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terça-feira, 26 de novembro de 2019

Brigue Pedro Nunes

O cahimento de hum navio no mar, hé o acto mais solemne que tem a marinha, e sem entrarmos agora nessa demonstração, conhece-se desde logo a sua importância e belleza, pelo afan com que o publico em todos os paizes do mundo civilisado concorre a presencia-lo attrahido por quantas maravilhas o mesmo acto, e o navio comprehendem. 

Brigue Pedro Nunes, João Pedroso Gomes da Silva, 1857.
Palácio Nacional da Ajuda

Com effeito a scena da fuga, ou ausência daquelle volume inerte e pesadíssimo, que se move como animado de força própria, ou impellido por mãos de fadas, hé tão singular, e produz na alma sensações tão gratas e novas, apesar de esperadas, que nos extasiam. 

Por pequeno que hum navio seja, hé sempre grandíssimo em relação ao individuo (homem) que o ha de tripular, e fazer mover pelo mechanismo da roda do leme que o ajuda a dar-lhe direcção: duzentas toneladas, por exemplo que hé só a parte que hum pequeno navio immerge, corresponde ao volume e peso de dois mil e seiscentos homens; e hé hum homem só, nesse acto do lançamento ao mar, que parece dar-lhe o primeiro impulso, para a carreira que o leva a fender o fluido que o ha de sustentar na posição conveniente ao seu arriscadíssimo e aventuroso serviço.

Na sua carreira fumegante, como que se despede para sempre da terra que o vio levantar-sc pouco a pouco d'entre hum montão de madeiros dispersos a destacados, sem figura alguma regular, até ao admiravel aggregamento delles, que, á primeira vista nada tem de commiim entre si, e donde resulta a final aquelle composto das mais bellas formas, das mais graciosas linhas curvas em tão diversos planos, dos contornos mais elegantes e variados, que apresenta o lindo casco de hum navio bem construído; onde só ha de rectilinea a quilha, na construcção moderna, pois na antiga era esta também curva: 

"Que a morte intimam com fragor horrendo, 
De longe ás curvas quilhas." 

como descreve o nosso Diniz [Ode a Vasco da Gama].

Que esmero no calafeto do fundo, que segurança no cavilhame das cavernas e braços, na pregadura do costado, e do forro impermeável ao filtramento de qualquer gola d'agua; que união nas taboas do convés e cobertas, que meio engenhoso e solido de fixar os váus, dormentes, e trincanizes?!

Como de tantos milhares de partes disparatadas e heterogeneas, se compoz hum todo movel em todos os sentidos, invariavel na sua forma, qualquer que seja a posição que occupe, e resistindo ao choque poderosíssimo das ondas encapelladas sem se desconjunctar?! 

Admirável cousa na verdade, e tanto mais admirável, quanto mais se medita na perfeição e complexo desta machina chamada navio, onde todas as artes, e sciencias que a industria e intelligencia humanas imaginaram, são necessárias para o acabamento e desempenho a que se destina.

Navio de guerra disse o imaginativo creador da Revolução de Setembro, era em si "idéa, espada e caminho"! Sim, hé "idéa, espada e caminho"; e só a sua idéa podia compor esta definição que resume quanto o mesmo navio significa, tripulado e conimandado por quem entenda e falle correctamente a lingua do militar marítimo.

Brigue Pedro Nunes (detalhe), João Pedroso Gomes da Silva, 1857.
Palácio Nacional da Ajuda

Dois navios de guerra, pois, ainda que pequenos, cahiram no dia 21 de junho de 1850 ao mar, dos estaleiros do arsenal da marinha de Lisboa, em presença de milhares e milhares de espectadores!

O menor delles que hé a escuna Angra riscada pelo sr. Moraes, parece-nos poder desde já affirmar que ha de servir bem e nobremente ao seu fim; quanto ao de maior lote, o brigue Pedro Nunes aguardaremos as provas que a experiência der, para fazermos juizo do seu mérito como navio de guerra. 

No entre tanto, mais doas flâmulas portuguezas tremularão nos seus topes por esses mares, e talvez vão ainda a remotas plagas mostrar de novo a intrepidez e sabedoria que n'outras eras tanto distinguiram os Vascos da Gama, os Joões de Castro, os Antonios Galvões, os Farias, e os Magalhães. 

Talvez, dizemos nós, porque não hé só nos grandes navios que se realisam navegações arriscadas, nem tão pouco só nas batalhas de muitas náos e fragatas que se mostra a valentia e audácia dos. homens de guerra, como bem o demonstrou o capitão Pevrieux na noite de 16 de agosto de 1801 a bordo da canhoneira Volcan contra Nelson no ataque de Boulonha, e o nosso destemido Quintella na curveta Andorinha contra a fragata franceza Chiffonne perto da Bahia no dia 19 de maio de 1801.

Cabimento do Pedro Nunes e da escuna Angra.

— Relatando porém o facto de hoje, diremos que ás duas e três quartos da tarde, que era a hora do preamar, deviam estes dois navios cahir na agua, mas como se esperasse por El-Rei até ás quatro, e a maré começasse a baixar, sem que o mesmo senhor apparecesse, permittio Sua Alteza o sr. Infante D. Luiz que o brigue Pedro Nunes partisse em quanto podia nadar; e com effeito elle escorregou admiravelmente pela carreira, deixando os milhares de espectadores maravilhados do modo por que fez aquelle trajecto, e fluctuou sobre as aguas do Tejo que tão fagueiras lhe lambiam o costado. 

Pouco depois chegaram Suas Magestades, El-Rei e seu augusto pai com toda a real familia que assistiram ao cahimento da escuna Angra, a qual ainda mais veloz que o Pedro Nunes levantou pelo attricto dos cachorros na carreira, hum fumo immenso, efendeo as aguas do mesmo Tejo, com huma velocidade de 10 a 12 milhas, cercando-se de cachões de espuma alvíssima que a rapidez do sulco produzio. 

O corpo de marinheiros da armada com a sua musica, achava-se postado entre os dois estaleiros com a frente para o mar, a companhia de guardas marinhas com correias, armas e bandeira fazia a guarda de honra a Suas Magestades, como em tão solemne acto sempre se praticou; o arsenal estava apinhado de curiosos de ambos os sexos e de todas as classes e jerarchias; o reducto da inspecção, era occupado pela corte e ministros estrangeiros com suas famílias; no cáes da mesma inspecção havia hum toldo e cadeiras para os altos funccionarios e membros das camaras legislativas; as janellas da sala do risco e da escola naval foram offerecidas e franqueadas a muitas senhoras que as adornaram com a sua presença e beldade, terminando a funcção ao aprazimento de todos, e sem o menor transtorno ou desgosto, o que hé de bom agouro para os navios que lhe deram causa, e aos quaes desejámos o melhor e mais patriótico futuro. (1)

Brigue Pedro Nunes (detalhe), João Pedroso Gomes da Silva, 1857.
Palácio Nacional da Ajuda

Nascido em 31 de outubro de 1838 [o infante D. Luiz], um anno depois do senhor D. Pedro V, e obedecendo á vocação precoce, assentou praça na armada aos oito annos de idade, e foi nomeado guarda marinha em 9 de outubro de 1846.

Promovido ao posto de segundo tenente em 19 de maio de 1851, ao de capitão tenente em 29 de outubro de 1854, e ao de capitão de fragata em 24 de março de 1858, encetou com menos de vinte annos a vida do mar, assumindo em 12 de setembro de 1857 o commando de brigue Pedro Nunes, e cruzando na costa de Portugal desde o dia 18 de janeiro do seguinte anno, sujeito em tudo como simples official ás obrigações e á responsabilidade do serviço naval. (2)


(1) Joaquim Pedro Celestino Soares, Quadros navaes, 1861
(2) Coroa poética no consorcio de suas magestades fidelissimas... 1862

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A muleta de pesca, por A. A. Baldaque da Silva

Um desenho bem simples e genuinamente portuguez: A muleta de pesca, deslisando á superficie das aguas, desfralda ao vento as ponteagudas vélas e deixa ver a seu bordo os arrojados tripulantes, ao longe descobre-se a linha da terra, e no ultimo plano accumulam-se os tons da atmosphera.

Muleta junto ao Cabo da Roca, João Pedrozo (1825-1890).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Quantas idéas, porém, desperta este singelo quadro a quem sobre elle attenta!

Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemeroteca Digital

O barco, como assumpto principal, representado no seu conjuncto pelo casco, leme, mastro, vergas, cabos e vélas, synthetisa a arte nautica, que arrancou ao engenho humano um domicilio e um meio de transporte no vasto liquido que cobre o globo, assegurando a existencia e o isolamento d'aquelles que lhe confiam as suas vidas;

o mar, elemento magestoso e profundo, repleto de mysterios e tempestades, lança no espirito de quem o contempla uma preoccupação vaga, mistura de receios e encantos, que provoca á meditação;

os pescadores, nas suas melancholicas attitudes, fazem recordar as desoladas familias, que deixaram nos lares em afervorada prece, unico amparo que lhes fortifica os animos; a terra, ao longe, aviva a saudade, conduzindo á reminiscencia do passado;

e a atmosphera limita o pensamento, não permittindo sondar o espaço indefinido, que a imaginação intenta traspassar, em poderoso vôo.

D'esta multidão de idéas associadas e impressões commoventes, resulta um amplo quadro, delineado em um sem numero de motivos, que o tornam complexo e grandioso.

Já o mar, impellido pelo vento, encrespa a superficie; monticulos de plumbeas vagas, recortadas por franjas de branca espuma, balouçam a muleta, que completamente alagam, fustigando ao mesmo tempo os tripulantes, que ensopam até á medula.

O aspecto carregado do céu atemorisa os pescadores; ouvem o ranger do apparelho, sibilando gemidos que entibiam os animos; e, ora fortalecidos pela experiencia de longos annos, ora sobresaltados pela lembrança das mães, mulheres e filhos, que ficam ao desamparo, proseguem na dura faina.

Entra a vaga com furia, destruindo a borda; rasga-se a véla grande; está o barco desmastreado; pesada nuvem despejou em catadupas a abundante agua que transportava; exgotam á força de braços energicos e possantes o liquido que faz adornar a muleta; desenrascam o mastro e a véla, e aguardam serenamente o destino que a providencia divina lhes reserva.

Mas, já descobre o céu velho, tinto de azul escuro, velado, em grande parte, pelos vapores esbranquiçados que correm suspensos no ar. Um primeiro raio do sol, e, em seguida, todo o feixe luminoso, bate em cheio no maravilhoso quadro, illuminando os tons, aquecendo as côres, e dando vida e alento aos tripulantes. 

O vento amainou; a ondulação vae diminuindo pouco a pouco de amplitude; os pescadores sacodem os encharcados fatos, e preparam o mastro e o panno. Já verdeja a collina e rescende o perfume da vegetação marginal; as mães riem para os filhos, que fazem saltar nos braços, e os pobres operarios do mar sentem nova vida invadir-lhes o endurecido organismo.

Muleta no rio Tejo, Luis Ascêncio Tomasini,  1881.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Entre os variados typos de embarcações portuguezas, possue certamente um original sabor artistico a "muleta" usada pelos pescadores do Seixal e do Barreiro, para o lançamento da muito antiga rede de arrastar a reboque pelo fundo, denominada "tartaranha".

A muleta tem o fundo largo e chato; a proa, excessivamente boleada, remata em arrufado be-que; a popa, muito inclinada, recua em cima; caracteristicos estes que, juntos ao grande amassa-mento dos flancos, dão ao casco o aspecto de uma tosca naveta normanda do seculo XIII.

Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemeroteca Digital

O apparelho da muleta compõe-se de um mastro, muito inclinado para vante, onde iça a verga de uma véla grande triangular, latina, e de dois compridos paus, denominados batelós, deitados pela proa e pela popa, que servem para amurar e caçar as outras vélas, e, ao mesmo tempo, para nas extremidades amarrarem os cabos que seguram a rede, quando esta funcciona.

Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemeroteca Digital

Á ré, caça no extremo do batelós um triangulo, que iça na penna da véla grande, denominado varredoura de cima, e, por baixo, outro, a varredoura de baixo; e em estaes que vão da cabeça do mastro pai:a a roda de proa e para o batelós de vante, içam umas seis a sete pequenas vélas, chamadas toldos, muldins, varredoura e cozinheira, que, segundo o seu numero, compensam o effeito das vélas de ré, quando a embarcação se mantem atravessada, durante a pesca.

As muletas largam a rede proximo da emboccadura do Tejo, no começo da enchente, e, mareando o panno, vão caindo ao longo da costa da Trafaria e margém do sul, montando o pontal de Cacilhas e continuando a derivar pelo Mar da Palha, até terem completado o lance, recolhendo então a rede, e apanhando o peixe que vem no sacco.

Uma fragata inglesa de través frente à margem sul do Tejo com pequenas embarcações nas proximidades, Joseph, ou Giuseppe, Schranz, depois de 1834.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Outras vezes, arrastam fóra da barra, desde o largo até á enseada de Entre Cabos. Este typo de embarcações vae acabando, a ponto de actualmente existirem apenas duas. Tem sido substituido pelos modernos bateis, que pescam pelo mesmo systema.

No museu de archeologia naval de París, ha um modelo reduzido da nossa muleta, que o ministerio da marinha offereceu áquelle estabelecimento; e mais dois outros modelos figuram nas collecções da escola naval, e do museu marítimo da escola industrial Pedro Nunes, de Faro.

Muleta, modelo da Escola Naval que pertenceu ao Museu de Marinha (1896).
Imagem: Internet Archive

A rede tartaranha, empregada pela muleta, consta de um sacco com malha muito miuda, alargando para o lado da bôcca, onde ligam duas bandas de rede, muito compridas e estreitas, na extremidade das quaes amarram os cabos que sustentam o apparelho dentro de agua, e que recebem o nome de alares.

O sacco tem duas costuras convergentes, prendendo a face de cima á de baixo, formando uma garganta afunilada e dois cantos triangulares, denominados beliches, onde o peixe se accumula sem poder sair, na occasião de suspender a rede. A tartaranha constitue uma variedade muito notavel das artes de arrastar, sendo em Portugal unicamente empregada pelos pescadores do Seixal e do Barreiro.

Velame do bote-da-tartaranha: 1. Varredora de cima; 2. Varredora de baixo; 3. Grande; 4. Pano da vara; 5. Polaca; 6. Varredora da proa; 7. Cozinheira; 8. Cozinheira; 9. Toldo.
Imagem: Maria Lucia De Nicolò, Tartane cf. E. Curtinhal, Barcos, memórias do Tejo, Ecomuseu Municipal do Seixal 2007

Imagine-se este phantasma colossal, com o enorme ventre dilatado, a bôcca escancarada, os braços estendidos, movendo-se no abysmo oceanico, engulindo milhares de seres differentes, e esmagando, com o pesado corpo, tudo que encontra na sua devastadora digressão pelo fundo.

A acção destruidora deste gigantesco engenho do mal exerce-se sobre a vegetação submarina; sobre os ovulos e germens das mais preciosas especies, que nas plantas encontram auxilio para o seu desenvolvimento embryonario; sobre a fauna e flora, que servem de alimento ás especies novas e adultas; e sobre a propria colheita, que, na maior parte, fica inutil para qualquer applicação proveitosa.

O damno causado por estas redes, tem dado logar á promulgação de diversas medidas repressivas do seu exercicio, desde 9 de abril de 1615, data do primeiro alvará que as prohibiu por tempo de oito annos, para favorecer os pescadores do alto, da cidade de Lisboa, contra os que pescavam com as ditas redes, procurando remediar a falta de pescado, que attribuiam ao uso das tartaranhas. 

E, como a arte, na sua progressiva evolução, nem sempre dá resultados beneficos, acontece que este systema de exploração dos seres que habitam as aguas, se tornou ainda mais nocivo com o emprego da navegação a vapor no arrastamento do immenso sacco, imprimindo-lhe maior velocidade e intensidade de acção, motivo por que o decreto de 30 de julho de 1891, confirmando a previsão do velho alvará, estendeu a prohibição ao moderno arrastão, rebocado pelos vapores de pesca.

A muleta de pesca, pela sua fórma exquisita e pittoresca, e pelo gosto artistico que revela, tem sido representada em modelos, desenhos, gravuras e aguarellas, merecendo a predilecção de muitos admiradores da sua belleza, entre os quaes se contam o finado Rei D. Luiz, El-Rei D. Carlos, o almirante Páris [François Edmond Pâris (1806-1893)], Pedroso, Pinto Basto, Camacho, Vaz, Casanova, o auctor destas linhas, e o sr. R. Monleon [Rafael Monleón y Torres], de quem são os bellos desenhos que acompanham este artigo, e que representam as mais minuciosas particularidades do casco, apparelho, velame e accessorios, da muleta.

Marinha, Muleta, D. Carlos de Bragança.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Que bellas applicações se podem fazer da muleta de pesca na ourivesaria, na ceramica, na tapeçaria, e em muitas outras artes uteis e decorativas!

A fórma do seu casco dá esplendidamente, imitada em porcelana ou barro, uma admiravel terrina ou saladeira, e um elegante centro de mesa ou floreira, com especial aspecto maritimo, genuinamente portuguez. Em marmore, pôde modelar-se com ella um lindo tanque ou baptisterio, de puro estilo nautico nacional. Tem desusada e significativa applicaçáo o desenho da muleta no lavor central de um tapete, alcatifa ou cortinado. Em oiro, prata, bronze ou ferro, ou pela combinação e entrelaçamento d'estes me-taes, quantos objectos de arte se podem conseguir com a fórma ou delineamento geral da muleta de pesca?!

Ilustração de Rafael Monleón y Torres (1840-1900).
Imagem: Hemeroteca Digital

Carecemos tanto de um estylo genuinamente caracteristico da nossa feição especial de povo de navegadores, cheio de tradições maritimas, perpetuadas em poemas sublimes e monumentos grandiosos, que é forçoso reunir, e methodisar em formulas praticas, os elementos simples e as concepções geraes, que devem orientar o nosso gosto artistico na composição dos productos da industria nacional. 

A arte portugueza não pôde desenvolver-se sem conseguir este desideratum.

Campolide, 16 de março de 1895 (1)


(1) A. A. Baldaque da Silva, Muleta de pesca, Arte Portugueza n.° 5, 5 de Maio de 1895

Artigo relacionado:
Jimmy Green's, a muleta do Tejo

Informação relacionada:
Fernando Gomes Pedrosa, A Muleta e a Tartaranha (séculos XV-XX)

Maria Lucia De Nicolò, Tartane

Leitura relacionada:
Léopold Folin, Bateaux et Navires (...), Paris, J.-B. Baillière et fils, 1892

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Almada, O Panorama, 1841

A Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis foi criada em Fevereiro de 1837, sob os auspícios da rainha D. Maria II.

Lisbonne vue du vieux port, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: LMT no Facebook

O lançamento de uma publicação semanal, propagadora de conhecimentos uteis, terá mesmo sido o objetivo que despoletou [espoletou] a constituição da Sociedade, conforme faz noticia o Diário do Governo, de 21 de Fevereiro de 1837:

"O louvável fim da Associação, que se propõe publicar este periódico [O Panorama], compreende-se em poucas palavras: ensinar o Povo, para que elle seja menos acelerado ou menos violento em suas opiniões e oferecer-lhe a instrução por modo que ella possa chegar ao seu intendimento [sic] e a sua bolsa; isto é, fácil e barata." (1)

Vista de parte de Lisboa tomada do alto d'Almada, 1841.
Imagem: Hemeroteca Digital

Quantas vezes fallar-mos de Lisboa, hade ser com elogios! — Dirá alguem, que não viu esta formosa capital, que o amor nacional nos faz exagerados — mas, para testemunhas não equivocas da verdade, ahi estão esses escriptores estrangeiros, apaixonados por suas terras e orgulhosos como eram , que pondo mil defeitos no pobre Portugal, não podaram resistir á convicção, e descreveram Lisboa, por sua posição e porto, como a rainha entre as cidades da Europa, que gozam a preeminencia de cabeças de seus respectivos estados.

Panorama de Lisboa, Edward Gennys Fanshawe, 1856.
Imagem: Royal Museums Greenwich

Link [Heinrich Friedrich], com a sua má lingua, que entretido a colher plantas, olhava pouco para os costumes da nação e por isso mentiu tão superficial e descaradamente; o inglez Murphy [James Cavanah], pessoa de rasão mais imparcial, todo embevecido em obras d'arte, por sua profissão d'architecto; Châtelet [Louis Marie Florent Du,], Kinsey [Rev. William Morgan,] e outros confessaram quanto era bella e magestosa a séde da monarchia portugueza.

Belem Castle, Rev. William Morgan Kinsey, Portugal Illustrated in a series of letters, 1827.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Das eminencias, que a circumdam, são deleitosas e variadas as vistas que offerece ao espectador; transportai-vos porem á margem meridional do Tejo, e dos outeiros, que a guarnecem , olhai para a nossa cidade, e desfructareis novas e interessantes perspectivas.

A predilecção que os habitantes de Lisboa manifestam pelos passeios á outra-banda, talvez se fundamente no regozijo que infunde n'alma o delicioso aspecto da nobre povoação, onde por horas deixaram seus lares domesticos.

Em alto fragoso está assentada a villa de Almada; podemos dizer que a edificaram em cima d'um penedo. Como sentinella avançada olha respeitosa e vigilante para a sua capital, que na margem do norte se dilata com belleza e magestade.

Lisbonne , vue du fort d'Almeida [sic] .  
Hugo, Abel, France militaire, Histoire des armées françaises de terre et de mer, de 1792 à 1837, Paris, Delloye, 1838, 5 vols.

Ao redor d'Almada ficam precipicios, mas daquellas alturas tamhem se avista a foz do Tejo; e em frente desde o bairro de Belem até o convento de Santos-o-Velho; se estende Lisboa com a sua compacta população: dalli, apenas ladeando no ponto que occupa o espectador avista os togares d'Amora, d'Arrentella os paços d'Azeitão, a eminencia de Palmella; o Seixal, o Barreiro, terras quasi exclusivamente de pescadores; Lavradio, acreditada por seus generosos vinhos; Aldêa-gallega, sitio de frequentíssimo transito, Alcochete e outras; e tambem se divisa o castello da piscosa Cezimbra, como lhe chamou Camões.

Almada, com o seu castello no sitio mais elevado, foi (ao que dizem alguns) fundada pelos inglezes, que entraram o Tejo na armada do norte de Guilherme, o da longa espada que tanto auxiliou D. Affonso Henriques na tomada de Lisboa: contam que este nosso ínclito monarcha doára este districto aos que desistindo da cruzada á Palestina, a que se destinavam, preferiram ficar em nossas terras referem mais que estes primeiros povoadores lhe pozeram o nome de Vimadel [Monarchia Lusitana, tomo 3.°, livro 10, cap. 27], que em sua lingua significava povoação de muitos; porém que, possuindo-a de novo os mouros, foi tirada do domínio destes por um cavaleiro, do appellido de Almada descendente dos primeiros que com esta denominação de sua familia fixou o da povoação.

Guilherme, o da longa espada (William Duke of Normandy), detalhe da tapeçaria de Bayeux, c. 1070.
Imagem: Wikipedia

Ha quem diga que um arabe, por nome Almadéz ou Almadão a fundára: porém nestas controversias d'etymologias, de ordinario ou vagas ou falsas, não queremos entrar e deixamos a escolha ao arbitrio dos leitores, em quanto não houver quem as assente de forma incontestavel.

Sabemos que D. Sancho 1.° deu foral á Villa d'Almada, e fez della doação aos cavalleiros da ordem militar de S. Tiago em 1187, e que D. Diniz a encorporou na Corôa, dando em troca á dita ordem as villas de Almodovar, e Ourique com os castellos de Marachique e Aljesur.

— As suas duas parochias, a de N. S.a d'Assumpção, vulgo Santa Maria do Castello, e de Santiago, são de remota data: a casa da Misericordia fundou-se n'um hospital instituido pela infanta D. Beatriz mai d'elrei D. Manuel.

Os seus arredores são cobertos de quintas e fazendas rendosas, onde se cultivam os generos, que fazem a abastança do nosso paiz: familias nobres e ricas ahi tinham e muitas, conservam hoje apraziveis vivendas.

Lago do Antelmo — Alfeite, João Ribeiro Cristino, 1883.
Imagem: Veritas leilões

Dos mananciaes nas visinhanças de Almada faz menção o Dr. Francisco da Fonseca Henriques no seu Aquilegio medicinal, e diz que a agua da fonte do Alfeite, chamada a biquinha, era excellente, usada contra os achaques de dor de pedra, e areias da bexiga.

A Fonte da Pipa, que de Lisboa se está vendo, é notavel pela bondade e abundancia das aguas, de que se refazem os navios para suas viagens; e tem contigua uma pequena praia, como a fez a natureza, sem artificio algum, mas que é uma especie de portinho, capaz de conter dezoito lanchas.

Almada, Olho de Boi, Fonte da Pipa, 2015.
Imagem: Pedro Ramos

O logar de Cacilhas assente á beira d'agua , numa quebrada entre os outeiros, pela qual se prolonga para o interior, é como um porto d'Almada, com seu caes de segura cantaria, principalmente frequentado dos barcos e pessoas, que transitam de uma para a outra margem.

Cacilhas vista do Tejo, gravura xilográfica, João Pedroso, 1846
Imagem: revista O Panorama, n° 18, 1847 [*]

Se deixarmos a villa no alto, e caminharmos á esquerda depois do desembarque, iremos dar á Cova da Piedade onde ha uma ermida, em que houve noutros tempos um pequeno recolhimento; o rocio adjacente foi celebre pelas festas que se faziam em repetidas romarias, e agora ainda mais o é depois da memoravel batalha do dia 23 de Julho de 1833.

Frontespício do Compromisso da Irmandade da Virgem Nossa Senhora da Piedade sita na ermida de S.Simão de Mutela termo de Almada.
Ordenada no ano de 1606.
Imagem: Rui Manuel Mesquita Mendes

No districto d'Almada fica a Torre-velha, ou de S. Sebastião de Caparica assim apellidada dos nomes de um lugarejo proximo, e do fundador, elrei D. Sebastião: está fronteira á outra torre de S. Vicente de Belem, fechando esta garganta, que é das mais estreitas paragens do rio; como encerram a foz as outras fortalezas, de S. Jultão, e de S. Lourenço ou do Bugio. Póde jogar artilharia ao lume d'agua, mas não é defensasel do lado da terra, por isso que lhe fica sobranceira uma altura muito visinha.

A frota francesa commandada por Roussin força a entrada do Tejo, Pierre-Julien Gilbert, 1837.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo

No termo da villa ha muitos lugares; alguns bastante apraziveis pelas quintas de que são cercados: por duas especiaes circumtancias mencionaremos dois delles.

— O lugar da Amora, em sitio desafrontado e ameno, tem uma freguezia do orago de  N. S.a do Monte Sião; dizem os P.es Carvalho e Fr. Agostinho de St.a Maria ser a unica desta invocação que ha nos paizes catholicos da Europa. A aldeia de Payo Pires, que erradamente chamam de Pai Pires, deve o nome ao seu donatario, o esforçado D. Payo Pires [ou Peres] Correa, que libertou o Algarve do jugo mourisco, e tem honrada memoria em nossas antigas chronicas.

Vista da Amora, Tomás da Anunciação, 1852
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Em Almada nasceu, residiu por muito tempo, e morreu o erudito Diogo de Payva d'Andrade, sobrinho, auctor do poema epico em verso latino, Chauleidos: de quem diz o P.e Antonio dos Reis, em um dos epigrammas do "Enthusiasmo poetico", que "extrahindo os sons da tuba altisonante, e cantando, infundira espanto ao rochedo d'Almada." Cantantem pavilans extimuit Almadica rupes. (2)


(1) O Panorama, Ficha Histórica, Hemeroteca Digital
(2) O Panorama, n° 204, vol. I, Lisboa, Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, 27 de março de 1841.

Bibliografia estrangeira referida:
Link, Heinrich Friedrich, Voyage en Portugal, Paris, Dentu..., 1808
Murphy, James Cavanah, Travels in Portugal... 1789-1790: with plates, London, A. Strahan, 1795
Châtelet, Louis Marie Florent Du, Voyage Du Ci-Devant Duc Du Chatelet, En Portugal... Tome 1, Paris, F. Buisson, 1797-1798
Châtelet, Louis Marie Florent Du, Voyage Du Ci-Devant Duc Du Chatelet, En Portugal... Tome 2, Paris, F. Buisson, 1797-1798
Kinsey, Rev. William Morgan, Portugal Illustrated, London, Treuttel, Würtz, and Richter..., 1828

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A falua do Bugio

José António Rocha casou com D. Ermelinda Maria Madalena Lopes Rocha, neta do muito conhecido e não menos famoso "patrão Lopes", de Paço de Arcos, de cujo matrimónio houve os seguintes filhos: João, Manuel, Domingos, José António Rocha Júnior, Carlos, Ermelinda, António, Ana, Vasco e Quirino; (1)

Trafaria, Vista parcial e estrada da Costa, ed. J. Quirino Rocha, 2, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Joaquim Lopes (1798-1890)

Nem só os homens que illuminam o mundo com descobertas scientificas beneficiam a humanidade. Eguaes, se não superiores, serviços prestam tambem aquelles que enxugam as lagrimas dos desgraçados, e salvam os afflictos dos perigos que os roubariam á vida, ao amor, e á felicidade da familia. Estes, além de admirar a intelligencia pela raridade da abnegação e heroicidade da coragem, tocam e purificam o coração [...]

Patrão Lopes, Archivo Pittoresco, 1859.
Imagem: Hemeroteca Digital

Grande satisfação é ver correr o nome nas azas velozes da fama por todo o orbe terrestre; mas muito maior deve ser a que se experimenta ao sentir o peito banhado pelas lagrimas e fervorosamente apertado pelos abraços do reconhecimento de um homem que nos agradece a salvação da sua vida e do amor, porque toca os extremos do gozo espiritual, e é filho da maior homenagem que se pôde prestar a um ser humano, que o assimila a Divindade. Deixando-nos, pois, guiar pela gratidão e pela justiça, traçamos o retrato biographico do humanitario Joaquim Lopes.

O intrepido maritimo, o ousado nadador, e inexcedivel amigo da humanidade, que tantos naufragados ha salvado das ondas famintas que banham os escolhos da barra de Lisboa, nasceu em Olhão a 19 de Agosto de 1798, e é filho de Francisco Lopes, pescador e de Rosa Maria.

Aos seis anos de edade entrou na eschola, onde prendeu a ler e escrever, como se póde aprender uma eschola em Olhão. Como, felizmente, ainda não chegou aos pescadores a monomania de metter os filhos na universidade e Coimbra, e quando mesmo houvesse chegado, lhe faltariam os meios, o nosso joven algarvio saiu, aos dez annos, da eschola para cultivar com seu pae arte da pesca, onde, mais tarde, devia adquirir esse ;afiliar conhecimento da barra de Lisboa, a que desde o triumpho dos  nobres arrojos que o recommendam á gratidão da humanidade.

Naufrágio de embarcação com bandeira portuguesa, Luis Ascêncio Tomasini (1823 - 1902), 1880.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

N'esse tempo, Joaquim Lopes não pensava senão em ser pescador dos largos mares, e, sobre tudo, rico. Porque mui pouco lucrativa era a pesca nas costas do Algarve, pediu a seus paes que o deixassem ir exercel-a em Gibraltar, para onde, com effeito, partiu; mas, tendo-lhe a sina decretado á nascença lhe só seria rico e bem succedido pelos dotes inexcedivelmente elevados do seu coração e da sua alma, não foi ahi mais feliz, e regressou á patria, mallogrado nos seus intentos, 11 mezes depois.

Então, parece que a Providencia, querendo representar-se por um homem nos perigos que as tempestades arrojam á barra de Lisboa, o aconselhara a ir para as canóas de pesca de Paço d'Arcos. Foi n'estas canóas que Joaquim Lopes, dotado do nobre estimulo da distincção pelo proprio merito, fez, como elle diz, um estudo particular da barra, e se tornou, em mui pouco tempo, o mais profundo conhecedor dos baixos, chamados cachopos, que a marginam.

Paço d'Arcos, Vista parcial, ed. Alberto Malva/Malva & Roque, 113, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Estamos ás portas d'esse futuro que abriu ao nosso vencedor das tormentas uma vida, não de interesses materiaes, mas de triumphos e glorias. Tão honrado, affavel, sincero e leal para com seus companheiros, quanto intrepido e habilidoso na navegação da barra, Joaquim Lopes conquistou de rapido um nome duplamente prestigioso, e, em breve, pela fama, o procuram para remador da falua do Bugio, lugar que acceitou em 1820.

A datar d'esta epocha não temos a folhear na sua vida senão paginas de amor e heroismo. A primeira que a sua humanidade e coragem lavraram foi em 29 de julho de 1823.

Assistia Joaquim Lopes a uma funcção religiosa na quinta do Arieiro, proxima ao rio da praia de Oeiras, o qual, n'esse dia, por ter a bocca obstruida pelas areias, formava pela terra dentro uma larga lagoa, em alguns pontos caudalosa, quando sentiu um grande alarido entre o povo, e, attentando, viu que era por causa de um homem que, atravessando a dita lagoa com um rapaz, seu irmão, ás costas, e, tendo-lhe faltado pé, largara a pobre criança, para só tratar de salvar-se.

— "Assim que deparei com similhante scena ", diz elle, "parece que a Divina Providencia me deu um rasgo tão forte no coração, que mesmo vestido e calçado me lancei á agua, e fui na direcção do desgraçado mancebo."

Inda assim, todos reputaram perdida a victima, quando a viram afundar-se. Mas Joaquim Lopes não descrê: prosegue com mais velocidade, ganha n'um momento a distancia de uns trinta passos, que tanto faltava para chegar ao logar fatal, e ali desapparece. Succedem alguns instantes de pavoroso silencio, durante os quaes o grito da consternação pende, apenas, dos labios dos espectadores receiosos. 

De repente, dois vultos assomam ao lume d'agua: é Joaquim Lopes que, segurando com o braço esquerdo a criança, ja meia moribunda, nada para a terra com o fogo da alegria scintillando-lhe nos olhos! 

Não termina, porém, aqui, esta verdadeira epopéa. Depois dc ter posto o infeliz em terra, lança-se outra vez ao rio para salvar o outro, prestes a afogar-se lambem; e, não obstante haver excedido as forças, o estorvo e peso enorme que o fato encharcado lhe o seu nado é ainda ligeiro, activo, veloz. 

O resultado não foi menos triumphante, e, a uma hora, Lopes volvia a folgar na festividade, por entre os abraços freneticos dos seus amigos e enthusiasticas saudações do povo. 

Folheemos.

Pouco tempo depois, estando o nosso heroe na torre do Bugio, uma onda envolve um cabo de artilharia que passava de uma cabeça d'areia para a fortaleza.

— "Joaquim Lopes! Joaquim Lopes!"

Foi o brado de soccorro que a um tempo rebentou logo nos labios de seus companheiros. Tão expedito na reflexão, como corajoso e humano, Joaquim Lopes toma immediatamente um cabo, deixa uma das pontas d'este nas mãos dos seus companheiros, lança-se ao mar, e, conseguindo segurar a victima, amarra-a por debaixo dos braços, grita aos collegas que a puxem, e amparando-a, ao passo que nadava, assim consegue salval-a. 

Pela mesma forma livrou do abysmo das ondas, em 1828, um sargento de veteranos, por nome Francisco de Sales.

A 18 de maio de 1833 fallece o patrão da falua. Segundo a lei, o logar pertence ao mais antigo dos remadores; mas sendo estes chamados pelo governador para darem o seu voto sobre o novo patrão, a eleição recae unanime e acaloradamente sobre Joaquim Lopes, não obstante ser o mais moderno. 

Falúa, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Esta rara cedencia dos direitos adquiridos significou como a consagração da alliança das forças para emprehender os actos de incrivel coragem e temeridade, cujos principaes vamos admirar. 

Em 16 de fevereiro de 1856, ás tres e meia horas da manhã, encalha, no baixo de Alpeidão, a escuna ingleza Howard Primrose Primrose.

O mar debatia-se horrivelmente, e parecia querer, no galgar furioso das suas vagas, engulir as proprias nuvens, que pela atmosphera corriam, como se fugissem, com a velocidade do raio. Quando as torres davam o signa] de soccorro, já o intrepido Joaquim Lopes, que está constantemente com um oculo, qual sentinela vigilante da humanidade, a revistar da sua casa, d'onde descobre a barra toda, os perigos que ahi, auxiliados pela violencia da tempestade, esperam, traiçoeiramente occultos nas ondas, o perdido navegador, exclamava á guarnição da falua:

— "Vamos salvar nossos irmãos! O mar é muito! mas os homens inspirados pelos sentimentos de Deus tem tanta força como elle!" E, largando de Paço d'Arcos, ia caminho do sinistro. Mas, chegados ahi, uma dificuldade invencivel zomba d'essa força: a falua não pôde navegar sobre o baixo, e, portanto, aproximar-se dos infelizes naufragados que, subidos nas enxarcias, viam,a seus pés, o navio despedaçar-se e absorver-se de mais em mais nas ondas embravecidas, e, a pouca distancia, retirar-se, por impotente, o unico recurso onde haviam chegado a conceber salvação!

Joaquim Lopes recua: por cobardia? desistindo da nobre empreza? Não! O nosso heroe não teme a morte; ao contrario, vae a Paço d'Arcos buscar um pequeno barco de pesca seu, que, suppõe, poderá navegar sobre o baixo, para de novo e decididamente affrontal-a.

Embarcação portuguesa com velas latinas, Lisboa, 1856.
Imagem: Royal Museums Greenwich

— "Partia-se-me o coração de dor," diz elle, "ao ver aquelles desgraçados a pedirem de mãos postas um soccorro impossível, e ao receiar que quando voltassemos houvessem já sido engulidos pelo mar."

Joaquim Lopes retirava, pois, com uma esperança no coração, e ás duas e meia horas da tarde, volvia no seu barquinho de pesca em demanda dos infelizes. Quando chegou, ja estes, agarrados aos fragmentos do navio, andavam á mercê das vagas.

— "Que é isso!" exclama elle aos seus camaradas, vendo-os empallidecer; "não é este, nem dobrado deste mar, que nos ha de metter a pique. Onde está o perigo é alli," prosegue apontando para o  logar fatal ; "alli é que estão doze horas de agonia, e, dentro em pouco, uma morte irremediavel! Avante! Pois. Nossa Senhora da Guia está-nos vendo. Ou morrermos todos, ou um nome eterno para os valentes que salvarem aquelles tristes!"

O patrão da falua do Bugio é tão eloquente como arrojoso e humanitario. O leitor já observou, por certo, que em vinte volumes de sessões da camara dos deputados ou dos pares, não se encontram dez discursos que valham uma d'estas brevissimas exhortações. Aquelle brado foi intensa faisca de lume que cegou os olhos do temor, e incendiou a energia, quasi desfallecida, da coragem.

Agora o leve barquinho não fende, vôa por sobre as ondas. De quando em quando desapparece entre uma nuvem d espuma; mas esta desfaz-se rapidamente ao sopro desenfreado do vento, e o barquinho torna à deixar-se ver, galgando com mais velocidade o cume das vagas. Nossa Senhora da Guia está, por certo, com elles, porque o valor com que se immergem no seio do perigo, e conseguem arrancar-lhe as presas, tem alguma cousa de sobrehunano.

Ás quatro horas eslava salva a guarnição da Primrose Primrose, composta de capitão e cinco marinheiros.

As primeiras das condecorações que hoje cobrem o peito generoso do ousado maritmo, foram devidas a este acto verdadeiramente heroico de coragem e humanidade.

Em março do mesmo anno, Joaquim Lopes ia sendo victima do seu arrojo e humanidade. Tirando debaixo de uma canóa, que se virou na praia da Sardinha, em Paço d'Árcos, um homem que ahi tinha ficado, por tal modo, já nas agonias da morte, se lhe agarrou e fixou nas pernas, pesando-lhe e embaraçando-lhe o nado, que, se não fosse o auxilio dos tres catraeiros que se lançaram logo ao mar, e, firmando-o pelo hombro, o ajudaram a subir para um rochedo, teria infallivelmente succumbido com o naufrago. Por esta acção difficil e arriscada, o premiou novamente a Real Sociedade Humanitaria, com a medalha de segunda classe.

Em 21 de fevereiro de 1858, pelas 8 e meia horas da manhã. encalha uma outra escuna ingleza, a British Queen, no fatal baixo de Alpeidão. Apenas as Torres dão o signal de soccorro, Joaquim Lopes convida os seus companheiros a seguil-o, e, embarcando na sua abençoada canoasinha de pesca, parte em demandados naufragados. D'esta vez, a sua piedade não é tão feliz, porque o navio submerge-se todo de um só jacto, quando os ousados barqueiros tentavam aproximar-se d'elle pela terceira vez; mas ainda conseguem salvar o capitão, para o qual milagrosamente se desprendeu uma verga onde se agarrou. Como o estado do naufrago reclamava promptos soccorros, fez-se, com graves riscos, caminho da torre do Bugio.

Chegado, porém, ahi, um vulto negro se descobre no logar do sinistro.

— "Naufrago!" gritam todos.
— "É um cão" , diz um.
— "Eia!" exclama Joaquim Lopes, "aquelle tambem tem vida, e é o antigo mais fiel do homem!"

E, lançando-se de novo ao abysmo, que por duas vezes quasi lhe ia sorvendo a fraca embarcação, salva esse fiel amigo do homem. Joaquim Lopes tem uma alma e um coração grandes por excellencia. Um homem d'estes nada tem a invejar aos outros: deve viver contente, satisfeito, alegre de si proprio. Em si tem a virtude, na virtude tem o merito, no merito tem a honra: n'esta virtude, deste merito, n'esta honra, gozos raros e inexcediveis para o espirito.
Joaquim Lopes! ao traçar d'estas linhas, envio-te, nas azas do pensamento, um abraço enthusiastico!
O governo britannico condecorou pela segunda vez o nosso heroe com a medalha de oiro, e os remadores com a de prata.

Ultimamente, pela occasião do naufragio do brigue francez Esthefanie Stéphanie, no qual Joaquim Lopes salvou tres marinheiros, alguns jornaes lembraram ao nosso governo um distinctivo mais honroso, para galardoar os serviços d'este homem. Que anachronismo!

Barcos no Tejo, Luis Ascêncio Tomasini (1823 - 1902).
Imagem: Palácio do Correio Velho

Oxalá que a lembrança continue a ficar no esquecimento; que esse ou outro distinctivo mais honroso não vá manchar o peito, onde o coração pulsou sempre pelo santo amor da humanidade. Se, porém, os nossos governos, que, sobre tal assumpto, com tanto siso hão andado, se decidirem a lavrar mais esse disparate, d'aqui reiterámos ao benemerito Joaquim Lopes os rogos que, em nome da dignidade das suas virtudes, lhe fizemos quando tivemos a boa fortuna de o conhecer pessoalmente, e a honra de nos acceitar como seu amigo.

Rejeite!

Na verdade, não chegámos ainda aos tempos das ordens de cavallaria approvarem o uniforme da jaqueta; e em quanto esperámos por elles, não confundamos os benemeritos com muitos parvos e malvados.

Joaquim Lopes conta perto de 59 annos, e, apesar d'esta edade, já não pouco avançada, nem propria para temeridades, continua a affrontar os perigos com o mesmo denodo e pericia que desenvolvia aos 30. Só tem de velho os cabellos e as rugas.

Talvez seja por isso que o governo o não tenha reformado, conservando-lhe o ordenado, e garantindo-o a sua mulher, no caso d'esta enviuvar, como já por vezes, com tanta justiça, ha pedido.

Homem privilegiado por Deus tem na fronte estampadas as virtudes do seu coração e a historia da sua vida. A extrema brancura de sua pelle, sua testa espaçosa, seus labios estreitos e cerrados, a penetração de seu olhar, o intumescimento rosado de suas palperas, revela-nos logo o homem que ha passado a sua vida mais banhado pela agua do que pela luz solar; o homem cujo cerebro se move e anima pela inspiração; o homem que, firme e ousado nas suas concepções, não afraca nunca perante o medonho aspecto dos perigos; o homem que, de um só golpe de vista, abraça e resolve as dificuldades; o homem, finalmente, que ha repetidas vezes vertido esse pranto de alegria que assoma aos olhos nos triumphos ganhos pelo amor da humanidade.

Mas o retrato de Joaquim Lopes desenha-se em menos palavras: é a Providencia dos naufragos na barra de Lisboa. (2)

Wilk Wieslaw, óleo sobre tela.
Imagem
Wilk Wieslaw no Facebook

A morte prostrou, finalmente, o benemerito homem do mar [...]

Quando olhavamos para esse velho, de corpo já alquebrado pelos 91 annos, mas em cujo espirito apparecia ainda de vez em quando umas chispas do antigo fogo, sentiamos um indizivel prazer, lembrando-nos de que elle era um dos poucos cujos serviços tinham sido moral e materialmente recompensados. Ainda n'este mundo não é tudo ingratidão e egoismo.

A sua casa estava toda cheia de commemorações dos seus actos de philantropia. Tinha cheias as paredes de diplomas conferidos por sociedades humanitarias portuguezas e estrangeiras, de quadros com as suas medalhas, nada menos de dez, de ouro e de prata, cada uma das quaes commemorava uma das suas luctas com o mar, luctas das quaes sabia sempre victorioso. Em uma lapide que os seus admiradores, srs. marquez de Fronteira e conselheiro Thomaz Ribeiro, lhe mandaram collocar na frontaria da casa, leem-se dois versos que bem o mostram.

"Ganhou que as trás ao peito, hábitos e medalhas,
não a matar irmãos, mas a rasgar mortalhas."

Era official da Torre e Espada e tenente honorario da marinha real, com o soldo correspondente.

O Patrão Joaquim Lopes morava em Paço d'Arcos numa casa terrea do lado esquerdo da estrada, junto ao posto fiscal. A casa, de pobre apparencia, tem para a estrada a porta de entrada e uma janella. Entre a porta e a janella uma lapide, coberta de crepe. Na casa da entrada uns homens collocavam a um canto tabolleiros com archotes e peças de pano preto que estavam sendo descarregadas d'uma carroça que viera de Lisboa.

A casa de Patrão Lopes no dia do funeral, rua Direita em Paço d Arcos, Revista Illustrada.
Imagem: Vila de Paço de Arcos

Á direita uma porta que dá ingresso ao quarto onde morreu o valente marinheiro. É uma casa sobre o comprido, com uma porta ao fundo. Encostada a uma parede uma pequena commoda tendo em cima um crucifixo e 2 castiçaes. Dependurado da parede, n'um pequeno caixilho dourado, viam-se as medalhas que em tempo conquistou, 3 d'ouro e 4 de prata, nacionaes e estrangeiras; o fallecido tinha mais 3 inglezas que as devolveu ao ministro inglez em janeiro d'este anno.

Em frente da porta vimos uma pequena cama de ferro bronzeado, onde jaz o cadaver coberto por um lençol.

Vimol-o. Está fardado com o seu uniforme de official de marinha ostentando os galões de 2.) tenente. (3)

O funeral de Joaquim Lopes foi urna verdadeira demonstração publica do alto apreço em que eram tidas as suas excepcionaes qualidades.

Flotilha do funeral.
Imagem: Hemeroteca Digital

A ellas se associou desde o chefe do Estado, que mandou o seu yacht Amelia seguir na esquadrilha, até ao mais humilde filho do povo que se encorporou no funebre prestito. 

O dia estava chuvoso e de vento rijo. Era a tempestade que saudava com os seus roncos ferozes, o cadaver d'aquelle que tantas vezes a vencera.

Em Paço d'Arcos juntaram-se os vapores Victoria, Relampago, Marianno de Carvalho e Lidador que rebocava o Salva Vidas em que foi conduzido até ao Arsenal o cadaver de Joaquim Lopes.

O cortejo fúnebre sobre as águas do rio Tejo.
Imagem: Navios e navegadores

Os srs. Antonio Ennes, ministro da marinha, Marquez de Fronteira, duque de Palmella, Francisco Costa, Jayme Arthur da Costa Pinto e o sr. presidente da camara de Oeiras e João da Cruz empregado do Salva Vidas, pegaram ás borlas do caixão, desde a humilde casa de Joaquim Lopes até ao embarque no Salva Vidas.

A fanfarra de Oeiras seguia o prestito tocando uma marcha funebre a que o sibilar do vento e os bramidos das ondas faziam um singular acompanhamento. No mar a viagem foi difficil e só pelas quatro horas da tarde chegou ao Arsenal o fluctuante cortejo.

No Arsenal foi feita a encommendação do corpo na capella de S. Roque, e depois o cortejo seguiu para o cemiterio Occidental, sendo o feretro transportado em uma carreta conduzida por bombeiros e marinheiros, que assim prestavam homenagem ao valente humanitario.

No prestito iam os cavalheiros que já mencionámos e os srs. Thomaz Ribeiro, ministro das obras publicas, Marianno de Carvalho, Baptista de Andrade, Eduardo Pinto Basto, alumnos da Escola Naval, jornalistas, corporação dos carteiros, bombeiros da Imprensa Nacional com uma corôa, escola Fernandes Thomaz, banda Guilherme Cossoul, e muitos cavalheiros de distincção que todos esperavam o cadaver no Arsenal.

O povo aguardava nas ruas a passagem do prestito ao qual se reunia engrossando o cortejo. No cemiterio estava uma força do regimento de caçadores n.° 2 para prestar as honras militares e a charanga da armada.

Patrão Joaquim Lopes.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Era já noite quando se concluiram as ultimas ceremonias frouxamente illuminadas pela lua, encoberta a espaços por formidaveis nimbos que se esfumavam no firmamento. A tempestade fazia o seu cortejo ao que ali ficava descançando em paz. (4)


(1) Soares, Manuel Lourenço, Trafaria e sua toponímia, subsídios para a sua história, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1986
(2) Silva, Nogueira da, Archivo Pittoresco, vol. II n° 27, 1859
(3) Diário Illustrado, 22 de dezembro 1890
(4) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 433, julho, 1891

Informação relacionada:
Caxinas... de "Lugar" a Freguesia
Os bardinos
Navios e navegadores

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Os festejos de 24 de julho de 1874

Para ampliar a commemoração histórica, que se comprehende no capitulo antecedente, darei em seguida o programma da primeira grande commissão organisada em Lisboa para os festejos de 24 de julho e a relação d'esses festejos, relativa a 1874, e copiada de Diário de Noticias n.° 3:037, do dito anno. 

Sede do Diário de Noticias, fundado em 1864, na antiga rua dos Calafates no edifício da Typographia Universal in Edição comemorativa do cincoentenário do Diario de Notícias
Imagem: Hemeroteca Digital

Á falta de informação mais minuciosa e completa, quando menos far-se-ha idéa do modo como o povo liberal relembra tamanho facto histórico, e aqui ficará tal registo.

Programma dos festejos do dia 24 de julho, anniversario da entrada do exercito libertador em Lisboa

1.° No dia 23 de julho, celebrar-se-ha na egreja dos Martyres, pelas 11 horas da manhã, uma missa commemorativa, por aquelles portuguezes que succumbiram nas lactas politicas, travadas no paiz, e que terminaram em 1834.

2.° Ao romper da aurora no dia 24 de julho, subirão ao ar 6 girandolas de foguetes em cada uma das freguezias da captal, içando-se a bandeira nacional por essa occasião nas torres das respectivas egrejas.

Estandarte Liberal, Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910.
Imagem: Wikipédia

3.° A uma hora da tarde haverá um solemne Te-Deum na egreja de Santa Justa e Rufina (S. Domingos) findo o qual, a grande commissào encamínhar-se-ha ao tumulo do duque da Terceira, e sobre elle deporá uma coroa.

4.° Convidar-se-hão as philarmonicas de Lisboa para ao romper do dia 24, tocarem o hymno nacional na praça de D. Pedro, junto da estatua, percorrerem as ruas da cidade, e fixarem-se nas primeiras praças e largos mais importantes, durante a noite.

5.° O passeio do Rocio será gratuitamente franquiado nessa noite, onde tocarão 3 bandas de musica.

Illuminação do Passeio Publico, litografia A. S. Castro, 1851.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

6.° Dar-se-ha no dia 24 um jantar aos presos das cadeias civis de Lisboa.

7.° Serão convidados todos os habitantes da capital a illuminarem exteriormente as suas casas na noite de 24 de julho.

8.° Solicitar-se-ha da empresa dos theatros espectáculos gratuitos na mesma noite.

Antigo Circo Price, demolido para a abertura da avenida da Liberdade, desenho do natural por Casellas in O Occidente 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

9.° Pedir-se ha ao governo de sua magestade que declare de grande gala o dia 24 de julho para sempre.

10.° O ex.mo duque de Loulé, presidente da grande commissão eleita em reunião popular de 14 do corrente mez, será encarregado de dar conhecimento do presente programma a sua magestade el-rei, significando-lhe o desejo que a commissâo tem de que o chefe augusto do Estado e e toda a família real assistam ás solemnidades religiosas dos dias 23 e 24 de julho.

Nuno J. S. de M. R. de M. Barreto (1804-1875), 1.° duque de Loulé.
Imagem: Wikipédia

11.° Rogar-se-ha ao em.mo patriarcha, que presida aos actos religiosos dos dias 23 e 24.

12.° Serão convidados pela imprensa o ministério, os membros do corpo legislativo, os veteranos da liberdade, os ajudantes do imperador e do duque da Terceira, os tribunaes, a imprensa, a ex.a camara municipal de Lisboa, todas as auctoridades, as corporações e as associações, para assistirem ás solemnidades dos dias 23 e 24, ou fazerem-se n'ellas representar.

13.° A commissão dará conhecimento d'este programma aos ex.o presidente do conselho de ministros e ministro do reino.

Lisboa, 17 de julho de 1872. — João António dos Santos e Silva, Joaquim Possidonio Narciso da Silva, José Ribeiro da Cunha, João Manuel Gonçalves, António de Nascimento Rozendo, Visconde dos Olivaes, Manuel José Mendes, Manuel Patricio Alvares, José Baptista d'Andrade.

Palacete Ribeiro da Cunha, em estilo neomourisco desenhado por Carlos Affonso, 1877.
Imagem: Olhai Lisboa

Começaram e terminaram os festejos commemorativoa de 24 de julho mais concorridos e mais brilhantes que nunca, sem que occorressem desordens, nem desaguisados em tão numerosos ajuntamentos como os que se viram; nem que cousa alguma viesse empanar-lhes o vivo esplendor.

O povo demonstrou, nas suas manifestações espontâneas, pacificas e enthusiasticas, que ama a liberdade e a deseja manter: e um povo assim, é digno d'ella. Registaremos aqui, pois, mais esta pagina de affirmação aos sentimentos liberaes que tão enraizados estão na capital, como em todo o reino.

Apesar de se haver combinado que só se lançariam ao ar foguetes quando desse a salva no castello de S. Jorge, durante a noite de 23 para 24, e em diversos pontos da cidade, se ouviram vivas á liberdade e o estalar amiudado, e quasi sem interrupção, do fogo festival, principalmente no Rocio, onde alguns grupos queimaram fogo de sala.

Ao romper da aurora, deu o castello a salva costumada e de todos os largos e praças subiram aos ares girandolas sem conta, tocando as philarmonicas em algumas praças e por diíterentes ruas, e as bandas regimentaes ás portas dos respectivos quartéis.

Vista oriental de Lisboa tomada do jardim de S. Pedro de Alcântara, 1844.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Muito antes de nascer o dia, já estavam na praça de D. Pedro IV, e em volta do monumento, onde tinham accendido os fogachos de gaz, milhares e milhares de pessoas. Tinham vindo alli, para a alvorada as musicas de infanteria 11 e de caçadores 6, depois vieram a dos bombeiros e da viuva Roxo.

Inauguração da estátua de D Pedro IV em 1870.
Imagem: Wikipédia

A sociedade Recreio Artístico, que tinha concedido um baile campestre a favor dos veteranos da liberdade, aliás muito concorrido, cumpriu o que promettera. Foi tocar a alvorada para o campo de Sant'Anna, onde vimos reunidas mais de 1:000 pessoas.

Acabado o toque a sociedade seguiu para o Rocio, executando hymnos nacionaes, acompanhando a aquella multidão, onde se notavam muitos veteranos.

No caes de Sodré e Corpo Santo, fizeram a alvorada a banda de ex alumnos da casa pia e a philarmonica Seixalense e outra, que percorreram todo o Aterro, comprimentando-se, e eram também seguidas de numeroso povo, que dava vivas e lançava foguetes.

Pode-se dizer que, pelo movimento das ruas, uma parte importante da população viera saudar jubilosa o despontar do dia em que se commemorava uma grande data.

Desde as oito horas da manhã até ás 11 distribuiu-se, em varias freguezias, bodo aos pobres, constando de pão, carne, arroz, toucinho e esmolas de 100, 200 e 500 réis ; e notaremos os das commissôes voluntariamente organisadas em S. Paulo, S. João da Praça, Mercês, S. José, Pena, Esperança, calçada de Santa Anna, Anjos e Soccorro.

N'esta ultima freguezia havia duas commissôes. Na Encarnação havia também duas, uma da freguezia que deu esmola de 1:000 réis a 41 veteranos e outra na Rua dos Calafates. Os bodos foram distribuidos na presença das respectivas commissôes, por damas ou por meninas, tocando durante o acto as philarmonicas, que obsequiosamente se prestaram a isso.

Em algumas freguezias a abundância dos donativos deu logar a augmentar o bodo. Durante a distribuição do bodo na rua dos Calafates tocou uma orchestra, composta de professores e organisada por influencia de um dos membros da commissão.

Eram quasi três horas da tarde quando chegou á ponte dos vapores do Terreiro do Paço, a bordo do Lusitano a grande commissão de Almada com a camara municipal d'aquelle concelho, e muitos cidadãos liberaes que a acompanhavam. 

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Na ponte esperavam estes cidadãos a grande commissão de Lisboa, representada pelo seu presidente e muitos de seus membros, vereadores do municipio de Lisboa, veteranos da liberdade, e outras pessoas, levando a bandeira da commissão lisbonense o vogal Francisco de Almeida e da associação dos veteranos o sr. Silva, empregado na alfandega e fundador da mesma associação.

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António da Silva, o veterano da bandeira, fundador da associação.
Imagem: Archive.org

Logo que a commissão desembarcou, subiram ao ar algumas girandolas de foguetes, tanto de bordo do "Lusitano", como da praça, onde se tinham agglomerado milhares de pessoas. 

As duas commissôes, levando na frente duas philarmonicas a dos bombeiros e Primeiro de Dezembro e logo após as bandeiras indicadas, seguiram pela rua do Ouro em direcção do Rocio, onde pararam para fazer continencia á estatua do imperador D. Pedro IV.

D'ahi seguiram para a egreja de Santa Justa, entre os repetidos vivas á liberdade, e aos veteranos, que se soltavam durante o transito.

Os veteranos, parte uniformisados, parte á paizana, mas todos sob a direcção do seu presidente, não seriam menos de 200.

O vasto templo de Santa Justa, preparado para o Te-Deum pela solicitude dos procuradores e andador da irmandade do Santíssimo, sob a direcção do sr. Rosa Araújo, ostentava as suas melhores e sumptuosas galas, com superabundância de armações de custo, numero admirável de luzes e profusão de flores naturaes.

No throno e nos altares viam-se mais de 700 lumes. O templo estava completamente cheio. Vimos alli representadas todas as classes.

A imprensa também teve a condigna representação, achando-se alguns jornalistas juntos com a grande commissão, e outros no corpo da egreja.

As associações operarias e algumas escolas egualmente tinham alli delegados seus, como o grémio popular, que era representado pelo seu presidente o sr. Silva e Albuquerque.

A commissão da Pena mandou áquella solemne ceremonia as 33 meninas, que vestira de manhã, e que, durante o acto, estiveram de velas accesas e com ramos de perpetuas e laço azul e branco.

Por volta das três horas e meia chegaram, um após outro, el-rei D. Luiz e D. Fernando, os quaes foram recebidos, á porta da egreja, pelo ministério, membros da grande commissâo e veteranos, com as respectivas bandeiras, arcebispo de Mytelene, collegiada, irmandade do Santíssimo, altos funccionarios militares e civis.

As Festas da Liberdade no Porto — Veteranos da Liberdade que tomaram parte no préstito in O Occidente, 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

El-rei trajava o uniforme de general. Sua magestade a rainha não pôde concorrer a Lisboa por incommodo de saúde. Logo que suas magestades tomaram assento nas cadeiras de espaldar, que lhes estavam proparadas no altar-mór, lado do Evangelho, debaixo de riquíssimo docel, entoou o Te-Deum o sr. arcebispo a grande instrumental.

D. Luis I (1838-1889), rei de Portugal de 1861 a 1889.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

Em frente da egreja, fazia a guarda de honra uma força de 100 homens da municipal, com capitão e dois subalternos e a musica.

A policia do largo e das ruas circumvisinhas era feita por uma força de cavallaria municipal commandada por um subalterno e guardas civis.

A entrada e saida de el-rei estalaram muitas girandolas de foguetes. O Te-Deum que era o de Marcos de Portugal, sob a regência do sr. Monteiro de Almeida, com 21 vozes e 42 instrumentistas, terminou ás 4 horas e 20 minutos.

Depois da ceremonia religiosa, el-rei dirigiu-se, em carruagem que o conduzira ao arsenal da marinha, onde o esperava o estado maior, e ahi montou a cavallo para a revista.

El-rei D. Fernando voltou para as Necessidades e em seguida regressou a Cintra, d'onde viera de propósito na véspera.

As quatro e meia, sua magestade o generalissimo do exercito, saía do arsenal em direcção á praça do Commercio, montando um soberbo cavallo baio e era seguido por um luzido estado maior, do qual faziam parte os ajudantes de campo, generaes (Jaula e D. Luiz de Mascarenhas; coronéis Folque e Cunha, e officiaes ás ordens, D. Francisco de Almeida, D. Manuel de Mello e Vito Moreira, e dos generaes Barreiros, Palmeirim, barão de Rio Zêzere, Mancos de Faria, Luiz Maldonado, Moraes Rego, Tavares de Almeida e Castello Branco e respectivos ajudantes de campo.

A divisão achava-se formada na praça do Commercio. O aspecto de todos os corpos em parada e o quadro que offerecia toda a divisão formada em columnas era deveras brilhante. Ao entrar elrei na praça as tropas apresentaram armas e as bandas tocaram o hymno real.

Finda a revista o generalissimo tomou pela rua do Oiro, seguido por toda a divisão para fazer a continência á estatua do imperador. El-rei e o seu estado maior collocaram-se sob as tribunas que se levantaram no theatro de D. Maria, para ver o desfilar de todas as tropas.

Na tribuna do centro não havia pessoa alguma da família real, e nas lateraes viam-se o ministério, parte do corpo diplomático estrangeiro, camará municipal, a grande commissão dos festejos, muitas damas, etc.

A força da guarda municipal que estivera ás portas do templo de S. Domingos, veio postar se em linha em frente de el rei, abrindo assim largo caminho para o desfilar das tropas.

A divisão passou em continência, como dissemos ; a artilheria e infanteria em columnas de divisões e a cavallaria a três. A marcha na continência em geral foi boa, havendo apenas um incidente que alterou o bom andamento da artilheria, por lhe ter caído uma parelha de muares na rua do Oiro.

Algumas divisões de caçadores e infanteria não tinham sufficiente espaço para estenderem bem em linha, indo algumas filas á rectaguarda por causa da grande massa de povo que se agglomerava em todos os pontos.

A divisão retirou pela rua Augusta e alguns corpos não seguiram para quartéis pelo itinerário indicado, por ter o sr. general commandante ordenado, á ultima hora, que seguissem o que lhes fosse mais conveniente.

A divisão compunha-se do regimento de artilheria n.° 1, com 6 metralhadoras, 36 canhões Krupps e 6 pecas de montanha, uma brigada de cavallaria com 6 esquadrões, commandada pelo sr. infante D. Augusto, levando ás suas ordens os srs. D. João de Mello e visconde de Seisal, e duas brigadas de infanteria.

A força de toda a divisão era de 5:210 praças, 567 cavallos, 388 muares e 48 bocas de fogo. Artilheria n.° 1 levava 510 homens, lanceiros da rainha 280 cavallos, e cavallaria n.° 4, 287; caçadores n.° 2, 430 homens; caçadores n.° 5, 578; infanteria n.° 1, 590; infanteria n.° 2, 600; infanteria n.° 5, 680; infanteria n.° 7, 625 e infanteria n.° 16, 630.

D. Carlos I em visita ao regimento de Lanceiros 2, foto de Joshua Benoliel, 1907.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

Estes corpos não apresentaram maior força por terem alguns destacamentos e grande numero de praças licenciadas.

O estado de asseio de todos os corpos, e a maneira como elles se apresentaram em parada, magnificamente armados e equipados, satisfez todos os espectadores e até os mais escrupulosos em cousas militares.

A força de artilheria ia imponente. Quarenta e oito bocas de fogo, como as que nós apresentámos, é força respeitável em qualquer parte da Europa.

A cavallaria ia toda bem montada e em força quasi completa. Parte do corpo diplomático estrangeiro finda a passagem das tropas foi felicitar o sr. ministro da guerra pela maneira brilhante como se apresentou a divisão.

Os corpos da guarnição de Belém chegaram á noite a quartéis, e a banda de caçadores da rainha, depois da parada, marchou em seguida para Queluz, indo em char-á-bancs a expensas de sua magestade.

Os navios durante o dia estiveram embandeirados em arco.

Lisboa — Vista do Tejo, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Viram-se, em todo o dia, innumeros homens com perpetuas ao peito, assim como muitas damas com ramos de egual flor.

Ao pôr do sol salvou o castello e lançaram-se mais girandolas.

A concorrência que fora extraordinária aos actos públicos do dia, e que se tornara notável á tarde, por occasião da revista e continência militares, tornou-se assombrosa á noite.

Não nos lembra vêr, em época alguma do anno, nas occasiões festivas, que dâo movimento ás massas populares, a affluencia d'este anno ás ruas de Lisboa.

A illuminação foi geral e deslumbrante em muitas partes.

A mais vistosa de todas era a da praça de D. Pedro, que se compunha de quatro grandes pyramides com 1:200 bicos de gaz, terminando com fachos, que illuminavam perfeitamente a praça e a estatua.

As pyramides pela frente e rectaguarda, estavam ligadas por festões, que tinham no centro duas estrellas, que também lançavam bastante luz por muitos bicos de gaz.

O edifício do theatro de D. Maria e os demais em volta da praça viam-se egualmente illuminados. Eram do mesmo modo brilhantes as illuminaçôes das rua dos Calafates, que, desde a travessa da Queimada até á rua das Salgadeiras, tinha um sem numero de bandeiras nas janellas e cruzando a rua bandeiras, festões, lustres e balões; a do largo do Camões, que tinha illuminação em volta do monumento com 200 lumes de gaz, afora os da estrella central; as do Corpo Santo que tinha dois arcos; cães do Sodré e Aterro, que tinha outros dois. onde se lia a data de "23 de julho de 1833", bandeiras, festões, mastros com escudos e estandartes.

Theatro D Maria II, Nogueira da Silva (desenho), Coelho Junior João Pedrozo (gravura), 1863.
Imagem: Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

Ali a illuminação era a balões em prodigiosa quantidade. Em outros largos e praças havia illuminações mais ou menos vistosas. A estação dos vapores Burnay, no Aterro, tinha grande numero de lanternas de cores, na frente da barraca. Seria difficil enumerar todos os edifícios particulares, além dos públicos, que apresentaram as suas fachadas illuminadas com lanternas ou gaz.

Entre outros, notaremos todos os hotéis do Chiado, sobresaindo o "Gibraltar", que hoje está no palácio Ouguella; os escriptorios da "Correspondência de Portugal" e de outras redacções; todo o edifício da Typographia Universal e escriptorios do "Diário de Noticias" e "Diário Popular"; companhia de vapores e outras; confeitaria na rampa de Santos; fabrica de gelo dos srs. Ferreira & C.a; as casas de vários cônsules e ministros estrangeiros, etc.

O Terreiro do Paço estava segundo o costume, mas em frente do caes das Columnas fundeara o vapor "Lynce", que illuminou graciosamente e durante a noite queimou alguns fogos de bengala.

O castello de S. Jorge exterior e interiormente tinha bonita illuminaçâo.

Nos coretos erguidos nos differentes pontos notámos: Caes do Sodré, philarmonicas Verdi, da Ponte Nova, e Capricho, do Barreiro; Corpo Santo, ex-alumnos da casa-pia; Ribeira Nova, Seixalense;
praça de D. Luiz, defronte da fabrica, fanfarra de curiosos; fim do Aterro, banda da guarda municipal; rua dos Calafates, philarmonica 24 Julho; rua do Currião, Timbre dos Artistas; largo do Camões, Alumnos de Minerva; Campo de Sant'Anna e largo do Tabellião, Recreio Artístico; largo da rua dos Canos, Xabreguense; largo da Esperança e Caes de Santarém, também philarmonicas; e no Rocio as bandas de infanteria de caçadores 6, e por vezes varias philarmonicas, sendo ali mais permanentes as Primeiro de Dezembro, de Aldeia Gallega, e dos bombeiros, que levava muitas figuras e apresentou-se bem uniformisada.


Barra de Lisboa vista do Caes do Sodré.
Imagem: Internet Archive

Repetimos: o modo como correram os festejos de 24, fazem o maior elogio do povo lisbonense. É agradável deixar isto registado. E cabe-nos, com egual satisfação, mencionar que, na ordem e organisação da commemoraçào solemne, pertence bom quinhão de louvor á boa vontade e ao zelo da grande commissão, e especialmente á sua commissão executiva.


(1) Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, Esboços e recordações, Lisboa, Typographia Universal, 1875, 246 págs.

Leitura relacionada:
Maria Isabel da Conceição João, Memória e Império, Comemorações em Portugal (1180-1960), Lisboa, Universidade Aberta, 1999
O dia de hontem na Piedade