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quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

A igreja nova

Enquadramento

Urbano, destacado, isolado. A Igreja Nova de Almada (Igreja de Nossa Senhora da Assunção) localiza-se entre a fronteira do antigo núcleo da vila e a parte nova , encontrando-se implantada no terreno (público alienado em 1962) do Jardim Comandante Sá Linhares; implantada a meia-encosta, dominando o largo fronteiro, é separada dos arruamento por adro e escadaria, encontra-se rodeada por edifícios de interesse arquitectónico.

Almada, Jardim Comand. Sá Linhares, ed. J. Lemos n° 21, década de 1950.
Delcampe, Bosspostcard

Na área envolvente destacam-se algumas escadas e patamares do domínio público, integradas no jardim, mas necessárias para acesso ao templo.

Almada, avenida D. João I, Augusto de Jesus Fernandes, 1962.
Arquivo Municipal de Lisboa

Do lado da Fachada principal o Lar de São Tiago, e na continuação da Av. D. João I algumas casas marcadamente pertencentes à tipologia "Casa Portuguesa"; em cota inferior ergue-se o Tribunal do Trabalho (...)

Almada, Jardim Sá Linhares, ed. Postalfoto n° 11, década de 1950.
Delcampe, Bosspostcard

A construção da 2ª fase do Centro Paroquial de Almada, de 4 pisos, é composto por um edifício afastado da igreja com ligação através de um canal de separação. O piso 0, situado ao nível da R. Cândido Capilé tem acesso principal através de um canal a céu aberto que desemboca num terraço sobramceiro ao jardim com ligação ao adro da igreja, tendo este piso 2 salas do jardim de infância e recepção; tem acesso alternativo ao terraço através de escadas (...)

Cronologia

1962, Janeiro - celebração da escritura de alienação do terreno destinado ao centro paroquial com a área de 3.000 m2; elaboração do programa e adjudicação do projecto;


Plano Parcial de Urbanização de Almada (PPUA), Implantação do Cento Cívico, 1947.
Ver Almada crescer: 10 anos do Museu da Cidade (catálogo)

1962 / 1963 - entrega do ante-projecto executado pelos arquitectos Nuno Portas, Nuno Teotónio Pereira e Luís Moreira, tendo sido apreciado pela Câmara Municipal e pelo Secretariado para as Novas Igrejas do Patriarcado;
1964 / 1965 - suspensão dos estudos;
1965, 22 de Julho - a CMA aprovou o ante projecto;
1966 - entrega do projecto geral da responsabilidade do arquitecto Nuno Teotónio Pereira;
1967 - adjudicação da empreitada da 1ª. fase;
1969 - oferta de um sino pelo Sr. Vasconcelos, no valor de 10 contos;
1970 - inauguração da igreja; 1971 / 1972 - prosseguimento dos trabalhos de acabamento;
1986 - parecer sobre a localização da 2ª. fase - construção do Jardim de Infância; 1988 - proposta para a elaboração do projecto de construção do Centro de Assistência Paroquial de Almada;


Vista satélite do Jardim Dr. Alberto Araújo, ex dito Cmdt. Sá Linhares,
com o edifício da Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Assunção integrado à esquerda.
Google maps (2003)

2002 - execução da 2ª fase do Centro Paroquial de Almada, projecto dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Duarte Nuno Simões. (1)


(1) SIPA

Artigo relacionado:
O centro cívico

sábado, 9 de julho de 2022

O prédio azul

À beira cais, sobressaía o imponente prédio construído na década de 1850, com a sua fachada frontal forrada de azulejo azulado por debaixo do qual através da entrada pela porta com o no 52, se tinha acesso não só à habitação do primeiro piso mas também acesso por outra porta ao espaço existente no piso térreo, onde em tempos existiu a Taberna do “Luis dos Galos”, para além da escadaria ao fundo do corredor por onde se chegava ao Pátio do Ginjal.

O prédio azul no Cais do Ginjal.
O Pharol n° 47, dezembro 2021

Todo o 1° piso do prédio destinado a habitação constituía um só fogo com 8 assoalhadas e nele residia o encarregado dos armazéns e sua família. Anos mais tarde, no início da década de 1930, a firma CR&F, procede à mudança dos seus armazéns para outro local situado mais além na direcção poente do cais do Ginjal. Com a deslocação do encarregado, todo o 1° andar ficou vago, vindo a ser arrendado a uns inquilinos que nele instalaram a “Pensão Bom Gosto” que ali funcionou até ao limiar dos anos 50.

 O prédio azul no Cais do Ginjal.

Com o encerrar da pensão, a empresa proprietária do imóvel, decidiu proceder a obras de remodelação do 1° piso, de modo a adaptá-lo para duas habitações sendo aberta na fachada defronte ao cais, uma porta com o n° 50, pela qual se subia por escada, ao 1° Esq°, enquanto a habitação do 1° Dt° manteve a antiga entrada pela porta localizada ao início do interior do corredor do Ginjal. (1)

maria bello, cais do ginjal, portugal, 2008

Em breve descrição, e segundo o testemunho de Júlia Capelo, o Pátio do Ginjal, situava-se nas traseiras do prédio sobranceiro ao rio, distribuído numa plataforma elevada junto ao sopé da escarpa da arriba fóssil.

Confinava com um outro patamar mais elevado, a que chamavam Quinta do “tio João” também com algumas casas onde viviam duas figuras populares do Pátio: o “tio João do Ginjal” e o “António Pescador” com sua família.

A Quinta do Tio João.
O Pharol n° 47, dezembro 2021

O seu acesso ao Pátio, era feito pela entrada do no 52 no cais do Ginjal, seguindo-se um corredor que finalizava em escadaria de pedra a que se seguiam dois lances de degraus em madeira até se chegar ao Pátio.

Corredor do Ginjal. De regresso, Manuel Abranches, 1953.
Plano Focal n° 4, Hemeroteca Digital de Lisboa

Há referências que desde o séc. XVII, já neste local existia um núcleo de pequenas habitações ocupadas por gente ligada sobretudo à faina de pesca no rio Tejo. (2)


(1) Luis Bayó Veiga, Maria Julia... O Pharol n° 47, dezembro 2021
(2) Idem

Tema: Ginjal

Leitura relacionada:
O Pharol n° 34, O Ginjal “porta a porta” 1a parte: Da “Fonte da Alegria” ao “Grémio”
O Pharol, n° 35 O Ginjal “porta a porta” 2a parte: Do “Grémio” ao “Corredor do Ginjal”
O Pharol n° 36, O Ginjal “porta a porta” 3a parte: Do “Corredor do Ginjal” ao “Ponto Final”

quarta-feira, 2 de março de 2022

Bairro de Casas Económicas (ou de Nossa Senhora da Piedade)

Bairro Nossa Senhora da Piedade: este bairro, suscita interesse logo à partida. Este interesse não passa despercebido quando é fácil identificar perfeitamente a delimitação do bairro relativamente à envolvente. É também, motivo de interesse a organização do bairro segundo um traçado hierarquizado e pensado numa determinada forma de edificado, a moradia.

Cova da Piedade, ed. Comér (bairro das casas económicas e capela), década de 1970.
Delcampe

É pois, bastante interessante analisar esta zona para compreender através do estudo das densidades, de que forma esta ocupação tem influência no contexto da cidade e na maneira de sentir e viver o espaço.

O aspecto relacionado com os usos é muito caracterizador de uma determinada área, revelando as tendências e divisões de conjuntos urbanos perfeitamente distintos. Podemos verificar isso mesmo quando observamos o Bairro Nossa Senhora da Piedade, concebido com o propósito de ser um bairro de casas económicas.

Caracteriza-se pela predominância do uso da habitação e pela presença relevante da Escola EB1 No2 da Cova da Piedade e do Centro Paroquial da Cova da Piedade.

Cova Da Piedade, Escola primária do Bairro, 1959-1960.
José Niz

Pretende-se ainda nesta fase, identificar e perceber como é a relação entre o espaço público e o edificado, bem como reconhecer a relação público privado.

Assim, no Bairro Nossa Senhora da Piedade, existe um predomínio da tipologia de Moradia Geminada com a excepção dos equipamentos e da alameda de entrada do bairro, ladeada por edifícios de habitação colectiva.

Bairro das Casas Económicas, Júlio Diniz, década de 1950.
Arquivo Municipal de Almada

Contudo, acaba por constituir um bairro equilibrado quanto às suas tipologias traduzindo uma homogeneidade aparente, não só entre o edificado, mas também entre as vias públicas e o próprio edificado. (1)

A partir do século XX, a indústria ganhou relevo e tornou-se a actividade principal em Almada. Este facto implicou a ida de mão-de-obra qualificada para a zona e consequentemente uma melhoria significativa na habitação, tendo como ponto assente e de grande relevância fixar esta faixa de população em Almada.

Vista aérea da Escola Naval e do Arsenal do Alfeite (mostra o Bairro de Casas Económicas em construção no quadrante direito superior), Mário Novais.
Flickr

Contudo, devido às Guerras Mundiais, a urbanização atrasou-se e só com o termo da 2a Guerra Mundial o Governo Central, e concretamente pela iniciativa da Câmara Municipal, foram contratados os arquitectos Faria da Costa e Étiènne Groer para elaborar aquele que seria o Plano de Urbanização do Concelho de Almada (1946).

Neste Plano de Urbanização estavam abrangidas as freguesias de Cacilhas, Almada, Pragal, Cova da Piedade, Laranjeiro e Feijó.

Por imposição da topografia as margens ficaram pouco exploradas pelo Plano, à excepção do aterro construído para a instalação dos estaleiros da Lisnave, que representava para o Município um sector de grande importância ao nível regional e nacional.

Vista aérea da Cova da Piedade, ed. Comér (bairro das casas económicas à direita na foto), 1953.
Flickr

Assim, o desenvolvimento de Almada efectuou-se através de dois eixos principais que tinham Cacilhas como ponto de convergência: um desenvolvia-se pelas freguesias emergentes (Almada, Pragal e Cova da Piedade) e o outro percorrendo toda a linha de costa que já anteriormente fazia de eixo orientador e de ligação entre aglomerados nomeadamente a Avenida Aliança Povo MFA.

Relativamente à Freguesia da Cova da Piedade foi possível verificar durante a década de 40 o crescimento de ocupações baseadas em programas de casas económicas, nomeadamente o Bairro Nossa Senhora da Piedade.

Delcampe, Bosspostcard

A moradia geminada foi a lógica de ocupação privilegiada, bem como a implementação de equipamentos de cariz social, como o Centro Paroquial da Igreja de Nossa Senhora da Piedade e a Escola EB1 No2 da Cova da Piedade. (2)

Cronologia

1933, 23 setembro - o decreto n.º 23052 estabelece as condições segundo as quais o governo participa na construção de casas económicas, das classes A e B, em colaboração com as câmaras municipais, corporações administrativas e organismos corporativos (art.º 1.º);
as Casas Económicas, como passam a ser designadas, são habitações independentes de que os moradores se tornam proprietários ao fim de determinado número de anos (propriedade resolúvel), mediante o pagamento de prestação mensal que engloba seguros de vida, de invalidez, de doença, de desemprego e de incêndio (art.º 2º);
as atribuições do governo em matéria de casas económicas são partilhadas pelo Ministério das Obras Públicas e Comunicações (MOPC) e o Subsecretariado das Corporações e Previdência Social (art.º 3.º);
ao MOPC compete a supervisão da construção de casas económicas (aprovação de projetos e orçamentos, escolha de terrenos e sua urbanização, promoção e fiscalização das obras, administração das verbas cabimentadas e fiscalização de obras de conservação e benfeitorias) (art.º 4.º);
é criada a Secção de Casas Económicas na Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) (art.º 4.º);


1943, 24 novembro - pelo decreto n.º 33278, o Governo promove, em colaboração com as câmaras municipais, a construção de 4000 novas casas económicas, localizadas em Lisboa, Porto, Coimbra e Almada (zona de influência da base naval do Alfeite), criando as classes C e D, destinadas às famílias numerosas da classe média;

1949 - é referido, na Exposição "Quinze Anos de Obras Públicas, 1932-1947", que se encontram em construção ou autorizadas 500 casas económicas em Almada; data do plano de urbanização do Bairro Económico de Almada, da autoria do arquiteto Carlos Rebelo de Andrade;

Bairro Nossa Senhora da Piedade, Usos (Anexo I).
Densidade e Forma Urbana...

1950, 21 maio - ofício da Secção de Casas Económicas do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência à DGEMN, informando que em breve lhe será entregue o bairro para distribuição das moradias; solicita ainda, e "após experiência de administração de muitos outros bairros económicos", que sejam elaborados projetos-tipo para as seguintes construções: muros de vedação, anexos destinados a arrumações, garagens, capoeiras e telheiros abrigos;

Chegada do General Craveiro Lopes ao Bairro Económico da Cova da Piedade (27 de Abril de 1952).
Pastéis de AlMadan

1952 - inauguração do bairro, composto por 500 casas.  (3)


(1) Densidade e Forma Urbana, Densificação como valor de projecto e estratégia de desenvolvimento urbano Baixa Altura Alta Densidade
(2) Idem
(3) SIPA

Mais informação:
Empréstimo de 20 mil contos para a construção de um bairro de 500 casas económicas na Cova da Piedade

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Vias terrestres

No termo de Almada, três vias sobressaíam, todas elas orientadas na direcção Este/Oeste. De Almada a Murfacém corria a estrada de Caparica, tendo como ponto intermediário mais importante Santa Maria do Monte. 

Embouchure de la Rivière Du Tage (detalhe), Nicholas De Fer, 1710.
RareMaps.com

Com a mesma orientação, com início um pouco abaixo de Cacilhas, um outro caminho seguia pelo Vale de Mourelos, ao encontro do anterior na zona envolvente do Monte de Caparica (A primeira via corresponde à estrada Almada que, desde há muito, une Almada à Trafaria, enquanto a segunda seguiria um trajecto próximo ao da actual via rápida de Caparica); mais a sul, ainda no mesmo sentido, uma terceira ligação saía de Corroios rumo à Sobreda.

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal, José Maria das Neves Costa, 1813 (detalhe)
Instituto Geográfico do Exército

Em volta da vila, uma série de caminhos secundários, entrecruzados por azinhagas, ligava capilarmente os núcleos agricultados, associando à vila lugares como Cabo da Vila, Campo, Alvalade, Almorouche, Benacidril, Pombal, Mutela, S. Simão.

De Coina irradiavam as vias que permitiam aceder ao espaço meridional da Península da Arrábida. Na periferia da vila, a estrada velha de Almada, que prosseguia para Setúbal com passagem por Azeitão, ramificava-se, assegurando a ligação a Sesimbra. Do término oriental da vila saía o caminho de Palmela.

Historical military picturesque..., George Landmann, Palmela vista da estrada da Moita, Estremadura.
Biblioteca Nacional de Portugal

Por terra, a vila comunicava ainda, a leste, com Barracheia e, a assegurando a ligação a Sesimbra norte, por um caminho lateral ao esteiro, com Romagem e Palhais. Na margem oposta unia-se igualmente a Palmeira.

As duas saídas do castelo, as portas de Azóia, a oeste, e de Azeitão (ou do Sol), a nascente, assinalavam simbolicamente o início dos dois braços em que podemos inscrever as linhas nucleares do povoamento do concelho: a ligação a Azeitão que se prolongava no «caminho que vai pelas aldeias» até Camarate, e a estrada para Santa Maria do Cabo, com passagem em Zambujal e Azóia.

Carta militar das principaes estradas de Portugal (detalhe), Lourenço Homem da Cunha de Eça, 1808.
Biblioteca Nacional de Portugal

De Santana saía, ainda, o acesso para a povoação acastelada e para a Ribeira de Sesimbra . Da referida porta do Sol, uma calçada conduzia igualmente à zona ribeirinha.

Sesimbra, tinha em Santana a charneira do eixo viário que atravessava longitudinalmente todo o concelho.

Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa  (detalhe), 1814.
Biblioteca Nacional de Portugal

Esta trama viária era fechada a ocidente por um longo caminho que, partindo das imediações do Monte de Caparica, acompanhava a orientação da linha de costa e serviria lugares como a Adiça e a lagoa de Albufeira, antes de atingir Alfarim. (1)



(1) José Augusto C. F. Oliveira, Na Península de Setúbal, em finais da Idade Média: organização do espaço, aproveitamento dos recursos e exercício do poder, 2008

Artigos relacionados:
Cartografias
Mappa de Portugal antigo e moderno
Estradas Real 79, Distrital 156 e outras vias

S. Simão das Barrocas

quarta-feira, 12 de maio de 2021

A fotografia aérea no levantamento topográfico de 1938

Levantamento topográfico em 1938 pela Sociedade Portuguesa de Levantamentos Aéreos, Lda. compreendendo a margem norte do Tejo (concelhos de Lisboa e Oeiras) e a margem Sul do Tejo (concelhos de Almada, Seixal e Barreiro).

Sociedade Portuguesa de Levantamentos Aéreos Lda .
Aero Club de Portugal, Revista do Ar n.° 1

Cartas topográficas com escalas 1:1000; 1:2500 e 1:5000 e fotografias aéreas a preto e branco. (1)

Levantamento topográfico em 1938 esquema da divisão em cartas.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra


A SPLAL teve como sócio fundador e director técnico o General Norton de Matos, personalidade notável da primeira metade do século XX, director dos Serviços de Geodesia e Agrimensura da Índia de 1890 a 1900.

Sociedade Portuguesa de Levantamentos Aéreos Lda .
Aero Club de Portugal, Revista do Ar n.° 1

Outras figuras nacional, como o Capitão aviador Arantes Pedroso, os engenheiros Ferraro Vaz, Carvalho Xerez, Santos Silva, entre outros, decidiram participar também na organização desta nova empresa particular sediada em Lisboa.

Sociedade Portuguesa de Levantamentos Aéreos Lda.
Restos de Colecção

Instalada na Rua da Escola Politécnica, a empresa possuia aviação própria para fotografia aérea, câmaras aéreas próprias e toda a aparelhagem para restituição e elaboração de cartas por métodos fotogramétricos.

 Messerschmitt M 18 "Pato Marreco" utilizado pela SPLAL em voos aerofotogramétricos.
(CS-AAH ex-D-1860)
Boletim do IGeoE n.° 72, novembro 2010

Durante o final da década de 30 e ao longo de quase toda a década de 40, a SPLAL foi juntamente com a E.N.E.T. adjudicatário de trabalhos de natureza fotogramétrica de organismos públicos como os Serviços Cartográficos do Exército e o Instituto Geográfico Cadastral . (2)

Grupo de trabalho da S.P.L.A.L. e plataforma aérea (avião) para levantamentos fotogramétricos.
Vôa Portugal - O Portal da Aviação Portuguesa, 2013.
Desenvolvimento de um SIG para gestão portuária – O caso do Porto de Lisboa

ooOoo

Vistas aéreas do levantamento topográfico em 1938 no concelho de Almada
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Torre do Bugio
Elementos toponímicos/urbanísticos:
Mar da Calha;
Pequeno Canal ou Golada do Tejo;
Bico de Pato.

Torre do Bugio

Trafaria

Trafaria

Caparica
Elementos toponímicos/urbanísticos:
Murfacém;
Porto dos Buchos;
Quinta do Portinho;
Portinho da Costa.

Trafaria, Porto dos Buchos, Portinho da Costa.

Caparica

Caparica, Portinho da Costa, Enseada da Paulina.

Caparica
Elementos toponímicos/urbanísticos:
Enseada da Paulina;
Torre Velha;
Lazareto;
Porto Brandão.

Caparica, Enseada da Paulina, Porto Brandão.

Caparica

Caparica, Banática.

Pragal/Almada
Elementos toponímicos/urbanísticos:
Alfazina;
Montalvão;
Palença-de-Baixo;
Arrábida.

Almada, Palença.

Almada/Cacilhas

Almada, Arialva, Olho-de-Boi, Ginjal.

Almada/Cacilhas
Elementos toponímicos/urbanísticos:
Estrada da Fonte da Pipa;
Fonte da Pipa;
Forte/Castelo de Almada;
Quinta do Almaraz;
Mercado de Almada (inaugurado em 1937);
Quinta dos Serras.

Almada (Olho-de-Boi), Ginjal (Cacilhas).

Cacilhas

Cacilhas, Ginjal, Margueira.

Cacilhas/Cova da Piedade
Elementos toponímicos/urbanísticos:
Quinta da Alegria:
Quinta do Furadouro;
Ponta da Rocha;
Caranguejais;
Estrada da Mutela;
Fábrica de cortiça Cabruja & Cabruja Lda.;
Caldeira do moinho de maré da Mutela.

Cacilhas (Margueira), Cova da Piedade (Mutela).

Cova da Piedade
Elementos toponímicos/urbanísticos:
Caranguejais;
Estrada da Mutela;
Fábrica de cortiça Cabruja & Cabruja Lda.;
Caldeira do moinho de maré da Mutela;
Cais da Farinha;
Jardim da Cova da Piedade.

Cova da Piedade, Mutela, Caramujo.

Cova da Piedade
Elementos toponímicos/urbanísticos:
Quinta do Pombal;
Estrada do Pombal (Rua das Rosas do Pombal);
Estrada Cova da Piedade/S. Sebastião (Rua Dr. Oliveira Salazar).

Cova da Piedade, Mutela, Caramujo.

Cova da Piedade/Laranjeiro
Elementos toponímicos/urbanísticos:
Romeira;
Praia Pequena;
Quinta do Outeiro;
Palácio do Alfeite.

Cova da Piedade (Caramujo), Laranjeiro (Alfeite).


(1) Levantamento topográfico realizado em 1938...
(2) Recuperação Radio-Geométrica e Catalogação Digital de Cobert

Mais informação:
Boletim do IGeoE n.° 72, novembro 2010
Outras vistas aéreas nos Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra
Aero Club de Portugal, Revista do Ar
Desenvolvimento de um SIG para gestão portuária –O caso do Porto de Lisboa

Outros levantamentos:
RAF 1947

sábado, 7 de setembro de 2019

Chafariz de Cacilhas (os festejos da inauguração)

Foi no domingo dia de grandes festejos em Cacilhas. Logo de manhã começaram a subir ao ar muitos foguetes annunciando a costumada festividade religiosa, e tambem a inauguração do excellente chafariz que a camara municipal mandou construir n'aquelle local.

Chafariz de Cacilhas, inaugurado em 1 novembro 1874.
Biblioteca Nacional de Portugal

Ás 11 horas da manhã sairam dos paços do concelho a camara municipal, que se compunha do sr. presidente Bernardo Francisco da Costa, dos srs. vereadores Antonio de Brito, e Salvador Duarte, escrivão e todos os seus empregados; acompanhavam tambem a camara o sr. Palmeirim, administrador do concelho, o seu escrivão e empregados da administrado, além das diferentes auctoridades, e cavalheiros da terra indo á frente de todos uma excelente philarmonica.

Banda da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, 1894-1896.
InfoGestNet

Chegados a Cacilhas e junto do chafariz, onde se haviam collocado uma meza e cadeiras, estava o sr. engenheiro director o sr. Carlos Agostinho da Costa, soltando a agua e fazendo-a correr pelas quatro torneiras, e fez entrega á camara da obra que lhe havia sido incumbida, lavrando-se em seguida o auto de inauguração, que foi assignado pelas auctoridades e por muitos funccionarios que se achavam presentes, entre os quaes vimos o sr. commendador Holbeche, conservador Quaresma, dr. Loureiro, Manuel de Jesus Coelho, Madureira Chaves, Chichorro da Costa, etc.

As damas mais elegantes de Almada tambem concorreram a embellesar este acto com a sua presença. 

Nas janellas das casas em ter-no do chafariz viam-se magnificas toilettes. 

Encerrado o auto o sr. presidente leu em voz alta a seguinte saudação que foi acolhida com acalorados vivas: 

Retrato de Bernardo Francisco da Costa
Galeria dos Goeses Ilustres

Salve, ó fonte amiga! Manem fecundas e perennaes tuas aguas puras e cristalinas. Nunca tuas forças cancem; nunca teu curso sereno esmoreça; nunca teu doce murmurio cesse.

Salve, ó fonte amiga! A aurora, que hoje esplendida te raia, seja a luz suave que sempre teus dias innocentes doire. Se nas salsas aguas do mar peregrina perdida andavas; se entre os limos do visinho rio teus ricos encantos se iam sumidos; se assim aviltada em lamentavel olvido por seculos se contava esse teu viver mesquinho; por seculos se contém tambem, d'ora avante, teus dias alegres e formosos.

Salve, ó fonte amiga! Tres vezes salve! Mil distantes metros percorrendo risonha vens até ás nossas moradas? Mil vezes bem vinda sejas. Milhares de vezes tuas limpidas aguas possam nossos labios libar. Por milhões valham teus gratos serviços. 

Vem, ó mimosa fonte, ser nossa companheira quotidiana, presidir á hygiene publica, extinguir os incendios. Vem ó fonte meiga, entra sempre copiosa assim na modesta cabana do pobre, como nos amplos salões do rico. Desde muito anciosamonte desejada, a despeito de larga descrença nascida, entre labores arduos creada, com merecida alacridade recebida; vem ó filha deste povo, entre nós e para nós viver.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Delcampe

Não te desvaneças porém de seres hoje a unica, que amanhã novas irmãs comtigo á partilha virão. Nem então d'ellas inveja deves ter porque sempre a primogenita has de ser. Nem tão pouco te pése o seres obra modesta e não faustosa, pois sabes que no mundo tudo é relativo, e que por muitos d'aqueiles, que podem apreciar as condições difficeis d'este concelho, foste reputada de fundação quasi impossivel.

Ouves essas harmonias? Escutas essas philarmonica? Sentes o atroar estridente dos foguetes? Observas as bandeiras e galhardetes que as ruas enfeitam? Contemplas gostosa tantas damas lindas, tantos cavalheiros elegantes, que todos risonhos se apinham em torno de ti. Apraz-te este numeroso e alegre concurso? Embevece-te o prazer phrenetico e ruidoso que te circunda? É a tua recepção festival, é o enthusiasmo por um dos muitos melhoramentos de que esta terra carece, e a que justamente o povo aspira.

Anima-o, ó fonte fagueira, para que na larga, se bem que custosa, vereda de creações uteis e produclivas prosiga corajoso. Fortalece-o para que novas victorias nestas lutas incruentas das artes da paz alcance glorioso; para que na marcha encetada não suspenda o passo; para que com outros e mais avantajados beneficios dote este concelho; para que rompa novas vias de communicação e aperfeiçoe as antigas; para que, em uma palavra, a seus obreiros conceda recursos e cooperação.

É pois que tu, ó recemvinda, me dizes que te anima profunda gratidão a este bom povo, por haver quebrado o encanto da tua mofina existencia passada — ao concelho deste districto porque prestes deu todo o superior apoio para a tua regeneraçao — á camara e conselho municipal, que se empenharam até levar a cabo a tua emancipação ao joven architeeto, que com dedicação inexcedível construiu o teu elegante berço e aos proprietarios do Ginjal, Covalinho e Cacilhas que benevolamente coadjuvaram os trabalhos; concede-me o doce encargo de teu interprete e permitte que em teu nome eu diga:

Vivam os habitantes do concelho de Almada. 

Viva o conselho do districto de Lisboa. 

Vivam a camara e o conselho municipal de Almada.

Vivam todos aquelles que cooperaram para se levar a effeito esta obra.

Cacilhas 1 de novembro de 1874.

Seguia-se a ceremonia religiosa que todos os annos se faz, n'este dia, em Cacilhas, em cumprimento de um voto feito por occasião do terramoto de 1755. 

A imagem da Nossa Senhora do Bom Successo, conduzida em procissão pela sua irmandade, vem até á beira mar, pára ali, todos ajoelham, e resa-se um antiphona: é um acto edificante e de muito respeito. 

Cacilhas, imagem da Nossa Senhora do Bom Sucesso em procissão.

Na procissão ia o Santissimo, levado pelo reverendo padre João Pereira Netto, que depois cantou á missa, orando ao Evangelho o reverendo conego Antonio José Pereira. Tanto a festa como o sermão foram rnagnificos.

A todos estes actos seguiu-se um opiparo lunch ao Ginjal em casa do sr. engenheiro Costa, para oque tinha convidado muitos dos seus amigos, e posto que não assistissimos, por motivos superiores aos nossos desejos, com, tudo, bem informados, sabemos que não deixou nada a desejar. O sr. Costa e a sua familia obsequiaram o mais possivel os seus convivas.

Á noite deu sr. presidente da camara um baile esplendido ás pessoas das suas relações, tendo-lhe prestado para esse fim a sua casa o seu intimo amigo o sr. Isidoro Netto, por ser mais espaçosa do que a de s. ex.ª. Tudo foi deslumbrante n'esta reunião de pesssoas de amisade, primeiro que tudo a amabilidade dos donos da casa, depois a animação do baile, a profusao do serviço; em fim não ha phrases com que se descreva o que ali se passou. 

Vista da Praça do Comércio, rio Tejo e Cacilhas na Outra banda, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
  Biblioteca Nacional de Portugal

O baile terminou ás 6 horas da manhã. As toilettes eram em geral de muito gosto. A ex.ª sr.ª D. Luiza Costa tinha um lindo vestido de faie azul claro enfeitado de ramos de flores; — da mesma côr vestia a ex.ª sr.ª  D. Amelia Affonso com toda a elegancia propria da sua ingenuidade; a ex.ª sr.ª D. Amalia Tavares vestia de veludo preto por estar de luto, era rico o seu vestuario; — sua irmã a ex.ª sr.ª   D. Henriqueta Tavares Marques tambem vestia de damasco preto, uma rica toitette; a ex.ª sr.ª   D. Maria José Collares trajava um rico vestido de setim côr de rosa, com enfeitos pretos; — da mesma cõr em damasco, com enfeites brancos, e rendas de França era a toitette da ex.ª sr.ª   D. Izabel Affonso: emfim todas as senhoras estavam elegantissimas. — Foi um baile esplendido na verdadeira significação da palavra. (1)


(1) Diario Illustrado, 3 de novembro de 1874

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sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Almada no espólio do arquitecto Cassiano Branco

Esta documentação é constituída exclusivamente fotografias a preto e branco, de dimensões variadas.

Panorâmica parcial de Almada do lado nascente, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

É percetível, em alguns casos, o cuidado de Cassiano Branco em agrupar as fotografias de acordo com os temas que abordam.

Traseiras em ruínas do palácio dos marqueses da Fronteira, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Nestes casos, elas encontram-se coladas em cartão, e referem assuntos que vão desde a estatuária à ourivesaria, passando pela arquitetura militar e religiosa.

Porta antiga posteriormente emparedada do palácio dos marqueses de Fronteira,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

A variedade e a heterogeneidade com que estes conjuntos se apresentam impediram a distinção dos mesmos, daí que, na sua maioria, os documentos se apresentem soltos e dispersos. 

Miradouro com vista sobre o rio Tejo em Almada tendo ao fundo parte de Lisboa, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Várias cidades portuguesas estão aqui representadas. Contudo, é Lisboa que se encontra melhor testemunhada, ocupando uma percentagem considerável das fotografias da coleção de Cassiano Branco. 

Perspetiva geral de um miradouro em Almada tendo por fundo Lisboa, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Encontram-se retratados aspetos do seu quotidiano, as suas ruas, jardins e vistas panorâmicas. Este documento composto comporta também negativos, alguns em vidro. 

Miradouro em Almada com vista sobre o rio Tejo e Lisboa, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Existem ainda fotografias integradas noutras séries por se relacionar diretamente com os projetos aí considerados. (1)

Miradouro em Almada com vista sobre o rio Tejo e Lisboa, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

À semelhança do que se passa com a coleção de fotografias, também nos postais (reproduzidos tanto por método fotográfico quanto por método fotomecânico) é notória uma tentativa de ordenamento patente nas colagens que, em alguns casos, foram efetuadas em cartão.

Miradouro em Almada assente em terreno rochoso à beira do rio Tejo tendo por fundo Lisboa, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Apesar de, tal como sucedeu com as fotografias, não se terem elaborado documentos compostos temáticos, é possível descortinar alguns temas privilegiados, como por exemplo: museus, mosteiros, gravuras antigas, postais humorísticos da II.ª Guerra Mundial, naturezas mortas, e ainda várias cidades portuguesas e estrangeiras vistas nos seus múltiplos aspetos.

Miradouro em Almada assente em terreno rochoso à beira do rio Tejo tendo por fundo Lisboa,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Merecem também destaque os postais de autor, como os de Eduardo Portugal, Coleção Passaporte, Edições Costa, J. Bárcia, Casa Sucena, entre outros. (2)

Cruzeiro do interior do convento de São Paulo tendo por fundo o rio Tejo e parte de Almada, espólio Cassiano Branco.
[cf. Illustração Portugueza, 1911]
Arquivo Municipal de Lisboa

A documentação, produzida e acumulada no âmbito da atividade exercida pelo arquiteto Cassiano Branco, foi adquirida pela Câmara Municipal de Lisboa, em 1990. 

Interior do seminário de São Paulo em Almada, espólio Cassiano Branco.
[original de Eduardo Portugal]
Arquivo Municipal de Lisboa

Encontra-se atualmente à guarda do Arquivo Municipal de Lisboa, que a detém, em regime de usufruto e de propriedade jurídica.

Interior do seminário de São Paulo em Almada, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Cassiano Branco, filho de Cassiano José Branco e de Maria de Assunção Viriato, nasceu em Lisboa, a 13 de agosto de 1897, na rua do Telhal, junto aos Restauradores, no começo da avenida da Liberdade, para a qual desenhou alguns dos seus projetos mais emblemáticos. Iniciou o percurso de instrução em 1903, na primária e, posteriormente, em 1912, no liceu.

Painel de azulejos com figuras religiosas do convento de S. Paulo em Almada,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Matriculou-se, pela primeira vez, em 1919, na Escola de Belas-Artes de Lisboa, tendo interrompido a frequência, para ingressar no Ensino Técnico-Industrial, provavelmente, desiludido com o ensino baseado no modelo francês, desatualizado em relação ao pensamento teórico e projetual vanguardista produzido em Itália, Reino Unido, Alemanha e União Soviética.

Fonte do seminário de São Paulo, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Regressado de Paris, onde esteve na Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels, em 1925, Cassiano Branco, iniciou o seu percurso profissional como arquiteto diplomado, no ano seguinte.(3)

Panorâmica parcial de Almada tendo por fundo o rio Tejo, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Todavia, a sua atividade projetual começou em 1921, com uma proposta para o mercado municipal da Sertã, no qual evidenciou uma estilística de raiz clássica, reflexo da sua formação académica na Escola de Belas-Artes de Lisboa. 

Largo do Espírito Santo, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Em 1929, Cassiano Branco recebeu a encomenda para intervir em duas salas de espetáculos: o Coliseu dos Recreios e o Éden Teatro.

Rua Dr Francisco Inácio Lopes, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

No primeiro caso, tratou-se de um projeto de alterações a efetuar nos corredores, no palco e na cúpula.

A velha travessa do Espírito Santo, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Já o trabalho a desenvolver no teatro, foi bastante mais controverso e ambicioso, mormente a ampliação desse espaço, com o duplo objetivo de tornar possível a exibição do cinema sonoro e de aumentar o número de espetadores.

Entrada do pátio do Prior do Crato em Almada, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Tendo sido, possivelmente, a obra mais emblemática de Cassiano Branco e um dos marcos na arquitetura moderna portuguesa, o projeto do Éden Teatro, apenas inaugurado a 1 de abril de 1937, foi, contudo, atribuído ao engenheiro civil Alberto Alves Gama e ao arquiteto Carlos Dias, seu colaborador, que o concluiu.

Entrada do pátio do Prior do Crato em Almada, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Apesar dos elementos mais notáveis das alterações efetuadas ao Éden Teatro poderem ser encontrados nas duas primeiras propostas de Cassiano Branco, o arquiteto, nunca reivindicou a sua autoria, pese esta ser unânime entre os estudiosos da sua obra.

Azulejos do Patio do Prior, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Ainda numa fase inicial da sua vasta e multifacetada trajetória, Cassiano Branco, com apenas 32 anos, apresentou, em 1930, dois dos seus projetos mais ambiciosos e vanguardistas, mas que nunca passaram do papel: o plano de urbanização da Costa da Caparica e a Cidade do Cinema Português, em Cascais. 

Excluído das encomendas oficiais, a parte mais substancial da obra de Cassiano Branco, proveio de clientes particulares e de construtores civis, predominantemente, através de encomendas de prédios de rendimento, a integrar em malhas urbanas consolidadas.

Calçada da Barroquinha do Barroquinho, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

A partir de 1938, foram raros os prédios em Lisboa assinados por ele, presumivelmente, por ter estado, a partir dessa data, ocupado com os projetos do Grande Hotel do Luso e do Coliseu do Porto, para lá do trabalho que iniciara no Portugal dos Pequenitos, em 1937.

O Coliseu do Porto, com o qual Cassiano Branco encerrou a sua atividade projetual, nos anos 30, afirmou-se como uma obra de síntese, de grande maturidade estilística e de plena modernidade. Porém, após a Exposição do Mundo Português, em 1940, iniciou uma nova fase, que atravessou os anos 40, visivelmente marcada pela falta de trabalho e de quase total abandono de programas arquitetónicos de feição moderna que, no decénio anterior, haviam sido expoente máximo em Portugal.

Perspetiva da rua da Judiaria tendo por fundo o palácio de frei Luís de Sousa em Almada,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Nos anos 50, a carreira de Cassiano Branco foi objeto de adversidade, ao terem-lhe recusado dois projetos, respetivamente, o do hotel Infante de Sagres, em 1950 e o de ampliação do edifício da sede da Junta Nacional do Vinho, em 1957. Ambos revelaram uma tentativa, por parte do arquiteto, de integração numa estílica moderna, objetivo, que não obstante o esforço, não foi concretizado.

Perspectiva da rua da Judiaria em Almada, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Na década de 60, Cassiano Branco elaborou alguns projetos, em que demonstrou um último ensejo de concordância com a arquitetura de influência internacional, como a segunda proposta de ampliação do edifício da sede da Junta Nacional do Vinho, em Lisboa, assim como os projetos para o posto fronteiriço de Galegos, em Marvão, para o Grémio do Comércio dos Concelhos de Torres Vedras, Cadaval e Sobral de Monte Agraço, para o edifício para os Correios, Telefones e Telégrafos (CTT), em Portimão, e ainda, os estudos realizados para um edifício na Rebelva, na Parede, entre outros.

Perspetiva da rua da Judiaria com prédios nos dois lados em Almada,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Ainda assim, nenhum do edificado projetado acabou por ser construído. Para além dos exemplos anteriores, a alternância entre um ecletismo de inspiração tradicional e de inspiração moderna, ficou mais uma vez assinalada, no último projeto de Cassiano Branco, para o concurso público do Banco de Portugal, da agência de Évora. A solução apresentada foi, mais uma vez, reprovada e constituiu um derradeiro exemplo da ambiguidade que marcou a sua obra desde 1940.

A prolixa e diversificada obra de Cassiano Branco, de grande riqueza formal, desenvolvida entre meados dos anos 20 e o final da década de 1960, consagrou-o como um dos arquitetos que, mais indelevelmente, marcou a primeira geração moderna.

Fachada principal da igreja de São Tiago, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Embora não tenha feito parte do grupo de pioneiros do modernismo, é inegável a sua importância na história da arquitetura portuguesa, da primeira metade do século XX, tendo sido, seguramente, um dos mais conhecidos e estudados.

Perspectiva da rua Direita observando-se ao fundo a torre dos paços do concelho da câmara municipal de Almada,
espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

O contexto histórico da sua vasta e notável obra, associado à sua personalidade, é indispensável, para compreender a complexidade de um percurso, muitas vezes polémico, que, iniciado no período pré-modernista da Primeira República, tendeu a ser interpretado à luz da Modernismo e do Português Suave.

Travessa e Igreja do Bom Sucesso, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

De facto, foi possível distinguir claramente na obra de Cassiano Branco duas fases distintas. A primeira, iniciada pouco depois de concluir a sua licenciatura, perdurou até finais dos anos 30 do século XX e caraterizou-se por projetos de extrema criatividade como o hotel Vitória e o Éden Teatro, que lhe conferiram reconhecimento como um dos mais importantes arquitetos modernos a nível nacional.

Castelo de Almada em 1666, espólio Cassiano Branco.
[segundo Alain Manesson Mallet]
Arquivo Municipal de Lisboa

A segunda fase, na década de 40, revelou uma cedência ao estilo normalmente apelidado de Arquitetura do Estado Novo, impedindo-o de expressar a matriz inovadora dos primeiros anos. Cassiano Branco faleceu em Lisboa, a 24 de abril de 1970.


(1) Arquivo Municipal de Lisboa
(2) Idem
(3) Idem, ibidem

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