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quarta-feira, 16 de março de 2022

Costa Almirante (o Nélson)

Agora ali, no rio, obedecendo às ordens do Almirante, logo nas primeiras remadas tive remorsos da minha leviandade. A pobre da Ermelinda à minha espera, cheia de problemas, e eu embarcado no escaler, remo entre mãos, a escutar as baboseiras do Costa, que ficava maluquinho quando se via no posto de comando.

Pequenas embarcações do Tejo junto a navio de guerra.
Arquivo Municipal de Lisboa

A sua farda de marinha, os gales dourados, o chapéu-armado, as duas medalhas de cobre a baloiçarem no peito. Mesmo sabendo que as condecorações as ganhara ele como sargento, na Primeira Guerra Mundial, tudo ali me parecia fora do tempo em que nos situávamos.

Os gritos de comando, os apitos histéricos, os ralhos quando não fazíamos o que ele queria, transformavam a tripulação do escaler num bote de doidos. Os quatro remadores eram tratados por "marujos" (...)

O Rainha Vitória singrava agora a direcção do navio-almirante, o couraçado Nélson, para lhe prestar as honras do estilo.

O Costa exigia disciplina na remada, cabeça e ombros direitos, pás dos remos bem metidos na água e puxadas ao peito. A maré estava a fazer carneirinhos, a voltar à vazante, vindo constantes borrifos refrescar a tripulação.

HMS Nelson
off Spithead for the 1937 Fleet Review
Wikipedia

— Marinheiros! Quando eu ordenar Ninguém rema! — avisou o Costa — a marinhagem prepara-se para a saudação a navio-almirante.

Já da outra vez que alinhei nestes trabalhos fora a mesma manobra diante da esquadra francesa. Que felicidade experimentava o meu vizinho nestas manhãs no Tejo! O rosto bolachudo, bigode e perinha, olhos pequenos e mortiços, enquadrados naquele fardamento carnavalesco, davam-Ihe um ar de ter fugido de um hospital de doidos (...)

Atenção! Ninguém rema! ordenou o nosso comandante. Suspendemos a remada e erguemos os remos. O escaler ainda navegou por momentos, sereno, deixando-se arrastar na maré. Diante de nós tínhamos a enorme montanha de aço, o casco do mastodôntico Nélson.

O Costa retirou o chapéu da cabeça, no que foi imitado por todos nós, e rompeu com os hurras! — três vezes as nossas boinas se ergueram numa gritada saudação. Olhando para a parte superior do casco do couraçado não descortinámos um inglês sequer.

Eramos como uma pulga a saudar um elefante. O Costa tossiu, teve um esgar de decepção, e disfarçou, colocando o pomposo chapéu na cabeça. A marinhagem imitou-o sem palavras, mas ainda esperançada a aparição de gente do Nélson, que nos acenasse um leve adeus.

De súbito, lá do alto, dois vultos debruçaram-se na amurada e vazaram, sem a mínima cerimónia, um latão pejado de imundícies. Cordas líquidas de porcaria desceram na direcção do nosso escaler, borrando-nos, sem piedade.

HMS Nelson
Members of the South African Royal Naval Volunteer Reserve
Wikipedia

Cabrões! Filhos da puta! berrou o nosso Almirante, perdendo a compostura. Num instante ficámos irreconhecíveis, imundos de óleo e de outras coisas, que a nossa afição não permitia que avaliássemos. O Rainha Vitória bailou por momentos com o entulho e o nosso pânico, caindo o Alberto ao rio agarrado a um remo.

As nossas caras e vestes estavam nura lástima, havia borras sobre tudo o que era branco e colorido, parecíamos uma visão de pesadelo. Recolhido o nosso companheiro que fora pela borda fora, tentámos passar por água as partes mais atingidas pelas borras. As mãos, a cara, os punhos dos remos, foram chapinhados com água salgada. Não havia palavras para classificar aquele percalço naval, que nos atingira naquela hora.

Depois dos palavrões, enraivecidos, soltados pelo Costa Almirante e a retirada do filho do Tejo, blasfemou o Fernando, com lágrimas na garganta:

— Se tivesse um torpedo aqui afundava este sacana! Mas o Vitor, cheio de bom senso, aconselhou que talvez fosse melhor afastarmo-nos da vizinhança do Nélson, pois corríamos o risco de sermos bombardeados com outro despejo.


Todos, incluindo o comandante, anuímos na retirada. Remos ajustados nos toletes, pás metidas no rio, cada um fazia o derradeiro esforço de regresso ao Cais do Ginjal.

Cais do Ginjal, Amadeu Ferrari, década de 1940.
Arquivo Municipal de Lisboa

A cara do Costa trazia estampado todo o estigma de malogro. Atirava com o chapéu-armado para o fundo do escaler, sacudia ainda pedaços de sujidade das orelhas, do bigode, do pescoço, cuspia, enojado, gostos estranhos que he apareciam no paladar. Pequenos barcos a remos ou à vela, que se cruzavam connosco, admiravam-se do nosso aspecto desastroso. E ouvimos alguns gritos trocistas, à laia de conselho:

— Declara guerra à Inglaterra, ó patriota!

Respeitado pela idade e a compostura cívica quando o viam em terra, aquela malta ao vê-lo agora sujo e maltratado no rio, vingava-se, cobarde e traiçoeira. Eram como punhaladas no Costa tais dichotes da canalha da praia. E, sem aparente reacção, rosnava para os nossos ouvidos:

A escumalha está como quer! Cavalo-marinho no lombo é o que vocês precisam! (...)

Cais do Ginjal, 1935.
Romeu Correia, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982

Aproximámo-nos do cais, onde os dois turcos de ferro esperavam o escaler para tê-lo içado durante os dias necessários. Alguns curiosos aguardavam a abordagem do Rainha Vitória, que sempre proporcionava um esper táculo fora do comum. Não pudemos evitar desta vez mais risos e chacota entre os que estavam na muralha.

Na varanda, a D. Preciosa gritava, aflita: Que vos aconteceu, ó Costa?

Logo o Rui que, embrulhado num xaile, estava por detrás da mãe, comentou, divertido: Foram bombardeados, dona Preciosa! (1)


(1) Romeu Correia, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.

Informação relacionada:
Colóquio/Letras, Romeu Correia, O Tritão, Editorial Notícias, 1983
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Cais do Ginjal

Tema:
Romeu Correia

segunda-feira, 14 de março de 2022

Costa Almirante (o Rainha Victória)

Costa Almirante, que, sendo caixa no Montepio geral, tinha a loucura da Marinha de Guerra, pois construira um escaler e fixara dois turcos de ferro na borda da muralha para arriar ou subir a embarcação. Aos domingos e dias santos, o "caixa" fardava-se de almirante e embarcava escoltado por quatro marujinhos, seus filhos.

Chegada a Lisboa de S. M. Maria Pia de Sabóia (detalhe), João Pedroso, PNA.
Google Arts & Culture

Ordens de comando, apitos de ordenança, remos ao alto em continência, tudo isto como num barco de guerra, o pai e os quatro rapazes exibiam nessa manhã um espectáculo no rio até a mulher por termo ás manobras, aparecendo, na varanda, a gritar:

— Ó Costa vem almoçar! A comida está na mesa!... (1)

Ao passar junto da casa do Sabino Costa parei para observar mais uma vez o escaler "Rainha Victória" suspenso nos dois turcos de ferro implantados å beira da muralha. Os quatro remos, o leme e o pequeno mastro, o Costa Almirante os havia recolhido, a recato de invejosos e ladrões.

Este vizinho era inconfundível no Cais do Ginjal, nenhum como ele animava as manhãs de domingo e alguns feriados, escaler descido nas águas do rio, ele fardado de almirante de opereta, marujinhos seus filhos aos remos, e toda a equipagem a navegar Tejo fora, cumprindo ordens do pequeno e ridículo comandante.

Chegada a Lisboa de S. M. Maria Pia de Sabóia (detalhe), João Pedroso, PNA.
Google Arts & Culture

Um filho-remador, obrigado pelo capricho paterno a cumprir a heróica tarefa matinal, mantinha-se casmurro não aprendendo a nadar. O menino Rui era a única ovelha ronhosa daquela família de marinheiros que, no caso de naufrágio, desceria às profundezas como um solitário prego.

Panorâmica dos armazéns da Sociedade Theotónio Pereira e conjunto habitacional privado (n.os 53 a 64).
Boletim O Pharol 40


O pai sofria, tentando na muralha e nas areias do Ginjal, com colete-de-cortiça, corda e outros apetrechos de protecção, que o rapaz se afoitasse sobre a massa líquida do rio. Mas tudo em vão. Era este falhanço, o maior, que maculava a carreira náutica do caixa do Montepio Geral. (2)


(1) Romeu Correia, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982, 174 págs.
(2) Romeu Correia, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.

Informação relacionada:
Colóquio/Letras, Romeu Correia, O Tritão, Editorial Notícias, 1983
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Cais do Ginjal

Tema:
Romeu Correia

sábado, 13 de junho de 2020

Colóquio/Letras: Romeu Correia, A palmatória

A Palmatória é a biografia teatralizada de Nicolau Tolentino, poeta que viveu em Lisboa entre 1740 e 1810, deixando sinais de uma vida complicada e de uma obra praticamente esquecida nos nossos dias, a não ser em estudos académicos.

Retrato de Nicolau Tolentino, Giuseppe Trono.
Agostinho Araújo, Tipologia votiva e lição literária: o caso Tolentino

O dramaturgo Romeu Correia, já falecido, escreveu uma farsa, como o próprio Autor lhe chama, em tomo da figura do escritor e com algumas reminiscências da sua poesia. Para isso, criou duas personagens através das quais traçou o retrato de Tolentino e da sua «inquieta consciência», nas palavras do criador nosso contemporâneo.

Este procura pôr em confronto o poeta e o que resta da familia, no contexto histórico e social da época, sendo o marquês de Pombal uma sombra poderosa até à morte. Viciado no jogo, Nicolau Tolentino acaba por ser vitima irremediável do seu vício.

No entanto, em A Palmatória a figura dupla do poeta sai diminuída naquilo a que podemos chamar o valor dramático em relação à conflitualidade que surge, por um lado, entre as suas duas irmãs e, por outro, entre estas e outras personagens (as criadas, o pretendente à mão de uma das irmãs que não se decide a casar).


O que parece haver de mais interessante na peça de Romeu Correia tem a ver com o tratamento cómico que confere às personagens das duas irmãs de Tolentino, satirizadas com grande convicção, graças à inveja que as marca (ambas a sofrer pelo mesmo pretendente e pela mãe deste, que parece eterna).

A estas cenas junta-se o conflito provocado pela guerra de que é vítima o soldado que namora a criada Eutásquia, acabando por morrer de fome porque «na guerra tam-bém se morre de fome». Aliás, o cadáver do soldado é devorado pelos cães, numa Lisboa pejada de cães raivosos e de ratazanas.



Na esquerda mão um livro me pintaste,
Na outra a palmatória,
Com carregado, ríspido focinho,
Dictando leis em tribunal de pinho.



A peça de Romeu Correia possui, na linha da obra dramática do Autor, potencialidades que, devidamente exploradas, podem constituir material cénico capaz de proporcionar um espectáculo teatral digno da carreira do dramaturgo.

C. P.  [Carlos Porto ]


(1) Colóquio/Letras, Nicolau Tolentino em farsa

Artigos relacionados:
Colóquio/Letras: Romeu Correia, O Tritão
Colóquio/Letras: Romeu Correia, Cais do Ginjal

Informação relacionada:
Colóquio/Letras, Romeu Correia, O Tritão, Editorial Notícias, 1983
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Cais do Ginjal
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Nicolau Tolentino em farsa

Tema:
Romeu Correia


quinta-feira, 11 de junho de 2020

Colóquio/Letras: Romeu Correia, Cais do Ginjal

Neste romance de formação e aprendizagem, Romeu Correia propõe-nos, entre o real e o onírico, o percurso de um adolescente que caminha para a vida adulta através das pequenas tragédias do quotidiano e das grandes alegrias ligadas à capacidade de viver em estado de exaltação exclamativa. Reconhecemos, desde o título, o espaço predilecto do Autor — o cais do Ginjal e a jubilação do Tejo, num tempo de golfinhos, sereias, mas também de luta política a desafiar a repressão do regime. Logo nos primeiros parágrafos, o narrador situa precisamente o desenrolar da acção. «Lembro-me de que esta história começou em Junho dc 1934, deveriam ser onze horas da noite.» 

Cacilhas, Ginjal, Abel Manta (1886-1982), c. 1950.
Museu Municipal de Abel Manta

A notação temporal, o cunho biografista e rememorativo apontam, de imediato, para uma narrativa cronologicamente indiciada por etapas que funcionam como obstáculos a transpor pelo jovem de dezassete anos que em poucos meses vai descobrir, através de múltiplas peripécias, as contradições do seu sentir mais secreto, bem como o lento desabrochar de uma consciência social. No romance anterior, intitulado O Tritão e publicado em 1983 (ver nossa recensão in Colóquio/Letras n.° 81), Romeu Correia evocava já a realidade que encontramos na presente obra, mas a partir de uma óptica da infância. 

O cais do Ginjal, lugar de origem, encantatório e rude, continua a ser o espaço dc construção da identidade, mas agora marcado por conflitos em que o individual se confunde com o colectivo. O eixo efabulativo constituído pelo romance familiar encontra aqui o seu pleno desenvolvimento, e embora deparemos com uma constante oposição entre lugares fechados (a casa, dominada pela avó e pelas tias solteiras, onde quase nunca se passa nada) e lugares abertos (o cais e o rio, onde se acumulam os eventos), a verdade é que, por vezes, estes espaços, tal como o sonho e a realidade, se confundem, para traduzir um entrelaçar de vidas a que o adolescente assiste com perplexidade toldada às vezes de breve inquietação. 

O deslumbrante encontro com a Sereia, que o confunde com o defunto tio Raul, marca o ponto de partida da narração e aponta para a descoberta do desejo que vai atravessar todo o percurso do personagem. 

Romeu Correia retratado por Fernando Lemos em 1949.
Casario do Ginjal

A tonalidade erótica deste acontecimento fundador («Ao mencionar os atractivos do meu corpo, acariciava com as mãos ásperas toda a minha pele. Tremia, tal a emoção que me inundava os sentidos», p. 14) acompanhará os sucessivos encontros com a ousada Ermelinda, operária de La Paloma, que lhe grita, despudoradamente: «Eu quero ficar prenha de ti, meu amor!» (p. 98) e a perturbante descoberta da sensualidade da criada do Costa, a Albertina «que punha os homens aos pulos» (p. 102) e o deixa «a ferver de desejo» (p. 103). 

O alvoroço sexual conduz a uma forma de fusão com a mulher e com o Tejo, o qual funciona como cenário envolvente onde se inscrevem as lamentações da Sereia e os gritos de prazer do personagem («Em re-dor de nós havia o rio Tejo que, de súbito, começou a ficar iluminado de luar. Uma luz de prata envolvia-nos cada vez com maior intensidade. E logo um canto de dor e angústia chega aos meus sentidos, confundindo as palavrinhas meigas da Ermelinda. Todo o meu corpo arde de prazer, perco a noção exacta de onde me encontro, eu e a minha amante somos uma só pessoa, temos o mesmo sangue que nos percorre o espaço das nossas vidas. Sinto ganas de gritar, de gritar... até morrer por instantes», p. 136). 

No entanto, esta experiência dc quase morte revela-se pujante de vida, pois é através de Ermelinda, inspiradora erótica, que se fará a passagem para o mundo adulto, quer através da implicação política, quer através do nascimento do filho que anuncia o futuro. A operária procede tacticamente a uma denúncia das condições sociais dos trabalhadores, alertando a incipiente consciência do adolescente para a realidade da exploração de que foi vítima o avô José Correia c, sobretudo, para as injustiças que o cercam: «Os operários trabalham toda a vida e quando morrem nem dinheiro existe, muitas vezes, para o enterro. E contra este estado de coisas, con-tra esta miserável exploração, que os meus lutam e sofrem» (p. 75). 

Embora, no início, o medo o avassale, como à maioria dos habitantes de Cacilhas, que receiam «a pevide», muito rapidamente o seu ponto de vista se modifica e acaba por consentir a missão de correio clandestino.

A Sereia, elemento fantástico ligado aos sonhos da infanda, funciona, por vezes, como a consciência que o alerta para os perigos que o espreitam. Ela acaba por suicidar-se, no fim do romance, em frente da sua janela, revelando um tempo de ilusões que se dissipa. («Ela estava ali para me alertar da minha transformação, do meu crescimento», p. 188). 

Romeu Correia retratado por Fernando Lemos em 1949.
Museu Calouste Gulbenkian

Assim, a obra começa e acaba com uma referência à Sereia. Entre estes dois tempos inscreve-se todo o percurso de uma aprendizagem cuja arquitectura desenha evolução individual e o desenrolar de pequenas peripécias que enchem de colorido a modorra do cais: a aventura desastrosa da saudação ao navio inglês, organizada por um almirante de pacotilha, as proezas do Armando Arrobas que mede forças com os rufias de Lisboa, a misteriosa sedução do Toninho da Arealva, o confronto desolador com o abandono dos pais, a evidência de que também o espaço mudava de pele («Por este tempo, Cacilhas parecia uma cobra a mudar a pele», p. 59). 

A arte de contar de Romeu Correia faz assim desfilar, diante dos nossos olhos, com vivacidade e poesia, um tempo dilatado de metamorfoses e rumores que al-ternam com o silêncio do Tejo, sempre definido pelo fascínio. 

Entre palpitações de medo e formas diversas de coragem, assistimos em Cais do Ginjal ao desenrolar de um percurso iniciático onde se inscreve a grande aventura de uma vida, mas onde lemos também as formas de pequenos destinos que se entrecruzam para dar um sentido à epígrafe inicial, embaladora e nostálgica: «Os seios da mãe são lembrados no peito da primeira mulher amada...» 

Maria Graciete Besse


(1) Colóquio/Letras, Romeu Correia, Cais do Ginjal, Editorial Notícias, 1989

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Colóquio/Letras: Romeu Correia, O Tritão
Colóquio/Letras: Romeu Correia, A palmatória

Informação relacionada:
Colóquio/Letras, Romeu Correia, O Tritão, Editorial Notícias, 1983
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Cais do Ginjal
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Nicolau Tolentino em farsa

Tema:
Romeu Correia

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Colóquio/Letras: Romeu Correia, O Tritão

A longa citação com que abre o romance instala-nos já num clima de dimensões fantásticas: Damião de Góis afirma a existência de homens marinhos no Tejo e dá conta de um «Tributo das sereias», promulgado por D. Afonso III. A partir daqui, o real e o imaginário entretecem um espaço de projecções, com o desenrolar da memória do narrador em que o OLHAR assume importância fundamental, reflectindo a ambientação humana do cais do Ginjal, tão perto e tão longe de Lisboa, num tempo au que o rio era «habitado por peixes e mistérios sem fim». 

Familia de Romeu Correia no corredor do Ginjal, c. 1900.
O Tritão, Editorial Notícias, 1982

Espaço da origem, o cais é ponto de chegada e de partida para considerações de carácter histórico e social. Romeu Correia parte da infância como lugar dum lirismo encantatório, e percorre, com grande espontaneidade e limpidez, os domínios problemáticos de uma identidade a construir-se.

A história familiar é o eixo efabulativo que coordena o discurso numa dupla vectorização. como relação de parentesco (a rispidez do pai/a ternura do avô), como memória de um espaço exterior atravessado por encantos e ameaças.

Assim, o lugar fechado da casa familiar, domínio da autoridade, alterna com o espaço fantástico do cais, aberto para a descoberta de um mundo outro, onde as ruas da gandaia, calcorreadas na proximidade secreta das coisas, conduzem ao espaço da aventura na quinta e ao lugar mítico da gruta, espaço de iniciação onde o velho Tomás, «sabichão dos sete mares e contador de histórias maravilhosas», revela às crianças pobres do Ginjal as fronteiras de uma cosmogonia fascinante.

Vistas Stereoscopicas de Lisboa, Panorama das Margens do Tejo.
Delcampe

Situado no centro do romance, o episódio eufórico da revelação do tritão ao menino deslumbrado, frente à enorme pedra do Tramocciro, surge como clímax de um percurso pontuado em seguida pela acumulação de situações disfóricas: a entrada na escola e a descoberta das estratégias de sobrevivência num espaço de opressão; o roubo das garrafas (passa-porte para o fantástico) como motivo de humilhação pública; a redução às dimensões do limitado de um avô explorado por patrões que lhe oferecem, simbolicamente, pelo Natal, restos de trajes de cerimónia; a desmistificação progressiva do espaço de liberdade e fantasia, em que o herói revelador de magias se transforma em títere medíocre e a casa da quinta é devorada pelo fogo, restando dela apenas uma valsa tocada pelas chamas, num momento fulgurante que enche de pânico o olhar, «o sangue dos presentes».

O núcleo dramático do romance, constituído a partir de tensões afectivas, morais e sociais, surge como uma encruzilhada de vidas, um entrelaçar de tempos sobre o tempo da personagem central e articula-se com o que poderíamos chamar uma estética da veracidade, um impulso para o verídico vivencial, corroborado pela presença da fotografia de família no fim da obra e a ilustração efectiva do espaço em que decorre a acção.

Organizando-se através de uma série de experiências e de uma relação triangular (menino-avô-Tomás), o romance cria uma dinamica narrativa que oscila entre a ho-rizontalidade do drama colectivo (a vida pobre, sempre igual, da gente do cais) e a verticalidade (ascensão e queda) de um imaginário decidido a não se deixar vencer pela brutalidade da vida.

Apesar de o Ginjal ser hoje um «lugar-fantasma», definido por atributos negativos, a «romagem sentimental» que o narrador aí efectua, nas últimas páginas da obra, levando o neto pela mão, é simultaneamente amargo balanço de uma vida (Hoje tenho sessenta e tal anos e sou o que os outros me obrigaram a ser... Um homem ajuizado, útil, domesticado») e afirmação de uma exigência de tempo habitado por essa prodigiosa capacidade de acreditar em sereias e tritões, de lavar os olhos nas fontes mais puras da criação humana.

A pedra do Tramoceiro.
O Tritão, Editorial Notícias, 1982

A «identidade de raciocínio» que o liga à criança que foi e ao rapazinho que o acompanha numa «noite ventosa de Outono» traduz bem a dimensão do futuro, que é decerto o lugar onde se inscreve a esperança. 

Maria Graciete Besse (1)


(1) Colóquio/Letras, Romeu Correia, O Tritão, Editorial Notícias, 1983

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Colóquio/Letras: Romeu Correia, Cais do Ginjal
Colóquio/Letras: Romeu Correia, A palmatória

Informação relacionada:
Colóquio/Letras, Romeu Correia, O Tritão, Editorial Notícias, 1983
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Cais do Ginjal
Colóquio/Letras, Romeu Correia, Nicolau Tolentino em farsa

Tema:
Romeu Correia

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

O Theatro d'Almada

Em 16 de Julho de 1849, o famoso Actor Isidoro, Isidoro Sabino Ferreira de sua graça completa (1828-1876), estreou-se neste palco como artista profissional. Mais tarde, em 1868, este comediante, de sociedade com o popularissimo actor Taborda (1824-1909) assinaram a escritura para a compra do referido teatro,que restauraram e exploraram por uns tempos.

Entrada do pátio do Prior do Crato em Almada, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

A título de curiosidade se transcreve parte da escritura notarial:

"...Cenifico que em 19 de Agosto de 1868 se verificou a apresentação n.° 5 no diário de três escrituras com data de 14 do presente mês celebradas a 1.a a folhas 97 a 2.a a folhas 99 e a 3.a a folhas 99 verso do livro 325 das Notas do Tabelião de Lisboa João Baptista Pereira, sendo apresentante Isidoro Sabino Ferreira, casado, actor dramático, morador na Rua das Escolas Gerais, n.° 9, freguesia de S. Vicente, Bairro de Alfama. 

Isidoro Sabino Ferreira por Joaquim Pedro de Souza, 1859.
FBAUL

E por virtude destes títulos se inscreve em seu nome e no seu com-possuidor Francisco Alves da Silva Taborda, também actor dramático, casado, morador na Rua dos Calafates n.° 76, freguesia da Encarnação, Bairro Alto, o domínio pleno sobre o prédio n.° 278 descritos a linhas 143 verso do livro terceiro."

Actor Taborda, 1880.
Album de Glorias, Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Para localização do dito teatro nos dias de hoje se transcreve outra e elucidativa passagem da mencionada escritura:

"Prédio urbano (teatro) que consta de sala de espectadores com seu pátio e duas galerias, sotão e corpos contiguos de loja e primeiro andar, dependências do mesmo edifício, tendo na sala de espectáculos uma janela, outra no salão do teatro, outra no 1.° andar da casa contígua do lado do Pátio do Prior e  mais duas janelas para o lado da Rua da Boca do Vento.

É situado na freguesia de São Tiago de Almada, e tem os números de policia quatro a sete para o lado do dito Pátio do Prior e números um e dois para a referida Rua da Boca de Vento.

Confronta pelo norte com o prédio de António José Alves de Bastos e com o Pátio do Prior, pelo lado sul com prédio de António Ferreirade Pinho e Rua da Boca de Vento, pelo nascente pelo dito António Ferreirade Pinho e com o dito Pátio, e pelo poente com Domingos Caetano Rodrigues. 

Calçada da Barroquinha, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Calcula-se o valor venal deste prédio com duzentos e oitenta mil réis e o seu rendimento líquido (...) em trinta mil réis. 

Esta descrição foi feita à vista de três escrituras públicas, datadas de 14 do presente mês lavradas, a 1.a a folhas 97, a 2.a e a 3.a a folhas 99 verso do livro 325 das Notas do Público da Cidade de Lisboa João Baptista Pereira e da declaração suplementar assinada por Isidoro Sabino Ferreira e apresentada pelo mesmo nesta Conservatória sob o número 5 do diário em dia 19 de Agosto de 1868. As escrituras foramentregues ao apresentante e a declaração ficou retirada num maço n.° 3 do corrente ano. Fica o prédio lançado no índice supra."

Perspetiva da rua da Judiaria em Almada,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Também a título de curíosídade se transcrevem duas passagens das Memórias do Actor Isidoro, rublicadas em 1878, em que faz referência ao celebrado Teatro de Almada:

"Caprichos da natureza!... Aínda não há dois anos, estava eu tão gordo!... Tinha uma apparencia a tal ponto clerical, que dei motivo ao seguinte caso:

Trazendo obras no theatro d'Almada, fui d'aqui (de Lisboa) n'um domingo de manhã levar a féria aos operários. 

Chegado a Cacilhas,montei n'um jumento, e elle ahi marcha para Almada vergando com o meu peso!

Ao fim da calçada, apenas dobro o cotovello, d'onde se descobre a porta da egreja da Misericordia, vejo um immenso grupo de gente, que apenas me avista, se põe em movimento entrando atropeladamente para a egreja!... O sino toca apressado, dando o signal de ultima vez!...

Aproximo-me, e oiço uma estrepitosa gargalhada solta pelas pessoas que ainda estavam na rua, por não terem achado logar na egreja!... 

Perspectiva da rua Direita de Almada,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Era eu o motor de tal gargalhada... porque vendo-me tão gordo, de chapéo de sol debaixo do braço e o chapéo da cabeça inclinado para traz, segundo o meu uso ordinario, marchando a cavallo tão pachorrentamente, como eu dizia n'um couplet da Loteria do Diabo:

E n'aquelle passo lento
Em que tanto me fiava,
Era ás costas do jumento
Que melhor eu ressonava... 


Por todas estas apparencias tinham-me tomado pelo padre que se esperava para a missa, e aqui está
o motivo de todo o movimento operado á minha apparição!..." (págs. 69 e 70 da citada obra.) 

Outra passagem:

"O melhor expediente que a sociedade achou foi, dar de prompto um espectaculo no theatro d'Almada, em seu benefício, composto de peças que já tinham sido dadas no seu theatro particular.

Fez a direcção os maiores sacrificios para arranjar os meios indispensáveis para preparar a partida da sociedade para o theatro d'Almada. 

Realisou-se o projectado beneficio em 16 de Julho de 1848, com a comedia em tres actos, O Rachador escocez. e a comedia em um acto, A Sociedade dos 3, sendo os papeis de primeira dama desempenhados por um dos directores da sociedade o sr. José Maria da Cruz Moreira, vulgo, José Maria Alfaiate, que apesar da differença do sexo, e da falta de formosura indispensavel nas damas amorosas, no mais preenchia perfeitamente o seu lugar!...

Fazia os primeiros papeis de baixo comico, o sr. José Maria Rodrigues, conhecido nos theatros particulares d'aquella época por José Maria Carpinteiro, era tal o seu merecimento no alludido genero, que por mais de uma vez foi chamado a represenlar em theatros publicos... mas o seu acanhamento ou excessiva modestia, o deixaram ficar até hoje, amarrado ao banco...de carpinteiro!

Eu representei n'esta recita o papel de galan sério... e lá me escapei como pude...

Do resto a sociedade não houve nada de maior a notar.

Acabada a representação, foi-se a contas, e verificou-se que a receita mal tinha chegado para as luzes!... 

Novos embaraços para a direcção!... 

N'estas occasiões, nunca faltam amigos officiosos dando os seus pareceres sobre os acontecimentos da noite!... Os d'esta vez disseram que a falta de concorrencia, era devida ao estar o espectaculo mal annunciado... portanto que annunciassemos melhor para o dia seguinte, e teriamos uma enchente!...

A promessa era tentadora, vista as precarias circumstancias da sociedade!... 

Depois de seria conferencia da sociedade, decidiu-se dar a segunda recita no dia seguinte, e para evitar a falta de que fomos accusados, mandou-se vestir com fatos apropriados, dois rapazes que tinham ido para tocar clarim na peça, e montados em jumentos correr as ruas d'Almada tocando clarim em ar de bando!... 

Chegou a noite, e nem um camarote alugado!... 

A direcção na esperança ainda de avisar o anuncio que o bando tinha feito de dia, mandou tocar os clarins á porta do theatro... e... nada!... Tornou a mandar tocar... e... nada!...  Mandou ainda tocar, e ainda nada!

Entrada do pátio do Prior do Crato em Almada, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Finalmente, apparece meia dusia de pessoas, que nos explicam, que a falta de espectadores que ainda n'aquella noite se notava, era devida a ter-se espalhado pela villa, quando se ouviu toques de clarim, que tinha chegado uma força a Almada, e que estava tocando a unir, para depois fazer a distribuição dos aboletados [soldados aquartelados em casas particulares] por toda a povoação!... tratou toda a gente de se fechar em casa, em vez de sair para o theatro! Imagine-se que novos embaraços, este ultimo revez acarretou sobre a pobre sociedade!...

Voltei ainda a represenlar, n'este anno de 1848, e no seguinte, sempre em beneficio d'outros, e sem mais responsabilidade, a não ser o desempenho dos meus papeis... mas sem que se desse caso algum digno de menção.

Finalmente tornei ali em 13 d'outubro de 1849, a representar A vingança, drama em cinco actos, e Os politicos do seculo XIX, comedia em um acto, originaes do sr. Adjuto Manuel da Conceição dos Reis, homem de talento, grave e sisudo, que andaria a este tempo, pelos seus quarenta e cinco annos, digno, em tudo de respeito e admiração, mas que tinha a fraquesa de querer representar os papeis de primeira dama, em todas as sociedades particulares, que organisou, sustentou e ensaiou por espaço de muitos annos! 

N'esta noite, representou no drama o papel de Margarida de Santi, um papel entre tragico e o ultra-romantico... e apesar de um sem numero de circumstancias que tinha contra si, fez-se agradar n'esta noite do publico pagante d'Almada!" (págs. 142, 143, 144 e 145 da citada obra) (1)

Isidoro Sabino Ferreira (1828-1876).
HathiTrust

Realisa-se, no dia 15 do corrente [fevereiro de 1879], no theatro de Almada, uma recita extraordinaria, em beneficio,como espectáculo seguinte: o drama em 3 actos "Scenas do Brazil", As comedias: "Um noticiarista" e o "Criado politko", a poesia: "Um artística invalido," e umas cena cómica. 

Tomam parte, por obsequio o sr. Liberato da Silva e os distinctos amadores da sociedade União Dramatica. No salão do theatro toca, também por obsequio, a philarmonica União d'Artistas Cacilhense. 

O espectáculo não pôde ser mais attrahente. (2)


(1) Romeu Correia, Um pátio de comédias em Almada, Movimento Cultural, ano II n.° 3, 1986
(2) Diário Illustrado, sabbado 15 de fevereiro de 1879

Leitura relacionada:
Memorias do actor Izidoro [i.e. Isidoro Sabino Ferreira] / ... Ferreira, Isidoro Sabino, 1828-1876.

Mais informação:
As Bandas de Música no distrito de Lisboa entre a Regeneração e a República (1850-1910)



Este Pátio do Prior, à Boca de Vento, tem uma história de primeiro plano na memória de Almada. Chamava-se assim por as suas casas terem pertencido a D. António. Prior do Crato, que as herdara de seu pai, D.Luís, duque de Beja e irmão do rei D. João III. Este fidalgo fora donatário de Almada e, segundo a tradição, ordenara a sua construção. Após o desastre de 1580, a perda da nossa independência e o exílio de D. Amónio, as casas passaram para a posse dos Abranches, que, em vésperas da revolução de 1640, aí conspiraram e receberam o duque de Bragança, futuro D. João IV.

ASPECTO DA ENTRADA DO PÁTIO PRIOR DO CRATO NO LUGAR DA BOCA DO VENTO - ALMADA
AMRS

No fim da primeira metade do século XIX teve aqui lugar o Teatro de Almada, muito frequentado, na época estival, pelos veraneantes que ocorriam às praias desta margem. Utilizando a sala de espeçtáculos, a Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, fundada em 1 de Outubrode 1848, teve neste teatro a sua primeira sede.

cf. Romeu Correia, Movimento Cultural, ano II n.° 3, Dezembro 1986

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Associação de Socorros Mútuos Primeiro de Dezembro

Este livro [Livro do Centenário da Associação de Socorros Mútuos Primeiro de Dezembro, 1883-1983] escrito e ilustrado por António Henriques [v. Centenário de António Henriques (1915-2015)] em 1983, data da comemoração do centenário da Associação, debruça-se sobre a sua fundação e história; contém a lista dos sócios fundadores e principais beneméritos, exposição do processo da construção da sede da coletividade, descrição das comemorações e solenidades registadas por ocasião das festividades do dito centenário; listagem dos médicos que prestaram serviços para a associação, bem como as representações feitas por esta nos funerais dos sócios; relações dos corpos sociais no decorrer daquele século de história e uma sucinta narrativa da história do mutualismo em Portugal, com o registo dos montepios existentes no país. (1)

Associação de Socorros Mútuos 1.° de Dezembro
Imagem: InfoGestNet

Nos anos de 1861 a 1889 a Pátria Portuguesa esteve sob o reinado de. D. Luís, cognominado "O Popular", época assinalada por grandes melhoramentos e importantes reformas que muito contribuiram para o progresso material e moral da Nação, principalmente em 1883 que se distinguiu pelas explorações científicas que se efectuaram através do continente africano, em terras sertanejas de Moçamedes e Quelimane, num percurso de alguns milhares de quilómetros, que causaram, ao tempo, a admiração da Europa e glorificaram o nome de Portugal. 

António Henriques, notável associativista almadense.
Imagem: Centenário de António Henriques (1915-2015)

Ao mencionarmos aquele longínquo ano, Almada foi também palco do que pode-10 querer decisivo dos homens, na ideia concebidas em consistentes princípios de relevância social e humanitária, de protecção aos trabalhadores que esteve na origem da criação, a 22 de Novembro, da Associação dos Operários de Cortiça "1.° de Dezembro", acontecimento de muito orgulho para os almadenses, denominação que em Novembro de 1884, se transformou em Associação dos Operários de Cortiça e Artes Correlativas "1.° de Dezembro", até Fevereiro de 1885, passando a partir desta data, e até hoje, a chamar-se Associação de Socorros Mútuos Primeiro de Dezembro.

Os notáveis fundadores todos operários da classe corticeira, em Margueira foram, com a concordância de todos os cidadãos: Francisco Borja de Almeida Ferreira, José Tavares Veloso, Norberto dos Santos Júnior, José Anastácio de Almeida e, muito provavelmente, José Custódio Gomes e José da Costa ou José da Costa Leal.

Cacilhas, Caes e Farol, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

A Associação teve a sua primeira sede social em Cacilhas, na Rua Direita de Cacilhas (antiga denominação) com o número 30, de polícia, actualmente Rua Cândido dos Reis.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

O edifício ficava a direita de quem se dirige para Almada, localizado imediatamente a seguir a Igreja de N.ª S.ª do Bom Sucesso, em frente da que foi "Escola de Instrução Primária, da Professora D. Henriqueta" (foto assinalada com X).


Mas, segundo outra fonte (talvez menos verosímil) , a primeira sede ficaria no prédio situado no começo da Calçada da Pedreira, também em Cacilhas, actual Rua Elias Garcia, a direita de quem se encaminha para Almada, ligeiramente defronte do portão da já desaparecida "Quinta do Pinto" [...] mantendo-se a Associação em Cacilhas até fins do ano de 1887 [...]

Almada, Largo do Poço em Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Esta Comissão iniciou, de pronto, os seus trabalhos para a aquisição de um imóvel ao aparecer-lhe para venda uma casa abarracada e quintal, situada, segundo consta da respectiva acta, entre as Ruas do Forno e da Judiaria, em Almada [...]

A mesma Comissão, depois de, naturalmente, ter procedido a mais "démarches", optou pela compra da casa abarracada, situada em Almada, também na Rua Direita, ao Cabo da Vila (hoje Rua Capitão Leitão), pelo preço de 1.300.000 reis, que acrescida da quantia de 2.300.000 reis, importância calculada para a construção do 1.º andar e apropriar o r/chão, totalizava 3.600.000 reis. 

Apresentados os resultados das diligências efectuadas a Assembleia Geral, bem como a decisão da Comissão favorável a compra do dito imóvel, sito ao Cabo da Vila, foi aprovada por maioria a sua aquisição, atendendo, principalmente, a localização das que seriam as futuras instalações desta tão benemerente instituição [...]

Para o bom êxito desta transacção, bastante se ficou a dever, também, aos sócios Manuel Ferreira, José Francisco de Avelar e Silva, Eduardo Augusto Cristóvão, João Pedro Rodrigues de Paiva. 

Rapidamente, foram estudados e aprovados os planos das obras a efectuar para a construção da Sede, as quais começaram, ainda, no aludido ano de 1904, sob a orientação técnica do Mestre-de-obras, José Avelar.


A inauguração da nova Sede, propriedade da Associação, dá-se a 12 de Março de 1905, com toda a solenidade e a presença das duas Bandas Musicais da terra, a Incrível e a Academia Almadense, que se faziam acompanhar de bastante público.


Em Novembro de 1933, foram feitas reparações interiores e exteriores no prédio, tendo sido colocada no cimo da fachada do edifício uma pedra com o nome da Associação e a data da sua fundação, num trabalho do técnico profissional, o almadense José Duarte Cordeiro. (2)

100 anos de amor ao próximo

Faltavam ainda dezassete anos para entrarmos no Século XX quando um grupo de trabalhadores de Almada tentou realizar mais um sonho incrível...  — a fundação de uma associação de socorros mútuos. De mãos calejadas e vazias de reais, cercados das carências mais elementares e vivendo numa época de atraso técnico e científico, estes cidadãos uniram-se num grande querer — e o milagre aconteceu.

A então vila de Almada comportava uns escassos milhares de almas que se consumiam em dez, doze e mais horas de trabalho diário, tendo na Sociedade Filarmónica Incrível Almadense (1848) e na Associação dos Artistas Almadenses (1856) os únicos oásis recreativos e culturais.

As ruas da freguesia deixaram por essa ocasião de ser alumiadas a óleo de peixe aparecendo a novidade dos candeeiros a petróleo. A escola Conde de Ferreira, no Campo de São Paulo, era a única fonte do saber oficial. Tardavam em aparecer a Cooperativa Almadense (1891) e a Piedense (1893), assim como as filarmónicas da SFUAP (1889) e da Academia (1895). Os bombeiros de Cacilhas (1891) e de Almada (1913) não passavam de desejos. Os grupos desportivos só no próximo século germinariam timidamente. Tabernas não faltavam e uma zona de prostituição era autorizada na Rua do registo Civil, na Boca do Vento. A praga do analfabetismo no reinado de el-Rei D.Luís I rondava os 80 por cento.

Romeu Correia, escritor almadense neorrealista.

Mas aquele punhado de operários e lojistas sabiam que na unidade residia a força que operava prodígios. Os ideais republicanos conquistavam os jovens mais esclarecidos e uma boa parcela de intelectuais da pequena burguesia. Faltavam oito anos para a primeira tentativa, aliás frustrada da revolução republicana de 31 de Janeiro de 1891. Seria preciso esperar ainda até 1910 para que a Monarquia secular fosse derrubada. 

Os habitantes desta margem do Tejo orgulhavam-se de Almada ter sido berço do mais prestigioso vulto da propaganda republicana na sua primeira fase: José Elias Garcia (1830-1891). Cidadão nascido em Cacilhas, tinha dois anos quando seu pai condenado ao suplício da forca pelos miguelistas fora libertado pela vitória liberal de 23 de Julho de 1833. Mas cinquenta anos depois (a 22 de Novembro de 1883), quando nasce a Associação de Socorros Mútuos "1.° de Dezembro", o leque político dividia-se por anarco-sindicalistas, socialistas e republicanos liberais, além dos adeptos da monarquia vigente. 

Luís de Queiroz, almadense notável e dirigente da
Associação de Socorros Mútuos 1.° de Dezembro

Recordando o mundo de então sob o ponto de vista sanitário e estabelecendo o confronto com o progresso actual, verificamos um atraso que causa espanto. A tuberculose e a sífilis pairavam no horizonte dos jovens como um mal fatalista. As crianças enfrentavam mil moléstias antes de dar os primeiros passos. As pestes periódicas ceifavam famílias inteiras. Do vocábulo "micróbio" até então ninguém tinha ouvido falar... 

Apelando para a paciência do leitor, talvez seja oportuno recordar algumas das principais criações do génio do Homem quando e depois da fundação da "1.° de Dezembro". Um pouco antes Alexandre G. Bell inventara o telefone (1876) e Thomas Edison o gramofone (1877). Pasteur descobre a vacina anti-rábica (1885). Construção da Torre Eiffel; Exposição Universal de Paris (1889). Os irmãos Lumière inventam o animatógrafo (1895). Marconi descobre a T.S.F. e Rontgen os raios X (1896); 1.a corrida de automóveis em 1896; 1.° voo de avião em 1897. Curie descobre o rádio (1898). Einstein formula as leis da relatividade (1905). Augusto Lumiére cria a fotografia a cores (1907). Travessia aérea da Mancha em 1908. Descoberta da vitamina Funk (1912). Advento do cinema sonoro; travessia aérea do Atlântico por Lindberg (1927). Alexandre Fleming descobre a penicilina (1928). Lançamento pelos americanos da primeira bomba atómica (1945). Experiencias com a bomba sobre Hiroshima e Nagasaki (1945). Apelo de Estocolmo para a interdição da bomba atómica (1950). Experiências com a bomba de hidrogénio (1956). Lançamento do primeiro satélite artificial pela União Soviética (1957). Os americanos pisam a Lua (1970).

José Carlos de Melo, almadense notável e dirigente da
Associação de Socorros Mútuos 1.° de Dezembro

Mas na pacata vila de Almada, hoje cidade, a nossa Associação de Socorros Mútuos manteve-se contra procelas sociais e politicas, numa prova indestrutível da obra mutualista dos generosos fundadores. Muito do seu historial se perdeu no correr dos anos. Mas sabemos que muito cedo adquirira edifício próprio para sede, da qual legitimamente se orgulhava. Como regalias dispensadas aos associados, a "1.° de Dezembro" tinha assistência médica e medicamentosa, enfermagem e, em anos melhores, parteira, subsídio para cura de água, carro funerário e enterro.

Pelas direcções passaram centenas de cidadãos dos melhores quadros do movimento associativo da vila, hoje cidade. Os antigos almadenses falam ainda, saudosos, da grande festa anual em beneficio da Associação no Teatro da Trindade, em Lisboa. Durante meses, os associados e seus familiares sonhavam com o deslumbrante passeio, os vestidos e as farpelas a estrear, o espectáculo, o baile — oh gentes daquele tempo como a solidariedade floria em amor e felicidade! 

Pelicano Eucarístico
Associação de Socorros Mútuos 1.° de Dezembro
Imagem: InfoGestNet

Mas os anos e os homens são outros, Hoje resta-nos desejar que a árvore secular seja mais acarinhada, mais auxiliada, mais reconhecida por quem pode e manda neste País de milhões de pobres e de alguns milhares de senhores tão ricos, tão ricos.

São os nossos votos. Ámen

Romeu Correia (3)


(1) InfoGestNet
(2) Idem
(3) Idem, ibidem

Informação relacionada:
Centenário de António Henriques (1915-2015)
Almada em 1897
José Carlos de Melo