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sábado, 2 de abril de 2016

Quinta do Outeiro do Alfeite

Pertenceu ao conjunto de quintas que faziam parte da Casa do Infantado. Foi adquirida em 1707 pelo infante D. Francisco ao conde de Tarouca. (1)

Viata da Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A Quinta do Outeiro apesar de ser da Capela instituída pelo Doutor Manuel Lucas da Silva, e sua mulher Dona Catarina Josefa de Lima, administrada pelo Doutor José da Silveira Zuzarte, foi incorporada na Quinta do Alfeite por a utorização da Rainha a Senhora Dona Maria 1ª, concedida por Alvará de 15 de Maio de 1789. (2)

Em 1834, pelo decreto lei de 18 de Março é extinta a Casa do Infantado e passados 10 anos é feito um tombo da Real Quinta do Alfeite a 21 de Março de 1844, pelo almoxarife Severiano Fernandes de Oliveira onde nos é dado a conhecer a relação de prédios do circulo administrativo do Almoxarifado do Alfeite [...]

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847

[Relativamente à] Quinta do Outeiro - constituída por um prédio urbano (casas de habitação e várias casas de acomodações, cavalariça e palheiro e seis armazéns grandes) e prédio rústico (um bocado ajardinado, horta, vinha, arvores de pevide e caroço, e de espinho, poço com engenho e dois tanques) [...] (3)

Aproveitando a tradição do local para a prática da querenagem e as condições naturais de um baldio que existia junto à Quinta do Outeiro, uma das sete propriedades que a Casa do Infantado possuía no Alfeite, o industrial António José Sampaio instala um pequeno estaleiro nesse terreno junto ao salgado do rio, confinando a Sul com a referida Quinta do Outeiro, a Poente com a Romeira Velha, a Norte com o Caramujo e a Nascente com o rio Tejo.

Este estaleiro, vocacionado apenas para a construção de embarcações em madeira, encontrava-se em plena laboração em 1850 [...] (4)

[...] a Quinta do Outeiro tinha já sido vendida no tempo do Rei D. Luís à firma Rankin & Sons; (5)

Panorâmica da fábrica William Rankin & Sons na quinta do Outeiro no Alfeite, 1885.
Imagem: Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário...

A propriedade arrendada pela administração da Casa Real à William Rankin & Sons, foi depois comprada pela firma ao rei D. Luis, em hasta pública, em 1887, por vinte contos de réis.

Compreendia cinco armazéns, cavalariça, cocheira, casa para criados, palheiros, adega, lagar, casa de habitação com terreno para logradouro e terreno junto à praianuma área de 5168 m2.

Em 1898, a firma compra, também em hasta pública, ao rei D. Carlos, mais uma porção de terra com uma pequena casa e pomar, por cinco contos de réis e com a condição da William Rankin & Sons construir um muro com dois metros de altura para garantir a privacidade da Quinta Real do Alfeite.

Enseada da Cova da Piedade, c. 1900.
Em 1.° plano o pontão e a entrada da quinta do Alfeite e, em 2.°, o cais da Rankin & Sons.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Segundo Carol Mason, Cunison Deans Rankin adquire, em 1905, um estaleiro junto da fábrica, com anexos situados "na rua da praia" de acesso à quinta do Outeiro, à familia Sampaio, por dois contos de réis. (6)

A corticeira Rankin & Sons Ltd instalou-se na zona ribeirinha do Outeiro do Alfeite em 1884.

A preparação de pranchas de cortiça para exportação foi a actividade principal da fábrica durante os primeiros anos de funcionamento  [...]

A Rankin & Sons Ltd concentrou um grande número de mão-de-obra especializada, homens e mulheres divididos por sectores fabris, correspondentes às diversas fases da cadeia de produção.

Quinta do Outeiro do Alfeite, fábrica da Rankin and Sons, 1937.
Imagem: Rui M. M. Mendes

Esta corticeira constitui um exemplo do tipo de fábricas que se instalaram no Concelho. Acompanhou os períodos de recessão e de incremento no sector, o início das lutas operárias e a mobilização sindical e cooperativa dos trabalhadores. Encerrou definitivamente em 1956. (7)


(1) R. H. Pereira de Sousa, Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003
(2) Susana Maria Lopes Quaresma e Pereira, O palácio real do Alfeite..., Lisboa, Universidade de Lisboa, 2009, 5 Vols., cf. Alexandre M. Flores, António Neves Policarpo, Arsenal do Alfeite: contribuição para a história naval em Portugal, Junta de Freguesia, Laranjeiro, D. L. 1998, 2003
(3) Artur Vaz, Jornal da Região – Almada,  12. de julho de 2000
(4) Deputados do Grupo parlamentar do PCP, Cria o Museu Nacional da Indústria Naval, Lisboa, Parlamento, 2005
(5) Susana Maria Lopes Quaresma e Pereira, op. cit. 
(6) Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário (1860-1930), Câmara Municipal de Almada, 2003, cf. Alexandre M. Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990
(7) Fábrica da Rankin & Sons


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A bruxa de Cezimbra


Ella outra vez:

Devem recordar-se os nossos leitores d'uma celebre bruxa de Cezimbra, uma tal Maria da Burra, que figurou em tempo nas columnas do nosso jornal a proposito de umas gentilezas que praticou.

Cezimbra, desenho do natural por Casellas [gravura de Alberto], in O Occidente, n° 208, 1 de outubro 1884.
Imagem: Hemeroteca Digital

Cá a temos outra vez. A bruxa de Cezimbra introduziu-se pacatamente na casa de uma viuva rica do Caramujo, que tem uma filha, e convenceu aquella senhora de que tinha o demonio na sua residencia.

O demonio em casa! Caso sério, que dá muito que pensar a um cerebro enfermiço. Ora, parece, que realmente a senhora viuva não tem o mais claro juizo, porque acreditou as palavras da intrujona, acceitando os serviços desta.

A Maria da Burra disse-lhe que se prestaria a pôr péla porta fora o demo, servindo-se para isso tão sómente dos seus exorcismos, bem como a livraria em toda a parte das tentações do tal pontudo sujeito.

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso, 1892.
Referencia: Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial
Imagem: Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes

O caso deu-se ha dois annos, tantos quantos ha que a bruxa se tornou a companheira inseparavel da viuva. Pudera! E uma investida inesperada de Belzebuth não seria obra? 

A espertalhona anda no luxo, vive á grande, porque, emfim, ha toda a razão para isso:—Sempre é menina que tem poder contra Satanaz!

O que se chama em linguagem de "bruxa" e calão da gente réles — "um governo de vida a custa dos tolos". 

Parece, no entanto, que a mulher que alcançara o bem estar por meio das suas especulações se devia dar por satisfeita. Mas qual historia; aquillo é de sangue.

Ha mezes, querendo alargar a sua importancia e dar-se ares de bruxa de primeira ordem, fez relações com a mulher de um tanoeiro tambem do Caramujo.

O cais do Caramujo, década de 1980.
Imagem: Flores, Alexandre M.,
Almada antiga e moderna
,
Freguesia da Cova da Piedade

Aquella mulher tinha filhas e filhos, sendo um destes um rapaz irrequieto, que deu com as suas leviandades alguns desgostos á família. 

A doutora da bruxa, que para tudo tem remedio, deu logo o seu conselho: — "Casemos o rapaz".

E assim como deu o conselho, egualmente se encarregou de arranjar noiva.

Madam Mim, Gyanax, 2014.
Imagem: DeviantArt

Fez as relações do rapaz com a viuva sua protectora, protegeu os amores da filha desta com o filho do tanoeiro, e por fim de tal modo dispoz as cousas que a menina fugiu de casa da mãe para a casa do namorado. Como consequencia, o casamento.

Ha perto do dois mezes que casaram na egreja de S. Thiago de Almada. A lua de mel, porém, parece ter sido curta, porque viviam um pouco desgostosos.

Em uma das noites da semana passada, cerca da meia noite, o rapaz acordou e achou-se só. Sua mulher deixara-o com o seu travesseiro.

Levantou-se, e, em resultado de desconfiança atrazada, ou por presentimento, foi encontrar a esposa em casa da Maria da Burra. Entretinham se as duas no mais inocente dos passatempos. A bruxa deitava as cartas. A outra seguia com anciedade o resultado d'aquella manobra feita pela bruxa.

O rapaz caiu ali como o espectro de Banquo na tragedia de Shakespeare. A esposa imprudente desmaiou; a bruxa fez uma carantonha de metter medo ao demo.

Madam Mim, The Sword in the Stone, Classic Disney, 1963.
Imagem: fanpop

Como, porém, a scena tivesse de ser um pouco mais real do que a que os nossos leitores teem visto no "Macbeth", não tardou em irromper o cachação, indo pelos ares as cartas, e fugindo a mulher do iracundo para casa de sua mãe, mas sem umas pulseiras e uns brincos de ouro, que desappareceram por artes de berliques e berloques. 

Madam Mim, The Sword in the Stone, Classic Disney, 1963.
Imagem: Tumblr

A bruxa fez o casamento e lá o desmanchou. É o — "coso e descoso para não estar ocioso". E, acrescenta o nosso informador — uma paga da bruxa aos beneficios que lhe tem feito a sua protectora! (1)


(1) Diário Illustrado, 6 de outubro 1884

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A Costa no século XIX

"Deverá o velho morrer sozinho, irmãos? Deverá o velho morrer sozinho?

Não haverá homens na cristandade, para reunir em volta de seu trono?

Não haverá mãos esquerdas para agarrar a espada dos heróis que partiram [...]"

O autor, padre Hughes, foi um galês que em 1860 ofereceu os seus serviços ao Patriarca de Lisboa para evangelizar a então totalmente negligenciada costa de Caparica, a sul do Tejo.

Não só encorajou e inspirou os moradores, como lhes construiu a igreja e, também, realizou um grande trabalho social com a plantação de eucaliptos e pinheiros ao longo de quilômetros de areal, livrando assim a região da febre dos pântanos. (1)

Costa da Caparica, Colégio do Menino Jesus dito "convento", imagem estereoscópica (detalhe), c. 1900
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Refira-se que a Costa de Caparica só começou a ser ocupada a partir de finais do século XVIII.

Era então um lugar inóspito e desabrigado onde dominavam terrenos pantanosos e dunas com escassa vegetação rasteira sem outra protecção contra a inclemência do Verão.

Era também um lugar isolado pelos vastos pinhais (do conde de Arcos) que o separavam da Trafaria (então principal porto de pesca da zona) e do Monte de Caparica, tendo por isso proporcionado abrigo a salteadores e piratas.

Foram pescadores de origem algarvia e de Ílhavo que começaram por se fixar na Costa apenas durante os meses de Outubro a Dezembro, construindo para o efeito choupanas de junco e colmo, que incendiavam ao partir.

As primeiras companhas de pesca a fixar-se com carácter definitivo fazem-no em 1770.

Instituíram a figura do "Cofre dos Quinhões", organização de carácter mutualista e assistêncial que provia à protecção e alimentação dos órfãos e das viúvas, ao pagamento dos ordenados na ausência de faina e ainda à construção e/ou beneficiação de edifícios de interesse comum: vedação do cemitério, construção da igreja e do poço de água doce que abastecia a população.

Praia do Sol, C. Caparica, ed. José Nunes da Silva, s/n, Poço de Bomba, Chafariz
Imagem: Delcampe

Numa descrição do local de 1896, a Costa continua a ser uma zona de "grandes pântanos, outrora cobertos de juncos e hoje quase totalmente cultivados de vinhas e arvoredos".

Costa da Caparica, Carta dos Arredores de Lisboa — 68 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1902
Imagem: IGeoE

O centro da povoação situava-se no areal, onde havia o conjunto de “várias barracas de colmo, da origem primitiva, salpicadas agora de grande número de brancas e singelas casinhas”.

Hoje [1978] não há rivalidade entre as famílias daquelas duas regiões, mas resta a Rua dos Pescadores, sinal da antiga fronteira.

Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), 1978, Almada, Câmara Municipal de Almada, 316 págs.

A norte está a igreja, "abaixo da rocha, ao norte do pântano, destaca-se o pequeno cemitério, ao fundo do vasto areal, sempre cortado por médos ondulantes de uma finíssima areia, espraia-se na extensão de 3 léguas o oceano Atlântico".

Existiam nesta data 8 companhas de pesca, que lançavam as redes entre o mar da Laje e a Fonte da Telha, numa distância de 2 léguas.

Em 1824 existia uma única casa de alvenaria em toda a povoação, possivelmente construída por volta de 1820, pelo seu proprietário, mestre de redes José dos Santos.

Costa da Caparica, casa da coroa
Imagem: almaDalmada

A esta casa ficou ligada a lenda da presença do rei D. João VI que, após aqui ter comido uma caldeirada, mandou colocar na fachada a sua coroa de armas.

Brasão e Coroa do Reino de Portugal antes colocados na "casa da coroa"
Imagem: caparica news

Vários incêndios ao longo dos tempos deflagraram na povoação [...]
Em 1840, o grande fogo, denominado da Quinquilharia [do quinquilheira], devorou 98 barracas;

em 1864, outro fogo, rememorado como o da Rosa do Cheché, reduziu a cinzas 55 choupanas;

em 1884, um terceiro sinistro ficou na história da região como o Fogo do Costa Pinto, pelos grandes benefícios que por essa altura foram recebidos do honrado deputado por este círculo, tendo ardido ainda desta última vez 60 barracas.

Costa da Caparica, Depois do incendio de 1884, desenho de Rafael Bordalo Pinheiro
Imagem: Hemeroteca Digital

Convém citar aqui o nome completo desse cidadão: Jaime Artur da Costa Pinto (1846-1909), conhecido nestas paragens como o Pai dos Pobres, pela sua entrega total ao bem comum.

Costa da Caparica, As novas edificações, 1887, desenho de João Ribeiro Cristino
Imagem: Hemeroteca Digital

Correia, Romeu, Op. Cit.
A partir de 1884, devido à intervenção do deputado às Cortes, pelo círculo de Almada, Jaime Artur da Costa Pinto, a Costa de Caparica vai ser sujeita à construção de uma primeira urbanização, de 54 casas de alvenaria e um arruamento (Rua Jaime Artur Costa Pinto).

Jaime Artur da Costa Pinto
Imagem: Almanach Illustrado do Correio da Europa

Oito anos antes a igreja tinha sido reedificada em "pedra e cal" por acção de um "brasileiro" residente [João Inácio Alfama, ou João Inácio da Costa].

Costa da Caparica, ed. Lif, 04, Igreja da Nossa Senhora da Conceição, 1945
Imagem: Delcampe

Em 1882 foi aberta a vala de esgoto e iniciaram-se as florestações, numa tentativa de melhorar as más condições ambientais que ainda persistiam.

No nº. 1 do jornal A Realeza, de 2 Setembro de 1882, é publicado o artigo "Direcção do pântano do Juncal e fixação das dunas e arborização dos terrenos da Trafaria e Costa de Caparica, onde se pretendia efectuar a arborização em pinheiros e eucaliptos numa área de 1500 hectares para prender as dunas ou areias moventes da Caparica, vale da Trafaria e pântano do Juncal da Costa".

A Praia do Sol, Um trecho da estrada para Trafaria, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 112, década de 1930
Imagem: Delcampe

Considerava-se ser esta a melhor acção para terminar com a vasta extensão pantanosa que rodeava a povoação, provocando frequentemente epidemias e paludismo.

Costa da Caparica, Alameda de Santo António, ed. Passaporte, 25, década de 1960
Imagem: Delcampe, Oliveira

Por iniciativa do padre Bailie Hughes, de origem americana [sic], foi criada logo em 1876 uma sala de aulas feminina para o ensino primário e mais tarde, o Colégio do Menino Jesus, para rapazes e que existiu até 1901. (2)

Costa da Caparica, um piquenique familiar, em segundo plano a igreja e o Colégio do Menino Jesus, década de 1900
Imagem: Arlindo Pereira


(1) The TABLET

(2) Programa POLIS — Plano Estratégico da Costa de [sic] Caparica, 4. 2. 1. Nota Histórica, sobre texto de Correia, António, com citações de Vieira Júnior, Duarte Joaquim, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896


Leitura adicional: Costa da Caparica 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Palença de Baixo

A melhor notícia de que dispomos desta fortaleza [fortim da Banática] é devida ao conde dos Arcos [D. José Manuel de Noronha e Menezes de Alarcão] que atribui a construção ao mandado de D. João III [que reinou de 1521 a 1577] e a localiza não na actual Banática mas sim em Palença de Baixo...

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
Imagem: FRESS

Duarte Joaquim Vieira Junior refere que "onde está a fábrica de tijolo — hoje é fábrica de guano — existiu em tempos um fortim que foi construído no reinado de D. João III, e do qual ainda hoje há vestígios, existindo os paióis de pólvora, que foram feitos sob a rocha, para o lado de leste, e que ainda no tempo de D. Miguel foi este artilhado e guarnecido até 1833 pelas tropas do usurpador".

A informação é confusa quanto ao local... (1)

Lissabon, vista tomada de Palença, 1830
Imagem: Mundo do Livro, (Mundo do Livro no Facebook)

O portinho de Palença de Baixo é um pequeno varadouro com a praia de areia, situado a poente da Arrábida.

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813
Imagem: IGeoE

Junto da praia, sobre um terrapleno murado, fica a quinta de S. Lourenço...

É topónimo que designou além da quinta o varadouro...

A quinta foi propriedade dos condes da Cunha, cujo brasão se pode observar sobre o portal de entrada, em fins do século XVII e manteve-se na posse destes até ao século XIX.

Segundo informação de Rui Manuel Mesquita Mendes, Palença, em Almada, já é mencionada em documentos da primeira metade do século XV e a família Cunha já vive na sua Quinta no início do século XVI.

D. Catarina da Cunha fundou em 1522 um morgado com obrigação de missas numa Capela da Sé de Lisboa pagas por um "Casal em Almada, junto à sua Quinta de Palença".

Foi uma das mais vastas propriedades do concelho. (2)

Casa e capela da quinta de S. Lourenço
Imagem: SIPA

Exemplo notável de integração na paisagem (encosta S. do Rio Tejo), dominando visualmente a cidade e o estuário do rio; o envolvimento do lado S. está hoje totalmente adulterado pela perturbação visual do complexo industrial da Tagol. (3)

Instalaram-se em Almada nos finais do século XIX cinco fábricas, entre as quais se destaca a Fábrica de Cerâmica de Palença, localizada na praia do mesmo nome e em laboração desde 1884.

Utilizava um forno contínuo e quatro intermitentes alimentados a carvão mineral e explorava barreiros locais.

Cais da Fábrica de Palença, ed. desc.
Imagem: Portimagem

Para além da cerâmica comum, produzia também materiais de construção, como tijolo e telha marselha.

Ocupando mais de uma centena de operários, a fábrica manteve a sua actividade até aos anos setenta do século XX. (4)

Telha marselha da Fábrica de Palença


(1) Pereira de Sousa, R. H., Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal, 1981, 192 págs.

(2) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs. 

(3) SIPA

(4) Silva, Francisco Manuel Valadares e, Ruralidade em Almada e Seixal nos séculos XVIII e XIX, Imagem, Paisagem e Memória, Lisboa, Universidade Aberta, 2008, 271 págs.