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domingo, 18 de novembro de 2018

Clube Recreativo José Avelino

Foi por este portão do Clube Recreativo José Avelino que, há quarenta anos, entraram os primeiros espectadores dos "Bonecos de Luz", o mais humano e picaresco dos romances de Romeu Correia, história de uma simplicidade tão prodigiosa que roça a magia e pelo fantástico, tal como nos contos de Panait Istrati ou algumas novelas de Gogol. (1)

Cacilhas Clube Recreativo José Avelino Jornal de Letras e Artes 14 3 de janeiro 1962 01.jpg

O Clube Recreativo José Avelino foi oficialmente inaugurado em 6 de Maio de 1906.

Uma Festa de um aniversário do Clube José Avelino no principio do século passado.
"Aqui estão os meus antepassados, a família Silva, juntamente com a família Feio, antepassados do meu querido amigo Mario Feio e alguns membros da famíla Zagallo!"
cf. João Rafael

E para que conste, os seus primeiros Corpos Dirigentes eram constituídos pela maioria dos seus sócios fundadores, a saber. António Augusto Figueiredo Feio, Presidente; João Isidoro da Silva, vice-presidente; José Avelino Vieira da Silva, Tesoureiro; António Augusto Rodrigues, 1° Secretário; Manuel dos Santos Parada; 2° Secretário.

João Rafael
A inauguração do Clube José Avelino, foi feita com pompa e circunstancia, tendo a Direcção elaborado um extenso programa de festas a condizer com a solenidade do dia, no qual constavam, com inicio às 2 horas da tarde, urna sessão musical com o concurso das filarmónicas existentes na Villa de Almada, uma "troupe" de bandolinistas e uma Sessão de Arte Dramática com declamação de poesia. 

Às 8 horas e meia da noite tinha inicio a representação dc 3 peças teatrais respectivamente: "Escravos e Senhores" (em 3 actos), "Folies Bergéres" (musical) e a comédia em 1 acto, "Valentes a Fingir'.

Os actores que participaram nestas peças eram amadores e muitos deles faziam parte como sócios da colectividade. A titulo de curiosidade, o próprio José Avelino representou na peça "Escravos e Senhoras"...

Desde o seu inicio que o Clube José Avelino criou o seu próprio grupo cénico, constituído na sua maioria por gentes de Cacilhas com vocação para a Arte de Talma. Alguns deles, sem qualquer favor. destacaram-se pela sua vocação natural para a arte cénica podendo mesmo rivalizarem com alguns dos actores já consagra-dos que representavam nos teatros de Lisboa.

O Clube José Avelino ao longo das décadas seguintes tinha sempre um cuidadoso programa de festas calendarizado ao longo do ano, que passavam pelas representações do seu grupo cénico ou de grupos convidados. espectáculos musicais, sessões de fado, concursos e as famosas "soirées" dançantes, vulgo bailes, que aconteciam sempre por alturas do carnaval, da micaréme (no qual era eleita por um ano, a minha e as suas 2 damas de honor), da pinhata e da passagem de ano, sempre abrilhantados pelas melhores "Troupes" e Jazz Bands que havia na altura (como então eram denominados os conjuntos musicais que tocavam nos salões dc baile), e que eram muito frequentados (havendo sempre lotação esgotada), proporcionando noites inesqueciveis a todos os cacihenses e não só, que ali conviveram. lias ia ainda, ao longo de todo o ano, uma diversidade de festas dançantes. alusivas à temática da Primavera, da Flor, das Violetas das Vindimas e a outras, que tinham sempre a garantia dc "casa cheia"...

Clube Recreativo José Avelino.
Mario Feio

No que reporta às peças teatrais, foram muitas as que passaram pelo palco do "José Avelino" tendo entre tantas, ficado na memó-ria daqueles que connosco ainda convivem, títulos como "20.000 Dollares", "Rosa do Adro", "D. César Bazan", "As Duas Causas", "Renascer", "Intrigas do Bairro", "O Domador de Sogras", "O Tio Rafael", "Senhor Roubado", "Cama, Mesa e Roupa Lavada", "Vizinhos de Cima" e outras tantas...

Baile de Carnaval no Clube José Avelino, Fevereiro de 1933.
Alexandre Flores, Almada e as suas tradições: o carnaval

O Clube José Avelino. pela fama dos eventos e das festas que organizava, passou a ser conhecido e referenciado para além das "fronteiras" de Cacilhas atraindo cada vez mais forasteiros e curiosos provenientes de Lisboa para assistirem na "Outra Banda". aos espectáculos que eram previamente anunciados por folhetos e programas ou mesmo nos jornais. 

Bailes de máscaras no carnaval de 1934.
Luís Bayó Veiga, Boletim "O Pharol" n° 27, 2015

A fama adquirida pelos espectáculos sempre com lotação esgotada, que ocorriam no seu salão de festas, fez despertar a atenção dos empresários de Lisboa, que rapidamente, percebendo haver oportunidades dc lucro, acertavam as condições dos contratos para serem exibidas excelentes peças teatrais que já tinham sido êxito na capital. 

Equipa de futebol do Clube José Avelino no campo da Quinta das Farias do Clube Desportivo da Cova da Piedade.
almaDalmada

E foi assim que ao longo de sucessivos anos da vida do clube. pisaram o palco do "José Avelino". alguns dos maiores nomes da cena teatral portuguesa da altura com destaque para: Chaby Pinheiro. Lucília Simões, Alves da Cunha. Maria Matos, Ilda Stichini. Adelina Fernandes. Palmira Bastos. Amélia Rey Colaço. Robles Monteiro e por último, Amália Rodrigues. os quais pelo facto da sua actuação naquele palco, tiveram direito cada um deles, a uma placa comemorativa que era colocada nas paredes do vestíbulo do Clube. 

Clube Recreativo José Avelino Rainha da Micarême ladeada pelas duas damas de honor e restantes acompanhantes,1953.
Luís Bayó Veiga, Boletim "O Pharol" n° 27, 2015

Sendo desde a sua origem um clube elitista e aristocrata (os seus sócios eram normalmente comerciantes, industriais, funcionários públicos e militares entre outros), a admissão de novos sócios era portanto muito selectiva.

Clube Recreativo José Avelino.
Mario Feio

Ao longo do correr do tempo, e das suas sucessivas Direcções, o Clube José Avelino fazia juz de procurar manter sempre uma exemplar organização e qualidade dos eventos que programava para cada ano e mostrar-se cumpridor dos seus compromissos assumidos.

Portão de acesso ao Clube José Avelino.

Mas o tempo passa e avança, os hábitos mudam. e a chama do associativismo foi empalidecendo com o desaparecimento dos seus mais nobres empreendedores cacilhenses... A partir do limiar da década de 50, o Clube José Avelino foi entrando em decadência. (2)


(1) Almada e o povo na obra de Romeu Correia, Jornal de Letras e Artes n° 14, 3 de janeiro 1962
cf. Almada na História, Boletim de Fontes Documentais, n° 30
(2) Luís Bayó Veiga, Boletim "O Pharol" n° 14, 2010

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Lisboa no anno 2000

De bom grado olhamos para o passado de Portugal [...]


Lisboa era o ponto de reunião de todas as marinhas do mundo inteiro [...]


Uma série de V invertidos de cujo vértice pendia um carril a que se suspendiam as carruagens que constituiam o comboio, davam um aspecto curioso ás ruas [...]


A Trafaria estava transformada num grande centro industrial. Tinha vinte e cinco fábricas de conservas de peixe. Desde o alto de Murfacém, da Torre, do Pragal até à margem esquerda do Tejo só fábricas é que se viam [...] (1)


Para atravessar aquele emaranhado de linhas estabeleceram-se transportadores aéreos, que conduziam os passageiros aos diversos cais de mercadorias [...]


Onde contudo se podia presenciar a labuta de todos os cais era de uma torre de aço com a forma de sólido de igual resistência, de base quadrangualar e de 350 metros de altura [...]


O empregado do armazém disse dois algarismos e logo sem demora apareceu no quedro "telefotográfico" a imagem do vendedor [...] (2)


Todo o edifício dizia que o relógio era a razão de ser daquela obra, como que o coração e o cérebro e o mesmo tempo daquele momento [...] (3)


Entretanto a 5 de Junho de 1994, inaugurava-se solenemente a estação subterrânea de Lisboa nas Linhas do sul [...]


Bastaram três minutos para que o comboio parasse na estação do Seixal [...] (4)


(1) Mattos, Mello de, Illustração Portugueza, Lisboa no anno 2000, Lisboa, 26 março 1906
(2) Mattos, Mello de, Illustração Portugueza, Lisboa no anno 2000, Lisboa, 2 abril 1906
(3) Mattos, Mello de, Illustração Portugueza, Lisboa no anno 2000, Lisboa, 9 abril 1906
(4) Mattos, Mello de, Illustração Portugueza, Lisboa no anno 2000, Lisboa, 16 abril 1906

Artigos relacionados:
Lisboa monumental em 1906
Projecto de travessia do Tejo em 1889
A ponte

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A Costa romântica de Bulhão Pato

A viagem de Cacilhas até os Capuchos será de uns oito kilometros, pouco mais ou menos.

A paizagem soberba: Alfeite, Valle de Morellos, Espadeiros, Sant'Anna, Valle de Flôres, e o Medo enorme da lagoa d'Albufeira, montanha de oiro resaindo das massas de vinhedos e pinbeiraes.

Pena é que os muros, ás vezes como pannos de fortaleza medieva, hoje, na maior parte, completamente inuteis, privem o viajante das variadas e graciosas perspectivas.

Caparica abraça uma area grande.

Começa á entrada da barra. Do lado do norte é banhada pelo Tejo na extensão de doze kilometros: pelo oeste, põe-he termo o oceano; ao sul alarga-se até Valle de Cavalla.

Como portos de mar tem Banatica, Paulina, Porto-Brandão, Portinho da Costa e Trafaria. Quantos e quantos quadros, com recordações historicas, se não podem tirar d'estes accidentados e fertilissimos logares!

Agora, rapidamente e em toques impressionistas, falarei do convento dos Capuchos, ponto de vista dos mais bellos das cercanias, onde ha tantos. Poucos se encontrarão em todo o pais que lbe sobrelevem, principalmente na originalidade.

Caparica, Convento dos Capuchos, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

Sobre as escarpas que se precipitam ao fundo do Juncal, levanta-se o templosinbo dos capuchinboe arrabidos, fundado por D. Lourenço Pires de Tavora, quarto senhor de Caparica, em 1564. D. Lourenço, quando nosso embaixador em Hespanha, foi quem deu a Carlos V a replica, que apesar de velha tem sempre um travo picante.

Um dia o monarcha, mal humorado, disse-lhe:

— Eu sei muito bem quantas pontes e rios tem Portugal.

— As mesmas, senhor, que tinha em 1385.

O destemido e brilhante antecessor dos desditosos que foram feitos a pedaços no pavoroso cadafalso de Belem atirava á cara do Cesar omnipotente, nem mais nem menos, a batalha de Aljubarrota.

O convento dos Capuchos domina, ao nascente, a serra da Arrabida, divisoria do Sado e Tejo, e o castello de Palmella; ao norte, Lisboa e a serra de Cintra; a sudoeste, o Cabo, perfil exacto da cabeça de um elephante fabuloso, menos o dente: ao oeste, a barra, as torres de S. Julião e do Bugio, a bahia de Cascaes, perdendo-se depois a vista na curva remota do mar. Em baixo o Juncal, que vae da Trafaria ao Cabo. Os casalitos, os quinchosos, as courellas de vinhas, rccortando-se no chão plano e vastissimo. e resaindo das grandes manchas da joina e do junco. 

Caparica, Alto da Chibata ao Outeiro dos Capuchos (?), década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

Os medos de areia loira, tomando diversas formas e opondo-se, como trincheiras, aos assaltos do mar em furia. Quando o sol de purpura e de fogo baqueia nas ondas, joga-lhe as frechas incendiadas e, por momentos, toda a planura parallela ao azul do oceano parece uma leziria em chammas.

Costa da Caparica, arte xávega, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

Em pleno dia,se a povoação da Costa dá signal das negras de sardinha, de todos os casalitos do sope da rocha e disseminados pelo campo. partem cavallos e eguas beirõas acudindo a praia. Depois as recovas carregadas da pescaria, a travado largo, correm á venda, juncal abaixo. As raparigas trepam pela Fonte da Pipa e Villa Nova.

Lá vae aquella: [ver artigo relacionado: Viva da Costa]

Tudo isto se pode vêr e admirar do pobre convento hoje desmantelado, convento que ainda conheci forrado dos seus magníficos azulejos, vendidos de rastos ao primeiro que lhe deitou olhos mais ou menos entendedores.

Os arrabidos do conventinho ensinavam a lér os moços do Arieiro, de Villa Nova e da Costa. Pediam esmola uma vez por semana, e pedindo esmola fizeram a sua casa conventual. 

Caparica, Outeiro dos Capuchos, ed. desc., década de 1900. [A remover]
Colares, Subida vindo da estrada velha de Monserrate.
Imagem: Dias que Voam

Acudiam-lhes com bizarria os fidalgos de primeira grandeza, que em tempos isto foi a Cintra, o Estoril e o Cascaes de hoje, e tambem lhe valiam com mão profusa lavradores abastados d'estes contornos.

Assim se fez, com auxilio de uns e de outros, e não com a capa lendaria estofada de dobrões do pobre pedinte, o bello templo, dos finaes do seculo XVI, de Nossa Senhora do Monte, templo que ia a desabar em ruinas.

Hoje está em pé e restaurado, graças aos esforços do meu velho amigo José Dias Ferreira.

Terminarei este rapido bosquejo com uma anecdota, que apesar de impressa no "Portugal Antigo e Moderno", não será muito conhecida.

D. João VI foi um dia á Costa. O pacifico monarcha era bom garfo, bom dente, soberbo estomago e amador de pratos nacionaes.

Deram-lhe na Costa uma caldeirada. Pois, senhores, de tal modo ficou maravilhado o principe, cuja virtude suprema não era a generosidade, que rompeu n'este rasgo:

Fez "Mestre das Caldeiradas" o bemaventurado que lh'a preparou, estabelecendo-lhe 800 réis diarios emquanto fôsse vivo.

A casa onde D. Joao Vl se banqueteou lá está na Costa e com as armas reaes como recordação.

Costa da Caparica, Casa da Coroa, José Manuel Soares (detalhe).
Imagem: Notícias da Gandaia

Ali foi depois D. Maria II e D. Pedro V. Muita gente do sitio me tem contado, com grande admiração e estranheza, que D. Maria II comia as sardinhas como a gente do povo: em cima do pão e ás dentadas. Comeu n'aquelle dia, d'esta fórma, para mais d'uma duzia.

As nossas elegantes de hoje, que venham ver na primavera e verão a deslumbradora vista do convento dos Capuchos, sigam depois para a Costa, que lhes fica fronteira a dois passos, e comam as picantes sardinhas d'aquella praia como as comia a filha imperador D. Pedro IV, rainha portuguesa das mais pontuaes no seu officio, e das mais dignas na altivez da sua soberania.

Monte de Caparica, Torre
Fevereiro 1906
Bulhão Pato



(1) Bulhão Pato, Illustração Portugueza, Convento dos Capuchos, Lisboa, 29 outubro 1906

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Lisboa monumental em 1906

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Imagem: Hemeroteca Digital

Os governos que teem sempre a construir, por essas terras e vilórias, edifícios pequenos para escolas, créches, etc., deveriam fazer executar de quando em quando algum d'estes projectosinhos sahidos das provas escoláres, e que o respectivo jury, reforçado por elementos das letras, todos os annos levasse á atenção das obras publicas e municípios [...].(1)

Fialho de Almeida, 1857 — 1911.
Imagem: ciberduvidas

Mas se é certa a teimosia dos commerciantes, por bronca, faz suspeitar que por trás d'ella alguma tramoia a Companhia Real fomenta e move, não menos descabida parece a ancia que tem os engenheiros da Sul e Sueste em querer construir a estação terminal nos aterros do caes jacente á alfandega, sem primeiro trazerem a linha de Cacilhas ou Almada, seu prolongamento logico ou natural.

Pois verdadeiramente se antolha que a pressa grande deva ser completar quanto antes a linha ferrea entresonhada, vazar as mercadoria d'embarque em caes fonteiros a Lisboa, pôr n'esses caes navios acostáveis desembarcando artigos que se destinam ao interior das terras d'além rio — dar pretexto emfim a que a nossa capital real outra margem se desdobre, e uma nova cidade, abrangendo desde o pontal de Cacilhas á Trafaria, lentamente alastre á beira d'agua, primeiro em armazens e fabricas e officinas, logo com casarias e ruas moradias, trepando as lombas dos morros, pinchando aos cimos, quando a afluencia de gente que necessariamente o caminho de ferro trará consigo, se juntar ess'outra que a mudança do Arsenal de marinha e officinas subsidiares, e ainda a da Escola Naval, sua consequencia immediata num futuro mais ou menos proximo certo virão concentrar na margem esquerda, frente á capital.

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Imagem: Hemeroteca Digital

E tudo isto daria já para a nova cidade uma migração muito importante, que sommada com a vizinhança das villas e logares que enxameiam no aro d'entre Trafaria e Cacilhas póde determinar robustamento o inicio do faubúr novo, da outra grande Lisboa de forjas e martelos, a Lisboa fabril, erriçada de chaminés e fumos londrinos, mirando ameaçadoramente, dou outro lado da agua, a cidade-côrte, em seus volvos d'orgia, seus arquejos de gaz e de festanga — do outro lado d'agua, em cujo espelho o labyrintho dos steamers, ao mugir cavo das sereias, encheria de grandeza o porto formidavel.

Acumular portanto na outra margem a Lisboa commercial e fabril, de grande labuta e grande trafego; ir para essa margem empurrando, á formiga, muitas industrias que por Alcantara e Poço do Bispo funccionam no meio de bairros por ellas infectados; desobstruir por uma gradual e lenta transferencia, a beira-mar de Lisboa velha, dos hangares barracões e feios depositos de mercadorias que ali se ajuntam, vedando ao lisboeta de gemma a margem do seu Tejo: tudo isto significa um desiderato maravilhoso para a belleza da terra e methodisação hygienica da industria, ajudando o desenvolvimento rapido d'uma cidade que com pretensões a chave do Atlantico e paraiso de touristes, ainda não poude sahir das virtudes prohibitivas e velharias confusas de qualquer terra hespanhola ou brazileira.

Só quando a "Lisboa da outra banda" tomasse desenvolvimento uniforme de cidade, e as duas lisboas, direita e esquerda, desenroladas polas duas margens do rio, proclamassem a urgencia da sua homogenisação n'um todo idilico, é que a ideia da ponte ou pontes monumentais de 9:000 contos (que já começa a endoidar bestuntos da puericia mandante, amiga de exibicionismo) deveria ser posta a amadurar, conjunctamente coma do projecto de estação fluvial sul e sueste, cujas obras, a contrario do que oiço, não parecem por agora tão urgentes como a conclusão da via ferrea até Cacilhas ou Almada.

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Imagem: Hemeroteca Digital

Varios, e em epocas differentes, desde 1880 para cá, teem sido os projectos de pontes sonhados para ligar a capital com amargem esquerda do Tejo.

É do folheto "Ainda a estação fluvial das linhas do sul e sueste" do sr. engenheiro A. Santos Viegas que extracto a enumeração desses projectos:

Em 1888, projecto do americano Lye: vinha a ponte d'Almada ao Thesouro Velho, e ahi ficava a estação de mercadorias do sul e sueste, com entrada pelo Largo das Duas Igrejas [Praça do Chiado]. "A este plano, acrescenta o sr. Santos Viegas, alvitra-se agora acrescentar elevadores que nas alturas do Caes do Sodré transportariam vagões entre a linha superior e a estação da companhia". Custaria de 8 a 10:000 contos.

Em 1889: projecto de Bartissol e Seyring [sic, Seyrig], fazendo da estação do Rocio a testa das linhas sul e sueste, quando ainda a companhia Real pensava d'açambarcar os caminhos de ferro do estado. Custava 9:000 contos, a que opinões meticulosas ajuntam mais 1:000 para expropriações.

Em 1890: projecto do engenheiro Proença Vieira, que iria de'Almada a um ponto ao norte da rocha do Conde de Óbidos, seguindo a linha ferrea até cêrca de Campolide. Custava 7:500 contos mas é possível que chegasse a muito mais, visto haver sítios do rio onde as fundações dos pilares iriam até 60 metros de fundo, e no projecto não se faziam calculos explicitamente rigorosos ácêrca d'essas fundações.

Depois de 1891 houve mais dois projectos. Um, do fallecido Miguel Paes, de todos os expostos o mais sensato sob o ponto de vista de ligação ferro-viaria, vinha do Pinhal Novo onde toda a rede do sul se acha reunida n'um tronco unico, o espigão do Montijo, e d'ahi por uma immensa ponte, aos Grillos, fóra da zona de grande navegação do Tejo. N'este sitio, teria a ponte muito menor importancia para a viação ordinária. A construcção seria mais facil, mas a extensão muito maior, devendo o custo exceder pouco mais de 4:000 contos.

Finalmente o ultimo projecto de travessia do Tejo era a concessão a uma empreza americana, d'uma ponte ara peões, carros, "tramways" electricos e caminhos de ferro, entre Almada e o bairro da Lapa, sem bases porem que permittissem avaliar da sua exiquibilidade.

O sr. Santos Viegas opina (e nós tambem) que a ideia Julio Vernesca da ponte sobre o Tejo deve deixar-se ás futuras gerações. Não que ella não represente um arrojado e utilissimo melhoramento, mas por ser devorante o custo, e não se devem adiar outras obras mais urgentes, como a da trazida do caminho dez ferro do sul a Cacilhasou Almada, e fundação da nova cidade da margem esquerda, em que urge desdobrar, o mais rapidamente possivel, a nossa actual Lisboa fabril e commercial.
Quanto mais présto essa via concluida, mais cedo começará, frente a Lisboa o centro de crystalização da nova cidade commercial e fabril que tanto urge.

D'ahi se o Arsenal de marinha sae, como pretendem, do seu forte edifício pombalino, deixará disponivel um cazarão enormissimo onde em qualquer canto os engenheiros do Sul e Sueste pódem talhar estação avóndo , e em ponto centrico, correndo-se por diante do edifício desde o Terreiro do Paço, cmo alguem ja propoz, uma arcada que alargue o transito da rua do Arsenal para peões, sem ser necessario recorrer a qualquer construcção moderna especial.

Fotografia aérea, destaca-se o Arsenal de Marinha, 1930 — 1932.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Não são das menos desagradaveis coisas da enseada maritima de Lisboa, essas montanha pardas da Outra Banda, sem arvores nem casas, e de cujas vertentes a cada passo esbarrondam terras contra o mar.

De ha muito, n'outro pais, essa margem sinistra estaria embelecida e arborizada, cortando-se nas gredas soltas, tratos de terra plana onde correr caes e fazer installações, cintando de muralhões o resto, e escalonando até ao cimo as terras altas, para as encher de zigue-zagues de estradas, entresachados de residencias de campo ou grandes fabricas.

Lisboa — Vista de Lisboa e Tejo, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

A cordilheira nua, com meia duzia de cazebres branquejando no amarello ruim das gredas soltas, tem uma apparencia de Africa maldita que ignobilisa o panorama, encarióca a cidade, dando dos instinctos paysagistas do luso uma ideia das mais frigidas para o conceito d'europeu civilizado que elle se dá ares de merecer. (2)


(1) Almeida, Fialho de, Illustração Portugueza, Lisboa Monumental I, Lisboa, 29 outubro 1906

(2) Almeida, Fialho de, Illustração Portugueza, Lisboa Monumental II, Lisboa, 19 novembro 1906

sábado, 21 de junho de 2014

José Carlos de Melo

José Carlos de Melo nasceu a 25 de Maio de 1886, na quinta do Pombal, cultivada por seu pai, João Carlos de Melo.

José Carlos de Melo.

Tinha mais quatro irmãos, Augusto, o primogénito, duas irmãs, Amélia e Georgina, e o mais novo, de nome Arnaldo, que fora, sem favor algum, um dos melhores músicos de filarmónica nascidos em Almada.

Rapazes e raparigas com uma instrução acima da media, pois nesse tempo a percentagem de analfabetismo cifrava-se na casa dos 80%.

Gente amistosa e convincente. a quinta do Pombal foi cedida ao longo dos anos para piqueniques e convívios de associados de colectividades da terra.

Após o exame de Instrução Primária, efectuado na escola oficial de Conde de Ferreira (a única então existente), o pequeno José Carlos de Meio ficou como ajudante do velho e prestigioso Mestre Epifânio.

Escola Primária Conde de Ferreira, Almada, instituída em 1866.
Imagem: A Magia dos Livros...

Calmo, educado, dotado de extrema paciência e competência o jovem monitor realizou uma obra deveres significativa de alfabetização nesses longínquos anos da "Belle Epóque" em que raros decifravam o alfabeto.

A 27 de Julho de 1906 ingressa como amanuense na Câmara Municipal de Almada, onde se conserva por meio século, pois só se aposenta em 1956.

Almada. Rua Direita e Egreja de S. Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900
Imagem: Fundação Portimagem

De espírito conservador, uma vez burocratizado passou a entrar na secretaria da Câmara às onze horas, já almoçado, e saía muitas vezes às onze horas ou meia-noite.

Nunca teve férias ao longo deste meio século. Parece-nos ele que nunca esteve doente...

José Carlos de Melo por Leal da Câmara.

Muito jovem, tornou-se um homem associativo, trabalhando como director nas secretarias das mais variadas colectividades de cultura e recreio associações de Socorros Mútuos bombeiros voluntários e até em clubes desportivos.

Também as Juntas de Freguesia e a Misericórdia de Almada mereceram a sua colaboração ao longo de mais de quarenta anos.

Pertenceu igualmente a muitas e variadas comissões administrativas de colectividades.

Diziam os velhos almadenses, que o admiravam e o classificavam como o "homem que não tinha inimigos", que Zé Melo, o solteirão, recolhia todas as manhãs a casa quando batia à porta o padeiro...

É impressionante a lista de colectividades e instituições que este cidadão serviu por muitas dezenas de anos:

Na Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense foi várias vezes director, e de uma só vez permaneceu 25 anos no cargo de 1° secretario (secretário pela noite dentro, alumiado a candeeiro de petróleo, acrescente-se…);

Banda da Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense, 1925
Imagem: Restos de Colecção

Nos Bombeiros Voluntários de Almada, sócio fundador (26-8-1913), fazendo parte do seu corpo activo nos anos iniciais e prestando serviço na secretaria;

Almada, rua Capitão Leitão, aspecto de ataque a incêndio, 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Na Associação de Socorros Mútuos 1° de Dezembro, sócio durante meio século e director por quatro dezenas de anos, alternados;

No Ginásio Clube do Sul, sócio fundador (17-5-1920) e presidente da Direcção em 1922. (Possuía fardamento da colectividade, pagou quotas até ao dia da sua morte e usou sempre na lapela o distintivo do clube);

Na Misericórdia de Almada, secretário e por vezes dirigente ao longo de quatro dezenas de anos.

Nas Juntas de Freguesia, muitas e variadas comissões o tiveram nos seus corpos parentes.

Foi ainda secretario e colaborador de vários jornais publicados no concelho, com destaque para o Jornal de Almada (1ª série) fundado e dirigido pelo seu velho amigo Manuel Parada.

Há também outras colectividades nas terras de Almada que tiverem como sócio de toda a vida José Carlos de Melo, como a Sociedade lncrível Almadense, o União Sport Clube Almadense e o Clube Recreativo José Avelino.

Almada, Edifício do Cine Teatro Incrível Almadense, Mário Novais,1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Pertenceu igualmente a comissões disto e daquilo grupos excursionistas, iniciativas de solidariedade para acudir a cidadãos em precária situação física ou económica.

José Carlos de Melo foi das figuras mais populares e respeitadas do concelho de Almada.

Homem de honradez acima de qualquer suspeita, extremamente educado, quando atravessava as ruas da velha vila não havia ninguém que não cumprimentasse o sr. Zé Melo.

Namorou durante anos uma senhora da terra que adoeceu com gravidade. Muitos anos a namorou à beira do leito, pagando-lhe as visitas médicas e, por fim, o funeral.


Mais tarde, por volta de 1922, enamorou-se de outra senhora, esta residente no cais do Ginjal, Julieta Mercedes Correia, com quem se consorciou pelo São João de 1926. Tinha então 41 anos de idade.

Este namoro do cais para o 1° andar durou cinco anos, tantos quanto a espera para vagar uma casa em Almada, coisa que por esse tempo era também de extrema dificuldade.

Para além de todas estas múltiplas actividades, José Carlos de Melo vivia apaixonado, de tenra idade, pela história de sua terra.

Tudo que se relacionava com Almada, ele anotava, recortava, coleccionava.

Almada, edifício dos Paços do Concelho, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Durante dezenas de anos. o nosso biografado e o primo Luís de Queirós foram as pessoas que melhor conheciam Almada e seu termo.

Almada, rua Direita, década de 1890.
Imagem: Hemeroteca Digital

Ligado desde sempre a D. Francisco de Melo e Noronha, Manuel Parada e Raul Custódio Gomes, José Melo acalentou a esperança de colaborar numa Monografia de Almada.

Há muitos textos seus publicados no Jornal de Almada, 2a série, dirigido pelo Padre Manuel Marques, que termina com a sua assinatura, tendo por debaixo a indicação: Monografia da Almada, em preparação.

A sua morte, súblta, ocorrlda a 25 de Maio de 1960, dia em que completava 75 anos da idade, frustrou-lhe, todavia, os intentos.

Todo o seu espólio foi recolhido pelo sobrinho, Romeu Correia, autor desta série de pequenas biografias.

Romeu Correia, atrás, o segundo a contar da esquerda, praia da Margueira.
Fotografia: Mário da Cruz Fernandes, 1935.
Imagem: As Margueiras

Muitos dos seus vastos conhecimentos sobre o concelho se perderam, uma vez que não ficaram anotados.

Mas muito material seu serviu a outros compiladores, e estudiosos de Almada, uma vez que nunca negou a sua ajuda e colaboração a ninguém.

Dele disse, muito agradecido, o Conde dos Arcos (in Caparica Atrevés dos Séculos, pag. 88): "José Carlos de Melo, natural de Almada, funcionário da Câmara e bastante conhecedor da história de sua terra".

Augusto Sant'Ana d'Araújo, José Alaíz, António Correia e outros publicistas e estudiosos de Almada citam-no também com frequência.

O próprio jornalista, arquivista e bibliotecário do antigo Ministério das Obras Públicas, Albino Lapa (1898 — 1969), incumbido pelo então presidente da Camara Municipal de Almada nos anos quarenta, Comandante Sá Linhares, de realizar um inventário de livros e documentos existentes no Município teve em José Carlos de Melo o melhor colaborador, dizendo dele:
"Agora muito temos a louvar o auxilio que nos prestou o funcionário dessa Câmara José Carlos de Melo, que interessado e curioso sobre todos estes assuntos muito fez e há-de fazer que decerto amanhã a Câmara constituindo uma Biblioteca para leitura pública melhor pessoa não pode ser indicada para esse fim."

Por falecimento de seu pai, José Carlos de Meio herdou uma boa parcela de terreno da quinta do Pombal.

Uma parte fora expropriada pela Câmara de então para se edificar o bairro do Pombal, e por preço irrisório.

Cova da Piedade, vista aérea (detalhe), 1938.
Terraplanagens para a construção do Bairro das Casas Económicas (metade direita superior da fotografia).
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Quanto ao talhão restante, que incluía um prédio de 1° andar e uma adega, foi abusivamente anexado, e nele construiu a Câmara o pavilhão de Assistência aos Tuberculosos, sem sequer largar um tostão ou lembrar-se de lhe dirigir um simples obrigado.

Bairro das Casas Económicas, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Cibersul

E assim viveu — modesto, desprendido e utilíssimo — José Carlos de Melo, investigador e publicista da maior importância para o conhecimento de Almada e seu termo. (1)


(1) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.

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