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sexta-feira, 24 de maio de 2019

António Álvares da Cunha (c. 1700-1791)

(a propósito dos painéis de azulejo da Quinta de São Lourenço em Palença no Pragal)

O título de conde da Cunha fora dado de juro e herdade, por carta de 14 de Março de 1760, a D. António Alvares da Cunha, 

Vista de Lisboa (tomada da margem sul), Alexandre-Jean Noël.
Cabral Moncada Leilões

"tendo consideração aos notáveis e distintos serviços que D. Luís da Cunha me fez, por espaço de sessenta e dois anos sucessivos, nos lugares de desembargador do Porto e da Casa da Suplicação até o ano de 1696, e depois dele, e  até seu falecimento, nos empregos de enviado extraordinário na corte de Londres, de embaixador extraordinário e plenipotenciário no congresso de Utreque, e de embaixador nas cortes de Londres, Haia, Madrid e Paris, atendendo as sucessivas representações com que o sobredito suplicou os referidos serviços lhe fossem despachados em benefício da casa de seus pais e do administrador dela, seu sobrinho D. António Alvares da Cunha,

António Álvares da Cunha (c. 1700-1791).
1.° Conde da Cunha, Vice-rei do Brasil.
Instituto Histórico Brasileiro

contemplando ao mesmo tempo os serviços pessoais com que o dito D. António se tem distinguido também por sua profissão militar até o posto de capitão de mar e guerra das fragatas da armada, e nos empregos de governador e capitão general da praça de Mazagão e do reino de Angola", etc. Carta do título de conde da Cunha, na província do Minho, de juro e herdade, erigindo-se o dito lugar logo em vila. — Chancelaria de D. José, livs. 72,°, fl. 85, e 69, fl. 49. (1)

À semelhança de outras quintas do concelho de Almada, a Quinta de São Lourenço beneficia de uma situação geográfica privilegiada, localizando-se no cume de uma encosta que desce até ao Tejo, onde existiu, outrora, um pequeno ancoradouro de acesso directo à propriedade [...]

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
FRESS

São muito escassas as informações disponíveis que se referem a São Lourenço. Pouco ou nada sabemos sobre a sua origem, e a cronologia que avançamos tem por base o inventários do conjunto de azulejos que reveste boa parte dos espaços da casa, e que ainda se conserva no local. A edificação da casa de habitação, de um piso único, deverá remontar ao século XVII.

Assim o indicam as suas principais características arquitectónicas, corroboradas pela existência de azulejos seiscentistas, de padrão azul e branco, no alpendre e na fachada (DUARTE; MANGUCCI, 1998, p. 57). 

Com planta em forma de L, o edifício é composto por uma ala residencial, e por outra, mais comprida, onde se integra a capela, prolongada por anexos destinados a fins agrícolas. A fachada principal é antecedida por uma estrutura formada por colunas toscanas sobre um soco alto.

No alçado imediatamente perpendicular, a capela destaca-se pelo portal, encimado por frontão triangular e cruz na empena, denunciando uma arquitectura de influência pombalina. O espaço interno divide-se em três naves, separadas por colunas toscanas (aliás, esta é a ordem empregue em toda a quinta), e com tribunas.

A abóbada da nave é pintada, e este espaço separa-se da capela-mor através de um arco triunfal de colunas também toscanas [...]

A depuração e linearidade do desenho evoca o gosto seiscentista, também presente no portão de acesso a este amplo terreiro definido pela habitação. De arco de volta perfeita, com aparelho rusticado, exibe, ao centro, a pedra de armas dos Cunha [encimada por elmo com viseira barrada], proprietários da Quinta. 

O terreiro é delimitado por um muro recortado, formando uma série de bancos. Uma lápide com a data de 1713 poderá indiciar nova campanha de obras [na verdade, a lápide indica a data de 1663, MDCLXIII, reinado de D. Pedro II, ano seguinte ao nascimento de D. Luís da Cunha (e ao casamento de Catarina de Bragança), facto, que entre outros, contextualiza de  modo diferente importância do lugar e da familia Cunha].

Quinta de S. Lourenço, lápide com data de 1663.
Património Cultural

Mas serão os azulejos do interior que estabelecem uma cronologia de intervenções. Assim, em 1742 terão sido encomendados os painéis mais conhecidos deste conjunto, aplicados na sala principal da casa. Um deles, com o brasão dos Cunha, exibe a data referida.

Painel de azulejos com as armas fa familia Cunha.
flickr

Seria, contudo, a iconografia naval, com representações de batalhas, desenhos de navios, e instrumentos náuticos que tornaria notados estes azulejos. (2)

Recheio azulejar: sala de entrada - silhares em azul e branco, com representação heráldica datada - 1742 - e painéis representando animais, alguns refeitos recentemente; sala contígua com silhares em azul e branco com cenas palacianas, revivalistas; cozinha do lado oposto com azulejos de figura avulsa;

Quinta de S. Lourenço, Painel de azulejos.
flickr

sala nobre com lambril em azul e branco, atribuível ao período de grande produção joanina, com 3 grandes painéis representado várias caravelas, um estaleiro naval com uma nau a ser lançada ao mar (cortado por chaminé de lareira), um grupo de geógrafos e navegadores rodeando globos terrestres e experimentando instrumentos de medição da latitude pelo sol, vários painéis menores com figuras masculinas segurando instrumentos de navegação marítima;

Quinta de S. Lourenço, Painel de azulejos.
Museu de Marinha

sala contígua - silhares em azul e branco, com cenas palacianas; casa de jantar - composição enxadrezada recente; pequena sala contígua à anterior - cenas palacianas com molduras rococó (c. 1760/70), algumas refeitas na Fábrica de Santana; varanda alpendrada - composições em axadrezado recentes; capela - silhar de padronagem na nave, figurativo na capela-mor, com cenas hagiográficas em azul e branco, com cercaduras polícromas (c. 1760/70).

Nas paredes da nave, sobre o arco triunfal e do lado oposto sobre a tribuna, 2 cartelas rococó em estuque com figurações emblemáticas de S. Sebastião e S. Lourenço.

No espaldar de acesso ao túnel, no jardim, um brasão gravado sobre o vão de acesso e uma lápide em latim datada de 1713 [1663, v. acima]. (3)

Sabemos que os pintores de azulejos não pintavam à vista os navios autênticos, nem iam para as docas com a intenção de representar os navios existentes tão fielmente quanto possível. O papel dos navios nas composições azulejares era meramente simbólico e destinado a ser apreciado por uma sociedade que não era muito literada nas complexidades do desenho de navios.

Em alguns casos parece que os artistas tentaram adaptar as imagens das gravuras numa tentativa de as fazerem mais portuguesas, como no caso da Quinta de São Lourenço, o simplificando o desenho. Nas palavras de Maria Alexandra Gago da Câmara: "A circulação das gravuras e a sua cópia através da Europa originou representações em azulejo, especialmente essas com lazer e paisagens idealizadas, que não são necessariamente uma realidade nacional. mas em vez disso supra-nacional, que ilustra uma série de valores comuns à época, tais como a invocação da vida do país e um certo modus vivendi" (Câmara, 2005: 163).

A Quinta de São Lourenço no Pragal, perto de Lisboa, tem um programa decorativo interessante que consiste em cenas relacionadas com o mar e a navegação, que datam de 1742, baseadas em gravuras holandesas. 

Uma delas apresenta cenas de um estaleiro naval e mostra a construção de um grande navio à esquerda, quase completo, de acordo com a princípio de construção "o esqueleto primeiro". Um grupo de trabalhadores à esquerda do navio puxa um cabo enquanto que outros escolhem madeira para a estrutura do navio. Atrás deles está um pequeno grupo de nobres, olhando para os navios, provavelmente representando os donos do navio. Uma vez que o navio não está completo não é possivel dizer que tipo de navio será [?].

Quinta de S. Lourenço, Painel de azulejos.
Museu de Marinha

O lado direito do painel é ocupado por outro grupo de trabalhadores calafetando um outro grande navio, que está querenado com a ajuda de uma barcaça (Raposo and Reis, 1994: 110, 111; Simões, 2010: 454).

Três dos painéis da Quinta de São Lourenço, Pragal, apresentam navios isolados, um em cada painel, quase certamente reproduções de gravuras holandesas, todos eles representados com grande detalhe.

Um mostra uma galé com remadores levemente desenhados e uma cruz de malta na ré. Perto do navio está um pequeno barco a remos com um nobre de pé.

Galé remada a scaloccio (quatro ou cinco remadores por remo), Quinta de S. Lourenço.
Museu de Marinha

O segundo painel representa um grande navio de guerra com a bandeira holandesa, três mastros, castelo de popa e de proa, e uma lindamente detalhada figura de proa de uma sereia segurando uma coroa.

Quinta de S. Lourenço Painel de azulejos.
Museu de Marinha

O ultimo painel, talvez o mais interessante, revela um navio mais pequeno do que os precedentes, que é baseado nos navios holandeses mas tem a bandeira portuguesa e outras características como uma vela triangular [?] (Raposo e Reis, 1994: 114, 115; 2010: 454) .

Quinta de S. Lourenço, Painel de azulejos.
Museu de Marinha

A batalha naval apresentada na Quinta de São Lourenço, Pragal, de 1742 e baseada em graviuras estrangeiras, tem sido identificada como a batalha de La Hogue (1692), apesar do facto dessa batalha ter sido travada entre ingleses, franceses e holandeses, e que apenas as duas ultimas bandeiras possam ser identificadas nesse painel.

Batalha naval entre navios com proa ao estilo do século 18 e popa ao estilo do século 17 na Quinta de São Lourenço.
Museu de Marinha

Mostra dois navios de guerra disparando um contra e o fumo esconde detalhes de ambos os navios. Atrás deles podemos entre as velas de dois navios semelhantes (Raposo and Reis, 1994: 114; Simões, 2010: 454). (4)

Pelo grande augmenlo que tinham tido todas as Capitanias meridionaes, e sobretudo pela guerra pendente no Rio da Prata, achando-se ameaçado o territorio do Rio Grande do Sul pela rapida invasão de Cevallos [Dom Pedro de] daquelle Continente, resolveu El-Rei mudar a metropoli do Brasil, da Bahia para o Rio de Janeiro; e para 1.° Vice-Rei e Capitão General de mar e terra foi nomeado D. Antonio Alvares da Cunha, Conde da Cunha, por Carta Patente de 27 de Junho de 1763. 

António Álvares da Cunha (c. 1700-1791).
1.° Conde da Cunha, Vice-rei do Brasil.
Literatura Rio de Janeiro (Nireu Cavalcanti)

Chegando ao Rio de Janeiro, tomou posse a 10 de Oulubro do mesmo anno, e governou até o dia 17 de Novembro de 1767, em que foi rendido.

Arsenal do Rio de Janeiro, no sopé do morro de São Bento.
Criado em 29 de dezembro de 1763 pelo Vice-rei Antônio Álvares da Cunha, 1° Conde da Cunha.
O Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro na História, 1763-1822

No pouco tempo, que durou a sua administração, reparou todas as fortalezas desmanteladas, levantou a da Praia Vermelha, fez construir na ilha das Pombas dois grandes armazens para deposito da polvora, e. uma armaria na fortaleza da Conceição; na fralda do morro de S. Bento assentou o arsenal da marinha, onde se fabricou a nau S. Sebastião [v. São Sebastião (nau)], e na ponta da Misericordia edificou uma grande casa para o trem de artilharia, que hoje serve de arsenal do exercito; e ultimamente foi este celebre administrador quem creou o Hospital dos Lazaros em S. Christovão, como logo se dirá. (5)


(1) Anselmo Braamcamp Freire, Brasões da Sala de Sintra. Vol. I, Coimbra, ,Imprensa da Universidade, 1921
(2) Quinta de São Lourenço... habitação e dependências da lavoura, capela (São Sebastião)...
(3) Casa e Capela da Quinta de São Lourenço
(4) The representation of vessels in early modern portuguese tile
(5) José Inácio de Abreu e Lima, Sinopse ou dedução cronológica dos fatos mais notáveis da história do Brasil, Pernanbuco, 1845

Artigo relacionado:
Palença de Baixo

Leitura adicional:
Oceanos n° 17, 1994: Raposo F. H., Os Azulejos náuticos da Quinta de São Lourenço, p. 109-115
O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis : 1763 - 1808 (pesquisa: conde da cunha)
Guerra e sociedade: a situação militar do Rio de Janeiro no Vice-Reinado do Conde da Cunha, 1763-1767
Joaquim Manuel de Macedo, As Mulheres de Mantilha, Vol. I, Rio de Janeiro, 1870

Mais informação:
Cronologia do Rio de Janeiro colonial em Imagens
Carlos Couto, Os Capitães Mores de Angola
Arquivo Histórico Umltramarino [Governador e Capitão-General de Angola 1753-1758]
Jardim da Quinta de São Lourenço
As quintas da "Outra Banda": de um passado rural a um futuro cultural

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Iconografia de Lisboa (5.ª parte)

Na Lisboa anterior ao século XVIII podem citar-se os seguintes edifícios, monumentos, cerimónias e festejos públicos como os assuntos mais interessantes, e que mais atraíam o lápis dos desenhadores e o pincel dos pintores:

Formatura militar no Terreiro do Paço (detalhe), Dirck Stoop, após de 1662.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

a) — O "Palácio Real da Ribeira" e a "Praça do Palácio" ou "Terreiro do Paço", onde o primeiro havia sido erigido pelo rei D. Manuel nos princípios do século XVI.

As primeiras vistas que se fizeram deste palácio existem em pergaminho, no "Livro das Horas de D. Manuel" (1517), no Museu Nacional de Arte Antiga, e na "Chronica de D. João I", por Fernão Lopes (1.° quartel do século XVI), no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Em pintura a óleo conservam quatro quadros, todos dos meados do século XVII.

Lisboa, Terreiro do Paço, A entrada do Embaixador Francisco de Mello e Torres (detalhe), Dirck Stoop, 1662.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

O primeiro é sobre tela, e devido ao pintor flamengo Dirck [Dirk] Stoop, então ao serviço do rei de Portugal D. João IV, está na embaixada de Portugal em Paris.

Um outro quadro, mui semelhante ao anterior, foi pintado pelo artista [Johannes, Johann] Lingelbach (1622-1674) [?], da escola holandesa, que se acha algures no estrangeiro.

Os dois restantes são de autor desconhecido, e tem por assunto a aclamação do rei D. João IV; pertencem ao Estado, e acham-se expostos no palácio Almada.

Lisboa, Terreiro do Paço, A entrada do Embaixador Francisco de Mello e Torres, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

Em azulejos foi pintado no século XVII, um aspecto do Terreiro do Paço e do Palácio, num grande painel que existia num prédio da Estrada de Benfica, mas cujo paradeiro desconhecemos.

Há ainda outros pequenos quadros em azulejo, onde está representado torreão do Palácio Real e o Terreiro do Paço, tais como um pequeno painel que foi encontrado num prédio da Costa do Castelo, actualmente no Museu da Associação dos Arqueólogos; outro no extinto convento das Trinas do Mocambo, guardado no Museu de Arte Antiga, etc.

b) — "O Palácio real de Alcântara e mosteiro das Flamengas", desenhados por Pier Maria Baldi (1668-1669), e só reproduzidos pela fototipia no século corrente [XX].

Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Villa Realle D Alcantara, Pier Maria Baldi.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

c) — "O Palácio do Corte Real", visto do lado do Corpo Santo. A primeira vista foi gravada por Dirck Stoop (1662).

O Palácio do Infante Dom Pedro em o Corpus Sancto em Lisboa, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

d) — "O Palácio do Corte Real e a Ribeira das Naus", vistos do lado do Tejo. A mais antiga gravura [publicada em livro] deve-se a Pieter Vander Aa (c. 1703).

Vista e perspectiva do palácio do irmão do rei, Louis Meunier, 1668.
Imagem: British Museum

e) — "A Igreja e Convento do Jerónimos". A mais antiga representação iconográfica foi gravada em cobre por Dirck Stoop (1662).

O convento de S.to Hieronymos Em Bellem, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

Do mesmo artista existe um quadro a óleo [View of Belem Monastery near Lisbon, c. 1660 - 1670], que está no Museu de Haia (Holanda) [Mauristhuis Museum].

Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém, Dirck Stoop, c. 1660 - 1670.
Imagem: Mauristhuis Museum

Outro quadro a óleo, com assunto idêntico, foi pintado por Filipe Lobo (1650); pertence a um particular [pertencia a João da Costa de Sousa Macedo, e está actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga].

Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém, Filipe Lobo, 1657 (?).
Imagem: MNAA

[Sobre os Jerónimos, também de Filipe Lopo existe um outro quadro, assinado Philippus Lupis Fecit 16--, vendido em pela Christie's em 4 de dezembro de 2013.]

Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém, Filipe Lobo, 16--.
Imagem: Christie's

e) — "Igreja de S.to Amaro, à Junqueira". A primeira gravura, em cobre, é devida a Dirck Stoop (1662).

Vista  de Santo Amaro e Perspectiva do lugar de Bellem, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

g) — "O Mosteiro da Madre de Deus"; a vista do edifício foi gravada por Dirck Stoop em 1662, e não voltou a ser reproduzida até ao fim do século XIX.

Vista do Convento da Madre de Deus, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

h) — "A Igreja e Convento da Graça". Foram representados num painel de azulejos que forma o silhar do refeitório do ex-convento de S. Bernardino [em Atouguia da Baleia], próximo de Peniche. Parece ser pintura do século XVII.

i) — "A Torre de S. Vicente, em Belém"; a primeira gravura que se fez desta obra arquitectural consta da colecção de Dirck Stoop (1662). É o monumento de Lisboa que tem sido objecto do maior número de produções iconográficas até à actualidade.

A torre E entrada da Barra de Bellem, Dirk Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

j) — "A Casa dos Bicos e o mercado da Ribeira Velha"; estão representados num painel de azulejos do século XVII, que devia fazer parte do silhar duma sala. Pertence hoje a um particular [ao Museu da Cidade de Lisboa].

Painel de azulejos, A Casa dos Bicos e o mercado da Ribeira Velha, século XVII.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

k) — "O Desembarque de D. Filipe II de Portugal no Terreiro do Paço, em 29 de Junho de 1619, desenho de Domingos Vieira Serrão, gravado a buril por Ioan Schorquens, para figurar nas duas edições do livro comemorativo da viagem daquele monarca a Portugal.

Chegada do D Filipe II de Portugal a Lisboa para uma viagem no Reino de Portugal,
Ioam Schorquens, segundo Domingos Vieira Serrão, 1619.
Imagem: Wikimedia

l) — "A Viagem da Rainha D. Catarina, filha de D. João IV, para Inglaterra". Foram gravados por Dirck Stoop vários episódios dessa viagem, nos quais se acha representado o Terreiro do Paço (cerca de 1662).

O modo como sua Majestade D. Catarina embarcou de Lisboa para Inglaterra, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

m) — "Uma Tourada no Terreiro do Paço", de que a primeira vista é devida a Dirck Stoop (1662).

Touros Reays nas Festas do Casamento da Raynha da Gran Bretanha Em Lisboa, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

n) — Vistas de "Cerimónias da Inquisição", de que julgamos terem sido gravadas as primeiras por Pieter Vander Aa (c.1705) [Les royaumes d’Espagne et de Portugal representés en tailles-douces trés exactes, dessinées sur les lieux mêmes qui comprennent les principales villes]; uma delas mostra uma procissão saindo do edificio da inquisição no Rossio; a outra é a representação dum "Auto de Fé no Terreiro do Paço".

Lisboa, Rossio, Palácio dos Estaús, Procissão do Auto de Fé, Pieter Vander Aa, rep. c. 1707.
Imagem: Histórias de Lisboa, Tempos Fortes

São estes os edifícios e cenas em praças públicas de Lisboa que só com duas excepções (alíneas b, g), maior número de vezes foram representados em estampas antigas, até aos fins do século XVIII, isolados das vistas panorâmicas da cidade.

Lisboa, Terreiro do Paço, Maneira de queimar os que foram condenados pela Inquisição, Pieter Vander Aa, rep. c. 1707.
Imagem: Histórias de Lisboa, Tempos Fortes

Com respeito a vias públicas da antiga cidade de Lisboa, além das já citadas vistas do Terreiro do Paço, mencionaremos:

a) — "A antiga Rua Nova", iluminura em pergaminho do Livro de Horas de D. Manuel (1517), existente no Museu Nacional de Arte Antiga, que não tornou a ser reproduzida senão no século XIX [v. 4.ª parte desta série].

b) — "O Rossio". A mais antiga representação desta praça, isolada das vistas panorâmicas é do século XVII, e está num painel de azulejos que existia num prédio na Estrada de Benfica; ignoramos o seu paradeiro.

Lisboa, Rossio, Hospital de Todos os Santos, Francisco Zuzarte.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Outro painel de azulejos mostra o Rossio e o Chafariz do Neptuno; é da mesma época que o anterior; estava situado numa sala do extinto Convento das Trinas, e acha-se actualmcnte no Museu de Arte Antiga [Museu da Cidade de Lisboa].

Rossio, Chafariz de Neptuno e Hospital Real de Todos os Santos, Painel de azulejos da 1.ª metade do século XVIII (?).
Imagem: Wikimedia

As gravuras eram geralmente estampadas a preto, e algumas vezes a sépia ou a sanguínea. O empenho, porém, de as valorizarem, e o intuito do seu aproveitamento, depois de emolduradas, para ornamentação de salas, levou muitos artistas a iluminá-las ou colori-las com tintas muito vistosas, e por vezes bastante diferentes das cores naturais dos objectos representados; as colorações feitas à mão variavam de estampa para estampa.

Por isso se encontram no mercado, ou nas colecções, muitas vistas antigas de Lisboa, quer com a sua cor de estampagem, quer com as cores berrantes com que as coloriam. Algumas águas-tintas foram estampadas a cores, ou iluminadas à mão.

As gravuras publicadas até ao terremoto de 1755, ou são estampas isoladas para quadros; ou formavam colecções ou álbuns associados a vistas doutras terras; ou encontravam-se em livros acompanhando, ilustrando e documentando ou textos, onde se lhes faz alusão, ou a sua descrição.

Acrescentaremos que, exceptuando o manuscrito de Francisco de Olanda: "Da fabrica que fa1ece ha Çidade Lysboa", não existe outro trabalho antigo exclusivamente sobre Lisboa, com ilustrações da cidade, quer nacional, quer estrangeiro.

Alguns autores e editores dos séculos XVII e XVIII organizaram colecções de estampas então já conhecidas, ou álbuns com ou sem um pequeno texto descritivo impresso, ou inseriram-nas em livros, quer intercaladamente no texto, quer reunidas no fim dos volumes.

Essas estampas ou eram tiradas com as matrizes em cobre de gravuras anteriores, ou produzidas em novas matrizes copiadas de estampas anteriores. (1)


(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
 
Artigos relacionados:
Da fábrica que falece à cidade de Lisboa
Delícias ou descrições de Lisboa
Panorâmica de Lisboa em 1763

Leitura adicional:
Lisboa do século XVII "a mais deliciosa terra do mundo"
A entrada pública do Núncio Giorgio Cornaro em Lisboa (1693)
O Terramoto de 1755, a Torre do Tombo e Manuel da Maia
A genealogia das imagens de Lisboa...
Saudades da Lisboa Desaparecida
Histórias de Lisboa, Tempos Fortes
O Paço Real da Ribeira - XVI-XVIII

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Iconografia de Lisboa (4.ª parte)

Além das vistas panorâmicas, desenhadas em pergaminho ou papel, tecidas em tapeçarias, e gravadas em cobre ou em madeira, de que temos tratado, algumas vistas, mas poucas, até ao terremoto de 1755, foram pintadas noutros materiais-suportes, tais como telas e azulejos.

Terreiro do Paço, vista panorâmica de Lisboa (detalhe),
painel de azulejos proveniente do antigo palácio dos condes de Tentúgal, c. 1700 após 1728 [atente-se no detalhe da torre do relógio de Antonio Canevari].
Imagem: Wikipédia

As principais de que temos notícia, nenhuma delas assinada nem datada, são as seguintes:

Em tela:

a) — Um quadro que representa a tomada de Lisboa aos mouros já existia no l.º quartel do século XVII na igreja de S. Crispim, onde foi visto por António Coelho Gasco, que escreveu o seu livro entre os anos 1627 e 1683. Pertence à Câmara Municipal de Lisboa.

b) — Da mesma época deve ser um quadro atribuído ao pintor português Amaro do Vale (entre 1615 e 1619) [ou a Domingos Vieira Serrão (1570-1632) e Simão Rodrigues (c. 1560-1629)], com uma vista panorâmica da cidade, e que parece ser um ex-voto dum português. É pertença do governo Francês, e acha-se patente na Igreja de S. Luís Rei de França, em Lisboa.

Lisboa, Ex Voto,  Nossa Senhora de Porto Seguro Roga a seu Precioso Filho por esta Cidade e sua Navegação de Lisboa,
Igreja de São Luís dos Franceses, c. 1620.
Imagem: do Porto e não só...

c) — Quadro que representa a partida de Lisboa para a India, em 1541, de S. Francisco Xavier, devido ao jesuíta português Domingos da Cunha (1598-1644), ou com menos probabilidade ao pintor português Simão Gomes dos Reis. A vista panorâmica que constitui o fundo do quadro é mui semelhante à anterior. Consta que este quadro proveio do Noviciado da Cotovia, depois Colégio dos Nobres, e está actualmente num corredor da Academia de Belas Artes.

D. João III e o núncio apostólico da Índia, ou A partida de São Francisco Xavier, aut. desc. c. 1730.
Imagem: Wikipédia

d) — Vista panorâmica da cidade tirada do poente para nascente, do jardim do palácio que foi do marquês de Abrantes, junto à igreja de Santos-o-Velho. Deve ser do 1.° quartel do século XVIII, e pertence a um particular.

Em azulejos:

a) — Vista panorâmica num silhar que esteve numa casa do Largo de S. Tiago [Palácio dos Condes de Tentúgal], e que deve ser aproximadamente do ano 1784. Estava distribuída por 10 painéis, e actualmente reconstituída formando um silhar corrido, como era na sua origem, está exposta no átrio do Museu de Arte Antiga, às Janelas Verdes [Museu Nacional do Azulejo, v. acima].

b) — Num silhar da capela da portaria do extinto convento de S. Vicente de Fora está uma vista panorâmica, representando a conquista de Lisboa, em 1147. Deve ser do mesmo tempo que a anterior.

Até épocas muito próximas das nossas, exceptuando o Paço Real da Ribeira, e um ou outro palácio ou casa solarenga, não possuía Lisboa palácios de arquitectura sumptuosa, como existiam noutras capitais, bem que o seu recheio em mobiliário, tapeçarias e cerâmica primasse pela variedade e riqueza.

Rua Nova dos Mercadores em 1521, Livro de Horas de D. Manuel,
iluminura atribuida a António de Holanda.
Imagem: MNAA

As igrejas, se não possuíam fachadas monumentais, como certas catedrais do estrangeiro, apresentavam por vezes aspectos arquitectónicos que impressionavam os artistas, como se pode ainda ver nalgumas que resistiram ao cataclismo do 1.° de Novembro de 1755.

Rua Nova dos Mercadores, aut. desc., século XVI.
Imagem: Society of Antiquaries of London

Mas sendo em geral pobre a sua fachada, o seu interior era quase sempre ornado com mármores e abundante obra de talha dourada que lhes dava um aspecto de riqueza.

Rua Nova dos Mercadores, aut. desc., século XVI.
Imagem: Society of Antiquaries of London

As vias públicas, exceptuando o Terreiro do Paço, o Rossio, e a antiga Rua Nova, consistiam geralmente em estreitas e tortuosas artérias, nalgumas das quais mal podiam passar dois coches que se cruzassem. (1)


(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
 
Artigos relacionados:
Da fábrica que falece à cidade de Lisboa
Delícias ou descrições de Lisboa
Panorâmica de Lisboa em 1763

Leitura adicional:
Lisboa do século XVII "a mais deliciosa terra do mundo"
Lisboa reencontrada, registos iconográficos na azulejaria de Setecentos

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Convento Dominicano de São Paulo de Almada

Quando depois de dominicano, Frei Luiz de Sousa escreve a sua Historia de S. Domingos, ao contar a fundação do convento de S. Paulo em Almada, por Frei Francisco Foreiro, no anno de 1569, e dando d'ella algumas noticias, deixa ainda transparecer n'essas paginas o encanto pela terra que tanto amára, e onde tanto amára.

Almada — convento de S. Paulo, in Almada em 1897
Imagem: Hemeroteca Digital

"Sitio, diz elle do local do convento, que como é no mais alto do monte, e pendurado sobre o mar, fica como grimpa, sujeito a todos os ventos. Porém, paga-se este damno com ser senhor de um tão fermoso e tão bem assombrado horisonte, que confiadamente e sem parecer encarecimento, podemos affirmar que não ha outro tal em toda a redondeza da terra". (1)

O Seminário de São Paulo de Almada foi fundado como seminário do Patriarcado de Lisboa no ano de 1935, mas já antes a casa contava com um rico historial, de grande relevo na vida de Portugal e de toda a zona circundante de Lisboa.

Assim, a vida desta belíssima casa começa no já longínquo ano de 1569, com a fundação do Convento Dominicano de São Paulo de Almada por Frei Francisco Foreiro, insígne teólogo que se distinguiu no Concílio de Trento, e então Provincial da sua Ordem no nosso país, que nele viria a falecer e ser sepultado em 1581, onde ainda hoje se encontra.

Em 1755, o Convento sofre grandes danos, e só a Igreja é restaurada quase de imediato, motivo pelo qual passa a sede da paróquia de Nª Sª da Assunção do Castelo, cuja igreja havia caído com o sismo.

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVII.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

Dez anos depois, e porque as condições nunca mais foram as mesmas desde aquele catalismo, os Frades Pregadores abandonam o Convento de São Paulo. Começa aqui o rol das muitas tribulações e mãos pelas quais o Convento passou.

Em 1775, os Dominicanos vendem a quinta a um industrial francês, François Palyart (1726 - 1816), e a casa conventual, em 1776 aparece já na posse das Ordens Militares, que por sua vez, e ainda no mesmo ano, a tornam a vender, desta feita ao mesmo francês que já tinha comprado a quinta.

A igreja e uma das alas do convento ficaram para a paróquia.

Almada — Interior da Egreja do Convento de S. Paulo, 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

Com o decreto de extinção das Ordens Religiosas de 1834, os bens dessas instituições passam a fazer parte do património estatal, mas isso em nada afecta a Igreja de São Paulo, que era paroquial e não de ordem religiosa.

Mas no ano seguinte, perde esse carácter, pois a paróquia de Nª Sª da Assunção do Castelo foi definitivamente incorporada na de Santiago de Almada, ficando a igreja entregue aos cuidados de uma das suas irmandades, a do Rosário.

Segue-se uma fase extremamente confusa, com vendas e contravendas, falências e casos mal esclarecidos.

Chegamos, entretanto, a 1855 com uma situação no mínimo caricata: a quinta e a casa eram de um proprietário, mas o corredor da Sacristia era de outro.

Almada, vista tomada do Campo de S. Paulo, desenho de Nogueira da Silva, gravura de Coelho Junior, 1859.
Imagem: Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

E assim se foi caminhando, com tudo a ameaçar derrocada total. A irmandade da Assunção, para não deixar que a igreja se danificasse, fez restauros em 1897.

[...] reproduziremos uma noticia que vem avivar-nos a saudosa lembrança de Liberato Telles, ha pouco fallecido. 

Este distinctissimo conductor de obras publicas, ultimamente agraciado com a promoção ao honroso cargo de conductor principal, organizara uma monographia interessante, como outras que elle deu à estampa, ácerca do edificio e egreja do antigo convento de S Paulo, em Almada, cujas obras de restauração foram, durante bastante tempo, dirigidas por aquclle illustre e benemerito funccionario.

Esta memoria, porém, infelizmente ficou manuscripta, e foi pelo auctor offerecida e enderessada ao conselho superior dos monumentos nacionaes, acompanhada de um magnifico album contendo photographias das fachadas, planta e corte do edificio, onde repousam entre outras, as ossadas de fr. Francisco Foreiro, qualificador do Santo Officio, e confessar de D. Joäo lll, que alli falleceu em 1581, e de D. Alvaro Abranches da Camara, um dos mais valorosos campeões da independencia, em 1640, e heroe das luctas com os hollandezes no Brazil. 

Armas Abranches, segundo a lápide da sepultura da Igreja de São Paulo em Almada.
Imagem: TRAVESSA DOS CONJURADOS

O fallecido Liberato Telles, cujo dedicado amor pelas cousas nacionaes e pelos assumptos artisticos e archeologicos era bem conhecido, pedia que o antigo convento de S. Paulo, theatro do pungente drama da vida de fr. Luiz de Sousa, fosse considerado monumento nacional.

Este magestoso templo que se achava já bastante arruinado, está sendo actualmente reparado por um troço de operários sob a direcção do illustre conductòr de obras publicas, sr. Liberato Telles de Castro e Silva.

Estas reparações foram mandadas fazer pelo governo, para o que muito contribuiu o nosso amigo e conterrâneo sr. Antonio Dionizio Parada.

ver artigo relacionado:  Almada em 1897

Ainda ha pouco, um dos nossos mais illustres investigadores, que tantos e tão relevantes serviços tem prestado à historia da arte nacional, o sr. dr. Sousa Viterbo, chamara sobre este ediñcio antiquissimo as attenções dos estudiosos, na sua interessantisstma Memoria, publicada na collecção das Memorias da Academia Real das Sciencias, intitulada: D. Manuel de Sousa Coutinho (fr. Luiz de Sousa) e sua mulher D. Magdalena Tavares de Vilhena (op. de 60 pg. — 1902).

ver artigo relacionado:  Liberato Teles


Em 1913 está danificada grandemente, tendo sido as imagens atiradas pela ravina ou queimadas. Alguma coisa escapou, mas nada ficou incólume.

Popular "Tio" Resgate explicando a Bíblia no adro da egreja do extincto convento de S. Paulo em Almada, 1911.
Imagem: Illustração Portugueza, Hemeroteca Digital

Em 1934, o Patriarcado de Lisboa adquire a Quinta e o Convento, por intermédio do Cónego José Falcão, para instalação do Seminário Menor, sendo este inaugurado no ano seguinte, a 20 de Outubro de 1935, pelo então Patriarca D. Manuel Gonçalves Cerejeira, com 41 seminaristas.

O Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa D. Manuel Gonçalves Cerejeira ao inaugurar o novo seminário de S Paulo, 1935.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

O seu primeiro Reitor foi Monsenhor Francisco Félix, e o primeiro Vice-Reitor, o Padre António de Campos, mais tarde ordenado Bispo.

Por o espaço ser relativamente exíguo para o que se necessitava, logo em 1936 começam obras de ampliação, que foram terminadas e inauguradas em 1938.

Seminário de Almada, Pavilhão novo 01
Imagem: Delcampe, Oliveira

Cumpridas que foram, em 1960, as Bodas de Prata do Seminário, este preparava-se para atravessar o Concílio Vaticano II. No fim deste, em 1965, surgiu uma novidade: o Patriarcado de Lisboa iria criar três zonas pastorais — Santarém, Oeste e Setúbal — com vista à sua elevação a Diocese.

O Seminário de Almada ficou assim plenamente integrado na Zona pastoral de Setúbal.

Os acontecimentos, no entanto, não tomaram um rumo linear:

Seminário de Almada, Um dormitório
Imagem: Delcampe, Oliveira

nas conversações e nas reuniões havidas no seio da Conferência Episcopal Portuguesa sobre a criação e os limites das novas dioceses, o Cardeal Cerejeira opôs-se a que o Santuário do Cristo-Rei e o Seminário de Almada fossem integrados no território da nova Diocese de Setúbal. 

Seminário de Almada, Vista geral 01
Imagem: Delcampe, Oliveira

A votação então havida foi inconclusiva, com a diferença de um voto a separar os bispos secundantes desta opinião e os seus opositores, para quem tudo o que estava abaixo da linha do Tejo no território do Patriarcado devia fazer parte da nova Diocese de Setúbal.

Vista do Seminário de Almada, Mário Novais, 1946
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

E assim, a 16 de Outubro de 1975, pela Bula Studentes Nos, do Papa Paulo VI, era criada a Diocese de Setúbal, sem o Seminário de Almada e o Santuário de Cristo-Rei.

No entanto, mercê das insistências do Cónego João Alves, antigo Vice-Reitor do Seminário, que viria a ser Bispo de Coimbra e Presidente da Conferência Episcopal, a Bula trazia a clausula de que as duas instituições só ficariam em administração do Patriarcado "enquanto não se pode providenciar doutro modo". [...] (2)

O interior de um dos pátios do novo seminário de S. Paulo, 1935.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo


(1) Sabugosa, Conde de, Almada pelo conde de SabugosaSerões: revista mensal ilustrada, n° 2, Lisboa, 1905.
Fonte: Hemeroteca Digital 

(2) Seminário Maior de São Paulo.

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