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sábado, 7 de janeiro de 2023

Taludes do Almaraz

Observaram-se em diversos levantamentos alguns desmornamentos mas estes apenas ocorreram a partir da face rochosa do trecho escarpado superior, não afectando a respectiva crista. Evitaram-se os locais que se sabia terem sido alterados por interferência directa do Homem (escavações para adoçamento da crista, sobre o Olho de Boi, ou para alargamento de plataformas, sobre o Ginjal).

Olho de Boi, João Vaz, 1887.
Museu Nacional Soares dos Reis

O único caso de recuo efectivo de um trecho de escarpa ocorreu a meia encosta entre Boca do Vento e Fonte da Pipa, em 1992 e, por ser do conhecimento prévio do autor, foi facilmente detectado no levantamento de fotografias aéreas de 1994.

No mesmo local, ocorreram em datas posteriores àquele levantamento outras ocorrências (a partir de Janeiro de 1996) e, como aquele, associadas a uma mesma camada rochosa que formava uma consola de grande balanço.

Derrocada parcial do talude fronteiro à Fonte da Pipa
Cristo Rei, ed. Bazar Mumi n° 218.
Delcampe Bosspostcard


Em relação ao trecho de escarpa contínua entre Cacilhas e Arialva, o tipo dominante de movimento de terrenos consiste em quedas de blocos a partir das paredes verticais ou sub-verticais, onde as camadas mais rijas formam consolas postas em destaque pela erosão diferencial dos estratos confinantes mais brandos, inferiores e superiores (...)

A ocorrência em 1992, 1996 e 1997, de quedas de blocos de grande volume (várias dezenas de metros cúbicos) concentrando-se no trecho entre Boca do Vento e Fonte da Pipa, justifica-se pela presença, nesse local, de um espesso banco calcário a calcarenítico formando consolas com cerca de 3 m de balanço. Muito próximo deste trecho, um pouco a oeste, registe-se a queda, em 1968, de um bloco de cerca de 150 toneladas sobre as instalações da antiga Companhia Portuguesa de Pescas.

Perfil geológico simplificado do trecho de taludes entre Castelo de Almada e o Seminário de São Paulo, sobre Olho de Boi, desenhado sobre fotografia tomada a partir da margem oposta
cf. Pedro Lamas, Os taludes da margem sul do Tejo, 1998

A maior parte destas ocorrências tem a sua origem, quase sempre, a meia altura da escarpa, não sendo visíveis os seus efeitos no total deste sector. Da escarpa, destacam-se blocos aproximadamente prismáticos ou em diedro, no caso do maciço se encontrar compartimentado por diaclases oblíquas à sua parede.

Registe-se, ainda, um talude sobranceiro ao cais do Ginjal, coberto por depósitos de vertente espessos, onde ocorreu um escorregamento que obrigou à realização de obras de estabilização importantes (...) (1)


(1) Pedro Lamas, Os taludes da margem sul do Tejo, 1998

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Fonte da Pipa e seu caminho
Sítio de Olho-de-Boi

quarta-feira, 22 de junho de 2022

A festa do São João

Doces recordações da juventude! Fonte da Pipa! Nayade querida, inexgotavel manancial de purissimas aguas! Que Deus te abençôe como eu te bem-disse quando mitigando a sede, espargia ao longe olhares saudosos, invejando as gaivotas as suas azas para me embalar no espaço, e me deslizar por sobre as vagas do formoso Tejo, n'uma d'aquellas manhãs em que o astro do dia, toucado de delgadas nuvens, ordena ao sul que sopre brandamente, e imprime a seus raios um colorido prateado!

Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden, Fieldmarshal The Duke of Wellington
Cesar Ojeda

Perto da noite toda aquella mocidade voltava em numero de quasi 60 pessoas, a percorrer os arredores da villa até principiarem as fogueiras, que se saltavam, e onde se queimavam alcachofras no meio de risos e descantes; dividindo-se e subdividindo-se a turba pelas casas, em que se brincava o resto da noite.

No dia seguinte celebrava-se a festa de S. João na capella da quinta da Ramalha, havia procissão, e depois saía a celebrada dança dos pausinhos, assim chamada por levarem os pares uns bordões pintados de vivas cores, com que faziam muitas sortes e passos agradaveis; e quem diante d'ella ia e a dirigia era Pedro Marques, de casaca de esteira, caraça preta e grande chapéo armado, montado n'um jumento, e com o rosto voltado para a cauda do animal.

Almada festas de S. João Baptista, aspecto parcial da Feira Popular, 1970.
Arquivo Municipal de Lisboa

No rocio de Almada havia um coreto de musica, d'onde partiam para as casas compridas grinaldas de louro e murta, entremeadas de lanternas para a illuminação á noite; e faziam-se ali n'essa tarde cavalhadas, para o que se lançava de uma janella a outra, em todo o comprimento da praça, uma grande corda, em que se penduravam panellas de barro cheias de agua de cheiro ou de ratos, balõezinhos contendo pardaes ou lagartixas, casaes de pombos, de rolas, e outros objectos.

Uma duzia de mascarados a cavallo em rocinantes tentavam, cada um por sua vez, na corrida a galope, desprender da corda e enfiar nas lanças de que vinham armados estes premios d'aquelle jogo; mas quasi sempre se quebravam as panellas, se rasgavam os balõesinhos, e voavam os pardaes, os pombos e as rolas, caindo os ratos, a agua de cheiro ou as lagartixas por toda a praça, o que dava logar a grandes risadas, chufas e applausos.

Procissão de S João em Almada, segundo uma photographia do sr. dr. Judice Pragana.
Hemeroteca Digital, revista Branco e Negro, Julho de 1897

Durava isto por muito tempo, e todos se mostravam mui satisfeitos. Á noite illuminava-se todo o Rocio, queimava-se um fogo de vistas, e appareciam novamente a dança dos pausinhos e outras, tudo com muita musica e arruido. (1)



sexta-feira, 5 de julho de 2019

As praias obscuras

Junto de Lisboa, na margem esquerda do Tejo, encontram-se ainda alguns logares de banhos onde a vida é mais barata que na margem de cá. Taes são:

Porto Brandão, em frente de Belém. Magnifica vista para a margem opposta do Tejo. Arvores — coisa rara — nas visinhanças. Soffriveis casas a preços módicos.

Lisboa vista do Porto Brandão, James Holland, 1837, 1838 ou 1847.
Imagem: Museu de Lisboa

Um bello passeio de cerca de três léguas pela charneca até á Lagoa de El-Rei, o retiro predilecto de D. Pedro V. O pequeno e modesto prédio da casa real, de um só pavimento ao rez do chão, fica á beira do lago, na solidão da charneca.

Hum projecto para a casa de rendez-vous das caçadas reais na Lagoa de Albufeira (detalhe), J. Possidónio Silva, 1854.
Arquivo Nacional Torre do Tombo


A paizagem é de uma grande melancholia sympathica, de um encanto profundamente penetrante. A agua tranquilia da grande lagoa, o áspero aspecto da charneca, a grande solidão, a planice, o profundo silencio, infundem uma pacificação e um sentimento de serenidade ineffavel.

A lagoa é muito povoada, mas a pesca é prohibida sem licença expressa do individuo que a arremata em cada anno. 

Não obstante, o auetor d' estas linhas na ultima vez que ali foi apoderou-se de um polvo, fisgando-o contra uma rocha com uma navalha americana que o seu amigo Eça de Queiroz lhe mandou de presente das margens do Niagara. 

Fundamos o nosso direito a este polvo na circumstancia de que a rocha não é agua mas sim terra firme. Em todo o caso aproveitamos esta occasião para desencarregarmos a consciência pedindo humildemente perdão a sua excellencia o arrematante da lagoa e a sua magestade o proprietário d'ella. Estamos prontos a dar outro polvo, se a coroa assim o exigir.

Planta da Lagoa de Albufeira, 1849.
Arquivo Nacional Torre do Tombo

Os contornos do lago são habitados por óptimos coelhos, magros, mas de um especial sabor salgado e bravio. O snr. D. Pedro v matava-os na carreira, á bala, com notável perícia.

A caça não tem arrematante e é permittida ao publico. Além dos coelhos, que são abundantes, ha massaricos, patos e outras aves marinhas.

Paço Real do Alfeite, Aguarela, Enrique Casanova
Cabral Moncada Leilões

O Alfeite, perto da quinta real do mesmo nome, junto de Cacilhas e da Cova da Piedade. É o mais pittoresco sitio da margem do sul do Tejo.

Fonte da Pipa, aguarela de Álvaro da Fonseca, c. 1915.
Almada na Historia, Boletim de Fontes Documentais, 27-28

A Fonte da Pipa. Logar árido, abafado, triste. Poucas casas sem mobília. Pequenos preços. (1)


(1) Ramalho Ortigão, As Praias de Portugal..., Porto, Magalhães & Moniz, 1876

Artigo relacionado:
Lagoa de El-Rei

sábado, 8 de dezembro de 2018

Panorama das Margens do Tejo: o Tramoceiro

Pequena rocha de forma curiosa sugerindo um tremoço, que ficava entre o extremo do Ginjal e a Fonte da Pipa, na margem do rio. Só era acessível a pé enxuto na maré vazia e era pesqueiro muito apreciado dos pescadores à linha.

Vistas Stereoscopicas de Lisboa, Panorama das Margens do Tejo.
Delcampe

Um aterro efectuado em 1981, encobriu-a por completo. A expressão pode derivar de tremoço através da forma antiga e popular "tramoço". (1)


 (1) R. H. Pereira de Sousa, Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003

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O Tramoceiro

segunda-feira, 20 de março de 2017

Fonte da Pipa e sua água

LISBOA , em Lat. Ulissipo [phn, Tejo], de que vém a ser cor. voc. o significar "água bôa" em que nada esta Cidade (a maior das conhecidas na Europa, Capital do Reino de Portugal) que há mais pequena escavação, logo apparece: o t. he Árabe; e porque parte desta água apezar de em muitas partes ser minerál, e sulphúrica, como se vê dos banhos das "alcacerias" pertencentes ao Duque de Cadaval, abunda muito Lisboa, de que tóma o nome; mas porque as águas potáveis afóra o antigo chafariz chamado de Elrei na Ribeira Velha, que córre por nove bicas sem cessar, e que se concertou em o tempo da Regencia, que o Sr. D. João VI. retirado no Brazil, deixara em Portugal, óbra prima de hydraulica, sem que o chafariz parasse de correr, e cuja ruína já era espantoza; abasta a Cidade: foi da providencia do Rei D. João V. encanar do Cazal d'águas livres, que rebenta em grandes olhos a água em Bellas a duas léguas de Lisbôa, "Villa de Pedro Correia", assim chamada em outro tempo, por hum aqueducto, que he huma óbra perfeitamente Romana, que nunca cedêu de sua feitúra pelo terremoto, que abastece de água a Cidade, independente do poço chamado d'água sancta , rúa da Prata, que nunca seccou, e em que se recórre em occazião de sêccas graves, e da água da outra banda, de que se faz águáda para os navíos (chamada a da Fonte da Pipa), porque vinha, em pipas vender se ao Cáes do Sodré antes de feito o sobredicto aqueducto — Águas livres.

Fonte da Pipa, aguarela de Álvaro da Fonseca, c. 1915.
Imagem: Almada na Historia, Boletim de Fontes Documentais, 27-28

— Desgraça he que sendo esta água tão bélla, e potavel esteja imprégnada com outras inferiôres em bondade pela concessão mal entendida de deixar tirar do aqueducto pénnas, e anéis d'água com a obrigação de lhe substituir porção igual, que nunca igualára sua primitiva bondade.

Fonte da Pipa, Álvaro da Fonseca, c. 1915.
Imagem: Hemeroteca Digital

"Quem não vío Lisbôa, não vío couza bôa." adag. (1)


(1) António Maria do Couto, Diccionário da maior parte dos termos homónymos, e equívocos da lingua portugueza..., Lisboa, Typ. António José da Rocha, 1842


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Fonte da Pipa e seu caminho

domingo, 12 de março de 2017

Festejos na Outra Banda hontem 23 de julho de 1873

Logo ao nascer do sol embandeiraram quasi todas as cazas, e subiram ao ar muitos foguetes em signal de regosijo pelo anniversario da entrada das tropas liberaes. 

Pátria coroando os seus heróis, Veloso Salgado, 1904.
Museu Militar de Lisboa, Sala das Lutas Liberais (ex Sala das Campanhas da Liberdade).
Imagem: Maria João Vieira Marques

A direcção dos festejos por tão fausto acontecimento tinha sido confiada a uma grande commissão composta dos seguintes cavalheiros: — Presidente, Eduardo Tavares — Wenceslau Francisco da Silva — Jose Maria do Valle — Augusto Cesar de Lima — A. L. J. Quintella Emauz — João Antonio Xavier Carvalho Freirinha — Julio Cesar Coelho — Antonio Faria G. Zagallo — S. Duarte Ferreira — Rafael Fortunato Alves Cunha — Antonio Francisco Silva Junior — Manuel Francisco da Silva — Christovam de Mattos— Antonio Candido Lopes — João Alegro Pereira Ernesto — Alvaro Seabra — Barreiros (Delegado) e Guilherme Maria de Nogueira.

Esta commissão veiu de Almada para o largo da Piedade, ás 7 horas da tarde, acompanhada da philarmonica da villa, e de muitas senhoras que todas vestiam de azul e branco.

Banda da Incrível Almadense, c. 1894 - 1896.
Imagem: Restos de Colecção

Ahi, collocando-se na frente da egreja, o sr. Eduardo Tavares, presidente da mesma commissão e deputado por aquelle circulo, fez um brilhante improviso, commemorando os factos da batalha dada n'aquelle sitio; disse que os que o acompanhavam n'aquella occasião não estavam ali como vencedores, nem tão pouco revestidos de odios de partidos; e appellou para o patriotismo de todos os portuguezes para conservarem a independencia e a liberdade que ha quarenta annos desfrutámos.

Eduardo Tavares (1831-1875).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Concluído o discurso, o sr. Tavares levantou vivas á liberdade, sendo correspondido pela grande multidão que o cercava. Então deram-se também vivas aos veteranos da liberdade e ao sr Eduardo Tavares.

Em seguida foi distribuído a 50 pobres um bodo que se compunha de 230 grammas de carne, um pão, meio kilo de arroz e 100 réis em dinheiro.

Este bodo foi oflerecido por uma commissão especial composta dos srs. Eduardo Tavares — João Allegro Pereira — Padre João Netto — A. L. J. Quintella Emauz — Manuel Joaquim Motta e Lourenço Anastacio Ferreira de Aguiar.

Durante o bodo tocou uma philarmonica difíerentes peças de musica. Acabado o bodo, dirigiram-se todos ao largo onde se achava collocado o busto do duque da Terceira; e ahi foram levantados novos vivas á liberdade e entusiasticamente correspondidos. 

Estátua do Duque da Terceira (detalhe).
Desenho de Simões d'Almeida, gravura J. Pedrozo, 1877.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Voltou depois a grande commissão a Almada acompanhada do povo, e dirigindo se á casa da camara ahi se levantaram novos vivas, que foram também correspondidos.

O sr. Eduardo Tavares foi novamente saudado. Em seguida marchou tudo para Cacilhas. 

O largo da Piedade está deslumbrante. Inaugurava-se ali um novo jardim com um elegante coreto, onde tocava uma nova philarmonica da localidade. 

Nas ruas de Cacilhas, Oliveira e Almada, estavam muitas casas embandeiradas, e as janellas de algumas apresentavam vistosas colchas. 

Rua Direita — Cacilhas, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe, Oliveira

Todas as senhoras, como dissemos, trajavam de azul e branco; e todos os cavalheiros traziam ao peito um ramo de perpetuas preso com fitilhos também azues e brancos.

Do caes até á Fonte da Pipa, e pela rocha do Ginjal e rampa de S. Paulo estavam dispostas 150 barricas de alcatrão, que foram incendiadas ás 8 horas e meia da noite, produzindo um bonito effeito.

As casas da villa estavam illuminadas. No largo da Piedade tocavam, antes da chegada da commissão, tres philarmonicas. 

Jardim da Cova da Piedade, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 13
Imagem: Fundação Portimagem

Divisava-se em todos os semblantes o maior regosijo. Correu tudo com o maior enthusiasmo, o que se deve ao muito amor dos portuguezes á liberdade, e sem o mais pequeno incidente desagradavel, o que se deve á muita cordura dos ciadãos. (1)


(1) Diario Illustrado, 24 de julho de 1873

Artigo relacionado:
Os festejos de 24 de julho de 1874

Mais informação:
Duque da Terceira, Diario Illustrado, 24 de julho de 1873

Tema:
Guerras Liberais

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O Tramoceiro

Há nele [no Tejo] tanta abundância de peixe que os habitantes acreditam que dois terços da sua corrente são de água e outro terço são de peixe. É também rico de marisco como de área, e é principalmente de notar que os peixes desta água conservam a sua gordura e sabor natural sem os mudar ou corromper por qualquer circunstância [...] (1)

Olho de Boi - Beira Tejo, Manuel Tavares, aguarela sobre papel, 1960
Imagem: Cabral Moncada Leilões

[...] gordos e saborosos linguados, salmonetes, cações, raias, corvinas, douradas, pampos, cabras, ruivos, cibas, chocos, choupos, salemas, charroco, peixe delicado que dão aos doentes, cavalas, sardas, sardinhas, safios, congros, amêijoa, berbigão, ostra, lingueirão, mexilhão, caramujo, muito camarão, grande número de lagostas em Porto Brandão muitas sapateiras, santola, lagostim, caranguejos [...] (2)

Os peixes grandes comem os pequenos, Pieter Bruegel o Velho,  gravura de Pieter van der Heyden, 1557.
Imagem: THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART

Os abismos insondáveis do rio, reino de animais marinhos e de riquezas esquecidas — tão perto e tão longe da cobiça dos homens! Que variedade de peixes a que os iscos atraíam e as linhas puxavam para a riba do cais. Safios, congros, polvos charrocos, robalos, tainhas eirozes, linguados, corvinas, cações ... Na baixa-mar, as rochas e as pedras ofereciam ostras, mexilhões, lapas e ainda camarões nas poças salgadas da areia. (3)

Planta do Rio Tejo e suas margens (detalhe), as praias da Fonte da Pipa, Tramoceiro e Ginjal, 1883.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os habitantes da muralha viviam enamorados do rio e, de pais para filhos, conservavam os apetrechos da pesca. Todos os peixes lhes eram familiares e as manhas para os capturar pertenciam à sabedoria do lugar.

O Tramoceiro visto da rocha de Almada.
Imagem: Correia, Romeu, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982

Canas de pesca, linhas empatadas com anzóis de várias barbelas, camaroeiros de boca redonda ou rectangular, de malha larga ou a terminar com um saco de rede miúda.

A pedra do Tramoceiro, fotografia de Fernando Barão, década de 1950.
Imagem: Casario do Ginjal

Camarões capturados na vazante barrenta, camarão branco, com o linguadinho parasita junto da cabeça.

A pedra do Tramoceiro.
Imagem: Correia, Romeu, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982

Polvos, santolas, lagostas e lavagantes. Charrocos, tainhas, congros, safios, cações, robalos, corvinas, eirós e fanecas [...] (4)


(1) De expugnatione Lyxbonensi, excerto traduzido da carta escrita por um cruzado que participou no cerco e conquista de Lisboa em 1147

(2) Oliveira, Frei Nicolau de, Livro das Grandezas de Lisboa, 1620, citado em Porto Brandão, A Terra e o Tejo, Almada, Centro de Arqueologia de Almada, 2007

(3) Correia, Romeu, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982, 174 págs.

(4) Correia, Romeu, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.

Leitura adicional:
Freitas, Joana Teresa Cruz Mimoso, Turismo Náutico: agentes dinamizadores do estuário do Tejo, Estoril, eshte, 2010
Gomes, Sandra Rute Fonseca, Territórios medievais do pescado do reino de Portugal, Coimbra, Universidade de Coimbra, 2011

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Margem esquerda

A Joseph Fortuné Séraphin Layraud (1834 – 1912)

Vista do Tejo tomada do palácio da embaixada de França, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

D. Maria Pia de Sabóia, Palácio Nacional da Ajuda.
Image: Wikipédia

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.


Família real portuguesa em Queluz, Palácio Nacional da Ajuda, 1876.
Image: Wikipédia

E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.


A manhã seguinte, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1884.
Imagem: LAPHAM'S QUARTERLY

Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.


O artista no seu estúdio, 1899.
Imagem: artnet

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele. (1)



(1) Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos — Poema XX"

Informação relacionada:
Catalogue des tableaux exposés au Musée de Troyes fondé et dirigé par la Société académique de l'Aube (1907)

sábado, 13 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (6/18), sapo e doninha


SAPO E DONINHA



Almada, vista tomada do Campo de S. Paulo, Nogueira da Silva (desenho), Coelho Junior (gravura), 1859.
Imagem: Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

Já lá vão bastantes annos depois d'essa tarde de abril, em que Antão Diniz, de sobrecasaca azul com botões amarellos, galões de major nos punhos, chapéo redondo, e guarda-sol ao hombro, levava pelo braço D. Francisca Rosa de Lima, sua mulher, a santa senhora, como lhe chamava a tia Libania; adiante sua filha Mathilde, linda mocinha de l6 annos, com seus sapatos de fitas traçadas, e vestido de seda cor de canella, toda peralta, como tambem dizia a tia Libania; e á esquerda de D. Francisca, o joven Luiz Franco, a cara mais sympathica de rapaz que eu tenho conhecido.

La se ía este ranchínho na direcção da Arealva, por aquella empoeirada estrada, para onde a brisa impellia os aromas de mil odoriferas plantas. Sobre elle o nosso bello sol meridional projectava a sua cor doirada d'entre o azul da abobada celeste. Ao longe ouvia-se a chiada dos carros e o saudoso ulular dos moinhos.

Ó cidades. que ostentaes vossos templos, palacios, carroagens e oiros! Por maior que seja a vossa pompa e grandeza, não conseguireis que eu esqueça uma hora passada nos amenos logares da Outra-Banda.

Lá vão pois estrada fóra; e para fazerem o passeio mais longo, ao chegarem ao poço de Cacilhas sobem a Almada, contemplam Lisboa, cidade que d'ali parece como feita de marfim, e a que só faltam os minaretes para se afigurar ao viajante uma cidade mahometana, tão branca e phantastica se apresenta á vista com seu hello porto, vasto, e ermo de navios n'esta época da decadencia de Portugal...

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
Imagem: FRESS

Depois descem á Bocca do Vento, dirigem-se a Olho de Boi, e percorrem o longo caes que conduz á entrada da Arealva. Eil-os na quinta d'este nome, nos bancos de pedra, junto ao portão, debaixo das velhas arvores.

— Pae! Se eu fôra rapaz, diz Mathilde, havia de vir muitas vezes deitar-me á sombra d'este arvoredo, a olhar para o céo, para o Tejo, e para as penedias que estão por cima de nossas cabeças.
— Para que filha? diz Antão Diniz.
— Ora para que... para que não sei... Gosto muito de estar aqui.
— É um optimo logar para pensar, para meditar, observa Luiz Franco.
— Para pensar! replica Mathilde. Pois póde-se pensar quando se está diante d`estas scenas?!... Eu por mim não posso senão contemplar, e acho pouco todo o meu coração para isso.
— Já senti o mesmo, filha, tornou Antão Diniz, se bem que não soubesse então, nem me atravesse a exprimir taes sensações, com medo de que ellas fossem grande defeito da minha alma, defeito que me cumpria occultar; mas hoje que aprecio melhor o juizo que então formava das minhas sensações, sei fazer justiça ao teu coração.

— Muito bem, sr. Antão Diniz, observa Luiz Franco. Mas a longa contemplação das bellas paisagens costuma trazer no fim certa porção de tristeza, um sentimento que acabrunha o espirito, e como que lhe embota por momentos as faculdades; sentimento a que nos esforçâmos por subtrair-nos (tanto elle nos enleva!) transportando-nos a logares mais prosaicos.
— É, diz Antão Diniz, porque a contemplação não interrompida de tantas maravilhas cansa a alma, e ella precisa de descançar em outros objectos menos imponentes. Tudo no mundo tem e precisa ter verso e reverso, claro e escuro, e a sensibilidade da alma não é exceptuada da regra geral.

— Quem será que lé vem adiante? — diz D. Francisca, que principiava a aborrecer-se com a conversação.
— Parece marujo — observa Franco. Effectivamente da banda do Olho de Boi vinha um marinheiro alto, que ao chegar proximo do grupo de que fallamos, tirou o seu chapéo embreado, e deu as boas tardes, acrescentando:

— Acaso v. ex.as perderam alguma coisa?

Depois de alguns momentos, disse Mathilde — Perdi o meu lenço.

— É este? Aqui está, e por feliz me dou em ter achado este lencinho da sr.a D. Mathilde, filha do sr. Antão Diniz, de quem sou humildo criado.

Espanta-maridos disse tudo isto porque viu que o não tinham reconhecido; mas disse-o do um modo que á força de ser delicado degenerava em grotesco, o que fez sorrir Luiz Franco.

— Quem és tn que nos conheces? — perguntou Diniz com modo benevolente.
— Sou Joaquim de Jesus, o Espanta-maridos, alcunha que nunca pude saber quem foi o parceiro que m'a poz, mas que nunca mais pude tirar de cima do lombo.
— Ó Joaquim de Jesus! Tu por aqui! Então que é feito? Chega-te cá, meu rapaz, que te quero dar um abraço.

Espanta-maridos abriu os braços, e deu um passo para diante, mas parando de repente, disse:

— Não acceito. É demasiada honra para um engeitado e marinheiro.
— Será, será; mas não para homens como tu, que possuem um nobre coração. E abraçaram-se.

Depois recebeu Espanta-maridos outro cordial abraço de Franco, e fez os cumprimentos ás senhoras.

Ora ha em toda a gente da Outra Banda ricos e pobres, um certo ar de affabilidade e de agasalho mutuo, que diflicilmente se encontra nas cidades.

Ali o abastado trata o pobre e o miseravel com toda a urbanidade, conversa e mesmo ri com elle, mas isto de modo tal que não exclue o respeito entre as differentes classes; e a gente de Lisboa que lá vae passar o verão affaz-se sem custo a tão bella familiaridade.

Ás vezes de tarde em Cacilhas, no Caramujo, na Piedade e em Almada, parecem todos mais uma tribu, que uma reunião de familias estranhas e distinctas entre si em interesses e posição.

E tambem isto se encontra pouco nas outras terras do campo.

— Então está de marinheiro em algum navio mercante? perguntou D. Francisca.
— De contra-mestre, minha senhora. Vim ha pouco de Cabo Haytiano, foi a minha ultima viagem.

— Se me não engano, disse Luiz Franco, Cabo Haytiano e o antigo Cabo Francez, hoje capital de uma republica de pretos. Havia de ver por lá coisas bem curiosas.
— Muitas, respondeu Espanta-maridos. É a viagem mais divertida que tenho feito na minha carreira de marítimo, que ainda assim não e muito longa 18 — annos somente.

— Lá as mulheres são todas pretas: não é assim? — diz Mathilde.
— Pretas e mulatas; mas estas ultimas são bem poucas comparadas com as pretas. Ha algumas brancas, mas são de familias de ministros, cônsules e alguns poucos negociantes estrangeiros. Ha deputados pretos, generaes pretos, almirantes, juizes, marítimos, tudo é preto ou mulato, e as mulheres e filhos tambem.

— Se o sr. Joaquim de Jesus tivesse a bondade de nos contar algumas coisas do que por lá viu, muito estimaria ouvil-o disse D. Francisca.
— Com todo o gosto. Mas v. ex.as hão de achar mais interessante a leitura dos apontamentos que o piloto tomou do que observava quando ia a terra. Elle, como era muito meu amigo, deu-me o borrão depois de o ter passado a limpo. Trago-o aqui, e se v. ex.as quizerem lerei algumas folhas.

Enseada da Glória, Ponta do Calabouço e Morro do Castelo, litografia de Benoist e Ciceri, 1852
Imagem: Especial Rio Antigo no Facebook

Desejando todos saber o contheudo do manuscripto, Espanta-maridos foi buscar um carrinho de mão, que estava proximo, voltou-o, sentou-se em cima, e disse:

— Antes de começar a leitura, devo dizer a v. ex.as que parti do Rio de Janeiro de contra-mestre a bordo do Conceição Flor de Maria [o bergantim, pequeno veleiro de transporte e comércio, ainda operava em 1885], da praça de Lisboa, com direcção a New-York; mas tendo-nos adoecido na altura das Grandes Antilhas alguns marinheiros e o capitão, este, que era dono do navio, quiz arribar a Cabo Haytiano, onde o ministro hespanhol era muito seu amigo e pessoa rica. Ancorámos com effeito em Cabo Haytiano, cidade de muito mesquinha apparencia, e transportados os doentes para casa do hespanhol, ficou o piloto, que era filho do capitão, encarregado do navio, e aqui está. o que elle nas horas vagas se entretinha a escrever:

— "Apenas cheguei a Cabo Haytiano, desembarquei, e ao sair da alfandega fui logo rodeado de gente esfarrapada, que com grande insistencia me pedia esmola. Contentei-os. Metti-me depois pela cidade, e breve deparei com um grande ajuntamento de pretalhada á porta da casa da misericordia. Estavam ali empilhadas perto de 2:000 pessoas de ambos os sexos.

Era a venda dos bilhetes da loteria. A todo o instante saiam d'aquelle immenso grupo gritos de soccorro e desesperação. Por vezes foram lá pequenas forças de infanteria e cavallaria para valerem aos desgraçados que succumbiam no apertão e fazerem com que elle diminuisse; mas nada remediavam. E como precederam no fim de tudo as auctoridades? Deixaram continuar aquelle horrivel espectaculo, e limitaram-se a mandar por macas no largo para levarem ao hospital ou ao cemiterio os que ficassem contusos ou mortos.

E effectivamente assim aconteceu, porque morreram duas pessoas, e ficaram bastantes gravemente pisadas. E não foi por falta de tropa, porque a guarnição da cidade era de muitos mil soldados de todas as armas. Fiquei logo por este facto entendendo que estava em terra de barbaros, e o mais que observei me confirmou n'esta opinião.

No dia seguinte passei outra vez pela casa da misericordia, e entrei na egreja. Estava á porta uma turba de mendigos fazendo lamuria. Havia grande funcção, o povo era immenso. Olhei em roda, e vi uma bancada, e n'elIa em cadeira dourada e de espaldar um preto gordo de argolas de ouro nas orelhas. Vi então chegar outro preto vestido exactamente como os chamados irmãos de azul da misericordia de Lisboa. Trazia na mão uma tenaz de prata com uma braza. Parou diante do preto gordo fazendo-lho grande venia. Este puchou de um charuto, accendeu-o, e poz-se a fumar. Interroguei a este respeito um mulato que me ficava ao pé, e respondeu-me que a ninguem era permittido fumar na egreja, mas que o fazia, com grande escandalo, o irmão do marquez de Branques, que era o tal preto das argolas, e ninguem lhe ia á mão por ser o provedor da misericordia e fidalgo de muita importancia.

Em outro dia passei pela casa das sessões legislativas e entrei. Ouvi por muito tempo questionar qual de dois deputados era o que devia fallar primeiro. Houve sobre isto discursos e votações. Acabada esta questão, approvou-se a despesa de alguns contos de réis com a compra de pós para matar pulgas e percevejos nos quarteis da tropa. Seguiu-se a approvacão de uma pensão para a mulher do presidente da camara, o que muito o contentou porque se estavaa rir e a rebolar na cadeira a cada momento. Seguidamente votou-se que se dessem a um engenheiro inglez 75 contos de réis por alguns estudos de portos e barras.

O homem estava na galeria, era meu conhecido, e fallava alguma coisa portuguez. Apenas se votou o seu negocio, veio logo ter comigo, e disse-me com a maior franqueza:

— Estes estudes, senhorre portugasio, valerre une bagatelle; mas no force, mim fique agora rique. Mim e otrres estrancheires combinarre com Ministres negrres; elles entreterre populache com politiques, e fazerre comigue e outrres aventureires contrrates ruinoses pârre Hayti. Nós dividirre com chefes de maiorie e opposicione, e assim mim e elles todes vae ficande riques. Nós e homes grrandes de Hayti, excepte poques cabeçudes, sérre todes come une companhie de cavalheires de industrie. Elles e nos tinhe sapates ha dois dies, e hoje temes carriges e cavalhes. Hayti fique arruinade; mas o proveito de quem é, senhorre portugasio? — dizia-me elle batendo-me palmadas nas costas, e dando grandes gargalhadas. Quande gate come frangues o proveite de quem é?

— É de gate, respondi eu com egual hilaridade. Depois approvou-se um emprestimo feito ao governo por um banqueiro alemão, em que este ganhou e o Hayti perdeu coisa de um milhão de cruzados.

E depois... saí pela-porta fóra farto de presenciar tantas miserias.

Quando fui a Leogane vi uma coisa extraordinaria.

N'uma grande casa, as grades de ferro das janellas, estavam muitos pretos que deitavam para fora paus de que pendiam atados em cordas cabazes, cestos e cabeçadas de burro, assim a modo de quem pesca ao candeio, e pediam com vozes lacrimosas que lhes deitassem ali alguns cobres.

Era a prisão da cidade. O espectaculo pareceu-me hediondo. E passava-se isto n'uma das principaes praças publicas.

Tendo eu comido em terra algum peixe temperado com vinagre, á noite a bordo fui acommettido de uma violenta colica. Era do vinagre, que estava adulterado. Tambem encontrei no fundo de uma chavena de chá alguma limalha de cobre. Era do assucar, que lá se retina em grandes bacias d'aquelle metal. Comprei um pouco do chá, e ao passal-o para um vidro notei que o papel ficava esverdeado. Disseram-me que não estranhasse isto, porque o governo d'aquelle paiz não se importa com a saude publica, e cada qual pode a seu salvo vender generos falsificados.

Quando percorri as margens do Artibonite, vi que o terreno era mui fertil, e que a maior parte estava por cultivar.

Vêem-se excellentes campos todos cobertos de matto e convertidos em charnecas, e aldeias miseraveis habitadas por gente rota e immunda."

— Basta, Espanta-maridos! — disse Antão Diniz. Muito prazer nos daria a continuação da leitura; mas vae-se fazendo tarde, e ainda estas senhoras não passearam na quinta. Apparece lá por casa com esses apontamentos, que muito nos teem divertido os costumes da pretalhada.
— E ainda v. ex.as não ouviram mais do que uma pequena parte, disse Espanta-maridos, guardando o ensebado manuscripto.

Cacilhas, Praia da Fonte da Pipa e Olho-de-Boi, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

Effectivamente entraram todos para a quinta, e passeando, ao chegarem perto do pequeno logar da Arealva, ouviram quasi aos pés um guinchar de afflicção, como de ratinho perseguido por gato.

— Olhe, mãe, para aquelle lado — exclama Mathilde. Está ali um sapo, e anda um ratinho a guinchar em frente d'elle. E o maldito sapo está de boca aberta.
— Paremos aqui, e sentem-se sem fazerem bulha, disse Antão Diniz. Vamos agora ver um dos phenomenos mais singulares que se dão na natureza.

É o sapo engulir uma doninha pela simples influencia da fascinação.

— Tinha ouvido fallar n'este phenomeno, disse Luiz Franco, mas até hoje ainda o não tinha presenciado. Estou com curiosidade de o ver.
— Então o sapo come a doninha? — disse Mathilde.
— Come sim, e vaes ver — respondeu Diniz.
— Se não fosse o sr. Antão Diniz querer ver o caso e mostral-o ás senhoras, já o sapo não estava com vida, observou Espanta-maridos.

Com effeito no meio do chão-estava o nojento reptil, muito grande, immovel, e sem tirar os olhos da pobre doninha.

Esta, parecida com um pequeno rato, porém mais bonita, e côr de castanha, corria de um lado para o outro formando meios círculos diante do sapo, o qual não desviava um momento a vista de sobre ella.

O animalzinho guinchava dolorosamente, levantava-se nos pés, corria e estremecia, mas olhando sempre para o sapo. Alguns instantes durou esta lucta, e a doninha ia estreitando a seu pezar os semicirculos que fazia, até que dando maiores guinchos, correu para diante, e metteu-se pela boca do sapo, que n'um instante a enguliu.

— Está acabado o phenomeno, já vimos: agora sô Joaquim de Jesus faça a sua vontade.

Espanta-maridos não se fez rogar, arrancou um tronquinbo do uma videira, e espetou o sapo, puchou da navalha, abriu-o, e tirou-lhe de dentro do bucho a doninha ainda estrebuchando.

Mas a coitada envolvida na baba immunda do reptil, acabou logo de espirar.

Quinta da Arealva, Margarida Bico.
Imagem: Panoramio

— Bem feito, sr. Joaquim de Jesus, bem feito. Mas a nossa curiosidade custou a vida á pobre doninha — disse D. Mathilde.
— No Brasil, observou Espanta-maridos, ha umas cobras que teem o mesmo poder de fascinação, e até sobre creaturas humanas as vezes o exercem.

Dito isto deitou fora a doninha e cravou no terreno a vara, ficando o sapo espetado na extremidade superior d'ella.

A este tempo appareceram Botelho e Gomes, e a sociedade continuou a passear separando-se um tanto adiante Mathilde, Franco, Botelho, e Gomes, e ficando mais atraz Diniz, sua mulher e Espanta-maridos.

— Não sabem, meus senhores, disse Mathilde, que vi ainda agora um sapo engulir uma doninha pelo poder da fascinação? Era uma coisa que ainda não tinha visto e mais sou filha da Outra Banda.
— E então: v. ex.a não afugentou o sapo? Bastava atirar-lhe com qualquer coisa para se quebrar o encantamento, disse Botelho.
— O marinheiro queria salvar a doninha, mas meu pai oppoz-se para nós vermos o caso.

— Ha paes que se dariam por muito felizes se em certas oocasiões tivessem podido evitar que as doninhas caissem na boca dos sapos; disse Gomes para Botelho gracejando.

— Mas nem todas as doninhas são engulidas pelos sapos, observou Luiz Franco: ou sabem desviar-se a tempo, ou apparece alguma alma caritativa que impede o effeito da fascinação.

Todos se riram muito d'esta observação de Franco. Fazia calor, e o caminho começava a ser ingreme.

Vista parcial do Tejo, Casa da Cerca e estrada da Fonte da Pipa, 1858. Aguarela, aut. desc., datada 14 de Março de 1858.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

— Ah! como estou cançada, disse Mathilde, e doem-me os pés.
— Apoie-se v. ex.a no meu braço — apressou-se Gomes a dizer. Eu a ajudarei a subir até á Boca do Vento.

— Muito obrigada, sr. Gomes ; mas v. s.a é muito alto; e talvez, se não incommodasse o sr. Franco, fosse melbor-que elle me desse o braço, porque é mais baixo, è melhor para meu braceiro.

Gomes fez-se pallido, e Luiz Franco, apressou-se com toda a delicadeza a dar o braço a Mathilde.

Quanto a Botelho fez um movimento, mas não se resolveu a offerecer-se.

— Fiquei com tanto nojo do reptil, que me parece que o estou vendo apparecer debaixo dos pés.
— Socegue v. ex.a, diz Franco, que por aqui não se encontram sapos.
— Quem sabe, respondeu Matbilde rindo, talvez algum saísse da quinta, e ande por aqui mesmo ao pé de nós.

— Eu o que vejo são flores, e aqui está uma bem singela e bonita, disse Gomes, apanhando um malmequer. Eu gosto muito d'estas flores do campo. Digne-se v. ex.a acceital-a. — Oh! não, sr. Gomes, respondeu Mathilde, e não é pela pessoa que m'a offerece que muito considero e estimo, mas pelo nome da flor... malmequer!
— Quer v. ex.a esta cravina? Disse Franco, tirando uma cravina da abotoadura da casaca.
— Acceito antes a cravina. É uma flor mais delicada e menos commum, ao passo que o malmequer é de nome e côr desagradavel, e nasce por toda a parte. E que bello aroma que tem a cravina!

— Perdoe v. ex.a; quer ver como a flor vae desmentir o nome? E Gomes, dizendo isto, começou com uma curiosidade infantil a dizer "bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me quer" á medida que ia passando pelos dedos as folhas da flor sem comtudo a deteriorar, ate á ultima, a que correspondiam as palavras " mal me quer" Fiquei logrado, continuou elle, a flor deixou-me ficar mal; mas quando a offereci a v. ex.a era na idéa de que a final desmentisse o seu nome.
— Pois bem, disse Mathilde, acceito-a para não parecer impertinente. Mas vamos a tanta distancia. Esperemos aqui pelos nossos companheiros.

Almada, Boca do Vento, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 12, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

E sentaram-se todos tres no alto da Boca do Vento. Entretanto chegaram Antão Diniz e sua mulher acompanhados de Espanta-maridos, e todos seguiram o caminho do Caramujo, indo Botelho ficar n'essa noite a casa de Gomes.

Quando Mathilde se recolheu ao seu quarto, Felizarda disse-lhe:

— O sr. Gomes pediu-me encarecidamente que entregasse esta carta á menina. Elle pediu-me tanto, que eu não pude recusar-me, mesmo porque me disse que se não a entregasse me intrigaria com Espanta-maridos, que, como a menina sabe, é o meu namorado.
— Ah ! com que elle deu-te a carta e disse-te isso! respondeu Mathilde abrindo-a. Vamos a ver.

Lida a carta, que era uma protestação amorosa, Mathilde dictou e Felizarda escreveu os seguinte — Sr. Gomes — Escusa de se cançar: digo-lhe uma vez por todas que perde o seu tempo.

No dia seguinte, ao alvorecer, foi Gomes ao Caramujo, recebeu de Felizarda a resposta á sua carta, e cheio de despeito partiu pouco depois a reunir-se ao seu regimento.


Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

terça-feira, 17 de junho de 2014

H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal

Vista dos Jardins e Palácio do Conde Burnay e do Tejo (detalhe), Francesco Rocchini, finais do século. XIX.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Ha no destricto desta Freguesia dous pórtos de mar, hum he о da Fonte da Pipa, com seu Forte para a banda do Poente, com huma praya como a deu a natureza sem artificio algum, frequentado de muitas embarcações, especialmente lanchas, que a ella vem fazer aguadas, e pode admittir até dezoito désta casta de embarcações.

Cacilhas, Praia da Fonte da Pipa e Olho-de-Boi, João Vaz.
Imagem: Casario do Ginjal

O outro porto he o do Cubal, com huma praya mais espaçosa, que a do primeiro, assim no comprimento, como na largura, tambem sem artificio, frequentado de varias embarcações, como são; bateiras, e fragatas, e as que o frequentão todos os dias fao dezasseis, e tem capacidade para admittir até cincoenta embarcações, como barcos de Cassilhas, que em muitas occasioens do anno vem amarrar nella, pela causa de ser abrigado das tormentas dos Nordestes, e Lestes, que por aqui correm com grande violencia. (1)

Almada, Ginjal, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 21, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

1852 — Os caldeireiros Hugh Parry e George Oakley chegam a Lisboa para trabalhar no Arsenal de Marinha.

1855 — Hugh Parry e George Oakley estabelecem-se por conta própria em Lisboa na Boa Vista. Nasce a H. Parry & Son.

1860 — [início da década de] Estabelecimento da Parry no Ginjal, no Cubal. Lançamento à água do Alcântara, vapor para transporte de passageiros, seguir-se-iam o Progresso o Lisbonense e o Belém — usavam como meio de propulsão rodas laterais, mediam cerca de 30 metros de comprimento, o casxo era em ferro e tinham uma lotação de cerca de 200 passageiros. 

Vapor da carreira de Cacilhas, 1890, Óleo, Alfredo Keil
Imagem: Casario do Ginjal

A sua construção era de tal forma resistente que estiveram ao serviço no Tejo mais de 30 anos.

1864 — Lançamento à água do Belém, o primeiro barco construído no estaleiro da Parry no Ginjal.

Navio a vapor Belém, o primeiro lançado ao mar em 1864
Imagem: Restos de Colecção

1866 — Associa-se à Parry Francis Churchill Cannell, genro de Hugh Parry.

1869 — Lançamento do Vapor n° 1 da Alfândega de Lisboa tendo como meio de propulsão a hélice.
[...] ahí por Fevereiro de 1874, [...] Começava n'essa ocasião o assentamento da linha de Carris de Ferro Americanos, do Terreiro do Paço ao Conde Barão, e existia, não havia muito, a carreira de vapores de rodas para Alcântara e Belém, de cuja opulenta frota fazia parte o roncador e cuspinhento vapor Progresso, com seu simbólico titulo de arrojado meio de transporte, e no qual tantas vezes embarquei.
in Prólogo do auto da Lisboa Velha, Affonso Lopes Vieira.
1876 — Morre Hugh Parry. Francis Cannell assume a gerência da empresa.

1890 — Ultimatum inglês.

1893 — Promessa de venda do estaleiro do Sampaio na Praia da Lapa em Cacilhas à firma H. Parry & Son pela importância de 90.000$000 réis.

1895 — Lançamento à água das lanchas canhoneiras Diogo Cão e Pedro de Annaya, encomenda da Subscrição Nacional em consequência do Ultimatum inglês. Também no mesmo ano foi construída a lancha canhoneira Honório Barreto.

1898 — Lançamento à água da canhoneira Chaimite.

Estaleiro no Ginjal, H. Parry & Son.
Imagem: Restos de Colecção

1899 — Concretização da venda do estaleiro do Sampaio de Cacilhas à H. Parry & Son.

1903 — Lançamento à água da canhoneira Tete.

Lancha canhoneira Tete.
Imagem: graptolite

1904 — Lançamento à água da lancha canhoneira Sena.

1938 — Fim do contrato de arrendamento do estaleiro da Parry no Ginjal e transferência de todos os serviços para Cacilhas. (2)

Embarcação de passageiros das carreiras do rio Tejo.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Na praia do Cubal [Cubalinho], naturalmente inclinada, estavam montadas as carreiras de construção, em madeira.

A murallha do cais era aí interrompida por uma ponte que se elevava quando havia lançamentos 

Estaleiro de construções navaes, H. Parry & Son, Cubal, Ginjal, 1890
Imagem: Museu de Marinha

"Quando a gente passava havia um sítio onde se metiam lá os batelões. Levantava-se aquela madeira para o batelão entrar, depois pousava-se a tábua. Era da Parry." (3)


(1) Cardoso, Luís, Diccionario geografico, ou noticia historica de todas as cidades..., Lisboa, na Regia Officina Sylviana e da Academia Real, 1747, 2 vol.

(2) Luzia, Angela, Esteves, Joana, Santos, Maria José E., A indústria naval em Almada: na rota do progresso, Almada, Câmara Municipal, 2012, 97 págs.

(3) Gonçalves (coord.), Elisabete, Memórias do Ginjal, Almada, Centro de Arqueologia de Almada, 2000, 88 págs.