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quinta-feira, 5 de março de 2020

O perré!

Nos anos cinquenta, todos os estaleiros das praias da Margueira e Mutela foram encerrados em consequência do aterro de toda a frente ribeirinha que se estende de Cacilhas à Cova da Piedade, seguido da construção de uma muralha e da avenida que ainda hoje existe.

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(cábrea "Eng.º Manuel Espregueira")
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(colocação de blocos por meio da cábrea "Eng.º Manuel Espregueira")
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(colocação de blocos de retenção por meio da cábrea "Eng.º Manuel Espregueira")
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(começo das obras)
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(começo das obras do perré)
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(colocação de blocos de retenção)
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra (fb)

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(construção do perré)
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra (fb)

Obras em Cacilhas para o futuro estaleiro naval da Lisnave, 24/11/1949
(construção do perré)
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Na década de sessenta, como já antes referimos, foi construído nesse local o estaleiro da "Lisnave" também conhecido pelo "estaleiro da Margueira" [...]

Vista aérea do perré na variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958
IGeoE

Para o rio, na Margueira
A muralha era um céu
Acabou-se a brincadeira
Quando a Lisnave apareceu (1)



(1) As Margueiras, Contributos para a história de Cacilhas, J.F. de Cacilhas, 2013

Artigos relacionados:
Estaleiros de praia
A banhos na Margueira com Romeu Correia
Ante-projecto do Arsenal de Marinha na margem sul do Tejo
Lisnave
Kong Haakon VII na Lisnave
Doca 13
História alternativa

Leitura relacionada:
Decreto-Lei n.º 44708 - Diário do Governo n.º 267/1962, Série I de 1962-11-20
Boletim do Porto de Lisboa n.° 179, abril, maio e junho de 1967
Salvaterra e eu (pesquisa: Lisnave)

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)

A "Stadium" não esquece nunca o labor desinteressado e valioso dos clubes que propagam os desportos na provincia. A sua acção, modesta em geral, e brilhante e valiosa muitos vezes, tem merecido palavras de elogio e provocado algumas iniciativas de estímulo para a sua actividade. Conhecer a sua existêna, auscultar as suas aspirações, é concorrer para aprecia-los melhor. Vários clubes da província tem passado pelas coluna, da Stadiurn, em referência mais ou menos ampla a uma obra que é sempre digna de realce.

Clube Desportivo da Cova da Piedade no acto da sua inauguração, em 1947.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Neste número, no de hoje, cabe a vez ao Clube Desportivo da Cova da Piedade. É, entre as agremiações mais novas, uma das que mais tem progredido. Em pouco mais de um ano, pôde levar atletas ao estrangeiro e colher aí uma vitória esplendida. Pois é desta colectividade que vamos falar, numa reportagem que tem muito de oportuna. E vamos dividir em très partes, que se completam — condições em que se fundou, a obra do um ano e projectos para o futuro.

O Clube Desportivo da Cova da Piedade e a sua fundação

Cova da Piedade talvez seja mais conhecida como localidade de transito para o sul do pais. É o primeiro núcleo populacional que se encontra no caminho, depois da travessia dificil por Cacilhas. Considerada assim, de passagem, é de-cetro uma terra como outras... Para quem a visite é uma localidade em pleno desenvolvimento. A proximidade do novo Arsenal de Marinha, à volta do qual se está criando uma cidade moderna deu, à Cova da Piedade. melhores condições de vida e expansão.

Situada também perto de Almada, séde do seu concelho, e da movimentação de Cacilhas, recebeu delas influência desportiva. Formaram-se há, anos, dois clubes: Sporting Clube Pledense e União Piedense. Não merece a pena indicar com rigor a antiguidade de cada um dos clubes [v. artigo relacionado: Clube Desportivo da Cova da Piedade]...

Basta afirmar que a acção desportiva do lugar se dispersava por duas colectividades. E que, por serem modestas, alguns dos seus melhores atletas procuravam representar clubes da capital, com mais atractivos para quem tem aspirações de progresso e fama. 

Criou-se, assim, explicou-nos um director do Desportivo da Cova da Piedade. a ideia de uma concentração de estorço., numa só agremiação, com fundas raizes na região a que pertence — um clube que representasse dignamente a sua terra e agrupasse todos os valores dispersos. 

A menina Maria Gabriela Barbosa Álvaro conduz as chaves para a abertura da sede do Desportivo pelo Dr Salazar Carreira, no acto da inauguração.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

As pessoas que mais se distinguiram, nesta campanha, c que encaminharam os doia clubes para a fusão, foram os srs. dr. Luís Álvaro Júnior, advogado; dr. Raúl Cerqueira Afonso, diplomado em Ciéncias Económicas e Financeiras; Domingos Cabrita. Júnior, todos sócios de ambas as agremiações locais, e Salvador Marques de Assunção, diretor do Sporting Clube Piedense. 

Em 28 do Janeiro de 1947, realizou-se uma reunião magna do povo da Cova da Piedade, para se pronunciar publicamente acerca do projecto de fusão dos dois clubes. A ideia foi bem aceite e a data citada figura como sendo a da fundação do Desportivo, visto que nela se resolveu organizar um novo clube, com raie título. 

Na mesma reunião, que a Cova da Piedade não esquecerá facilmente, resolveu-se ainda nomear uma comissão organizadora, que ficou sendo a ,primeira comissão administrativa do C. D. C. P. . Dela fizeram parte os srs. dr. Luís Álvaro Júnior, dr. Raúl Cerqueira Afonso, Domingos Cabrita Júnior e Salvador Marques de Assunção, já apontados, com Augusto Baptista, Filipe Andrade Moreira, Manuel Palmeiro Barbosa, José Ribeiro de Sousa, Carlos Matos Peres. Pedro Lopes Rodrigues, António da Costa, Diogo da Silva Nunes e José da Fonseca.

Alguns dos convidedos à festa de inauguração da sede do Desportivo.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

A comissão organizadora resolveu aproveltar o edifício que estava destinado para a sede do União Piedade, a sede do Sporting para uma escola e o campo desportivo Silva Nunes, do União, perto do centro da localidade. O edifício da sede foi mobilado, não tão completamente conto era nosso desejo, mas por modo que não coloca mal o clube. 

Em 1 de Anril do mesmo ano, com pouco mais de três meses de fundação, o Cube Desportivo da Cova da Piedade pôde realizar o acto que marcou melhor, sob o ponto de vista representativo, o começo oficial da sua actividade. Referimo-nos à inauguração da séde social. Ao acto presidiu o sr. dr. Salazar Carreira, inspector de desporto, em representação do sr. tenente-coronel Sacramento Monteiro, Director Geral de Desportos. E estiveram também presentes, com muito prazer para o Desportivo, o sr. Comandante Sá Linhares, ilustre presidente da Camara Municipal de Almada, vários vereadores, Benvindo Cardoso, pela Federação Portuguesa de Ciclismo, e Jaime Franco, pelo Atlético Clube de Portugal.

A festa constou da inauguração oficial da sede e de uma escola privativa do Desportivo, para educação pré-escolar, e visita ao campo de jogos.

Surgira, pois, um novo clube.

A obra de um clube novo e o seu trabalho de um ano

O Desportivo começou a funcionar com 1.023 sócios e aproveitando as instalações já apontadas — sede no edifício destinado à sede do União Piedade; escola de preparação pré-escolar, para crianças de 5 a 7 anos de idade. na antiga sede do Sporting Piedense; e campo de jogos Silva Nunes. O nome do campo constitue homenagem ao antigo sócio n.° 1 do União Piedade, Silva Nunes, que ficou sendo também sócio n.° 1 do Desportivo. 

O numero de sócios subiu para 1.823. A escola tem 50 alunos. O campo de jogo, tem sido aproveitado para futebol e andebol. Para a prática do voleibol é utilizada a esplanada da União Artística Piedense, gentilmente oferecida pela respectiva direcção. 

Quando o Desportivo iniciou a sua acção desportiva, organizou e manteve secções para os seguintes desportos: futebol, ciclismo, andebol. voleibol, ténis de mesa e bilhar desportivo. Para poder disputar provas nestas modalidades, o Desportivo filiou-se nas respectivas Federações e Associações, filiando-se ainda na Associação de Atletismo, embora não constituisse logo secção especial para esse desporto. 

O edificio da sede tem dois andares. No primeiro, estão montados um bar, um salão de jogos com bilhar desportivo e ténis de mesa, e um posto de enfermagem. No pavimento superior, encontram-se instalados o gabinete da direcção. o gabinete das comissões, a biblioteca e sala dos trofeus. 

No campo há uma boa vedação e existe uma bancada com capacidade para 300 pessoas. Tem balneário. E comporta uma assistência de 4.000 espectadores.

Um resumo de actividades

O número de praticantes desdobra-se como segue:
Futebol — 4 categorias, com 83 inscrições. 
Ciclismo — 4 categorias e 14 corredores. 
Andebol — 15 jogadores.
Voleibol — 14. 
Ténis de mesa — 15. 
Cicloturismo — 27. 
Atletismo (intersócios) — 17. 
Bilhar desportivo — 6. 
Natação (populares) — 8.
A secção de andebol está ern reorganização. 
O Desportivo disputou campeonatos em futebol ciclismo e voleibol

Os primeiros resultados

Em Futebol, a categoria de honra classificou-se em primeiro lugar no campeonato distrital, ao qual não concorreram os clube. da 1.ª e 2.ª Divisão. Em reservas e em segundas categorias ficou no segundo poeto. Em juniores, terceiro. O Desportivo passou, depois, ao campeonato nacional da 3.ª Divisão. Chegou à final, batendo o outro finalista, Académico de Viseu, no Entroncamento. No fim do tempo regulamentar, oa dois clubes estavam empatados com 2-2. No prolongamento, o Cova da Piedade marcou trés pontos, sem resposta. Venceu, pois, por 5-2. A classificação obtida permitiu a entrada do Desportivo na fase final da Taça de Portugal. A prova é, porem, difícil. E o Desportivo não tem grandes aspirações. 

A primeira equipa de futebol do Desportivo da Cova da Piedade, vencedora do capeonato nacional de III Divisão e do campeonato distrital de Setubal.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Em voleibol, os jogadores do Desportivo ficaram campeões da sua série mas foram eliminados pelo Naval Setubalense, campeões da série de Setúbal. Fizeram dois desafios. Na Cova da Piedade, perderam por 5-3. A cidade do Sado a derrota não passou da tangente — 2-3.

A secção de ciclismo tem sido a mais brilhante e movimentada. Em independentes, a equipa do Desportivo classificou-se em 4.° lugar na "Volta a Portugal", a seguir ao Benfica, ao Sporting e ao Porto; e Baltazar Rocha foi o décimo, individualmente, na classificação geral. Manuel Pinto Ribeiro ganhou a Rampa do Vale de Santo António. Jorge Pereira e Baltazar Rocha conquistaram a Taça "Corpos", em Orense, Jorge Pereira ficou em primeiro, na classificação individual, e Baltazar em terceiro. João Joaquim Nunes desistiu. 

Os quatro corredores que representaram o Desportivo da Cova da Piedade na XII Volta a Portugal em bicicleta.
Jorge Pereira ganhou também uma prova em Orense.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Este ano, Jorge Pereira colocou-se em primeiro, nos 100 quilómetros em linha, ex-aequo com João Lourenço. Adoeceu, todavia, e não completou as provas do campeonato regional. Baltazar Rocha, Pinto Ribeiro e António Vieira deram ao Desportivo o segundo lugar no Grande Prémio Alfredo Piedade. E, no campeonato nacional de amadores juniores, um corredor da Cova da Piedade ficou em segundo.

Quanto ao ciclo turismo, a equipa do Desportivo, de principiantes, composta por Vítor Antunes, Alberto Sarty e Diamantino dos Santos, ganhou o título de campeão de Lisboa, em competência com os representantes do Benfica e do Casa Pia. E um grupo formado por António Dias, Sabino David e José Mourinha, realizou um raide ao centro do país, num total de 894 quilómetros.

Outros nomes — e outros factos

A direcção actual, a primeira que o clube elegeu, tem a seguinte composição: 

Presidente, Augusto José Baptista; vice-presidente, Domingos Cabrita Júnior; tesoureiro, Emílio dos Santos Ganhão; secretário-geral, José Ribeiro de Sousa; secretário-adjunto, António da Costa; vogais. Salvador Marques da Assunção, Filipe Andrade Moreira, Manuel Palmeiro Barbosa e José da Fonseca. 

A direcção tem sido auxiliada por uma comissão constituída pelos srs. António Reis, João Augusto dos Reis. Carlos Filipe, César Costa Figueiredo, António Pereira da Cruz. João Palmeiro Barbosa, Carlos Reis Duarte e outros. 

O Desportivo organizou apenas uma prova, no dia da inauguração da sede — o I "Circuito Piedense", em ciclismo, para Iniciados. Ganhou-a Edgard Marques, do Benflea, recentemente apurado campeão nacional de amadores seniores. Em segundo, ficou José Barroso, do Desportivo. 

E houve ainda uma outra festa, a marcar a posição do clube na sua região — uma festa de homenagem aos atletas da região que se destacaram e destacam no desporto nacional, pelas suas proezas e pelos seus títulos — Mário, Francisco e João da Silva Merques, très irmãos com carreiras gloriosas.

João da Silva Marques, campeão e recordista de natação,
um dos homenageados pelo Desportivo.
[Stadium 309, 1943]
[João Silva Marques – Rei e Senhor da Natação Ibérica nos Anos 30/40]

O Clube Desportivo da Cova da Piedade e os seus projectos

Não quizemos fechar esta reportagem sem saber quais são os trabalhos que o novo clube tem em curso ou projecto.

Pouco nos disseram a tal respeito e por urna razão de certo modo simples — não existir maior preocupação que a de caminhar sem precipitações e sem grandes aspirações. Há porem um problema importante em estudo — o campo de jogos. E não é porque não disponha de um campo melhor que muitos da provincia. É porque não satisfaz, especialmente pelo defeito que revelou desde que começou a ser aproveitado: é amplo, está tratado com cuidado; apresenta aspecto regular; mas alaga com facilidade, quando sobre ele cai alguma chuvada forte. 

Seria fácil alarga-lo, para futebol e andebol, e tem terreno que podia permitir a prática de outros desportos. Seria, no entanto, dificil e dispendioso prepara-lo para não alagar. A direcção procura por isso resolver o problema com a aquisição de um novo campo. E, à volta da localidade, não faltam terrenos alguns deles dependentes de entidades oficiais, que bem podiam auxiliar um clube digno de simpatia, pela obre já realizada em prol do rejuvenescimento da mocidade e na valorização da região o que pertence. 

Entre as peasoas e entidades a que tem recorrido, o Desportivo da Cova da Piedade destaca o sr. comandante Sá Linhares, presidente da Câmara Municipal de Almada, a quem o concelho deva já reunir alguns notaveis melhoramentos. Tem sido amável para com os representantes do clube, compreende as suas necessidades e procura diligentemente atende-las. Ha, pois, confiança nos  bons reoultados da intervenção do sr. comandante Sá Linhares, neste assunto palpitante do novo campo. E ja não é pouco.

A sede social do
Clube Desportivo da Cova da Piedade no acto da sua inauguração, em 1947.
Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Além do problema em referência, o desportivo da Cova da Piedade procura apenas de momento. assegurar melhor as suas instalaçóes, completando o mobiliario da sede, e alargar a sua acção desportiva a maior número de desportos, de modo a justificar o proposito de reunir, num só clube todos os atletas da Cova da Piedade, quando não houver necessidade de material especial. Não ha, porém, pressas e não ha demoras. Tudo a seu tempo e na devida altura.

A Direcção está reorgonizando a secção de andebol, vai alargar a pratica do atletismo e pensa dedicar-se também a basquete e à patinagem. Conta, para isso, com a boa vontade dos seus sócios e com a cooperação da Industria local e da Imprensa.

A industria piedense tem auxiliado o C. D. C. P. com varios donativos periodicos, distinguindo-se nesta colaboração oportuna e preciosa, as seguintes firmas: Henrique Bucknal & Sons, Limitada. Rankins, Limitada e Cabruja & Cabruja.

Pelo que o que se relaciona com a Imprensa, o novo clube confessou-nos estar muito reconhecido, principalmente aos jornais desportivos, pela publicidade dispensada a todas as suas iniciativas e pelo ambiente de simpatia e estimulo com que se tem referido à acção do clube. 

Casa Renner
(antiga alfaiataria Benjamim M. Oliveira)

Essa simpatia é, no entanto, merecida em absoluto, dizemos nós agora. É por isso mesmo que pensamos nesta reportagem à vida da nova agremiação. E é ainda por tal motivo que lhe apresentamos os nossos votos de largo progresso. (1)


(1)  Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Artigo relacionado:
Clube Desportivo da Cova da Piedade

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Casas que a "Stadium" recomenda (1) 
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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Clube Desportivo da Cova da Piedade

Na Cova da Piedade, tinham sede no jardim central , em torno do qual se erguem dois edifícios monumentais — o palácio neoclássico da família Gomes e um Chalet romântico onde viveu o gerente da fábrica de moagens — , a Cooperativa Piedense, a Sociedade de Socorros Mútuos Piedense, a Sociedade Filarmónica União Artística Piedense (SFUAP), o Clube Recreativo Piedense e o Sporting Clube Piedense. (1)

Vista Geral — Cova da Piedade ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe

O Sporting Clube Piedense, da Cova da Piedade, acaba de se filiar na Associação de Foot-ball de Setúbal, pelo que se encontra regular, podendo efectuar jogos com todos os filiações de qualquer associação do paíz [jornal "O Sado", edição de 17 de março de 1935].

in Futebol Saudade

A fundação do Clube Desportivo da Cova da Piedade, em 28 de Janeiro de 1947, foi resultante da fusão entre o União Piedense Futebol Clube (também conhecido pelo epíteto de "Espanhóis", devido às cores do seu equipamento), fundado em 16/04/1914 e o Sporting Clube Piedense [filial nº 67 do Sporting Clube de Portugal].


União Piedense Futebol Clube, "Espanhóis".
Imagem: Dina Teresa

Para a formação do novo Clube foi constituída uma comissão organizadora, composta por Domingos Cabrita Júnior (Presidente), Manuel Palmeira Barbosa, Pedro Lopes Rodrigues, Augusto José Batista, Filipe Andrade Moreira, José Ribeiro de Sousa, Salvador Marques de Assunção, Carlos de Matos Flores, Carlos Peres e Antónia Moreira da Costa.

Clube Desportivo da Cova da Piedade.
Imagem: Voz Desportiva

Durante estes anos da vida da colectividade, houve dirigentes que, pela sua acção, se salientaram, como por exemplo, o Dr. José Malheiro (Director do Boletim Mensal), José Cardoso Rosa e o Dr. Castro Rodrigues, entre outros. 

Os factos mais relevantes da História do Clube, são os seguintes:

No campo cultural, ter mantido, desde sempre, escolas pré-primárias, onde milhares de crianças receberam as primeiras luzes da instrução.

Sorteio Páscoa a favor da ecola pré-primária, 1953.
Imagem: João Gabriel Isidoro

[...] os dirigentes do clube, muitos deles oriundos da classe operária, aperceberam-se da necessidade em receber crianças com idades compreendidas entre os três e os seis anos de idade, não só para ajudar as mães trabalhadoras, como ministrar os primeiros ensinamentos, rumo ao ensino oficial.

Inauguração da escola do Clube Desportivo Cova da Piedade.
Imagem: João Gabriel Isidoro

Nasceu, assim, na Estrada das Barrocas, a primeira escola pré-primária do país que manteve actividade regular, apesar das perseguições políticas aos seus dirigentes e professores.

Alunos da escola do Clube Desportivo Cova da Piedade, 1961.
Imagem: Ana Maria Almeida

Em Novembro de 1963, abriram as aulas nocturnas destinadas a preparar adultos que pretendessem completar o actual 9º ano de escolaridade ou, simplesmente, melhorar a sua cultura geral.  Em paralelo realizaram iniciativas complementares, tais como: exposições de artes plásticas, visitas de estudo e debates com figuras da Cultura, com a presença dos escritores Ferreira de Castro, Bernardo Santareno, Matilde Rosa Araújo, Assis Esperança e os actores Fernando Gusmão, Morais e Castro e Joaquim Benite (encenador).

No ano de 1967 Almada enfrentou a repressão do regime salazarista e as Escolas foram particularmente visadas.

Programa do 10° Aniversário das escolas do Clube Desportivo da Cova da Piedade (excerto), 1973.
Imagem: Fernando Cruz


in Boletim Municipal, Camara Municipal de Almada, outubro 2007

No campo desportivo, a participação de uma equipa de ciclismo numa prova internacional, disputada em Espanha, na qual averbou o 1º lugar individual e colectivo e, ainda, a participação na XII Volta a Portugal em Bicicleta, conquistando o 10º lugar individual e o 4º lugar por equipas. (2)

Cova da Piedade, a multiddão aguardando os ciclistas da 7a Volta a Portugal em 1938.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Fundado a 28-1-1947 teve como actividades de início, o ciclismo, futebol, handebol, voleibol, campismo e ténis de mesa. No desporto-rei, o futebol, conquistou o campeonato nacional da 3a divisão, na época de 1948, ingressando, então. na divisão secundária, onde se manteve só por dois anos.

Equipa de futebol do Clube Desportivo da Cova da Piedade.
Imagem: Futebol de Outros Tempos

Finalmente, em 1960, regressou  à 2a Divisão Nacional, cotando-se, desde então, como um dos principais animadores do torneio, dispondo firmemente a guindar-se a um plano ainda mais alto.

Clube Desportivo da Cova da Piedade.
Imagem: CADERNETAS E CROMOS

Aspecto geral do campo de jogos do clube, denominado Parque Silva Nunes, com lotação para 10 000 espectadores, pelado e com iluminação eléctrica. Os seus lugares são, por vezes, insuficientes para os espectadores que, frenéticos, aplaudem o Desportivo, sonhando vê-lo embrenhado em mais altos voos.

Campo de futebol do Clube Desportivo da Cova da Piedade, Parque Silva Nunes, Quinta das Farias, década de 1960.
Imagem: CADERNETAS E CROMOS

Fotografia de alguns elementos do clube, envergando as suas camisolas de cor "grenat", e alinhando o guarda-redes, normalmente de preto e amarelo. (3)

Equipa de futebol do Clube Desportivo da Cova da Piedade.
Salientaremos, de entre o seu lote de jogadores, os nomes de: Pimenta, Castro, Assis, Simões, Sim-Sim, Rui Silva, Laranjeiro, Jurado, Torres, Vitorino, Pedro Silva, Bambo, Tito e José Alberto.
Imagem: CADERNETAS E CROMOS

Em futebol, o nosso Clube conquistou em 1947/48 e 1970/71 o título de Campeão Nacional da 3ª Divisão e foi finalista na época de 1976/77.

Equipa de futebol do Clube Desportivo da Cova da piedade, época de 1970 - 1971.
Em cima: Portela, Saturnino,  ? (Director), Salvador (Treinador), Durães, Pinhal, Carlos Cunha, Artur Jorge Quaresma, Franklin, Helder, Casimiro, Jesus e Cardoso (Massagista).
Em baixo: Adanjo, Vitorino, Victor Manuel, Necas, Victor Lopes, Adriano, Vieira, Ramusga, Vilarinho e Belo.
Imagem: Armando Ribeiro

Clube Desportivo da Cova da Piedade, aspecto dos festejos da subida à 2a divisão em 16 de maio de 1971.
Imagem: Carlos Castanheira

Conseguiu, também, 5 títulos de Campeão Distrital da 1ª Divisão [...]

Como jogadores mais salientes, entre outros, passaram pelo nosso Clube nomes como Móia, Rendeiro e Luís Boa Morte. 

Já treinaram o Cova da Piedade Mário Wilson, Jacinto Carmo Marques, Alexandre Peics, etc. (4)

Jacinto do Carmo Marques.
Imagem: Ser Benfiquista


(1) Pereira, Joana Dias, A produção social da solidariedade operária: o caso de estudo da Península de Setúbal, Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, 2013
(2) Clube Desportivo da Cova da Piedade
(3) CADERNETAS E CROMOS
(4) Clube Desportivo da Cova da Piedade

Informação adicional:
Futebol em Portugal
Museu do Futebol
Futebol de Outros tempos

O Clube Desportivo da Cova da Piedade e a sua fundação, Stadium n.° 289, 18 de junho de 1948

Informação relacionada:
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segunda-feira, 27 de abril de 2015

Música velha, música nova

Em 1846, reinava ainda D. Maria II, havia na vila de Almada, num pátio chamado da Boca de Vento, uma sociedade musical conhecida pela dos Cabralistas.

Pátio do Prior, Júlio Diniz, década de 1950.
Imagem: Visita Virtual Rotas de Almada

Corriam os tempos impetuosos para a politica em que Cabral governava absoluto e tirânico e os partidos monárquicos agitavam-se convulsionados.

Saldanha, que era contrário à politica daquele João Franco doutras eras, fora a Almada, afim de preparar com os seus amigos e influentes, uma manifestação popular, em harmonia com as suas ideias e princípios.

Agitaram-se as multidões, houve quase lutas com os partidos oposicionistas, quando alguém se lembrou de ir com os seus partidos pedir a Cabralista para acompanhar a manifestacão.

Esta, obedecendo à politica interna dos seus influentes, negou-se, mas à noite, como se visse coagida por outros elementos, apareceu a tocar na antiga praça ou largo de Almada, hoje praca de Camões.

Almada, rua Direita, década de 1890.
Imagem: Hemeroteca Digital

Assim que começou tocando, houve grande tumulto, choveram as pedras sobre os executantes, e a música teve de fugir, acabando os sócios com a Cabralista, pouco depois, para evitar novos dissabores.

Dois anos se passaram e, em princípios, de 1848, diversos rapazes principiaram a falar em fundar uma sociedade musical, mas lutavam com falta de dinheiro. Compraram uma cautela de sociedade, saiu com o mesmo dinheiro e com este compraram outra que saiu branca. Começaram então a cotizar-se semanalmente e foram fazendo o pé de meia, até que em 1 de Outubro, inauguraram uma sociedade musical. Faltava o titulo e uma vez, em converse, um dos assistentes mais cepticos disse:
— Uma sociedade em Almada?! Não vai avante!... Era uma coisa incrível!....
— Pois há-de ser esse o titulo — respondeu um dos seus fundadores. Fica sendo a Incrivel Almadense!

Sociedade Filarmónica Incrível Almadense.
Imagem: Restos de Colecção

E com este nome ficou até o presente. Foi seu primeiro regente o mestre da banda de Caçadores 5, sr. Pavia, que criando amor a sociedade, em pouco tempo a tomou florescente. Os partidários e influentes politicos da terra, como quisessem servir-se dela para fins eleiçoeiros, e como fossem banidos, porque a politica tinha sido posta de parte desde a sua fundação, reuniram-se e deliberaram formar em Cacilhas uma outra sociedade, o que fizeram, intimando os seus operários a deixarem a Incrível, sob pena de despedimento das suas oficinas e obrigando-os a entrarem na Cacilheira.

Foi um golpe quase de morte para a Incrível. Ficaram apenas com 11 sócios, sendo 7 da música e 4 contribuintes...

Quando todos esperavam vê-la morrer, aparece, mesmo doente, o mestre Pavia que enche os lugares vagos de rapazes, ensina-lhes música, ensaia-os, e, num domingo de Ramos, quando na procissão devia aparecer pela primeira vez em público a banda Cacilheira, aparece de repente a Incrível, com fardamenfos novos comprados a expensas do seu mestre, tocando e desafiando, com mocidade e amor próprio dos executantes, os transfugas que a queriam aniquilar. Mas para chegar a esse ponto o que não custou!... Havia da parte desses 7 homens, que se tinham mantido fiéis, abnegação de não arriar a bandeira da Incrível; e, para iludir a toda a gente, davam ensaios à noite, tocando instrumentos diversos, fazendo barulho, enquanto os rapazes não sabiam solfejar!...

Banda da Incrível Almadense, c. 1894 - 1896.
Imagem: Restos de Colecção

E venceram. Até que um dia, a Sociedade dos ricos, a de Cacilhas, morreu pela falta de capricho, pois que só fora fundada com intuitos malévolos. Os músicos e sócios que então a tinham abandonado, forçados pela ameaça, tornaram a entrar novamente na sua Incrível, mas desta vez para sempre com firmeza e dignidade.

Vinte e dois anos depois, uma nova cisão se dá na banda. Saem sócios executantes também e funda-se em Almada, desses elementos dissidentes, a Academia Instrução e Recreio Familiar Almadense, que actualmente conta 30 anos de existência.

E nesta data que a Incrível começa a ser apelidada pela Sociedade Velha, enquanto que a Academia é conhecida pela Sociedade Nova. (1)

[...] por volta de 1894 (tinha José Maria de Oliveira 41 anos de idade), um conflito que originou uma cisão entre os associados da Incrível Almadense. Mas explica-se porquê:

José Maria de Oliveira (1853 - 1898).
Imagem: Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

O nosso biografado e outros incríveis opinavam pela obtenção de um novo edifício para sede social da colectividade. As instalações utilizadas há anos eram exíguas para novos e urgentes empreendimentos. Havia um prédio que interessava. Mas esse edifício era igualmente disputado pela direcção da Cooperativa Almadense (esta fundada em 1891). E quando José Maria de Oliveira. que tinha o prédio apalavrado com o proprietário em nome da Incrível, se dirigiu com o dinheiro para efectuar a transacção, verificou que o edifício pertencia já à Cooperativa, constituida, na sua maioria, por associados da Incrível...

Após a tradicional procissão da Senhora do Bom-Sucesso, em Cacilhas. a 1 de Novembro de 1894, José Maria de Oliveira e outros associados da velha colectividade, uma vez cumpridos todos os compromissos assumidos perante a banda musical, abandonaram a Incrível.

Daqui resultou a fundação da Academia de Instrução e Recreio Familiar AImadense. Assim, a 27 de Março do ano seguinte (cinco meses depois), nascia em Almada uma nova e importante colectividade [...]

Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense.
Imagem: A.I.R.F.A.

Quando a banda da Academia saiu pela primeira vez [22 de março de 1896] e foi cumprimentar a congénere mais velha encontrou todas as janelas e portas cerradas.

Banda da Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense, 1925
Imagem: Restos de Colecção

Edifício sede da Incrível Almadense — Sede da colectividade situada na avenida Gomes Neto (actual av. Heliodoro Salgado), fazia esquina com a actual rua Carvalho Serra,  em 1898.

Edifício sede da Incrível Almadense e habitação de José Carlos de Melo de 1938 a 1959.
Imagem: Castanheira, Alexandre, Romeu Correia, Memória Viva de Almada

Este corte de relações iria durar 53 anos. A reconciliação das duas colectividades teve lugar no dia 1 de Outubro de 1948, ano do Centenário da Incrível. (2)

Almada, Edifício do Cine Teatro Incrível Almadense, Mário Novais,1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A aula de mestre Damião era um cubículo da velha Incrível, lugar dos armários do arquivo da Banda, anexo ao bulhento gabinete da Direcção. As terças e sábados. o septuagenario subia a escada no seu passo alquebrado, estacionando no primeiro patamar, a renovar fôlego para trepar os restantes degraus. Raramente faltava. E, quando o rapazio pressentia que passavam alguns minutos da hora marcada, repetia logo: "O velhadas está pior da quebradura!".

Banda da Incrível Almadense com o maestro Manuel da Silva Dionísio, nas comemorações do 100º aniversário, em 1948.
Imagem: Restos de Colecção

Era magro, afilado, guedelhas brancas e olhar vivo. Arrastava uma perna, dava saliência as ancas, curvava o tronco adiante da linha dos pés. Desprovido de abalos e de conforto. aparecia, em muitas noites de chuva, encharcado, triste de figura, a ponto de provocar compaixão aos rapazes. Residia na Rua da Judiaria, num vago casebre, onde reunia, numa balbúrdia de pocilga, os seus parcos tarecos caseiros com a tralha do ofício. O banco de carpinteiro servia muitas vezes de mesa de cozinha, de refeitório, de cabide para roupas — e era lá que lia também o jornal e tratava da gaiola do pássaro. Vivia rodeado de recordações: fotografias e programas encaixilhados, suspensos das paredes-relíquias amarelecidas. Enviuvara há muito. Filhos, perdera-os tambem na voragem do tempo. Restava a sua arte, a menina dos seus olhos, a paixão de uma vida toda: a Música.

A ela dedicara o melhor do seu entusiasmo, todo o seu vigor. A Incrível tinha-o desde catraio. Quase medrara sob os seus tectos. Seu pai, executante da Banda, logo o metera ao solfejo, antes de as suas maos manobrarem a plaina e o formão. Durante largos anos, cumpriu a tradição da familia. Foi contramestre, director da Banda, e ocupou numerosos cargos no quadro directivo da colectividade. Mas, mais do que tudo isto um motivo havia que o tornara venerávei no meio associativo: ser o único sobrevivente da famigerada cisão — a rixa que originara a fundação da Outra. Damião fora dos teimosos, dos poucos do finca-pé ao Zé Maria d'Oliveira e quejandos. Dias heroicos, inesquecíveis!

Desfalcada, sem recursos, a colectividade estivera prestes a soçobrar. Meses de comédia, de vida artificial— mesmo depois de a Academia surgir pelas ruas, com pessoal fardado e a tocar. Debelada a crise, regressados alguns desavindos, novos candidatos preencheram a proposta... E a vida associativa serenou.

Morreram companheiros, amigos, discípulos. Melhoraram-se instalações, ampliaram-se beneficios — caprichando-se sempre por fazer mais do que na Outra. Grupo cénico, escola de músisa, orfeão, concertos, arraiais, passeios terrestres e marítimos — assinalavam actividades memoráveis. O cunho familiar predominava no espirito de associação. E, embora as relações entre as rivais fossem tensas, o movimento associativo criava ramificações por toda a vila. Recreio, cooperativismo, socorros mútuos, humanitariamo, desporto — borbotaram a cada necessidade da grei.

Envelhecido. pálida sombra do que fora, Damião entregara o instrumento e a farda, incapaz de aguentar o andamento de uma marcha. Caducara, é certo, mas jamais abandonaria a menina dos seus olhos... Os seus ensinamentos, a sua paciência, seriam preciosos para a gente nova. Enquanto as secas pernas lhe permitissem sair de casa para vir aturar os rapazes, a sua contribuição não cessaria. E, naquela noite, subiu a escada com muito esforço; fez paragens, resfolegou, mas ainda entrou a horas:
— Boa noite.
Os aprendizes vieram da sala de Jogos e corresponderam a saudação:

José Carlos Lírio (1870 - 1954), o mestre Damião em Os Tanoeiros de Romeu Correia.
Imagem: Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada

— Boa noite, mestre Damião! (3)


(1) Francisco José da Silva (1884 - 1949) citado em Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.
(2) Correia, Romeu, Homens e Mulheres vinculados às terras de Almada, (nas Artes, nas Letras e nas Ciências), Almada, Câmara Municipal de Almada, 1978, 316 págs.
(3) Correia, Romeu, Os Tanoeiros, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1976.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O torreão e a Lapa

Grupo de Obuses Pesados, Manobras militares do Outono (detalhe), 1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

— Mas então, como é que não tem ouvido fallar n'aquelle rapaz que todas as tardes apparece no mesmo barco a fazer signaes ali para cima... olhe... ali aquelle mirante, aonde está uma mulher a corresponder-lhe. Nao vê?

Olhei para o lado que me indicava, e distingui eflectivamente o vulto de uma mulher, que agitava um lenço branco.

O mirante onde ella estava é aquelle que fica no flm da praia de Cacilhas, perto do sitio onde se tomam os banhos, lá mesmo em cima das ribas.

Pertence (creio eu) ás terras ou quinta que ali vem ter do sitio da Margueira.

Embouchure de la Rivière Du Tage, Nicholas De Fer, 1710

A distancia, e por detraz dos predios que ficam longo da praia, aquellas ribas negras, escabrosas e talhadas a pique, como se fossem rocha viva, dão um aspecto de aridez e solidão aquelle lado da praia principalmente depois das horas melancholicas do sol-posto.

O mirante assenta n'uma construcçao antiga, que vem pelas ribas abaixo a modo de configuração de torre, e parece o resto de uma muralha mourista, ali esquecida pelo tempo.

É tosco, e está ennegrecido pelos annos, e talvez pelos seculos. Faz lembrar uma torre d'atalava que d'ali, ao largo, vigiasse sobre o rio.

Embouchure de la Rivière Du Tage, Nicholas De Fer, 1710 (detalhe).

Á tarde, quando as aguas tomam as cores bronzeadas e verdi-negras com que as sombras da noite envolvem as montanhas, deve de ser melancholico ver as ondas vir morrer na praia, e sentir o seu embate rouco e monotono como o bramido suffocado de uma grande força da natureza. (1)

Os terrenos onde viriam a ser construidos os “estaleiros do Sampaio, (tal como assim ficaram conhecidos), foram arrematados à Câmara Municipal de Almada em 3 de Maio de 1865, sendo posteriormente firmado em10 de Junho de 1865, um contrato de aprazamento, no qual o proprietário se comprometia a construir um estaleiro naval apetrechado com uma doca seca constituida por dois diques, e ainda a construção de edifícios para oficinas, depósito de madeiras e uma caldeira (área coberta para recolha de pequenas embarcações).

Carta hydrographica do littoral de Cacilhas, 1838.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Localizava-se aquele terreno, na então existente praia da Lapa, virada a nascente cuja sua extremidade norte era formada por um cunhal de recifes rochosos, conhecido pelos cacilhenses no princípio do sec. XX como o Pontal.

Carta hydrographica do littoral de Cacilhas (detalhe), 1838.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A poente, localizavam-se o sítio urbano da Lapa, (totalmente demolido em finais dos anos 40 de XIX, para abertura do troço da EN - 10, ligando Cacilhas à Cova da Piedade), e as propriedades e depósitos de carvão de Alexander Black. (2)

Vista tomada no porto de Cacilhas, face a Lisboa, Hubert Vaffier,  1889.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Aqueles armazéns situavam-se em Cacilhas, para lá do Pontal, junto à zona do estuário do rio Tejo, paredes-meias com os estaleiros da Parry & Son.

O seu acesso por terra fazia-se por Cacilhas, pelo então existente sítio da Lapa, através de um túnel escavado na rocha, que fazia parte do morro de Cacilhas e que conduzia directamente aos armazéns. (3)


A Lapa ficava no sope do Morro perto das Margueiras onde existiam os Fabricos de Cortiça, dois Moinhos de vento ja em ruinas, e, aquele altissimo "Torreão" de forma circular encimado por uma casa quadrada com telhado de telha vã rodeada por tres janelas e uma pequena porta que dava para o estreito caminho que seguia até, a hoje Praça Gil Vicente.

Cacilhas, Carro Carreira da Empreza Camionetes Piedense, Leslie Howard, década de 1930.
À esquerda o bebedouro para os animais e ao fundo a zona da Lapa.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

 No interior desta exigua dependencia existia um alçapão com tampa de madeira empoeirada com uma argola em ferro enferrujado. 

A base desta alta torre ficava mesmo em frente ao portao do Estaleiro ...

Nao se conhecem documentos explicitos sabre este "Torreão" — segundo informacão do Sr. Dr. Alexandre Flores, na Torre do Tombo existe algo sabre uma Muralha fortificada, que se prolongaria ate ao final de Almada acabando perto da Igreja de S. Sebastião... 

A Lapa, que segundo leva a crer, terá tido origem numa Gruta que existia de facto perto da entrada do estaleiro, onde se localizava um antigo predio que foi adquirido pelo Sr. José Malaquias que o mandou reconstruir, adaptando no piso terreo uma Casa de Pasto [...]

Ao fundo da Taberna lá estava a entrada da Furna, Gruta ou Lapa, que daria o nome ao sitio "iria até a Estalagem do Sr. Carlos Narciso, cortando frente à Igreja do Bom Sucesso, e aqui bifurcando, seguia para Almada, onde, como se sabe existem subterraneos entre o Palácio da Cerca, o Forte, até ao Ginjal etc."

Sendo a Lapa um sitio relativamente pequeno possuia no entanto um encanto peculiarmente invulgar, a seguir ao já citado predio havia um armazem mecanizado de enchimento e distribuição de latas de azeite, depais, ao lado, uma enorme construção de c6modos que mais parecia um dos altos predios da Paris da Idade Media — só janelas de guilhotina e mansardas sabre os telhados, já há oitenta anos se encontrava envelhecida esta antiquissima habitação [...]

Grupo de Obuses Pesados, Manobras militares do Outono, 1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Faziam parte do lugar, quatro predios, a entrada para o Black, que na altura estava proibida, — fechada por uma porta de ripas de madeira — mesmo ao lado do portao das docas, e que dava acesso ao caminho que levava aos armazens da recolha de carvão onde os cargueiros acostavam para a descarga , perto das entradas dos diques [...] (4)

Lapa de Cacilhas, aguarela de Anyana, O Scala, inverno 2006.
Imagem: Casario do Ginjal

O troço entre a Cova da Piedade e Cacilhas foi construído entre 1948 e 1951, em grande parte sobre o rio, após o entulhamento das baías da Margueira e da Mutela.

A ligação a Cacilhas fez-se à custa da ruptura do morro que, até então, isolara esta povoação da Margueira. (5)


(1) Andrade Ferreira, José Maria de, Revista contemporanea de Portugal e Brazil, n° 4, Vol. III, 1861
Fonte: Hemeroteca Digital

(2) Veiga, Luís Bayó, Boletim O Pharol, n° 22 

(3) Veiga, Luís Bayó, Boletim O Pharol, n° 18 

(4) Anyana (Idalina Alves Rebelo), 
Boletim O Pharol, n° 05

(5) Rodrigues, Jorge de Sousa, Infra-estruturas e urbanização da margem sul: Almada, séculos XIX e XX, 2000, 35 págs.