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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Do Vale da Enxurrada à Foz do Rego

Das recentes dissertações que nos referem (2 de 2)

A área de estudo é limitada a norte pela linha de costa da frente ribeirinha, a este pela Vala da Enxurrada que desagua no Rio Tejo e que limita assim a área de intervenção na vila da Trafaria, bem como é limitada pela área de intervenção específica da faixa de proteção à Arriba Fóssil da Costa de Caparica (faixa de 70 metros para o interior a contar da crista da arriba, segundo a Resolução do Concelho de Ministros nº178/2008, 24 de Novembro), a sul é limitada igualmente por uma linha de água, a Ribeira da Foz do Rego e a oeste é limitada pela linha de costa na frente oceânica.

Trafaria, Valle da Enxurrada, ed. J. Quirino Rocha, 3, década de 1900.
Imagem: Delcampe

A Arriba Fóssil da Costa de Caparica foi classificada como área protegida segundo o Decreto-Lei nº 168/84, de 22 de Maio, pelo seu excecional valor paisagístico, geológico e geomorfológico.

Costa da Caparica, vista da Quinta de Santo António e da Mata Florestal, tomada do Alto do Robalo, década de 1930.
Imagem: ed. desc.

Para além de diversos estratos de camadas subhorizontais de rochas sedimentares, de conteúdo fossilífero e de origem flúvio-marinha, a área da Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica é igualmente uma reserva botânica de elevado interesse, a Mata Nacional dos Medos, classificada segundo o Decreto-Lei nº 444/71, de 23 de Outubro.

Escarpements formés par le Miocène et Pliocène entre Costa de Caparica et Adissa [Adiça], cliché P Choffat, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

A paisagem protegida que compreende parte da arriba fóssil estende-se por 13 km na plataforma litoral, desde a Costa de Caparica à Lagoa de Albufeira e tem uma superfície aproximada de 1599 hectares. (1)



(1) Oliveira, Marta N. S. C., Evolução Natural e Antrópica Trafaria - Cova do Vapor - Costa de Caparica, Lisboa, UL, 2015

Temas:
Costa da Caparica
Trafaria

Informação relacionada:
Almada, entre o Rio e o Mar
Vídeo: cmalmada

Almada - Banhada por um Mar de histórias
Vídeo: cmalmada

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Arte sineira

António Caliço abre os braços num amplexo frouxo de desalento e aponta o mar que nos beija os pés. "Isto está feio" — e com três palavras narra toda a vida da sua aldeia habitada por umas tantas dezenas de famílias de pescadores.

Fonte da telha, década de 1950.

Fonte da Telha. A dois passos de Lisboa, quatro ou cinco quilómetros da Costa da Caparica, perdeu agora, Verão fora, o cariz de estância balnear pobre, para ficar só o que realmente é durante todo o ano: uma pobre aldeia de pescadores.

"Mesmo isso da praia está-se a perder", lamenta António Caliço — "as pessoas estão a gostar mais de ir para a Lagoa, uns quilómetros mais abaixo." O homem aponta agora, num gesto enfadado de desalento, para a penosa ladeira de areia solta que constitui o único acesso à aldeia e à praia e conclui: "Só para não terem de subir isso as pessoas deixam de cá vir. Se não era para terem feito já uma estrada, caramba... são só cem metros..."

Escarpements formés par le Miocène et Pliocène entre Costa de Caparica et Adissa [Adiça], cliché P Choffat, c. 1900.
Imagem: Internet Archive

E é verdade. Nos últimos anos o único melhoramento de vulto conhecido pela aldeia da Fonte da Telha foi o posto da Guarda Fiscal, que serve para cobrar o imposto de pescado dos habitantes. O posto fica cá em cima, no alto do que deve ser o talude mais penoso de descer e, sobretudo, de subir. Quando o peixe arrastado para terra se estende na areia, com as famílias dos pescadores todas reunidas à sua volta, a Guarda Fiscal encarrega-se de proteger os legais direitos do Estado, cobrando o imposto devido pela pesca.

Um viver primitivo e sem perspectivas

António Caliço é um dos 19 membros da companha do arrais Noel Monteiro. "Se quiser mandar-me os retratos é só escrever: António Caliço, Arte Sineira, Fonte da Telha. Vem cá ter."

Arte Sineira é o tipo de pesca utilizado pelos pescadores da Fonte da Telha. Um ramo de arte xávega da Nazaré. Os barcos partem para o largo, para lançarem as redes em pontos determinados da costa. As artes ficam armadas durante todo o dia ou toda a noite, conforme o caso. Ao fim do tempo considerado necessário que é condicionado pelo conhecimento que os pescadores têm dos hábitos do peixe, as redes começam a ser puxadas para a praia através de umas enormes cordas que se encontram presas nas extremidades do aparelho. 

Costa da Caparica, arte xávega, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

Uma arte pobre, embora difícil e tremendamente arriscada. Toda a faina decorre junto à costa, o que obriga as tripulações dos pequenos botes a suportarem a violência da rebentação. Na maior parte dos dias não se pesca nada. Mas fica sempre a esperança de que na noite seguinte as coisas corram melhor. A vida na aldeia reflecte em pleno toda a falta de perspectivas de única actividade produtora da população. Todos sentem que a pescar por este antigo e ultrapassado método nunca sairão da miséria em que se encontram, mas nem dispõem de meios para sair do impasse nem parecem estar decididos a tal. É uma pobreza que se aceita por determinismo.

Meses inteiros desligados do mundo

Fonte da Telha vive separada do mundo por uma ladeira com cem metros de areia solta. No Verão sempre aparecem uns banhistas. 

Fonte da Telha, 1964.
Imagem: Memória com História

No Inverno só o contacto irregular com os negociantes de peixe. Mas quando a violência das ondas impede que os homens vão para o mar, a aldeia fica cercada por todos os lados. De uma massa ameaçadora do líquido oceânico. Do outro a vertente incómoda da areia solta.

Os negociantes deixam de aparecer, a aldeia isola-se e fica ainda mais triste e mais pobre. É um dia destes que chegamos à Fonte da Telha. Lá em baixo, as casitas de tábuas velhas parecem agachadas ante a rudeza descomunal da ravina. Não se vê vivalma. Dir-se-ia deserta. Uma aldeia abandonada provoca arrepios.

Mas vê-se agora uma rapariga que vai da barraquita de madeira para ir estender roupa no arame esticado em frente da habitação. Um pouco mais ao lado surge, de sob um barco voltado de boca para baixo, em sinal de paralisia que a fúria do mar impõe, um pescador de camisa axadrezada e calça de ganga arregaçada até aos joelhos.

Capa do livro de Alexandre Cabral, Fonte da Telha.
Ilustração Manuel Ribeiro de Pavia.

É o António Caliço. Olha-nos com certa reserva. Não é para menos. Estranhos lá em baixo, no dia pegado de chuva, é para espantar. As pessoas, as mulheres, as crianças e os pescadores, assomam-se às portas para nos espreitarem, roídas de curiosidade.

O mais pequeno rendimento per capita do país

"Pescador tem muitos filhos. Não pode ter mais nada, tem muitos filhos. Eu por acaso não tenho nenhum, sou solteiro. Mas há-os aí com sete e oito fedelhos e comê-los pelas pernas." António Caliço fala calmamente, dominado pelo fatalismo próprio do pescador isolado. Vê que está mal, que a aldeia está mal, que as coisas vão mal, mas não sabe como resolver a situação. Está convencido de que as coisas acontecem como têm de acontecer, sem remédio que o homem possa engenhar. "Umas vezes o peixe aparece e outras não. É tudo. Que pode um homem fazer? Quando o mar se zanga e quer meter-nos os barcos no fundo, como havemos de o sossegar, como?"

Festa infantil na Costa da Caparica, 1929.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

António Caliço bem vê os barcos grandes de pesca que passam ao largo, movidos por fortes motores, mas para ele constituem uma possibilidade tão remota que prefere não pensar nela. Falamo-lhe das modernas técnicas de pescar, das sondas electrónicas para detectar os cardumes, das descargas eléctricas com que alguns navios russos e norte-americanos aprisionam o peixe às toneladas, mas deixamo-lo hirto como um penedo. Vive tão intensamente a sua realidade de Fonte da Telha que prefere não agravar ainda mais o seu sofrimento a sonhar sonhos impossíveis.

A Fonte da Telha (Costa da Caparica, Praia do Sol), Cruz Louro, 1937.
Imagem: Cruz Louro

Fonte da Telha possui três artes sineiras

São três as artes de Fonte da Telha. Cada uma compreende 19 homens que se associaram em sistema cooperativo. Para o mar, na operação sempre arriscada do lançamento das redes, vão oito. Seis encarregam-se dos remos, um toma conta da corda que prende as extremidades do aparelho e que o puxará no final da faina para terra, o oitavo vai à espadilha. Os onze restantes ficam em terra para colaborarem na penosa operação do puxamento da rede.

As contas são feitas, ao fim de cada faina, segundo normas tradicionais estabelecidas há dezenas, senão centenas de anos. O produto total da pesca é dividido em 14 partes. Os homens que foram ao mar recebem uma destas catorze partes. Os que ficaram em terra para puxar as redes recebem meia parte. Nos últimos meses os que foram ao mar saíram-se com "uns 800$00 por mês, enquanto os que ficaram em terra, não ganharam mais do que uns 500$00".


Claro que os pescadores e as suas famílias não ganham só dinheiro: também comem peixe, o peixe que pescam. "Na maior parte dos dias" — diz-nos António Caliço — "o que pescamos é distribuído quase inteiramente por todos, para que haja de comer nas casas dos pescadores".

Muitos dias nem para se comer se apanha. Por cima dos telhados vêem-se ainda restos de peixe exposto ao sol para secar, que constituirá nos dias mais negros do inverno que se aproxima o alimento base do povo de Fonte da Telha. É peixe de manhã à noite. Peixe ao pequeno almoço; peixe ao almoço; peixe ao jantar; e só não é peixe à ceia por que o pescador da Fonte da Telha mal suporta os encargos das três parcas refeições a que está habituado.

As crianças vão a uma escola das redondezas, mas quase todas ficam pela terceira classe. As raparigas ficam em casa para ajudarem as mães na lida da casa; os rapazes ou ensaiam os primeiros puxões na corda da velha arte sineira, ou sobem a ravina de areia, para irem trabalhar na serventia para o Alto do Grilo, Costa da Caparica ou outra terra das proximidades.

Todos desejam afastar os filhos da miséria do pescador

São, contudo, muito poucas as crianças da Fonte da Telha que hoje se iniciam na arte sineira que apaixonou os seus descendentes nos últimos séculos. São os próprios pais e ainda mais as mães que tudo fazem para os afastar do fascínio do mar. Só os que de todo em todo não podem é que não mandam os filhos aprender outro ofício sobretudo na construção civil.

Festa infantil na Costa da Caparica, 1929.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

É o esboçar de um movimento de fuga que é incutido nos mais novos pelos mais velhos, que conduzirá fatalmente à extinção das aldeias de pescadores que guarnecem a orla marítima portuguesa e de que Fonte da Telha, a dois passos de Lisboa, é um caso típico. (1)


(1) António dos Santos, Notícias da Amadora, n° 348, 21 de dezembro 1968
Enviada a Censura em 1968-12-16, Decisão: Cortado Nº de linguados: 4


Artigos relacionados:
Fonte da Telha 

Os saveiros meia lua da Costa da Caparica
Arte xávega descrita por Romeu Correia

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Fonte da Telha

Era a fonte de alegria sã, de saúde do corpo e da alma...

A Fonte da Telha (Costa da Caparica, Praia do Sol), Cruz Louro, 1937.
Imagem: Cruz Louro

A Costa do Sol fem sete léguas de extensão. Desde a Cova do Vapor ou Ponta da Areia onde pode ter comêço a sua exploração como praia, segue, entre o mar e pinhais, até à povoação actual.

A dois passos de Lisboa, êsse estranho, novo e intenso tom doirado das florestas de acácias, constituem um incentivo de digressão interessante: não é menos empolgante do que as amendoeiras em flôr.

As acácias em flõr formam um mar doirado ao lado do outro mar...

Daí para o sul, é uma cadeia de pontos pitorescos onde podem estabelecer-se novos núcleos de população ou onde quem queira pode isolar-se em maravilhosos recortes de paisagem.

Descida do Robalo, Foz do Rêgo, Descida dos Carrascalhinhos, Descida das Vacas. etc.. etc.. etc.. até ao paraíso — a Fonte da Telha — sem dúvida a praia ideal. o melhor que pode haver, — porque não pode haver melhor em parte alguma do mundo...

Fonte da Telha, Carta dos Arredores de Lisboa — 75 (detalhe), Corpo do Estado Maior, 1903.
Imagem: IGeoE

Dai para o sul, ainda poderia continuar a peregrinação: Blunete, Mina do Ouro, Balcões, a Malha Negra, Olhos de Água, a Lagôa...

Mas a Fonte da Telha é o paraiso. Na rocha, a 200 metros de altura, pinhal cerrado, secular, a tôda a extensão norte e sul; a rocha descai em declive suave a conduzir à praia, ali, pertinho a 100 ou 150 metros de distância.

Águas medicinais, férreas, bicarbonatadas e doutras mineralizações. Riqueza de peixe.

Fonte da Telha, Dois barcos, História pela imagem dos barcos na Costa de Caparica, Cruz Louro, 1971.
Imagem: Cruz Louro

Umas dezenas de barracas de pescadores subindo o declive.

A Fonfe da Telha é alguma coisa de extraordinàriamenie belo e salutar. Vive-se ali entre o mar e os pinheiros. São unânimes todas as opiniões: não há, não pode haver melhor.

Fonte da Telha, 2006.
Imagem: wikimapia

Estará, relativamenie a transportes e a comodidades, semelhante ao que a Praia do Sol era há uma dúzia de anos.

Quando a Praia do Sol fôr como Espinho, a Fonte da Telha será como a Granja. 

Entretanto, quem apreciava a rusticidade primiliva da Costa e lamenta agora a invasão do progresso, da concorrência tumultuária, tem ali e terá ainda durante muitos anos, vastissimo campo de isolamento.

Centro Turístico Internacional da Costa, separata do Jornal de Almada, 1968.
Imagem: Sesimbra identidade e memória

Ali, sim. Param as coisas da terra — é o paraíso. (1)


(1) Praia do Sol (Caparica): estância balnear de cura, repouso e turismo, Monografia de propaganda do Guia de Portugal Artístico, 1934, M. Costa Ramalho, Lisboa.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Terras da Costa

Era num juncal sáfaro e ruim. 

Com o céu imundo de nuvens a noite adensava-se. O vento e o marulho do oceano fundiam-se num rosnar cavo e profundo. À distância choupanas de colmo, negras e escorridas, figuravam, pelo cair da tarde, guedelhas, lanuça de maltês.

Pequenas hortas denunciavam a presença de gente em tão ermas paragens. 

Costa da Caparica, vista geral (detalhe), Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Ali, uma mulher talhava regos, abrindo e vedando caminho à serpente de água preciosa, que um homem, balde a balde, içava do poço.

Costa da Caparica, vista geral (detalhe), Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

Por vezes, suspendiam a tarefa, e olhavam para as nuvens negras, tão negras de esperança: Chove? Não chove? Deus permita que chova! (1)

A Praia do Sol, Uma vista parcial, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 108, década de 1930.
Imagem: Delcampe

Os "agricultores das Terras da Costa" são um grupo de pequenos e médios agricultores dispersos por pequenas parcelas (sempre inferiores a 1 ha.) ao longo da planície litoral — ocupando cerca de 186 ha. — inserida entre faixa costeira da Caparica e a arriba fóssil que nela desemboca [...]

Os agricultores locais são na sua maioria descendentes de um núcleo original de famílias povoadoras (no final do século XVIII) do local hoje conhecido como Costa de Caparica, famílias oriundas do Algarve e da região de Aveiro e — supostamente — originalmente dedicadas à actividade piscatória.

Especula-se sobre a origem da agricultura nas Terras da Costa, se terá surgido como complemento à actividade piscatória (e portanto realizada pelas mesmas famílias) ou como actividade independente da mesma (hipoteticamente por pessoas oriundas da Trafaria).

A Praia do Sol, As primitivas barracas dos pescadores, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 111
Imagem: Delcampe

[...] a planície das Terras da Costa, junto com os terrenos que a limitam a Sul, terão sido mesmo das últimas áreas a serem povoadas em termos concelhios.

Este facto dever-se-á às mínimas condições de habitabilidade alí verificadas até sensivelmente ao século XVIII, altura em que populações de pescadores terão começado a povoar permanentemente as zonas dunares e pós-dunares.

[...] durante o século XVI deu-se o chamado “grande aterro”, ou seja, o período posterior a uma "pequena idade do gelo" que terminara no século XV, que implicou a subida do nível do mar e consequente açoreamento das grandes barras e entradas de mar ao longo das orlas costeiras, o que alterou significativamente a paisagem local, fomentando bancos de areia e areais na zona posterior ao depósito de vertentes da arriba.

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes (detalhe), Jacques Nicolas Bellin, 1756.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Por outro lado, o terremoto de 1755, para além de provocar inúmeros estragos e perdas, terá ainda implicado um movimento geológico de elevação (emersão) e estabilização da planície litoral onde hoje encontramos a frente de praias, a zona dunar e as Terras da Costa.

Costa ocidental da península de Setúbal, fotografia satélite.

Isto terá permitido a ocupação e utilização de terrenos até então inexistentes – a orla costeira entre a Trafaria e a Lagoa de Albufeira, onde nascerão a Costa de Caparica e, para o interior e Sul, as Terras da Costa.

Em termos gerais, o povoamento da margem sul do Tejo é já antigo: vestígios arqueológicos na chamada Ponta do Cabedelo (ao lado do actual Convento dos Capuchos) evidenciam uma ocupação humana desde o período do paleolítico e indústrias do paleolítico quaternário.

Costa da Caparica, Descida do Cabedelo, ed. desc., década de 1920.
Imagem: Delcampe

[...] as primeiras notícias de povoamento permanente na “Costa do Pescado” datam aproximadamente de 1770, quando alguns grupos de pescadores – que até então migravam sazonalmente do Norte (região de Ílhavo) e Sul (Algarve) em direcção aos extensos areais e alí pernoitavam durante as suas campanhas de pesca – lá se fixaram.

A topographical chart of the entrance of the river Tagus (detalhe), W. Chapman, 1806.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

"Parece terem sido os ilhavenses os que também primeiro ali passaram a viver com carácter permanente; os algarvios regressavam ao Algarve quando acabava a safra.

Ainda em 1770, esta praia era habitada todo o ano por um número muito reduzido de pessoas, e só no ano seguinte ali se fixaram os primeiros "mestres de pesca", dois ilhavenses Joaquim Pedro e José Rapaz e dois algarvios José Gonçalves Bexiga e Romualdo dos Santos — (...) com as suas companhas."

in Oliveira, Ernesto Veiga de, Galhano, Fernando, Pereira, Benjamim, Construções Primitivas em Portugal, Lisboa, Centro de Estudos de Etnologia — Instituto de Alta Cultura, 1969.

Uma constatação frequente nas Terras da Costa é a de que a agricultura lá praticada terá surgido a partir dessa época, por necessidade de subsistência e complementando a actividade pesqueira nos seus períodos de menor produtividade.

Será portanto nesta época que se terá iniciado o progressivo desbravamento de extensos juncais que cresciam nas zonas pantanosas que se formavam entre a arriba e as dunas zonas resultadas da acumulação de águas pluviais e de marés vivas nas diversas depressões dunares.

[...] outro tipo de acções intervieram na constituição da paisagem local, nomeadamente iniciativas individuais e colectivas dos habitantes e trabalhadores locais, que, consoante as suas necessidades e conveniências, foram moldando detalhadamente o seu espaço envolvente, processo contínuo ainda hoje em curso: desde o desvio de cursos de água à terraplanagem de parcelas à plantação de árvores e arbustos...

[...] podemos enumerar os acontecimentos promovidos pelas entidades oficiais que terão sido fundamentais neste processo de "construção paisagística" das Terras da Costa:

Algures durante o século XVIII, D. João V terá ordenado a plantação de pinhais imediatamente a sul da área que nos ocupa, na agora chamada Mata dos Medos, de forma a fixar os medos de areias que invadiam progressivamente a área litoral em direcção à área posterior da arriba (nesta secção já com uma altura pouco elevada), ganhando assim solo produtivo.

Em 1867, a Junta de Melhoramentos Interna terá promovido a construção de valas de drenagem entre a Trafaria e as Terras da Costa, com eclusas de portas automáticas - de forma a melhor aproveitar o escoamento de águas e as marés para eliminar as áreas pantanosas que se acumulavam mais perto da arriba.

[v. Wikipédia: Junta Geral]

Neste contexto, realiza-se em 1883 um termo de contrato entre o Ministério de Obras Públicas, Comércio e Indústria e a Câmara Municipal de Almada para a compra pelo Estado de "(...) todos os terrenos municipais comprehendidos entre a Trafaria até ao extremo do Concelho em toda a parte do littoral, exceptuados tão somente: os comprehendidos dentro das povoações uma superfície de duzentos metros de cada lado Norte e Sul da povoação da Costa, que fica destinada para novas edificações; e uma facha de areias movediças, tendo de comprimento a extensão que vae da Capella de Nossa Senhora da Conceição, na povoação da Costa, até à Fonte da Telha, e de largura a distancia de quatrocentos metros contados à linha de praiamar de águas vivas; facha que fica reservada para os serviços de pesca."

Esta aquisição visava prolongar os trabalhos iniciados em 1867 e inseridos, provavelmente, em campanhas de higiene pública e de ordenamento do território nacional: "(...) tendo sido reconhecida a necessidade de dessecamento do pantano da Costa n’aquelle Concelho e da arborização dos areiaes da Trafaria e Costa de Caparica para os fins de remover as causas da insalubridade d’aquella região e de crear ali uma extensa matta para protecção das margens do rio e barra e para impedir o augmento dos açoriamentos (...)."

A propriedade estatal destes terrenos ainda se mantém parcialmente no dia de hoje (sob gestão do Instituto de Conservação da Natureza), e é sobre o que resta dessa propriedade que alguns dos agricultores que ocupam este trabalho habitam e trabalham...

Ainda na sequência destas campanhas, procede-se em 1929 à demarcação por parte do Ministério de Agricultura dos terrenos estatais – definidos no termo de compra de 1883 (ver citação acima) o que permitiu o levantamento das áreas que pertenciam tanto ao Estado como à Câmara Municipal de Almada como ainda a proprietários privados (donos de terrenos precisamente fora da jurisdicção decidida no termo de compra de 1883).

Já nos anos 50 do século XX verifica-se o melhoramento do caminho que ligava a povoação da Costa de Caparica à já referida Descida das Vacas, atravessando precisamente os terrenos adquiridos anteriormente pelo Estado.

Este caminho – hoje Estrada Florestal – foi construído pelos Serviços Florestais locais com mão-de-obra local (alguns dos que então participaram na infraestruturação rodoviária ainda hoje vivem), tendo sido macadamizada entre 1956 e 1957.

Neste mesmo ano, e na sequência deste empreendimento, será construída a ponte sobre a Ribeira do Rego.

Estes empreendimentos revelar-se-ão fundamentais em termos de comunicação e transporte de pessoas e mercadorias, assim como do próprio trabalho dos Serviços Florestais locais em termos de fiscalização e manutenção das áreas arborizadas.

Sensivelmente na mesma época, ter-se-á promovido uma complexa operação de fixação das dunas da faixa litoral a sul da Costa de Caparica, paralelas à já referida Estrada Florestal – um empreendimento motivado pelas mesmas razões que as campanhas realizadas no século anterior: impedir o avanço da zona dunar e ordenar o espaço interior.

Esta fixação, na qual participaram activamente os habitantes locais (proporcionando força humana e animal), consistiu essencialmente na plantação ordenada de acácias ao longo das dunas, árvores exóticas que se adaptaram perfeitamente ao clima eminentemente marítimo e ao solo arenoso, manifestando uma alta capacidade de colonização, marcando a paisagem que hoje observamos.

Costa da Caparica, Uma Rua da Mata, ed. Passaporte, 27, década de 1960.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Em termos concelhios, este desenvolvimento traduziu-se numa reorganização política e administrativa, onde a original freguesia da Caparica foi sucessivamente seccionada para dar lugar ao nascimento da freguesia da Trafaria (nos anos 20 do século XX) e da freguesia da Costa de Caparica (muito mais recentemente, em 1949). Neste contexto, a vila de Almada foi elevada a cidade em 1973, enquanto que a Trafaria e a Costa de Caparica foram elevadas a vila em 1985).

Na Costa de Caparica, este período caracterizou-se pela construção sucessiva da bairros inteiros, desde o Bairro de Santo António (entre a Costa de Caparica e Trafaria) nos anos 30 até ao Bairro do Campo da Bola (nos anos 70 do século XX, no seguimento das expropriações efectuadas aquando da construção da Ponte Salazar) e o Bairro dos Pescadores, inaugurado ainda nos anos 60 na sequência de investimentos vários efectuados pelas instituições locais e nacionais para a melhoria de condições de trabalho e habitação dos pescadores locais.

Tendo sido decretada "estância de turismo" em 1925, a Costa de Caparica rapidamente se transformou num dos mais importantes lugares de veraneio da região de Lisboa.

Costa da Caparica, vista geral, década de 1980 — 1990.

[...] Em relação à prática agrária propriamente dita, a recolha por nós efectuada permitiu-nos não só elaborar uma caracterização da realidade local actual mas também incorporar a través de testemunhos vários elementos de práticas “antigas”, isto é, escolhas e metodologias que pelas mais variadas razões foram caindo em desuso.

[...] Assim, em termos gerais, o que se verificava até sensivelmente a primeira metade do século XX nas Terras da Costa era uma agricultura realizada em "maceira", isto é, nas áreas dunares – que invadiam a plataforma litoral.

Este tipo de cultura é tido como oriundo da região centro e norte do país (Póvoa de Varzim, inicialmente, e posteriormente a região da Ílhavo, onde ainda se encontrarão vestígios dessa prática (facto que constitui um argumento a favor da ideia da origem piscatória dos primeiros agricultores locais) [...] e caracterizava-se por esse aproveitamento das zonas dunares através de uma horticultura intensiva, beneficiada pelo solo (obviamente) arenoso, pela protecção e abrigo das dunas e pelo aproveitamento de matéria orgânica específica para adubação...

[...] registamos nas Terras da Costa várias estratégias de desenvolvimento de empresas agrícolas.

O formato tradicional, ainda recorrente, são estruturas sócio-económicas de tipo familiar, perpetuadas em processos de transmissão, onde o núcleo familiar se organiza fundamentalmente em redor da produção agrícola, complementando tarefas de produção, transporte e venda das colheitas.

Vários núcleos habitacionais apresentam actualmente este formato; outros no entanto resultam de evoluções similares, onde alguns elementos da família partilham residência mas não participam na lavoura, optando por empregos na área dos serviços ou construção civil na Costa de Caparica, Almada ou Lisboa.

Nestes casos, verifica-se o desenvolvimento de núcleos habitacionais complexos onde coabitam famílias alargadas (ou várias famílias nucleares) de descendência comum, onde apenas um grupo restrito se dedica à exploração das parcelas.

Assim, e dado que estamos a falar de pequenos e médios agricultores, existem nas Terras da Costa muitos casos de empresas de carácter unipessoal ou familiar - onde marido, mulher e eventualmente filhos trabalham em equipa na exploração agrícola.

No entanto, no caso das gerações mais jovens o interesse pela actividade agrícola não é tão generalizado, preferindo aquelas a continuação da formação escolar ou o emprego noutras áreas. Este tipo de factores, que produzem um “desequilíbrio” em termos de manutenção de força de trabalho, obrigam a recorrer a mão de obra assalariada mais ou menos permanentemente. 

Noutras palavras, aqueles que não conseguem "dar conta do recado" em termos de "braços" são obrigados a recorrer a estratégias alternativas, que passam por essa contratação de mão de obra ou acordos de entreajuda entre a vizinhança ou amizades.

É neste contexto que vemos muitos cidadãos oriundos de países estrangeiros, desde as ex colónias portuguesas à Europa de Leste à procura de trabalho (mais ou menos ocasional) nas Terras da Costa, mesmo apesar das eventuais dificuldades de comunicação (sempre ultrapassadas).

Por outro lado, também é neste contexto que se verificam alguns fenómenos de associação (na maior parte das vezes informal) entre agricultores de forma a melhor explorar as parcelas agrícolas, suprindo carências pontuais e correspondendo a eventuais conveniências.

[...] a construção da Ponte Salazar permitiu um escoamento mais eficaz dos produtos locais para o grande mercado consumidor lisboeta; neste sentido, se há três ou quatro décadas colocar hortaliça fresca de manhã, por exemplo no Mercado da Ribeira ou no Martim Moniz, implicava um empreendimento que começava à meia noite do dia anterior, hoje em dia pode ser feito em apenas uma hora...

Antes, o transporte era feito com tracção animal até Porto Brandão e Trafaria — e mais recentemente Cacilhas — apanhando-se depois o barco (que evoluiu do batel a vela ao barco de vapor e, finalmente, ao cacilheiro) que fazia regularmente a travessia do rio Tejo. Conta-se que, naqueles tempos, o tempo era escasso para percorrer o trajecto entre a chegada do barco a Lisboa e a hora de fecho do abastecimento do mercado, pelo que frequentemente se desenvolviam correrias e galopadas pelas ruas da Baixa lisboeta, de forma a não transformar a viagem num empreendimento em vão...

Relatos por nós recolhidos situam a chegada do primeiro tractor às Terras da Costa por volta dos anos 30 ou 40 do século XX; na região da Caparica existiriam poucos (embora já desde o início do século), pertencentes ora ao Sindicato Agrícola ora a particulares com algum poder de compra.

Eram alugados pontualmente para realizar trabalhos mais pesados; hoje em dia a maior parte dos agricultores possui tractor, essencial para lavoura, sementeira, etc.

A utilização de técnicas de adubação tradicionais, como a estrumação (cavalo ou vaca), a queima, a utilização de pescado miúdo (petinga, etc.) – que se espalhava sobre a terra e se deixava secar, sendo posteriormente "enterrado" — ou o "arejamento" (dar a volta à terra, enterrando a camada exposta), embora persistam em alguns casos, foram complementadas ou substituídas por aplicações químicas, modificando precisamente a capacidade de controlo do agricultor sobre a sua terra e o seu produto.

Há algumas décadas, este tipo de fertilização era muito frequente, dada a abundância de peixes e espécies marinhas na costa da Caparica, e consequentes excedentes resultados da faina piscatória, que os agricultores adquiriam por um preço simbólico ou até a troco de hortaliça ou de graça.

Por outro lado, a abundância de gado vacum e de espécies equinas — instrumentalizados na lavoura — permitia acumular estrume suficiente para aplicar sobre as parcelas.

A progressiva mecanização da prática agrária, no entanto, tornou cada vez mais desnecessária (dum ponto de vista economicista) a existência de espécies animais nas Terras da Costa, reduzindo-as na actualidade a "mínimos".

Em relação à "manutenção" das culturas, encontra-se generalizado o uso de pesticidas (contra ácaros, etc.), fungicidas (míldio) e herbicidas, produtos de empresas multinacionais como a Bayer, Monsanto, Zéneca ou a Agroevo (Schering) aplicados manualmente durante o crescimento das culturas — processo resumido pelos agricultores locais no verbo "sulfatar". (2)




(1) Correia, Romeu, Calamento, Lisboa, Editorial Minerva, 1950.

(2) Blanes, Ruy de Llera, Caracterização Sócio-Cultural dos Agricultores das Terras da Costa, Lisboa, 2003.

Artigos relacionados:
A costa no século XIX
Caparica, 1923


Leitura adicional:
Cultura Avieira
, Folhas Informativas: Os palheiros da Costa...
Noutra Costa da Caparica

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Costa da Caparica — urbanismos

Uma magnífica praia de fina areia estende-se sobre mais de 25 quilómetros, ao longo da costa Oeste do concelho e até ao Cabo Espichel. 

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes (detalhe), Jacques Nicolas Bellin, 1756.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

É a melhor praia dos arredores de Lisboa e tem a vantagem de ser voltada para o Oceano. 

A água do mar é aqui muito mais pura do que nas outras praias próximas da capital.

Foi nesta costa que se formou a primitiva aldeia chamada "Costa de Caparica".

Do lado Norte, esta localidade está ladeada por uma grande mata nacional, que é continuada pela mata da Sociedade do Fabrico dos Explosivos e por uma outra que se estende sobre as encostas da Trafaria, que pertence ao Ministério da Guerra. 

É a mata mais acessível para os habitantes de Lisboa.

Estes dois elementos (praia e mata) e o preço relativamente reduzido da travessia do Tejo fizeram o grande êxito da Costa de Caparica, que não era, há dez ou doze anos, senão um agrupamento de barracas de pescadores e veio a ser uma estação balnear muito frequentada.

Infelizmente, o êxito fez também a desgraça da "Praia do Sol": construiu-se muito e sem qualquer plano previamente estabelecido ou qualquer fiscalização. 

Costa de Caparica, Praia Atlântico.
Pormenor de Solução Urbanística, Cassiano Branco, Arquitecto, 1930.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Veio a ser uma aglomeração totalmente contrária a todos os bons princípios. As ruas são inumeráveis e não calcetadas, as casas são minúsculas, empilhadas uma ao pé da outra, sem espaço à volta de si e com uma distribuição interior feita sem a mínima compreensão.

Costa da Caparica, vista aérea, 1930 — 1932.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Não há um só jardim, nem mesmo uma só árvore que pudesse refrescar esta densa acumulação de casas sobreaquecidas pelo sol ardente. (Mas temos de notar que nos raros pontos onde árvores foram plantadas, estas rapidamente se desenvolvem).

Costa da Caparica, vista aérea, 1930 — 1932.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Aqueles que empreenderam a realização do desenvolvimento desta localidade não perceberam que de tal forma não se atingiam resultados duradouros.

Os fregueses, se eles tiverem a escolha, não quererão continuar a vir alojar-se em casas desprovidas de conforto, sem qualquer jardim, e que se alugam excessivamente caro.

A construção de um bairro balnear moderno, ao lado da aglomeração actual, talvez seja a única maneira a adoptar para obrigar os especuladores a reflectir um pouco sobre o que eles fizeram. 

Seria mesmo muito bom fazer-lhes concorrência (como preconiza o meu associado, o Sr. Arquitecto J. G. Faria da Costa) pela urbanização de outros cantinhos nesta praia, um pouco mais afastados, é verdade, (como a Fonte da Telha), mas cuja situação é ainda mais bonita do que a da Costa de Caparica. 

Centro Turístico Internacional da Costa, separata do Jornal de Almada, 1968.
Imagem: Sesimbra identidade e memória

Bastaria construir até eles uma estrada de circulação rápida e organizar transportes económicos.

A aglomeração da Costa de Caparica está disposta com um certo afastamento do mar e está separada deste por uma duna, parcialmente artificial. 

A beira da água mais próxima fica cerca de 330 metros das casas. 

Portanto, esta praia de areia tem uma largura um pouco excessiva para os banhistas, cansados pelo sol e pelos seus banhos, sobretudo nos dias de grande calor. 

Fonte da Telha, 2006.
Imagem: wikimapia

Por vezes, no fim da tarde, o caminho que eles têm de [sic] percorrer torna-se ainda mais desagradável, por causa do vento do Norte que varre a praia lateralmente e levanta cegantes turbilhões de areia.

Derivado [sic] a isso, o meu associado concebeu o projecto de avançar as construções até à beira da água.

Plano de Urbanização da Costa da Caparica, Faria da Costa, 1947.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

O futuro da Praia do Sol reside no seu arranjo turístico e não na pesca, que não dá ganhos suficientes. 

Os aborígenes deveriam exercer profissões ligadas com o serviço da população flutuante, visto haver neste sítio a possibilidade não só de desenvolver a localidade como praia de Verão, mas também como estação de Inverno.

Nesta eventualidade, a Costa de Caparica deve adquirir um carácter de arranjo mais cuidado e de maior conforto, de que carece muito menos uma estação de banhos de mar. (1)

Costa da Caparica, praias urbanas Costa Polis, 2009.
Imagem: Programa Polis

A intervenção do Programa Polis na Costa de Caparica abrange uma área de aproximadamente 650 ha, compreendendo a frente atlântica de praias entre a Praia do Norte e a Praia da Bela Vista, a frente urbana e zona rural a nascente do centro urbano, a área das dunas sul entre o centro e a foz do Rego bem como uma zona de matas localizada a nascente da Fonte da Telha.

A intervenção compreende a remodelação do actual paredão e a requalificação do espaço público na frente de praias entre a Praia do Norte e a Nova Praia; a criação de áreas de lazer equipadas; a relocalização e construção de novos apoios de praia e instalações de apoio à pesca; o prolongamento da actual avenida marginal (Humberto Delgado) e a construção de estacionamentos de apoio à frente de praias. 

E ainda a reabilitação das obras de defesa costeira e de alimentação artificial das praias com o objectivo de proteger o centro da Costa de Caparica e aumentar a capacidade destas praias, em estreita articulação com [...]

in Programa Polis, Costa da Caparica, Plano Estratégico


(1) Gröer, Etienne de, Plano de Urbanização do Concelho de Almada, PUCA, Análise e Programa, Relatório, 1946, mencionado em Anais de Almada, 7-8 (2004-2005), pp. 151-236.

Leitura adicional:
Contributos para uma História do Ir à Praia em Portugal
A caminho de um novo paradigma de praia: a Costa da Caparica nos anos 1920-1970