústica". Nascido em Cacilhas a 15 de Março de 1853. Cursou a Academia de Lisboa, onde foi discípulo de J. G. Prieto, Tomás da Anunciação e Simões de Almeida. Expõe pela primeira vez na 10ª Exposição da Sociedade Promotora (1874) três Paysagens tiradas da outra banda. (2)

Antelmo — Alfeite, Manuel Henrique Pinto, 1882.
Imagem: Manuel Henrique Pinto no Facebook

Corroios, Manuel Henrique Pinto, finais do século XIX.

[João Vaz] Nasceu em Setúbal, a 9 de Março de 1859. De 1872 a 1878 frequentou a Real Academia de Belas Artes de Lisboa, onde foi aluno de Tomaz de Anunciação. Acabado o curso, e não tendo arranjado pensão para estudar no estrangeiro, fez uma viagem por França e Espanha, na companhia de António Ramalho. (3)

Cacilhas, Praia da Fonte da Pipa e Olho-de-Boi, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

[José Malhoa] Nasceu nas Caldas da Rainha a 28 de Abril de 1855. Foi estudar para Lisboa aos 8 anos e aos 12 entrou na Real Academia de Belas Artes de Lisboa, onde foi discípulo de Lupi, Prieto, Vítor Bastos e Anunciação. Obtendo no fim de todos os anos o 1º prémio, conclui o curso em 75. (4)

Paul da Outra banda, Pântano, Vista do Alfeite, Charco de Corroios, José Malhoa, 1885.
Imagem: Blog do Noblat


(1) Arthur, Ribeiro, Arte e artistas contemporaneos, Illustrações de Casanova & Ramalho, Pref. de Fialho de Almeida, 1896, Livraria Ferin, Lisboa.
(2) MatrizNet
(3) Idem
(4) Idem, ibidem

Leitura relacionada:
do Porto e não só: Apontamentos sobre a pintura em Portugal na esquina dos séculos 19 e 20 (I parte)
Artistas e Espacos de Sociabilidade no século XIX — O Leão d'Ouro e a Génese do Naturalismo na Pintura Portuguesa 1885-1905
Aça, Zacarias d', Lisboa moderna , 1906, Tavares Cardoso, Lisboa.