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quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O edifício da União Eléctrica Portuguesa

O antigo edifício da União Eléctrica Portuguesa, projectado pelo Arquitecto Francisco Keil do Amaral, surgiu da necessidade que a Companhia Nacional de Electricidade tinha de estabelecer e explorar linhas de transporte e subestações destinadas ao fornecimento de energia eléctrica aos concessionários da grande distribuição.

Almada, edifício da União Eléctrica Portuguesa.
Entrada Conjunto Pormenor.
Arquivo Municipal de Lisboa

A acção de Keil do Amaral cobriu uma área geográfica que se estende por toda a península de Setúbal. O complexo que integrava a subestação tinha um programa eminentemente industrial de produção, transformação e transporte de energia. No entanto, era ainda neste local que se situavam todos os serviços de apoio ao transporte de energia.

Em termos da evolução histórica da zona a intervir, pode-se claramente distinguir quatro fases, todas elas temporalmente situadas no século XX.

A fase inicial, realizada entre 1930 e 1940, traduziu-se num pequeno edifício residencial, de autor desconhecido, característico da arquitectura do regime de então. 

Almada, geradora eléctrica, localizada no Campo de S. Paulo, ed. desc., década de 1930.
Imagem: Arquivo Nacional da Torre do Tombo

A segunda fase foi já protagonizada pelo arquitecto Francisco Keil do Amaral, em 1940. O edifício em forma de L e a sua torre vertical ficaram acabados em 1945 e tinham como fim alojar os escritórios da União Eléctrica Portuguesa.

Almada, rua Bernardo Francisco da Costa, ed. desc., década de 1960.

Com o passar do tempo foi necessário expandir os escritórios e criar armazéns, tendo-se assim dado início à terceira fase. Grande parte desta inter- venção constava já do projecto original de Keil, ao qual foi apenas necessário acrescentar a casa do Guarda e a conexão com o edifício pré-existente.

Almada, edifício da União Eléctrica Portuguesa.
Escada Fachada.
Arquivo Municipal de Lisboa

A quarta e última fase consistiu numa série de adições necessárias de re- alizar, tal como o novo volume em betão que servia para estacionamento. Na construção e no acabamento da obra de Keil foram usadas paredes duplas de tijolo, rebocadas com argamassa de cimento e areia ao traço de 1x4 e pintadas com “aquella”. Ao nível dos pavimentos, foram colocados mosaicos de “marmorite” e de cimento com óxido de ferro.

Almada, edifício da União Eléctrica Portuguesa.
Sala de vendas.
Arquivo Municipal de Lisboa

Adicionalmente, nesta obra usou-se ainda um vasto conjunto de materiais, nomeadamente socos de cantaria bujardada provenientes de Sesimbra, caixilharias de pinho pintadas a esmalte, com uma vidraça mecaniza- da nacional de 4mm, e ainda telha “marselha”, em lugar da tradicional telha “lusa”. (1)


(1) Reabilitação da antiga subestação da união eléctrica portuguesa, em Almada (abstract)

Mais informação:


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

A filha do povo — 1486 (IV de IV)

Ás mesmas horas, pouco distante, nos paços d' Alcaçova, como o dia fôra abrasador, D. João II e alguns fidalgos e jurisconsultos passeavam n,uma esplanada, que dominava a cidade e o Tejo. 

View of Lisbon.
Convento de S. Paulo e do Castelo de Almada no séc. xviii, autor desconecido, séc. xix.
Museu de Lisboa (MC.DES.1141)

Eram varios os grupos, e convergiam, como de rasão, as attenções de todos para aquelle onde estava el-rei, composto de pessoas mais distinctas pelos seus serviços e fidelidade á corôa, do que pelos seus brasões e nascimento. Ali se viam Diogo d'Azambuja, que as navegações e guerras haviam tornado manco e velho! D. Diogo d' Almeida, o amigo d'infancia do rei e tão feliz nas expedições d'Africa; Ayres da Silva e Antão de Faria, seus camareiros e privados; os doutores Ruy da Graan, depois compilador das Ordenações Manoelinas, e Diogo Pinheiro, elevado a bispo do Funchal, e alguns outros, cujos nomes as chronicas do tempo nos memoram hoje [...] 


Coimbra, Março do 1862. 



(1) Revista Contemporânea de Portugal e Brazil n.° 3, 1862

sábado, 19 de setembro de 2020

A filha do povo — 1486 (III de IV)

No longo, obscuro e tormentoso periodo de quasi dez seculos que fórma a idade média, constantemente, se pelejou uma lucta encarniçada entre os varios elementos constitutivos da sociedade europea. 

O feudalismo, a theocracia, a democracia e a realeza, tomando va-riadas fórmas, debateram-se, triumpharam, successiva e momentaneamente uns sobre os outros, e dcsfalleceram para tornar a surgir, trium-pbar e desfallecer. 

Estas tentativas de organisação social, todas grandiosas e mais ou menos fundadas no espírito do homem e nas circunstancias do tempo, abortaram, ora pelo seu exclusivismo, ora pela extincção do proprio fundamento, ora, finalmente, porque obstavam á civilisação que do reciproco attrito de todas começava a raiar.

Áquem do facto, momentoso por si e sobre tudo pelos seus effeitos, que separa os tempos modernos dos da meia idade, a lucta continuou até hoje; mas em períodos mais vastos, mais definidos, ou antes com luz mais intensa sobre elles, que n'ol-os deixa ver mais em relevo e côres mais vivas. 

Pereceram quasi de todo já o feudalismo e a theocracia; os estremecimentos que, de quando em quando, ainda lhes senlimos são os arrancos do moribundo. Tentar dar-lhes vida é emprehender uma resurreição, o que só compete ao espírito de Deus e não ao do homem. Extinguir-lhes antes os raros bafejos d'ella que ainda conservarem: é poupar-lhes soffrimentos, é alliviar a humanidade d'esse espectaculo de receios e dôr.

Agora luctam ainda, n'um ou n'outro ponto, a realeza, que julga vigorosos os moribundos e por elles illudida, pois os sente ainda es-trebuxar por toda a parte, e a democrncia que aspira á liberdade e ao progresso. Ba de finalisar-se esta peleja, e hão de os contendores, dando um abraço de fraternidade e paz, conhecerem que está no seu amor reciproco o conseguimento da pacificação e do mais facil era-pido desenvolvimento da sociedade humana.

Ora ao sair da idade média, na segunda metade do seculo quinze, a realeza alliara·se com o povo para destruir o seu maior inimigo, aquelle que mais de perto a offuscava e affrontava.


Os dois alliados davam então no feudalismo o mais terrivel golpe, o que o prostraria no solo, e de que não mais se havia de levantar. Predominava este facto por toda a Europa.

Henrique VII na Inglaterra, Maximiliano na Atlemanha, Luiz XI na França, Fernando e lzabel na Hespanha e João nem Portugal eram os athletas reaes n'aquella peleja, em que os populares foram illudi-dos e espoliados, e de que só victoriosos e preponderantes saf ram os sceptros.

Foi D. João II dos mais terriveis contendores: o seu panegyrista, sem querer mesmo, retingir-lhe de sangue, assombreou-lhe de terror muitas paginas da Chronica.

Com sua vontade ferrea immolou sem piedade os nobres mais altivos e poderosos que receiava lhe fizessem estremecer o throno.

Atravez dos seculos e das paginas da historia, ainda hoje divisamos o pavor, que infundia na classe, por tão largo tempo, rival dos reis e oppressora dos povos, o olhar de João II.

Não devem pois maravilhar as hesitações e receios do filho do conde de Caminha. Apenas chegado a Lisboa, viu elle quanto eram justas; prenderam·n'o e conduziram-n'o a um carcere do Limoeiro, já então convertido em prisão real.

São passados quinze dias que ali jaz.

Eil'o pallido, magro e enfraquecido; sentado junto de um bofete, n'uma cadeira d'espaldar de lavor simples. Á primeira vista não parece o mesmo; desfigurou-o a tortura, esse meio hediondo e cruel que a justiça antiga empregava para descobrir a verdade. Dilacerou-Jbe os membros, rasgou-lhe as carnes, infligiu-lhe as dõres mais vivas, e conseguiu apenas ouvir ao cavalleiro reiterados protestos de innocencia.

Proximo a D. Alvaro, de joelhos, sobre um coxim de panno escuro, os cotovellos apoiados na cadeira e uma das mãos de Sotto-Maior, meigamente, apertada entre as suas, está Maria, triste, mas acariciadora, empregando todo o amor e ternura que lhe transparecem nos olhos formosissimos em confortar o cavalleiro, em lhe inspirar resignação, em distrahil-o de seus dolorosos soffrimentos do corpo e do espírito.

Não foi possível retel-a na sua casa d'Almada; penetrou no paço quasi escusamente, lançou-se aos pés do monarcha e disse-lhe que a neta de um dos mais honrados procuradores do povo, durante os tres reinados anteriores, lhe rogava ir encerrar-se na prisão com o misero cavalleiro seu noivo. Tantas foram as supplicas e as lagrimas que se apiedou o rei... é que tinha coração para os infelizes o filho de A ffonso V. 

View of Lisbon.
Convento de S. Paulo e do Castelo de Almada no séc. xviii, autor desconecido, séc. xix.
Museu de Lisboa (MC.DES.1141)


Um dos letrados da casa da Supplicação, com o seu rosto pallido e a sua garnacha escura, estava defronte dos dois amantes. 

Eram os jurisconsultos, que ajudavam e impelliam os reis na sua obra; as leis da antiga e da moderna Roma serviam-lhes de aríete para destruirem a nobreza e enthronisarem o absolutismo. 

— Senhor D. Alvaro, dizia o doutor, n'esla nobilíssima, porém mais que todas pungidora missão de administrar a justiça, jámais me hei sentido affiicto, como no caso que vos diz respeito. Foram empregados debalde todos os meios para descobrir se vós ereis ou não conspirador. João Dagualda porfia em accusar-vos como tal. As vossas relações com o duque de Vizeu e o bispo de Evora, com D. Fernando de Menezes e D. Pedro de Athaide, já todos mortos por justiça de el-rei, — e aqui o doutor fez uma profunda mesura, — e principalmente a vossa ida a Castella são as unicas provas de que tinheis o intento, que vos attribuem, de matar o senhor D. João. — e de novo curvou a fronte, — rei pelo voto dos concelhos, rei principalmente por direito divino.  

IOANNES QVARTVS PORTVGALIAE REX
Kunsthistorisches Museum

— Já a isso respondi cabalmente, doutor, disse o cavalleiro com voz desfallecida. Tinha relações com esses infelizes que Deus tem, porque eram da minha classe, porque estivera com elles nos campos de batalha, porque os encontrava todos os dias nos paços de el-rei. Fui a Caslella, porque tenho lá casa e parentes, porque negocios de familia me chamavam lá. 

— Hoje assim o creio, senhor cavalleiro; os juízes porém da Supplicação não estão conformes ainda todos, e sua alteza o senhor D. João II, outras mesuras a quem sabeis, todos estes feitos são presentes, e de cuja vontade depende sobre tudo a sentença, porque a lei e o querer de Deus; e o querer de Deus é o querer do principe, está de tal modo decidido a manter como lhe compete, o poder da corôa. e a defender este reino contra os conloios de Castella, que, sinceramente, muito vos receio pela vida.

Maria estremeceu, e o seu alvo rosto tin~iu-se d'aquella cór ama-rello-escuro que dá a melancholia profunda e prolongada ou o medo grande. A D. Alvaro não se lhe agitou um musculo, e respondeu no seu primeiro tom:

— Faça-se a vontade da Virgem Mãi de Deus!

— E depois nós os homens de justiça, continuou o doutor, não sabemos explicar aquella contumacia de João Dagualda, antigo servidor dos vossos, em accusar-vos como traidor, e cm querer mal á bclla e santa menina que ahi tendes. O haverdes-lhe fustigado as faces não é sufficiente causa para n'um homem da sua condição arreigar tama· nho odio. De provardes ou não sua calumnia suspensa vos está a vida. E como havemos declarai-a tal não o sabemos nós.
 

— Sei eu! disse Maria, — levantando·se de um salto, as faces affogueadas, os olhos faiscantes, — sei-o eu, e não o disse já, porque me vexava, porque Alvaro ordenou-me que vol-o occultasse, porque pensei que ereis mais providentes, julguei que a cegueira da justiça era em quanto á condição dos réos para a todos applicar igualmente a lei, e que lhe era facil, na sua perspicacia e rectidão, descriminar o bem do mal, o innocente do criminoso, descobrir com todos os seus immensos meios de sciencia e dinheiro aonde a verdade, aonde a calumnia! Mas enganei-me, e, visto que a vida de Alvaro depende d'essa revelação, hei de desobedecer-lhe, tudo direi a el-rei; direi por que o servo abjecto e vil me quer mal, e como sabe, que, se Alvaro morrer, eu morrerei lambem, por isso quer leval-o ao cadafalso. Mas não ha de ir. O cavalleiro e eu, — disse com voz inspirada, — temos por egide a protecção da Virgem; disseram-me que el-rei é tambem devoto da Mãi de Deus: irei fallar-lhe em seu nome, e em nome de todo o povo de Portugal; irei dizer-lhe que o sangue do innocente, espadanando-lhe para a corôa, lhe ha de marear o brilho, mostrar-lhe-hei que os direitos dos populares não se sustentam, sacrificando-lha o justo, dir-lhe-hei que a independencia portugueza tem por si o coração de todos os portuguezes, e que nada podem as ambições de Isabel, a castelhana, contra um povo forte do seu direito; dir-lhe-hei finalmente, o que tiver sobre o coração 1 Vinde pois, doutor 1 levai-me aos paços do rei de Portugal, aos paços. d'aquelle que, segundo vós dizei11~ administra n'esta nossa terra a justiça de Deus!

E radiante de enthusiasmo, de inspiração, de insania talvez, Maria travou do jurisconsulto e lêvou-o apoz si para fóra do carcere.

Coimbra, Março do 1862. 



(1) Revista Contemporânea de Portugal e Brazil n.° 3, 1862

Informação relacionada:
Necrologia de José de Souza e Mello
Pedro Alvarez de Sotomaior, conde de Camiña

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

A filha do povo — 1486 (II de IV)

Era n'uma casa pequena e rustica d' Almada, debruçada de sobre a montanha para o mar, como velha á borda de um regato, scismando nos seus amores de rapariga.
N'um pequeno aposento, notavel só pela vista magnificente que tinha a janella, e pelo aceio que n'elle reinava, estavam sentados Maria e Alvaro em pratica affectuosa e intima e com as mãos reciprocamente dadas.

Painel do silhar de azulejos no claustro da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, Salvador, Bahia (detalhe).
Casamento do Príncipe D. José com D. Maria Ana de Austria em 1729.
Dauril Alden, O Período Final do Brasil Colônia, 1750-1808

Maria recebêra a educação mais esmerada d'aquella época. 

Era de uma formosura admiravel sem ser apparatosa; despercebida a distancia, maravilhava ao contemplar-se de perto. Tinha o rosto e as mãos de uma grande alvura, não d'aquelle branco do leite igual e sem brilho; mas sim do alvo resplandecente da perola, que não cança, e até regosija a vista. O cabello farto de um louro escuro, entrançado primorosamente, moldurava-lhe o rosto; as feições todas eram regularíssimas e bellas, e azues lhe brilhavam os olhos.

N'estes e em toda ella possuía a serenidade a aparente, que realça a modestia e infunde maior paixão e mais respeitosa, das mulheres do norte. Os olhos então tinham uma luz meiga de ternura e de bondade que lhe dava ares de uma santa. Julgar-se-hia por um momento que a alma lhe remontava da terra, onde nada a prendia, e se elevava ao céo e perdia nas regiões bemaventuradas dos que estão com Deus. Se então fattava a voz, sempre suavíssima, tinha a doçura da flauta, ouvida ao longe em noite de luar e a uncção quasi divina da voz juvenil da virgem enlaçada ao orgão do mosteiro.

Painel do silhar de azulejos no claustro da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, Salvador, Bahia (detalhe).
Casamento do Príncipe D. José com D. Maria Ana de Austria em 1729.
Dauril Alden, O Período Final do Brasil Colônia, 1750-1808

Mas quando uma aura de amor ou d'outro sentimento grande vinha agitar aquelle regato puríssimo de seu viver, desapparecia inteiramente a serenidade, os olhos scintillavam-lhe com uma luz resplandecente e vivíssima, e toda ella era amor, e paixão, e enthusiasmo e delírio! Similhavam então as suas fallas um hymno ruidoso e arrebatador, e levam-nos apoz si, inspirando-nos tudo quanto é difficil, ingente e sublime. Era o amor, a gloria, e a loucura que se personificavam n'ella para nos endoudecerem.

Agora estava Maria n'aquella sua meiga serenidade habitual, mas que tinha hoje um toque mais fundo de melancholia e tristeza.

— Tu és, Alvaro, — dizia ella meigamente — cavalleiro, nobre e filho de um grande de Hespanha e Portugal, como poderás jámais desposar-me a mim, filha do povo!... — Outr'ora, — continuou, animando-se um pouco, — tinha vaidade da minha condição, enobrecia-me o ser oriunda de populares, enlevava-me, ouvindo a meu decrepito avô repetir as orações com que elle e os outros procuradores dos povos tinham em côrtes, durante muitos annos, fulminado o orgulho, abatido o poder dos fidalgos. Hoje o amor que te consagro e esse desejo teu de o quereres santificar perante a egreja, o que cu nunca te pedi, mas que era, por certo, a maior ventura de minha vida, fazem com que me lastime de não ter nascido nobre como lu, fazem com que eu renegue as crenças de meus paes, as crenças do povo.

— Não penses tal, Maria! a verdadeira nobreza, sobre tudo nas mulheres é a da alma, é a da virtude; e n'isso és tu mais nobre que rainha alguma, tu que és uma santa.

— Santa!

— Santa sim, erguida e venerada no altar de meu coração!

— A virtude minha é só devida á generosidade e elevação tuas, Alvaro.

— Á honra propria de todo o homem honrado, talvez; e deixa-me ter d'isso orgulho, Maria. Mas, se tal não fosse, não acreditava no teu amor. Já t'o hei dito, e repito-o agora bem do intimo da alma; não creio que a mulher, amando verdadeiramente, amando ardentemente um homem, lhe possa resistir. Nas mulheres é ludo o coração, quando elle resiste ao amor é porque o não sente devéras. Da parle do homem, que tem brio, é que está, é que deve estar a sufficiente força para refrear a sua paixão e a da mulher que estremece, pois não deve querer precipital-a n'um abysmo de vergonha, não deve querer arrebatar-lhe a virtude, seu atavio principal. Quantas vezes um homem, gasto dos prazeres, simulando um sentimento que não tem, vae com palavras sonorosas e requebros estudados, desvairar o espírito, já de si ardente, de uma pobre menina e arrostal-a â perdição; é esse um vil, que a sociedade a ser justa, devia para toda a vida marcar de ignomínia!

— Dcixára-se Maria suavemente descair, ajoelhára ante o cavalleiro, e beijando a sua mão delicada, alva, quasi feminil, disse:

— Tu és bom, meu Alvaro!

— Toda a bondade que tenha de ti procede, minha esposa; redarguiu elle, tomando-lhe nas mãos a cabeça, e aos labios achegando-a com amor, ensinou-rn'a a tua doce voz, inspiram-me esses teus olhos do céo.

Um bater apressado á porta do aposento fez levantar rapidamente Maria, que foi abrir.

A menina estremeceu ao dar de rosto com sua mãe pallida e assustada.

— Que é, disse ella?

— Senhor D. Alvaro, respondeu a boa senhora com voz tremula, um cavalleiro dos ginetes de Fernão Martins de Mascarenhas diz que el-rei vos ordena o acompanheis a Lisboa.

Sotto-Maior empallideceu tambem; é que uma ordem d'aquellas a um nobre, nos primeiros annos do reinado de D. João ii podia, mui facilmente, ser uma sentença de morte.

Os tres olharam-se reciprocamente, não ousando articular um som. Sem animo, vacillante, quasi desfallecida, apoiou-se Maria a uma cadeira para não cair.

Sua mãe foi a primeira que fallou:

— Senhor D. Alvaro — disse com voz sumida — fugi! Uma grande tristeza, como terror do futuro, me ennegrece o corarão. Chegastes ha pouco, de Castella, e sabeis, que se diz por cá tramar a rainha lzabel com os nobres de Portugal contra a corôa de D. João ii. Talvez alguem, que vos queira mal, fosse calumniar-vos junto de el-rei. É tão difficil ao bom provar a sua innocencia, quanto é facil ao malvado fazer uma accusação. Livre, menos custoso será a vossa mercê convencer sua..alleza de que foi enganado, preso, nem a justiça vos dará para isso tempo. Fugi! Saí pela porta do jardim, e breve estareis fóra da villa. Tomae na Amora um cavallo, ide a Setubal e lá embarcae para Castella ou para França. Acreditae-me, senhor, não arrosteis com a sanha terrível do homem, que assassinou o duque de Vizeu.

— Julgo que tendes razão... Digo-vos em consciencia, e por alma de minha santa mãe vos affirmo, ciue jámais tramei contra o rei de Portugal!... mas esta verdade mais difficilmcnte do que em parte alguma a provarei no fundo de um carcere!... Que dizes, Maria? ha no teu coração de amante, que tantas vezes a presciencia illumina, alguma voz a aconselhar-me que me ausente da côrte?

— Não! — respondeu em tom seguro, scintillando-lhe os olhos, colorindo-se-lhe o rosto, alteando-se na sua figura esbelta. — Não! que jámais diria a um homem que é nobre, nobre d'alma, que fugisse ante a justiça da minha patria. El-rei D. João é o amigo do povo, tu nunca fizeste mal a este, elle não te fará mal a ti. Adevinha-me o coração que tens de arrostar um grande perigo. Mas vae, que o exige a honra! Contra a calumnia prevalecerá a innocencia: el-rei é justiceiro, e a Virgem será por nós!

Painel do silhar de azulejos no claustro da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, Salvador, Bahia (detalhe).
Casamento do Príncipe D. José com D. Maria Ana de Austria em 1729.
Dauril Alden, O Período Final do Brasil Colônia, 1750-1808asil Colônia 1750-1808

E Maria declamou isto com tal enthusiasmo no gesto, com tanto fulgor nos olhos, com tamanha paixão na voz que D. Alvaro, arrebatado, tomou-a nos braços, estreitou-a ao seu coração, beijou-a na fronte e disse-lhe, affastando-se:

— És tu, filha do povo, que ensinas ao nobre a verdadeira nobreza! Adeus! Reza por mim á Rainha do Céo!

Coimbra, Março do 1862. 



(1) Revista Contemporânea de Portugal e Brazil n.° 3, 1862

Informação relacionada:
Necrologia de José de Souza e Mello
Pedro Alvarez de Sotomaior, conde de Camiña

terça-feira, 1 de setembro de 2020

A filha do povo — 1486 (I de IV)

Bellos arraiaes d'Almada! Sois em noites estivas, quando não sopra com violencia a ventania do norte, o regosijo d'aquellas formosas filhas da margem esquerda do Tejo. Formosas sim, que ainda as não vi tanto e em tão grande numero em outro algum logar!
 
View of Lisbon (detalhe).
Castelo de Almada no séc. xviii, autor desconecido, séc. xix.
Museu de Lisboa (MC.DES.1141)

E ali perpassam, á palida luz das lanternas festivaes, dezenas e dezenas d'ellas; todas moças, alegres, lindas e trajadas com simples e encantadora elegancia.

São reuniões aquellas, como de familia: todos se conhecem, fallam e tratam intimamente. É vasto o salão, e sublima-lhe o tecto a abobada amplíssima do céo; ora escuro e recamado de eslrellas rutilantes, ora azul e explendidamente illuminado pelo brilho suavíssimo da lua.

Amo os arraiaes d' Almada! Gosto de ver todas aquellas raparigas, pavoneando-se ao mesmo tempo modestas e vaidosas, gosando do ar puríssimo da villa, embriagando-se no doce amor da juventude. 

Pois não sabeis, lindas, que o mesmo solo, que tão descuidadamente pizaes, foi, ha mais de tres seculos e meio, scenario de amo-res tão puros como os vossos; porém mais ardentes e mais contrriados do que são por certo os que boje tendes. 

Era por uma noite de lua cheia do mez de agosto de 1486. 

Nunca de nuvens fôra tão limpo o céo, nem tão luzido o luar; similhava uma noite dos tropicos, em que a rainha aerea brilha mais do que o sol de inverno cm terras europeas. 

N'aquelle pequeno adro do convento de S. Paulo dos dominicos de Almada batia a lua em chapa. De junto á cruz de pedra, que se le-vanta no meio, via-se ao lado a simples casa religiosa; lá ao longe a linha escura e longa das casarias de Lisboa; mais longe ainda a serra de Palmella; mais proximo um mar de prata, que scintillava e' bramia, correndo para o oceano; e, então, mui perto já, mas na frente e do outro lado, o castello d'Almada e as habitações da villa.

View of Lisbon (detalhe).
Convento de S. Paulo em Almada no séc. xviii, autor desconecido, séc. xix.
Museu de Lisboa (MC.DES.1141)

E era uma noite linda, e, para mais augmentar o encanto da natureza, o orgão da egreja e o cantar dos frades vinham povoar o espaço com as harmonias magestosas dos canticos sagrados.

Ha nas mesmas fórmas externas do catholicisrno uma poesia divina, que as mais das vezes dá uncção e sublimidade a tudo. 

Junlo á cruz estava sentada uma esbelta menina, vestida de branco, e preso na cabeça um véo preto que lhe descaia donairoso sobre as costas. A alvura do seu rosto quasi que excedia á do vestido; não se divisava porém se eram bcllas as feições, porque estava como occulta na penumbra do cruzeiro. De quando em quando voltava a fronte na direção da porta do templo. 

Havia alguns minutos que assim estava como em expectativa, quando saiu da igreja um moço cavalleiro, muito conhecido n'aquelles sitios, D. Alvaro de Sotto Maior; nobre de nascimento e mais nobre ainda pela gentileza do seu porte, pelo seu valor muitas vezes provado, pelos sentimentos elevados de sua alma.

— Então rezaste, Alvaro? — disse com voz melodiosa o vulto branco, levantando-se e indo para o mancebo. 

— Rezei! Sinto n'alma doce consolação, prazer ineffavel, quando ajoelho ante a imagem da Santa Virgem e lhe peço por ti, Maria; e lhe imploro que te dê felicidade junto de mim, que t'a conceda por intermedio meu. 

— Nem de ti me póde vir senão felicidade, meu Alvaro. Mas senti agora grande pena de não te acompanhar á egreja. 

— Pezou-me tambem a mim ... Que pela nave do templo havia apeuas tres ou quatro vultos de devotos, bons velhos, affeiçoados nossos; mas o côro estava cheio de frades... se te vissem entrar comigo sósinha, e a estas horas, o que diriam ámanhã por toda a villa em suas murmurações?
 
— Foi melhor assim. Eu esperei, e tu foste prostarte junto do altar illuminado da Mãe de Deus. — Já que nos roubaram a nossa imagem de tanta uncção e milagre...

— Olvida essa que te fará entristecer... a da egreja, com o seu rosto entre as luzes e as flôres, brilhava com um fulgor mysterioso que me penetrou no coração. Olha, Maria, nós os homens, moços ainda sobretudo, levados, como de roldão, entre o ruido e paixões que nos apresenta o mundo, que nos entreteem e occupam inteiramente, olvidamos um pouco, olvidamos demasiado aquella devoção, aquella fé, que a mãe e a família nos infundem em creança. Eu sou como todos. Esqueci o nome dos innumeraveis santos a que minha mãe de joelhos e mãos postas me fazia rezar á noute, esqueci aquellas orações, cujas palavras, machinalmente, repetia sem entender. Hoje apenas sei rezar á Virgem, e de todas aquellas preces só gravada em meu coração ficou a Ave Maria. 

— E essa basta se a disseres com verdadeira fé. 

— Digo. Sinto-me sempre outro, mais forte, invulneravel quasi depois de implorar o soccorro da Virgem: tento as maiores emprezas, sou temerario mesmo. Tenho inabalavel crença de que ha de chamar em meu auxilio a protecção de Deus. No céo, entre os santos, não tenho, nem quero senão a Ella; na terra, só a ti possuo, e só te quero a ti, Maria. Tu que apesar de pobre e filha do povo, és mais, vales muito mais do que essas da minha classe, que tumulluam nos salões de D. João ii; tu, que me tens guiado na quadra procellosa, que vae passando para os. da minha stirpe, que me tens affastado, com o teu amor, d'essas conspirações todas infelizes e sanguinarias dos nobres contra o poder fatal da corôa, que nos vae cerceando os privilegios, mas engrandecendo com elles a nação; tu que me ensinaste, mais pelo coração do que pela palavra, a pospôr o interesse individual e da minha classe ao hem geral da patria portugueza; tu, pois, que te abandonaste a mim de corpo e alma, que inteiramente confiaste na minha honra; tu serás minha esposa. 

— Vossa esposa! nunca! — Gritou um vulto negro que se levantou de traz do parapeito que rodeia o adro. — Nunca! pois que o filho de D. Pedro Alvaro de Sotto-Maior, visconde de Tuy e conde de Caminha, jámais deshonrará o seu nome illustre ha quatro seculos, alliando-se com a filha de um villão!... [o personagem do conto baseia-se em Alvaro de Sotomayor y Távora, 2º conde de Caminha, sobrinho de Lourenço Pires de Tavora, 1º senhor do morgado de Caparica]

— Villão ruim de sangue e sentimentos é esse que me falla! — Clamou o cavalleiro, endireitando-se para o vulto. 

— Quem vos falla, senhor D. Alvaro, é João Dagualda, escudeiro, que foi, de vosso honrado pai, que viveu vinte annos no seio da vossa família, que foi estimado por todos os vossos, e que muitas vezes por elles arriscou a vida.

— Menos quando na batalha de Touro deixou meu pae no campo estendido entre os feridos, e se passou para as bandeiras de Izabel e de Fernando; nem quando acintosameote anda a buscar ensejo de insultar e affrontar as pessoas que estimo e que respeito. 

— Enganaram vossa mercê; foi o senhor conde quem me enviou a Izabel de Castella; o senhor conde, que depois me recommendou á hora da morte, que vos advertisse da bonra do seu nome, para que o não conspurcasseis com o da família d'essa mulher, que, apesar de ser então ainda quasi infante, já amareis, com o d'essa familia que me tem calumniado, que vos tem feito esquecer a vossa verdadeira patria e os interesses, isenções e tymbes da classe a que pertenceis, d'essa família vil e refalsada... 

Ao escutar estas palavras, D. Alvaro estremeceu, levantou rapidamente uma vara flexivel, como um vime, que tinha na destra, e verberou com ella o rosto de João Dagualda. 

Travou este de um punhal que trazia no cinto; mas, vendo Sotto Maior levar a mão á espada, saltou sobre o parapeito e d'ahi para as terras contiguas, bradando: 

— Tu me pagarás, Alvaro de Caminha. 

E desappareceu.

View of Lisbon.
Convento de S. Paulo e do Castelo de Almada no séc. xviii, autor desconecido, séc. xix.
Museu de Lisboa (MC.DES.1141)

A menina de branco tinha caído quasi desfallecida sobre os degráos do cruzeiro. O cavalheiro enclinou-se para ella, dizendo: 

— Perdoa, Maria!

— A Virgem sabe se não lhe perdoei já! — disse meiga, mas dolorosamente a donzella. Porém, voltemos para casa; o luar, que me parecia tão lindo ha pouco, enegrece-me agora o coração.

Coimbra, Março do 1862. 



(1) Revista Contemporânea de Portugal e Brazil n.° 3, 1862

Informação relacionada:
Necrologia de José de Souza e Mello
Pedro Alvarez de Sotomaior, conde de Camiña

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Egreja do Espírito Santo

Encontra-se bastante arruinada esta pequena mas elegante egreja situada no centro da vila d'Almada, em cujo templo estão patentes aos fieis as sagradas Imagens da Paixão, que antigamente sahiam em procissão, no domingo de Ramos, Imagens de subido valor artistico de muito merecimento.

Largo do Espírito Santo, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

A irmandade que alli presta culto, é pobre, e não possue rendimentos para que possa accudir ás obras indispensaveis, de que carece a referida Egreja, que é propriedade do Estado, e n'esta conformidade o rev.° parocho, com a mai-ria dos seus parochianos, habitantes d'Almada, assignados em um memorial, pediram ao governo as precisas obras, a exemplo do que se tem feito a outras Egrejas, as quaes não são pertencentes ao Estado. 

Rua Dr. Francisco Inácio Lopes, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Este pedido foi feito e entregue no ministerio das obras publicas em 24 de maio de 1897, sem que até hoje tenha tido deferimento. 

A velha travessa do Espírito Santo, espólio Cassiano Branco.
Arquivo Municipal de Lisboa

Pedimos ao sr. ministro das obras publicas, se digne ordenar a desejada obra, não só pelos motivos expostos, como tambem pela conservação dos objectos de culto que alli existem, e proporcionar trabalho a alguns dos muitos operarios que se encontram desempregados.

Eduardo Tavares [As Instituições, propriedade de] (1)


(1)  As Instituições, domingo 20 de março de 1898

Artigo relacionado:
Salão das carochas
Almada no espólio do arquitecto Cassiano Branco

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Tourada em Almada

Mais uma vez pedimos providencias para os factos escandalosos que se praticam em Almada, por occasião de tourada.

Almada em Portugal, a multidão descontente tendo maltratado os toureiros, estes largaram sobre ela os touros,
Le Pellerin, n° 1807, 1911.
Delcampe

Ante-hontem começou o escandalo por metterem o gado na praça ás 7 horas da manhã, com grave risco das pessoas que transitam pela povoação, e quando todos julgavam que poderiam caminhar socegados, apparece na Piedade um touro que, por falta de cuidado da parte dos moços da praça tinha d'ali saído. 

Corrida de touros na Cova da Piedade.
Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, 1990

Duraram as correrias até ás 10 horas e meia da manhã, e á hora em que escrevemos, não se sabe ainda o paradeiro de outro touro que não chegou a entrar na praça. 

De tarde, quando começou a corrida, apresentou se na praça o cavalleiro Batalha, montado n'um rocinante que só tinha pelle e osso, e que foi alvo de grossa pancadaria.  Tanto o primeiro como o seundo cavallo foram alugados a um burriqueiro de Cacilhas. 

Touros largados contra a multidão,
Le Petit Journal, 20 de agosto de 1911.
Mundo do Livro

Os bandarilheiros fugiam dos bois, como o diabo foge da cruz, como se costuma dizer. Rara era a vez que o "intelligente", que exercia as funções de clarim, mandava agarrar o boi, que não saltassem á praça duzias e duzias de espectadores para serviem de moços de forcado. Muitas vezes não se via o touro. 

É preciso obstar a estes abusos. (1)


(1) Diário Illustrado, 4 de setembro de 1877

Artigo relacionado:
Praça de touros do campo de S. Paulo

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Egreja de S. Thiago em Almada

Mandou então construir no campanário da egreja de S. Thiago um cadafacens de madeira, d'onde podesse vêr toda a villa e assistir ao combate. Trepou-se a elle, e ordenou que o logar fosse atacado "com gente d'armas e de pé, e tiros e bestaria, e fundas de demogrillas e outras artilherias de combate!" Durou esse ataque desde a hora da terça até depois do meio dia.

Almada,  Igreja de S Tiago do Castelo, Fachada principal, ed. Sculparte 139.1.
Delcampe

A essa hora o Rei desceu á egreja para comer. Foi a sua salvação, porque os da villa — imaginando que elle ainda se achava sobre o cadafacens de madeira — resolveram atirar-lhe um tiro.

Almada, Igreja de S Tiago do Castelo, Interior, Sculparte 139.2.
Delcampe

Esse tiro, que, atirado horas antes, teria morto o Rei de Castella e adeantado, decerto, a victoria do Mestre de Aviz; que teria libertado Almada e Lisboa; que teria supprimido Aljubarrota e a continuação da epopéa do Mestre e do Condestavel... (1)

As paróquias e igrejas matrizes da vila de Almada existiam pelo menos desde a 2.ª metade do século XII, a mais antiga dedicada a St.ª  Maria terá sido fundada pelos cavaleiros ingleses após a conquista do Castelo em 1147, a de S. Tiago datará já do fim desse período pois acredita-se que foi obra dos cavaleiros de Santiago após terem recebido a vila e castelo em doação régia no ano de 1186.

Interior da Igreja de S. Tiago em Almada.

O primeiro registo documental destas paróquias aparece numa "Lista das Igrejas dos Bispados do Porto, Tui, Coimbra e Lisboa e do Arcebispado de Braga" datada de 1229. Cfr. Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Gaveta XIX, maço 14, n." 7, folha 11 - "Sancta Maria de Almadana (Sanctus Jacobus de Almadana". (2)

Roque Gameiro.org
Na vila de Almada setecentista a principal festividade depois da procissão do Corpo de Deus (da responsabilidade da Câmara) era dedicada a S. João Baptista, promovida pela respectiva mordomia com festa anual nos dias 23 e 24 de Junho, percorrendo as ruas de Almada em procissão desde a Igreja de S. Tiago (ou alternadamente da Igreja do Castelo) até a Errnida da Ramalha passando pela Ermida de S. Sebastião.

Esta festa substituiu a de São Tiago, que no século XVI era a grande festividade da vila e do termo. (3)


A Igreja de Santiago, em Almada Velha, é de origem medieval e foi fundada durante o século XII. Remonta aos primeiros anos de reconquista cristã, presumindo-se que seja o templo mais antigo, anterior à consagrada a Santa Maria do Castelo, desaparecida após o Terramoto de 1755.

Ambas pertenciam à Ordem de Santiago.

Foi Igreja Matriz e, por isso, encabeçava a freguesia com o seu nome, a par com a de Santa Maria. 


Na frontaria ainda ostenta o escudo com a cruz de Santiago de Espada.

Realizaram-se alterações posteriores durante o século XVIII: em 1724, foi reerguida sob patrocínio do Infante D. António, irmão de D. João V. 

A fachada Neoclássica atesta a reconstrução (primeira metade do século XVIII). Da reedificação constavam, em especial, a abóbada Manuelina sobre o altar-mor, algumas lápides sepulcrais e os azulejos do século XVIII.

Igreja de S. Tiago.
Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, c. 1826.
  Wikimedia

Com o Terramoto de 1755, apenas resistiu a capela-mor e, talvez, parte das paredes laterais. A torre, parte da fachada e cobertura abateram. No último quartel do século XVIII, é reconstruída a capela colateral, localizada no lado do Evangelho.

O interior, de uma só nave, encontra-se integralmente revestido a azulejos de padrão datáveis de século XVII. Na capela-mor, evidencia-se a abóbada de nervuras em estilo pós-Manuelino, composto por pedras calcárias de várias tonalidades.

Apresenta painéis de azulejos, de autoria atribuída a Nicolau de Freitas, que ilustram momento da lenda de Santiago.

Em 1981 e 1993, escavações arqueológicas permitiram a identificação de um conjunto de sepulturas escavadas no substrato rochoso que testemunham a longa ocupação deste espaço entre os séculos XII e XVI. Possibilitaram, ainda, o reconhecimento do antigo perímetro do adro da igreja. (4)




(1) Conde de Sabugosa (cit. Fernão Lopes), Embrechados, Lisboa, Portugal-Brasil Lda., 1911
(2) Rui Manuel Mesquita Mendes, Património Religioso de Almada e Seixal...
(3) Idem
(4) almadadigital

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Almada (1967)

No cineteatro da Academia Almadense estreou-se no mês findo o documentário colorido "Almada – Varanda do Tejo", ao qual assistiu o senhor Governador Civil do distrito de Setúbal, que se encontrava acompanhado pelos senhores presidente e vice-presidente da câmara, vereadores e entidades militares, civis e religiosas.

Excerto do filme Almada - Varanda do Tejo (cor, 35 mm), Ricardo Malheiro, 1967.
Cinemateca Digital

Patrocinado pela câmara de Almada, [o filme foca] a projecção turística urbana e industrial do concelho de Almada. (1)


(1) Jornal Praia do Sol, 1 de novembro de 1967

quarta-feira, 13 de junho de 2018

domingo, 29 de abril de 2018

Lisboa, vista de Almada (c. 1830)

Oposta a Lisboa fica Almada, no cume, e perto do extremo leste, das altas falésias que se estendem ao longo da margem sul do Tejo, e dali para o mar. Desta elevada posição, temos uma série de vistas panorâmicas de grandeza incomparável.

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

Para o norte, toda a extensão de Lisboa é vista cobrindo as colinas opostas e formando um bordado brilhante para o Tejo. 

Lisbon from Almada (detalhe), Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

Para o oeste, esse nobre rio é visto continuando seu curso majestoso, fluindo para o Oceano Atlântico, entre as torres distantes de S. Julião e do Bugio. 

Para o leste, o rio espraia-se num vasto estuário, delimitado por um longo trecho de terras baixas. 

Para o sul, as alturas de Almada descem para um vale coberto de vinhas, atrás do qual há uma subida gradual de colinas arborizadas, até que, a uma distância de várias milhas, o horizonte é delimitado pela cordilheira montanhosa da serra da Arrábida, tendo a notável rocha de Palmella, coroada pelo castelo em direcção ao leste, e o distante castelo mouro de Cezimbra em direção ao oeste.

Na vista que acompanha, o espectador é supostor olhar o rio, na direção nordeste. Parte de Lisboa ocupa a esquerda da cena. O Convento da Penha de França fica na colina mais distante desse lado. Um pouco à direita, na colina adjacente, fica a Capela de Nossa Senhora da Monte.

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O castelo é visto a cobrir a colina ainda mais à direita; e as torres da Igreja de São Vicente, o lugar fúnebre dos monarcas portugueses, coroam o cume da colina perto do extremo da cidade.

Em linha com as torres de São Vicente, mas mais perto do espectador, estão as velhas torres castanhas da catedral; e à sua frente, perto do Tejo, estão os edifícios que encerram a Praça do Comércio: estes, com a Alfândega, o Arsenal Naval e o Cais de Sodré formam um imponente conjunto de edifícios.

Numerosos navios estão espalhados na ampla bacia do Tejo; o todo, combinado com a ousada e precipitada altura de Almada no primeiro plano, formam uma impressionante e interessante paisagem. (1)


(1) Robert Batty, Select Views of some of the Principal Cities of Europe, London, ..., 1832

Artigos relacionados:
Almada bélica e bucólica no século XIX
Originais de Robert Batty

Mais informação:
Dictionary of painters and engravers, biographical and critical...
Robert Batty

sábado, 20 de janeiro de 2018

Criada para todo serviço no Teatro Desmontável

Almada, "Teatro Desmontável" do grupo de teatro de Rafael de Oliveira apresenta peça de comédia "Criada para todo serviço" de Vasco Morgado com interpretações de Laura Alves, Assis Pacheco, Alma Flora, Maria Dulce e Artur Semedo.

Cartazes com Laura Alves e Assis Pacheco junto às viaturas dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas em 1962.
Imagem: Bombeiros Voluntários de Cacilhas no Facebook

"Durante o dia, os bilhetes encontram-se à venda na bilheteira da porta do palco" (1)

O "Teatro Desmontável" em 1962, instalado na zona da actual Praça de S. João Baptista em Almada.
Imagem: RTP Arquivos

A criada de "Criada Para Todo o Serviço" é muito especial.

Anúncio da peça "Criada para todo serviço" no "Teatro Desmontável", Almada, 1962.
Imagem: RTP Arquivos

Além de assegurar as limpezas, tem visões e é por esta capacidade especial que é contratada pela dona da casa, uma advogada que nunca fez nada na vida e que está mais interessada naquilo que a criada consegue ver dos seus convidados, do que praticamente nos seus dotes domésticos [...] (2)

Cena da peça "Criada para todo serviço" no "Teatro Desmontável", Almada, 1962.
Imagem: RTP Arquivos

Comédia "Criada para todo Serviço", de Barillet & Grédy, adaptada por José Andrade. Encenação de Manuel Santos Carvalho e cenografia de Pinto de Campos. 

A actriz Laura Alves no camarim do "Teatro Desmontável", Almada, 1962.
Imagem: RTP Arquivos

Interpretações de Laura Alves, Assis Pacheco, Maria Dulce, Maria Paula, Alma Flora e Artur Semedo. 

O público na peça "Criada para todo serviço" no "Teatro Desmontável", Almada, 1962.
Imagem: RTP Arquivos

Uma produção de Vasco Morgado no Teatro Monumental em 1961. (3)


(1) Noticiário Nacional, RTP Arquivos, 1962
(2) Diário de Notícias (Funchal)
(3) MatrizNet

Informação relacionada:
A companhia de Rafael de Oliveira, Artistas Associados
Companhia Rafael d’Oliveira, Artistas Associados (Instituto Camões)
Opsis (base iconográfica do teatro em Portugal)

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Rua da Barroquinha

Quem quizer comprar humas cazas com seus quintaes, em Almada, com frente para a rua da Barroquinha n.° 10, e para a Rua da Judiaria n.° 7, dirija-se á loja de relojoeiro na Rua Nova da Palma, aonde lhe darão as necessarias informações. (1)

Largo da Boca do Vento, José Artur Leitão Bárcia, antes de 1945.
Burros de aguadeiros a caminho da Fonte da Pipa frente ao edifício do departamento de Administração Geral e Finanças da Câmara de Almada.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No século XIX, a Rua da Judiaria era lugar de passagem para a Calçada da Barroca onde estavam localizadas a sede da Administração do Concelho (até cerca de 1890) e a Repartição de Finanças de Almada. 

Almada, Calçada do Barroquinho (Rua da Barroquinha), década de 1950.
Imagem: Jorge Pires

Paralela à Rua da Judiaria localiza-se a antiga Rua do Açougue, actual Rua Henriques Nogueira, conhecida por albergar o antigo matadouro e a abegoaria municipal, que, a partir de 1913, serviu de sede aos Bombeiros de Almada. (2)

Escondidinho Boca de Vento, vista tomada da rua Trigueiros Martel, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A Rua da Judiaria, uma das artérias reconstruídas após o terramoto de 1755, localiza-se no núcleo da antiga vila de Almada. Os materiais existentes e excedentes da recuperação de Lisboa serviram a técnica da “gaiola pombalina” na construção das novas habitações: os materiais derrocados foram usados para enchimento das alvenarias e as paredes foram reconstruídas utilizando a pedra e a cal.

J Incrível Almadense Biblioteca Escadinhas do Ginjal 01 (detalhe), ed. Manil, 3010 J.
Imagem: Delcampe
Estas ruas eram locais centrais de passagem para pessoas, mercadorias e animais desde o castelo à zona ribeirinha do Ginjal ou para o centro da vila onde se localizava o importante conjunto dos Paços do Concelho, a cadeia e o tribunal judicial (construção de 1795 a 1831). (3)


(1) Gazeta de Lisboa n° 212, segunda-feira 8 de setembro de 1823
(2) A centralidade da Rua da Judiaria na transição para o século XX
(3) Idem

Artigos relacionados:
Sociedade de Pedro Marques de Faria
O Caramujo, romance histórico (7/18), Melampigo
Rua da Judiaria, impressões de Silva Porto
Toponímias urbanas oitocentistas
Música velha, música nova

Tema:
Boca do Vento