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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Alfredo Keil e o vapor da carreira de Cacilhas

A boa fada que presidiu ao seu nascimento votara-o á Arte. Nasceu artista. Nas suas phantasias de creança, nos seus devaneios d’adolescente, apparecia-lhe sempre uma figura divina, que o chamava, sorrindo, mostrando-lhe coroas de louros.

Vapor no Tejo (detalhe), Alfredo Keil 1890.
Casario do Ginjal

Foram as artes plasticas que primeiro o attrahiram; a seducção da fórma, o deslumbramento da côr, levaram-n'o para a pintura. Consagrou-lhe com ardor Alfredo Keil os primeiros annos da sua juventude, e entre os moços pintores que, a esse tempo, procuravam uma vereda segura d'arte, elle era dos que seguiam impulsionados por mais orgulhoso enthusiasmo.

Natural de Lisboa, onde seu pae, Christiano Keil, era muito conhecido e estimado, partiu, em 1868, para a Baviera, com desasete annos, a encetar os seus estudos artisticos, e foi na patria d’Alberto Dürer, na velha e pittoresca Nuremberg, que começou a cultivar a arte.

O vapor da carreira de Cacilhas, Alfredo Keil.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

A residência n'essa cidade, tão impregnada da attrahente poesia do passado, tão cheia de velhos monumentos, nao podia deixar d'influir no espirito juvenil d'Alfredo Keil e lançar n’elle a semente d’essa poética melancolia que o faz procurar asylo, para as suas horas de trabalho, junto ás penedias do oceano, que parecem desmoronamentos de velhas cathedraes, e em que as ondas vem quebrar-se entoando psalmos d’uma liturgia grandiosa. 

De Nuremberg, Keil passou a Munich, mas a sua delicada saude obrigou-o a deixar a Allemanha, e foi em Lisboa, com Joaquim Prieto, que continuou a estudar pintura.

Barcos no Tejo, Alfredo Keil.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Em 1876 expoz, pela primeira vez, trabalhos seus na Sociedade Promotora de Bellas-Artes. Em 1878 concorreu á Exposição Lniversal de Paris com o seu bello quadro "Melancolia".

Em 1886 á Exposição de Pintura de Madrid com o "Pateo do Prior" e "Boa lamina" que lhe obtiveram o ser condecorado com a ordem de Carlos III. Já em 1885 o governo portuguez o agraciara, pelo seu mérito artistico, com o habito de Christo.

Em 1890 abriu no seu atelier, na Avenida da Liberdade, uma exposição onde apresentava umas trezentas telas, na sua maior parte estudos de marinhas e de paysagem, que quasi todas foram adquiridas por diversos amadores, muitos d’elles estrangeiros.

Cacilhas, Alfredo Keil.
Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra

Este artista, que, sem ser impulsionado pela rigorosa exigencia d'attender ás necessidades da vida, se dedicava com tal ardor ao trabalho, era um espirito complexo e inquieto, a quem a pintura não bastava, e, ao mesmo tempo que lançava na tela, n’uma pâte delicada e fina com escrúpulos singulares de nitidez, as suas impressões visuaes de paysagista, ia coordenando a harmonia dos sons, as vozes do mar a que estudava os cambiantes da vaga, a variedade de cantos, que em maravilhosos accordes animam o campo e os bosques, as alvoradas festivaes da natureza, os hymnos religiosos da noite, para os traduzir também pela arte sublime de Palestrina e de Mozart. (1)


(1)  Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (II), 1898

Artigos relacionados:
Invocação
Palette de Alfredo Cristiano Keil (1850-1907)

Exposições:
Exposição de quadros de Alfredo Keil, O Occidente n.° 415, 1 de julho de 1890
Catalogo da exposição de pintura de quadros..., Lisboa, A Editora, 1910
Catalogo da exposição de pintura e desenhos de Alfredo Keil no salao da Ilustração Portuguesa . Abril 1912, Lisboa, Tip. A Editora Limitada, 1912 [IllustracaoPort n.° 322, 22 de abril de 1912]
Evocação da obra olisiponense do pintor Alfredo Keil [1953]
Exposição evocativa de Alfredo Keil, músico, pintor e poeta. Palácio Galveias de 3 a 18 de Julho de 1957

Leitura relacionada:
Alfredo Keil, Collecções e Museus de Arte em Lisboa, Lisboa, Livraria Ferreira e Oliveira, 1905
Alfredo Keil, Um independente, 1950
Olisipo n.° 63, julho de 1953
Rui Ramos, O Cidadão Keil, Publicações D. Quixote, 2010

Mais informação:
Delcampe
Alexandre Pomar, ALFREDO KEIL 1850-1907, Viagens artísticas, in EXPRESSO/Cartaz de 2/3/2002

domingo, 8 de novembro de 2015

Invocação

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,

Praia das Lavadeiras, Ginjal, Alfredo Keil.
Imagem: Casario do Ginjal

Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas, Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipocrene.

Cais do Ginjal, Óleo, Alfredo Keil
Imagem: Casario do Ginjal



Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa, 
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;

Praia das Lavadeiras, Ginjal, Alfredo Keil.
Imagem: Casario do Ginjal

Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; 
Que se espalhe e se cante no universo, 
Se tão sublime preço cabe em verso. (1)

Praia das Lavadeiras, Ginjal, Alfredo Keil.
Imagem: Museu da Cidade de Almada


(1) Camões, Luis de, Os Lusíadas, Canto I, Estâncias 4 e 5

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Na Trafaria, cena da borda-de-água

Não — tinha eu dito comigo logo de manhã cedo, ao abrir a minha porta e ao contemplar o mar —, com um tempo destes é que eu não vou trabalhar. Para onde eu vou é para a pesca.

Trafaria, ilustração Roque Gameiro, 1899.
Imagem: Hemeroteca Digital

E, trazendo o cesto com os aparelhos para a beira da água, sentado no chão, em mangas de camisa, arregaçado até os joelhos, com os pés nus na tépida consolação da areia, abri a minha faca e pus-me a cortar sardinha e a iscar os anzóis. A melhor camada é o casulo; mas nem sempre se pode ter casulo e nestes casos é preciso cortar a sardinha em regra, diagonalmente, e saber metê-la no anzol, enfiando-a na metade do lado da cabeça por um dos olhos, dando-lhe uma volta com a espinha na outra metade. É um trabalho engenhoso.

Balançando na água, o meu bote esperava por mim amarrado à fateixa. Uma intensa luz de um azul de turquesa envolvia a grande natureza ridente, salgada das exalações da água, cheirando aos mexilhões frescos que dois barcos saveiros em forma de meia-lua estavam pescando no Calhau, a trinta metros da praia para o lado do Bugio.

Os primeiros bandos de rolas, picadas pelo vento leste, cortavam o espaço num voo doce, fazendo tremular na areia reluzente da vazante a sombra pardacenta e fugitiva das asas. Alguns maçaricos reais debicavam a salsugem da maré em pulos esbeltos, prateados pelo sol.

— Vê aquela rapariga que vai saltar com um pequeno ao colo para o bote branco que está amarrado ao nosso? — disse-me o pescador José Pirralho, que iscava também um aparelho, acocorado no chão ao pé de mim.

Aquela é a Rita Carrã que vai a Lisboa ver o marido, o João Galhote, do brigue Ligeiro, que entrou hoje de madrugada. É um brigue que anda no mar há perto de um ano.

O João Galhote embarcou logo depois de casar. Esteve apenas três meses com a mulher e vai ver agora o filho nascido, que ele ainda não conhece...

— Olá, ó tia Rita! se o seu José vier logo consigo para baixo faça sinal do bote com o lenço, que é para lhe botarmos um foguete e para repicarmos o sino.

E ela, em pé na embarcação, rindo, vestida de festa, com o pequeno rechonchudo e louro sentado no braço, agradecia dizendo adeus com a mão — Até logo! até logo!

Portugese Shipping in the Mouth of the Tagus, S. Clegg, 1840.
Imagem: BBC Your Paintings

Deitado o aparelho, lancei a minha bênção à boia e remei para terra. Boa coisa, remar! De calças arregaçadas e pernas nuas, com o peito ao vento, a elasticidade de um bom remo espadeirando a água comunica-se ao nosso arcaboiço, e parece que nesse exercício triunfal todos os ossos cantam como canta o estorvo de couro cru amarrado ao tolete quando se pica a boia.

Dizem os do Algarve, que, para remar, tudo puxa desde as unhas dos pés até às pontas dos cabelos. Quando se rema estirado, pranchando o corpo todo no mergulho do remo, o esforço empregado distribui-se igualmente por todos os músculos das pernas, dos braços, do tórax e dos rins, dando a máxima plenitude da força, a mais intensa sensação de poder e de vitória.

Remar é dizer ao oceano — Chegue-se para trás que vai aqui um homem! — e ver o oceano obedecer.

Tinha vindo para casa almoçar e esperar à sombra a maré para levantar o aparelho, quando ouvi gritar por socorro na praia. 

Chego à janela e vejo na água límpida e serena, beijada do sol do meio-dia, as duas mãos de um homem que se afundia junto de um bote amarrado a oito ou dez braças da terra.

Alguns pescadores saltam num saveiro varado na praia e remam para o ponto em que se tinham submergido as duas mãos que eu vira agitarem-se no ar. Sonda-se o lugar; procura-se por toda a parte, com cabos, com remos, com varas; lança-se uma rede. É tudo inútil. O afogado desapareceu.

Trafaria, Vista da Praia, ed. Manuel Henriques, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Era um operário padeiro, de vinte e três anos de idade, o José da Viúva, que sustentava a mãe, paralítica, e duas irmãs. Fora banhar-se ao despegar do trabalho antes de ir jantar, e estava já em terra quando se lembrou que enchia a maré e que deixara longe o bote de que se servira para saltar de mergulho no mar.

Entrara na água outra vez para alar o bote, e foi então que lhe faltou o pé, que o arrastou a corrente, que se afundiu. Falou-se do caso uma hora entre os grupos dos marítimos deitados na praia ao sol.

— Aquilo não foi senão coisa que lhe deu pela cabeça...
— Ou dor!
— Que ele diz que falou ao vir acima...
— Pois sim; mas nada explicou. Mãe! mãe! foi a única coisa que ele disse.
— Com o que a água puxa para cima o corpo vai lá dar para o Porto Brandão ou para Cacilhas...

E depois, a pouco e pouco, como vinha chegando a hora de levantar os aparelhos e de recolher as redes, os botes começaram a largar para o mar, uns depois dos outros, e a praia ficou deserta sob a grande alegria do céu, no suave rumor da vaga, entrecortado de espaço a espaço pelo gemer dos moinhos e pelo cantar dos galos.

Sentia consideravelmente atenuado o meu apetite aos chamirros e aos robalos a que deitara o aparelho, e uma atração magoada prendia irresistivelmente os meus olhos ao ponto do mar em que eu acabara de ver aquelas duas mãos brancas agitando-se convulsas ao lume de água, como as asas de uma gaivota ferida.

Foi a olhar para esse ponto que descobri de repente, ao pé da praia, o bote branco que levara para Lisboa a Rita Carrã. Lembrou-me o sinal do lenço, mas o bote não deu sinal.

Barcos junto à torre do Bugio, Alfredo Keil (1850 - 1907).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Além do remador, que vinha deitado à popa, segurando a escota da vela, o bote não trazia mais ninguém senão a Rita com o filho nos braços.

O José Galhote morrera tísico na torna-viagem do brigue Ligeiro.

O bote branco, que saíra da Trafaria com a festa da esperança e que voltava com a desolação da viuvez, deixou cair a vela como uma continência funerária sobre o mesmo lugar em que se submergira o José da Viúva, e esta bela e comovente cerimónia do acaso fez-me ter inveja ao destino do morto.

Pobre José da Viúva! o teu modesto nome, triste e simpático, não será repetido em artigos banais pela Imprensa, nem figurará em epitáfios idiotas nos mausoléus do cemitério dos Prazeres.

O prior da tua freguesia, ultimamente acusado de ter morto com uma paulada na cabeça uma das ovelhas do seu rebanho, não veio grunhir o latim da agonia sobre a tua última hora.

Trafaria, Vista parcial e estrada da Costa, ed. J. Quirino Rocha, 2, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Invocando o nome da tua mãe, expiraste na mais doce e na mais incontestada das religiões, a religião do amor.

Sepultando-te no mar, libertaste-te dos gatos-pingados, dos chantres, dos veludinhos pretos franjados de galões amarelos, dos pingos das tochas, do badalar dos sinos nas torres, do pregar dos alfinetes na mortalha, de tudo enfim quanto desnatura a morte, tornando lúgubre e repulsiva a doce passagem da luta inclemente da vida para o repouso do nada.

Trafaria, a praia.
Imagem: Delcampe

Nessa noite o chinchorro do tio António Janeiro trouxe para terra um cadáver de envolta com os linguados que foi pescar à meia-noite, e o tio João Loira, velho fadista, foi mais uma vez requisitado em nome da caridade para depor por alguns minutos a sua guitarra no chinquilho do Marcelino e ir, piscando os seus olhinhos vermelhos e cantarolando o Quizumba, abrir a cova e enterrar o José da Viúva debaixo dos três ciprestes que ensombram o cemitério da aldeia. (1)


(1) Ortigão, Ramalho, As Farpas

terça-feira, 2 de junho de 2015

Astúcias de namorada

Havia baile, ou antes sarau dançante, n'uma casa em Almada.

Les vignobles des bords du Tage, foto Paul Witte, Munich, Grande géographie Bong illustrée, c. 1911.
Imagem: Delcampe

N'um pequeno jardim, que se espraiava até a beira dos rochedos pendurados sobre o rio, vinham os grupos dos convidados descançar um pouco das polkas e das valsas, respirar, e relancear os olhos pelo delicioso panorama do Tejo, em cujas aguas traçava a lua como que uma estrada argentea. De quando em quando enchia-se o jardim de risos, de segredinhos; a lua illuminava por entre as folhas roupas alvejantes, que passavam fluctuando como o véo dos sylphos; depois pelas janellas abertas da sala saía uma bafagem de harmonia, proveniente dos primeiros compassos d'uns lanceiros, os grupos dispersavam-se e engolphavam-se em turbilhão pelas portas de vidraças, e o jardim ficava de novo solitario, mas não silencioso; porque n'elle se escutava o rumorejar da brisa, o echo da musica do baile, e o murmurio do rio que gemia docemente em baixo nas fragas.

Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Image: Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

N'um dos intervallos das polkas, e quando o jardim se povoava de novo com os fugitivos do baile, um par, mais fatigado talvez que os outros, veio sentar-se n'uma especie de caramanchão, que ficava na extremidade do jardim, mais proximo da orla do rochedo, e por conseguinte quasi suspenso, como um ninho de gaivotas, sobre as aguas. Devo rectificar o que disse; não foram ambas as pessoas indispensaveis para formarem um par, não foram ambas as pessoas, que se sentaram; só o fez uma senhora de vinte e cinco annos talvez, alta, elegante, morena e viva, de olhos rasgados e cabellos negros, que scintillavam como o ébano á luz brilhante da lua cheia.

O cavalheiro ficou de pé, apesar de sua gentil companheira lhe ter visivelmente proporcionado um logar junto de si, como se podia deduzir do modo como aconchegou o vestido, fazendo occupar á crinoline o menos espaço possivel; mas essas piedosas intenções foram perdidas, porque o seu braceiro não ousou percebel-as, e conservou-se, como dissemos, em pé, ainda que os seus olhos ardentes, cravados no rosto da sua companheira, quando esta o não podia ver, denunciavam que não era a indifferença que o impedia de aproveitar o favor que se lhe queria conceder.

E comtudo esse timido moço estava na idade em que esses favores se ambicionam com mais ardor do que aos trinta e cinco annos a pasta de ministro, estava na idade em que se devaneiam escadas de seda fluctuando ao sopro das auras, serenatas interrompidas por um amante cioso, amores aventurosos, mil perigos a atravessar para se obter um sorriso, uma flor, uma palavra, na idade feliz em que se inveja Leandro só ao pensar quantas vezes se teria accendido o pharol de Hero antes da terrivel noite, em que a morte, envolta em horrendas vagas, segundo a admiravel expressão de Bocage, arrojou um cadaver livido aos pés da torre, em que ainda não expirára o echo dos beijos da antecedente noite.

E o timido rapaz alisava a luva branca, e procurava com frenesi uma palavra qualquer, que lhe não occorria em presença d'essa formosa senhora, cujos pés desejava beijar; e pensava que immensa felicidade não seria a sua, se em vez de estar sem animo, embaraçado e vermelho, diante d'ella, estivesse na outra margem do Tejo, e tivesse que o atravessar a nado para cair offegante e exanime junto d'esse adorado vulto. Então não seria necessario fallar; a sua pallidez, os seus olhos cheios d'amor diriam tudo, e muito infeliz seria, se a nova Hero, vendo-o ensopado por causa d'ella, lhe não dissesse alguma cousa que lhe desembaraçasse a lingua, e partisse o gelo, que se interpunha obstinadamente a dois corações, que anciavam por se unir.

A gentil senhora esteve um instante olhando para elle com um sorriso meio despeitado, meio zombeteiro, e afinal, vendo que a malfadada luva branca ainda não parecia sufficientemente alisada, meneou a cabeça com um gesto encantador, que fez ondular as suas tranças negras, e que espalhou na atmosphera um aroma inebriante, aspirado com delicias pelo timido moço. Depois voltou os olhos para o rio, encostou a face á mão enluvada, e ficou-se a contemplar esse quadro magnifico.

A noite estava linda, uma d'estas noites de luar, como o calido estio as envia aos paizes meridionaes. 

No céu d'um azul suavissimo, algumas nuvens, volteando em torno da lua, recortadas em mil arabescos pela brisa nocturna, embebidas todas no candido fulgor do astro da noite, pareciam as maravilhosas rendas do véu luminoso que Phebe arrasta pelo firmamento, em noites assim languidas e serenas. O Tejo desenrolava a sua immensa toalha liquida, prateada no centro pelo luar, e negra junto do caes, ou á sombra dos mastros dos navios immoveis nos ancoradoiros. Ao longe Lisboa avultava, espraiando a sua casaria á beira do rio, e pelas faldas das suas sete collinas. As longas fileiras dos seus candieiros de gaz formavam á borda do Tejo como que uma fita de chammas. Alguns barcos de pescadores deslisavam silenciosamente, soltando ao sopro da brisa as suas velas brancas. Este panorama, que só tem rivaes na bahia de Napoles ou na enseada de Constantinopla, devia fascinar quem o contemplasse, como a gentil senhora em quem fallamos, do caramanchão d'um jardim, cheio de arvores, onde expiravam os ultimos echos d'uma valsa, onde o luar, coando-se por entre as folhas, luctava com os luminosos reflexos, que dimanavam dos lustres, scintillando nas salas.

No cais do Tejo, Alfredo Keil, 1881.
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Parecia ella effectivamente toda absorvida na sua contemplação, quando a voz tremula e profundamente commovida do seu joven companheiro a fez estremecer.

Essa voz, toda vibrante de paixão, dizia simplesmente estas palavras:

— Que... linda... noite!

— Lindissima, não é? respondeu ella, voltando para o seu interlocutor o rosto ainda encostado na mão, o que lhe permittiu erguer os olhos para elle sem levantar a face, dando assim ás pupillas uma expressão voluptuosa, que encerra um encanto irresistivel, um magnetismo fascinador... Como que parecem fluctuar na atmosphera todos os sonhos dos poetas! Sabe no que eu pensava agora, vendo aquelle bote, que resvala á flor das aguas, como um cysne da noite? Pensava se seria esse o barco de Lamartine, e se levaria tambem dois amantes, que fossem murmurando um ao outro, com as mãos enlaçadas, as doces palavras que tanto nos encantam, quando o auctor do Lago as traduz na melodiosa linguagem da sua poesia.

— Ah! bem sei, respondeu o desastrado:
"Ainsi, toujours poussés vers de nouveaux rivages..."
— Oh! meu Deus, tornou a senhora visivelmente impacientada, conheço os versos, mas, como não quero prival-o do praser de os recitar, peço-lhe que me acompanhe á sala, e permitto-lhe depois que venha de novo confiar á lua e ao Tejo as inspirações de Lamartine.

E a formosa menina, rubra de despeito, levantou-se, e tomou o braço do seu interlocutor, que ficára fulminado por aquella inesperada apostrophe, e que debalde tentava balbuciar umas palavras sem nexo.

Frederico era um moço esbelto de vinte e dois para vinte e trez annos, d'uma gentileza verdadeiramente notavel, d'um espirito intelligente e cultivado, d'uma bondade proverbial, mas tambem d'uma timidez invencivel. D. Lucinda, a gentil senhora que entra n'este momento na sala, podera apreciar as brilhantes qualidades de Frederico, ouvindo-o conversar desembaraçadamente em uma reunião intima, onde o seu acanhamento não tivera motivo para se revelar. 

Deslumbrada por esse esplendido conjuncto de predicados, Lucinda tentára fixar a attenção do gentil moço, e a "coquette" conseguira-o em breve, mas, quando se tratára de dar o passo decisivo, manifestára-se toda a timidez do espirito virginal de Frederico. Era o seu primeiro amor, e só os tolos conseguem atravessar affoitamente essas columnas d'Hercules. Lucinda, experimentada n'essas questões, comprehendera primeiramente o embaraço do mancebo, e, lisongeando-se com isso, entendera tambem que o devia auxiliar.

Mas o que animaria qualquer outro, acanhou ainda mais, se me permittem o termo, a timidez desconfiada de Frederico. Se Lucinda fosse uma timida menina, que córasse como elle corava, que tremesse como elle tremia, os olhos d'ambos fallariam tanto, as palpebras mesmo, abaixando-se a um tempo, teriam uma linguagem tão eloquente, que afinal os labios ver-se-hiam obrigados a traduzir em palavras esse mudo idioma. 

Porém, como podia succeder semelhante cousa, se o olhar ardente de Lucinda deslumbrava aquelle em quem se fitava, se a sua tranquilla superioridade assustava Frederico, e o fazia tremer a cada instante, com o receio de desempenhar o papel de criança ridicula diante d'essa esplendida mulher?!

O ridiculo, que espera nos dois extremos da estrada da vida tanto os que avançam como fanfarrões, como os que recuam com demasiada fraquesa, assustando Frederico que temia vel-o diante de si, assaltava-o quando elle para lhe fugir retrogradava sem ter animo para obedecer ao férvido olhar, que lhe dizia: "Ávante." O pobre rapaz, vendo assim de subito desfeitos em pó os seus planos estrategicos, preferiria um abysmo abrindo-se-lhe debaixo dos pés a ouvir as palavras friamente zombeteiras de Lucinda.

At the ball, Václav Brozík (1851 - 1901), 1898.
Imagem: Wikimédia

Entretanto o baile findára, e os lisbonenses preparavam-se para atravessar o Tejo. Frederico e a familia de Lucinda eram as unicas pessoas, que tinham de emprehender essa excursão. Era pouco mais de uma hora quando Lucinda e sua mãe pozeram as capas, e foram arrancar ás delicias do whist o patriarcha da tribu, que saiu furioso de ter de se embrulhar em dez mantas e de ter perdido dez "rob" consecutivos, Frederico, depois da scena do caramanchão, bem desejaria ficar, mas a mãe de Lucinda, sabendo que era elle o unico dos cavalheiros presentes que regressava a Lisboa, reclamou sem ceremonia o auxilio do seu braço para descer a ingreme calçada.

Almada, Largo do Poço em Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Assim, Frederico viu-se obrigado a pegar no chapéu, e a seguir, supportando o peso da sua volumosa braceira, o pae de Lucinda, que se apoderára d'esta para lhe explicar durante o caminho as infernaes combinações que tinham dado em resultado a derrota memoravel d'essa noute, verdadeiro Waterloo nos seus annaes de jogador de whist.

As circumstancias conspiravam-se todas contra Frederico. Chegados ao caes de Cacilhas, notou-se que apenas um barco se baloiçava nas aguas negras, que batiam murmurando nos degraus da escadaria. Bradou-se pelos barqueiros, que dormiam no fundo do bote, e, quando estes se levantaram, reconheceu-se que eram os remadores de Frederico. Os venerandos progenitores de Lucinda protestaram, em alta voz, contra a insolencia dos seus barqueiros, que os tinham posto inconsideradamente na dolorosa necessidade de atravessarem o Tejo a nado, ou de dormirem ao relento nas pedras humidas do caes. Frederico offereceu immediatamente o seu bote.

Lisboa, Vista tomada de Cacilhas, ed. Martins/Martins & Silva, 7124, década de 1900
Imagem: Delcampe

Não era possivel proceder d'outro modo. Por infelicidade o barco era vasto bastante para que todos coubessem. Frederico viu-se obrigado a entrar e a sentar-se defronte de Lucinda. O pobre rapaz nem ousava levantar os olhos. Desfraldou-se a vela, e o barco resvalou silenciosamente á flor das aguas [...]

A brisa refrescára, e, infunando a vela, fazia tombar o barco para um lado. Os marinheiros pediram a Frederico que se fosse sentar junto de Lucinda.

Já vêem que o acaso continuava a fazer das suas.

Foram calados um instante, com os olhos fitos na lua, que desdobrava a sua placida luz pelo céu azulado e pelas aguas do rio. A face formosa da antiga Diana reflectia-se no espelho vacillante das ondas encrespadas pela viração. Ouvia-se o chapinhar das aguas batendo no costado de uma fragata immovel; um bote de remos passou rente do barco onde iam os nossos heroes. Os remos, sulcando a agua, erguendo-se e recaindo de novo, pareciam arrancar do seio do rio as palhetas luminosas com que o matizava a lua, e que depois lhe devolviam n'uma chuva d'alvas perolas. Um marinheiro, recostado ou antes deitado á pôpa, com os olhos vagamente embebidos no firmamento, dedilhava uma guitarra, e fazia-lhe vibrar nas cordas algumas d'essas melancholicas toadas das nossas canções populares [...] (1)




(1) Chagas, Manuel Pinheiro, Astúcias de namorada, Lisboa, Typographia Progresso, 1873

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Caminhos de areia

A rocha estava já em frente — paredão barrento, alcantilado, com ladeira aberta por milhentas chuvas, escavadas por pés teimosos do mesmo trilho.

Costa da Caparica, Carta dos Arredores de Lisboa — 68 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1902
Imagem: IGeoE

Ladeada de afusados eucaliptos, a estrada de asfalto torcia para a direita, arrastando depois o caminhante a desmedido ziguezague.

A Praia do Sol - Uma vista parcial. Subida para os "Capuchos", ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 110.
Imagem: Fundação Portimagem

Por isso, elas optavam sempre pelo caminho de cabras da Boca-do-Grilo, ladeira íngreme e pedregosa como o Inferno — mas, em quatro arrancos, punham-se lá em cima. (1)

Variante à Estrada Nacional 377 (detalhe), zona da Boca do Grilo.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Com a sardinha, empilhada,
Inda saltando vivaz,
Vem de cestinha avergada;
E lá de baixo, da praia,

Sentinelas ou Guardas avançadas, Caparica, Falcão Trigoso, 1935.
Imagem: Palácio do Correio Velho

E sobe a pino o almaraz;

Costa da Caparica, Alfredo Keil (1851 - 1907).
Imagem: Palácio do Correio Velho

Mas nem por sombras cançada! (2)


(1) Correia, Romeu, Calamento, Lisboa, Editorial Minerva, 1950.
(2) Bulhão Pato, Raimundo António de, Livro do Monte, georgicas, lyricas, 1896, Typographia da Academia, Lisboa.

Artigo relacionado:
Estradas Real 79, Distrital 156 e outras vias

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O Rozegal

— Casou no ar! casou um bocado no ar! Mas Luísa, a Luisinha, saiu muito boa dona de casa: tinha cuidados muito simpáticos nos seus arranjos; era asseada, alegre como um passarinho, como um passarinho amiga do ninho e das carícias do macho: e aquele serzinho louro e meigo veio dar à sua casa um encanto sério.

Rue de Paris, temps de pluie, Gustave Caillebotte, 1877.
Imagem: WikiArt

— É um anjinho cheio de dignidade! — dizia então Sebastião, o bom Sebastião, com a sua voz profunda de baço.

Estavam casados havia três anos. Que bom que tinha sido! Ele próprio melhorara; achava-se mais inteligente, mais alegre... E recordando aquela existência fácil e doce, soprava o fumo do charuto, a perna traçada, a alma dilatada, sentindo-se tão bem na vida como no seu jaquetão de flanela!

— Ah ! — fez Luísa de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo.

— Que é?

— É o primo Basílio que chega!

[...]

Foi com duas lágrimas a tremer-lhe nas pálpebras que acabou as páginas da Dama das Camélias. E estendida na voltaire, com o livro caído no regaço, fazendo recuar a película das unhas, pôs-se a cantar baixinho, com ternura, a ária final da Traviata: Addio, dei passato...

Cena de La Traviatta de Giuseppe Verdi (1813 - 1901).
Imagem: Guernsey Arts Commission

Lembrou-lhe de repente a notícia do jornal, a chegada do Primo Basílio...

Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos vermelhos e cheios. — Fora o seu primeiro namoro, o primo Basílio! Tinha ela então 18 anos!

Ninguém o sabia, nem Jorge, nem Sebastião [...]

João de Brito, que fazia parte da firma Bastos & Brito, faliu. A casa de Almada, a quinta de Colares foram vendidas.

Basílio estava pobre, partiu para o Brasil. Que saudades! Passou os primeiros dias sentada no sofá querido, soluçando baixo, com a fotografia dele entre as mãos. Vieram então os sobressaltos das cartas esperadas, os recados impacientes ao escritório da Companhia, quando os paquetes tardavam...

Terrasse à Sainte-Adresse, Oscar-Claude Monet, 1867.
Imagem: Wikipedia

[...]

Fora sempre o seu desejo viajar — dizia — ir ao Oriente. Quereria andar em caravanas, balouçada no dorso dos camelos; e não teria medo, nem do deserto, nem das feras...

— Estás muito valente ! — disse Basílio. — Tu eras uma maricas, tinhas medo de tudo... Até da adega, na casa do papá, em Almada!

Ela corou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterrânea que dava arrepios! A candeia de azeite pendurada na parede alumiava com uma luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de teias de aranha, e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. Havia ali às vezes, pelos cantos, beijos furtados [...]

— Lembras-te da capela da nossa casa em Almada?

Tinham passado ali lindas tardes! Ao pé da velha capela morgada havia um adro todo cheio de altas ervas floridas, — e as papoulas, quando vinha a aragem, agitavam-se como asas vermelhas de borboletas pousadas...

Papaverveld, Vincent van Gogh, 1890.
Imagem: Wikimedia

— E a tília, lembras-te, onde eu fazia ginástica?

— Não falemos no que lá vai!

[...]

Luísa recebeu, na manhã seguinte, da parte de Sebastião, um ramo de rosas, magenta-escuro, magníficas. Cultivava-as ele na quinta de Almada, e chamavam-se rosas D. Sebastião. Mandou-as pôr nos vasos da sala, e como o dia estava encoberto, de um calor baixo e sufocante:

— Olhe — disse a Juliana — abra as janelas.

— Bem — pensou Juliana — temos cá o melro. O melro veio com efeito às três horas. Luísa estava na sala, ao piano.


Sebastião não conhecia Basílio pessoalmente, mas sabia a crónica da sua mocidade. Não havia nela certamente, nem escândalo excepcional, nem romance pungente.

Basílio tinha sido apenas um pândego e, como tal, passara metodicamente por todos os episódios clássicos da estroinice lisboeta: — partidas de monte até de madrugada com ricaços do Alentejo; uma tipóia despedaçada num sábado de touros; ceias repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas pegas aplaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau e Colares nas tabernas fadistas; muita guitarra; socos bem jogados à face atónita dum policia; e uma profusão de gemas de ovos nas glórias do entrudo.

Bal du moulin de la Galette, Pierre-Auguste Renoir, 1876
Imagem: Wikipédia

As únicas mulheres mesmo que apareciam na sua história, além das Lolas e das Carmens usuais, eram a Pistelli, uma dançarina alemã cujas pernas tinham uma musculatura de atleta, e a condessinha de Alvim, uma doida, grande cavaleira, que se separara de seu marido depois de o ter chicotado, e que se vestia de homem para bater ela mesmo em trem de praça do Rossio ao Dafundo.

Un bar aux Folies Bergère, Édouard Manet , c. 1881.
Imagem: Wikipédia

Mas isto bastava para que Sebastião o achasse um debochado, um perdido; ouvira que ele tinha ido para o Brasil para fugir aos credores; que enriquecera por acaso, numa especulação, no Paraguai ; que mesmo na Baía com a corda na garganta, nunca fora um trabalhador; e supunha que a posse da fortuna para ele, seria apenas um desenvolvimento dos vícios. E este homem agora vinha ver a Luisinha todos os dias, estava horas e horas, seguia-a ao Passeio...

Sebastião era só. Tinha uma fortuna pequena em inscrições, terras de lavoura para o lado do Seixal, e a quinta em Almada, — o Rozegal.

Cova da Piedade, zona rural, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

As duas criadas eram ruito antigas na casa. A Vicência, a cozinheira, era uma preta de S. Tomé já do tempo da mamã. A tia Joana, a governanta, servia-o havia trinta e cinco anos; chamava ainda a Sebastião o "menino"; tinha já as tontices duma criança, e recebia sempre os respeitos duma avó [...]

Sebastião tinha estado nos últimos três dias em Almada, na quinta do Rozegal, onde trazia obras.

Voltara na segunda-feira cedo, e, pelas dez horas, sentado no poial da janela de jantar que abria para o terraçozinho, esperava o seu almoço, brincando com o Rólim — o seu gato, amigo e confidente da ilustre Vicência, nédio como um prelado, ingrato como um tirano.

A manhã começava a aquecer ; o quintal estava já cheio de Sol ; na água do tanque, sob a parreira, claridades espelhadas e trémulas faiscavam. Nas duas gaiolas os canários cantavam estridentemente [...]

Sebastião, que tinha estado na quinta de Almada quase duas semanas, ficou aterrado quando, ao voltar, a Joana lhe deu as grandes "novidades": que a Luisinha agora saía todos os dias às duas horas, que o primo não voltara; a Gertrudes é que lho dissera; não se falava na rua noutra coisa...

[...]

Uma ideia amparava-a: era que apenas Sebastião viesse de Almada, estava salva; e apesar daquela agonia miúda de todos os momentos, quase receava saber que ele tivesse chegado, — tanto a confissão da verdade lhe parecia uma agonia maior! Foi por esse tempo, então, que lhe veio uma lembrança — escrever a Basílio.

O terror permanente amolecera-lhe o orgulho, como a lenta infiltração da água faz a uma parede; e todos os dias começou a achar uma razão, mais uma, para se dirigir "àquele infame": fora seu amante, já sabia todo o caso das cartas, era o seu único parente... E não teria de "dizer" a Sebastião ! Já às vezes pensara que não aceitar dinheiro de Basílio fora uma "fanfarronada bem tola"! Um dia dia enfim escreveu-lhe. Era uma carta longa, um pouco confusa, pedia-lhe seiscentos mil-réis. Foi ela mesmo levá-la ao correio, sobrecarregando-a de estampilhas.

Nessa tarde, por acaso, Sebastião, que chegara de Almada, veio vê-la. Recebeu-o com alegria, feliz por não ter de lhe contar... Falou da volta de Jorge; aludiu mesmo ao primo Basílio, à "pouca vergonha da vizinhança..."

Déjeuner sur l'herbe, Édouard Manet, 1863.
Imagem: WikiArt

[...]

E foram descendo a rua, de braço dado, até ao Aterro.

No cais do Tejo, Alfredo Keil, 1881.
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

O dia estava glorioso; um friozinho subtil errava; no ar luminoso, leve, traspassado de Sol, as casas, os galhos das árvores, os mastros das faluas, as mastreações dos navios tinham uma nitidez muito desenhada ; os sons sobressaíam com uma tonalidade cantada e alegre; o rio reluzia como um metal azul; o vapor de Cacilhas ia soltando rolos de fumo que tomavam a cor do leite; e ao fundo as colinas faziam na pulverização da luz uma sombra azulada, onde as casarias caiadas rebrilhavam. (1)

Vapor da carreira de Cacilhas, 1890, Óleo, Alfredo Keil
Imagem: Casario do Ginjal




(1) Queirós, Eça de, O primo Basílio: episódio doméstico, Porto, Lello e Irmão, 1900.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (14/18), pedido de casamento


PEDIDO DE CASAMENTO



Rocha do conde de Óbidos (e convento dos frades Hospitalários e forte de S. João de Deus),  Alfredo Keil, 1884.
Imagem: Restos de Colecção

Na madrugada do dia 24 de julho de 1833 toda a tropa que occupava Lisboa, em numero de mais de 6:000 homens, se retirou para o Campo Grande, e pouco depois a cidade sublevou-se acclamando o novo systema de governo.

Abriram-se então todas as cadeias, sairam os presos politicos e civis, e tambem Luiz Franco, o qual, apenas se viu solto, partiu para o Caramujo, sendo recebido por Antão Diniz, por sua criada Ignez, e por todos os seus amigos da Outra-Banda com testemunhos do mais completo contentamento.

O perigo imminente de morrer enforcado, e tres annos de prisão quasi completos, tinham-lhe enervado o corpo e o espirito, mas não tinham diminuido sequer um apice do seu affecto por Mathilde, nem esta lho queria menos; ao contrario, mais interessante se lhe afigurava agora, ennobrecido como estava pelas desgraças de que fôra victima.

Franco, em vez de se aproveitar da mudança politica e dos seus soffrimentos para obter um emprego, como muitos fizeram com menos direitos e habilitações, e mesmo sem nenhuma d'estas qualidades, não só o não fez, senão que até abandonou de todo a carreira de cirurgião militar limitando-se a exercer a sua profissão na Outra-Banda, o que apenas lhe dava com que passar parcamente.

Botelho era a antithese d'estas aspirações modestas, porque, não se sabe com que artes, conseguira que o novo governo o transferisse para o corpo diplomatico como secretario de embaixada, para ser convenientemente collocado apenas acabasse a lucta.

Dizia-se que de certo tempo por diante deixára de ser realista e se lançára no partido constitucional, guerreando a causa de D. Miguel de maneira importante pelos meios que lhe proporcionavam as funcções do seu antigo emprego na secretaria da guerra. Se assim foi, teve bastantes companheiros, que como elle só deixariam de bem merecer o epitheto de traidores, se houvessem procedido por convicção e sem a mira no vil interesse.

O caso é que Botelho nunca tinha largado a casa de Diniz; e de tal modo se houve sempre, que logrou captivar-lhe o animo, e mesmo a amisade de Mathilde, que o tratava como se fora seu irmão.

A nova posição que lhe foi dada pelo governo do Imperador esfriou um momento estas relações, mas Botelho já esperava isto, e tinha-se preparado. Por isso, quando a tempestade rebentou, arrostou-a com tanta perícia, que Diniz e D. Francisca pareceram satisfeitos, e chegaram até a louvar o seu procedimento.

Quanto a Gomes nunca mais foi visto no Caramujo, e pouco depois da sua ingratidão para com Franco tinha partido para o cêrco do Porto no regimento novo, que se formára do casco do 4 de infanteria.

A mudança politica, que foi vantajosa para Botelho, não prejudicou em nada a Antão Diniz, que pela sua edade e excellente caracter estava a coberto de desgostos politicos, principalmente na Outra-Banda, onde era idolatrado; assim como não prejudicou a Chrysostomo, que continuava na sua aula de primeiras lettras, não sem ouvir de vez em quando algumas allusões da tia Libania, e de um ou outro dos seus amigos constitucionaes, o que fazia sair de si o professor, que se desforrava com uma saraivada de improperios, mas acabava tudo em rizadas, porque elle era na verdade boa pessoa.

No cais do Tejo, Alfredo Keil, 1881.
Imagem: MNAC (museu do Chiado)

Espanta-maridos esse andou por Lisboa á testa de um grande pelotão de marujada, bebeu muito, enrouqueceu a cantar hymnos, deu muitos tiros para o ar, salvou a vida a dois desgraçados que não conhecia e que o populacho queria matar, e no fim de tudo chegou a casa da tia Libania cançado e moido, dizendo que nunca se divertira tanto em toda a sua vida, e contando muitos episodios tragicos e burlescos, com que entretinha as noites os pandegos da Outra-Banda, de quem era a alma e o centro, desde a morte do Faria.

— Ah meus parceiros! dizia elle n'um domingo de tarde conversando com os seus pandegos na praia do Caramujo. Vossês ignoram quanto pode o amor da liberdade. Saibam que na manhã de 24 de julho muito cedo veio procurar-me o piloto do Conceição Flôr de Maria, e disse-me:

— A guarnição de Lisboa fugiu, o povo está sublevado; hoje entrou do Havre um navio inglez com fazendas francezas á consignação de meu pae e do inglez seu socio; no porto não ha auctoridades, policia, nem fiscalisação; os negociantes são como os padres, não perdem occasião. Trata-se de passar esta noite a carga para terra sem pagar direitos. Queres ajudar?

— Prompto, disse eu. Mestre mandar, marinheiro fazer.
— Bem, disse o piloto. Por ora guarda segredo. A tripulação ninguem a contem a bordo, todos querem ir a terra. Toma dinheiro, e vae com elles. Divirtam-se, mas não m'os deixes embebedar, e trazem'os todos á noite para começarmos a faina.

— Dito e feito. Recebi tres moedas em bons pintos, e eis-nos em terra, e entrando formados pelo Arsenal da Marinha. Armámo-nos, enchemos de polvora as patronas, e toca pela cidade aos tiros e ao vivorio. Isto até quasi á noite.

Já lhes contei o que se passou n'aquelle dia; mas de tudo o que mais notavel achei foi um grupo de judeus que davam grandes vivas, e que sempre appareciam com armas diversas. Ora eram clavinas, ora traziam espingardas, ora appareciam de refles. Aquillo, quanto a mim, era deposito de armas que andavam a fazer para negocio. Emfim tratavam de ganhar a vida a seu modo!

Á noite fomos todos atrás de Nosso Pae, que ia da Encarnação para um ferrageiro que por equívoco tinham ferido mortalmente lá para a Patriarchal. Não se cantava o bemdito, todos cantavam o hymno com acompanhamento de muitas musicas. Eramos mais de 2000 pessoas. Depois toca a cear, e vim com a maruja para bordo, com os armamentos, já se sabe.

O navio inglez estava fundeado muito á terra defronte das lamas da Boa-Vista, onde ha os estaleiros. Os tres escaleres d'elle e os tres do Flor de Maria não fizeram até á alvorada senão descarregar fazendas para um dos taes estaleiros. E assim vieram para terra 160 contos de fazendas francezas sem pagarem direitos.

Nunca me ha de esquecer o enthusiasmo do meu antigo patrão e do seu socio inglez no outro dia depois da descarga. Berravam como touros — Viva a Carta e a Rainha!

— Mim sêrre muite amigue de liberredade — dizia o inglez no Café Grego do Caes de Sodré. Mim e mi socie darre 20 libres pârre luminacione in cáes á note. Morre despotisme!

E todos aos abraços a elle, e a populaça mal informada a gritar "Viva o negociante inglez!" Ah! ah! ah!

— Depois quando me despedi d'elle disse-me:

— Good bye! Vocemecê senhorre Espante-marrides, seje semprre muite liberrale. Mim digue a vocemcê — que no ha nade pârre gente sêrre muito satisfeite côme é liberredade e constitucione.

— Cem libras foram o premio de tanta fadiga para as tripulações dos dois navios. A mim couberam-me seis, e ellas aqui estão — disse elle, fazendo tilintar o dinheiro na algibeira.

Em quanto Espanta-maridos assim folgara, na praia, e interrompendo-se a cada sorriso e bichancros para a sua querida Felizarda, que de vez em quando o vinha observar das janellas de seu amo Antão Diniz, estava este na sua sala conversando com a familia e Botelho.

Paul da Outra banda, Pântano, Vista do Alfeite, Charco de Corroios, José Malhoa, 1885.
Imagem: Blog do Noblat

Nunca Botelho se mostrara tão affavel como então. A matéria em que se discorria era agradavel: fallava-se em casamentos, e citaram-se alguns de pessoas conhecidas da Outra Banda, que haviam sido muito felizes.

— É verdade, dizia Diniz. Mas sendo os casamentos felizes uma excepção, e sendo os infelizes um verdadeiro inferno, não se póde dizer que o estado de casado seja bom. É necessario, mas nem tudo o que é necessario é bom. Não fallo de mim, porque eu e a sr.a D. Francisca somos dos exceptuados.

— Assim é, disse Botelho; e os meus maiores desejos são de que a sr.a D. Mathilde possa um dia dizer o mesmo. — Obrigado, respondeu Mathilde. E acrescentou, lembrando-se de Franco e fazendo-se muito vermelha: Parece-me que se pode esperar ser dos exceptuados quando o marido é da livre escolha da mulher e da approvação dos paes d'ella.

— Que desvio tão impertinente que vae tendo a conversação, disse D. Francisca em voz baixa a Diniz, que se occupava em examinar uns cravos collocados sobre a jardineira n'uma jarrinha do Japão — e fazendo com os olhos um signal a Mathilde, que ella não percebeu.

— Animo! dizia comsigo Botelho. A occasião é quasi de todo calva, e ella ahi vem a passar: se não agarro a unica madeixa que lhe resta, foge-me, e quem sabe se passará outra vez.

— Senhora! respondeu elle. Eu considerar-me-hia o mais feliz de todos os homens se podesse ser o objecto d'essa escolha.
— Ah!... exclamou Mathilde, fazendo-se pallida, e não acertou em dizer mais nada.

D. Francisca e Antão Diniz, que estavam muito longe de esperar ouvirem estas palavras, ficaram estupefactos olhando para Botelho.

Quanto a este observava com a maior impassibilidade o mau effeito que fizera a sua declaração, julgando ter-se enganado agarrando a Tolice em vez da Occasião.

Esta scena muda não podia durar muito; e Diniz ia responder com certo azedume, quando um novo personagem o veio tirar da difficuldade.

— Dão licença? Disse a voz de Chrysostomo, e immediatamente entrou o seu proprietario.

Chrysostomo, não vendo na escada o criado, que se tinha ido juntar ao rancho dos pandegos de Espauta-maridos, subiu, chegou até á porta da sala, e ouvindo a voz de Botelho não puzera duvida em entrar, vista a familaridade com que Diniz o tratava, e chegou muito a tempo para evitar que a conversação terminasse do um modo desagradavel para todos.

Ficou porém muito admirado do ar glacial que observou no rosto dos seus amigos, e como tinha grande susceptibilidade, pensou que estariam agoniados por se terem passado alguns dias sem os visitar.

— Bem sei que V. Ex.as, disse elle, me devem considerar como um grande grosseirão pela ausencia que tenho feito; mas se deixei de apparecer é porque tenho andado adoentado, por isso mereço desculpa. — E acrescentou: — Muito estimo ter encontrado o sr. Botelho, mesmo porque estava desejoso de saber novidades do theatro da guerra. Botelho respondeu: São boas para a causa da sr.a D. Maria II, e más para a causa do sr. D. Miguel, que considero perdida, porque não ha situação politica que possa resistir á perda das duas capitaes do reino e da marinha de guerra, principalmente quando as primeiras nações da Europa lhe são hostis.

— Eu tambem o entendo assim, disse Antão Diniz, procurando desvanecer a má impressão que lhe havia causado a declaração de Botelho a Mathilde.

O sr. D. Miguel era inferior á sua posição; precisava por isso de algum homem de altas qualidades por quem se deixasse guiar. Mas desgraçadamente desconheceu esta necessidade. Portanto, entregue a a si, afastou os sabios e rodeou-se dos ignorantes, que abusaram da sua insufficiencia e o perderam.

Lembra-me de um régulo de Africa, que era cóxo, e os seus fidalgos fingiam-se mais cóxos do que elle. Assim acontece sempre. Quando os chefes de um povo procedem com sabedoria, os seus ministros e conselheiros procuram excedel-os e governam bem; mas quando procedem de modo ditferente, os ministros e conselheiros ainda são peiores e governam mal.

O resultado então, entre as nações cultas, é a prompta mudança de rei e de governo; mas esta mudança não se faz sem muito sangue do pobre povo. N'isto que digo não sou suspeito, porque todos sabem a minha dedicação pelo sr. D. Miguel; mas a verdade primeiro que tudo.

A conversação ainda durou mais algum tempo, até que Botelho, fazendo-se-lhe tarde para se retirar a Lisboa, se despediu até ao dia seguinte.

Tendo saido Botelho, Diniz e D. Francisca contaram a Chrysostomo o que se havia passado com elle. Ficou Chrysostomo aturdido com o atrevimento de Botelho; e em presença d'este caso, e vista a muita amisade que tinha á familia de Antão Diniz, não duvidou contar-lhe os amores de Botelho com Josephina, pedindo-lhe o mais inviolavel segredo a respeito da pessoa que os tinha informado.

Não faltou Botelho no dia seguinte em vir ao Caramujo, onde foi recebido só por Antão Diniz e sua mulher. Depois de conversarem algum tempo sobre coisas indifferentes, fallou Antão Diniz muito de proposito da sua estada no Rio de Janeiro, quando era capitão do antigo regimento 18, e disse:

— N'esse tempo salvei a vida a um alferes do meu regimento, que, vivendo amancebado com uma linda mulatinha da rua do Hospicio, foi pedir em casamento uma menina branca, filha unica de uma honesta familia; e sabendo-o a mulata, mandou-o esperar por dois capoeiras para o matarem, e já um d'elles o tinha deitado no chão com uma marrada, quando eu cheguei, e os fiz fugir as pranchadas.

Que lhe parece, sr. Botelho, o procedimento do tal alferes?

Natan pune David, gravura, Julius Schnorr von Carolsfeld.
Imagem: Wikipédia

Botelho, apezar de toda a sua presença de espirito, fez-se livido como um cadaver, percebendo que , Diniz estava inteirado do seu viver, que elle tinha tão cuidadosamente occultado; e saiu pouco depois cheio de odio contra Chrysostomo, a cuja indiscrição attribuia a allusão de Diniz.


Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.