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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Rua da Judiaria, impressões de Silva Porto

A rua da Judiaria em Almada foi sempre, como ainda é, uma rua feia e immunda, com a diferença de que hoje varrem-na mais amiudo do que antigamente, e é illuminada de noite a azeite de peixe; mas apesar d'isso era ali, n'uma casinha de primeiro andar, que se reunia a rapaziada fina de Almada e dos logares próximos.

Rua da Judiaria (Almada), Silva Porto, 1879-1893.
Imagem:Nuno Prates, Casa dos Patudos

O dono da casa, Pedro Marques de Faria, era um velho folgasão, em cujo animo nunca entrou a tristeza, ainda mesmo nos momentos mais graves da vida. Dizidor e peteiro, sempre tinha alguma nova anecdota que contar, alguns versinhos que recitar, algum caso notavel de que ouvira fallar em Lisboa, ou as novidades politicas falsas e verdadeiras de que a epoca era abundante [ler mais...] (1)

Almada, rua da Judiaria, Barata Moura, 1961.
Imagem: Câmara Municipal de Almada

Era magro [o mestre Damião], afilado, guedelhas brancas e olhar vivo. Arrastava uma perna, dava saliência as ancas, curvava o tronco adiante da linha dos pés. Desprovido de abalos e de conforto. aparecia, em muitas noites de chuva, encharcado, triste de figura, a ponto de provocar compaixão aos rapazes. Residia na Rua da Judiaria, num vago casebre, onde reunia, numa balbúrdia de pocilga, os seus parcos tarecos caseiros com a tralha do ofício. (2)
No "Catalogo dos trabalhos de Silva Porto: expostos na Escola de Bellas-Artes de Lisboa, em junho de 1894", aparece a pequena pintura Rua da Judiaria (em Almada) (19x13 cm) como pertença do sr. Bernardo Pinheiro (Pindella), conde de Arnoso, secretário pessoal do Rei D. Carlos.

Trata-se, de uma anotação de formas, cores e luminosidade que Silva Porto eventualmente usaria numa composição maior e mais elaborada. A silhueta humana que o pintor esboça ao centro é voluvel e inacabada. Poderia ser o vendedor de peixe transportando no ombro as canastras enfiadas numa vara, ou, o aguadeiro e o burro transportando os barris com água, sugerido pelos meios-tons da sombra atrás. Os edifícios representados no primeiro plano à esquerda e no segundo à direita ainda existem.

Hoje, esta representação rápida , uma pochade, inclui-se na significativa colecção de obras de Silva Porto, adquiridas por José Relvas. Encontra-se exposta na Casa dos Patudos, Museu de Alpiarça, cujo curador, Nuno Prates, teve a cortesia de nos ceder a imagem em vista deste apontamento.

A Rua da Judiaria, uma das artérias reconstruídas após o terramoto de 1755, localiza-se no núcleo da antiga vila de Almada.

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Assinalam-se a branco, na Rua da Judiaria, as fachadas de alguns edifícios viradas a poente.

Os materiais existentes e excedentes da recuperação de Lisboa serviram a técnica da "gaiola pombalina" na construção das novas habitações: os materiais derrocados foram usados para enchimento das alvenarias e as paredes foram reconstruídas utilizando a pedra e a cal.

Rua da Judiaria (Almada), Silva Porto, 1879-1893.
Imagem:Nuno Prates, Casa dos Patudos

No século XIX, a Rua da Judiaria era lugar de passagem para a Calçada da Barroca [e Largo Boca de Vento] onde estavam localizadas a sede da Administração do Concelho (até cerca de 1890) e a Repartição de Finanças de Almada. (1)


(1) António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.
(2) Romeu Correia, Os Tanoeiros, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1976
(3) A centralidade da Rua da Judiaria na transição para o século XX

Informação relacionada:
Catalogo dos trabalhos de Silva Porto: expostos na Escola de Bellas-Artes de Lisboa...,, Lisboa, Typ. Franco-Portugueza, 1894

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Persistência da memória

Estamos a 24 de setembro de 1831. É noite. A lua em todo o seu esplendor illumina a praia do Caramujo, que se estende por detrás da longa fileira das casas que formam a povoação.

Persistência da memória, Salvador Dali 1931.
Imagem: WikiArt

Da esquerda o quadro vae terminar no agudo Pontal de Cacilhas.

Viata da Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Da direita vê-se a meio da praia a pequena ponte que dá facil desembarque para os armazens de vinhos;

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Imagem: Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos *

mais além ainda a praia e os rochedos, depois o terreno encurva-se, e apresenta a vista, como um alvo lançol, o estabelecimento de Valle de Zebro, e mais em distancia as casinhas do Barreiro, como outros tantos pontos esbranquiçados sobre o fundo escuro do horisonte.

Memória, René Magritte, 1948.
Imagem: WikiArt

A noite está serena. O silencio é apenas interrompido pelo ruido das vagas, que magestosamente se desenrolam na areia.

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso, 1892.
Referencia: Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial
Imagem: Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes

Quem áquella hora e com aquelle luar escutasse o rouco marulho do patrio Tejo, facilmente imaginaria a voz de um velho acalentando uma creança.

A desintegração da persistência da memória, Salvador Dali, 1954.
Imagem: WikiArt

Mais perto percebe-se que ao rumor das aguas se reune o vozear baixo e entrecortado, que sae de um pequeno grupo de pessoas sentadas á porta do pateo da tanoaria de Jeronymo.


(1) António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Os festejos de 24 de julho de 1874

Para ampliar a commemoração histórica, que se comprehende no capitulo antecedente, darei em seguida o programma da primeira grande commissão organisada em Lisboa para os festejos de 24 de julho e a relação d'esses festejos, relativa a 1874, e copiada de Diário de Noticias n.° 3:037, do dito anno. 

Sede do Diário de Noticias, fundado em 1864, na antiga rua dos Calafates no edifício da Typographia Universal in Edição comemorativa do cincoentenário do Diario de Notícias
Imagem: Hemeroteca Digital

Á falta de informação mais minuciosa e completa, quando menos far-se-ha idéa do modo como o povo liberal relembra tamanho facto histórico, e aqui ficará tal registo.

Programma dos festejos do dia 24 de julho, anniversario da entrada do exercito libertador em Lisboa

1.° No dia 23 de julho, celebrar-se-ha na egreja dos Martyres, pelas 11 horas da manhã, uma missa commemorativa, por aquelles portuguezes que succumbiram nas lactas politicas, travadas no paiz, e que terminaram em 1834.

2.° Ao romper da aurora no dia 24 de julho, subirão ao ar 6 girandolas de foguetes em cada uma das freguezias da captal, içando-se a bandeira nacional por essa occasião nas torres das respectivas egrejas.

Estandarte Liberal, Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910.
Imagem: Wikipédia

3.° A uma hora da tarde haverá um solemne Te-Deum na egreja de Santa Justa e Rufina (S. Domingos) findo o qual, a grande commissào encamínhar-se-ha ao tumulo do duque da Terceira, e sobre elle deporá uma coroa.

4.° Convidar-se-hão as philarmonicas de Lisboa para ao romper do dia 24, tocarem o hymno nacional na praça de D. Pedro, junto da estatua, percorrerem as ruas da cidade, e fixarem-se nas primeiras praças e largos mais importantes, durante a noite.

5.° O passeio do Rocio será gratuitamente franquiado nessa noite, onde tocarão 3 bandas de musica.

Illuminação do Passeio Publico, litografia A. S. Castro, 1851.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

6.° Dar-se-ha no dia 24 um jantar aos presos das cadeias civis de Lisboa.

7.° Serão convidados todos os habitantes da capital a illuminarem exteriormente as suas casas na noite de 24 de julho.

8.° Solicitar-se-ha da empresa dos theatros espectáculos gratuitos na mesma noite.

Antigo Circo Price, demolido para a abertura da avenida da Liberdade, desenho do natural por Casellas in O Occidente 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

9.° Pedir-se ha ao governo de sua magestade que declare de grande gala o dia 24 de julho para sempre.

10.° O ex.mo duque de Loulé, presidente da grande commissão eleita em reunião popular de 14 do corrente mez, será encarregado de dar conhecimento do presente programma a sua magestade el-rei, significando-lhe o desejo que a commissâo tem de que o chefe augusto do Estado e e toda a família real assistam ás solemnidades religiosas dos dias 23 e 24 de julho.

Nuno J. S. de M. R. de M. Barreto (1804-1875), 1.° duque de Loulé.
Imagem: Wikipédia

11.° Rogar-se-ha ao em.mo patriarcha, que presida aos actos religiosos dos dias 23 e 24.

12.° Serão convidados pela imprensa o ministério, os membros do corpo legislativo, os veteranos da liberdade, os ajudantes do imperador e do duque da Terceira, os tribunaes, a imprensa, a ex.a camara municipal de Lisboa, todas as auctoridades, as corporações e as associações, para assistirem ás solemnidades dos dias 23 e 24, ou fazerem-se n'ellas representar.

13.° A commissão dará conhecimento d'este programma aos ex.o presidente do conselho de ministros e ministro do reino.

Lisboa, 17 de julho de 1872. — João António dos Santos e Silva, Joaquim Possidonio Narciso da Silva, José Ribeiro da Cunha, João Manuel Gonçalves, António de Nascimento Rozendo, Visconde dos Olivaes, Manuel José Mendes, Manuel Patricio Alvares, José Baptista d'Andrade.

Palacete Ribeiro da Cunha, em estilo neomourisco desenhado por Carlos Affonso, 1877.
Imagem: Olhai Lisboa

Começaram e terminaram os festejos commemorativoa de 24 de julho mais concorridos e mais brilhantes que nunca, sem que occorressem desordens, nem desaguisados em tão numerosos ajuntamentos como os que se viram; nem que cousa alguma viesse empanar-lhes o vivo esplendor.

O povo demonstrou, nas suas manifestações espontâneas, pacificas e enthusiasticas, que ama a liberdade e a deseja manter: e um povo assim, é digno d'ella. Registaremos aqui, pois, mais esta pagina de affirmação aos sentimentos liberaes que tão enraizados estão na capital, como em todo o reino.

Apesar de se haver combinado que só se lançariam ao ar foguetes quando desse a salva no castello de S. Jorge, durante a noite de 23 para 24, e em diversos pontos da cidade, se ouviram vivas á liberdade e o estalar amiudado, e quasi sem interrupção, do fogo festival, principalmente no Rocio, onde alguns grupos queimaram fogo de sala.

Ao romper da aurora, deu o castello a salva costumada e de todos os largos e praças subiram aos ares girandolas sem conta, tocando as philarmonicas em algumas praças e por diíterentes ruas, e as bandas regimentaes ás portas dos respectivos quartéis.

Vista oriental de Lisboa tomada do jardim de S. Pedro de Alcântara, 1844.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Muito antes de nascer o dia, já estavam na praça de D. Pedro IV, e em volta do monumento, onde tinham accendido os fogachos de gaz, milhares e milhares de pessoas. Tinham vindo alli, para a alvorada as musicas de infanteria 11 e de caçadores 6, depois vieram a dos bombeiros e da viuva Roxo.

Inauguração da estátua de D Pedro IV em 1870.
Imagem: Wikipédia

A sociedade Recreio Artístico, que tinha concedido um baile campestre a favor dos veteranos da liberdade, aliás muito concorrido, cumpriu o que promettera. Foi tocar a alvorada para o campo de Sant'Anna, onde vimos reunidas mais de 1:000 pessoas.

Acabado o toque a sociedade seguiu para o Rocio, executando hymnos nacionaes, acompanhando a aquella multidão, onde se notavam muitos veteranos.

No caes de Sodré e Corpo Santo, fizeram a alvorada a banda de ex alumnos da casa pia e a philarmonica Seixalense e outra, que percorreram todo o Aterro, comprimentando-se, e eram também seguidas de numeroso povo, que dava vivas e lançava foguetes.

Pode-se dizer que, pelo movimento das ruas, uma parte importante da população viera saudar jubilosa o despontar do dia em que se commemorava uma grande data.

Desde as oito horas da manhã até ás 11 distribuiu-se, em varias freguezias, bodo aos pobres, constando de pão, carne, arroz, toucinho e esmolas de 100, 200 e 500 réis ; e notaremos os das commissôes voluntariamente organisadas em S. Paulo, S. João da Praça, Mercês, S. José, Pena, Esperança, calçada de Santa Anna, Anjos e Soccorro.

N'esta ultima freguezia havia duas commissôes. Na Encarnação havia também duas, uma da freguezia que deu esmola de 1:000 réis a 41 veteranos e outra na Rua dos Calafates. Os bodos foram distribuidos na presença das respectivas commissôes, por damas ou por meninas, tocando durante o acto as philarmonicas, que obsequiosamente se prestaram a isso.

Em algumas freguezias a abundância dos donativos deu logar a augmentar o bodo. Durante a distribuição do bodo na rua dos Calafates tocou uma orchestra, composta de professores e organisada por influencia de um dos membros da commissão.

Eram quasi três horas da tarde quando chegou á ponte dos vapores do Terreiro do Paço, a bordo do Lusitano a grande commissão de Almada com a camara municipal d'aquelle concelho, e muitos cidadãos liberaes que a acompanhavam. 

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Na ponte esperavam estes cidadãos a grande commissão de Lisboa, representada pelo seu presidente e muitos de seus membros, vereadores do municipio de Lisboa, veteranos da liberdade, e outras pessoas, levando a bandeira da commissão lisbonense o vogal Francisco de Almeida e da associação dos veteranos o sr. Silva, empregado na alfandega e fundador da mesma associação.

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António da Silva, o veterano da bandeira, fundador da associação.
Imagem: Archive.org

Logo que a commissão desembarcou, subiram ao ar algumas girandolas de foguetes, tanto de bordo do "Lusitano", como da praça, onde se tinham agglomerado milhares de pessoas. 

As duas commissôes, levando na frente duas philarmonicas a dos bombeiros e Primeiro de Dezembro e logo após as bandeiras indicadas, seguiram pela rua do Ouro em direcção do Rocio, onde pararam para fazer continencia á estatua do imperador D. Pedro IV.

D'ahi seguiram para a egreja de Santa Justa, entre os repetidos vivas á liberdade, e aos veteranos, que se soltavam durante o transito.

Os veteranos, parte uniformisados, parte á paizana, mas todos sob a direcção do seu presidente, não seriam menos de 200.

O vasto templo de Santa Justa, preparado para o Te-Deum pela solicitude dos procuradores e andador da irmandade do Santíssimo, sob a direcção do sr. Rosa Araújo, ostentava as suas melhores e sumptuosas galas, com superabundância de armações de custo, numero admirável de luzes e profusão de flores naturaes.

No throno e nos altares viam-se mais de 700 lumes. O templo estava completamente cheio. Vimos alli representadas todas as classes.

A imprensa também teve a condigna representação, achando-se alguns jornalistas juntos com a grande commissão, e outros no corpo da egreja.

As associações operarias e algumas escolas egualmente tinham alli delegados seus, como o grémio popular, que era representado pelo seu presidente o sr. Silva e Albuquerque.

A commissão da Pena mandou áquella solemne ceremonia as 33 meninas, que vestira de manhã, e que, durante o acto, estiveram de velas accesas e com ramos de perpetuas e laço azul e branco.

Por volta das três horas e meia chegaram, um após outro, el-rei D. Luiz e D. Fernando, os quaes foram recebidos, á porta da egreja, pelo ministério, membros da grande commissâo e veteranos, com as respectivas bandeiras, arcebispo de Mytelene, collegiada, irmandade do Santíssimo, altos funccionarios militares e civis.

As Festas da Liberdade no Porto — Veteranos da Liberdade que tomaram parte no préstito in O Occidente, 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

El-rei trajava o uniforme de general. Sua magestade a rainha não pôde concorrer a Lisboa por incommodo de saúde. Logo que suas magestades tomaram assento nas cadeiras de espaldar, que lhes estavam proparadas no altar-mór, lado do Evangelho, debaixo de riquíssimo docel, entoou o Te-Deum o sr. arcebispo a grande instrumental.

D. Luis I (1838-1889), rei de Portugal de 1861 a 1889.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

Em frente da egreja, fazia a guarda de honra uma força de 100 homens da municipal, com capitão e dois subalternos e a musica.

A policia do largo e das ruas circumvisinhas era feita por uma força de cavallaria municipal commandada por um subalterno e guardas civis.

A entrada e saida de el-rei estalaram muitas girandolas de foguetes. O Te-Deum que era o de Marcos de Portugal, sob a regência do sr. Monteiro de Almeida, com 21 vozes e 42 instrumentistas, terminou ás 4 horas e 20 minutos.

Depois da ceremonia religiosa, el-rei dirigiu-se, em carruagem que o conduzira ao arsenal da marinha, onde o esperava o estado maior, e ahi montou a cavallo para a revista.

El-rei D. Fernando voltou para as Necessidades e em seguida regressou a Cintra, d'onde viera de propósito na véspera.

As quatro e meia, sua magestade o generalissimo do exercito, saía do arsenal em direcção á praça do Commercio, montando um soberbo cavallo baio e era seguido por um luzido estado maior, do qual faziam parte os ajudantes de campo, generaes (Jaula e D. Luiz de Mascarenhas; coronéis Folque e Cunha, e officiaes ás ordens, D. Francisco de Almeida, D. Manuel de Mello e Vito Moreira, e dos generaes Barreiros, Palmeirim, barão de Rio Zêzere, Mancos de Faria, Luiz Maldonado, Moraes Rego, Tavares de Almeida e Castello Branco e respectivos ajudantes de campo.

A divisão achava-se formada na praça do Commercio. O aspecto de todos os corpos em parada e o quadro que offerecia toda a divisão formada em columnas era deveras brilhante. Ao entrar elrei na praça as tropas apresentaram armas e as bandas tocaram o hymno real.

Finda a revista o generalissimo tomou pela rua do Oiro, seguido por toda a divisão para fazer a continência á estatua do imperador. El-rei e o seu estado maior collocaram-se sob as tribunas que se levantaram no theatro de D. Maria, para ver o desfilar de todas as tropas.

Na tribuna do centro não havia pessoa alguma da família real, e nas lateraes viam-se o ministério, parte do corpo diplomático estrangeiro, camará municipal, a grande commissão dos festejos, muitas damas, etc.

A força da guarda municipal que estivera ás portas do templo de S. Domingos, veio postar se em linha em frente de el rei, abrindo assim largo caminho para o desfilar das tropas.

A divisão passou em continência, como dissemos ; a artilheria e infanteria em columnas de divisões e a cavallaria a três. A marcha na continência em geral foi boa, havendo apenas um incidente que alterou o bom andamento da artilheria, por lhe ter caído uma parelha de muares na rua do Oiro.

Algumas divisões de caçadores e infanteria não tinham sufficiente espaço para estenderem bem em linha, indo algumas filas á rectaguarda por causa da grande massa de povo que se agglomerava em todos os pontos.

A divisão retirou pela rua Augusta e alguns corpos não seguiram para quartéis pelo itinerário indicado, por ter o sr. general commandante ordenado, á ultima hora, que seguissem o que lhes fosse mais conveniente.

A divisão compunha-se do regimento de artilheria n.° 1, com 6 metralhadoras, 36 canhões Krupps e 6 pecas de montanha, uma brigada de cavallaria com 6 esquadrões, commandada pelo sr. infante D. Augusto, levando ás suas ordens os srs. D. João de Mello e visconde de Seisal, e duas brigadas de infanteria.

A força de toda a divisão era de 5:210 praças, 567 cavallos, 388 muares e 48 bocas de fogo. Artilheria n.° 1 levava 510 homens, lanceiros da rainha 280 cavallos, e cavallaria n.° 4, 287; caçadores n.° 2, 430 homens; caçadores n.° 5, 578; infanteria n.° 1, 590; infanteria n.° 2, 600; infanteria n.° 5, 680; infanteria n.° 7, 625 e infanteria n.° 16, 630.

D. Carlos I em visita ao regimento de Lanceiros 2, foto de Joshua Benoliel, 1907.
Imagem: Palácio Nacional da Ajuda

Estes corpos não apresentaram maior força por terem alguns destacamentos e grande numero de praças licenciadas.

O estado de asseio de todos os corpos, e a maneira como elles se apresentaram em parada, magnificamente armados e equipados, satisfez todos os espectadores e até os mais escrupulosos em cousas militares.

A força de artilheria ia imponente. Quarenta e oito bocas de fogo, como as que nós apresentámos, é força respeitável em qualquer parte da Europa.

A cavallaria ia toda bem montada e em força quasi completa. Parte do corpo diplomático estrangeiro finda a passagem das tropas foi felicitar o sr. ministro da guerra pela maneira brilhante como se apresentou a divisão.

Os corpos da guarnição de Belém chegaram á noite a quartéis, e a banda de caçadores da rainha, depois da parada, marchou em seguida para Queluz, indo em char-á-bancs a expensas de sua magestade.

Os navios durante o dia estiveram embandeirados em arco.

Lisboa — Vista do Tejo, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Viram-se, em todo o dia, innumeros homens com perpetuas ao peito, assim como muitas damas com ramos de egual flor.

Ao pôr do sol salvou o castello e lançaram-se mais girandolas.

A concorrência que fora extraordinária aos actos públicos do dia, e que se tornara notável á tarde, por occasião da revista e continência militares, tornou-se assombrosa á noite.

Não nos lembra vêr, em época alguma do anno, nas occasiões festivas, que dâo movimento ás massas populares, a affluencia d'este anno ás ruas de Lisboa.

A illuminação foi geral e deslumbrante em muitas partes.

A mais vistosa de todas era a da praça de D. Pedro, que se compunha de quatro grandes pyramides com 1:200 bicos de gaz, terminando com fachos, que illuminavam perfeitamente a praça e a estatua.

As pyramides pela frente e rectaguarda, estavam ligadas por festões, que tinham no centro duas estrellas, que também lançavam bastante luz por muitos bicos de gaz.

O edifício do theatro de D. Maria e os demais em volta da praça viam-se egualmente illuminados. Eram do mesmo modo brilhantes as illuminaçôes das rua dos Calafates, que, desde a travessa da Queimada até á rua das Salgadeiras, tinha um sem numero de bandeiras nas janellas e cruzando a rua bandeiras, festões, lustres e balões; a do largo do Camões, que tinha illuminação em volta do monumento com 200 lumes de gaz, afora os da estrella central; as do Corpo Santo que tinha dois arcos; cães do Sodré e Aterro, que tinha outros dois. onde se lia a data de "23 de julho de 1833", bandeiras, festões, mastros com escudos e estandartes.

Theatro D Maria II, Nogueira da Silva (desenho), Coelho Junior João Pedrozo (gravura), 1863.
Imagem: Archivo Pittoresco, Hemeroteca Digital

Ali a illuminação era a balões em prodigiosa quantidade. Em outros largos e praças havia illuminações mais ou menos vistosas. A estação dos vapores Burnay, no Aterro, tinha grande numero de lanternas de cores, na frente da barraca. Seria difficil enumerar todos os edifícios particulares, além dos públicos, que apresentaram as suas fachadas illuminadas com lanternas ou gaz.

Entre outros, notaremos todos os hotéis do Chiado, sobresaindo o "Gibraltar", que hoje está no palácio Ouguella; os escriptorios da "Correspondência de Portugal" e de outras redacções; todo o edifício da Typographia Universal e escriptorios do "Diário de Noticias" e "Diário Popular"; companhia de vapores e outras; confeitaria na rampa de Santos; fabrica de gelo dos srs. Ferreira & C.a; as casas de vários cônsules e ministros estrangeiros, etc.

O Terreiro do Paço estava segundo o costume, mas em frente do caes das Columnas fundeara o vapor "Lynce", que illuminou graciosamente e durante a noite queimou alguns fogos de bengala.

O castello de S. Jorge exterior e interiormente tinha bonita illuminaçâo.

Nos coretos erguidos nos differentes pontos notámos: Caes do Sodré, philarmonicas Verdi, da Ponte Nova, e Capricho, do Barreiro; Corpo Santo, ex-alumnos da casa-pia; Ribeira Nova, Seixalense;
praça de D. Luiz, defronte da fabrica, fanfarra de curiosos; fim do Aterro, banda da guarda municipal; rua dos Calafates, philarmonica 24 Julho; rua do Currião, Timbre dos Artistas; largo do Camões, Alumnos de Minerva; Campo de Sant'Anna e largo do Tabellião, Recreio Artístico; largo da rua dos Canos, Xabreguense; largo da Esperança e Caes de Santarém, também philarmonicas; e no Rocio as bandas de infanteria de caçadores 6, e por vezes varias philarmonicas, sendo ali mais permanentes as Primeiro de Dezembro, de Aldeia Gallega, e dos bombeiros, que levava muitas figuras e apresentou-se bem uniformisada.


Barra de Lisboa vista do Caes do Sodré.
Imagem: Internet Archive

Repetimos: o modo como correram os festejos de 24, fazem o maior elogio do povo lisbonense. É agradável deixar isto registado. E cabe-nos, com egual satisfação, mencionar que, na ordem e organisação da commemoraçào solemne, pertence bom quinhão de louvor á boa vontade e ao zelo da grande commissão, e especialmente á sua commissão executiva.


(1) Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, Esboços e recordações, Lisboa, Typographia Universal, 1875, 246 págs.

Leitura relacionada:
Maria Isabel da Conceição João, Memória e Império, Comemorações em Portugal (1180-1960), Lisboa, Universidade Aberta, 1999
O dia de hontem na Piedade

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Bens em Caramujo e Pragal

Na tentativa de identificar e fazer corresponder aos personagens do romance histórico, O Caramujo, de António Avelino Amaro da Silva, pessoas do tempo da acção do mesmo, vim a encontrar no blogue abaixo mencionado alguns exertos que transcrevo:

Vista de Cacilhas e de S. Julião, Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Em 18 de Junho de 1790 [António Pereira Rangel (1749 - 1820)] fez um contrato de Emprazamento em três vidas, de um Prazo sito no local do Caramujo, na actual Cova da Piedade, pelo qual pagava anualmente "… de uma só vez em dias de natal…" a renda de 32.453 réis.

Em 27 de Janeiro de 1800, sendo referido ser homem de negócios, e morar no lugar do Caramujo, comprou um prazo composto por "… uma vinha com seu bocado de terra e uma terra de semear pão…" sito no lugar do Pragal, pela quantia de 200$000 réis.

A topographical chart of the entrance of the river Tagus (detalhe), W. Chapman, 1806.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em 9 de Janeiro de 1801 comprou "… uma vinha com seu bocado de terra que tem suas oliveiras, sita defronte da quinta chamada Olho de Vidro…", pela quantia de 600$000 réis.

Almada, Largo do Pragal, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Em 27 de Janeiro de 1801 comprou "… humas terras com suas Cazas térreas e hum moinho de vento arruinado no dito logar do Pragal…", pela quantia de 600$000 réis.

Em 16 de Junho de 1801 comprou "… huma terra no citio do Juncal distrito do lugar do Pragal…", pela quantia de 100$000 réis.

Almada, Pragal, Vista Parcial, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Atente-se agora ao que era a paisagem rural e urbana de Almada no século XIX:

"… desde a Idade Média diversas culturas eram característica da paisagem rural, cereais, pinheiro, vinha, figueira... no litoral, as praias e os pequenos portos de pesca artesanal e intermediários na saída de produtos da região.

É sobretudo a via fluvial do Tejo (e afluentes) que se reveste de grande importância, pois por ela iriam ter a Lisboa diversos produtos, de princípio excedentes da produção local, depois até oriundos do Alentejo, Beira e parte da Estremadura, destinados à alimentação e exportação em função do grande mercado de Lisboa.

A View taken from LISBON of the Point of Cassilhas, the English Hospital, & the Convent of Almada * : On the opposite side of the Tagus _ the original drawing by Noel in the possession of Gerard de Visme Esq.r / Drawn by Noel ; Engraved by Wells.
* (n. do e.) Embaixo à esquerda, uma saloia em traje típico, vasquinha de lã e carapuço pontiagudo, numa embarcação de transporte fluvial.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal



No interior, lugarejos ou povoações, casais isolados e quintas senhoriais, courelas e azinhagas. A área rural era mais importante do que a urbana... a Mutela não passava de um pequeno grupo de casas;

Fountain at village outside Lisbon (Mutela?), 1906.
Imagem: Ecomuseu Municipal do Seixal

o Caramujo, uma restinga de areia; o lugarejo da Piedade algumas quantas casas junto à Igreja... A par do desenvolvimento do comércio de vinho com o Brasil e África assiste-se a uma notável azáfama de tanoeiros. Mas os armazéns de vinhos, vinagres e azeites mantinham-se ligados ao comércio e actividades agrícolas da região..."

Tanoaria Francisco da Cerca, corredor do Ginjal, 1900.
Imagem:   Correia, Romeu, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982, 174 págs.

[...] D. Luiza do Nascimento [esposa de António Pereira Rangel, em 1812,], vendeu pela quantia de 1.600$000 uma vinha e terra com árvores de fruta, com todos os seus pertences, entradas, saídas, serventias e logradouros, situada no sítio da Carvoeira, no limite da Vila de Almada.
Em 30 de Junho de 1654, o Padre António Soares de Albergaria vende a sua quinta da Alagoa, junto a Almada, a João Bornete (comerciante, morador na cidade de Lisboa), a qual constava então de:

"suas casas, e posso de água com sua nora, e mais com vinhas na dita quinta e outras fora da dita quinta, a saber a vinha do Regil e outra sita na Carvoeira, e outra que chamão as Figueiras e outra quando vai para Quebra Joelho".

A venda foi feita com licença dos Priores das Igrejas de Almada em Cabido dada em 8.7.1654, pois a quinta era em parte foreira às referidas Igrejas (Cfr. DGARQ-ADS, Cota 420: Livro do Tombo das Igrejas de Santa Maria do Castelo e São Tiago de Almada, f. 5V).(1)

in História de Almada

Romeira, Lavadeiras no Rio das Rãs, início do século XX
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade

"João de Almeida, cirurgião aprovado neste Reino e seus domínios, residente nesta Villa de Almada = Certifico que no lugar do Caramujo limite desta villa he morador o Sr. António Pereira Rangel, cavalleiro profeço na Ordem de Cristo o qual padece a muitos annos molestia de gota e presentemente se acha com dores excessivas nos ortos inferiores e para poder dar alguns paços lhe he preciso andar emcostado a hum pao, assim o considero incapaz de poder sahir da estremidade da sua casa e por ser verdade todo o referido e esta me ser pedida o passei que juro aos Santos Evangelhos.
Caramujo, 26 de Agosto de 1813"

[...] aos 22 dias do mês de Fevereiro de 1820 [António Pereira Rangel] faleceu na sua casa no Caramujo. (1)


(1) Família Escócia Sandoval

Artigo relacionado:
O Caramujo, romance histórico

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (1/18), índice



O

CARAMUJO

ROMANCE HISTÓRICO ORIGINAL


POR

ANTÓNIO AVELINO AMARO DA SILVA

_____

LISBOA
TYPOGRAPHIA UNIVERSAL
RUA DOS CALAFATES, 110
1863


ÍNDICE


O Caramujo, romance histórico original,
António Avelino Amaro da Silva,
Lisboa, Typographia Universal
1863.



(1) Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (2/18), prólogo


PRÓLOGO



Ó cidades que ostentaes vossos templos, palacios, carroagens e oiros! Por maior que seja a vossa pompa e grandeza, não conseguireis que eu esqueça uma hora passada nos amenos logares da Outra-Banda. (1)

Caramujo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 15, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

O relato das revoluções liberais na literatura documenta-se pela primeira vez com a publicação em 1845 de Julia e Luiza, Romance Histórico que Comprehende o Tempo do Dominio de Dom Miguel, de Francisco Pedro Celestino Soares. 

Depois desta novela vem à luz O Caramujo, de António Avelino Amaro da Silva, publicada em 1863, que focaliza a sua atenção no pensamento absolutista, como Flor de Myosótis, Romance Original (1886), de Alberto Pimentel.

En 1868 aparece o célebre Mário, Episódios das Lutas Civis Portuguezas de 1820 - 1834 (1868), de A. Silva Gaio, uma síntese da implantação do liberalismo em Portugal desdea revolução liberal vintista à Guerra Civil. 

Na década de 70 editam-se A Família Albergaria (Entre 1824 -1834), Romance Histórico Original (1874), de Guiomar Torresão e A Infâmia de Frei Quintino (Romance duma Família) (1878), de Faustino da Fonseca. 

O mesmo publicará em princípios do século XX Os Bravos do Mindello, Romance Histórico (1906) (2).

(n. do e.) O livro de António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, publicado em 1863, transporta-nos aos acontecimentos das Campanhas da Liberdade de 1831 a 1833. Em face da cultura e mentalidades da época, esperemos, pois, aí encontrar os estéreotipos e preconceitos sociais próprios do seu tempo.

O Caramujo, a partir de 1 de janeiro de 1911, foi também publicado em folhetins no jornal O Correio do Sul, folha semanal anticlerical e defensora dos interesses do concelho de Almada, de António Baptista Ferreira.


(1) Silva, Avelino Amaro da, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863, 167 págs.

(2) Magallanes o el noveno círculo

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (3/18), notas biográficas

António Avelino Amaro da Silva (c. 1821 – 1889)



Proprietário, engenheiro civil, agrimensor, piloto de navios.

Fazenda Flores do Paraízo, Nicolau Facchineti, 1875.
Imagem: Instituto Estadual do Patrimônio Cultural

Não sei si nasceu no Brazil ou si naturalizára-se brazileiro, tendo seu berço em Portugal.
Sendo piloto examinado pela escola naval portugueza, serviu alguns annos como agrimensor na cidade de Valença, provincia do Rio de Janeiro.
Escreveu: — O Caramujo: romance historico original. Rio de Janeiro, 1863 [...]

in Sacramento Black, Augusto Victorino Alves, Diccionario Bibliográfico Brasileiro, Vol. I, pág. 116, Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1883

Filho de António Silva (1801 - 1879), natural de Adão Lobo, Cadaval, e de D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de Manuel da Costa Telles Almas, de Lamego, casados em 1821, ou mesmo em 1820. Deste casamento teriam nascido catorze filhos.

António Avelino Amaro da Silva poderá ter sido o primeiro filho do casal, tendo, por isso, o nome igual ao do pai, como era costume nesse tempo.

Conhecem-se-lhe quatro irmãos: Francisco Emygdio da Silva (1823 - 1887), primeiro taquígrafo da camara dos deputados; Christiano Gerardo da Silva, professor de música e artista (em 1908, proprietário, idoso, encontrava-se doente); Pedro de Alcântara e Maria da Gloria, estes ultimos gémeos, nascidos na freguesia da Encarnação, em Lisboa.

Entre 1831 e 1833 decorre a ação de O Caramujo.

Segundo D. Francisco de Melo e Noronha e José Carlos de Melo, António Avelino Amaro da Silva, foi testemunha ocular da batalha e da vitória ocorridas em 23 de julho de 1833.

António da Silva, seu pai, recebe a medalha das Campanhas da Liberdade, instituída em 1861, com o algarismo 5, correspondente aos anos de serviço durante a Guerra Civil de 1826 a 1834, pelo que existe a clara possibilidade deste ter participado nos acontecimentos relatados no romance, assim como, na descrição dos lugares e caraterização dos personagens.

António Avelino Amaro da Silva entra para a Escola Naútica (Academia Politécnica do Porto) em 1844.

Em 19 de março de 1847, aspirante de 3.a classe a guarda marinha, é promovido a guarda marinha  [O Progressosta n.° 135, 1847]  e, com o curso de piloto, permanece na Armada até 1855.

Chega ao Rio de Janeiro, como passageiro, no bergantim Clara [Bremen], proveniente de Santa Helena, após 12 dias de viagem.
[Correio Mercantil, 19 de julho de 1852]

De 1855 a 1859 publicita a sua actividade de agrimensor no Almanak Administrativo, mercantil e Industrial do Rio de Janeiro.

Bandeira do Império do Brasil de 1822 a 1870
Imagem: Wikipédia

Em 1859 casa com D. Delfina Amelia de Aquino Silva (1840 - 1872), filha de Joaquim Rodrigues de Aquino, tenente, e de Mariana Osória Leite, então já falecida.
Valença

Antonio Avelino Amaro da Silva. agrimensor, piloto, examinado e approvado, etc.:

Faz publico a quem interessar, aos que o tem honrado com sua confiança e aos seus amigos. que se mudou para a fazenda de seu sogro, o Illm. Sr. tenente Joaquim Rodrigues de Aquino no logar denominado Montacavallo, divisa das provincias do Rio de Janeiro e Minas, margens do Rio-Preto, para onde lhes podem dirigir quaesquer correspondencias pelo correio de Santa Theresa de Valença.

Por esta mesma occasião agradece summamente as felicitações que lhe tem sido dirigidas pelo seu feliz consorcio com D. Delfina Amelia de Aquino Silva, e o faz sciente aos que no numero daquelles não tenhão recebido participação.

in Correio Mercantil, 7 de fevereiro de 1859

Instala-se na residência do sogro, na fazenda de Montacavallo, margens do Rio Preto, Santa Theresa de Valença, a região maior produtora mundial de café, nesse tempo.
Monta Cavalo e Mont’Alverne, criadas por Tomás Alves de Aquino, que viera do Turvo ou do Campo, como chamava a faixa do terreno além do Boqueirão. Tomás Alves deixou os seguintes filhos: Manoel Tomás, Joaquim Rodrigues de Aquino, Francisco de Assis Alves, Anastácio Rodrigues de Aquino, Dona Mariana, esposa de Joaquim de Paula e Souza e finalmente a esposa do Coronel Francisco de Assis Vieira, chefe do Partido Liberal até a queda do Império. Manoel Tomás Alves e Joaquim Rodrigues de Aquino tornaram-se proprietários das duas Fazendas comprando as partes dos outros herdeiros [...]

in Porto da Flores, Perfeitura de Belmiro Braga
Em 1862, noticia a liquidação de uns escravos de orfãos em que tem parte [Correio Mercantil, 25 de março de 1862].

No mesmo ano, legitimou-se a fim de obter o passaporte [Correio Mercantil, 12 de abril de 1862].

Em 1863 publica o romance histórico O Caramujo.

Em 1865 faz público que regressou da sua viagem á Europa, e que continuará com os seus trabalhos de medições de terras no Brasil, onde os exercia desde 1852.

Regressa ao Rio de Janeiro, em 19 de janeiro de 1871, no paquete inglês Magellan [Diário do Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 1871].

A 7 de março volta a partir para Lisboa, no paquete francês Sindh, por motivos alheios à sua vontade [Diário do Rio de Janeiro, 8 de março de 1871].

Ainda no mesmo ano, 1871, propõe ao governo de Portugal, para Lisboa, um caminho-de-ferro americano de tração animal.

A sua esposa falece em Lisboa a 1 de abril de 1872.

Falecimento em Lisboa; Lê-se no Dário de Notícias de Lisboa em data de 2 do corrente: "Faleceu hontem ás 11 horas e 43 minutos da manhã, a Sra. D. Delfina Amelia de Aquino Leite e Silva, esposa do nosso amigo o Sr. António Avelino Amaro da Silva, proprietário e engenheiro civil. Era natural da provincia do Rio de Janeiro, onde conta muitos e abastados parentes. Contava 32 annos de idade. O seu funeral verifica-se hoje pelo meio dia. O inconsolavel esposo não faz especiais convites."

in Diário do Rio de Janeiro, 21 de abril de 1872

Em 24 de abril é rezada na igreja da Candelária, uma missa por D. Delfina Amelia de Aquino Leite e Silva [Diário do Rio de Janeiro, 24 de abril de 1872].

Tendo sido offerecida pelo directores da Companhia Economia a sua chacara das Larangeiras pareceu á commissão benefico alvitre o de estabelecer nella casa de convalescença. Foram encarregados desse trabalho os dignos membros da commissão dos hospitaes commendador Miguel Couto dos Santos, Caetano Pinheiro e o Sr. António Avelino Amaro da Silva, dignissimo gerente daquella companhia, que infelizmente enfermou logo após os primeiros trabalhos de seu cargo. [...]
No dia 1 de fevereiro fomos privados dos valiosos serviços do nosso companheiro o Sr. António Avelino Amaro da Silva, que, tendo trabalhado e dirigido os trabalhos de limpeza e reparos da casa (o que fez com a mais energica e boa vontade) debaixo de chuva constante cahiu doente e foi obrigado a retirar-se. Desde então tem sofrido constantemente a ponto de não ter podido até hoje voltar ás suas occupações civis [...]

in Diário do Rio de Janeiro 14 de setembro de 1873

Parte para Lisboa, na companhia da filha, em 29 de outubro no paquete inglês Araucania [Diário do Rio de Janeiro 30 de outubro de 1873].
Distinção honorifica — A Sociedade 1° de Dezembro de 1640 [posteriormente Sociedade Histórica da Independência de Portugal], de Lisboa, conferiu ao Sr. António Avelino Amaro da Silva o diploma e medalha de ouro de socio honorario da mesma sociedade pelo importante donativo que fez á comissão representativa daquela sociedade nesta mesma Côrte. O Sr. Avelino é um dos bons cidadãos portugueses que entre nós teem residido não só pela sua honradez como pela estima em que teem os brasileiros, do que muito folgamos em dar testemunho proprio pelo conhecimento intimo que temos do seu excellente caracter.

in Diário do Rio de Janeiro 19 de dezembro de 1873

Distinção honorifica — Sr. redactor, lemos a noticia que V. deu no seu numero de hoje, de haver sido condecorado o sr. Antonio Avelino Amaro da Silva, pelo serviço prestado na concessão feita de algumas acções da companhia que S. S. Era gerente, á Sociedade 1° de Dezembro de 1640. Não é nosso fim reprovar essa distinção, nem entrar na analyse se ella foi bem ou mal merecida; o que nos cumpre protestar é contra a boa intenção com que aquelle senhor fez esse donativo. Quem sabe o modo arrogante com que este senhor tratou aos dignos directores da companhia que havia confiado ao Sr. Avelino a gerencia dos seus negocios, a ponto de aggredir aum delles em pleno publico, apellidando-os com a grosseira expressão — gallegos — e outras de igual jaez, certamente terá comprehendidoque nem o patriotismo, nem o amor á Sociedade Primeiro de Dezembro de 1640 levaram o Sr. Avelino a semelhante acto. Quem insulta em publico os seus compatriotas, homens distinctos, cheios de serviços e de reconhecida posição social, chamando-os por um nome que aqui só é conhecido por injurioso, certamente que não merecia semelhante distincção. É neccessario não confundir patriotismo com fanfarronadas filhas do despeito.

in Diário do Rio de Janeiro 20 de dezembro de 1873

Em 1874, protesto de Antonio Avelino Amaro da Silva da Companhia Economia de lavanderia do Rio de Janeiro contra a accusação que lhe faz o relatorio da directoria de 31 de Julho de 1874 e analyse do mesmo relatorio [Biblioteca Nacional de Portugal].
A camara municipal desta cidade concedeu a auctorização ao sr. Antonio Avelino Amaro da Silva para estabelecer uma linha de caminho de ferro americano a partir do largo de Andaluz, pelas terras de Valle de Pereiro, rua do Salitre até ao Rato.

in Diário Illustrado, ed. 17 de novembro de 1874
Em julho de 1875 é noticiado e publicitado o falecimento de sua mãe.
Falleceu a Exma. senhora D. Joanna Francisca da Costa e Silva, esposa do sr. Antonio da Silva, um dos veteranos da liberdade, e mãe dos nossos amigos os srs. Francisco Emygdio da Silva, antigo sub-chefe da repartirão tachigraphica da camara dos srs. deputados, André [António] Avelino Amaro da Silva, engenheiro, e Christiano Gerardo da Silva, distinto musico. Tinha 75 annos de idade.

Senhora muita respeitavel, estremecia seu marido e seus filhos e era por elles adorada. Poucas vezes se terá visto mais amor maternal, poucas vezes terá havido mais dedicação filial.

Compartimos a dôr dos nossas amigos.

Acerca do enterro do finada, publicamos n seguinto convite :


Antonio da Silva, e seus filhos Francisco Emygdio da Silva, Antonio Avelino Amaro da Silva, e Christiano Gerardo da Silva, participam aos seus parentes e relações, que acaba de fallecer sua chorada esposa e mãe, a sr.a D. Joanna Francisca da Costa e Silva que se ha de sepultar hoje 24 pelas 11 horas da manhã, saindo o feretro da rua de S. Filippe Nery n.° 26, 2.° andar [residência de Innocencio Francisco da Silva, autor do Dicionnario Bibliographico Português, conforme atesta ainda hoje a placa apensa no edifício].

in Diario Illustrado, ed. de 24 de julho de 1875
Em Portugal, porém, onde effectivamente a palavra partidos é uma denominação completamente arbitraria, onde essa palavra não significa mais do que a reunião de um certo numero de homens, ligados não pelas mesmas idéas mas pelos mesmos interesses, comprehende-se que haja quem aspire vêr reunidos em uma mesma vereação os homens mais illustrados na certeza de que logo que se acharem debaixo do mesmo tecto, verão que há entre elles a mais completa uniformidade de principios e de opiniões. [...]
É evidente que o governo favorece a listas do Srs. Rosa Araujo, Visconde da Azarujinha, etc. apoiando assim a reeleição da camara transacta. A lista que lhes faz guerra é composta dos seguintes cavalheiros: Conde de Paraty, Luiz Manoel da Costa, Francisco Simões Carneiro, Joaquim António de Oliveira Namorado, José Elias Garcia, Antonio Ignacio da Fonseca, Manoel Gomes da Silva, Antonio Moura Borges, Zeferino Pedroso, Gomes da Silva, José Isidoro Vianna, Antonio Avelino Amaro da Silva e José Carlos Nunes [...]

in Diário do Rio de Janeiro, ed. 20 de novembro de 1875
Aproxima-se o dia para a eleição da vereação municipal que ha de gerir os negocios do municipio de Lisboa no proximo biennio e de dia a dia se activam os trabalhos preparatorios [...]
A segunda [lista] é composta dos seguintes cavallheiros: Conde de Paraty, par do reino, proprietario e grão-mestre do Grande Oriente Luzitano Unido; Joaquim Namorado, facultativo; José Izidoro Vianna, idem; Zophimo Pedroso Gomes da Silva, idem; Elias Garcia, lente da escoma do exercito e redactor da “Democracia”; José Carlos Nunes, negociante; Luiz Manoel da Costa, idem; Antonio Moura Borges, capitalista e negociante; Francisco Simões Carneiro, idem; Manoel Gomes da Silva, idem; Antonio Avelino Amaro da Silva, proprietario e engrenheiro; e Antonio Ignacio da Fonseca, cambista [...]

in O Liberal do Pará, ed. 7 de dezembro de 1875

Em 1876, Brito Aranha, confirma a presença de Antonio Avelino Amaro da Silva no funeral de Inocêncio Francisco da Silva, ambos pertenceram à loja maçónica 5 de novembro, mais tarde Loja Elias Garcia. No mesmo acontecimento é notada também a presença de António de Silva, seu pai [Silva, Innocencio Francisco da, Aranha, Brito, Dicionnario Bibliographico Português, Estudos..., Lisboa, Imprensa Nacional, 1883].

Em 15 de março de 1877, regressou ao Rio de Janeiro, acompanhado de sua filha, no paquete inglês Sorata [Diário do Rio de Janeiro, ed. 16 de março de 1877].

The Pacific Steam Navigation Company's Royal Mail Steam Ship, Cotopaxi, 4,022 Tons, 1873.
Imagem: Picture Gallery of Steamers

No mesmo ano regressou a Lisboa, acompanhado pela filha, no paquete Cotopaxi, em 8 de julho.

Em 1879 falece o seu pai, António Silva, com 79 anos.

Em 20 de dezembro de 1887 falece o seu irmão, Francisco Emygdio da Silva, com 64 anos [Diário Illustrado, ed. 21 de dezembro de 1887].

Em 1889, António Avelino Amaro da Silva, falece na sua casa, em Carnide.
Falleceu na sua casa de Carnide, onde residia, o Sr. Antonio Avelino Amaro da Silva, que durante muitos annos esteve no Imperio do Brazil onde desempenhou em varias provincias diversas comissões de engenharia cívil. O fallecido havia começado sua carreira na marinha mercante, tendo servido mais tarde à junta [governativa] do Porto, em 1846. Deixou um romance histórico intitulado "O Caramujo", onde são descriptas diversas scenas da lucta liberal.

in Tribuna Liberal, Domingo, 24 de Março de 1889


Referências:

Biblioteca Nacional de Portugal
Biblioteca Nacional Digital Brasil
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