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terça-feira, 8 de março de 2016

Ponte dos vapores da Trafaria

Effectua-se hoje, como ha dias dissemos, a inauguração da ponte na Trafaria para serviço dos vapores do sr. Burnay, que actualmente fazem carreiras para aquella aprazível praia; por este motivo será offerecido um "copo d'agua" ao sr. Frederico Burnay, e haverá uma regata na qual tomam parte dezeseis senhoras.

Trafaria, Entrada da ponte de embarque, ed. Manuel Henriques, 4, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Além das carreiras ordinarias ha para ali um vapor extraordinario, que parte ao meio dia e volta depois da regata. (1)

A regata na Trafaria

Nâo faltariam attractivos para que a regata nada deixasse a desejar aos mais exigentes: 3 escaleres tripulados por senhoras; oito guigas, e balieiras, de que eram tripulantes diveraos banhistas; aspirantes de marinha, e socios da real associação naval.

Trafaria, Ponte de embarque, ed. Manuel Henriques, 10, década de 1900.
Imagem: Restos de Colecção

Havia tambem muitas embarcações de vélla, de differentes lotações, que partiriam da Trafaria á 1.a baliza, em frente do Bico da Terra Alta, proximo da Gollada, e dahi á 2.a, em frente do Dafundo, voltando ao ponto de partida.

Programa da regata na Trafaria, 12 de outubro de1890.
Imagem: Remo História

Logo de manha, porém, o vento Norte começou a refrescar, e á 1 hora da tarde, havia um temporal desfeito.

Apezar do perigo que ameaçava os que se aventurassem a embarcar n'aquella occasião, nem as senhoras nem os cavalheiros tripulantes das embarcações, desistiriam de tomar parte na regata, se o presidente da commissão os nâo persuadisse da necessidade absoluta de addiar esse certamen.

Aspecto da praia da Trafaria.
Imagem: Remo História

Uma canoa grande, do arraes João Ferreira, que ia servir de baliza, esteve em perigo, e voltou logo para a Trafaria com a verga partida; atravessou-se na praia, enchendo-se d'agua, uma barca das armações de pesca; o bote de Antonio Tourinhas, que vinha de Porto-Brandão com muitos passageiros, correu risco de se despedaçar na praia, e se nâo houve victimas, deve-se, exclusivamente, á dedicação de grande numero de pessoas que, mettendo se á agua, pegaram no bote e o puzeram em secco.

Igual soccorro foi necessário prestar a dois marinheiros que imprudentemente se fizeram de vélla n'uma canoa, suppondo que mettiam uma lança em Africa.

Proximo á Torre do Bugio, que annunciou embarcação em perigo por meio de 3 tiros de peça, esteve prestes a ir a pique uma muleta de pesca.

A concorrência de gente, tanto de Lisboa, como de todas as povoações próximas, foi enorme; e se o tempo nâo abonançasse ás 6 horas da tarde muitos centenares de pessoas tinham de ficar na Trafaria, pela impossibilidade d'atracar á ponte o novo vapor Victoria.

Trafaria, Praia de banhos, ed. Manuel Henriques, 2, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

É digno do maior louvor o cabo do mar, sr. Antonio Cosme de Paiva, antigo capitão da marinha mercante, pelas acertadas providencias que tomou para evitar qualquer desastre marítimo.

Trafaria — Praia de banhos, ed. J. Quirino Rocha, 07, década de 1900.
Imagem: Delcampe

A intimação feita aos donos de embarcações de fundo chato para nào as alugarem a pessoas estranhas ás lides marítimas, sem serem acompanhadas por indivíduos d'esta profissão, tornou-a extensiva, aos donos de quaesquer outras embarcações. Que lhe sigam o exemplo todos os cabos do mar, porque com essa medida muito lucrará a humanidade. (2)

——ooOoo——

Teve hontem lugar a inauguração da ponte dos vapores, na Trafaria. A bordo do vapor Victoria ia a sr. Frederico Burnay, que foi recebido pelos banhistas e habitantes d'aquella povoação, com vivas demonstrações de regosijo.

O vapor Victória.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

No club, onde lhe foi offerecido um copo d'agua, achava-se toda a colonia balnear, muitos aspirantes de marinha e socios da Real Associação Naval.

REAL ASSOCIAÇÃO NAVAL

O menu foi variadissirno, e fizeram-se muitos brindes, especialmente a Frederico Burnay, e Jayme Arthur da Costa Pinto, que teve uma recepção brilhantissima.

Trafaria — Vista geral da praia, ed. J. Quirino Rocha, 06, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Durante a refeição, uma banda de musica tocou á porta do club, e foi lançado ao ar grande numero de foguetes. (3)


(1) Diário Illustrado, 19 de setembro de 1889
(2) Diário Illustrado, 1 de outubro de 1889
(3) Idem

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A falua do Bugio

José António Rocha casou com D. Ermelinda Maria Madalena Lopes Rocha, neta do muito conhecido e não menos famoso "patrão Lopes", de Paço de Arcos, de cujo matrimónio houve os seguintes filhos: João, Manuel, Domingos, José António Rocha Júnior, Carlos, Ermelinda, António, Ana, Vasco e Quirino; (1)

Trafaria, Vista parcial e estrada da Costa, ed. J. Quirino Rocha, 2, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Joaquim Lopes (1798-1890)

Nem só os homens que illuminam o mundo com descobertas scientificas beneficiam a humanidade. Eguaes, se não superiores, serviços prestam tambem aquelles que enxugam as lagrimas dos desgraçados, e salvam os afflictos dos perigos que os roubariam á vida, ao amor, e á felicidade da familia. Estes, além de admirar a intelligencia pela raridade da abnegação e heroicidade da coragem, tocam e purificam o coração [...]

Patrão Lopes, Archivo Pittoresco, 1859.
Imagem: Hemeroteca Digital

Grande satisfação é ver correr o nome nas azas velozes da fama por todo o orbe terrestre; mas muito maior deve ser a que se experimenta ao sentir o peito banhado pelas lagrimas e fervorosamente apertado pelos abraços do reconhecimento de um homem que nos agradece a salvação da sua vida e do amor, porque toca os extremos do gozo espiritual, e é filho da maior homenagem que se pôde prestar a um ser humano, que o assimila a Divindade. Deixando-nos, pois, guiar pela gratidão e pela justiça, traçamos o retrato biographico do humanitario Joaquim Lopes.

O intrepido maritimo, o ousado nadador, e inexcedivel amigo da humanidade, que tantos naufragados ha salvado das ondas famintas que banham os escolhos da barra de Lisboa, nasceu em Olhão a 19 de Agosto de 1798, e é filho de Francisco Lopes, pescador e de Rosa Maria.

Aos seis anos de edade entrou na eschola, onde prendeu a ler e escrever, como se póde aprender uma eschola em Olhão. Como, felizmente, ainda não chegou aos pescadores a monomania de metter os filhos na universidade e Coimbra, e quando mesmo houvesse chegado, lhe faltariam os meios, o nosso joven algarvio saiu, aos dez annos, da eschola para cultivar com seu pae arte da pesca, onde, mais tarde, devia adquirir esse ;afiliar conhecimento da barra de Lisboa, a que desde o triumpho dos  nobres arrojos que o recommendam á gratidão da humanidade.

Naufrágio de embarcação com bandeira portuguesa, Luis Ascêncio Tomasini (1823 - 1902), 1880.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

N'esse tempo, Joaquim Lopes não pensava senão em ser pescador dos largos mares, e, sobre tudo, rico. Porque mui pouco lucrativa era a pesca nas costas do Algarve, pediu a seus paes que o deixassem ir exercel-a em Gibraltar, para onde, com effeito, partiu; mas, tendo-lhe a sina decretado á nascença lhe só seria rico e bem succedido pelos dotes inexcedivelmente elevados do seu coração e da sua alma, não foi ahi mais feliz, e regressou á patria, mallogrado nos seus intentos, 11 mezes depois.

Então, parece que a Providencia, querendo representar-se por um homem nos perigos que as tempestades arrojam á barra de Lisboa, o aconselhara a ir para as canóas de pesca de Paço d'Arcos. Foi n'estas canóas que Joaquim Lopes, dotado do nobre estimulo da distincção pelo proprio merito, fez, como elle diz, um estudo particular da barra, e se tornou, em mui pouco tempo, o mais profundo conhecedor dos baixos, chamados cachopos, que a marginam.

Paço d'Arcos, Vista parcial, ed. Alberto Malva/Malva & Roque, 113, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Estamos ás portas d'esse futuro que abriu ao nosso vencedor das tormentas uma vida, não de interesses materiaes, mas de triumphos e glorias. Tão honrado, affavel, sincero e leal para com seus companheiros, quanto intrepido e habilidoso na navegação da barra, Joaquim Lopes conquistou de rapido um nome duplamente prestigioso, e, em breve, pela fama, o procuram para remador da falua do Bugio, lugar que acceitou em 1820.

A datar d'esta epocha não temos a folhear na sua vida senão paginas de amor e heroismo. A primeira que a sua humanidade e coragem lavraram foi em 29 de julho de 1823.

Assistia Joaquim Lopes a uma funcção religiosa na quinta do Arieiro, proxima ao rio da praia de Oeiras, o qual, n'esse dia, por ter a bocca obstruida pelas areias, formava pela terra dentro uma larga lagoa, em alguns pontos caudalosa, quando sentiu um grande alarido entre o povo, e, attentando, viu que era por causa de um homem que, atravessando a dita lagoa com um rapaz, seu irmão, ás costas, e, tendo-lhe faltado pé, largara a pobre criança, para só tratar de salvar-se.

— "Assim que deparei com similhante scena ", diz elle, "parece que a Divina Providencia me deu um rasgo tão forte no coração, que mesmo vestido e calçado me lancei á agua, e fui na direcção do desgraçado mancebo."

Inda assim, todos reputaram perdida a victima, quando a viram afundar-se. Mas Joaquim Lopes não descrê: prosegue com mais velocidade, ganha n'um momento a distancia de uns trinta passos, que tanto faltava para chegar ao logar fatal, e ali desapparece. Succedem alguns instantes de pavoroso silencio, durante os quaes o grito da consternação pende, apenas, dos labios dos espectadores receiosos. 

De repente, dois vultos assomam ao lume d'agua: é Joaquim Lopes que, segurando com o braço esquerdo a criança, ja meia moribunda, nada para a terra com o fogo da alegria scintillando-lhe nos olhos! 

Não termina, porém, aqui, esta verdadeira epopéa. Depois dc ter posto o infeliz em terra, lança-se outra vez ao rio para salvar o outro, prestes a afogar-se lambem; e, não obstante haver excedido as forças, o estorvo e peso enorme que o fato encharcado lhe o seu nado é ainda ligeiro, activo, veloz. 

O resultado não foi menos triumphante, e, a uma hora, Lopes volvia a folgar na festividade, por entre os abraços freneticos dos seus amigos e enthusiasticas saudações do povo. 

Folheemos.

Pouco tempo depois, estando o nosso heroe na torre do Bugio, uma onda envolve um cabo de artilharia que passava de uma cabeça d'areia para a fortaleza.

— "Joaquim Lopes! Joaquim Lopes!"

Foi o brado de soccorro que a um tempo rebentou logo nos labios de seus companheiros. Tão expedito na reflexão, como corajoso e humano, Joaquim Lopes toma immediatamente um cabo, deixa uma das pontas d'este nas mãos dos seus companheiros, lança-se ao mar, e, conseguindo segurar a victima, amarra-a por debaixo dos braços, grita aos collegas que a puxem, e amparando-a, ao passo que nadava, assim consegue salval-a. 

Pela mesma forma livrou do abysmo das ondas, em 1828, um sargento de veteranos, por nome Francisco de Sales.

A 18 de maio de 1833 fallece o patrão da falua. Segundo a lei, o logar pertence ao mais antigo dos remadores; mas sendo estes chamados pelo governador para darem o seu voto sobre o novo patrão, a eleição recae unanime e acaloradamente sobre Joaquim Lopes, não obstante ser o mais moderno. 

Falúa, gravura, João Pedroso, 1860.
Imagem: Hemeroteca Digital

Esta rara cedencia dos direitos adquiridos significou como a consagração da alliança das forças para emprehender os actos de incrivel coragem e temeridade, cujos principaes vamos admirar. 

Em 16 de fevereiro de 1856, ás tres e meia horas da manhã, encalha, no baixo de Alpeidão, a escuna ingleza Howard Primrose Primrose.

O mar debatia-se horrivelmente, e parecia querer, no galgar furioso das suas vagas, engulir as proprias nuvens, que pela atmosphera corriam, como se fugissem, com a velocidade do raio. Quando as torres davam o signa] de soccorro, já o intrepido Joaquim Lopes, que está constantemente com um oculo, qual sentinela vigilante da humanidade, a revistar da sua casa, d'onde descobre a barra toda, os perigos que ahi, auxiliados pela violencia da tempestade, esperam, traiçoeiramente occultos nas ondas, o perdido navegador, exclamava á guarnição da falua:

— "Vamos salvar nossos irmãos! O mar é muito! mas os homens inspirados pelos sentimentos de Deus tem tanta força como elle!" E, largando de Paço d'Arcos, ia caminho do sinistro. Mas, chegados ahi, uma dificuldade invencivel zomba d'essa força: a falua não pôde navegar sobre o baixo, e, portanto, aproximar-se dos infelizes naufragados que, subidos nas enxarcias, viam,a seus pés, o navio despedaçar-se e absorver-se de mais em mais nas ondas embravecidas, e, a pouca distancia, retirar-se, por impotente, o unico recurso onde haviam chegado a conceber salvação!

Joaquim Lopes recua: por cobardia? desistindo da nobre empreza? Não! O nosso heroe não teme a morte; ao contrario, vae a Paço d'Arcos buscar um pequeno barco de pesca seu, que, suppõe, poderá navegar sobre o baixo, para de novo e decididamente affrontal-a.

Embarcação portuguesa com velas latinas, Lisboa, 1856.
Imagem: Royal Museums Greenwich

— "Partia-se-me o coração de dor," diz elle, "ao ver aquelles desgraçados a pedirem de mãos postas um soccorro impossível, e ao receiar que quando voltassemos houvessem já sido engulidos pelo mar."

Joaquim Lopes retirava, pois, com uma esperança no coração, e ás duas e meia horas da tarde, volvia no seu barquinho de pesca em demanda dos infelizes. Quando chegou, ja estes, agarrados aos fragmentos do navio, andavam á mercê das vagas.

— "Que é isso!" exclama elle aos seus camaradas, vendo-os empallidecer; "não é este, nem dobrado deste mar, que nos ha de metter a pique. Onde está o perigo é alli," prosegue apontando para o  logar fatal ; "alli é que estão doze horas de agonia, e, dentro em pouco, uma morte irremediavel! Avante! Pois. Nossa Senhora da Guia está-nos vendo. Ou morrermos todos, ou um nome eterno para os valentes que salvarem aquelles tristes!"

O patrão da falua do Bugio é tão eloquente como arrojoso e humanitario. O leitor já observou, por certo, que em vinte volumes de sessões da camara dos deputados ou dos pares, não se encontram dez discursos que valham uma d'estas brevissimas exhortações. Aquelle brado foi intensa faisca de lume que cegou os olhos do temor, e incendiou a energia, quasi desfallecida, da coragem.

Agora o leve barquinho não fende, vôa por sobre as ondas. De quando em quando desapparece entre uma nuvem d espuma; mas esta desfaz-se rapidamente ao sopro desenfreado do vento, e o barquinho torna à deixar-se ver, galgando com mais velocidade o cume das vagas. Nossa Senhora da Guia está, por certo, com elles, porque o valor com que se immergem no seio do perigo, e conseguem arrancar-lhe as presas, tem alguma cousa de sobrehunano.

Ás quatro horas eslava salva a guarnição da Primrose Primrose, composta de capitão e cinco marinheiros.

As primeiras das condecorações que hoje cobrem o peito generoso do ousado maritmo, foram devidas a este acto verdadeiramente heroico de coragem e humanidade.

Em março do mesmo anno, Joaquim Lopes ia sendo victima do seu arrojo e humanidade. Tirando debaixo de uma canóa, que se virou na praia da Sardinha, em Paço d'Árcos, um homem que ahi tinha ficado, por tal modo, já nas agonias da morte, se lhe agarrou e fixou nas pernas, pesando-lhe e embaraçando-lhe o nado, que, se não fosse o auxilio dos tres catraeiros que se lançaram logo ao mar, e, firmando-o pelo hombro, o ajudaram a subir para um rochedo, teria infallivelmente succumbido com o naufrago. Por esta acção difficil e arriscada, o premiou novamente a Real Sociedade Humanitaria, com a medalha de segunda classe.

Em 21 de fevereiro de 1858, pelas 8 e meia horas da manhã. encalha uma outra escuna ingleza, a British Queen, no fatal baixo de Alpeidão. Apenas as Torres dão o signal de soccorro, Joaquim Lopes convida os seus companheiros a seguil-o, e, embarcando na sua abençoada canoasinha de pesca, parte em demandados naufragados. D'esta vez, a sua piedade não é tão feliz, porque o navio submerge-se todo de um só jacto, quando os ousados barqueiros tentavam aproximar-se d'elle pela terceira vez; mas ainda conseguem salvar o capitão, para o qual milagrosamente se desprendeu uma verga onde se agarrou. Como o estado do naufrago reclamava promptos soccorros, fez-se, com graves riscos, caminho da torre do Bugio.

Chegado, porém, ahi, um vulto negro se descobre no logar do sinistro.

— "Naufrago!" gritam todos.
— "É um cão" , diz um.
— "Eia!" exclama Joaquim Lopes, "aquelle tambem tem vida, e é o antigo mais fiel do homem!"

E, lançando-se de novo ao abysmo, que por duas vezes quasi lhe ia sorvendo a fraca embarcação, salva esse fiel amigo do homem. Joaquim Lopes tem uma alma e um coração grandes por excellencia. Um homem d'estes nada tem a invejar aos outros: deve viver contente, satisfeito, alegre de si proprio. Em si tem a virtude, na virtude tem o merito, no merito tem a honra: n'esta virtude, deste merito, n'esta honra, gozos raros e inexcediveis para o espirito.
Joaquim Lopes! ao traçar d'estas linhas, envio-te, nas azas do pensamento, um abraço enthusiastico!
O governo britannico condecorou pela segunda vez o nosso heroe com a medalha de oiro, e os remadores com a de prata.

Ultimamente, pela occasião do naufragio do brigue francez Esthefanie Stéphanie, no qual Joaquim Lopes salvou tres marinheiros, alguns jornaes lembraram ao nosso governo um distinctivo mais honroso, para galardoar os serviços d'este homem. Que anachronismo!

Barcos no Tejo, Luis Ascêncio Tomasini (1823 - 1902).
Imagem: Palácio do Correio Velho

Oxalá que a lembrança continue a ficar no esquecimento; que esse ou outro distinctivo mais honroso não vá manchar o peito, onde o coração pulsou sempre pelo santo amor da humanidade. Se, porém, os nossos governos, que, sobre tal assumpto, com tanto siso hão andado, se decidirem a lavrar mais esse disparate, d'aqui reiterámos ao benemerito Joaquim Lopes os rogos que, em nome da dignidade das suas virtudes, lhe fizemos quando tivemos a boa fortuna de o conhecer pessoalmente, e a honra de nos acceitar como seu amigo.

Rejeite!

Na verdade, não chegámos ainda aos tempos das ordens de cavallaria approvarem o uniforme da jaqueta; e em quanto esperámos por elles, não confundamos os benemeritos com muitos parvos e malvados.

Joaquim Lopes conta perto de 59 annos, e, apesar d'esta edade, já não pouco avançada, nem propria para temeridades, continua a affrontar os perigos com o mesmo denodo e pericia que desenvolvia aos 30. Só tem de velho os cabellos e as rugas.

Talvez seja por isso que o governo o não tenha reformado, conservando-lhe o ordenado, e garantindo-o a sua mulher, no caso d'esta enviuvar, como já por vezes, com tanta justiça, ha pedido.

Homem privilegiado por Deus tem na fronte estampadas as virtudes do seu coração e a historia da sua vida. A extrema brancura de sua pelle, sua testa espaçosa, seus labios estreitos e cerrados, a penetração de seu olhar, o intumescimento rosado de suas palperas, revela-nos logo o homem que ha passado a sua vida mais banhado pela agua do que pela luz solar; o homem cujo cerebro se move e anima pela inspiração; o homem que, firme e ousado nas suas concepções, não afraca nunca perante o medonho aspecto dos perigos; o homem que, de um só golpe de vista, abraça e resolve as dificuldades; o homem, finalmente, que ha repetidas vezes vertido esse pranto de alegria que assoma aos olhos nos triumphos ganhos pelo amor da humanidade.

Mas o retrato de Joaquim Lopes desenha-se em menos palavras: é a Providencia dos naufragos na barra de Lisboa. (2)

Wilk Wieslaw, óleo sobre tela.
Imagem
Wilk Wieslaw no Facebook

A morte prostrou, finalmente, o benemerito homem do mar [...]

Quando olhavamos para esse velho, de corpo já alquebrado pelos 91 annos, mas em cujo espirito apparecia ainda de vez em quando umas chispas do antigo fogo, sentiamos um indizivel prazer, lembrando-nos de que elle era um dos poucos cujos serviços tinham sido moral e materialmente recompensados. Ainda n'este mundo não é tudo ingratidão e egoismo.

A sua casa estava toda cheia de commemorações dos seus actos de philantropia. Tinha cheias as paredes de diplomas conferidos por sociedades humanitarias portuguezas e estrangeiras, de quadros com as suas medalhas, nada menos de dez, de ouro e de prata, cada uma das quaes commemorava uma das suas luctas com o mar, luctas das quaes sabia sempre victorioso. Em uma lapide que os seus admiradores, srs. marquez de Fronteira e conselheiro Thomaz Ribeiro, lhe mandaram collocar na frontaria da casa, leem-se dois versos que bem o mostram.

"Ganhou que as trás ao peito, hábitos e medalhas,
não a matar irmãos, mas a rasgar mortalhas."

Era official da Torre e Espada e tenente honorario da marinha real, com o soldo correspondente.

O Patrão Joaquim Lopes morava em Paço d'Arcos numa casa terrea do lado esquerdo da estrada, junto ao posto fiscal. A casa, de pobre apparencia, tem para a estrada a porta de entrada e uma janella. Entre a porta e a janella uma lapide, coberta de crepe. Na casa da entrada uns homens collocavam a um canto tabolleiros com archotes e peças de pano preto que estavam sendo descarregadas d'uma carroça que viera de Lisboa.

A casa de Patrão Lopes no dia do funeral, rua Direita em Paço d Arcos, Revista Illustrada.
Imagem: Vila de Paço de Arcos

Á direita uma porta que dá ingresso ao quarto onde morreu o valente marinheiro. É uma casa sobre o comprido, com uma porta ao fundo. Encostada a uma parede uma pequena commoda tendo em cima um crucifixo e 2 castiçaes. Dependurado da parede, n'um pequeno caixilho dourado, viam-se as medalhas que em tempo conquistou, 3 d'ouro e 4 de prata, nacionaes e estrangeiras; o fallecido tinha mais 3 inglezas que as devolveu ao ministro inglez em janeiro d'este anno.

Em frente da porta vimos uma pequena cama de ferro bronzeado, onde jaz o cadaver coberto por um lençol.

Vimol-o. Está fardado com o seu uniforme de official de marinha ostentando os galões de 2.) tenente. (3)

O funeral de Joaquim Lopes foi urna verdadeira demonstração publica do alto apreço em que eram tidas as suas excepcionaes qualidades.

Flotilha do funeral.
Imagem: Hemeroteca Digital

A ellas se associou desde o chefe do Estado, que mandou o seu yacht Amelia seguir na esquadrilha, até ao mais humilde filho do povo que se encorporou no funebre prestito. 

O dia estava chuvoso e de vento rijo. Era a tempestade que saudava com os seus roncos ferozes, o cadaver d'aquelle que tantas vezes a vencera.

Em Paço d'Arcos juntaram-se os vapores Victoria, Relampago, Marianno de Carvalho e Lidador que rebocava o Salva Vidas em que foi conduzido até ao Arsenal o cadaver de Joaquim Lopes.

O cortejo fúnebre sobre as águas do rio Tejo.
Imagem: Navios e navegadores

Os srs. Antonio Ennes, ministro da marinha, Marquez de Fronteira, duque de Palmella, Francisco Costa, Jayme Arthur da Costa Pinto e o sr. presidente da camara de Oeiras e João da Cruz empregado do Salva Vidas, pegaram ás borlas do caixão, desde a humilde casa de Joaquim Lopes até ao embarque no Salva Vidas.

A fanfarra de Oeiras seguia o prestito tocando uma marcha funebre a que o sibilar do vento e os bramidos das ondas faziam um singular acompanhamento. No mar a viagem foi difficil e só pelas quatro horas da tarde chegou ao Arsenal o fluctuante cortejo.

No Arsenal foi feita a encommendação do corpo na capella de S. Roque, e depois o cortejo seguiu para o cemiterio Occidental, sendo o feretro transportado em uma carreta conduzida por bombeiros e marinheiros, que assim prestavam homenagem ao valente humanitario.

No prestito iam os cavalheiros que já mencionámos e os srs. Thomaz Ribeiro, ministro das obras publicas, Marianno de Carvalho, Baptista de Andrade, Eduardo Pinto Basto, alumnos da Escola Naval, jornalistas, corporação dos carteiros, bombeiros da Imprensa Nacional com uma corôa, escola Fernandes Thomaz, banda Guilherme Cossoul, e muitos cavalheiros de distincção que todos esperavam o cadaver no Arsenal.

O povo aguardava nas ruas a passagem do prestito ao qual se reunia engrossando o cortejo. No cemiterio estava uma força do regimento de caçadores n.° 2 para prestar as honras militares e a charanga da armada.

Patrão Joaquim Lopes.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Era já noite quando se concluiram as ultimas ceremonias frouxamente illuminadas pela lua, encoberta a espaços por formidaveis nimbos que se esfumavam no firmamento. A tempestade fazia o seu cortejo ao que ali ficava descançando em paz. (4)


(1) Soares, Manuel Lourenço, Trafaria e sua toponímia, subsídios para a sua história, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1986
(2) Silva, Nogueira da, Archivo Pittoresco, vol. II n° 27, 1859
(3) Diário Illustrado, 22 de dezembro 1890
(4) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 433, julho, 1891

Informação relacionada:
Caxinas... de "Lugar" a Freguesia
Os bardinos
Navios e navegadores

domingo, 20 de setembro de 2015

Uma arribada em calma branca


UM dia de dezembro, um soberbo dia de dezembro no nosso paiz é, para mim, o ideal da belleza diurna de todas as quadras do anno.

Não tem os relvões esmaltados, pomares floridos, searas ondeantes, gorgear de ninhos como na primavera; nem os vinhedos colmados de cachos, o trigo loiro, sombras remorosas de arvores de fructos opimos como o verão e o outono.

Mas tem o pungir virginal da esperança nas folhas das terras lavradias, os cristaes serpentinos dos córregos e algares, as veias prateadas dos ribeiros e as calhandras aos paires pelos ares.

Vem abrindo a manhã; é rápido o crepúsculo; o norte brando e límpido menea a coma flexivel dos pinheiros bravos; o azul do ceu carregado como o dos Apeninos, o sol, incendiado, resae da orla do nascente, os diamantes da geada á fíor da terra, e na rede das arvores desfolhadas. Na esphera immaculada, no ar luminoso e vivificador a suprema formosura, annunciando, no poder latente da natureza, os dias prósperos do futuro.

Foi n'uma d'essas madrugadas inolvidáveis de dezembro, em 1877, que eu sahi a bater os montados da Rosa e da Oliva. Na volta á Trafaria, encontrei de improviso Júlio Mardel. Vi nha com um rapaz que eu conhecia — Lúcio do Sacramento — regente agrícola, protegido de Simões Margiochi.

*

Duas palavras sobre Júlio Mardel.

Conheci-o no berço. Não ha ninguém de certa roda e certa edade, que o não conheça e o não aprecie no muito que vale. O que nem todos podem calcular é o que elle foi em pequeno. Não conheci na minha longa vida criança egual.

Tinha conceitos, replicas brilhantes — algumas já correm impressas. Quando convinha, guardava a compostura de um homem feito. Era tal a vivacidade, o talento a borbotões, que sahia d'aquelle cérebro infantil, que in fundia mais do que espanto; quasi medo!

A precocidade assombrosa, reunia a simplesa e as graças da puerícia. Um dia, teria elle dez annos, levei-o a jantar a casa de Rebello da Silva. Vinha galantíssimo; todo de veludo preto, e trajando com o bom gosto peculiar n'aquella excepcional familia.

Por essa época, o eminente escriptor e orador recebia ás quintas, e domingos, a jantar, os seus íntimos: Rodrigo Felner, A. Xavier Rodrigues Cordeiro, Francisco Maria Bordallo, António Pedro Lopes de Mendonça.

Alexandre Herculano nas quintas era quasi sempre certo. N'esse tempo morava Rebello na rua de S. Bento, próximo á travessa de Santo Amaro. Ao lado vivia Latino Coelho, e em frente João de Andrade Corvo.

Corvo, também não raro, vinha jantar; Latino, abstemio como um anachoreta, apenas apparecia ás noites.

Com taes convivas, pôde calcular-se como corria o tempo, e talvez devesse tomar-se como leviandade minha levar um pequeno, que mal teria dez annos, a passar largas horas com homens d'aquelles. Pois encantou e maravilhou a todos.

Pena foi, di-lo-ei, pena foi, que apesar do que vale, Júlio Mardel não hou vesse desenvolvido mais profusamente, n'um estudo methodico e aturado, as poderosas faculdades do seu engenho nativo.

*

A canoa, que havia de transportar-nos a Lisboa, era tripulada por três rapazes braceiros e pelo velho mestre Casaca já entrado em annos, porém robusto ainda. Os meus companheiros de viagem: Júlio, Lúcio e meu afilhado António Tovas.

Quatro remeiros para atravessar o Tejo em noite plenamente calma e n'um dos pontos mais estreitos do rio, talvez pareçam de sobra. E que as aguas do monte vinham de tal modo arrebatadas que próximo á barra eram doces.

As chuvas do outono haviam sido caudaes.

Júlio Mardel, ao pôr os pés no barco, invocou o grande épico, exclamando:

"Oh! mal haja o primeiro que no mundo
Nas ondas vela poz um secco lenho!" [Camões, Luis de, Os Lusíadas, Canto IV, Estância 152]

E commentou o texto, declarando que não havia homem em todo o universo mais poltrão do que elle no mar.

Vendo, porém, a tranquilidade da noite, continuou dando largas á veia inexgotavel da sua faiscante palavra.

Mettemos ao rez do Almarás, montes que vão da Trafaria ao Pontal de Cacilhas.

*

A tarde findava. A lua, em fogo, como o sol posto, levantava-se do nascente.

Momento que raras vezes, sob um céu diaphano e luminoso, logram apanhar os que adoram os painéis inimitáveis da natureza no incomparável rio do nosso paiz.

Como descrever os tons das aguas, dos horisontes, onde a mancha de rubim vae cambiando na violeta da amethysta; os picos de Cintra, como ondulando, a desapparecer na penumbra do occidente, a cidade a envolver-se no veu da neblina crepuscular!

Não ha tintas, nem linhas, nem arte de génio humano que possam reproduzir com o pincel, com a palavra, com todo o vago e intenso das próprias partituras, a maravilha arrebatadora!

A alma do admirador enternece-se, extasia-se, abysma-se na contemplação momentânea do indisivel quadro!

*

Tinhamos embarcado havia largo espaço. Nos vãos, recôncavos, grutas e largas fendas d'aquelles rochedos, o ímpeto da corrente dava uns rugidos surdos e sinistros, contrastando singularmente com a funda e majestosa serenidade da noite.

Júlio Mardel emmudeceu. Os remadores, arrancando com alma, procuravam chegar a uma altura que lhes permittisse descair no caes de Belém.

Ao cabo de mais uma hora, supondo momento propicio, tentaram a travessia. A poucas remadas entravamos no fio da corrente.

O barco a descair a olhos vistos. Os homens redobrando na faina, Mar estanhado, porém a ondulação, que vinha do largo, augmentava.

Ouvia-se já distinctamenteo som pesado da vaga nos cachopos da barra:

"Como o confuso bramar
D'um mar ao longe movido. 
Que á praia vem rebentar" [Garrett, Almeida, Folhas Caídas]

Ninguém proferia palavra.

N'isto, um dos remeiros d'estibordo levou a mão á cabeça, e tirando o barrete disse, suffocado de afflicção:

— Nossa Senhora do Cabo!

Os outros responderam sombriamente:

— Nossa Senhora do Cabo!

O mais leve esmorecimento era a perdição. Se o barco desse a popa á corrente, em poucos minutos estávamos todos perdidos.

Então, com a energia dos momentos supremos, acudi aos dois canos da minha espingarda.

Quando saltámos em terra...
A disciplina restabeleceu-se. 

O pânico passou. 

Os rapazes, resolutos e vigorosos, arrependidos e envergonhados d'um momento de fraqueza, com a alma de marítimos portuguezes, atiraram-se ao punho dos remos de voga arrancada, e, soando em grossas bagas, lograram tomar a revessa, e deitaram-nos adiante do Dá Fundo.

Quando saltámos em terra, os calhaus da praia pareceram-nos tapis da Pérsia.

As estrellas no ceu profundo, desvanecidas com o luar esplendido; na superfície espelhada do Tejo e, barra-fóra, a tremulina.

Encanto ethéreo de noite e de mar! 

O mar, porém, embora manso como cordeiro, é sempre pérfido e tigrino.


*

Mettemos caminho de Belém. 

Os Jerónimos inundados de luz nas linhas altivas e elegantes. Nós, perdido o senso esthetico, não tinhamos olhos senão para ver se estava allumiada ainda a casa de pasto do Caçador d'El-rei, João Lourenço, por antonomásia — o João da Burra.

Estava e tinha a canja de gallinha, a sua cosinha á portugueza e o trato fino e polido da sua pessoa opulenta de formas e sympathica. Também se foi na força da vida.

Eu não lamento a solidão dos velhos. Os velhos sempre teem alguns vivos, e sempre uma legião de mortos!

Dos meus companheiros d'aquella notável travessia. Lúcio do Sacramento sucumbiu ha muito. Júlio Mardel, e meu afilhado António Maria Tovas, estão vivos, e Deus os conserve!

Monte de Caparica, Torre. Outubro, 25 — 1906 (1)



(1) Bulhão Pato, Raimundo António de, Uma arribada em calma branca

domingo, 21 de junho de 2015

Mar da Calha

Na grande fortaleza de S. Julião, que cruza os seus fogos com a do Bugio, e nesta torre, marcando e limitando ambas as entradas do porto de Lisboa, estão montados os competentes pharoes.

Uma chalupa armada emergindo da foz do Tejo passado o Bugio, Thomas Buttersworth (1768 – 1842).
Imagem: Bonhams

O pharol da torre de S. Julião data de 1785, e é de luz fixa e branca, com o alcance de 12 milhas. E de 4.a ordem, tem próximo um posto semaphorico, e fica á latitude N. de 38° 42' 22" e á longitude W. de 9° 19' 27" de Greenwich.

A estação semaphorica communica-se com a estação central de Lisboa e com a torre do Bugio por meio de telephone.

Veleiros no Tejo junto ao Bugio, Carlos Ramires, 2014.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Na torre está estabelecido um posto de soccorro a náufragos.

A SW. da fortaleza ha uma restinga chamada ponta da Lage, a qual entra pelo mar dentro, descobrindo na baixa-mar, e que tem cerca de meia amarra de comprimento [1 amarra eq. 120 braças; 1 braça eq. 8 palmos, c. 1,76m].

Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa (detalhe), Francisco M. Pereira da Silva, 1857.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Quando, na entrada da barra, se enfia a guarita cylindrica de NE. da fortaleza com a parte leste da muralha da mesma fortaleza, é signal de estar passada a ponta da Lage, a que era mister dar resguardo, e pôde então a navegação seguir sem receio.

A torre do Bugio, ou fortaleza de S. Lourenço, é circular e levantou-se das aguas no século XVII, tendo desde 1755 montado um pharol, que é hoje de luz branca, fixa, com um clarão vermelho de 20'' em 20'', de 3.a ordem, e com o alcance de 15 milhas, illuminando 360°.

Bugio, Defesa maritima de Lisboa, gravura João Pedroso, Archivo Pittoresco, n 30, 1862.
Imagem: Hemeroteca Digital

Foi esta torre construída no logar da Cabeça Secca, separada da torre pela golada do Sul, ou do Bugio, que só dá passagem a pequenas embarcações. O seu apparelho dioptrieo está 26 metros acima do nivel do mar, na latitude N. de 38° 39' 31" e na longitude W. do 9° 17' 52" de Greenwich.

São estas luzes de capital importância para a navegação que demande o porto de Lisboa.

Desde este ponto continua a costa para o S. em uma larga curvatura, e é formada por um extenso areal, e limitada ao longe pela serra da Arrábida e de S. Luiz, que se estende para ENE. do cabo Espichel, e que termina no pico do Formozinho, 500 metros acima do mar.

Linha de costa da Torre do Bugio ao Cabo Espichel (fotomontagem).
Observam-se as elevações moinhos do Chibata, Monte Córdova (Serra de S. Luís) e Serra da Arrábida, conforme descrito no Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa, Francisco Maria Pereira da Silva, 1857.
Imagem: AVM

Na serra de S. Luiz, o pico mais elevado é o Monte Córdova, que se apresenta de forma circular, quando é enfiado pela torre do Bugio.

No extremo mais occidental de terra, a partir do Bico da Calha, que é a ponta de areal em que termina a margem esquerda do Tejo, depara se primeiro, a 2 milhas para o S., o forte da Vigia, a 850 metros, e por E. 4 3/4 SE. do Bugio o reducto de Alpena [...]

Fragata HMS Lancaster (F229) na foz do Tejo.
Observam-se em 2° plano a Cova do Vapor e a rebentação das ondas fora da barra.
Imagem: Barcos no Tejo

Barra de Lisboa — A entrada do Tejo fica situada entre as torres de S. Julião e do Bugio, que distam 2:750 metros uma da outra, e entre o Bugio e o Bico da Calha, ou ponta do cabedelo do S. 

Dois grandes bancos se prolongam para o mar na direcção geral de NE.-SW., que se denominam Cachopo do N. e Cachopo do S., ou Alpeidão. 

Formam estes cachopos dois canaes, o do N., ou corredor do N., que fica entre o cachopo do N. e a torre de S. Julião da Barra, e o do S., ou Barra Grande, que fica entre os dois cachopos indicados.

Alem d'estes canaes ha um outro, estreito, pouco fundo e variável em planta, chamado Golada, entre a torre do Bugio e a terra.

O cachopo do N. estende-se naquelle rumo por 5:500 a 6:500 metros. 

O do S. é formado da cabeça do Pato, das coroas de Santa Catharina e do cachopo propriamente dito.

Sobre a primeira parte ha peio menos 10 a 12 metros de agua.

As coroas de Santa Catharina ficam entre a cabeça do cachopo e a do Pato. 

Este cachopo do S., ou Alpeidão. na extensão proximamente de 5:500 metros, é um banco de areia, que descobre em baixa-mar em diversos logares.

O banco, ou barra que liga os extremos dos cachopos pelo W., fica entre a cabeça do Pato e o Espigão, na máxima largura de 3:700 metros, e forma grande escarcéu com ventos do quadrante do SW., levantando ás vezes um rolo do mar, ou arrebentação, que fecha de um lado ao outro o canal da barra e offerece nessas occasiões perigo em arrostar com elle.


Esta barra é descripta pelo distincto hydrographo e geographo Franzini, no seu Roteiro das costas de Portugal, publicado em 1812, nos seguintes termos:
"A barra de Lisboa (a melhor e única da costa de Portugal, que admitte em todos os tempos a entrada dos maiores navios), é formada pelos baixos seguintes:

A S. 35° O. da fortaleza de S. Julião, na distancia de 280 braças, está situado o extremo NE. de um baixo de pedra, a que chamam o Dente do Cachopo cujo baixo se prolonga 2 milhas e 3 décimos a S. 65° O. com pouco fundo, tendo umas 300 varas de largura, e sobre o qual rebenta o mar, quando é agitado pelos ventos do 3.° e 4.° quadrantes.

Chamam Barra pequena, ou Corredor, o canal que fica entre o sobredito Cachopo e a costa do N., o qual tem sempre desde 8 até 10 braças de fundo na baixa-mar.


Plano hydrográfico do Porto de Lisboa e costa adjacente até ao cabo da Roca,
Marino Miguel Franzini, 1806.
Imagem: GEAEM Instituto Geográfico do Exército

Uma milha a SO. do extremo occidental d'este cachopo, e quasi N.-S. com a fortaleza de Santo António da Barra, está a Cabeça do Pato, que é um baixo-fundo, no qual se não encontra menos de 6 a 7 braças de agua em baixa-mar; mas que não obstante se deve evitar, especialmente em tempos borrascosos, podendo acontecer que na descida de uma grande vaga cheguem a tocar nelle as embarcações, que demandam muita agua.

Ao S. 55° E. de S. Julião, na distancia de uma milha e 4 décimos, está a Torre do Bugio, formada por dois corpos circulares concêntricos, no meio dos quaes se eleva uma pequena torre em que está o pharol, na altura de 63 pés.

Os dois recintos são edificados sobre um baixo de areia muito extenso, que se cobre no prea-mar, deixando a torre perfeitamente ilhada.

O dito baixo, ou Cachopo do Sul, denominado também da Alcáçova, ou Alpeidão, prolonga-se 2 milhas ao SO., e forma o do Norte, um grande canal, a que chamam a Barra Grande, cuja menor largura é de uma milha e um decimo, com 10 a 18 braças de bom fundo, a não ser perto dos dois mencionados cachopos, em que só ha 6 ou 7 braças, as quaes diminuem de repente.

A frota francesa commandada por Roussin força a entrada do Tejo, Pierre-Julien Gilbert, 1837.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo

A torre do Bugio deve considerar-se como o extremo SO. do Rio Tejo, por que ainda existe, entre ella e a costa da Trafaria, um pequeno canal (que sempre conserva alguma profundidade, e cuja direcção soffre muitas alteracoes); comtudo, é tão estreito, que na baixa-mar quasi se juntam as areias da costa com as do baixo, formando uma vasta praia, até a sobredita torre.

Este grande baixo forma uma semelhança de enseada aberta ao 3., na qual se acham 5 a 7 braças de fundo.

Estes dois cachopos podem considerar-se reunidos por uma espécie de banco, situado 3 milhas e meia ao SO. das torres de S. Julião e Bugio, o qual corre em direcção perpendicular á barra; porem, como o seu menor fundo é de 8 para 9 braças, segue-se que qualquer embarcação poderá navegar afoitamente por elle em todas as circunstancias.

Logo para dentro d'este banco cresce o fundo regularmente de 15 até 20 braças, que conserva pelo meio da mesma barra".

Esta descripção, muito precisa e exacta, é perfeitamente applicavel á actualidade, em que a profundidade da barra e a disposição dos canaes e dos bancos submarinos teem sido modificadas muito pouco, como terei occasião de mostrar [...]

Costa da Caparica, Bairro de Santo António e Foz do Tejo, ed. Passaporte, 2, década de 1960.
Imagem: Delcampe, Oliveira

Na margem esquerda do Tejo, que principia na ponta da costa, ou bico da Calha, existe um grupo de pedras, conhecido pelo nome de Calhaus do Mar, que fica a duas e meia amarras do areal da Trafaria, que é uma povoação de pescadores, hoje muito concorrida na época balnear.

Trafaria — Vista geral da praia, ed. J. Quirino Rocha, 06, década de 1900.
Imagem: Delcampe

O seu bello areal estende-se até o bico da Calha, continuando para o S. na costa oceânica.


(1) Loureiro, Adolfo, Os portos maritimos de Portugal e ilhas adjacentes, Vol III parte 1, Lisboa, Imprensa Nacional, 1906

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quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Bugio

Forte ou Torre de S. Lourenço, ou Bugio.

Da fábrica que falece à cidade de Lisboa (i. e. construções que faltam à cidade de Lisboa), Francisco de Holanda, 1571.
Imagem: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de S. Paulo

[...] se possível for havendo pedra ou fundamento seguro podia-se fazer este baluarte no meio da cabeça onde rebenta o mar dos Cachopos, que responde mais fronteiro a S. Gião, o qual podendo ser seria coisa fortíssima e que muito ajudaria a defender a barra de Lisboa de todo o perigo que por ela pode fazer dano alguma hora.

E estes tais baluartes haviam de ser rasos e baixos e fortíssimos e feitos não de pedra e cal mas de tijolo cozido muito delgado e forte que é muito mais seguro.

Digo do embasamento ou do pé do baluarte para cima que deve ser de pedra lioz os quais baluartes ou bastiães podem ser conformes a este desenho ainda que a forma seja pequena por não caber num livro maior. (1)

O projecto [de Francisco de Holanda] acabou por ser esquecido, e só em 1579, com a iminência de um ataque da armada castelhana a Lisboa, essa hipótese voltou a ser considerada, construindo-se então um forte de madeira no areal junto à Trafaria, que não teve relevância alguma na defesa da capital em 1580 [...]

Projecto para plataforma em madeira para o Bugio, Tibúrcio Spanochi, 1594.
Imagem: arquipélagos

Em Dezembro 1589 o monarca [Filipe II (de Espanha)]contratou o italiano Frei Vicêncio Casale para que traçasse a planta do forte da Cabeça Seca.

Descripção da boqua do Tejo, Vincenzo Casale, 1590.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo

No final de Janeiro de 1590 o arquitecto apresentava a Filipe II o projecto, que contemplava as obras de engenharia necessárias à implantação da fortaleza no ilhéu de areia fronteiro a São Julião da Barra e apresentava ao rei duas planimetrias distintas, uma estrelada, outra circular. 

Esta última foi a escolhida, por apresentar maior solidez face ao impacto do mar e maior facilidade de mobilização da artilharia. (2)

Torre do Bugio, ed. Postalfoto, 167.
Imagem: Delcampe

Mediante o falecimento de Casale em Lisboa (1593), foram nomeados para dirigir as obras dois discípulos seus, Tibúrcio Spannochi e Anton Coll, sob a justificativa de que ambos eram conhecedores do "modo de fabricar y manejar los instrumentos" e para que a "traça començada" não fosse alterada [...]

A partir de 1598 a direção da obra foi assumida pelo engenheiro militar e arquiteto cremonense Leonardo Torriani, nomeado Engenheiro-mor do Reino, e como encarregado dela, Gaspar Rodrigues (Gaspar Roiz). A partir de então o projeto entrou numa nova fase, dadas as alterações que Torriani lhe introduziu, ampliando-a.

Em 1601 estava finalizada a colocação das pedras das bases [...]

Descrição e plantas da costa dos castelos e fortalezas..., Felippe Tersio, 1617.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Em planta datada de 1693 já se encontra figurada uma torre encimada por um farol. O relatório de inspeção efetuada em 1751 ao farol, mostra que o mesmo operava com azeite, no período de outubro a março, e que se encontrava em razoáveis condições.

Alçado e corte do Forte de S Lourenço da Cabeça Seca,
Mateus do Couto, desenho aguarelado, 1693.
Imagem: Fortalezas.org

Esta estrutura, destruída pelo terramoto de 1755, foi reedificada como um dos seis faróis erguidos na costa portuguesa para auxílio à navegação, conforme determinação de um Alvará do Marquês de Pombal datado de 1758.

O castelo do Bugio ficou tão inundado pela água que a guarnição disparou vários tiros em sinal de socorro e foi obrigada a retirar-se para a parte superior da torre.

Segundo o meu melhor cálculo, a água subiu cerca de dezasseis pés em cerca de cinco minutos e baixou no tempo por três vezes, e às duas a maré voltou ao seu curso natural.


in Lx_Risk

O novo farol entrou em funcionamento em 1775.

Torre do Bugio na Barra de Lisboa, João Pedroso, gravura
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Quando da eclosão da Guerra Peninsular (1808-1814), já estava ocupada pelas tropas napoleônicas (1807). O coronel Vincent, comandante da Engenharia das tropas de Jean-Andoche Junot, considerava o Bugio uma fortificação inadequada à defesa marítima de Lisboa, "(…) um fraco obstáculo contra o inimigo que, com vento favorável, tentasse forçar a passagem da barra".

Portuguese Shipping in the Mouth of the Tagus, S. Clegg, 1840.
Imagem: BBC Your Paintings

Essa visão foi confirmada quando, no contexto da Guerra Civil Portuguesa (1828–1834), o Bugio foi alvo do fogo da artilharia da esquadra francesa que, sob o comando do almirante Albin Roussin, forçou a barra do Tejo [...] (3)

Na margem norte ainda se fez fogo sobre os franceses, mas na margem sul, a única reacção activa conhecida é a da Torre de S. Lourenço [Bugio]. (4)

A frota francesa commandada por Roussin força a entrada do Tejo, Pierre-Julien Gilbert, 1837.
Imagem: Fortificações da foz do Tejo


(1) Souza, Maria Luiza Zanatta de, Um novo olhar sobre "Da fábrica que falece à cidade de Lisboa" ( Francisco de Hollanda 1571), São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2011.
(2) Património Cultural
(3) Fortalezas.org

 (4) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

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