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domingo, 5 de julho de 2020

Café Progresso, Largo do Costa Pinto

Quadro n.° 65. (Porphyrio Henriques da Fonseca) "Largo do Costa Pinto, Cacilhas" [décima quarta exposição da Sociedade Promotora das Bellas-Artes em Portugal, 1887].

Café Progresso.
almaDalmada

Ainda bem que os burros cacilheiros não estão no Largo, porque se pilham o Costa Pinto todo vestido de verde, como Porphyrio o pintou, chamam-lhe um figo, mesmo á porta do café "Progresso", n.° 79.

Café Progresso (fotomontagem).


(1) Pontos nos ii, 26 de maio de 1887

terça-feira, 15 de maio de 2018

Sítio de Olho-de-Boi

Parece que não será no edificio do sr. Raton, mas na Outra-banda, no sitio de Olho-de-boi, que a companhia de "Fiação e Tecidos" vai estabelecer a sua fábrica. N'este último local esteve a fábrica de "lanificios de patente" [panos de feltro?], empresa que está em liquidação.

Olho de Boi, João Vaz, 1887.
Imagem: MNSR

Em qualquer sitio porém que a companhia de "Fiação e Tecidos" se estabeleça, fazemos votos pela sua prosperidade. (1)

Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense [fundada em 1838], armazéns, rua dos Fanqueiros 135, Lisboa.

Fonte da Pipa — Almada,
Olho de Boi, ed. desc.,década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Tecidos de algodão. Esta companhia tem três fábricas: duas em Santo Amaro, Belem, para a fiação e tecelagem; uma em Olho de Boi, Almada, para a fiação e tinturaria.

Operários (durante as épocas normais): 285 do sexo masculino e 465 do sexo feminino.

Salários: de 280 réis a 800 réis por dia para os homens; de 420 réis a 240 réis por dia para as mulheres; de 80 réis a 460 réis por dia para os menores.

Produção anual: 385 contos de réis mais ou menos. Escoamento: os de Portugal e colónias de África, Brasil e Espanha.

Almada, Boca do Vento, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 12, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Medalhas nas esposições de Lisboa 1849, Porto 1861, Lisboa 1863, Londres 1861, Londres 1862, Paris 1855, Porto 1865. (2)

*     *
*

CPP (Companhia Portuguesa de Pesca, Lisboa)

E em 1947, no Sábado sem Sol, evocara a fábrica de gelo para os frigoríficos de bordo, com aquela ponte em cimento tracejada de rails para vagonetas... Também o relógio da torre, em Almada, e as cinco badaladas no bronze do sino, logo o apito para a saída do pessoal da Companhia Portuguesa de Pesca. (3)

Olho de Boi, Companhia Portuguesa de Pesca, Amadeu Ferrari, década de 1940.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A Companhia Portuguesa de Pesca foi fundada no ano de 1920 por quarto pequenos armadores de pesca de arrasto, cada um proprietário de um navio.

Tipo de arrastão a vapor do início do séclo XX.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Esta Companhia surgiu num contexto de expansão da indústria conserveira e piscatória.

Inicialmente, os navios dedicados unicamente à pesca por arrastão costeira funcionavam a partir do cais de Santos, na margem norte, em Lisboa. devido ao pouco espaço na margem direita do rio Tejo, por estarem já implantadas algumas das importantes unidades fabris e devido à manutenção e aparelhagem dos navios, a direcção decidiu que era necessário construírem infra-estruturas de apoio.

Arrastões da Companhia Portuguesa de Pesca, Alcatraz e Liberal Primeiro, na Doca 1 da C.U.F., em Lisboa.
Imagem: Caxinas a freguesia

O local escolhido foi a margem esquerda, no Olho de Boi em Almada.

Numa primeira fase, foi celebrado um contrato de aluguer com a Administração Geral do Porto de Lisboa para a zona ribeirinha na margem sul, que ia desde o início do caminho para Almada até à Quinta da Arealva.


Nesta zona encontrava-se já uma muralha, que permitia a acostagem dos arrastões. Esta foi alargada mais tarde com a construção de um cais, assente em pilares, que avançou umas dezenas de metros em relação à estrutura existente, sendo assim possível atingir área profunda e portanto mais favorável à manobra das embarcações.

Lançamento à água do arrastaõ Almada em 1953.
Foram gémeos do Almada na Companhia Portuguesa de pesca os arrastões Alfama, Ajezur, Alvalade e Alfeite.
cf. Navios à vista

A escolha deste local deve-se também ao facto de se encontrar aí um edifício desactivado, que pertencera à Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonenses, passando este edifício a ser a zona de mecânica da CPP e o pólo das restantes estruturas fabris posteriormente construídas.

Olho de Boi - Beira Tejo, Manuel Tavares, aguarela sobre papel, 1960
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Esta fábrica era uma das unidades industriais cujo aparecimento na segunda metade do séc. XIX foi um dos marcos da industrialização na margem sul.

Navios no cais do Ginjal, Real Bordalo, 1976.
Imagem: eBay

A CPP adquiriu este edifício, assim como algumas quintas contíguas, que se estendiam entre a orla ribeirinha e a arriba.

Cais do Ginjal, arrastões Algol e Alcoa da CPP, 1984.
Imagem: Nuno Bartolomeu

Alguns anos mais tarde a companhia expandiu-se ao longo da zona ribeirinha, para Este, até ao cais da Fonte da Pipa [...] (4)

"Estuário do Tejo - Cais do Olho de Boi 1984 - 3 atuneiros da Empresa de Pescado do Algarve; 4 arrastões da CPP da classe ALMADA; 4 arrastões da SNAPA da classe ILHA DE SÃO VICENTE; os arrastões PEDRO DE BARCELOS e ÁLVARO MARTINS HOMEM, da SNAB / foto de autor desconhecido, gentilmente cedida por Nuno Bartolomeu."
cf. Navios à vista
Resolução do Conselho de Ministros n.º 30/84

Pelo Decreto-Lei 139/84, foi extinta a CPP - Companhia Portuguesa de Pesca, S. A. R. L., tendo o Estado exercido o direito de reserva relativamente a alguns bens do património da empresa, abrangendo navios, participação financeira e direitos de crédito, com a possibilidade de os mesmos serem afectos a outras empresas [...] (5)

Art. 5.º - 1 [Decreto-Lei 139/84]- Ao abrigo do n.º 2 do artigo 44.º do Decreto-Lei 260/76, de 8 de Abril, o Estado reserva, do património da empresa, o seguinte:

1.º - Navios:
a) Aldebaran - Lx-39-A;
b) Alcoa - Lx-30-A;
c) Alcyon - Lx-51-A;
d) Algol - Lx-32-A;
e) Algenib - Lx-41-A;
f) Alvalade - Lx-65-A;
g) Alfeite - Lx-67-A;
h) Alcântara - Lx-19-A;
i) Almada - Lx-57-A;
j) Alcaide - Lx-71-A;
l) Alfama - Lx-59-A;
m) Aljezur - Lx-63-A. [...] (6)


(1) Revista Universal Lisbonense n.° 12, setembro de 1845
(2) Catalogue spécial de la section portugaise à l'Exposition universelle de Paris en 1867
(3) Vidas Lusófonas: Romeu Correia 
(4) Almada Digital
(5) Resolução do Conselho de Ministros 30/84, de 7 de Maio
(6) Decreto-lei 139/84, de 7 de Maio

Artigos relacionados:
O Grémio

Mais informação (Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense):
Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense : relação dos seus accionistas... 1872
Revista da exposição portugueza no Rio de Janeiro em 1879

Mais informação (CPP - Companhia Portuguesa de Pesca, Lisboa):
Flickr (FCG), Pescas, Mário Novais
Companhia Portuguesa de Pesca (entrevista a Augusto Ramos)
Companhia Portuguesa de Pesca (entrevista a Augusto Ramos - tabela de excertos)
Restos de Colecção: Companhia Portuguesa de Pesca
Marinha (arquivo histórico)
Navios à vista: o abalroamento do arrastão Alvor
Blogue dos navios e do mar: Fishing vessel Blue


Leitura adicional:
50 anos da Companhia Portuguesa de Pesca, "Jornal do Pescador", Agosto 1970, pp 25-27.
Os Arrastões do Bacalhau



Sobre o Açor e o Alda Benvinda (os primeiros barcos de pesca a vapor em Portugal):
Momentos de História
Agepor 11

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

D. Bertha Ortigão na Cova da Piedade em 1886

Sabemos que D. Bertha Ortigão passara parte do outono de 1886 na Cova da Piedade em companhia de seu pai, Ramalho Ortigão.

D. Bertha Ortigão por Columbano, 7.ª Exp. do Grupo do Leão, 1887.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Como referido, nas Cartas Portuguezas, pelo ilustre escritor, teria a familia nessas férias visitado amigos e descoberto lugares. Ramalho anotara as recentes novidades e, ao mesmo tempo, relembrara as memórias do tempo de seu pai a propósito da ainda bucólica e pitoresca Cova da Piedade.

D. Bertha, durante estas visitas e passeios,  registava em algumas "pochades" as imagens que, supomos, mais tarde apuraria em telas pintadas a óleo, ou talvez as aprimorasse mesmo "sur place".

Paisagem com casa, Bertha Ortigão.
Solar da quinta de S. José em Linda-a-Velha, demolido para a construção do Estádio Nacional.
Cat. Palácio do Correio Velho, 17 de dezembro de 2008.
Imagem: Arcadja

Não conhecemos estes quadros, pois no catálogo da mostra em que foram apresentados a público não consta a imagem de algum deles.

No entanto, com a esperança de que algum dia nos venham a ser revelados, aqui ficam as referências que dispomos tal como descritas no catálogo da 6.ª exposição d'arte moderna, realizada em 1887, pelo Grupo do Leão que, sem compromisso, complementamos com fotografias de nossa escolha, embora um pouco mais tardias.

ORTIGÃO (D. B.) C. dos Caetanos, n.° 30.

68 — Valle Mourellos no outomno.

Pinheiro dos Frades, Cova da Piedade, ed. desc.
Imagem: A árvore do centenário

69 — O Lavadouro da quinta do Brejo.

Cova da Piedade, zona rural, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

70 — Esquina da estrada do Pombal.

Chafariz do Pombal, Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

71 — Taruca, Carocho e Farrusco.
72 — Rosas [da Quinta do Pombal de Paul Henri Plantier?] .
73 — Rosas.
74 — Arenques e vinho branco.
75 — Os moinhos do Pragal.

Almada, Pragal, Vista Parcial, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

76 — Mademoiselle.
77 — Prato decoratico.
...

Ramalho Ortigão (1836 - 1915).
Imagem: Wikipédia

Ortigão, que escrevia sobre quase tudo, e que por este tempo era critico de arte já feito, espetava as suas "Farpas" por aqui e ali; não consta que alguma apreciação tenha feito aos quadros de D. Bertha. O que aumenta a nossa expectativa quanto aos mesmos.


Leitura relacionada: 
Sandra Leandro, Teoria e Crítica de Arte em Portugal no final do século XIX

Artigos Relacionados:
António Ramalho na praia do Alfeite em 1882
Passagem pelo grupo do Leão

Referências internas:
Ramalho Ortigão, verão de 1886
Os dias 23 e 24 de julho de 1833 (parte I)
Os dias 23 e 24 de julho de 1833 (parte II)

sábado, 2 de abril de 2016

Quinta do Outeiro do Alfeite

Pertenceu ao conjunto de quintas que faziam parte da Casa do Infantado. Foi adquirida em 1707 pelo infante D. Francisco ao conde de Tarouca. (1)

Viata da Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A Quinta do Outeiro apesar de ser da Capela instituída pelo Doutor Manuel Lucas da Silva, e sua mulher Dona Catarina Josefa de Lima, administrada pelo Doutor José da Silveira Zuzarte, foi incorporada na Quinta do Alfeite por a utorização da Rainha a Senhora Dona Maria 1ª, concedida por Alvará de 15 de Maio de 1789. (2)

Em 1834, pelo decreto lei de 18 de Março é extinta a Casa do Infantado e passados 10 anos é feito um tombo da Real Quinta do Alfeite a 21 de Março de 1844, pelo almoxarife Severiano Fernandes de Oliveira onde nos é dado a conhecer a relação de prédios do circulo administrativo do Almoxarifado do Alfeite [...]

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847

[Relativamente à] Quinta do Outeiro - constituída por um prédio urbano (casas de habitação e várias casas de acomodações, cavalariça e palheiro e seis armazéns grandes) e prédio rústico (um bocado ajardinado, horta, vinha, arvores de pevide e caroço, e de espinho, poço com engenho e dois tanques) [...] (3)

Aproveitando a tradição do local para a prática da querenagem e as condições naturais de um baldio que existia junto à Quinta do Outeiro, uma das sete propriedades que a Casa do Infantado possuía no Alfeite, o industrial António José Sampaio instala um pequeno estaleiro nesse terreno junto ao salgado do rio, confinando a Sul com a referida Quinta do Outeiro, a Poente com a Romeira Velha, a Norte com o Caramujo e a Nascente com o rio Tejo.

Este estaleiro, vocacionado apenas para a construção de embarcações em madeira, encontrava-se em plena laboração em 1850 [...] (4)

[...] a Quinta do Outeiro tinha já sido vendida no tempo do Rei D. Luís à firma Rankin & Sons; (5)

Panorâmica da fábrica William Rankin & Sons na quinta do Outeiro no Alfeite, 1885.
Imagem: Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário...

A propriedade arrendada pela administração da Casa Real à William Rankin & Sons, foi depois comprada pela firma ao rei D. Luis, em hasta pública, em 1887, por vinte contos de réis.

Compreendia cinco armazéns, cavalariça, cocheira, casa para criados, palheiros, adega, lagar, casa de habitação com terreno para logradouro e terreno junto à praianuma área de 5168 m2.

Em 1898, a firma compra, também em hasta pública, ao rei D. Carlos, mais uma porção de terra com uma pequena casa e pomar, por cinco contos de réis e com a condição da William Rankin & Sons construir um muro com dois metros de altura para garantir a privacidade da Quinta Real do Alfeite.

Enseada da Cova da Piedade, c. 1900.
Em 1.° plano o pontão e a entrada da quinta do Alfeite e, em 2.°, o cais da Rankin & Sons.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Segundo Carol Mason, Cunison Deans Rankin adquire, em 1905, um estaleiro junto da fábrica, com anexos situados "na rua da praia" de acesso à quinta do Outeiro, à familia Sampaio, por dois contos de réis. (6)

A corticeira Rankin & Sons Ltd instalou-se na zona ribeirinha do Outeiro do Alfeite em 1884.

A preparação de pranchas de cortiça para exportação foi a actividade principal da fábrica durante os primeiros anos de funcionamento  [...]

A Rankin & Sons Ltd concentrou um grande número de mão-de-obra especializada, homens e mulheres divididos por sectores fabris, correspondentes às diversas fases da cadeia de produção.

Quinta do Outeiro do Alfeite, fábrica da Rankin and Sons, 1937.
Imagem: Rui M. M. Mendes

Esta corticeira constitui um exemplo do tipo de fábricas que se instalaram no Concelho. Acompanhou os períodos de recessão e de incremento no sector, o início das lutas operárias e a mobilização sindical e cooperativa dos trabalhadores. Encerrou definitivamente em 1956. (7)


(1) R. H. Pereira de Sousa, Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003
(2) Susana Maria Lopes Quaresma e Pereira, O palácio real do Alfeite..., Lisboa, Universidade de Lisboa, 2009, 5 Vols., cf. Alexandre M. Flores, António Neves Policarpo, Arsenal do Alfeite: contribuição para a história naval em Portugal, Junta de Freguesia, Laranjeiro, D. L. 1998, 2003
(3) Artur Vaz, Jornal da Região – Almada,  12. de julho de 2000
(4) Deputados do Grupo parlamentar do PCP, Cria o Museu Nacional da Indústria Naval, Lisboa, Parlamento, 2005
(5) Susana Maria Lopes Quaresma e Pereira, op. cit. 
(6) Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário (1860-1930), Câmara Municipal de Almada, 2003, cf. Alexandre M. Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990
(7) Fábrica da Rankin & Sons


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Trafaria 1900, cliché Faustino António Martins

Em torno do selo e das colecções por si motivadas produziu-se vasta bibliografia. Começavam, de imediato, as publicações especializadas relacionadas com os selos, dedicadas aos seus coleccionadores.

Selo de D. Carlos I, 25 reis de 1895,
desenho e gravura de Louis-Eugène Mouchon.
Imagem: Delcampe

Álbuns e catálogos foram as primeiras, mas produzidos fora das fronteiras nacionais. Foi preciso esperar pelo ano de 1887, para aparecer a primeira publicação periódica portuguesa, O Philatelista, Orgão do Centro Philatelico Portuguez, propriedade de Faustino A. Martins, publicada em Lisboa, com irregularidade, em 4 séries, até Abril de 1896. (1)

O Philatelista, revista mensal, 1887.
Imagem: Os selos Coroa da Guiné

Supomos ser curioso citar aqui, para ilustrar esta época, o que se escrevia em 1894, no número 3 da série III, de "O PHILATELISTA". Esta revista, dirigida pelo conhecido comerciante português Faustino Martins, criou a partir deste número de sua publicação, uma interessante secção intitulada "Galeria Philatelica".

Nela aparece o "retrato" do coleccionador em foco, e uma breve descrição da sua colecção. Para abrir essa Galeria, com vista a "incitar à imitação", é o próprio Faustino António Martins o número 1 dos quadros que a irão ornamentar.

A ele se refere o articulista a certo passo, nestes termos: "A sua colecção conte cerca de 14.000 variedades, além de mais de 3000 das emissões continentais e coloniais de Portugal, que constituem a mais rica colecção de selos portugueses que temos visto e que certamente existe...". (2)

Faustino António Martins ou F. A . Martins (como assina na maioria dos seus bilhetes postais) foi grande filatelista, director e proprietário do Filatelista (publicação mensal dedicada aos coleccionadores de selos e órgão do centro Filatélico Português).

Torre do Bugio na barra de Lisboa (segundo uma gravura de J. pedrozo), ed. Martins/Martins & Silva, 458.
Imagem: Delcampe

Foi proprietário de um estabelecimento comercial, posteriormente especializado na compra e venda de selos, estabelecimento esse, situado na Praça Luís de Camões Nº35 Lisboa, fundado em 1867, existindo ainda em 1894, como vimos em exemplares da revista.

Faustino António Martins aderiu e torno-se editor e comerciante de cartofilia em 1900, alias muito associada á filatelia. Esta importante casa editora sofreu varias modificações no seu nome: Faustino A. Martins / F.A. Martins / ed. Martins / Martins / ou Martins & Silva entre outras variantes. Usou monogramas de que conhecemos FAM e MS.

Trafaria (Portugal), Vista geral e rio Tejo, ed. Martins/Martins & Silva, 28, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

O prestigio adquirido pelo seu estabelecimento foi enorme , atendendo á grande qualidade e variedade de exemplares. Iniciou actividade editorial sob a sigla F.A.Martins a partir de 1900, Edição Martins a 1902 e Martins e Silva provavelmente em 1903.

Como outros editores de B.P.I.'s F.A.Martins emitiu juntamente com alguns comerciantes, em regime de parceria e por encomenda.

A sua produção retratou a vida publica e oficial da época, bem como aspectos do território, do povoamento e da sociedade, das actividades económicas e culturais, das paisagens e costumes de quase todo o país.

Como muitos outros editores cedeu clichés ou direitos de uso, por acordo ou venda, a colegas, sobretudo, das cidade e vilas da província, teve a colaboração dos melhores fotógrafos de Lisboa,  do Porto e de Coimbra, bem como de outros pontos da província e usou clichés cedidos por outros editores.

Trafaria — Vista geral, ed. J. Quirino Rocha, 01, década de 1900.
Imagem: Delcampe - Oliveira

Todos os seus postais são numerados por ordem crescente em árabes.

Trafaria — Vista parcial, ed. J. Quirino Rocha, 07, década de 1900.
Imagem: Delcampe - Oliveira

Conhecem-se-lhe a colecção "Portugal" e as sub colecções: "Lisboa", "Collection portugaise" "Collecção Portugueza" "Collecção Relvas", "Lisboa Typos das ruas" e colecções de Costumes entre outras. (3)

Trafaria — Vista geral, ed. Martins/Martins & Silva, 1201, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Faustino Martins foi um comerciante de filatelia com estabelecimento na Praça Luis de Camões, nº 35 em Lisboa que dizia em 1888 ao referir-se ao seu negócio: "... do nosso estabelecimento, sem dúvida hoje o primeiro da Europa na especialidade do comércio e pelo enorme depósito de muitos milhões de selos que possuimos de todo os países do globo". (4)


(1) Em Torno do Selo Postal Português
(2) A Evolução das Coleções Clássicas
(3) Nazaré em Postal Ilustrado
(4) Os selos Coroa da Guiné

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Colégio do Menino Jesus, 1876 — 1901

In Memoriam: Henry Bailey Maria Hughes (1833 — 1887)

Costa da Caparica, Manhã na praia da Caparica, Adriano Sousa Lopes (1879 — 1944).
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Ao norte lá está a egreja, simples e singella, como são também os costumes d’aquella boa gente hospitaleira, e ao lado da capella, mas mais para nor-noroeste., o chamado convento, onde está aula, mandado construir em 1870 pelo reverendo padre Hughes [...]

Costa da Caparica, em segundo plano o Colégio do Menino Jesus e a igreja, década de 1900.
Imagem: Arlindo Pereira

Estava então na Costa o reverendo padre Hughes, e o Tio Alfama, que pelos modos lhe pesavam na consciência uns certos e determinados peccaditos, procurou este ver o sacerdote para que o ouvisse de confissão.

Costa da Caparica, 1907.
Imagem: Delcampe

É então desde essa data que aquelle homem começa a derramar sobre a povoação da Costa benefícios sem número. (1)

O reverendo padre Hughes  é um sacerdote cujo único defeito conhecido é julgar-se no tempo do imperador Décio, o furioso perseguidor da cristandade, duzentos anos depois de Cristo.

Confundindo o Sr. Fontes Pereira de Melo com o temível imperador romano, o reverendo Huggs fêz como S. Paulo o Eremita: fugiu da comunicação dos homens, do Chiado e do Diário de Notícias, sacudindo as suas sandálias no Atêrro; e, não tendo à mão o deserto da Tebaida, tomou o vapor de Cacilhas, e foi estabelecer na outra banda a sua cabana anacoreta.

in Ortigão, Ramalho, As Farpas, Volume 5, A Religião e a Arte, Lisboa, David Corazzi, 1888

Conquanto Costa de Caparica seja a mais nova Freguesia do concelho de Almada [em 1973], pode e deve-se orgulhar de ter sido das primeiras terras de Caparica a ter uma escola primária. Pois ela apareceu em 1876, mercê da iniciativa do Reverendo Padre Henrique Bailie Hughes.

[...] Ramalho Ortigão, em um dos seus livros [As Farpas, A Religião e a Arte], embora a ele se faça larga referência, não nos diz que o Padre Hughes e não Huggs, como ele escreveu, com o castigo que lhe foi imposto, deu motivo a que fosse o principal obreiro da instrução primária em Costa de Caparica.
Então tivemos notícias dele no Colégio Dominicano de Lisboa, onde, depois de completar o curso que estudou, se tornou professor.

Durante esta parte da sua carreira diz-se que objectou a ordenação de um candidato a padre argumentando publicamente em resposta à questão da capacidade deste durante o serviço.

Com isto criou inimigos, e estando em perigo de vida, encondeu-se entre a população marítima de Lisboa, trabalhando com grande esforço na salvação destes, por quem era muito amado.

in The TABLET: The Island Recluse

Junto do local onde se encontra a actual Igreja, que nesse tempo se dizia Capela, existiu um vasto edifício Casa de Repouso (?) ou Convívio para reunião e meditação dos habitantes dos conventos que existiam em Caparica, edifício esse que mais tarde passou a ser escola primária e centro religioso — e nunca convento, como o povo erradamente lhe chamou, e ainda hoje é conhecido o local.

Costa da Caparica, Colégio do Menino Jesus dito "convento", imagem estereoscópica (detalhe), c. 1900
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O Padre Hughes, foi pelo seu dinamismo. o fundador do Colégio do Menino Jesus, cuja imagem se encontrava à entrada da escola, e da qual existe imagem igual mas de tamanho reduzido na igreja da Costa de Caparica, a que o povo chama o Menino Jesus da Praia por ter na mão uma rede a que os pescadores chamam ganha-pão ou chalavar, como ainda hoje se usa em determinadas pescarias.

Menino Jesus, madeira policromada, José Risueño, séc. XVIII.
Imagem: V&A

Desse colégio que existiu até 1901, foram seus professores, José Reis, Pedro Nolasco de Oliveira, José Lima, Francisco e António Calderon. Conquanto se diga que outros foram lá também professores, a verdade é que só estes figuram na Relação do Colégio do Menino Jesus da Costa de Caparica.

Costa de Caparica, Alberto Carlos Lima, colégio do Menino Jesus e casas típicas de pescadores, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Assim como também é possível que outros padres tivessem lá passado como directores da escola, mas a Relação apenas nos fala além do padre Hughes, dos Reverendos Padres António Rodrigues de Campos e Patricio Russuel [Patrick Bernard Russell ou Patricio Bernardo Russell], além do Irmão Laico Frei Martinho José Nogueira.

Esta escola, que era apenas para rapazes, chegou a ter em aula mais de meia centena, o que era muito para a época.

Costa da Caparica, crianças filhas de pescadores, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Até à data, que se saiba, ainda não se conseguiu localizar onde se encontram enterrados os restos daquele que foi o pioneiro da instrução primária em Costa de Caparica.

Costa da Caparica, Areal, Adriano Sousa Lopes (1879 — 1944).
Imagem: MNAC (museu do Chiado)
Hughes, Henry Bailey (1833 — 1887), padre católico romano; nascido em Caernarvon [hoje Caernarfon, país de Gales] em 1833, onde o seu pai, Howell Hughes, foi cura e depois reitor de Trefriw (1833 — 1839), e de Rhoscolyn, Anglesey (1839 — 1848).

Henry Bailey Hughes entrou para a Igreja Católica Romana, quando tinha cerca de dezesseis anos.

Estudou no Colégio Dominicano de Lisboa e, depois de entrar no sacerdócio, viajou em missionário na Europa, África e Estados Unidos. 

De regresso ao País de Gales, viveu por uns tempos na ilha de S. Tudwal, ao largo da costa Caernarvonshire, tendo pregado em Llyn e outros lugares de Caernarvonshire.

Escreveu hinos galeses e baladas. Faleceu a 16 de dezembro de 1887.

in Welsh Biography Online

Costa da Caparica, 1907.
Imagem: Delcampe

Dele apenas existe um ou outro apontamento dispersos em livros ou jornais e a recordação do povo com que ele passou à história: — o Monge da Costa! (2)

Costa da Caparica, pescadores octogenários, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo


(1) Júnior, Duarte Joaquim Vieira, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896.

(2) Correia, António, Divagando sobre Caparica: pedaços da sua história, Almada, edição do autor, 1973.

Artigo relacionado:
A costa no século XIX


Leitura adicional:
The TABLET: Et Cietera
The TABLET: The Island Recluse