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quarta-feira, 26 de abril de 2017

Nas arribas do mar (faíscas de fogo morto)

Por todo este almaraz ao terreno ondulando, 
Tal como ondula o mar, quando o tempo está brando. 
Nos contrastes de luz, no variado matiz, 
Nenhum lhe dá de rosto em volta do paiz.

The Praҫa do Comércio Lisbon, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

As folhas dos trigaes, vinhedos e pomares, 
Pendendo para o mar á beira dos algares.

Val de Flores, Rosal, a fecunda Sobreda, 
Conservando a azinhaga e a sombria vereda.

As "Villas de Azeitão", o medo de Albufeira, 
A Charneca, formando uma enorme clareira 
Cingida de pinhaes. No gracioso recorte, 
Cintra, no seu perfil, campeando sobre o norte.

A Arrábida domina ufana o Sado e Tejo. 
Não tem outra rival por todo esse Alemtejo.

Vista do Tejo tomada de Belém, Bellisle looking down the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

O Atlântico á barra. O rio, a desaguar, 
Funde na vaga azul a tinta verde-mar.

Seja em que ponto for é relancear a vista; 
Sempre, no vasto quadro, uma nota imprevista.

Pescadores no Tejo, Fishermen at work off the mouth of the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

Rompe um formoso dia. O mar azul e manso. 
Vem as redes á Costa, e com soberbo lanço.

De toda a povoação, e remotos casaes, 
As recovas lá vão a travez dos juncaes.

Vista do Tejo e da Trafaria, The river Tagus at Trafaria, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

E a trepar a ladeira, — a saia coruscante, 
A cestinha á cabeça, o lenço fluctuante, 
— Correm, com seus pregões, á venda, as raparigas, 
Pregoes que têm um tom de jovenis cantigas!

Cae a noite. O farol, as frechas rutilantes, 
Atira pelo oceano e guia os navegantes.

Vista do Tejo e do Forte de S. Lourenço, Bugio Castle, the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

Accendem-se também Bugio e Sam Julião. 
A cidade illumina, e reflecte o clarão 
No Tejo que lá vae, na veia crystallina, 
Levando, a scintillar, o véo da tremulina. (1)


(1)  Bulhão Pato, Faíscas de fogo morto, Lisboa, Typ. da Academia Real das Sciências, 1908

Artigo homónimo:
Nas arribas do mar (cf. Bulhão Pato, Memórias, Vol. III, Lisboa, 1894)

Artigo relacionado:
John Cleveley Junior e o Tejo, 1775

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A condessa d'Alfasina

Nos dias da regência de D. Fernando (1853-1855), F. C. era um rapaz alto, bem posto, moreno, ou antes azeitonado dos climas d'Africa, onde passara alguns annos. Olhos castanhos de boa luz, sobrancelhas espessas e moço sobretudo distincto. Quando, já velho, entrava na camara dos pares e cumprimentava o presidente, ninguém o fazia com mais senhoril e natural elegância.

Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço, a velha catedral e o castelo de S. Jorge, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: MAGNOLIA BOX

A condessa D... namorou-se perdidamente d'elle. A condessa D... era a tentação feita mulher. Ainda ha por ahi, senão muitos, pelo menos alguns velhos, como eu, que a conheceram. 

Estou a vêl-a!... Pupilla negra, nadando no crystal da esclerotica. Pestanas recurvas cerrando-se, ás vezes, com voluptuosidade de sonho sensual, para em seguida, entreabrindo-se, partir a seta faiscante, pérfida, mortal e divina!

Os arcos das sobrancelhas estreitos, porém pronunciados. Nariz delicado; as azas a palpitar, aurindo ás correntes vivas dos dias vernos dos vinte e cinco a vinte e seis annos.  Lábios carnudos, um pouco desunidos no meio, como o botão vermelho, e entremostrando apenas as preciosas pérolas. N'uma das faces, próximo ao canto da bôcca, um pequeno lunar. Colorido forte, supremo encanto das morenas, em ondas, se a commoção era violenta. 

Delgada e flexivel como o vime. Cingindo-se no amante appetecido teria a lubricidade venenosa da serpente e a ternura solicita das heras. Pagã e mystica. Aphrodite e Santa Philomena dos bosques. Invulnerável á dedicação constante e apaixonada, como se Cupido lhe houvesse inoculado o antídoto do amor ideal no sangue impetuoso. Hysterica; a hysterica na sensualidade é de tal modo ardente e requintada que não chega nunca a realisar as ambições desenfreadas dos seus nervos.

Nu feminino reclinado, Amélie, daguerreótipo, Félix-Jacques Moulin, c.1852-1853.
Imagem: Wikipedia

Ai do homem que lhe cae nos braços! F. C. foi, entre tantos, o único que a volúvel condessa D... amou longamente; mas não podendo, coitada, resistir ao seu temperamento, veiu a trahil-o com D. Fernando.

Uma noite, no Paço das Necessidades, pouco antes de romper a alvorada, despediu-se caridosamente do rei.

Á Pampulha metteu-se n'um bote, atravessou o Tejo, veiu aqui para Alfasina, que me fica a dois passos, e, n'uma casa situada n'um ponto de vista deslumbrador, consorciou-se com alguém, que não sei se ainda vive.

Caparica, miradouro de Alfazina, 2014.
Imagem: Coysas, Loysas, Tralhas Velhas...

F. C, ao tempo, era já casado, estava longe das verduras da mocidade, e, sabendo da ultima cartada que jogara a sua antiga amante, sorriu-se com motejador contentamento. D. Fernando acudiu a Shakespeare para definir, despeitado, o caracter da condessa:

D. Fernando II e sua segunda esposa, Elise Hensler, condessa d'Edla.
Imagem: Wikipédia

— "Pérfida como a onda!" (1)


(1) Bulhão Pato, Memórias Vol. III, Quadrinhos de outras éphocas, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1907

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Almeida Garrett

— Uma boa nova; o Garrett vem passar o resto da primavera e o verão comnosco [...]

Uma fragata inglesa a chegar ao Tejo frente à Torre de Belém, com uma fragata portuguesa ancorada ao largo pela sua popa, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Garrett mandou o seu saco de noite, uma pasta com manuscriptos, e o estojo de toilette, peça esta que, á primeira vista, podia parecer uma caixa de instrumentos cirúrgicos e juntamente uma botica portátil: tal era a quantidade de ferros cortantes em forma de canivetes, escalpellos e bisturis; as tesoiras de todas as dimensões, as pinças, as esponjas, de todos os tamanhos, e a enorme quantidade de frascos que encerravam finissimas essências combinadas pelos mais imaginosos e mais famosos perfumistas de Londres e Paris.

O dono da casa, vendo o estojo aberto diante do espelho, contemplou-o, como eu contemplava as notas, isto é, com os olhos arregalados de pasmo, e, passados alguns momentos, voltando-se para mim, disse com ar solemne:

— Ora veja o meu amigo de quantas cousas pôde precisar um homem n'este mundo!

Garrett preguiçava, mas aquellas horas de preguiça eram como as de Byron. De quando em quando do dolce far niente, que os italianos entendem por fazer aquillo de que se gosta, saia uma flor delicada e perfumadíssima, que iria enlaçarle na graciosa grinalda das "Folhas Caídas".

Garrett, n'essa época, estava na força da vida, tinha quarenta e oito annos, mas havia muito que lhe chamavam velho.

Iconografia do Romantismo, O deambulador sobre o mar de névoa (detalhe), Caspar David Friedrich, 1818.
Imagem: Wikipedia

Sentia-se na força da inspiração. Os versos, com o ardor dos vinte annos, desatavam-se de dia a dia. Ao mesmo tempo gisava as scenas do seu grande romance "Helena", de que ha pouco sairam os primeiros capítulos, formosos quadros, que deixam o leitor suspenso em ardente curiosidade.

Ah! porque descaiu mortal a mão do artista!

Parece que o poeta presentia já a morte quando, com sorriso melancólico, me recitava estes lindos e apaixonados versos:

Bem o vés, o alaúde caía-me
D'estas mãos que não tem já poder;
E o som derradeiro fugiu-me

Do hymno eterno que ergui ao nascer.
Ai! por ti, por ti só, á memoria
Vem saudades do tempo da gloria !

Oh! os poetas, os poetas!... Só elles têm alma de pagar as volúveis carícias da mulher com a immortalidade! (1)

Assomava a primavera de 1849. — N'esse tempo, em Portugal, havia primavera. — Deixou bem gratas recordações áquelles, que são hoje açoitados, em abril e maio, com as granisadas aspérrimas de dezembro!

Uma extensa vista de Lisboa no rio Tejo com a praça do Terreiro do Paço, a velha catedral e o castelo de S. Jorge, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: MAGNOLIA BOX

Os dias da estação vernal chegavam-nos sorridentes, azues, e illuminados. As roseiras nos jardins, o pomar na horta, o relvão nas chapadas, cobriam-se de botões e de flores.

O pardal nos beiraes dos telhados, as andorinhas nos ares, as tutinegras, os rouxinoes nos balsedos e nas faias sussurrantes e sombreiras, papeavam, alegres e enamorados [...]

Um dia Almeida Garrett escreveu uma longa carta a Alexandre Herculano. N'esse papel fazia-se uma confidencia amarga!

O poeta havia levado mais um revez, dos muitos da sua combatida e aventurosa existência. Estava n'um momento análogo áquelle, que lhe inspirara — n'umas paginas de prosa, que vêm nas "Flores sem fructo" — esta apostrophe á solidão:

"Solidão, eu te saúdo! Silencio dos bosques, salve!
A ti venho, ó natureza: abre-me o teu seio.
Venho depor n'elle o peso aborrecido da existência; venho despir as fadigas da vida."


Suppunha, illudido pela dor, que poderia prescindir do mundo, elle, o mais mundano de todos os artistas; elle, para quem os fastígios do poder, as pompas do luxo, os máximos requintes do gosto; as pérolas, as saphiras, as esmeraldas e os diamantes, rutilando no seio, nas mãos, nos cabellos negros retintos, ou loiros acendrados, da mulher apetecida — ou adorada — se tornavam impreteriveis!

Vista de Lisboa, Jean Baptiste Pillement.
Imagem: Viático de Vagamundo

Mas, no momento, a sua dor era intensa e sincera; por isso, confirmando o preceito de Horácio, ao descrevel-a, a todos nos commovia. Grandes foram as provações, porque passou aquelle desmesurado espirito! 

Para quem o lidou de perto, sobretudo nos últimos tempos, pelos seus versos — "Flores sem fructo", e "Folhas caídas" — é fácil determinar quaes foram as crises, os accessos dolorosos, no drama d'aquelle coração, que teve mais de um affecto, que facilmente se deixava seduzir, mas que tão profunda, tão arrebatadamente se apaixonava! 

Depois de grandes desgostos domésticos, que as dicacidades brutaes e malévolas de ânimos corrompidos vinham ainda envenenar, o poeta parecia succumbir aos revezes da má fortuna.

Uns versos das "Flores sem fructo" explicam o estado da alma do auctor do "Camões", n'esse periodo. Não é a dor acerba, é o desalento supremo; tédio, fastio moral, o mais requintado tormento, que pode cruciar o homem!

Quando uma luz imprevista, serena e penetrante, o veiu arrancar áquella apathia moral, o poeta disse: 

Eu caminhava só, e sem destino,
No deserto da vida;
N'alma apagada a luz, e o desatino
Na vista esmorecida:
E afastava de mim, que me impeciam
No caminhar adeante,
Os prazeres dos homens, que sorriam,
E a turba delirante
De seus empenhos vãos. — Aos que gemiam
Sorria eu de inveja...
Quem podéra gemer!... mas arredava
Esses também: não seja
Traição a sua dor! — Eu caminhava
Só, triste, só, sem luz e sem destino,
A vista esmorecida,
A alma gasta, apagada, e ao desatino.
No deserto da vida.


Quem não atravessou uma crise funesta não escreve assim. A vida do homem tem d'estes momentos psychologicos; mas é preciso ser um grande artista, para lhe acertar com a nota verdadeira, propriamente humana!

Mais adeante, appellando para o suicídio, o poeta exclama:

E sentei-me, cansado, n'um rochedo, 
Triste como eu, e só, 
No meio d'este valle de degredo, 
De lagrimas e dó. 
Caíu-me a fronte sobre as mãos pesada, 
E meditei commigo: 
— Nâo é melhor pôr fim a esta jornada, 
E poisar no jazigo?...

Do céo, morno e pesado, as nuvens rarefazem-se, e elle diz: 

Olhei... e vi o azul do firmamento 
Só, sem nenhum brilhar 
De estrellas, ou de lua...
Mas logo se inundava, n'um momento, 
De uma luz alva, doce e resplandente, 
Que me entrou toda n'alma!...

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
Imagem: FRESS

Esta luz, esta nova estrella do poeta, era de certo a singular creança de dezoito annos, cheia de talento, primorosamente educada, bella, e, sobretudo, fina, que se enamorara perdidamente do génio e da viuvez de coração de Almeida Garrett, cujo nome era saudado nos jornaes, applaudido no theatro, coroado no parlamento, e nas academias!

Elle emprestou-lhe a "Nova Heloísa" do apaixonado João Jacques [Rousseau, Jean-Jacques, Julie ou la Nouvelle Héloïse]. O livro levava, a lápis, umas notas intencionaes. 

Julie ou la Nouvelle Héloïse, o primeiro beijo.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Adelaide respondeu a ellas, e um dia, cega, arrebatada, perdida, pungido o coração que exhaurira, na anciã de amar, as derradeiras notas do prazer, deixou tudo, tudo... o enleio das suas phantasias virginaes, o ambicionado futuro de uma união santa, o mundo, e a fama e o seio materno, para refugiar-se, transportada, nos braços do genial poeta!

Quem lhe não havia de perdoar o seu erro, o seu crime — se crime foi — redimido por tamanho amor!

Pondo de parte o extraordinário Miguel Angelo, de quem se conta, que não amou em toda a sua vida senão a Victoria Colonna, e que, só depois de morta, lhe deu o primeiro beijo, os artistas são susceptíveis de diversas e desvairadas impressões.

É providencial, ás vezes! Se Garrett, já no declinar da vida, não fosse accommettido de nova leviandade, — se por tal a querem capitular — não teríamos esse livro delicioso, que se intitula "Folhas caídas" [...]

Depois da morte de Adelaide, succederam-se longos, inertes, e amargos dias para o poeta, que chorava sobre um tumulo, e velava sobre um berço! Uma vez, porém, embora [...]

Era a noite da loucura,
Da seducção, do prazer,
Que em sua mantilha escura
Costuma tanta ventura,
Tantas glorias esconder.


Revia-se a melancholia no rosto do consternado poeta:

Mas a orchestra bradou alta;
— Festa, festa! e salta, salta!

Os seus guizos delirantes
Sacode, louca, a Folia...
Adeus, requebros de amantes!
Suspiros, quem n'os ouvia?


D'alli a pouco, estava escripto que outra fascinação viria tomar-lhe a alma de assalto:

Quem é esta que mais voltas
Gira, gira, sem cessar?
Como as roupas, leves, soltas,
Aerias leva a ondular,
Em torno á forma graciosa,
Tão fina! — Agora parou,
E tranquilla se assentou.


Que rosto! Em linhas severas
Se lhe desenha o perfil;
E a cabeça tão gentil,
Como se fora deveras
A rainha d'essa gente,
Como a levanta insolente !


Almeida Garrett, Pedro Augusto Guglielmi, 1844.
Imagem: Wikipédia

O risco é inevitável; a perdição está por um fio! (2)


(1) Bulhão Pato, Sob os Ciprestes, Vida intima de homens illustres, Lisboa, Livraria Bertrand, 1877
(2) Bulhão Pato, Memórias Vol. I, Scenas de infância e homens de lettras, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1894

Artigo relacionado:
Barca Bela


Referências externas:
Obras de Almeida Garrett na Biblioteca Nacional de Portugal
Obras de Almeida Garrett em archive.org
Almeida Garrett, Obras Completas, Vol. I (com ilustrações de Joaquim Manuel de Macedo)
Almeida Garrett, Obras Completas, Vol. II (com ilustrações de Joaquim Manuel de Macedo)

sábado, 23 de abril de 2016

Pesca de dezembro

Os elegantes e esperançosos poetas da geração moderna, pouco depois da lucta civil de 1846, entregando-se quasi todos ás discussões áridas e rancorosas da politica militante, haviam desgraçadamente voltado as costas ao éden risonho da poesia; e apenas, de quando em quando, João de Lemos, Mendes Leal, Palmeirim, e poucos mais, davam signal de vida n'uma ou n'outra canção fugitiva.

A Praia do Sol, Panorama dos Capuchos, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 107, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Esta espécie de adormecimento litterario, em que vimos cair os primeiros engenhos, explica-se talvez pela influencia da epocha em que vivemos. A poesia respira-se no ar, como a fragrância das flores; e a atmosphera dos nossos dias, obscurecida pelo fumo das machinas de vapor, rouba aos olhos as suaves e encantadoras perspectivas da natureza [carta a Alexandre Herculano, 5 de maio de 1856]. (1)

Costa da Caparica, Miradouro dos Capuchos e Caparica, ed. Passaporte, 39, década de 1950.
Imagem: Delcampe, Oliveira

Nunca tomou uma vereda por outra, nos numerosos pinhaes das nossas províncias do sul?

Quando, n'esses labyrinthos de columnas rugosas, percebemos que nem as ondulações do terreno, nem as curvas caprichosas das sendas, nem os verdes oásis dos brejos sâo nossos conhecidos, retrocedemos, sem hesitar, até atinarmos com o direito caminho. Este retroceder é progresso. O distraído, ou o que ignora d'onde vem ou para onde vae, é que continua a seguir avante. Só o insensato crê que caminhar sempre em frente é synonimo de progredir. A Paquita é o symbolo da poesia transviada, que retrocede da estrada por onde andava erradia.


A Praia do Sol, Estrada do Parque Florestal, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 114, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Agradecida a offerta, permitta-me que lhe ralhe um pouco [...]

Pelo que dizem os entendidos, a ex-democracia temporária fomenta a democracia permanente. Os democratas barões, conselheiros, commendadores, chefes e sub-cbefes, de que se lembra, estão livres de ser Stilicons e Alarícos; mas imitam-n'os, como comportam as differenças do século XIX ao V: civilisam-se, apodrecem provisoriamente, aprendem a pisar com garbo as alfombras dos paços, reclinam-se com elegância nas poltronas das secretarias, penduram a heráldica ao pescoço do socialismo, cozinham nas fornalhas ministeríaes os curatos, as magistraturas, as escrivaninhas, as prebendas, as mitras, as comendas, as escolas; palmeiam nos theatros com luvas de irreprehensivel brancura; agitam-se nos bailes esplendidos, embriagam-se nas mesas opiparas, recuam com asco diante dos andrajos do plebeu, e retiram a mão afeminada da mão callosa do villão, que ousa estender-lh'a; — a erudição que mais os enleva é a genealogia. Sacrificam-se assim á democracia futura. De feito, Pedro, o obefe dos apóstolos, achou que havia conjuncturas em que se devia negar Christo. Esta gente é essencialmente evangelica.

Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (F.N.A.T.).
Costa da Caparica, aspecto do almoço dos trabalhadores dos Sindicatos Nacionais,1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Se lhe repugna imital-os, meu amigo — espero em Deus que lhe repugne sempre — tome o conselho que lhe dou: guarde silencio. Tire o chapéu á dança judenga que passa: respeite a crença publica e o progresso que consistem em não crer e em não progredir seriamente em coisa nenhuma; respeite sobretudo os parvos e os velhacos, porque a doutrina da omnipotência das maiorias é ponto de fé constitucional.

A carta que me dirige tem um sabor acre, e não sei se revolucionário; queime-a, e queime esta. Não é por mim: é por si.

Trafaria, Estrada da Costa, ed. Manuel Henriques, 16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Publique a Paquita, mas sem prologo. Só assim lhe poderão perdoar ter a sua tentativa — poesia, naturalidade, e senso commum [resposta de Alexandre Herculano, 20 de maio de 1856]. (2)

A pesca de dezembro, a mais rendosa,
A força dos constantes agoaceiros
Falhou, e foi a quebra desastrosa!

Os mestres d'artes mais aventureiros
Não poderam romper de cara ao tempo
Que teve de peor os nevoeiros!

Costa da Caparica, pescadores, Furtado & Reis.
Imagem: Delcampe

Alar! Lá vem a rede salvadora:
As mulheres, nos médos, mãos erguidas,
Em prantos, a invocar Nossa Senhora.

Não tem de receiar perda de vidas;
Mas se o sacco não pode com o peixe,
Que enormes perdas se darão agora!

Costa da Caparica, Adelino Lyon de Castro, O Fardo das Imagens (1945-1953), MNAC.
Imagem: Pinterest

Ganhou a praia a mole reluzente,
Sem ter nem leve sombra de avaria;
No rude vozear d'aquella gente,

Que expansão de enthusiastica alegria!
Viva, saltando sobre a areia flava.
Chega a todos a argêntea pescaria!

Costa da Caparica, Adelino Lyon de Castro, O Fardo das Imagens (1945-1953), MNAC.
Imagem: Pinterest

Ao soar da buzina, dos casaes
Partem bestas de carga a toda a brida,
Guisalhando atravez d'esses juncaes.

Os cabazeiros, na afanosa lida,
Avergados e a passo de balança,
Jogam-se ao Monte, a governar a vida! (3)


(1) Bulhão Pato, Paquita, Poema em XVI cantos, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciências, 1894
(2) Idem
(3) Idem, ibidem,

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Pescadores da Costa em 1900

A esperança, a esperança! ... O mar longe, movido
Solta, de quando em quando, um lúgubre gemido...

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, colégio do Menino Jesus e casas típicas de pescadores, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O pescador da Costa abandona a cabana;
Deixa filhos, mulher!... Na carreira vesana
Vae perguntar trabalho, e sem poder lograr
Companha, que se afoite ao truculento mar!

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores lançando uma embarcação ao mar, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No areal da Costa não rebenta a vaga;
Todo o mar sereno! Pobre pescador!...
Lança em vão os olhos... Da deserta plaga
Não descobre ao longe nem signal, que traga
Negra de sardinhas, ondulando á flor!

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores puxando uma embarcação para terra, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Não seja o tempo fatal
Aos do mar, e ao pescador;
Que o mais este vendaval
É propicio ao lavrador!

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, pescadores lançando uma embarcação ao mar (inv.), década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Pesado estoira o mar, pelo areal da Costa;
Sibila, range, estrala, o pinheiral da encosta! (1)


(1) Raimundo António de Bulhão Pato, Livro do Monte, georgicas, lyricas, 1896, Typographia da Academia, Lisboa.

Alguns artigos relacionados:
Colégio do Menino Jesus, 1876 — 1901
A Costa romântica de Bulhão Pato
Os saveiros meia lua da Costa da Caparica
Arte xávega na Costa da Caparica a Património Imaterial

sábado, 9 de abril de 2016

Em casa de Alexandre Herculano

Alexandre Herculano, quando eu fui para a sua casa [em 1847], começava a escrever o segundo volume da História de Portugal. O primeiro fôra publicado havia pouco. O "Monge de Cister" estava no prelo : succedia ao "Eurico", á "Abobada", ao "Bobo", ás "Armas por fôro de Hespanha". O auctor cumprira trinta e sete annos n'aquella primavera.

Casa de Alexandre Herculano na Ajuda, Largo da Torre, Alberto Carlos Lima, década de 1910.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Os rapazes do cerco do Porto, se baviam corrido por cima das ondas, voltando do exilio, se marchavam rápidos pelas assomadas das serras, fraguedos e desfiladeiros, carregando o inimigo, vamos que não caminhavam devagar pela senda das letras!

Na Ajuda, hoje animada e ruidosa com a presença da corte, reinava n'aquella época o silencio e a solidão quasi completas.

Da antiga Patriarchal, ninho tépido e macio, recheiado pela mão paterna do absolutismo com o cibo apetitoso, que regalava o paladar exquisito dos filhos segundos das casas fidalgas, convertidos em recebondos, anafados e pachorrentos cónegos, da antiga Patriarchal, digo, não existia mais do que a torre.

Lisboa, Ajuda, Largo da Torre Paulo Guedes.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O bronze, que dava as horas, tinha um som redondo, sonoro; ao mesmo tempo melancólico e profundo. Dir-se-ia que denunciava saudades do passado, mas que se resignava com o presente. Saberia elle que o bronze è a voz do tempo? É possível [...]

Como o sino da Ajuda, alem de estar n'uma torre, está n'um alto, ha de ter visto muita cousa, e ha de ter muito que dizer; mas não diz nada a mais das horas e dos quartos, que o ponteiro lhe marca. Com tamanho badalo nunca vi quem badalasse menos!... Talvez que eu, algum dia, venha a badalar por elle.

A janella do quarto de trabalho deitava para o Tejo. No meio da verdura dos quintaes e das hortas resaíam as casas, que se agglomeravam pela encosta até á beira do rio. Os montes do outro lado.

Se a margem esquerda do Tejo fosse arborisada de pínheiraes, como é a do Douro, que aprasivel efifeito não produziria no animo do viajante, que já vem maravilhado com a entrada da barra de Lisboa.

A vista dilatava-se pelo espaçoso largo, descia pela encosta. ingreme, e espraiava-se pelas aguas transparentes do rio.

O gabinete de estudo era pequeno. No inverno aconchegado, agasalhado ou "confortável", como agora se diz. Na primavera e verão abria-se a grande janetla, e arejava-o a brisa fresca do mar.

Uma janella que deita para o mar desafoga os pulmões e também a alma.

Casa de Alexandre Herculano na Ajuda, Largo da Torre (detalhe), Alberto Carlos Lima, década de 1910.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Havia n'aquelle quarto um fogãosinho, a mesa de trabalho, e uma enorme cadeira estofada e forrada de marroquim verde, cadeira como não conheço outra, obra traçada pela cabeça de um allemão, e feita de molde para as meditações dos sábios.

Eu, por mim, achava-a deliciosa para me aninhar dentro d'ella e dormir regaladíssimos somnos.

Sobre a mesa, coberta de papeis, um grande tinteiro de latão, como os das antigas secretarias e as pennas de pato — sem contar com as minhas — que eram bem raras n'esse tempo! Pelo chão, os livros, os infolios, e as notas com signaes, que eu suppunha cabalísticos [...]

A desordem, apparente, dos livros e dos infólios, a immensidade de notas, dispersas como baralhos de cartas, que se atirassem ao acaso; todo aquelle labyrintho era a ordem, a classificação mais perfeita para o grande escriptor.

Quasi pelo tacto ia pôr a mão no documento de que necessitava, fosse embora das mais exíguas dimensões.

No inverno accendia-se o fogão. Assim que o sino dava as onze da noite, fosse qual fosse o trabalho, e por mais embebido que estivesse n'elle, o dono da casa depunha a penna, conversava uns dez minutos, encamínhava-se para o seu quarto, e logo que encostava a cabeça na almofada, adormecia de um somno reparador e profundo até ás seis horas do dia seguinte.

Lisboa, Ajuda, Eduardo Portugal, 1939.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A boa divisão do tempo, a regularidade de vida, a assiduidade no trabalho; reunidos a poderosas faculdades intellectuaes, venciam as inauditas difficuldades, que se apresentavam a cada passo diante do escriptor, que tinha de desentranhar das minas da historia, occultas nos recessos dos archívos, o oiro, que, depois de lavrado e polido, devia de ser um monumento de gloria para nacionaes, e de admiração para estrangeiros. (1)

A casa da Ajuda era, n'esse tempo, a mansão tranquilla, onde, á sombra do mestre, estudava um grande talento, Rebello da Silva, e eu balbuciava, timido, os primeiros versos.

Sim! Tranquilla e salutar!
Oh! mia casa romita e serena!...
Que saudades tenho tuas!

Lisboa, Ajuda, Eduardo Portugal, 1939.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Levantavamo-nos um pouco depois das seis horas da manha.

O mestre sempre o primeiro. Ia dar uma vista d'olhos ao jardim. Não lhe faltava, na estufa, uma transplantação, o decote ou o enxerto de uma roseira primorosa; o ramo de flores para a mesa, arranjado pela sua mão, no que tinha dedo. Depois sentava-se á mesa e trabalhava. Ordinariamente hora e meia, até ao almoço.

Os invejosos mordazes até inventaram que Alexandre Herculano era homem áspero e brutal no trato!

Não conheci ninguém mais sincero, mais simples, e ao mesmo tempo mais amoravel, e, sem affectação, delicado [...]

Voltemos a 1847. Alexandre Herculano escrevia a Historia de Portugal, e concluia o Monge de Cister, publicado, pela primeira vez, em volume em 1848.

Lisboa, Ajuda, Eduardo Portugal, 1939.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Almoçávamos ás oito e meia — café especial, pão saloio e a preciosa manteiga fresca, fabricada com o leite dos uberes túrgidos das anafadas e luzidias turinas, que repastavam na arribana da horta da calçada do Galvão.

Aquella horta tem destino de pertencer a homens superiores. Ha muitos annos que a cultiva José Eduardo de Magalhães Coutinho.

Depois do almoço Herculano sentava-se á banca do trabalho; Rebello da Silva descia á bibliotheca a estudar. O estudo, que foi sempre uma predilecção para elle, n'essa epocha era uma paixão desenfreada. Muitas vezes, logo sobre o jantar, a despeito das salutares advertências do mestre — que de tarde nem abria livros, nem pegava em penna — atirava-se ao trabalho.

O jantar era ás duas e meia em ponto. A toalha alvíssima. O ramo de flores, renovado todos os dias. A cosinheira excellente. Vinho branco e tinto da Arruda, puro, e em duas facetadas e magnificas garrafas de crystal de rocha, antigas, de casa dos pães de Herculano. Uma grande profusão de sobremesas, principalmente de doce de conserva, todo dirigido e muito d'elle preparado pela própria mão do dono da casa.

Dos botões das roseiras de todo o anno fazia Herculano um doce, como nunca tornei a comer. Os figos de conserva eram uma especialidade [...]

Ao Eremitério — era este o nome, que nós dávamos á casa do mestre — deviam chegar dias sacudidos e agrestes, senão tempestuosos.

Havia lá quem tivesse anchura de peito para contrastar a tormenta!

Depois de publicado o primeiro volume da Historia de Portugal alguns rumores se levantaram contra o auctor, por causa do milagre d'Ourique [...] (2)

No clarear de uma manhã de setembro que paizagem aquella, vista do alto da montanha!

A barra, o cabo, o oceano; a Arrábida ao sul; ao norte Cintra. O sol rompendo na orla do nascente, em braza, sem vibração de luz a principio, agora jogando as primeiras frechas ás cumiadas de Palmella, ferindo as ondinhas verde-claras do Tejo. A sul, escuro o céo; no remoto occidente, ainda mal desvanecidas as estrellas; na aragem, apenas sentida, o sopro indizivel e virginal da madrugada; os gallos da aurora soltando a voz crystallina pelos casaes perdidos entre as hortas e pomares.

O Jamor, nas voltas sinuosas, denunciando-se no trepido murmúrio, atravez da névoa opalina condensada sobre o valle. Ao altear do sol, refrescando o norte limpido, dezenas e dezenas de moinhos agrupados ou disseminados pelas cristas da serra, girando as suas aspas brancas e produzindo-nos a visão de que se movia toda aquella grandiosa e deslumbrante paizagem. Agora foram-se os moinhos, que tocavam de sabor alpino e agreste o ondulado e maravilhoso quadro. As fabricas deram cabo d'elles e deram-nos peor pão e mais caro!

Lisboa, Ajuda, Eduardo Portugal, 1939.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Com os nossos perdigueiros iamos levantando as bandas de perdizes, até que se refugiavam nos zambujaes da Tapada. Foi esta mandada fazer pelo marquez de Pombal para o rei D. José ter caça ao pé da porta. Não ha nada como ser rei absoluto; essa sim, essa é que é ambição de suprema grandeza! O demais, rei constitucional e presidente da republica são grandes honras, porém honras apenas, com relação ao passado. Os olhos do déspota dominavam tudo e tudo para elles era arraia miúda. Descendentes de reis, embora, não os queriam senão para copeiros, estribeiros, aurigas, moços de monte, servos humilissimos.

El-Rei D. José ama a caça? O ministro extraordinário e feroz acurva-se na sua alta estatura intellectual, e, de joelhos, espera que lhe assigne os decretos para reedificar Lisboa arrazada e para engrandecer o reino. Depois improvisa-lhe uma coitada com que sua magestade se distraia nas horas de ócio [...] 

Palácio da Ajuda e torre do relógio, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Uma noite bateram onze horas no sino da torre e Alexandre Herculano depoz a penna como por acto automático. Não conheci ninguém onde os hábitos tivessem maior império; talvez a disciplina a que se votou como soldado voluntário concorresse para tal. Era no inverno, noite fria, escura, mas serena. Quando entrámos na casa de jantar para tomarmos uma colher de doce e um trago de agua, como de costume, ouvimos uns gritos de afflicção, e no tremor convulsivo da voz percebemos:
"Ás armas!"
Corremos á janella do quarto de trabalho e vimos sahir do pateo do palácio uma alma do outro mundo de dimensões sobrehumanas [...]

Palácio da Ajuda, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A 3 de março de 1849 fazia eu vinte annos (um dois e um zero^ que sâo um poema!) e vim na véspera á tarde até Lisboa para no dia seguinte jantar com minha mãe. 

De manhã recebi uma lembrança de Alexandre Herculano e juntamente uma carta. Entre muitas que tenho d'elle, e que hei de publicar um dia, é para mim a mais grata. As notas individuaes não se desprezam hoje, antes concorrem para os annaes da alma humana.

O papel da carta está, como eu, muito velhinho; mas as suas lettras vivas trazem-me, como se fossem de hontem, as lembranças d'esse dia:
Meu caro

Ahi vão essas poucas flôres; são as que encontrei pelo quintal inculto. Mando-as, apesar de vulgares, porque me disse que sua mãe gostava de flores. Lembrou-me que, acostumado á manteiga frescal, acharia desagradável a salgada estrangeira. Veiu tarde a lembrança para hoje; mas ainda lhe posso acudir para o almoço de amanhã. Tenha equanimidade bastante para desculpar esta offerta de saloio.

Ha n'ella um pouco de vaidade de auctor. Eu creio que essa manteiga está boa; e hoje, meu rico, tenho n'isso mais presumpção de que no mérito de escriptor.

Quando eu tinha 25 annos cultivava flores e fazia versos; depois dos 35 annos fabrico manteiga e faço prosa. Passados os 50 provavelmente não farei nem uma coisa nem outra. Serei talvez um avaro ou um caturra.

É a trilogia da vida humana, trilogia de pernas ao ar, em que a poesia está no primeiro acto, o positivo e a prosa no segundo, o chato é o semsabor no terceiro. Peores são ás vezes (as mais das vezes) os dramas do theatro em que tudo são terceiros actos da comedia humana.

O meu amigo, que está no primeiro, cheio de vida e frescor, povôe-o bem de flores e poesia. As recordações d'essa epocha é que mandam alguns perfumes e harmonias á tarde e ao crepúsculo da existência — as duas quadras da manteiga e da caturrice;

 Palácio d'Ajuda, c. 1900.
À direita da imagem, no Largo da Torre, a casa onde residiu Alexandre Herculano.

Até amanhã á tarde para a nossa viagem da Ajuda.

Amigo
Herculano. (3)


(1) Bulhão Pato, Sob os Ciprestes, Vida intima de homens illustres, Lisboa, Livraria Bertrand, 1877
(2) Bulhão Pato, Memórias Vol. I, Scenas de infância e homens de lettras, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1894
(3) Bulhão Pato, Memórias Vol. III, Quadrinhos de outras éphocas, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1907

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quinta-feira, 31 de março de 2016

História de uma burra

Ouvimos contar o caso, e vamos confial-o á letra redonda para que d'elle se não perca a memoria.

Trafaria (Portugal), Vista geral e rio Tejo, ed. Martins/Martins & Silva, 28, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Tinha tido o porte airoso, as veias de uma transparência aristocrática, o olhar de uma suavidade indizível. Comera pouco, como esses entes quasi ideaes que pisam as alcatifas avelludadas das salas sem as acamar, e não haveria sido uma intrusa na verídica narrativa de uma reunião do "high-life".

Tinha dezeseis annos, a idade florente dos sonhos, dos desejos, dos caprichos para todas as do mesmo sexo, mas não da mesma raça... A protogonista da nossa historia é uma burra!

Dezeseis annos são na mulher a idade da walsa, das confidencias, das meias revelações. Na raça asinina são o desconsolo, a tristeza, a velhice, com todos os seus desencantamentos.

A protogonista da nossa historia nasceu na Trafaria, e pertencia, ou pertence... N'esta duvida entre o passado e o presente é que vai envolvido o mysterio de que tiramos esta verídica narrativa.

Ha na Trafaria um homem chamado Roberto, directo senhor de uma vacca, de meia dúzia de cabras, e de uns torrões pouco productivos, como quasi todos os que ficam ao sopé do monte de Caparica, antigo solar do snr. marquez de Vallada, denunciado ainda hoje ao vulgo por dous palácios em completas ruinas, como convém á velha fidalguia de sangue.

Caparica, Pera, casa de campo, anteriormente pertencente ao Marquês de Valada, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

O Roberto é um homem de cincoenta e tantos annos, que faz pela vida, que deita a pé seis léguas, ou mais se lhe forem precisas para o seu trafego, mas que precisa de um animal seguro de pernas, e de pouco alimento, que o aligeire das cargas mais pesadas quando tem de deitar até Cacilhas, ou levar a sua cara-metade ao cyrio de Nossa Senhora do Cabo.

Previdente como um labutador consciencioso, o Roberto comprou uma burra em 1868, quasi nas vésperas do snr. bispo de Vizeu trocar temporáriamente o báculo pela presidência do conselho de ministros.

Bispo de Vizeu, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A Janota, assim se chama a burra, tinha já então sete annos, e não se podia gabar de haver levado boa vida nas mãos de um moleiro, que lhe amolgava diariamente o espinhaço com três ou quatro saccas de farinha, aproveitando-lhe o préstimo nas horas vagas, carregando-a com pyramidaes cargas de tojo.

Moinho e moleiro do Oeste, Domingos Alvão, 1934.
Imagem: Moinhos de Portugal no Facebook

Apesar de todos os pezares, a jumenta era jovial, e aparentada, no dizer dos entendedores de genealogias, com o feliz quadrúpede que o príncipe de Galles comprou em Cintra, para levar para Inglaterra, como um specimen dos productos naturaes da terra dos seus fieis alliados, receando que não lhe chegassem frescas a Londres as queijadas da Sapa.

Podem os bons exemplos deixar de ter imitadores, mas ainda não houve absurdo governativo que deixasse de fazer proselytos. A fúria das economias andava então no ar como o pó, e o Roberto que se não pôde gabar de ter um engenho original, deitou-se a imitar o programma do snr. bispo de Vizeu, pondo a burra a meia ração, como o illustre prelado fizera aos empregados públicos!

As consequências d'este systema económico não tardaram a chegar. A burra que nunca fizera cara ao trabalho, que não exigia mesmo gratificação de palhada para dar conta de qualquer missão espinhosa, começou a definhar de dia para dia, a olhar indifferente para a vacca que girava como ella debaixo da mesma firma commercial, até que deixou pender a cabeça sobre a manjedoura, na altitude resignada de uma beata que adormeceu a rezar o terço.

Era uma victima do orçamento particular do dono. Uma consócia insciente dos planos financeiros da época.

A instrucção publica: a grande burra, Raphael Bordallo Pinheiro, A Parodia, n.° 53, 1901.
Imagem: Hemeroteca Digital

Agora vai começar a parte sentimental d'esta historia. Que pensa o leitor que fez Roberto ao seu braço direito, á burra que tinha incontestável direito a ser aposentada com a ração por inteiro, e a passar os últimos dias da vida, não digo cavaqueando na botica do bairro, com um empregado publico aposentado, mas retouçando livre da albarda a rara verdura que esmeralda o caminho da Sobreda?

Zé Povinho, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Mandou-a deitar á margem!

Á margem! São duas palavras só, mas significam o inferno e a eternidade, como de um bipede seu cliente disse o visconde de Castilho, na sua immortal epistola á imperatriz do Brazil.

Á sentença seguiu-se a execução. A burra, a Janota, a intrépida caminheira, a paciente carregadora, foi levada de corda ao pescoço até os juncaes, e lá abandonada ao seu destino, para meditar, se o soubesse fazer, na injustiça dos homens, e na instabilidade da fortuna.

O que são os juncaes? Perguntai-o a Bulhão Pato, ao intrépido caçador, ao apaixonado pelas grandezas da natureza, mesmo nas suas mais agrestes manifestações; ao poeta, que por amar as boninas não deixa de bemquerer ao rosmaninho, nem de se affeiçoar ao sargaço que orla os trilhos tortuosos que conduzem ao topo das encostas escabrosas.

Bulhão Pato, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os juncaes são, a palavra o está dizendo, um terreno húmido e encharcado, tendo por docel um céo esplendido, e por usuaes povoadores inhospitos coelhos, espertas codornizes, rastejadoras perdizes, e, fendendo os ares em desencontrados rumos, espavoridas gaivotas, e ruidosas aves de rapina.

Os juncaes, que nascem e crescem onde as demais plantas degeneram e morrem, acoutam no intrincado labyrintho das suas emmaranhadas raizes os coelhos e as perdizes que o meu amigo Bulhão Pato desaloja dos seus tranquillos coutos, para os ferir de morte na carreira, ou as fazer desabar das alturas, até o desenvolto perdigueiro as ir topar adormecidas na alfombra, para não mais acordarem.

Foi, como dissemos, nos juncaes que a Janota foi abandonada ás vicissitudes da vida errante, ás intempéries das estações, ao desconsolo da solidão, ás misérias do isolamento!

Mas a Providencia é a mãi pródiga dos desvalidos, e reveste as formas que mais lhe apraz para valer á mais humilde das suas creaturas. Havia quasi uma semana que a Janota divagava por entre os juncaes, aspirando as brizas marinhas, e retemperando os pulmões com os perfumes agrestes do trevo e da margacinha, quando em um sabbado, por isso chamam aos sabbados de Nossa Senhora, a Providencia, representada por José Ghumeco, foi topar com a burra dormindo a sesta, com a tranquilhdade de um justo, zurrando por entre sonhos a palavra perdão.

Confesso que sou amigo do Ghumeco, mas não falsearei a minha historia com episódios que eu nâo haja apurado da tradição oral confrontada depois conscienciosamente com os factos subsequentes, que recommendam o nosso homem á benevolência da sociedade protectora dos animaes.

José Ghumeco é um maritimo, nado e creado ná Trafaria, que se sente mais á vontade empunhando um remo, colhendo uma vela, retorcendo um cabo deitando uma rede, conjecturando os ventos, prognosticando temporaes, do que muitos ministros com as pastas, e muitos poetas com a idéa nova.

Trafaria, Vista da Praia, ed. Manuel Henriques, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

O vocabulário do Ghumeco é um vocabulário excepcional, pitoresco, novo, abundante. A alma anda-lhe lavada de ruins paixões. Aprendeu com o mar a serenar logo depois da tempestade. Se lhe escapa uma ruim palavra, conhece que o vento lhe veio de travessia, e põe-se á capa. É pai de uns poucos de mocetões que parece terem sido inventados para o mar, e casado com uma santa mulher que o remenda, e lhe diz quando as ondas não estão para graças:

— Ó homem! se eu fosse a ti não me mettia a tentar a Deus!

A que o Ghumeco responde invariavelmente:

— Á conta de quem pôde, é que a gente anda cá n'este mundo!

Era um sabbado, por signal a 23 de janeiro de 1877, ia o nosso homem para a costa, ver colher uma d'aquellas redes colossaes que trazem á terra dúzias de contos de reis em sardinha, quando, ao passar pelos juncaes, estacou ao ver a Janota que se espreguiçava vergando as pernas com o esforço que fazia para tomar conhecimento de si, com o pello hirto e aguado, denuncia muda da sua involuntária vadiagem.

O Ghumeco chamou-a. O instincto, que nos animaes presta para mais do que o raciocinio em alguns homens, disse a Janota que era chegado o termo dos seus males. Encabritando-se, como nos tempos felizes em que a cevada a estimulava ás caminhadas que a tradição ainda hoje commemora, e despedindo dous alegres couces, prenuncio dos mais que havia despedir pelo correr dos tempos, aproximou-se do Robinson que a chamava, attrahindo-a com a engenhosa bonhomia de um missionário, e a rude franqueza do homem do mar.

Novos horisontes se vão rasgar agora para a invalida que o dono não soubera apreciar recorrendo aos segredos das hervas medicinaes, ou coníiando-a á sciencia de um ferrador, perito no tratamento das pneumonias agudas.

A primeira quarta de cevada que a Janota viu diante de si em improvisada manjadoura de vime, foi como um convite á vida alegre e folgazã de outros tempos. A palhada, adubada de semea fina, produziu na organisação robusta da Janota melhor effeito que a "Revalescière du Barry", nos temperamentos lymphaticos das filhas de um portuguez recambiado de Pernambuco pela sociabilidade dos naturaes da terra.

No fim de um mez a burra afoutou-se a poder com a albarda para experiência. Na primavera seguinte, quando o cuco serve de calendário á gente do campo, já ella carregava uma moçoila desempenada, e, soberba de carga tão formosa, galgava chotando, onde as suas congéneres se enterravam na areia, e atrevo-me a dizel-o (Deus queira que me não venham trabalhos da sinceridade) que nunca até hoje o hippodromo de Belém deu premio de consolação, ou de qualquer outro nome, a bicho capaz de se lhe avantajar na carreira.

Costa da Caparica, transporte de mercadoria pelas dunas, década de 1920.
Imagem: Espólio Agro Ferreira

Desculpem-me os sócios do "Jockey-Club" esta minha opinião, que julgo não ser isolada. Se o meu respeitável amigo o snr. conselheiro Moraes Soares, não toma a serio o apuramento da raça cavallar, receio que os burros venham a ser trunfo nas corridas. .. de cavallos.

Vamos ao caso.

Não ha obra de caridade que Deus deixe sem recompensa. A Janota veio a ser a auxiliar do Ghumeco, não o seu ganha-pão exclusivo, mas uma fatia do seu pão quotidiano. Quem hoje quer alugar a burra que os juncaes viram magra, extenuada, lazarenta, tem que metter empenhos para o conseguir. O Chumeco põe a mão na ilharga, marca-lhe o preço, e não desce d'elle nem um real.

— É para quem pôde, responde invariavelmente o dono. Isto não é animal que se fie de quem não entende da poda.

Proferimos a palavra fatal: — dono!

O dono! Mas quem é o dono? A esta interrogação ha-de responder-se em Almada ao acabarem as férias judiciaes, visto que o Roberto chama hoje seu ao que mandou deitar fora, e o Chumeco se agarra á sua propriedade, mal comparado como uma ama de leite diz ser sua a criança que os pães abandonaram. Para este caso intrincado duvidamos que possa ser applicado com bom resultado o juizo de Salomão; mas recorda-nos quasi que a propósito, a tenacidade com que um verdadeiro sábio e homem de bem — o virtuoso Condorcet — preferiu sempre a mulher do povo que o creára, á mãi desnaturada que á nascença o entregara á caridade do municipio.

Almada. Rua Direita e Egreja de S. Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900
Imagem: Fundação Portimagem

Nós não queremos prevenir julgamentos, mas respondam-nos em consciência: não representará o Roberto n'esta historia o papel de um amante volúvel, que só deixa accender no coração os bons affectos, quando vê feliz e alegre em poder de outro a mulher que elle levou á perdição e á miséria?

Sophia Loren e Marcello Mastroianni, Ieri, Oggi, Domani, Vittorio De Sica, 1963.
Imagem: rebloggy

Não significará o Chumeco n'esta singela historia, a Providencia dos dramas chamados realistas, onde a convenção theatral manda entrar uma figura que enxuga todas as lagrimas e consola todas as afflicções?

Esta historia por ser de uma burra, não terá a sua moralidade como os apologos de Lafontaine? Nós cremos que tem.

Marquez d'Ávila e de Bolama, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Hontem ainda, 15 de setembro de 1877, sendo pretor o snr. marquez d'Ávila e de Bolama, vimos a burra que o Chumeco conserva por em quanto em seu poder, e podemos attestar que nos olhou... como quem reconhecia em nós o apologista do seu bemfeitor. (1)


(1) Luiz Augusto Palmeirim, Galeria de figuras portuguezas,  Porto e Braga, Liv. Internacional de Ernesto Chardron, 1879  

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