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sábado, 19 de março de 2016

Da Ramalhinha aos Crastos

A Ramalha situa-se na margem esquerda de uma antiga linha de água, sendo Miocénicos (22.5 milhões de anos a 5 milhões de anos) os terrenos do planalto e Plio-Plistocénicos (5 milhões de anos a 10 mil anos) os da zona mais próxima da linha de água.

Lugar da Ramalha, restauro da capela e edifício (infantário e creche), 2007.
Imagem: Guias de Arquitectura

As diversas estações arqueológicas existentes na zona, localizam-se desde o alto do planalto até à zona de planície e foram identificadas quer através de prospecção sistemática (que vimos fazendo de alguns anos a esta parte), quer pela observação de taludes junto a velhos caminhos ou novas vias, remoção de terrenos para obras diversas, etc.

As construções na Ramalha.
Imagem: Revista Al-Madan, n.° 3, 1984

Em 1976 Carlos Tavares da Silva escavou, de colaboração com o Centro de Arqueologia de Almada e o Museu de Arqueologia e Etnografia da Assembleia Distrital de Setúbal, a estação Neolítica da Ramalha, trabalho que, contrariamente à vontade de todos, não foi ainda possível tornar público.

Aspecto da intervenção arqueológica na estação neolítica na Ramalha, 1976.
Imagem: Revista Al-Madan, n.° 3, 1984

Já em 1983, a estação foi soterrada por algumas toneladas de terra sobre as quais se construiu um parque de estacionamento.

Pela mesma data (1976) e sob a orientação de elementos do Grupo para o Estudo do Paleolitico Portugués (GEPP). realizou-se uma sondagem em área onde se tinham recolhido à superfície alguns instrumentos líticos. 

Porém, as expectativas em relação a esta sondagem, cujos resultados publicaremos brevemente, foram também elas goradas pelas terraplanagens levadas a cabo em 1984 — a estação desapareceu na totalidade. 

Mas outros vestígios foi possível detectar. Assim, da Idade do Bronze encontraram-se alguns materiais num talude à beira da estrada, no local mais elevado do planalto. São na maioria fragmentos de cerâmica de formas carenadas e de grandes vasilhas de armazenamento. 

No mesmo talude eram visíveis restos de estruturas de habitat (fundo de cabana). O talude tem vindo a desmoronar-se por acção das intempéries. Do período Romano foram recolhidos materiais em dois taludes situados a meia encosta — sigillata cinzenta estampada, opus signinum, cerâmica comum, etc. 

Na área atrás referida mas num outro talude. detectaram-se vestígios de construções, inúmeros fragmentos de cerâmica pintada e restos alimentares (cascas de bivalves e ossos de diversos animais), espólio que pensamos poder atribuir-se ao período de ocupação Muçulmana. 

Também os restos de algumas edificações da Quinta dos Castros poderão ter pertencido à antiga ermida de Sto. Antào (Séc. XIV) de que resta hoje, na capela de S. João, uma lápide, dedicatória de um nobre e sua mulher. 

Lápide na parede exterior da capela:
À honra de Deus e Santo Antão,
este Oratório mandou fazer Fernão Gomes
e Mexia Vasques Farinha, no ano de 1456

Imagem: Revista Al-Madan, n.° 3, 1984

Em face do exposto e porque passou já à fase de execução o plano de urbanização da Ramalha. parecem-nos pertinentes algumas considerações. A Ramalha foi até há pouco tempo uma área suburbana e agrícola, uma comunidade cheia de tradições, perfeitamente distinta de outros núcleos populacionais do Concelho.

Aí poderíamos encontrar, como em nenhum outro local, uma forte consciência do passado, uma consciência orgulhosa da ancestralidade da terra e das suas gentes; um passado em que a lenda e a História se confundem na memória colectiva, materializadas em tradições seculares de que são exemplo as festividades de S. João Batista, misto de paganismo e religiosidade.

Uma tarde na Ramalha.
Imagem: José Pereira

Hoje, porém, se a alguns interessa saber "quem fomos", destrinçar a lenda da História, conhecer essas "raízes" de que justamente se orgulham as populações, enfim enriquecer a nossa vivência pelo contacto com a experiência de outros homens que aqui viveram, a outros, pelo contrário, não só tal preocupação é alheia como parecem apostados na eliminação pura e simples de todos os vestígios materiais desse nosso passado, comprometendo assim irremediavelmente o seu conhecimento.

Discursos de gente importante (vinda do "senso comum" tal opinião seria compreensível), veiculam a ideia de que do Passado nada de importante (leia-se "monumental") sobreviveu em Almada [...]

No caso da Ramalha, o projecto de urbanização implica a sua destruição histórica. paisagística e ecológica! Mas este não é um caso isolado da alteração de fachadas pela utilização de materiais inadequados. corno o aluminio, à destruição de estações arqueológicas, vai acontecendo de tudo um pouco [...]

Vestígios de balneário romano na antiga Quinta da Ramalha, 1947.
Imagem: Fundação Mário Soares

A situação criada na Ramalha é já irreversível. Julgamo-nos. no entanto. na obrigação de. pelo menos, recuperar os vestígios do passado desta terra cada vez mais "sem rosto". Por esse motivo solicitámos uma reunião com responsáveis camarários e autorização de escavação ao organismo competente (IPPC). Aguardamos as respostas [...] (1)

Capela da Ramalha, década de 1970.
Imagem: almaDalmada

--ooOoo--

No dia seguinte celebrava-se a festa de S. João na capella da quinta da Ramalha, havia procissão, e depois saía a celebrada dança dos pausinhos, assim chamada por levarem os pares uns bordões pintados de vivas cores, com que faziam muitas sortes e passos agradaveis; e quem diante d'ella ia e a dirigia era Pedro Marques, de casaca de esteira, caraça preta e grande chapéo armado, montado n'um jumento, e com o rosto voltado para a cauda do animal [paródia ao castigo aplicado ao marido submisso] (ler mais...) (2)

A jornada de um heroi moderno para a ilha de Elba,, gravura de 1814.
Imagem: British Library


(1) Em Almada cf. Ana Luisa Duarte, Revista Al-Madan nº 3, Almada, Centro de Arqueologia de Almada, maio/novembro de 1984
(2)  António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863

Informação relacionada:
Oratório de Santo Antão da Ramalha

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

H. Parry & Son, estaleiro em Cacilhas

ver Artigo relacionado: H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal
1893 — Promessa de venda do estaleiro do Sampaio na Praia da Lapa em Cacilhas à firma Parry & Son pela importância de 90.000$000 réis.

O farol e a doca de Cacilhas, colecção Henrique Seixas, Museu da Marinha, in Loureiro, Carlos Gomes de Amorim, Estaleiros Navais Portugueses...
Imagem: Livreiro Monasticon

1899 — Concretização da venda do estaleiro do Sampaio à Parry & Son.  

Vista tomada no porto de Cacilhas, face a Lisboa, Hubert Vaffier,  1889.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

1903 — Lançamento à água da lancha-canhoeira Tete.

1904 — Lançamento à água da lancha-canhoeira Sena.

Publicidade à actividade da H. Parry & Son, década de 1900.
Imagem: Restos de Colecção

Alguns navios construídos:

Vapor Alcântara;
Vapor Progresso;
Vapor Lisbonense;
Vapor Belém;
Vapor Príncipe D. Carlos;
Vapor Setúbal;
Vapor n.º 1;
Vapor Alcácer do Sal;
Vapor Bom Sucesso;
Vapor Mercúrio; Vapor O'Neill;
Vapor Hugo Parry;
Vapor Lúcifer;
Vapor Trafaria;
Vapor n.º 9;
Vapor n.º 10;
Rebocador Voador;
Vapores Marianno de Carvalho, n.º 1 e n.º 2;
Vapor Girafa; Rebocador Leão;
Vapor Mineiro;
Vapor Juno;
Lancha-canhoneira Honório Barreto;
Lanchas-canhoneiras Diogo Cão e Pedro Annaya;
Rebocador Santa Maria;
Canhoneira Chaimite;
Vapor Neves Ferreira;
Vapores n.º 3 e n.º 7;
Vapor n.º 8;
Lanchas-canhoneiras Sena e Tete;
Escuna Três Macs;
Rebocador S. Thomé.;
Lancha Ginjal;
Rebocador António Serra.

in Loureiro, Carlos Gomes de Amorim, Estaleiros Navais Portugueses, Subsídios para a história da construção naval de ferro e aço em Portugal, Vol. II: H. Parry & Son, Lisboa, 1965
1938 — Fim d contrato de arrendamento dos estaleiros do Ginjal.

Estaleiros H Parry & Son em Cacilhas, antes da abertura da Estrada Nacional.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas

O troço [viário e consequentes desaterros] entre a Cova da Piedade e Cacilhas foi construído entre 1948 e 1951,

Plano de arranjo e ampliação dos estaleiros em Cacilhas, 1949.
Imagem: Restos de Colecção


em grande parte sobre o rio, após o entulhamento das baías da Margueira e da Mutela.

Estaleiros H Parry & Son em Cacilhas, antes e depois da abertura da Estrada Nacional.

A ligação a Cacilhas fez-se à custa da ruptura do morro que, até então, isolara esta povoação da Margueira.

Plano de arranjo e ampliação dos estaleiros em Cacilhas, 1949.
Imagem: Restos de Colecção


in Rodrigues, Jorge de Sousa, Infra-estruturas e urbanização da margem sul: Almada, séculos XIX e XX, 2000, 35 págs.

Cacilhas, Estaleiro, ed. J. Lemos, 16, década de 1960.
Imagem: Delcampe

1986 — Declaração de falência dos estaleiros Parry & Son.

A Parry foi o primeiro estaleiro privado a possuir docas e o primeiro construtor a planear inteiramente um navio de chapa de aço e a proceder à sua execução desde o casco às caldeiras [...] (1)


(1) Luzia, Angela, Esteves, Joana, Santos, Maria José E., A indústria naval em Almada: na rota do progresso, Almada, Câmara Municipal, 2012, 97 págs.

Artigos relacionados:
H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal
O torreão e a Lapa


Leitura relacionada:
Loureiro, Carlos Gomes de Amorim, Estaleiros Navais Portugueses, Subsídios para a história da construção naval de ferro e aço em Portugal, Vol. II: H. Parry & Son, Lisboa, 1965

Veiga, Luís Bayó, Boletim O Pharol, n° 22 

domingo, 29 de junho de 2014

O Grémio

Vista panorâmica de Almada e do rio Tejo tomada da Serra de Monsanto, 1962.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

[...] um simples arrolamento das muitas funções que desempenhou [Henrique Tenreiro] até 1974, seja no sistema político (União Nacional, Assembleia Nacional e Câmara Corporativa), seja nas organizações milicianas do regime (Legião Portuguesa) 

Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (F.N.A.T.).
Costa da Caparica, aspecto do almoço dos trabalhadores dos Sindicatos Nacionais,1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

ou, sobretudo, na administração das pescas, nunca deixará perceber os poderes que alcançou, a extrema influência que exerceu e o modo como teceu e sedimentou, dentro do regime, um subsistema de poder dotado de uma escassa vigilância institucional por parte do chefe do governo.

Bairro piscatório da Caparica, comandante Tenreiro e dr. Pimenta da Gama, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

[...]  importa sintetizar as etapas essenciais da trajectória de H. Tenreiro, situar os momentos chave da sua afirmação política e discutir as razões pelas quais firmou no sector das pescas um poder cuja espessura em muito ultrapassou as funções de que fora incumbido a 20 de Julho de 1936: delegado do governo junto do Grémio dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau. 

Almirante Henrique Tenreiro
Imagem: Fragata D. Fernando II e Glória

Ao poder financeiro Tenreiro acrescenta extensos poderes de gestão empresarial de um expressivo sector público-corporativo das pescas que, por finais de 1960, engloba trinta «organizações», entre grémios, sociedades mútuas de seguros, cooperativas de aprestos e empresas dependentes da organização corporativa.

Anúncio do SAPP, Serviço de Abastecimento de Peixe ao País.
Agência Sonarte de Artur Agostinho
Vídeo: LUSITANIATV




Desde o tempo da guerra, Tenreiro impõe a concentração de capitais em sociedades de armadores controladas pelos grémios (casos da SNAB [Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau] e da SNAPA [Sociedade Nacional dos Armadores da Pesca de Arrasto]). (1) 

Pragal Construção da Ponte Salazar e navio Vasco d'Orey.
Imagem: Bacalhoeiros de Portugal no Facebook

No contexto do corporativismo do Estado Novo, e na dependência do Grémio dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau, criado em 1935, surge em 1938 outro corpo cooperativista, que funcionava como central de compras para todos os armadores, a Cooperativa dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau.

Navios no cais do Ginjal, Real Bordalo, 1976.
Imagem: eBay

O incremento da frota pesqueira (de 16.500 toneladas em 1936 passa a 60.000 em 1954) é acompanhado, a partir de 1939, pela instalação no Ginjal da Cooperativa dos Armadores [de Navios] de Pesca do Bacalhau, que dá às empresas associadas facilidade no abastecimento dos navios e concede assistência aos pescadores.

Bacalhoeiros no cais junto à fábrica do Gelo.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No espaço anteriormente ocupado pela fábrica de cortiça Symington e pelos estalairos navais de Hugo Parry surgem assim enormes edifícios que aproveitam e ampliam as oficinas pré-existentes [...]


Pontões de acostagem junto à instalações do Grémio no cais do Ginjal.
Imagem:  Arquivo Municipal de Lisboa

Os edifícios albergaram ainda a Sociedade de Reparações de Navios [...]  (2)

Navio arrastão lateral, Pedro de Barcelos frente ao cais do Ginjal.
Os edifícios à esquerda, a meia encosta, eram a fábrica do óleo de fígado de bacalhau.
Imagem: SHIPS & THE SEA — BLOGUE dos NAVIOS e do MAR

A Sociedade de Reparações de Navios [SRN, Sorena] é constituída em 9 de outubro de 1942 num contexto económico de reforço ao sector das pescas, destinava-se à reparação da frota das duas societárias (a SNAB [Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau] e a SNAPA [Sociedade Nacional dos Armadores da Pesca de Arrasto]) no que respeita a todas as especialidades desde reparções ocasionais a transformações mais profundas.

Sociedade de Reparações de Navios, após um incêndio na década de 1960.

Produzia todo o tipo de equipamento e apetrechos de pesca desde materiais de detecção a materiais de captura de pescado.

Arrastão Luis Ferreira de Carvalho, frente ao cais da SNAB, 1986.
Imagem: Navios à vista

Encerrou a actividade em setembro de 1986 com apenas 10 trabalhadores, tendo vindo a extinguir-se, formalmente, por falência, em 3 de fevereiro de 1992. (3)


(1) Garrido, Álvaro, Henrique Tenreiro — "patrão das pescas" e guardião do Estado Novo.

(2) Gonçalves (coord.), Elisabete, Memórias do Ginjal, Almada, Centro de Arqueologia de Almada, 2000, 88 págs.

(3) Luzia, Angela, Esteves, Joana, Santos, Maria José E., A indústria naval em Almada: na rota do progresso, Almada, Câmara Municipal, 2012, 97 págs.

Leitura adicional:
Decreto-lei nº 23802, de 27 de Abril de 1934