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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Real Capella do Apostolo S. Simão (a festa annual)

A Meza da Real Irmandade de Nossa Senhora da Piedade dos Milagres, e da Victoria, da Cova de Mutella, limite da Villa de Almada, tem determinado fazer a festa annual da Invocação da sua Real Irmandade no presente anno da maneira seguinte:

Cova da Piedade, igreja Nossa Senhora da Piedade, década de 1970.
almaDalmada

No dia 28 do corrente, vespera da sua festividade annual, se cantará huma solemne Missa, por muzica vocal e instrumental, pela conservação da Preciosa Vida de Sua Magestade o Senhor Dom Miguel I, Augusto Protector Perpétuo da mesma Real Irmandade,

D. Miguel I e suas irmãs dando graças a Nossa Senhora da Conceição da Rocha, 29 de janeiro de 1829.
Cabral Moncada Leilões

finda a qual se fará a inauguração das Reaes Armas no frontespicio da Real Capella do Apostolo S. Simão, onde a mencionada Irmandade se acha erecta, com todas as demonstrações de jubilo em similhantes occasiões praticadas, e á noute illuminação.

Bandeira de D. João V, também armas reais de D. Miguel na bandeira nacional de Portugal de 1826 a 1830.
Wikipédia

No dia 29 se fará com muito maior pompa, que nos annos antecedentes, a festividade annual denominada, da Casa, com Missa solemne por muzica vocal e instrumental, Sacramento exposto todo o dia, á tarde segundas Vesperas de Nossa Senhora, e Te Deum em Acção de Graças pela conservação de Sua Magestade o Senhor Dom Miguel I no Throno de Seus Maiores, e pelas Mercês que o Mesmo Augusto Senhor foi servido liberalizar a esta Irmandade declarando-Se seu Protector Perpétuo, e concedendo á mesma, e á Capella em que se acha erecta, o Titulo, Honras, e Privilegios de Reaes;

Paroquianos no adro da igreja da Cova da Piedade.
Delcampe

á noute illuminação, e hum vistoso fogo de artificio, havendo em ambos os dias e noutes muzica de arraial: sendo Oradores, no Sabbado á festividade o Muito Reverendo Padre Mestre Frei Francisco da Piedade; no Domingo de manhã, o Muito Reverendo Padre Mestre Frei Pedro da Purificação Alves Preto; e de tarde o Muito Reverendo Padre Mestre Frei José Machado, todos Prégadores Regios, e Dominicos. (1)


(1) Gazeta de Lisboa, 18 de agosto de 1830

Artigos relacionados:
S. Simão das Barrocas
Nossa Senhora da Piedade

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Euchloe tagis (borboleta tipo Piedade)

Ilustração original de Euchloe tagis publicada por Jacob Hübner na obra “Sammlung europäischer Schmetterlinge” (1796-1805) onde descreve a nova espécie para a ciência (pl. 110 figs. 565-566; © www.biodiversitylibrary.org).

Euchloe tagis, ilustração de Jacob Hübner, 1804.
Imagem: tagis


Os exemplares foram capturados pelo conde alemão Johan Centurius von Hoffmannsegg (entre 1797 e 1801) em "Piedade near Lisboa”, o que explica o nome específico de tagis, que significa em latim "relativo ao Tejo". (1)

Euchloe tagis, ilustração de Jacob Hübner, 1804.
Imagem: tagis

Esper (1805), para além de uma descrição extensa da espécie, publicou interessantes detalhes sobre o local onde foi encontrada, período de voo, flores onde se alimenta, etc. Destes detalhes destaco os seguintes:

Encontra-se na margem esquerda do Tejo, em frente a Lisboa, nos campos arenosos mas floridos, por entre as vinhas atrás de Almada, Casilhas [SIC] e Piedade.

Esboço do terreno da margem esquerda do Tejo, extendendo-se de Almada à Trafaria, entrincheirado como posição militar, cf. Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, 1811-1814.
(Assinalam-se também o Vale de Mourelos interseptado por vedações e os esteiros no lugar da Piedade)
Imagem: Internet Archive

O período de voo começa em Fevereiro e prolonga-se até ao princípio de Abril


Planta do terreno desde Cacilhas até a costa a Oeste, e Sud'oeste da Trafaria, com a linha fortificada sobre esse mesmo terreno/levantada por Manoel Joaquim Brandão de Souza Sargento Mór do Real Corpo de Engenheiros, às ordens do Tenente Coronel Fletcher dos Reaes Engenheiros Bretanicos; copiado no Real Archivo Militar em Março de 1813 (detalhe).
Imagem: Apontamentos sobre a descoberta da borboleta Euchloe tagis...

Na região de Lisboa, tal como na margem direita do Tejo, onde a P. Belia [Euchloe crameri] e a Belemia são frequentes, nunca foi vista [...]

Planta do terreno desde Cacilhas até a costa a Oeste, e Sud'oeste da Trafaria, com a linha fortificada sobre esse mesmo terreno/levantada por Manoel Joaquim Brandão de Souza Sargento Mór do Real Corpo de Engenheiros, às ordens do Tenente Coronel Fletcher dos Reaes Engenheiros Bretanicos; copiado no Real Archivo Militar em Março de 1813 (detalhe).
Imagem: Apontamentos sobre a descoberta da borboleta Euchloe tagis...

Zerkowitz (1946), listou as localidades então conhecidas da distribuição da E. tagis, incluindo a "Piedade near Lisbon (type locality)" [Na bibliografia a que tive acesso este é o único registo que indica a “localidade tipo” da espécie] ... (2)


(1) tagis, Centro de Conservação das Borboletas de portugal
(2) Santos Carvalho, Apontamentos sobre a descoberta da borboleta Euchloe tagis...

Mais informação:
Bibliography for Euchloe tagis (Biodiversity Heritage Library)

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Pequeno canal ou golada do Tejo

Na foz, o acesso marítimo ao interior do estuário [do Tejo] processa-se através de 3 canais ladeados por bancos de areia denominados Cachopo Norte e Cachopo Sul: O Grande Canal ou Barra Grande, localizado ao centro, liga o Atlântico ao Terreiro do Paço, apresenta largura mínima de 200m, caracteriza-se por uma boa estabilidade de fundos que actualmente se encontram a 16m e são facilmente aprofundáveis através de simples dragagem de areias; O Canal Norte ou Barra Norte situado entre o Cachopo Norte e a praia de Carcavelos, permite a navegação a navios de calado inferior aos 11 metros;

O naufrágio do HMS Bombay Castle na foz do Tejo, Lisboa, em 21 de dezembro de 1796, Thomas Buttersworth.
Imagem: artnet

O Canal Sul, denominado Golada, localizado entre o Cachopo Sul e a praia da Caparica, apenas acessível a embarcações de pequeno calado [...] (1)

Na área de estudo as principais alterações na linha de costa abrangem sobretudo a embocadura do Tejo, nomeadamente a golada do Tejo ou restinga do Bugio, ou seja, um banco de areia que liga o Farol do Bugio e a Cova do Vapor.

Vista aérea do estuário do Tejo, 2008.
Imagem: Porto de Lisboa

Esta golada nem sempre esteve fechada, como é possível observar na figura [abaixo] e o seu fecho/abertura é responsável por importantes modificações no areal da Costa de Caparica e Cova do Vapor.

Boat Channel (a golada), The environs and harbour of Lisbon, Laurie & James Whittle 001
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em 1845 assiste-se ao início de um recuo de cerca de 750 m da ponta livre da restinga da Cova do Vapor em direção ao farol do Bugio. Entre 1879 e 1893 o recuo acentua-se e a ponta da restinga avança 400m em direção ao farol.

Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa (detalhe), Francisco M. Pereira da Silva, 1857.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A restinga do Bugio ou golada do Tejo sofre um acentuado recuo na segunda metade do século XIX, o que provoca a sua abertura. 

Planta hydrographica da barra e porto de Lisboa (detalhe), Joäo Verissimo Mendes Guerreiro, 1878
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A partir do início do século XX começa a assistir-se ao avanço da restinga em direção ao Farol do Bugio, promovendo o seu fecho. 

Carta de Lisboa e seus arredores A. Filippe da Costa, 1909.
Imagem: Biblioteca Nacional Portugal

Entre 1929 e 1939 a extremidade livre da restinga (golada do Tejo) avança 750 m em direção à fortaleza do Bugio e recua cerca de 200 m na margem fluvial a oeste da Trafaria, sendo possível a travessia a pé em maré baixa da Cova do Vapor ao farol do Bugio.

Plano Hidrográfico da Barra do Porto de Lisboa (detalhe), 1929, actualizado em 1939.
Imagem: Biblioteca Nacional Portugal

A restinga do Bugio ou golada do Tejo tem uma importante influência no areal da Costa de Caparica e Cova do Vapor, considerando que se torna num importante esporão artificial, eficaz na retenção de sedimentos.

A partir de 1940 inicia-se um processo de erosão e uma redução acentuada da restinga que ligava a Cova do Vapor ao Bugio, sendo possível a passagem apenas em maré vazante. Esta redução é consequência de dragagens realizadas nesta área e em que o destino dos materiais dragados permanece desconhecido. 

Cova do Vapor, vista aérea (detalhe), 1953.
Imagem: Flickr

Segundo Abreu [V., O Porto de Lisboa e a Golada do Tejo, Síntese do Ciclo de Conferências O Porto de Lisboa e a Golada do Tejo apresentada na Academia de Marinha, 2010] nos anos 40 do século XX foram retirados da zona da Cova do Vapor cerca de 14,5 Mm3 de areia para aterros na margem direita do Tejo, no troço Belém-Algés. O projeto da construção e respetivos aterros da doca de pesca de Pedrouços datam de 1942, pelo que o destino dos materiais dragados seria provavelmente esse. 

Já em 1948 foi aprovada a retirada de areias da mesma zona para a "Regularização da Margem Esquerda do Tejo, entre Cacilhas e o Alfeite", sendo desconhecida a quantidade.

Vista aérea da variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958.
Imagem: IGeoE

Em 1959 é construída a primeira obra de defesa na Cova do Vapor, seguindo-se a construção de mais dois esporões e a obra longitudinal aderente.

Esporão da Cova do Vapor e vista do Forte ou Torre de S. Lourenço ou Bugio, Margarida Bico, 2015.
Imagem: Panoramio

Entre 1957 e 1963 assistiu-se a um recuo da linha de praia de 150m. 

Costa da Caparica, A praia 35 K de comprida, ed. Passaporte, 10, década de 1950.
Imagem: Fundação Portimagem

Entre 1968 e 1971 são construídos mais sete esporões na Costa de Caparica [...] Em 1971 é feita a primeira referência à alimentação artificial de praias na Costa de Caparica. 

Em 1979 já tinha sido dado início à construção do Terminal Cerealífero da Trafaria, atualmente a Silopor (Portaria nº 665/81, 5 de Agosto). Construído na margem sul do Tejo, entre a Trafaria e a Cova do Vapor, foi responsável por uma acentuada acumulação de areias. 

Trafaria, Cova do Vapor e Terminal Portuário, 2009.
Imagem: A Terceira Dimensão

O terminal funcionou como uma barreira que impedia a circulação natural de sedimentos, ficando então os sedimentos retidos a oeste do terminal, dando assim origem ao extenso areal que ser pode observar na zona dos Torrões da Trafaria [...]

Até ao ano de 1995 a situação esteve estabilizada, embora com perda progressiva da largura e volumetria da praia.

Costa da Caparica, Aspecto da praia, ed. Centro de Caridade N. Sr.a do Perpétuo Socorro, n.° 629, déc. 1980 1970.
Imagem: Delcampe

A partir do ano de 1996 a erosão acentua-se e assiste-se a danos preocupantes na praia e duna de S. João da Caparica. Os Invernos são a partir do ano de 1996 muito rigorosos, com registo de inúmeros galgamentos e destruições e progressivo emagrecimento do areal em S. João e Costa de Caparica. Entre 1999 e 2002 a linha de costa recuou em média cerca de 14,6 m.

Entre 2002 e 2007 recuou cerca de 12,2 m. Em 2007 inicia-se a alimentação artificial de praias com 0,5 Mm3, em 2008 com 1 Mm3 e em 2009 com igualmente 1 Mm3 de areias. Entre 2007 e 2010 foram gastos cerca de 2,5 Mm3 de areias provenientes de dragagens do porto de Lisboa e um ganho de cerca de 700.000 m3 de areias no sistema. 

Em 2014, devido a um Inverno (2013-2014) muito rigoroso e violento, que causou inúmeros galgamentos na zona da Costa de Caparica e o emagrecimento preocupante do areal, retomaram-se as obras de alimentação artificial de praias com 1 Mm3 de areias dragadas do canal de navegação do porto de Lisboa.

Vista do estuário do Tejo, tomada da Estação Espacial Internacional (detalhe), Samantha Cristoforetti, 2015.
Imagem: Samantha Cristoforetti no Facebook

Atualmente ocorre um período climático quente que se traduz numa desglaciação e consequentemente, num aumento do nível médio do mar (NMM). No litoral português o NNM subiu cerca de 15 cm durante o século XX e as projeções são de que suba entre os 0,75 e 1,90 m até ao final do século XXI, sendo o valor mais assertivo próximo de 1 m [...] (2)


(1) Cluster do Mar, O Porto de Lisboa
(2) Marta Oliveira, Evolução Natural e Antrópica Trafaria - Cova do Vapor - Costa de Caparica, Lisboa, UL, 2015

Artigos relacionados:
Os Cachopos
Mar da Calha

Ligações externas:
Valle de Trafaria e pantano do Juncal

Leituras relacionadas:
Estudo das intervenções na costa da Caparica
A Geologia no Litoral Parte I: Do Tejo à Lagoa de Albufeira
O Porto de Lisboa e a Golada do Tejo

domingo, 5 de junho de 2016

Villa Maria da Conceição

No Caramujo e Romeira, os edifícios de habitação mais antigos (para além das habitações existentes sobre os armazéns), estavam implantados entre os armazéns, nos espaços livres entre as fábricas ou eram antigos armazéns adaptados,

Villa Maria da Conceição, 2016.
Imagem: AVM

como é o caso da Vila Maria da Conceição, um antigo armazém de vinhos.


A carta de 1813 mostra que o ribeiro da Mutela desaguava no Tejo através de dois braços, um deles dirigindo-se para a Romeira.

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813 — 1816.
Imagem: IGeoE

Em 1849, o ribeiro só estava canalizado para o lado da Romeira, já não desaguando nas valas, também conhecidas por "abertas".

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Aqui construiu-se uma comporta que impedia a entrada da água nas marés vivas; sem o controle da comporta, a água, ao penetrar pela vala, transpunha as suas margens, alagando a parte baixa da Cova da Piedade.

Almada, Romeira, Paulo Emílio Guedes & Saraiva,16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

O sítio ficou conhecido por Sarilho, nome do engenho que fechava a comporta e que ficava situado no cruzamento entre o Largo da Romeira e a Rua Manuel José Gomes, junto ao início do quarteirão da Vila Maria da Conceição.

Panorâmica da fábrica William Rankin & Sons na quinta do Outeiro no Alfeite, 1885.
Imagem: Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário...

[...] que se localiza em frente de uma das antigas portas da [fábrica] Rankins [instalada numa quinta senhorial do século XVIII]. (1)


(1) Samuel Roda Fernandes, Fábrica de molienda António José Gomes, Lisboa, Universidade Lusíada, 2013

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O Almoxarifado do Alfeite em 1850

As differentes propriedades que se acham comprehendidas no Almoxarifado do Alfeite, estão situadas na peninsula ao sul do Tejo, sendo a principal formada pelo complexo das Septe Quintas, todas unidas e communicaveis por espaçosas ruas,

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

confinantes pelo norte com os sitios do Caramujo, e da Piedade, 

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

pelo poente com a estrada real do Alentejo, azinhaga do Rato, e quintas de Sancto Amaro, da Varegeira e do Rouxinol,

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

pelo sul, com os salgados do rio do Seixal, e pelo nascente com a praia; pega com este grupo o grande areial da ponta dos Corvos, que lhe pertence:

Planta das Septe Quintas do Real Sitio do Alfeite (detalhe), 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

dous pinhais no sitio de Corroios,

Planta do Pinhal do Cabral, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Planta do Pinhal das Courellas, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

a Albufeira situada na contracosta do cabo d 'Espichel, com o terreno adjacente, que se acha demarcado, e uma courella de vinha do dominio particular de Sua Magestade a Rainha, incorporada na mais meridional das Septe Quintas, completam o numero das propriedades circumscriptas por este circulo administrativo;

Planta da Lagoa d'Albufeira, 1849.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

de cada uma dellas, como se torna indispensável, faremos especial tombação. (1)


(1) Tombo do Almoxarifado do Alfeite, 1850

segunda-feira, 7 de março de 2016

Defesa de Lisboa em 1834

D. Miguel dispunha ainda pela sua parte de todos os recursos do reino, exceptuando apenas as duas cidades de Lisboa e Porto. Por todo o paiz os membros do clero secular e regular haviam pregado uma nova cruzada contra os constitucionaes [...]

Almada vue d'Alfeita [sic], François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet

O elevado morro de Palmella havia sido fortificado e guarnecido com doze bocas de fogo, o que igualmente tinha succedido a Almada e Cacilhas, onde se formara uma espécie de isthmo por meio de uma linha, que corria do Pragal á Margueira, guarnecida também por vinte e duas peças de artílheria. (1)

Mutela na enseada da Cova da Piedade (detalhe da vista de Cacilhas e de S. Julião), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Em 1833-1834 as forças liberais, logo após a tomada de Lisboa, prevenindo-se contra um ataque à capital pelos miguelistas que continuavam em operações a sul do Tejo, estabeleceram entre o Paliarte [Palliart, quinta e convento de S. Paulo] e a Margueira uma linha fortificada continua que cortava por completo o acesso a Almada e Cacilhas.
Quando se elaborou a carta topográfica militar de 1834 representando a linha fortificada já a quinta e convento de S. Paulo pertenciam a um comerciante de nome Palliart ou Paliarte, como se indica na legenda da carta. As propriedades haviam sido vendidas em consequência da extinção das ordens religiosas. A propriedade regressou à posse da igreja em 1934, voltando então a ser designada por quinta de S. Paulo, mas o nome de Paliarte, que perdurou 100 anos, ainda é uma designação conhecida.
Segundo Fernando Mendes [A dynastia de Bragança...] a linha comportou 22 peças, artilhamento que confere aproximadamente com o constante da carta topográfica militar [Planta da linha de defensa que cobre as villas d'Almada e Cacilhas] levantada [e desenhada] pelo 2.° tenente [do Real Corpo de] engenheiro[s] Manuel Maria da Rocha em 1834: 18 peças.

Vista parcial do lado sul de Almada, Possidónio da Silva, 1863
Imagem: Revista pittoresca e descriptiva de Portugal

A carta é pormenorizada quanto ao traçado da linha e sua construção mas quase omissa quanto ao terreno, apenas se representando toscamente as arribas da margem e pequenos troços das azinhagas que cruzavam a linha.

A localização da linha pode no entanto fazer-se com rigor a partir do desenho que serviu de base ao plano hidrográfico do porto de Lisboa, levantado em 1845-1847.

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847.

O flanco direito da linha assentava na encosta a norte do convento de S. Paulo; de aqui contornava a igreja e o convento de S. Paulo e descia para sueste numa frente rectilínea até a proximidade do teatro da Academia Almadense; ao cruzar a estrada para a Caparica, actual rua Capitão Leitão, formava um reduto; inflectia um pouco para leste e, junto ao local ocupado pela nova igreja de Almada apresentava um meio reduto; continuava para leste com duas frentes formando um ligeiro saliente próximo da rua Lourenço Pires de Távora, no sítio onde estivera o reduto do Conde; atravessava depois a estrada Cacilhas-Piedade pelo alto da Mutela, junto à rua Jorge de Paiva, formando um relente; dirigia-se daqui para sul e rematava na arriba com uma pequena frente olhando a Mutela.

Vista Geral, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Uma muralha isolada cortando a praia desde o sopé da arriba até ao nivel do baixa mar completava a obra protegendo o flanco. 

A esquerda da linha coincide num ponto com obra já existente: o meio reduto da Quinta do Conde que pode ter aproveitado parte do Forte do Conde. 

A casa de D. Francisco de Noronha (Prédio do Gato) Cacilhas, década de 1920/1930.
Imagem: Nuno Machado

Esta coincidência reforça a convicção de que os fortes do Conde e da Margueira ainda existiam em 1833 e que a última resistência séria oferecida por Teles Jordão em retirada, buscava apoio nas fortificações.

Sabe-se que nesse local, entre os dois fortes, passava a estrada Piedade-Cacilhas e Teles Jordão colocara aí artilharia. o castelo de Almada e as Linhas de Defesa estavam subordinados ao mesmo comando.

Oficial do Regimento de Infantaria n° 2, 1834.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

Desconhecemos se o mapa de guarnição elaborado em 1833, com o total de 148 homens abrangia não só o castelo mas as linhas de defesa que contariam também com o reforço do Batalhão Nacional Fixo d'Almada. Em qualquer caso, a importância das linhas e o quantitativo da guarnição justificavam o comando de um tenente-coronel e a presença de um cirurgião mor.

Exerceram o comando, no período de maior perigo para os liberais dois oficiais notáveis: Amaro dos Santos Barroso (1833-34) e Adriano Mauricio Guilherme Ferreri (1834-35) e o cargo de cirurgião mor, o cirurgião civil Francisco Inácio Lopes, um almadense também notável.

Planta do Rio Tejo e suas margens (detalhe), 1883.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Pela observação dos planos hidrográficos conclui-se que a linha ainda existia em 1847 e, muito provavelmente, em 1878. Desapareceu antes do fim do século. (2)


(1) Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal... Tomo V, Lisboa, Imprensa Nacional, 1885
(2) R. H. Pereira de Sousa, Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal, 1981, 192 págs.

Artigo relacionado:
Defesa de Lisboa em 1810

domingo, 19 de julho de 2015

Defesa de Lisboa em 1810

No início de dezembro, alguns movimentos das tropas francesas no sul da Espanha levaram a crer que uma movimentação estava a ser intentada no Alentejo, em apoio da renovada operação contra as linhas [de defesa], [no caso,] o promontório de Almada à esquerda do Tejo, oposto a Lisboa, que comanda a navegação do rio, e de cujas proteções abrange uma grande parte da cidade,* foi reduzido sob a superintendência do Capitão Goldfinch.

* O Tejo, oposto ao Castelo de Almada, tem apenas 2,200 jardas [2.011 mts.] de largo.

A military sketch of the country between Lisbon and Vimeiro occupied by the British Army (detail), 1810.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A esquerda desta posição ficava sobre a ampla bacia do Tejo, no alto imediatamente acima de Mutella; o seu centro estava no Monte de Caparica, Lugar de Monte, e a sua direita sobre a falésia rochosa, chamada de Altos da Raposeira, elevando-se acima do mar, a toda a extensão da sua frente, cerca de 8.000 jardas [7.315 mts.].

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813
Imagem: IGeoE

Uma cadeia de redutos, 17 em número [revisto posteriormente], flanqueando-se mutuamente, e tendo seteiras frontais, para permitir a observação nas ravinas, foi estabelecida sobre os outeiros mais proeminentes desta linha, estando a sua defesa unida com, e apoiada por, várias casas de campo na sua retaguarda, que, sendo construídas em pedra, com recintos de pedra, podem a qualquer momento ser formidáveis postos.
  • 01 Forte de Almada
  • 02 Forte do Pragal, perto do Pau de Bandeira, alt. 108 mts.
  • 03 Forte de Palença, 200 mts. a norte de Palença de Cima
  • 04 Forte do Raposo, na colina do marco trigonométrico
  • 05 Forte do Bicheiro, Quinta do Bicheiro, Caparica
  • 06 Forte do Prior, sítio de S. António na povoação de Caparica
  • 07 Forte da Granja, Quinta da Granja entre Formosinho e Vigia
  • 08 Forte de Castelo Picão, pequena povoação no monte de Caparica
  • 09 Forte de Montinhoso, no sítio do mesmo nome
  • 10 Forte do Guedes, atual Quinta da Conceição
  • 11 Forte de Murfacém, a oeste de igreja, alt. 105 mts.
  • 12 Forte da Raposeira Pequena, no atual sítio de Alpena
  • 13 Forte da Raposeira Grande, no lugar do novo reduto de Alpena
  • 14 Forte da Margueira, alt. 35 mts.
  • 15 Forte do Conde, atual rua Lourenço Pires de Távora
  • 16 Forte de S. Sebastião, 100 mts. a sul da ermida de S. Sebastião
  • 17 Forte do Armeiro Mor, Pragal, alt. 80 mts.
  • 18 Forte do Melo, Ginjal do Monte, Caparica
  • 19 Forte do Pombal, lado sul da estrada Caparica - Casas Velhas
  • 20 Forte de Possolos, onde hoje se encontra o cemitério de Caparica
  • 21 Forte de Pera de Cima, Quinta da Conceição, alt. 200 mts.
  •  
  • in PEREIRA DE SOUSA , R. H., Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal, 1981, 192 págs.
Uma estrada afundada, que se estendia a quase toda a posição, na traseira dos redutos, formava uma comunicação segura entre eles e foi engenhosamente feita pelo oficial executivo para reforçar à sua defesa, cortada em banqueta, e protegendo fora do declive à sua frente, de modo a formar um caminho coberto normal, com locais armados nos pontos que davam os melhores flancos e que melhor poderiam ser apoiados pelos edifícios de pedra.

Fortificação típica das linhas de defesa de Lisboa, 1810.
Imagem: Papers on Subjects Connected with the Duties of the Corps of Royal Engnieers

O castelo de Almada, em ruínas, foi reparado e armado para defesa, de modo a formar uma espécie de cidadela interior, que deve garantir a comunicação com Lisboa até ao último momento; e como meio pronto de comunicação entre a esquadra e as várias partes da posição, foram contruídas estradas em várias pontos do penhasco,* formando a sua garganta.

* Após uma parte desta estrada ter sido construída, o acabamento do remanescente foi suspenso; em consequência dos inconvenientes ocasionados aos ocupantes de habitações privadas, e o conhecimento de que a estrada poderia, com a devida atenção, ser acabada quando requerido num tempo inferior ao necessário ao inimigo para reunir forças, e marchar através do Alentejo.

Ruínas do castelo de Almada, Carta Geographica da Provincia da Estremadura (detalhe), c.1777 - 1780?
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Foi proposto confiar a defesa desta posição aos marinheiros e fuzileiros navais da esquadra, juntamente com as milícias [ordenanças] e os corpos cívicos de Lisboa [voluntários], os redutos foram construídos com uma magnitude fora do comum, muitos sendo capazes de conter 400, 500, ou 600 homens, e desde 6 a 10 peças de artilharia; a guarnição calculada para o conjunto quando concluído será 7.500 homens e 86 peças de artilharia.

Soldado de Caçadores n° 6, 1811,
Organização de Beresford,
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

Qualquer ataque de Almada neste momento só poderia ter sido uma operação secundária; mesmo se bem sucedida, o Tejo ter-se-ia interposto como um obstáculo intransponível entre os vencedores e Lisboa, e ocupação do promontório deveria ter sido completamente dependente do sucesso na frente. 

Portanto, qualquer modo de ocupação de Almada, que devesse prejudicar a defesa das linhas, dificilmente poderia ter sido justificado; mas era objeto de um grande valor, assim, por meio de profundos trabalhos e um esforço que de outra maneira não poderia ter sido tornado útil, por ter eliminado a possibilidade de pequenas forças inimigas perturbarem a esquadra, criando alarme e confusão na capital, e, talvez, espalhando o pânico através do país na retaguarda do exército, no momento em que as linhas [de Torres, a norte de Lisboa,] fossem atacadas [...]

Castelo de Almada após as reparações de 1810, gravura (detalhe), Pierre Eugène Aubert (Aubert pére),
cf. Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden,
Fieldmarshal The Duke of Wellington.
Imagem:  Biblioteca Nacional de Portugal

Nenhuma das objecções às linhas contínuas, no entanto, se aplicam aos postos fechados e isolados, cada um deles capaz de uma boa resistência, já que os intervalos entre eles não exigem uma linha de tropas de apoio, e após o fornecimento de guarnições para o trabalho, o exército pode permanecer em grupos abrigados, dos bombardeamentos, por algumas irregularidades do terreno perto do cume da elevações; 

Cabo do Regimento de Infantaria n° 24, 1813.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

ou se isso não se encontrar, no reverso, imediatamente abaixo da crista, pronto para se mover em grupos compactos e formidáveis sobre qualquer ponto ameaçado, ou formar em linha ou manobrar sobre os postos tomados, de maneira a melhor deter os esforços do assaltantes; um bom exemplo, cuja natureza da posição pode ser estudada nas defesas de Almada [...]

Soldado de Infantaria n° 8, 1810.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

Não se dá plano sobre as posições de Almada, Oeiras e Setúbal, já que é possível que, ao correr dos anos, sejam novamente ocupadas; uma referência aos planos pode ser feita por quem o deseje no escritório em Londres [...] (1)


(1) Jones, John Thomas, Memoranda relative to the lines thrown up to cover Lisbon in 1810, Londres, 1829

Leitura adicional:
Papers on Subjects Connected with the Duties of the Corps of Royal Engineers
Journals of sieges carried on by the army under the Duke of Wellington, in Spain, during the years 1811 to 1814