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sábado, 12 de agosto de 2017

Lisboa vista do Porto Brandão por James Holland

James Holland (1800-1870), pintor de aguarelas, nasceu em Burslem em 17 de outubro de 1800 onde o seu pai, e outros membros da família, trabalhavam na fábrica de cerâmica de William Davenport. 

Lisboa vista do Porto Brandão, James Holland, 1837, 1838 ou 1847.
Imagem: Museu de Lisboa

Em idade precoce trabalhou em pintura de flores de cerâmica e porcelana, tendo partido para Londres, em 1819, para praticar pintura de flores e frequentar aulas de desenho de paisagem, arquitetura e temas marinhos. 

Lisbon from Porto Brandão, James Holland, 1845 1838 ou 1847.
[v. art authority]
Imagem: Art UK (ex BBC Your Paintings)

Expôs pela primeira vez na Royal Academy em 1824, e em 1830 visitou a França e fez estudos sobre a arquitetura desse país. Em 1823,exibiu uma imagem de "Londres vista de Blackheath". Em 1835, tornou-se expositor associado da (agora Royal) Society of Painters in Water-colours, mas deixou essa sociedade em 1843 e juntou-se à (agora Royal) Society of British Artists, na qual permaneceu membro até 1848. 

Regressou à Society of Painters in Water-colours em 1856 e foi eleito membro de pleno direito dois anos depois. Trabalhou muito em desenho para anuários ilustrados [The tourist in Portugal, illustrated from paintings by James Holland, London, 1839]  e, nesse propósito, visitou Veneza, Milão, Genebra e Paris em 1836 e Portugal em 1838 [1837, chegou em julho e partiu no outono desse mesmo ano, cf. Walker Art Gallery].

Vista do Porto tomada do Convento da Serra do Pilar em Gaia, James Holland, 1838.
[incl. em The tourist in Portugal, 1839]
Imagem: Palácio do Correio Velho

Em 1839 expôs na Royal Academy uma bela pintura de Lisboa.

Almada, vista de [Alfama, sé patriarcal?] Lisboa, James Holland, 1837.
Imagem: Walker Art Gallery

Em 1845, foi para Roterdão, em 1850, para Normandia e Norte do País de Gales, em 1851 novamente para Genebra e, em 1857, novamente para Veneza.

No South Kensington Museum [Victoria & Albert Museum] há uma série de esboços em Portugal datados de 1847, dos quais parece que ele visitou o país pela segunda vez. 

Lisboa, Parte do Tesouro Velho; James Holland, 1837.
Imagem: Victoria & Albert Museum

Ao longo da vida, exibiu, além de suas contribuições para a Water-colours Society, trinta e duas imagens na Royal Academy, noventa e uma na British Institution, e cento e oito na Society of British Artists. 

Ruínas do Convento de S. Francisco, James Holland, 1837.
Imagem: Peppiatt Fine Art

Embora geralmente classificado como um pintor de aguarelas, era igualmente hábil na pintura a  óleo. Foi um dos melhores coloristas da Escola Inglesa, e as suas imagens, especialmente as de Veneza, embora negligenciadas durante a sua vida, são agora ansiosamente procuradas e obtêm avultados preços. 

Uma vista de Coimbra, James Holland, 1837 ou 1838.
 [incl. em The tourist in Portugal, 1839]
Imagem: Christie's

Parece ter deixado de exibir em 1857. Morreu em 12 de dezembro de 1870. 

No Greenwich Hospital, há uma pintura sua de Greenwich, e no South Kensington Museum estão duas pequenas imagens a óleo e algumas aguarelas, mas não existe um bom exemplo do seu trabalho nas coleções nacionais [britânicas]. (1)


(1) Wikisource cf. Redgrave's Dict.; Bryan's Dict. (Graves); Graves's Dict...

Mais informação:
Victoria & Albert Museum
Art UK (ex BBC Your Paintings)

James Holland na Biblioteca Nacional de Portugal

Leitura relacionada:
W. H. Harrison, The tourist in Portugal, illustrated from paintings by James Holland, London, 1839

domingo, 5 de junho de 2016

Villa Maria da Conceição

No Caramujo e Romeira, os edifícios de habitação mais antigos (para além das habitações existentes sobre os armazéns), estavam implantados entre os armazéns, nos espaços livres entre as fábricas ou eram antigos armazéns adaptados,

Villa Maria da Conceição, 2016.
Imagem: AVM

como é o caso da Vila Maria da Conceição, um antigo armazém de vinhos.


A carta de 1813 mostra que o ribeiro da Mutela desaguava no Tejo através de dois braços, um deles dirigindo-se para a Romeira.

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813 — 1816.
Imagem: IGeoE

Em 1849, o ribeiro só estava canalizado para o lado da Romeira, já não desaguando nas valas, também conhecidas por "abertas".

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Aqui construiu-se uma comporta que impedia a entrada da água nas marés vivas; sem o controle da comporta, a água, ao penetrar pela vala, transpunha as suas margens, alagando a parte baixa da Cova da Piedade.

Almada, Romeira, Paulo Emílio Guedes & Saraiva,16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

O sítio ficou conhecido por Sarilho, nome do engenho que fechava a comporta e que ficava situado no cruzamento entre o Largo da Romeira e a Rua Manuel José Gomes, junto ao início do quarteirão da Vila Maria da Conceição.

Panorâmica da fábrica William Rankin & Sons na quinta do Outeiro no Alfeite, 1885.
Imagem: Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário...

[...] que se localiza em frente de uma das antigas portas da [fábrica] Rankins [instalada numa quinta senhorial do século XVIII]. (1)


(1) Samuel Roda Fernandes, Fábrica de molienda António José Gomes, Lisboa, Universidade Lusíada, 2013

sábado, 9 de abril de 2016

Em casa de Alexandre Herculano

Alexandre Herculano, quando eu fui para a sua casa [em 1847], começava a escrever o segundo volume da História de Portugal. O primeiro fôra publicado havia pouco. O "Monge de Cister" estava no prelo : succedia ao "Eurico", á "Abobada", ao "Bobo", ás "Armas por fôro de Hespanha". O auctor cumprira trinta e sete annos n'aquella primavera.

Casa de Alexandre Herculano na Ajuda, Largo da Torre, Alberto Carlos Lima, década de 1910.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Os rapazes do cerco do Porto, se baviam corrido por cima das ondas, voltando do exilio, se marchavam rápidos pelas assomadas das serras, fraguedos e desfiladeiros, carregando o inimigo, vamos que não caminhavam devagar pela senda das letras!

Na Ajuda, hoje animada e ruidosa com a presença da corte, reinava n'aquella época o silencio e a solidão quasi completas.

Da antiga Patriarchal, ninho tépido e macio, recheiado pela mão paterna do absolutismo com o cibo apetitoso, que regalava o paladar exquisito dos filhos segundos das casas fidalgas, convertidos em recebondos, anafados e pachorrentos cónegos, da antiga Patriarchal, digo, não existia mais do que a torre.

Lisboa, Ajuda, Largo da Torre Paulo Guedes.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O bronze, que dava as horas, tinha um som redondo, sonoro; ao mesmo tempo melancólico e profundo. Dir-se-ia que denunciava saudades do passado, mas que se resignava com o presente. Saberia elle que o bronze è a voz do tempo? É possível [...]

Como o sino da Ajuda, alem de estar n'uma torre, está n'um alto, ha de ter visto muita cousa, e ha de ter muito que dizer; mas não diz nada a mais das horas e dos quartos, que o ponteiro lhe marca. Com tamanho badalo nunca vi quem badalasse menos!... Talvez que eu, algum dia, venha a badalar por elle.

A janella do quarto de trabalho deitava para o Tejo. No meio da verdura dos quintaes e das hortas resaíam as casas, que se agglomeravam pela encosta até á beira do rio. Os montes do outro lado.

Se a margem esquerda do Tejo fosse arborisada de pínheiraes, como é a do Douro, que aprasivel efifeito não produziria no animo do viajante, que já vem maravilhado com a entrada da barra de Lisboa.

A vista dilatava-se pelo espaçoso largo, descia pela encosta. ingreme, e espraiava-se pelas aguas transparentes do rio.

O gabinete de estudo era pequeno. No inverno aconchegado, agasalhado ou "confortável", como agora se diz. Na primavera e verão abria-se a grande janetla, e arejava-o a brisa fresca do mar.

Uma janella que deita para o mar desafoga os pulmões e também a alma.

Casa de Alexandre Herculano na Ajuda, Largo da Torre (detalhe), Alberto Carlos Lima, década de 1910.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Havia n'aquelle quarto um fogãosinho, a mesa de trabalho, e uma enorme cadeira estofada e forrada de marroquim verde, cadeira como não conheço outra, obra traçada pela cabeça de um allemão, e feita de molde para as meditações dos sábios.

Eu, por mim, achava-a deliciosa para me aninhar dentro d'ella e dormir regaladíssimos somnos.

Sobre a mesa, coberta de papeis, um grande tinteiro de latão, como os das antigas secretarias e as pennas de pato — sem contar com as minhas — que eram bem raras n'esse tempo! Pelo chão, os livros, os infolios, e as notas com signaes, que eu suppunha cabalísticos [...]

A desordem, apparente, dos livros e dos infólios, a immensidade de notas, dispersas como baralhos de cartas, que se atirassem ao acaso; todo aquelle labyrintho era a ordem, a classificação mais perfeita para o grande escriptor.

Quasi pelo tacto ia pôr a mão no documento de que necessitava, fosse embora das mais exíguas dimensões.

No inverno accendia-se o fogão. Assim que o sino dava as onze da noite, fosse qual fosse o trabalho, e por mais embebido que estivesse n'elle, o dono da casa depunha a penna, conversava uns dez minutos, encamínhava-se para o seu quarto, e logo que encostava a cabeça na almofada, adormecia de um somno reparador e profundo até ás seis horas do dia seguinte.

Lisboa, Ajuda, Eduardo Portugal, 1939.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A boa divisão do tempo, a regularidade de vida, a assiduidade no trabalho; reunidos a poderosas faculdades intellectuaes, venciam as inauditas difficuldades, que se apresentavam a cada passo diante do escriptor, que tinha de desentranhar das minas da historia, occultas nos recessos dos archívos, o oiro, que, depois de lavrado e polido, devia de ser um monumento de gloria para nacionaes, e de admiração para estrangeiros. (1)

A casa da Ajuda era, n'esse tempo, a mansão tranquilla, onde, á sombra do mestre, estudava um grande talento, Rebello da Silva, e eu balbuciava, timido, os primeiros versos.

Sim! Tranquilla e salutar!
Oh! mia casa romita e serena!...
Que saudades tenho tuas!

Lisboa, Ajuda, Eduardo Portugal, 1939.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Levantavamo-nos um pouco depois das seis horas da manha.

O mestre sempre o primeiro. Ia dar uma vista d'olhos ao jardim. Não lhe faltava, na estufa, uma transplantação, o decote ou o enxerto de uma roseira primorosa; o ramo de flores para a mesa, arranjado pela sua mão, no que tinha dedo. Depois sentava-se á mesa e trabalhava. Ordinariamente hora e meia, até ao almoço.

Os invejosos mordazes até inventaram que Alexandre Herculano era homem áspero e brutal no trato!

Não conheci ninguém mais sincero, mais simples, e ao mesmo tempo mais amoravel, e, sem affectação, delicado [...]

Voltemos a 1847. Alexandre Herculano escrevia a Historia de Portugal, e concluia o Monge de Cister, publicado, pela primeira vez, em volume em 1848.

Lisboa, Ajuda, Eduardo Portugal, 1939.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Almoçávamos ás oito e meia — café especial, pão saloio e a preciosa manteiga fresca, fabricada com o leite dos uberes túrgidos das anafadas e luzidias turinas, que repastavam na arribana da horta da calçada do Galvão.

Aquella horta tem destino de pertencer a homens superiores. Ha muitos annos que a cultiva José Eduardo de Magalhães Coutinho.

Depois do almoço Herculano sentava-se á banca do trabalho; Rebello da Silva descia á bibliotheca a estudar. O estudo, que foi sempre uma predilecção para elle, n'essa epocha era uma paixão desenfreada. Muitas vezes, logo sobre o jantar, a despeito das salutares advertências do mestre — que de tarde nem abria livros, nem pegava em penna — atirava-se ao trabalho.

O jantar era ás duas e meia em ponto. A toalha alvíssima. O ramo de flores, renovado todos os dias. A cosinheira excellente. Vinho branco e tinto da Arruda, puro, e em duas facetadas e magnificas garrafas de crystal de rocha, antigas, de casa dos pães de Herculano. Uma grande profusão de sobremesas, principalmente de doce de conserva, todo dirigido e muito d'elle preparado pela própria mão do dono da casa.

Dos botões das roseiras de todo o anno fazia Herculano um doce, como nunca tornei a comer. Os figos de conserva eram uma especialidade [...]

Ao Eremitério — era este o nome, que nós dávamos á casa do mestre — deviam chegar dias sacudidos e agrestes, senão tempestuosos.

Havia lá quem tivesse anchura de peito para contrastar a tormenta!

Depois de publicado o primeiro volume da Historia de Portugal alguns rumores se levantaram contra o auctor, por causa do milagre d'Ourique [...] (2)

No clarear de uma manhã de setembro que paizagem aquella, vista do alto da montanha!

A barra, o cabo, o oceano; a Arrábida ao sul; ao norte Cintra. O sol rompendo na orla do nascente, em braza, sem vibração de luz a principio, agora jogando as primeiras frechas ás cumiadas de Palmella, ferindo as ondinhas verde-claras do Tejo. A sul, escuro o céo; no remoto occidente, ainda mal desvanecidas as estrellas; na aragem, apenas sentida, o sopro indizivel e virginal da madrugada; os gallos da aurora soltando a voz crystallina pelos casaes perdidos entre as hortas e pomares.

O Jamor, nas voltas sinuosas, denunciando-se no trepido murmúrio, atravez da névoa opalina condensada sobre o valle. Ao altear do sol, refrescando o norte limpido, dezenas e dezenas de moinhos agrupados ou disseminados pelas cristas da serra, girando as suas aspas brancas e produzindo-nos a visão de que se movia toda aquella grandiosa e deslumbrante paizagem. Agora foram-se os moinhos, que tocavam de sabor alpino e agreste o ondulado e maravilhoso quadro. As fabricas deram cabo d'elles e deram-nos peor pão e mais caro!

Lisboa, Ajuda, Eduardo Portugal, 1939.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Com os nossos perdigueiros iamos levantando as bandas de perdizes, até que se refugiavam nos zambujaes da Tapada. Foi esta mandada fazer pelo marquez de Pombal para o rei D. José ter caça ao pé da porta. Não ha nada como ser rei absoluto; essa sim, essa é que é ambição de suprema grandeza! O demais, rei constitucional e presidente da republica são grandes honras, porém honras apenas, com relação ao passado. Os olhos do déspota dominavam tudo e tudo para elles era arraia miúda. Descendentes de reis, embora, não os queriam senão para copeiros, estribeiros, aurigas, moços de monte, servos humilissimos.

El-Rei D. José ama a caça? O ministro extraordinário e feroz acurva-se na sua alta estatura intellectual, e, de joelhos, espera que lhe assigne os decretos para reedificar Lisboa arrazada e para engrandecer o reino. Depois improvisa-lhe uma coitada com que sua magestade se distraia nas horas de ócio [...] 

Palácio da Ajuda e torre do relógio, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Uma noite bateram onze horas no sino da torre e Alexandre Herculano depoz a penna como por acto automático. Não conheci ninguém onde os hábitos tivessem maior império; talvez a disciplina a que se votou como soldado voluntário concorresse para tal. Era no inverno, noite fria, escura, mas serena. Quando entrámos na casa de jantar para tomarmos uma colher de doce e um trago de agua, como de costume, ouvimos uns gritos de afflicção, e no tremor convulsivo da voz percebemos:
"Ás armas!"
Corremos á janella do quarto de trabalho e vimos sahir do pateo do palácio uma alma do outro mundo de dimensões sobrehumanas [...]

Palácio da Ajuda, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A 3 de março de 1849 fazia eu vinte annos (um dois e um zero^ que sâo um poema!) e vim na véspera á tarde até Lisboa para no dia seguinte jantar com minha mãe. 

De manhã recebi uma lembrança de Alexandre Herculano e juntamente uma carta. Entre muitas que tenho d'elle, e que hei de publicar um dia, é para mim a mais grata. As notas individuaes não se desprezam hoje, antes concorrem para os annaes da alma humana.

O papel da carta está, como eu, muito velhinho; mas as suas lettras vivas trazem-me, como se fossem de hontem, as lembranças d'esse dia:
Meu caro

Ahi vão essas poucas flôres; são as que encontrei pelo quintal inculto. Mando-as, apesar de vulgares, porque me disse que sua mãe gostava de flores. Lembrou-me que, acostumado á manteiga frescal, acharia desagradável a salgada estrangeira. Veiu tarde a lembrança para hoje; mas ainda lhe posso acudir para o almoço de amanhã. Tenha equanimidade bastante para desculpar esta offerta de saloio.

Ha n'ella um pouco de vaidade de auctor. Eu creio que essa manteiga está boa; e hoje, meu rico, tenho n'isso mais presumpção de que no mérito de escriptor.

Quando eu tinha 25 annos cultivava flores e fazia versos; depois dos 35 annos fabrico manteiga e faço prosa. Passados os 50 provavelmente não farei nem uma coisa nem outra. Serei talvez um avaro ou um caturra.

É a trilogia da vida humana, trilogia de pernas ao ar, em que a poesia está no primeiro acto, o positivo e a prosa no segundo, o chato é o semsabor no terceiro. Peores são ás vezes (as mais das vezes) os dramas do theatro em que tudo são terceiros actos da comedia humana.

O meu amigo, que está no primeiro, cheio de vida e frescor, povôe-o bem de flores e poesia. As recordações d'essa epocha é que mandam alguns perfumes e harmonias á tarde e ao crepúsculo da existência — as duas quadras da manteiga e da caturrice;

 Palácio d'Ajuda, c. 1900.
À direita da imagem, no Largo da Torre, a casa onde residiu Alexandre Herculano.

Até amanhã á tarde para a nossa viagem da Ajuda.

Amigo
Herculano. (3)


(1) Bulhão Pato, Sob os Ciprestes, Vida intima de homens illustres, Lisboa, Livraria Bertrand, 1877
(2) Bulhão Pato, Memórias Vol. I, Scenas de infância e homens de lettras, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1894
(3) Bulhão Pato, Memórias Vol. III, Quadrinhos de outras éphocas, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1907

Alguns artigos relacionados:
D. Francisco de Noronha recorda Bulhão Pato
O dragoeiro

Biblioteca Nacional de Portugal:
Obras digitalizadas de Alexandre Herculano

segunda-feira, 7 de março de 2016

Defesa de Lisboa em 1834

D. Miguel dispunha ainda pela sua parte de todos os recursos do reino, exceptuando apenas as duas cidades de Lisboa e Porto. Por todo o paiz os membros do clero secular e regular haviam pregado uma nova cruzada contra os constitucionaes [...]

Almada vue d'Alfeita [sic], François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet

O elevado morro de Palmella havia sido fortificado e guarnecido com doze bocas de fogo, o que igualmente tinha succedido a Almada e Cacilhas, onde se formara uma espécie de isthmo por meio de uma linha, que corria do Pragal á Margueira, guarnecida também por vinte e duas peças de artílheria. (1)

Mutela na enseada da Cova da Piedade (detalhe da vista de Cacilhas e de S. Julião), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Em 1833-1834 as forças liberais, logo após a tomada de Lisboa, prevenindo-se contra um ataque à capital pelos miguelistas que continuavam em operações a sul do Tejo, estabeleceram entre o Paliarte [Palliart, quinta e convento de S. Paulo] e a Margueira uma linha fortificada continua que cortava por completo o acesso a Almada e Cacilhas.
Quando se elaborou a carta topográfica militar de 1834 representando a linha fortificada já a quinta e convento de S. Paulo pertenciam a um comerciante de nome Palliart ou Paliarte, como se indica na legenda da carta. As propriedades haviam sido vendidas em consequência da extinção das ordens religiosas. A propriedade regressou à posse da igreja em 1934, voltando então a ser designada por quinta de S. Paulo, mas o nome de Paliarte, que perdurou 100 anos, ainda é uma designação conhecida.
Segundo Fernando Mendes [A dynastia de Bragança...] a linha comportou 22 peças, artilhamento que confere aproximadamente com o constante da carta topográfica militar [Planta da linha de defensa que cobre as villas d'Almada e Cacilhas] levantada [e desenhada] pelo 2.° tenente [do Real Corpo de] engenheiro[s] Manuel Maria da Rocha em 1834: 18 peças.

Vista parcial do lado sul de Almada, Possidónio da Silva, 1863
Imagem: Revista pittoresca e descriptiva de Portugal

A carta é pormenorizada quanto ao traçado da linha e sua construção mas quase omissa quanto ao terreno, apenas se representando toscamente as arribas da margem e pequenos troços das azinhagas que cruzavam a linha.

A localização da linha pode no entanto fazer-se com rigor a partir do desenho que serviu de base ao plano hidrográfico do porto de Lisboa, levantado em 1845-1847.

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847.

O flanco direito da linha assentava na encosta a norte do convento de S. Paulo; de aqui contornava a igreja e o convento de S. Paulo e descia para sueste numa frente rectilínea até a proximidade do teatro da Academia Almadense; ao cruzar a estrada para a Caparica, actual rua Capitão Leitão, formava um reduto; inflectia um pouco para leste e, junto ao local ocupado pela nova igreja de Almada apresentava um meio reduto; continuava para leste com duas frentes formando um ligeiro saliente próximo da rua Lourenço Pires de Távora, no sítio onde estivera o reduto do Conde; atravessava depois a estrada Cacilhas-Piedade pelo alto da Mutela, junto à rua Jorge de Paiva, formando um relente; dirigia-se daqui para sul e rematava na arriba com uma pequena frente olhando a Mutela.

Vista Geral, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Uma muralha isolada cortando a praia desde o sopé da arriba até ao nivel do baixa mar completava a obra protegendo o flanco. 

A esquerda da linha coincide num ponto com obra já existente: o meio reduto da Quinta do Conde que pode ter aproveitado parte do Forte do Conde. 

A casa de D. Francisco de Noronha (Prédio do Gato) Cacilhas, década de 1920/1930.
Imagem: Nuno Machado

Esta coincidência reforça a convicção de que os fortes do Conde e da Margueira ainda existiam em 1833 e que a última resistência séria oferecida por Teles Jordão em retirada, buscava apoio nas fortificações.

Sabe-se que nesse local, entre os dois fortes, passava a estrada Piedade-Cacilhas e Teles Jordão colocara aí artilharia. o castelo de Almada e as Linhas de Defesa estavam subordinados ao mesmo comando.

Oficial do Regimento de Infantaria n° 2, 1834.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

Desconhecemos se o mapa de guarnição elaborado em 1833, com o total de 148 homens abrangia não só o castelo mas as linhas de defesa que contariam também com o reforço do Batalhão Nacional Fixo d'Almada. Em qualquer caso, a importância das linhas e o quantitativo da guarnição justificavam o comando de um tenente-coronel e a presença de um cirurgião mor.

Exerceram o comando, no período de maior perigo para os liberais dois oficiais notáveis: Amaro dos Santos Barroso (1833-34) e Adriano Mauricio Guilherme Ferreri (1834-35) e o cargo de cirurgião mor, o cirurgião civil Francisco Inácio Lopes, um almadense também notável.

Planta do Rio Tejo e suas margens (detalhe), 1883.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Pela observação dos planos hidrográficos conclui-se que a linha ainda existia em 1847 e, muito provavelmente, em 1878. Desapareceu antes do fim do século. (2)


(1) Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal... Tomo V, Lisboa, Imprensa Nacional, 1885
(2) R. H. Pereira de Sousa, Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal, 1981, 192 págs.

Artigo relacionado:
Defesa de Lisboa em 1810

sábado, 5 de março de 2016

O retiro de um velho romântico

Cansado das mocadas que entre si distribuía a turba sertaneja, que em procissão, às vezes, recorria à minha agulha de sutura, procurei regressar à Arte consoladora [...] (1)

Paisagem com rio, torre arruinada e pescadores, Jean-Baptiste Pillement, 1791.
Imagem: Sotheby's

Em dezembro de 1898, tendo sido nomeado medico do Partido Municipal de Almada, em Caparica, fui levado ao Monte por D. João da Camara e Lopes de Mendonça, que me apresentaram a Bulhão Pato.

Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço, a velha catedral e o castelo de S. Jorge, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: MAGNOLIA BOX

O velho poeta vivia numa casita modesta, com um mobiliário simples, quasi pobre, em que uma antiga commoda marchetada e um toucador Império lembravam uma passada prosperidade familiar.

O typo já eu o conhecia: era, no gesto, na dicção, na voz arrastada e grave com profundos finaes melodramáticos, o personagem que Eça de Queiroz compôs nos "Maias" [Tomás de Alencar — o que motivou que Bulhão Pato escrevesse as sátiras "O Grande Maia"  em 1888 e "Lázaro Cônsul" em 1889], 

Eça de Queiroz "In memoriam" (excerto), organizado por Eloy do Amaral e M. Cardoso Martha.
Imagem: Internet Archive

e digo compôs porque depois de conversado e convivido, Bulhão Pato afastava-se da celebre caricatura do celebre romance por uma vivacidade mental, uma penetração de espirito e até por uma observação aguda, por vezes resumidas em ditos scintillantes, alguns dos quaes ficaram na tradição como lapidares.

Como era muito assomado de gênio, herança da impetuosidade romantica toda feita de gestos heroicos e braços cruzados de desafio, as suas inesperadas saídas tinham a fúria de estocadas súbitas que marcavam a presa com um sinete de galés.

"Se o assanham, tem duas farpas na lingua", dizia Camillo. 

Pena é que esses botes sejam no maior numero dos casos do domínio das cryptineas, como alguns que lhe ouvi, preciosos pelo realismo desbragado mas perfeito, que chegavam pela sua eloquencia a dar relevo burlesco a certos personagens.

Raimundo Bulhão Pato, Miguel Angelo Lupi, c. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

Amimado desde a infancia, por isso vaidoso da aureola que lhe puseram desde muito moço, bonito rapaz como ainda se vê, na idade já madura, do bello retrato de Lupi, passou uma primavera na casa que Alexandre Herculano habitava na Ajuda, casa que ainda existe proximo do paço real.

Real Palácio da Ajuda, ed. Tabacaria Costa, 901, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Entrando logo na intimidade e no culto do grande historiador, era então companheiro de Garrett, ali hospede também [1847-1848], que aggregou o jovem poeta á sua vida noctambula de mundanismo elegante, pelos aristocráticos salões de então.

As gerações do romantismo literário em Portugal reunem-se na casa da Ajuda em 1847-1848:
Almeida Garrett (1799-1854), Alexandre Herculano (1810-1877) e Bulhão Pato (1828-1912).

Regressavam á Ajuda fora de horas, e tão fora de horas que Herculano resolveu-se a mandar fazer uma chave da porta, que lhes entregou, para que o criado não ficasse até de madrugada á espera do autor illustre do Frei Luís de Sousa e do novel versejador do "Se coras, não conto". É que Herculano deitava-se invariavelmente ás onze horas ("deita-te ás onze, que não és de bronze", dizia), adormecia logo que punha a cabeça no travesseiro e era de um somno só.

Esta existencia na Ajuda, que Pato recorda nas suas "Memórias", apresentava outros aspectos menos austeros, de uma jovialidade expansiva, que tiravam ao tradicional Herculano de sobrancelha carregada essa mascara de lenda para lhe afivelar outra, de uma expansão alacre, quando ouvia aos rapazes certas historias que Bulhão Pato classificava de fescenninas.

Assim, o autor da "Historia de Portugal", que os retratos dão sempre de catadura severa, gostava immenso de anecdotas frescas, e quando alguém lhe dizia; — "o mestre já conhece esta" — Herculano esfregava as mãos e dizia: — "conte, conte, as experimentadas são as melhores." Foi assim que certo dia, ouvindo José Estevão rematar a descripção de uma recita de gala em São Carlos com um commentario de desbragada representação rabelaisiana, caiu literalmente no chão ás gargalhadas.

Bulhão Pato era um espirito profundamente liberal, patuléa na sua mocidade, e que um dia foi barbaramente aggredido por um grupo de cartistas no alto da calçada da Ajuda, com a aggravante de estar a namorar para uma sacada a filha do celebre ceramista [Wenceslau] Cifka.

— "Mas dias depois, no Martinho do gelo, vinguei-me. Moi-os!" — Esta rapariga, Mary Cifka, era protestante, e Pato tinha de freqüentar a capella deste rito para a ver. Duma vez, estava um "clergiman" a fazer uma predica no meio de um grande silencio e entra no recinto um homem, typo de velho embarcadiço, olho azul, barba de passa-piolho, mas as bochechas muito escanhoadas.

Olhou em todos os sentidos, fitou o pregador, escutou, e momentos depois toca no cotovelo de Bu- lhão Pato e diz-lhe em tom de poucos amigos: — "Você não me saberá dizer o que é que aquella besta está ali a ladrar ?" — Pato saiu á pressa da igreja.

Aos vinte annos, assignara o famoso manifesto contra a lei de imprensa de Costa Cabral [agosto de 1850], denominada já nesse tempo "lei das rolhas". E quando, meio século depois, identico projecto foi apresentado ao Parlamento por João Franco, os liberaes foram-no buscar ao seu retiro do Monte para levar o protesto que foi por elle entregue ao presidente da Camara.

Dava-se um facto singular: os três homens que restavam em 1907 tendo assignado o protesto contra a lei cabralina, haviam-no feito, por acaso, a seguir e juntos: — Barbosa du Bocage, Almeida e Albuquerque, Bulhão Pato. E é igualmente singular que morressem pela ordem por que vinham no documento.

A casita de Caparica era um retiro hospitaleiro e conservava as tradições de fina recepção, através do seu ar modesto e simples, em que Pato se afizera a viver nas grandes casas dalgumas das velhas e históricas familias portuguesas, que elle freqüentara em quasi todas as nossas províncias, como viajante incansavel que foi, lamentando apenas não ter conhecido Trás-os-Montes.

Dahi, as figuras das suas "Memorias", pintadas com as côres optimistas dessa época romantica, com abundancia de sentimento e ausência de cuidados, aos últimos clarões do patrimonio das conquistas que fazia a vida fácil e o temperamento optimista. 

Cinco artistas em Sintra, João Cristino da Silva, 1855.
Imagem: MNAC

A agudeza economica era um vocabulario ainda desconhecido. Por isso as mulheres eram sempre cheias de paixão, de sacrifício, e tinham longos cabellos que se desgrenhavam dramaticamente; os homens eram valentes, bons cavalheiros, e vestiam com elegancia. 

Se Bulhão Pato, em vez de fazer Memórias de recorte literário, com preoccupações acadêmicas, conta o que viu, sem diversões de estilo, na sua realidade brutal, teriamos alguns instantâneos illuminados ás vezes por uma luz de tragédia.

— "Estava eu, contava, com alguns rapazes á porta do Marrare do polimento (era no Chiado e chamavam-lhe assim para o distinguirem do Marrare das sete portas, na Baixa), todos sem vintém e revolvendo a imaginação para ver como achar uma solução á nossa penúria. Nisto vemos descer o Chiado, pelo passeio fronteiro,.um sujeito nosso conhecido, amante e "souteneur" de uma senhora da sociedade.

Marrare de Polimento, gravura in A Semana, n.° 4, 1851.
Imagem: Hemeroteca Digital

Ora acontecia que o filho dessa senhora era um dos nossos companheiros de miséria, o qual, destacando-se do grupo, atravessa a rua e dirige-se ao tal cavalheiro e segreda-lhe qualquer coisa.

Este sorri, mette a mão no bolso e dá-lhe uma moeda. O moço regressa, sorridente também, e clama para os companheiros mostrando uma libra em oiro: — "O bom filho a casa torna..." — Bulhão Pato, depois de me contar esta scena, travou-me do pulso, gesto muito seu, e diz-me com os olhos brilhantes: — "Você já o viu melhor em Shakespeare?"

Doutra vez contou-me que uma senhora muito da alta sociedade estava uma noite a passar por cima de um muro baixo, em Algés, uma cadeira para o amante poder passar. Nisto sente-se atrás agarrada pelos cabellos; era o marido. Surprehendida e attonita, grita num desespero: — "Traição!" — É demoniaco!

Quando eu chegava a casa depois do giro clinico, era freqüente encontrar um bilhete de Bulhão Pato com estas concisas palavras: — "Venha! Temos pescada do alto." — Porque a sua mesa era prova das suas tradições de cozinheiro insigne, gabando-se o poeta de ter mais orgulho com o êxito de um bom prato do que com a fama de um bom alexandrino; Eram celebres os seus jantares de caça, as perdizes, as gallinhas, as narcejas, e por esse tempo havia em Caparica um vinho branco que tinha um gosto de pederneira [muito mineral], vinho já cantado por Gil Vicente e Camões [Convite que fez Camões em Goa a alguns Fidalgos]:

Ceia não a papareis,
Comtudo por que não minta,
Em vez de ceia tereis,
Não Caparica mas tinta ,
E mil coisas que papeis.

Pato gostava que lhe gabassem as vitualhas, e quando os convivas mastigavam em silencio, não deixava de observar: — "Vocês comem, mas nem palavra." — Eu um dia respondi: — "A commoção embarga-me a voz!" — ao que outro replicou: — "As grandes alegrias, como as grandes dores, são mudas..."

Pato ria, porque gostava de ver os rapazes á sua mesa, ali indo D. João da Camara, o jornalista Urbano de Castro, mestre em trocadilhos, e eu lá levei Alexandre Braga, de cujo pae o poeta fôra amigo. Augusto Gil, Manuel Monteiro. Um dia fui encontrá-lo com uma alegria infantil. Tinha quasi oitenta annos e ao ver-me gritou abrindo os braços: "Cacei hoje uma gallinhola!" — E presidiu com carinho ao seu amanho, não deixando de preparar o raro acepipe da torrada.

Bulhão Pato viveu numa época má, na exhaustão deliquescente do romantismo, tendo já fechado o cyclo da sua carreira literaria quando se rasgavam os esplendorosos horizontes da poesia nova. Fez-se o paladino dos velhos moldes, manteve-se até tarde no subjectivismo sentimental que continuava a sentir que "o único rumor que se ouvia no Universo era o rumor das saias de Elvira".

Vista da Amora, Tomás da Anunciação, 1852
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Tentou libertar-se desse passado no Livro do Monte, de um bucolismo mais natural, onde se sentem perfumes junqueirianos, e não quis deixar de escrever uma derradeira satira á sociedade que se enxovalhara, com as quintilhas, de bella perfeição plastica, da "Dança Judenga".

Octogenário, lia Zola, que eu lhe levava, e proclamava-o, intelligentemente, um grande romântico.

Um dia contou-me uma scena melancólica com o nosso paisagista Annunciação. Era no Aterro, e viu o velho pintor a chorar ante o pôr do sol, pouco depois de chegar de Paris, onde contemplara os novos processos da pintura e o golfão de naturalismo que inundava todas as paletas.

No cais do Tejo, Alfredo Keil, 1881.
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Bulhão Pato talvez sentisse analoga melancolia ante a sua arte que via aceite apenas com complacência. Mas não o confessou, porque, muito orgulhoso, o velho romântico nunca deixou de arvorar o panache. (1)


(1) Paulo Braga, João Barreira, o Escritor, o Professor e o Artista, Jornal da Régua, 27 de Dezembro de 1936
cf. Catarina Fernandes Barreira
(2) Dr. João Barreira, O retiro de um velho romântico

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Se coras, não conto

Chapelle anglaise à Lisbonne, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Tu queres que eu conte um sonho que tive
Não sei se acordado, não sei se a dormir?
Foi todo singelo, foi todo innocente:
Tu córas, sorriste, tens medo d'ouvir?


Palais d'Ajuda, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Não córes, escuta, não fujas de mim,
Que o sonho foi sonho de casta paixão:
Já crês, não duvídas, verás como é lindo
O sonho innocente do meu coração:

Quai de Sodre, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Eu via em teus labios um meigo sorriso,
Em tens olhos negros um terno mirar,
Teu seio de neve a arfar docemente,
Sentia nas faces o teu respirar.


Palais de Necessidades, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

E tu não fallavas, mas eu entendia;
E tu não fallavas, mas eu bem ouvi!
Amor! na minh'alma a voz me dizia,
E um beijo na fronte não sei se o senti.


Vue de Lisbonne prise de Alfeite, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Já vês que o meu sonho foi sonho innocente;
O resto eu te conto; como has de gostar!
É todo singelo, de amores somente;
Verás que ao ouvil-o não has de córar.


Vue de S. Pedro d`Alcantara, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Depois apertando teu corpo flexivel,
Cingindo teu collo no braço a tremer,
Ouvi uma falla, e o que ella dizia
Agora acordado não posso eu dizer.

Promenade Publique, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Não posso contar-te, só pude sentil-a;
Não posso contar-t'a senão a sonhar:
No sonho innocente, no sonho d'amores,
Do qual, duvidosa, julgavas córar.

Place du Commerce prise du Tage, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Não posso contar-t'a, nem sei se acordado
O que ella dizia se póde entender;
Eu sei que sonhando, pensei que era sonho,
E agora acordado a não posso esquecer.

Interieur de l`Eglise de Belem, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mas tu porque escondes a face córada?
Não tem nada o sonho que faça córar,
É todo singelo, é todo innocente;
Que importa um abraço, se é dado a sonhar?

Tour de Belem, Celestine Brelaz (Lenoir), c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mas tu não te escondas, que eu fico em silencio;
Não quero offender-te a casta isenção;
Não torno a contar-te depois de acordado
O sonho innocente do meu coração. (1)



(1) Bulhão Pato, janeiro de 1847