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segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A ponte monumental

A architetura exterior dos edificios públicos, das egrejas, dos grandes palacios, é lamentável de banalidade e insulsez: e os modernos quazi todos peores do que os antigos; fóra do manuelino, de que o terremoto deixou poucos bocados, fóra do D. João V, que é um entre Luiz XIV e Luiz XV luxurioso e freiratico, Lisboa não tem nada que vêr-se possa, a não ser o Terreiro do Paço e a jesuitica egreja da Estrela, feita com o dinheiro que o marquez destinava á ponte monumental entre Almada e Lisboa, e o estafermo beato de D. Maria I derreteu em honra dos seus terrores supersticiosos. (1)

Bellisle looking down the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Bonhams

A ideia inadiavel da prolongação das linhas do Barreiro até Cacilhas ou Almada, trazendo os comboios á parte mais estreita do Tejo, frente a Lisboa, a 10 ou 12 minutos de travessia maritima da capital, necessariamente desperta na poderosa Companhia Real (dos Caminhos de Ferro Portugueses) os antigos rancores, pois, realisada a obra, os sonhos do Cetil carriando a Lisboa a mór parte das mercadorias do Alemtejo Medio e Baixo, em fumo vão-se, e visto o desenvolvimento espantoso que este acrescente trará ao Sul e Sueste, não haverá mais meio de pensar em o arruinar e adquirir por tuta e meia (...)

Lisboa — Vista de Lisboa e Tejo, ed. desc., década de 1900.
Delcampe

Mas se é certo que a teimosia dos comerciancites, por bronca, faz suspeitar que por traz d’ela alguma tramoia a Companhia Real fomenta e móve, não menos descabida parece a ancia que teem os engenheiros do Sul e Sueste em querer já construir a estação terminal nos aterros do caes jacente á Alfandega, sem primeiro trazerem a linha a Cacilhas ou Almada, sem prolongamento logico e natural (...) (2)

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Hemeroteca Digital

É do folheto "Ainda a estação fluvial das linhas do sul e sueste" do sr. engenheiro A. Santos Viegas que extracto a enumeração desses projectos:

Em 1888, projecto do americano Lye: vinha a ponte d'Almada ao Thesouro Velho, e ahi ficava a estação de mercadorias do sul e sueste, com entrada pelo Largo das Duas Igrejas [Praça do Chiado]. "A este plano, acrescenta o sr. Santos Viegas, alvitra-se agora acrescentar elevadores que nas alturas do Caes do Sodré transportariam vagões entre a linha superior e a estação da companhia". Custaria de 8 a 10:000 contos.

Em 1889: projecto de Bartissol e Seyring [sic, Seyrig], fazendo da estação do Rocio a testa das linhas sul e sueste, quando ainda a companhia Real pensava d'açambarcar os caminhos de ferro do estado. Custava 9:000 contos, a que opinões meticulosas ajuntam mais 1:000 para expropriações.

Ponte sobre o Tejo, E. Bartissol e T. Seyrig, O Occidente n.° 380, ilustração L. Freire, 1889.
Hemeroteca Digital

Em 1890: projecto do engenheiro Proença Vieira, que iria de'Almada a um ponto ao norte da rocha do Conde de Óbidos, seguindo a linha ferrea até cêrca de Campolide. Custava 7:500 contos mas é possível que chegasse a muito mais, visto haver sítios do rio onde as fundações dos pilares iriam até 60 metros de fundo, e no projecto não se faziam calculos explicitamente rigorosos ácêrca d'essas fundações.

Depois de 1891 houve mais dois projectos. Um, do fallecido Miguel Paes, de todos os expostos o mais sensato sob o ponto de vista de ligação ferroviaria, vinha do Pinhal Novo onde toda a rede do sul se acha reunida n'um tronco unico, o espigão do Montijo, e d'ahi por uma immensa ponte, aos Grillos, fóra da zona de grande navegação do Tejo. N'este sitio, teria a ponte muito menor importancia para a viação ordinária.

A construcção seria mais facil, mas a extensão muito maior, devendo o custo exceder pouco mais de 4:000 contos.


Ponte sobre o Tejo, estudo do engenheiro Miguel Pais, 1872.
Arquivo Municipal de Lisboa

Finalmente o ultimo projecto de travessia do Tejo era a concessão a uma empreza americana, d'uma ponte ara peões, carros, "tramways" electricos e caminhos de ferro, entre Almada e o bairro da Lapa, sem bases porem que permittissem avaliar da sua exiquibilidade.

Elegante projecto da ponte Lisboa Cacilhas,
propaganda republicana, década de 1910.
O Mundo do Livro

O sr. Santos Viegas opina (e nós tambem) que a ideia Julio Vernesca da ponte sobre o Tejo deve deixar-se ás futuras gerações. Não que ella não represente um arrojado e utilissimo melhoramento, mas por ser devorante o custo, e não se devem adiar outras obras mais urgentes, como a da trazida do caminho dez ferro do sul a Cacilhas ou Almada, e fundação da nova cidade da margem esquerda, em que urge desdobrar, o mais rapidamente possivel, a nossa actual Lisboa fabril e commercial. (3)


(1) Fialho de Almeida, "Barbear, Pentear" (jornal d'um vagabundo), 1910
(2) Fialho de Almeida, Idem
(3) Fialho de Almeida, Illustração Portugueza, Lisboa Monumental II, Lisboa, 19 novembro 1906

Artigos relacionados:
Lisboa monumental em 1906
Projecto de travessia do Tejo em 1889
A ponte

quarta-feira, 22 de abril de 2020

O novo autocarro da Piedense

Todos se lembram da miséria, há uma meia dúzia de anos atrás, dos transportes na região de Almada e Caparica. O problema dos transportes colectivos da nossa região foi resolvido pela Empresa de Camionetes Piedense, já antiga, mas que pela sua nova e generosa gerência tomou um rumo progressivo, que seria injustiça não pôr em destaque.


Volvo da Empresa de Camionetes Piedense, 4 de março de 1950.
Delcampe bosspostcard

Ele satisfez a população natural da Costa, os banhistas, os frequentadores habituais, os forasteiros, o comércio, o bom nome da região e de Almada. Horários encurtados, veículos cómodos, serviço primoroso, pessoal correcto.

Berliet PCR da Empresa de Camionetes Piedense, 1949.
Gazeta dos Caminhos de Ferro, n.° 1470, 1949

Agora pode cada um dirigir-se à Praia do Sol, pela Trafaria ou por Cacilhas, que nem tem que esperar nem tem que se preocupar com o regresso. E deste modo as edificações de moradias e a instalação de famílias no verão ou em todo o ano multiplicam-se, e o concelho de Almada conta com um seguro elemento no seu progresso; os transportes colectivos.

Não é, pois, por favor ou por simples contumélia, que o nosso boletim cumprimenta os srs. José de Sousa e Silva, gerente da Empresa de Camionetes Piedense, e o seu compreensivo sócio sr. Agostinho Linhares. 

E hoje, 1 de Janeiro, precisamente, foi inaugurado um novo autocarro, de modelo moderno, e que vai acrescentar a excelência dos serviços da Empresa. (1)


(1) O progresso dos transportes, O novo autocarro da Piedense

Artigos relacionados:

A Ideal de Carrocerias
Empresa de Camionetes Piedense
Uma empresa que se impõe

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Os barcos grandes

A revista do ACP publicou várias informações sobre a exposição [de Sevilha em 1929], nomeadamente sobre a emissão de cadernetas de passagem nas alfândegas para automobilistas não sócios do clube, o que constituía uma excepção, e sobre os itinerários de Lisboa para Sevilha, contando com a travessia por barco de Lisboa para Cacilhas [...]

Largo do Costa Pinto ou de Cacilhas, terminal rodoviário e fluvial, c. 1969.
Ferries da S.M.T., Almadense (atracado) e Alentejense (a chegar).
Imagem: Nuno Bartolomeu

Numa fase inicial, o automóvel, sendo um objecto frágil que apenas funciona num sistema socio-técnico construído em função da sua circulação, teve de recorrer a outros veículos para suplantar as suas limitações.

Largo do Costa Pinto ou de Cacilhas, terminal rodoviário e fluvial, c. 1969 (detalhe).
Imagem: Nuno Bartolomeu

Assim, na travessia de certos obstáculos naturais, como rios que ainda não tinham pontes rodoviárias, tinham de ser transportados por barcos, e no longo curso, devido ao mau estado ou inexistência de estradas, recorriam aos comboios.

Largo do Costa Pinto ou de Cacilhas, terminal rodoviário e fluvial, c. 1969 (detalhe).
Imagem: Nuno Bartolomeu

Neste âmbito, o ACP, como outros clubes automóveis e de turismo europeus, negociaram com companhias de navegação e de caminhos-de-ferro descontos e outras condições especiais para o transporte dos automóveis dos seus associados.

O Almadense chegando a Cacilhas em 1950.
Imagem: José Luis Covita

Assim, desde pelo menos 1908, o ACP tentou estabelecer um acordo com a Parceria de Vapores Lisbonenses, empresa que dominava o transporte fluvial entre Cacilhas e Lisboa desde a segunda metade do século XIX, no sentido de obter descontos para o transporte de automóveis nessa travessia. (1)

Vista do paquete Queen Elizabeth II fundeado no Tejo.

A Parceria de Vapores Lisbonenses foi criada na década de sessenta do século XIX (tinha então o nome de Empresa de Vapores Lisbonenses e era propriedade de Guilherme Burnay). 

Embarque no ferry-boat em Cacilhas.
Imagem: Fotold (fb)

Nos anos trinta do século XX inaugurou uma carreira de ferry-boats para o transporte de veículos e passageiros para o Cais do Sodré, mantendo barcos mais pequenos com destino a Cacilhas. (2)

Veículos de tracção animal na travessia do Tejo, década de 1970.

Nas primeiras décadas do século XX fez alterações, como a introdução de barcos a diesel (1922) ou o alargamento dos cais devido ao aumento do tráfego rodoviário.

Ferry-boat Palmelense (ou Almadense), Amadeu Ferrari.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Nos anos trinta do século XX, gozando então os sócios do ACP de descontos de dez por cento, esta empresa inaugurou uma carreira de ferry-boats para o transporte de veículos e passageiros para o Cais do Sodré.

Transporte de automóveis num ferry-boat.

O transporte por ferry-boat nesta travessia manteve-se extremamente importante, mostrando-se, no entanto, manifestamente insuficiente face ao aumento do tráfego, até à abertura de uma via continua com a inauguração da ponte Salazar em 1966. (3)


(1) M. Luisa Oliveira e Sousa, A mobilidade automóvel em Portugal, 2013
(2) Jorge de Sousa Rodrigues, Infra-estruturas e urbanização da margem sul, 2000
(1) M. Luisa Oliveira e Sousa, Idem

sábado, 28 de outubro de 2017

Empreza d'Automoveis Almadense

Realizou-se já a primeira experiência de um omnibus automóvel adquirido pela Sociedade Portuguesa de Automóveis e que se destina a fazer carreiras para transporte de passageiros entre Cacilhas, Costa de Caparica e Sesimbra.

Omnibus "de Dion-Bouton" de 24cv, 1905-1906.
Imagem: Museu do Caramulo

Saiu o omnibus das garagens da Sociedade Portuguesa de Automóveis, na rua Jardim do Regedor, guiado pelo chauffeur Laurencel, contramestre na fábrica De Dion, levando além do sr. Serra e de alguns amigos, os srs.engenheiro Júlio de Vasconcelos e Carlos Bleck, directores da Sociedade Portuguesa de Automóveis, agentes exclusivos da casa Dion Bouton.

O primeiro autocarro português, "de Dion Bouton" de 1902, conduzido por Louis Laurencel.
Imagem: José Luis Covita, Memórias de um Século de Autocarros a Sul do Tejo, Lisboa, Scribe, 2013.

O omnibus carregado com 18 pessoas foi direito a Algés, estrada da Circunvalação, Benfica, Avenida e Campo Grande onde andou na fila. A Sociedade Almadense está à espera de outro automóvel igual a esse para imediatamente inaugurar as carreiras para Sesimbra. (1)


 *
*     *

A 29 de Maio [de 1905], uma segunda‑feira, a Empresa de Automóveis Almadense “(…) inaugurou um serviço provisório de carreiras, entre Cacilhas, Almada e Piedade, começando esse serviço, todos os dias, na sahida do vapor das nove da manhã, terminando na carreira das 7h40 da tarde, sendo o preço de cada logar até Almada, 40 réis e à Piedade de 50 réis” [...] (2)

Cacilhas a Piedade,
Bilhete da Empreza de Automoveis Almadense, serviço provisório .
Imagem: José Luis Covita, Memórias de um Século de Autocarros a Sul do Tejo, Lisboa, Scribe, 2013.

Inaugurou-se a semana passada o serviço de carreiras de automóveis entre Cacilhas, Cova da Piedade e Almada, organisado pela Empreza d'Automoveis Almadense, á testa da qual estão os conhecidos e importantes capitalistas Serras [João Baptista de Carvalho Serra, Sucessores, de Cacilhas] e Luís Fernandes. 

Omnibus de Dion Bouton.
Imagem: Delcampe

É este um importante melhoramento para as povoações da margem sul do Tejo pois não se limita a este pequeno percurso, o trajecto a percorrer pelos automóveis da Empreza Almadense.

Tendo já carros encomendados [à Empreza Portugueza de Automoveis (Auto Palace), "4 omnibus, Dion Bouton, sendo 2 de 15 cavalos e 2 de 24 cavalos" cf. Tiro e Sport n.° 302, 15 de março de 1905], conta-se em pouco tempo começar com as carreiras entre Cacilhas, Cezimbra, Azeitão e Setúbal, ficando assim substituídas as antiquadas diligências que actualmente fazem essa carreira.

Esse serviço é feito por modernos automóveis de Dion-Bouton, do modelo mais aperfeiçoado e moderno, e deve ser motivo de orgulho para o nosso paiz o saber que se está dando applicação prática a este novo invento, ao mesmo tempo que no estrangeiro se faz o mesmo, o que em geral não tem acontecido até aqui, aonde só tardiamente se imita o que de util há lá por fóra.

Omnibus de Dion Bouton.
Imagem: Delcampe

Nenhuma dúvida há que, em breve, teremos em Portugal a maior parte dos nossos serviços de diligências substituídos por serviços de automóveis, visto já não haver as legítimas apreensões que há pouco anos ainda existiam no espírito de pessoas ou empresas querendo entrar nesse caminho. (3)

Corpo do Estado Maior do Exército, assinaladas a Estrada Distrital 156 e a Estrada Real 79, 1902.
Imagem: IGeoE

Logo que estejam concluídos os arranjos a que se está procedendo em vários pontos da estrada, recomeçarão as carreiras de automóveis entre Cacilhas, Caparica e Vila Nova, que há tempo foram interrompidas. (4)


(1) JCB Rodrigues, A implantação do Automóvel em Portugal (1895-1910)  cf. Gazeta dos Caminhos-de-Ferro (Lisboa), Fevereiro, 1905, 71.
(2) José Luis Covita, Memórias de um Século de Autocarros a Sul do Tejo, Lisboa, Scribe, 2013
(3) Tiro e Sport n.° 302, 15 de março de 1905
(4) JCB Rodrigues, A implantação do Automóvel em Portugal (1895-1910)  cf. Gazeta dos Caminhos-de-Ferro (Lisboa), Maio, 1905, 362.

Informação relacionada:
José Barros Rodrigues, Os Automóveis na Rede de Transportes Públicos...

Leitura recomendada:
José Luis Covita, Memórias de um Século de Autocarros a Sul do Tejo, Lisboa, Scribe, 2013

terça-feira, 13 de junho de 2017

Almada 1945-1965

Já não é difícil prognosticar o futuro da margem sul, sob os aspectos urbano, industrial, turístico, etc., porque se vé nitidamente a direcção do movimento, iniciado há cerca de 20 anos e que ultimamente se vem tornando cada vez mais firme.

Um dos actuais encantos de Almada está precisamente nos imprevistos aspectos que a cidade satélite nos desvenda: eis o velho e romântico petroleiro de carro puxado a mula, contrastando com a moderna linha dos edifícios.
Fotografia de António Homem Christo, in Almada, a cidade satélite, Revista Eva, Dezembro de 1960.
Imagem: Dias que Voam

A vila de Almada teria em 1940 sete ou oito mil habitantes, praticamente na totalidade oriundos de almadenses. Lisboa saltou o Tejo e desenvolveu rapidamente Almada, que transformou em cidade sua satélite e sua zona residencial. 

Almada, Vista Geral (tomada do Campo de S. Paulo), ed. desc., década de 1940.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Não tardará muito que Almada atinja o décuplo da sua população de há um quarto de século. Quem como nós, viveu em Almada a maior parte deste espaço de tempo, viu rasgar avenidas e alinhar prédios pelas quintas que alastravam pelas encostas do Vale Caramujo-Caparica; 

Paisagem rural. A caminho de Caparica, década de 1940. Pintura de José de Azevedo (1914-2000).
Imagem: Alexandre Flores no Facebook

viu deslocar-se o centro cívico de Almada e modificar-se radicalmente o aspecto de Cacilhas; 

Plano Parcial de Urbanização de Almada (PPUA) relativo à localização do Cento Cívico, 1947.
Imagem: Câmara Municipal de Almada

viu regular-se a margem do rio entre Cacilhas e a Cova da Piedade;

Porto de Lisboa, vista aérea de Cacilhas e dos lugares de Ginjal e Margueira, década de 1950.
Imagem: Porto de Lisboa

viu surgir no Laranjeiro-Feijó um grande centro, que não tardará a ser freguesia independente; viu lançar as bases da fixação populacional com a criação de escolas médias particulares e oficiais e com o auspicioso início da construção de um dos maiores estaleiros do mundo.

Vista aérea da variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958
Imagem: IGeoE

Os últimos 20 anos abriram a Almada perspectivas inteiramente novas: — de pequeno burgo monolítico, constituído pelo aglomerado de algumas famílias conhecidas, passou a ser a cidade sem coesão, formada na maioria por emigrados imigrados provindos de todos os recantos do País.

Praça da Renovação, década de 1960.
Imagem: Delcampe

Sob o ponto de vista urbano, Almada tornou-se grande; sob o ponto de vista social, não enriqueceu com o mesmo ritmo; e perdeu a unidade que tinha dantes. Almada deixou de ser um meio pequeno, para residência e trabalho de vizinhos; agora é uma cidade cujos habitantes mútuamente se desconhecem. 

Almada, Cacilhas - Vista Parcial, ed. J. Lemos, s/n, década de 1950.
Vista da Avenida Frederico Ulrich, atual 25 de Abril, Vila Brandão e morro do moinho.
Imagem: José Luis Covita

É fácil de prever o progressivo encarecimento de rendas e a consequente fixação na zona de Almada de pessoas de um mais alto nível de vida. Em contrapartida, é fatal que mais longe venha a construir-se a zona habitacional de classes pobres, para a qual veremos partir, infelizmente, muito bons almadenses de hoje.

Transportando a água, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: O Pharol

Sob o ponto de vista industrial, Almada aproveitará principalmente a sua privilegiada situação sobre a margem do Tejo, em grande parte ainda por explorar. Aparecerão, por certo, novas instalações portuárias, para passagem de mercadorias destinadas ao "além-Tejo" ou dali provenientes. 

Cacilhas, ed. Supercor, 1808, década de 1980.
Imagem: Delcampe

É natural que a política de fixação à terra não permita o estabelecimento de muitas indústrias de outra natureza tão próximo da capital. Mas é sob o ponto de vista turístico que Almada aguarda um grande futuro.

Cova do Vapor, vista aérea (detalhe), 1953.
Imagem: Flickr

Rica de praias e de matas, incomparáveis pela grandeza e pela beleza, c colocada como obrigatória porta de passagem para a extraordinária península de Setúbal, Almada poderá ter no turismo urna das suas grandes fontes de riqueza.

Costa da Caparica, O Transpraia, ed. Passaporte, 615
Imagem: Delcampe, Oliveira

É isto, em linhas muito rápidas, o que será o futuro próximo de Almada. — E o distante?

O Berlinde por um Óculo, fotografia de Fernando Barão.
Imagem: Casario do Ginjal

Para esse, cumpre-nos lançar os alicerces, para que os futuros habitantes o construam. (1)


(1) Jornal de Almada 07 de agosto de 1966

Artigos relacionados:
Almada em 1960
O centro cívico

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Grande passeio à Outra Banda (6 de 10)

Pouco o padre se molhou, 
A coisa não valeu nada, 

N'um instante s'enchugou, 
Com a famosa golada. 

Cacilhas, Caes e Pharol, ed.Tabacaria Havaneza, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Rindo foi sentar-se á prôa, 
Ao lado do seu Gambôa, 
Pucha do fuzil... petisca; 
Mas logo riam instantinho, 
Surge o tenente Coutinho, 
P'ra fiscalizar a isca.

Policia civil,  Raphael Bordallo Pinheiro.
Imagem: Bordallo Pinheiro

Ao bote manda dois guardas, 
De espadalhões e de fardas, 

(D. Francisca)

Que vem fazer este bando?

Vimos ver o contrabando, 
E d'essa isca acendida... 
Será já da permittida.

Grita o Gambôa bufando; 
"Aqui não ha contrabando, 
Não vivi, nunca passando-o, 
Não uso a falsa torcida! 
Isto em mim não são cantigas, 
O olho á vontade deite, 
Aqui ninguem tem bexigas, 
De agua ardente, nem de azeite. 

Se a curiosidade alastra, 
Por ordem de um tolo fino, 
Metta o nariz na canastra, 
Que traz restos do petisco."

(Grita o padre) 

Digam lá ao sor Coutinho, 
Que diz o padre José, 
Que vai no "bote-olaré"!
Sem uma pinga de vinho,

A mana assaz escamada,
As pequenas e a cunhada, 
E a môça, todas zangadas, 
Não querem ser apalpadas.

Lugar de atracagem em Belém, A.P.D.G., Sketches of Portuguese life (...).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O Alfredo, alegre ri, 
E pondo a mão na ilharga: 
Esclama:—"Vamos d'aqui! 
Larga! Larga! o bote larga!"

O Durão, vai pirá escôta
E junto ao padre e ao Gambôa,
Vai assentar-se na prôa,
A creada... (que marôta)!

Agora uma outra cousa, 
Metta-se aqui de permeio: 
Do Azevedo e do Sousa, 
Do Rodrigues e do Feio, 
Despediu-se a sociedade, 
Com abraços de amisade.

Adeuses... suspiros... e ais, 
E o bote larga do caes. 

Catraio no Tejo, década de 1900.
Canoa "Amor da Pátria" de Jerónimo Rodrigues Durão.
Imagem: almaDalmada

Sulcando o ameno rio 
Canta o padre ao desafio.

"Saiba você seu Gambôa, 
Que vou agora cantar, 
E a Lisboa hei do chegar, 
Com a cabeça já bôa. 
Aqui, direito na prôa, 
Igual ao Vasco da Gama, 
Do amor patrio tenho a chamma, 
Não vou descobrir a India, 
Deus esta viagem finde-a, 
Pondo-me dentro da cama."

Embarcação (canoa) Zinha, Costa da Caparica, passeio de barco, 1922.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

(Grandes gargalhadas)

(A mana)

De cantar tendo cubiça 
D'esta fórma s'esganiça:

"Joven Lylia abandonada, 
Por seu lindo ingrato amante, 
solharia e delirante, 
Passeava em seu jardim."

D. Francisca, contente, 
Tambem canta de repente: 

"Sentes além no retumbar 
Da serra...
O som do bronze que nos causa 
Horror?! 
É mais um ente que voou... 
Da terra! 
Mais um poeta que morreu... 
D'amor." 

(O Alfredo) 

Tambem em grande berrata, 
Dá mil vivas á frescata, 
E eis que começa a cantar, 
Em estylo popular: 

"Que seja á quarta, 
Que seja á quinta, 
Que se a á sexta,
0 mesmo é, 
Que seja ao sabbado, 
E ao domingo, 
Ah! ah! ah! Trilolé!"

Pontaleto de Cacilhas, José Artur Leitão Bárcia, 1905.

Ri muito o padre José!
E o que faltava alli só,
P'ra cabal... alamiré,
Era um bello sol-e-dó!


(1) Diário Illustrado, 13 de agosto de 1896

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Grande passeio à Outra Banda (5 de 10)

A grande trote o ranchinho, 
Ahi vem pelo caminho. 

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso, 1892.
Referencia: Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial
Imagem: Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes

As gargalhadas, ferviam... 
Cada menina gritava... 
Dona Francisca, arrotava 
E o padre cambaleava... 
Quando o macho lhe zurziam, 
E o mesmo tropeçava.

Esbarra o burro da mana, 
Que se chamava: "O banana."

Logo muito espalhafato, 
Cae! Fica o vestido sujo... 
E perto do Caramujo, 
Perdeu a velha um sapato! 

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Imagem: Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos

Coitadita! Vinha assada, 
Do albardão do jumento; 
E em extremo empanturrada, 
Do substancial alimento. 

Trazia vermelho o béque, 
Pelo vinho que bebeu, 
Que ella achava muito bom, 
E sobre tudo barato; 
Perdendo álém do sapato, 
Juntamente com o leque, 
O immenso l'orgnon!

O Gamboa, a mana iguala, 
Também perdeu a bengala. 
Dona Francisca, essa um saco, 
Mais o veu de tarlatana, 
E o padre co'a carraspana, 
Entornou todo o tabaco!

Saibam mais... aqui não fica, 
A serie de variedades, 
Das tristes fatalidades!... 

A grande scena... a mais rica, 
Perdão! primeiro isto importa, 
A Cacilhas, tudo aporta, 
A creada um tanto torta, 
Fallava muito em amor, 
Com as meninas da casa, 
Os derriços pondo á rasa.

Todos gritam: "Ai! que horror!"
Porque havia um quarto de hora,
Que do caes se fora embora,
Já o ultimo vapor!

Vista tomada no porto de Cacilhas, face a Lisboa, Hubert Vaffier,  1889.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Eis se sente um vozeirão,
Sobre o caes a bom gritar,
N'um formidável berreiro;
Era o nosso catraeiro
O conhecido Durão,
Com pulmão que o ar atroa,
Que gritava,
E que berrava:
"O bote está a largar,
Quem quer ir para Lisboa!"

(As filhas) 

Ai, em bote não papá, 
Que me dá algum chilico... 
O mar muito bravo está... 
Eu cá com a tia fico.

(A mana)

De bote?! Jesus! que asneiras! 
Eu tremo só de pensar, 
Que havemos de atravessar, 
As p'rigosas bailhadeiras!

Typos de Catraeiros,
ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 23, década de 1900.
Imagem: Delcampe

O padre diz alegróte: 
"Bote... bote... venha o bote. 
Ou então uma falua... 
 Deus nos guia, á luz da Lua."

(D. Henriqueta)

Á luz da lua!... Que poesia! 
E começa com entono, 
Para a creada que ria... 
Recitando:

"Era no outono, 
Quando a imagem tua,
Á luz da lua,
Seductora vi! 
Lembras-te ainda, 
D'essa noite Elisa? 
Que doce brisa, 
Suspirava ali?!...

(O padre, gritando) 

Isso fez o Bulhão Pato,
Que eu respeito p'lo seu trato, 
P'lo seu brilhante talento!..
Q'reria vêr em S. Bento, 
Uma cabeça tão rica...
Um sábio que eu prézo tanto, 
Foi-se metter a um canto, 
Do monte de Caparica!!!

Bulhão Pato, Rafael Bordalo Pinheiro,
Album Glórias, 1902
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Bom: resmungára um magote; 
Mas tudo entrou para o bote: 
E no tinteiro não fica, 
A tal scena que foi rica!

Quando saltou para o bote,
O nosso padre José,
Q'rendo tirar o capote 
Ao pular... falta-lhe um pé, 
E bumba!—digo-o com magua, 
Cahe, ficando ae pés n'agua! 
Eia grita: "Meu Deus soccorro! 
Quem me acode! Jesus! morro! 
Valha-me o Céo, e S. Roque!"

Depressa deitam-lhe um cróque, 
Para o bote trepa então;
E quando a salvo se acha,
Solta grande gargalhada,
Dizendo: "Venha a borracha,
Que isto quer uma golada." 

Lisboa, Vista tomada de Cacilhas, ed. Martins/Martins & Silva, 7124, década de 1900
Imagem: Delcampe

E tudo foi abraçal-o, 
E tudo felicital-o!...


(1) Diário Illustrado, 12 de agosto de 1896

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Grande passeio à Outra Banda (4 de 10)

Ora chegados á quinta, 
O prazer geral requinta.

Uma barraca de comes e bebes, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

Debaixo de alto pinheiro, 
Todo o rancho prazenteiro, 
Se sentou: e a condessa 
Logo aberta foi depressa.

Grupos de arraial, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

Tiraram pois as colheres, 
Garfos, facas e palitos,
Riam-se immenso as mulheres...
Grande chuva de bons ditos, 
Com retumbantes risadas... 
As tres gallinhas assadas... 
Alli logo devoradas... 
Muita pilhéria e laracha... 
Para lavar o estomago, 
O nosso padre Luiz, 
Todo galhofa... n'um triz...
Lá se atirou á borracha. 

O dia da espiga, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

(Grita Gambôa) 
"Isto é melhor do que em casa! 
Viva a geral alegria!... 
As alegrias eternas!"
E cada filha pedia... 
Que lhe dessem uma ása, 
Comendo o Alfredo as pernas.

Dona Francisca, o pescoço... 
Outros o peito... um destroço! 
E tudo ria animado... 
E o Canastro era offertado, 
Ao burriqueiro, e ao moço.

Ora a mana que já estava, 
Com o Feio, de derriço, 
Sem saber que era casado, 
Toda delambida e bella, 
Dá-lhe, sorrindo, a moella, 
E uma roda chouriço. 

N'esta jovial cantata, 
Era tremenda a berrata, 
E grande era o borburinho! 
Todos de puc'ra na mão, 
A gritarem: "Venha vinho!"

A creada rindo então, 
Fazia ao padre gaifonas, 
A comer as azeitonas,
E a carne assada com pão. 

Gambôa fez um discurso,
Monumental, e d'escacha, 
O padre com a borracha, 
Não qu'ria passar por urso... 
Já com a penca encarnada,
Era golada... e golada... 
Dizendo: "Isto vai assim!"
E com a vista turvada, 
Berrava já em latim, 
Que nem na missa cantada! 

Nas hortas. À sombra de arvores, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

Que belleza!... que belleza!... 
Finda a boa sobremeza, 
Saberão os meus leitores, 
Que todos alli ficaram...
Tal e qual com os... "amores",
E lá riram, e dansaram.

Formou-se uma contradança, 
Bem de pressa, ao pé do tanque, 
Tocava a guitarra o Blanc, 
o cavaquinho o Bragança.

A mana avançando o passo,
De alegria dá um grito,
E ao seu feio... tão bonito,
Trava depressa, o braço.

Nosso Azevedo expedito, 
Que contentíssimo anda, 
Põe o charuto de banda, 
E dansa com Henriqueta, 
Delambida e de luneta,

O nosso Rodrigues tira, 
P'ra par "madama" Gambôa, 
Que pela dansa suspira, 
Na sociedade em Lisboa.

O quarto par é o Sousa,
Que a dar muita gargalhada,
Não se atirou a má coisa...
Pois se agarrou á creada.

Tudo dansa: tudo pula!
Tudo alli se vê a rir...
Só o Gambôa e o padre
Se deitaram a dormir:
Dizendo a rir a creada,
Para a sua querida ama: 
"Deixal-os, minha senhora, 
Aquella fructa quer cama."

Nas hortas. Debaixo da parreira, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

Mas o raio do petiz...
(Os rapazes são uns alhos!)
Accorda o padre Luiz... 
Acerta-lhe com dois bogalhos, 
Mesmo em cheio no nariz!

Jámais é eterno o gosto! 
Gamboa grita: "É sol posto, 
Vamos, vamos, minhas filhas,
Que ainda é longe Cacilhas,
Toca a montar a cavallo."

Padre Luiz, logo fal-o;
Mas como estava zaré.
No mofino do estribo, 
Quem diz que enfiava o pé?!

Foi preciso o burriqueiro, 
Ao vêl-o assim tão borracho, 
Pegar-lhe em pezo, e deital-o, 
Bumba! p'ra cima do macho! 

Nas hortas. À entrada da taberna, J. Novaes Jr., c 1900.
Imagem: Internet Archive

Eis grita o padre a cavallo: 
"Vou alegre... vou... deixal-o!
Luduvicus, pater a pé... 
Libera nos est dominé!
Arre! burros p'Azeitão,
Que os cazacas já lá vão!"


(1) Diário Illustrado, 11 de agosto de 1896