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quinta-feira, 16 de abril de 2015

Fragata D. Fernando II e Glória

A Fragata "D. FERNANDO II E GLÓRIA", o último navio de guerra exclusivamente à vela da Marinha Portuguesa e também a última "Nau" a fazer a chamada "carreira da India" verdadeira linha militar regular que, desde o século XVI e durante mais de 3 séculos, fez a ligação entre Portugal e aquela antiga colónia foi o último navio que os estaleiros do antigo Arsenal Real de Marinha de Damão construíram para a nossa Marinha.

Fragata D. Fernando II e Glória, Roger Chapelet (1903 - 1995).
Imagem: flickriver

Sob a supervisão do Guarda-Marinha construtor Naval Gil José da Conceição, foi encarregam da sua construção o mouro Yadó Semogi e nela participaram operários portugueses e indianos.

Fragata D. Fernando II e Glória, Roger Chapelet (1903 - 1995).
Imagem: Revista da Armada,  A recuperação da fragata D. Fernando II e Glória, janeiro 1998

O casco foi construído com madeira de teca proveniente de Nagar-Aveli e, após o lançamento à água, em 22 de Outubro de 1843, foi rebocado para onde aparelhou a galera. A sua construção importou em 100.630 mil réis.

A Fragata recebeu o nome de "D. FERNANDO II E GLÓRIA", não só em homenagem a D. Fernando Saxe Coburgo Gota, marido da Rainha D. Maria II, mas tambem por ter sido entregue à protecção de Nossa Senhora da Glória, de especial devoção entre os goeses.

Fragata D. Fernando II e Glória.
Imagem: Maritima et Mechanika

O navio foi preparado para receber 50 bocas de fogo, sendo 28 na bateria (coberta) e 22 no convés.

A lotação do navio variava consoante a missão a desempenhar, indo do mínimo de 145 homens na viagem inaugural ao máximo de 379 numa viagem de representação [...]

A viagem inaugural, de Goa para Lisboa, leve lugar em 1845 com largada em 2 de Fevereiro e chegada ao Quadro dos Navios de Guerra, no Tejo, em 4 de Julho.

Desde então, foi utilizado em missões de vários tipos até Setembro de 1865, data em que substituiu a Nau Vasco da Gama, como Escola de Artilharia, tendo ainda, em 1878, efectuado uma viagem de instrução de Guarda Marinhas aos Açores [...]

Fragata D.Fernando II e Gloria, 3 de Abril de 1963.
Imagem: Cesto da gávea

Em 1940, depois de ter sido considerado que já não se encontrava em condições de ser utilizado pela Marinha, iniciou uma nova fase da sua vida, passando a servir como sede da Obra Social da Fragata D. Femando, criada para recolher rapazes oriundos de familias de fracos recursos económicos, que ali recebiam instrução escolar e treino de marinharia, facilitando, assim, o seu ingresso nas marinhas de guerra, do comércio e de pesca. (1)

Fragata D. Fernando II e Glória, aguarela de Alberto Cutileiro, Museu da Marinha.
Imagem: Cesto da gávea

Desde finais da década de 40 até meados da década de 70 do século passado, decorreu (inicialmente a bordo de uma velha fragata da Carreira da India e posteriormente em instalações em terra) a Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória.

Fragata D. Fernando II e Gloria, selo de Carlos Alberto Santos, 1997.
Imagem: Tangerino

Em pleno Estado Novo, a Obra parece ter seguido um percurso que acompanhou o próprio sistema político vigente. Recorrendo a um sistema assistencial, educacional e de integração profissional próprios do período, assistiu-se ao crescimento, estagnação e declínio que seguiu o perfil do regime.

Fragata D. Fernando II e Gloria, selo de Carlos Alberto Santos, 1997.
Imagem: Tangerino

Tendo como objetivos principais, a recolha, educação e instrução de rapazes sem família ou sem recursos, a instituição pode, contudo, ter sido muito mais do que estes princípios fundadores previam.

A história da fragata D. Fernando II e Glória, pode dividir-se em várias fases que ilustram as características multifuncionais e multifacetadas que a mesma teve ao longo dos tempos, desde a sua largada de Goa para Lisboa em 1845 até à atualidade.

Assim podemos dividir em sete fases distintas a história do navio:
a) A fase da construção (1832 – 1845, durou 13 anos).
b) A fase operacional, onde efetuou várias viagens (1845 – 1878, durou 33 anos).
c) A fase em que foi Escola de Artilharia e sede de Brigada de Artilheiros (1865- 1937, durou 72 anos).

Fragata D. Fernando II e Gloria, Escola de Artilharia, 1904.
Imagem: Hemeroteca Digital

d) A fase em que foi sede de vários comandos e organismos (1938 – 1945, 7 anos).
e) A fase em que foi sede da “Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória” (1945 – 1963, 18 anos).
f) A fase imediatamente a seguir à destruição, o abandono (1963 – 1992, 29 anos).
g) O restauro, recuperação e museu (1992 até à atualidade).


in Alves, Américo José Vidigal, ASSISTÊNCIA, EDUCAÇÃO E TRABALHO NO ESTADO NOVO, O caso da Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória, 2013

Em Janeiro de 1945, o Ministro da Marinha, Américo Thomaz, através da Portaria nº 10:827 de 9-1-1945 (O.D.A. nº 8, de 10-1-1945) determina “que a fragata D. Fernando seja posta à disposição da Brigada Naval, para fins de instrução e utilização compatíveis com o estado em que se encontra.

Fragata D. Fernando II e Gloria, aula de ginástica, 1956.
Imagem: O caso da Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória

De acordo com o primeiro artigo, do capítulo I, denominado "Fundação e Objetivo" constante no Regulamento Geral da Obra144, "é criada a Obra Social da Fragata D. Fernando que tem como objetivo a recolha, alimentação, educação e instrução, gratuitamente e em regime de internato, de rapazes com 12 a 16 anos de idade, desprotegidos, sem família, sem meios e sem trabalho, a livrá-los dos perigos morais a que a ociosidade e a libertinagem os podem conduzir e prepará-los para a vida no mar, a servirem nas frotas das Marinhas de Guerra, mercante ou de pesca."

Fragata D. Fernando II e Gloria, alunos por identificar.
Imagem: Cesto da gávea

[...] o dia de entrada na fragata, era precedida de inspeções médicas, corte de cabelo, limpeza do corpo e distribuição de roupa interior (camisola e cuecas) e exterior (blusão e calças de cotim). Sobre o calçado, este ex-aluno, apenas refere que, aos pés era dado o “calejamento das águas do Tejo” o que pressupõe que no início da obra, ou nos primeiros dias de permanência, os alunos andariam descalços [...]

Fragata D. Fernando II e Gloria, alunos trabalhando com cabos a bordo.
Imagem: O caso da Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória

Neste primeiro dia eram ainda distribuídas as macas, que faziam as vezes da cama. Estas eram compostas por um travesseiro, um colchão, uma manta e uma coberta de lona. Depois desta distribuição, os alunos eram agrupados por pelotões para a formatura, comandados por alunos mais velhos.

Este enquadramento levado a cabo pelos alunos mais velhos era contínuo e não se confinava aos primeiros dias, sendo observável também à mesa, durante as refeições, e quando se desfilava em parada na via pública.

Durante a noite os alunos efetuavam vigias ao navio que duravam quatro horas. Além do aluno de vigia havia também um marinheiro ou grumete de vigilância, controlando este, a guarnição e os alunos.

Após passagem pelos lavabos para lavar cara, mãos e dentes, prosseguia-se ao enrolar das macas. Pouco tempo depois tocava a formar para a primeira refeição que, quase sempre, consistia em café com leite e pão com manteiga ou marmelada. A seguir ao pequeno-almoço tocava novamente a formar para distribuição de serviços, tarefas e obrigações. Entendia-se por serviços ou tarefas o escalamento para as embarcações, para baldeações e para lavagem de loiça de alumínio após as refeições.

Fragata D. Fernando II e Gloria, aprendendo a arte de fazer nós.
Imagem: O caso da Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória

As obrigações tratavam-se de tarefas fixas que alguns alunos podiam ter permanentemente, como adjuntos das oficinas de bordo (sapateiro e carpinteiro), aulas de instrução primária, de ginástica, de marinharia, de vela, de remo e de natação, entre outras.

Fragata D. Fernando II e Glória, familiares de alunos de visita, 1956.
Imagem: Cesto da gávea

Também a roupa era lavada pelos próprios alunos [...]

Fragata D. Fernando II e Gloria, mergulho no Tejo.
Imagem: O caso da Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória

Digno de registo é também o mergulho do Madeirense. Esta autêntica proeza aconteceu num dos primeiros verões após constituição da Obra, encontrando-se o navio fundeado em Belém, como era hábito nessa altura do ano. (2)


(1) Revista da Armada,  A recuperação da fragata D. Fernando II e Glória, janeiro 1998
(2) Alves, Américo José Vidigal, ASSISTÊNCIA, EDUCAÇÃO E TRABALHO NO ESTADO NOVO, O caso da Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória, 2013

Informação adicional:
D. FERNANDO II E GLÓRIA
Cesto da gávea

Cesto da gávea em imagens
No dia da apresentação da Tese de Mestrado de Américo Alves, sobre a Fragata D. Fernando II e Glória
Sachetti, António, D. Fernando II e Glória. A Fragata que Renasceu das Cinzas, Lisboa, Edições CCT, 1998
Sousa, Victor Manuel de, Apontamentos sobre a Fragata D. Fernando II e Glória, edição do autor
Navios da Armada no Facebook
Fragata D. Fernando II e Glória no Facebook

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Toponímias urbanas oitocentistas

Em princípios do século XIX Cacilhas estendia-se quase duas centenas de metros ao redor da pequena baía.

Praia de Cacilhas, The Harbour of Lisbon, Charles Henry Seaforth (1801 - c. 1854).
Imagem: reprodução em colecção particular

O traçado das ruas principais pouco diferia do atual:
rua das Terras (Carvalho Freirinha);
rua das Terras da Igreja (beco do Bom Sucesso);
rua Direita (Cândido dos Reis);

Rua Direita — Cacilhas, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe, Oliveira

rua da Oliveira (Comandante António Feio).

[...]

O caminho da Pedreira [azinhaga, e mais tarde calçada, que corresponde à atual rua Elias Garcia] tinha poucas casas e a vila começava praticamente junto à travessa da Pedreira que vai ao castelo;

Almada, Largo do Poço em Cacilhas (detalhe), Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 05, década de 1900.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

as casas mais a poente situavam-se onde é hoje a Academia Almadense. 

Nenhuma outra comunicação importante leste-oeste existia a sul desta estrada.

Almada, Vista Geral (tomada do Campo de S. Paulo), ed. desc., década de 1940.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Da cerca subsistem uma parte a norte, entre o Palácio da Cerca e a rua da Academia Almadense, junto ao sítio onde em 1843 se construira uma praça de touros; do lado sul apenas um troço limitando os quintais das casas da rua Direita.

Almada, Lado Sul, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 09, década de 1900.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

Nos primeiros anos do século XIX as ruas principais eram:
rua Direita (D. José de Mascarenhas e Capitão Leitão);

Almada. Rua Direita e Egreja de S. Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900
Imagem: Fundação Portimagem

rua da Judiaria (mantém o nome);

Almada, rua da Judiaria, Barata Moura, 1961.
Imagem: Câmara Municipal de Almada

rua que vai dar à Boca do Vento (Trigueiros Martel?);
rua que vai da Boca do Vento à Praça Velha (Bulhão Pato);
rua da Lage (Rodrigues de Freitas);
rua do Passa Rego (Latino Coelho);
rua do Açougue (Henriques Nogueira);
rua ou azinhaga das Courelas (José Fontana);
rua do Campo (travessa do Campo);
rua do Forno (Augusto Maria da Silveira);
rua da Padaria (mantém o nome);
praça Nova (praça Luís de Camões);

Almada, praça Nova e rua Direita, década de 1890.
Imagem: Hemeroteca Digital

praça Velha (Largo José Alaíz).

No último quartel do século XIX construiu-se a nova estrada Cacilhas - Trafaria que aproveitou parte das antigas azinhagas.

Planta do Rio Tejo e suas margens (detalhe), 1883.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A sul de Almada abriu-se um troço inteiramente novo desde onde é hoje a praça Gil Vicente [...] (1)


(1) PEREIRA DE SOUSA, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Príncipe de Joinville

Em agosto de 1834, o Príncipe de Joinville (1818 -1900) passa novos exames em Brest, sob a direção de cavaleiro Préaux Locré. Recebido como aluno de primeira classe, embarca imediatamente em Lorient na fragata "La Syrene", vai a Lisboa, aos Açores, e regressa a França, após de três meses de navegação.

François d'Orléans, príncipe de Joinville (detalhe).
Chateau de Versailles, Franz Xavier Winterhalter, 1843.
Imagem: REPRO TABLEAUX

Em 1840 [...] participa na transladação dos restos mortais do imperador Napoleão. 

Transbordement des cendres de Napoléon, Morel-Fatio, 1841.
Imagem: L'HISTOIRE PAR L'IMAGE

Em maio de 1841, [...] embarcado na "Belle Poule", vai visitar Amesterdão e todos os portos ou instalações marítimas da Holanda. Seguidamente viaja para a América, visita o Cap-Rouge, Halifax, Filadélfia, Washington e regressa à Europa, por Lisboa, onde é recebido pela rainha Dona Maria, e regressa a França em janeiro 1842. (1)

Lisbonne vue du vieux port, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: LMT no Facebook

Após uma rápida travessia chegámos a Lisboa. É certo que o Tejo é um rio bonito, mas o panorama tão falado de Lisboa não merece, segundo eu, a sua reputação. Apenas a Torre de Belém charma os olhos com sua arquitetura original, e desde que aí desembarcámos o encantamento continua diante da igreja atrás dela, mas isso é tudo. O resto é feio.

Torre Velha, Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: Sotheby's

Nós descemos a terra na chalupa ( falua ) [sic, i.e. galeota] Real, uma embarcação guarnecida de esculturas douradas com dossel de seda à ré, cuja tripulação se compunha de em homens do Algarve de tez morena , vestidos de calções curtos, jaqueta de veludo amaranto [vermelho escuro] e envergando boinas venezianas. Remavam em pé cadenciando os movimentos do remo com uma espécie de ladainha, em homenagem à rainha, que cantavam em coro.

Não era a primeira vez que eu vinha a Lisboa; aí reencontrei com alegria a rainha D. Maria, uma amiga de infância da qual viria a ser, não sei quantas vezes, cunhado; aí reencontrei também o seu marido, o rei Fernando, que eu conhecia menos. Artista até à ponta das unhas, musico, aguarelista, aguafortista, ceramista notável, o rei Fernando detestava a política; esses e outros pequenos defeitos, que nos eram comuns, ligar-nos-iam intimamente, e essa amizade duraria até ao seu final prematuro.

Vue de Lisbonne, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet


Regressei com frequência a Portugal; sempre aí recebi um acolhimento do qual guardo a recordação mais reconhecida. Aí encontrei homens distintos, mulhers amáveis, instruídas, charmosas; também dediquei a Portugal e aos portugueses sentimentos de uma afeição sincera e desejo que todos os meus votos sejam por eles seguidos sobre a terra e sobre o mar, mas não entrarei na mais pequena reflexão sobre a sua vida política.

Almada vue d'Alfeita [sic], François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet

Na época da qual falo, este país tinha duas ilustres espadas: os marechais Saldanha e terceira, que serviam alternadamente de apoio à mudanças alternadas da Constituição, fosse na ajuda a levantamentos militares, fosse na ajuda a procedimentos mais parlamentares. Era o costume do país, o qual ia melhorando. Havia, como em França, dois partidos dinásticos; mas, coisa curiosa, o partido miguelista que fazia oposição à rainha Dona Maria, partid pouco numeroso de resto, pretendia-se o partido da legitimidade, bem que ele reivindicasse os direitos de D. Miguel, representante de um ramo mais jovem.  Que os políticos profundos arranjem isso a seu modo.

Não sei se é na ocasião desta estadia que, recebendo em Belém o corpo diplomático, o duque de Palmela, que se me apresentou como ministro dos negócios estrangeiros, me pediu de o desculpar por abreviar a cerimónia, já que a duquesa de Palmela, nesse momento, estaria prestes a dar ao mundo o se décimo quinto filho, prova palpável, dada por um ministro de negócios estrangeiros, da vitalidade da nação portuguesa.

O duque de Palmela, um diplomata da velha escola, que pleno de espírito natural e de talento, combinava a vantagem de ser próximo dos grandes diplomatas do século, os Talleyrand, os Metternich, etc., etc., convida-me para jantar alguns dias depois.

A refeição foi explêndida. À chegada, os archeiros reais, assim chamados porque estão armados com alabardas, guarneciam a escadaria; depois passamos pelos belos salões, ao fundo dos quais, à saída da mesa, uma porta ampla se abria para deixar ver, no alto de um estrado de vários degraus, uma magnífica cama de cerimónia, e nessa cama a duquesa de Palmela, que há pouco tempo dera à luz, e a quem todos os convivas se apressavam a ir apresentar as suas homenagens.

Numa revista às tropas portuguesas notei belos batalhões de caçadores e tive uma conversa bem divertida com o célebre almirante Sir Charles Napier, que assistia a essa revista, a cavalo, em uniforme de comandante de navio inglês, mas com um pequeno chapéu à Napoleão com cocar [laço] português, as calças subidas, os pés armados com gigantescas esporas de caça e um bastão enorme na mão [...] (2)


No mês de junho seguinte, [o Príncipe de Joinville] voltou para o "Belle Poule" com a esquadra às ordens do vice-almirante Hugon. Acompanha então o seu irmão mais novo, o Duque de Aumale a Nápoles, depois, a Lisboa, e dirige-se ao Brasil fazendo escala em Saint Louis, Senegal [...]

Esta viagem tem por objetivo o pedido em casamento da Princesa Dona Francisca de Bragança (1824 - 1898), filha do imperador Dom Pedro I, e irmã do futuro imperador Dom Pedro II e da Rainha de Portugal Dona Maria. 

Dona Francisca de Bragança, princesa de Joinville (detalhe),
Musée de la Vie romantique, Ary Scheffer, 1844.
Imagem: The Royal Forums

A união dos dois príncipes é celebrada no Rio de Janeiro, no dia 1º de maio de 1843. Imediatamente após, o Príncipe leva a sua esposa para França, onde brevemente nascerão os seus dois filhos. No dia 31 de julho de 1843, Joinville é nomeado contra-almirante [...] (3)


(1) Wikipédia, François d'Orléans (1818-1900)
(2) Joinville, François Ferdinand Philippe Louis Marie d'Orléans prince de, Vieux souvenirs: 1818 - 1848, Paris, Calmann Lévi, 1894
(3) Wikipédia, idem

Versão inglesa:
Joinville, François Ferdinand Philippe Louis Marie d'Orléans prince de, Memoirs (Vieux souvenirs) of the Prince de Joinville, London, William Heinemann, 1895


Leitura adicional:
Outros escritos de François d'Orléans, príncipe de Joinville

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Liberato Teles

Francisco Liberato Telles de Castro e Silva (1843 — 1902)

É um illustrado funccionarío das obras publicas, conductor de 1.a classe do quadro auxiliar do corpo de engenheria civil sr. Francisco Liberato Telles de Castro da Silva, [...] prestando assim homenagem a um cavalheiro muito apreciavel pelos seus dotes de technico, de artista e de erudito, tres qualidades que reunidas formam um caracter deveras distincto.

Francisco Liberato Telles de Castro e Silva.
Imagem: Hemeroteca Digital

Como technico tem publicado varios estudos interessantes sobre diversas especialidades do seu conhecimento.

Data de 1873 o seu primeiro livro intitulado "Guia do empreiteiro". pequeno volume contendo formulas, tabellas, indicaçäo de processos de contstrucção, traçados de estradas, series de preços, etc; a clareza com queãistá escripto e a rnaneira por que o assunpto está tratado tomam este livro muito util e efficaz aos empreiteiros, mormente os de estradas.

Embora iniciada assim, por um livrinho de valor, a serie dos seus estudos, Liberato Telles só dezoito annos depois publicou o novo trabalho intitulado "Duas palavras sobre pavimentos", que é um tratado completo sobre processos antitigos e modemos usados no revestimento dos pavimentos, c no qual sob a forma de livro o auctor publicou os seus preciosos apontamentos profissionaes, enriquecendo-os de curiosas notas históricas. 

Demanda este trabalho muita atenção na regularização da superfície a calçar nivelando-se muito bem, em seguida fixar-se-ão os moldes dos desenhos a produzir, partindo dos centros para os lados; a posição do molde é determinada por meio de esquadria, ou por outra, determinado o eixo da rua, passeio, etc., fixar-se-á nos extremos um cordel indicando-o, e deste modo para o lado se levantarão perpendiculares e só por meio delas se poderão assentar convenientemente os moldes.

Assentes estes, começar-se-ão a encher os vazios com pedra de dimensões iguais às da calçada com pedra miúda, encostando-as de encontro aos moldes, preparando-se muito bem a pedra para poder produzir esse fim — cheios os vazios tiram-se os moldes e calcetam-se com pedra de outra cor o espaço por eles ocupado, empregando-se todos os cuidados na execução, obtendo-se assim bonitos desenhos…

in  Teles, Liberato, Duas palavras sobre pavimentos, Lisboa, Typographia da Companhia Nacional Editora, 1896, 272 págs.

No anno passado sahiram do prélo a primeira e segunda edicão do primeiro estudo sobre Construcção Civil intitulado "Arte de Dourar", collecção de processos, enriquecida de varias notas interessantes acerca de alguns artistas douradores portuguezes.

Agora no corrente anno, opulentou ,o sr. Liberato Telles a nossa bíbliograiàliia tecbnica, industrial e artistitica com uma obra de grande tomo e importancia, à qual a imprensa do pais se tem referido lisongeiramente e que, fazendo parte da serie "A decoração na construcçao civil", se intitula "Pintura simples", epigraphe modesta que occulta um riquíssimo peculio de processos artisticos de factura pictural.

Pintura simples, Liberato Telles.
Imagem: Alfarrabista Roma

Adorna-o egualmente um interessante esboço historico da pintura, em que se delinem as épocas, tratando os pintores mais. notaveis de cada uma d'ellas, das ditferentes escolas e dos seus característicos, terminando com alguns traços biogaphícos dos principaes pintores portugueses. 

O texto principal da obrae assaz substancioso e util, pois trata detidamente das tintas, technica dos tons, dos oleos, das essencias, dos secantes, das gommas, das massas, das collas e dos vernizes usados na construcçäo civil, no interior e no exterior; segue-se a enumeração dos differentes generos de pintura e a reproducção dos variadissimos processos e termina por um album artisticarnente lithograpliado a cores com amostras das madeiras e marmores mais usualmente imitados.

Não sou Pintor como todos sabem, nem tenho a pretensão de passar por entendido no assunto como ficam sabendo; conheço apenas de pintura o que devem conhecer todos aqueles que seguiram a minha profissão.

in Teles, Liberato, Pintura Simples, A Decoração na Construção Civil, Lisboa, Typographia do Commercio, 1898, 1º vol 233 págs, 2º vol 252 págs.

Se a par d'estas obras publicadas e que tanto honram o seu auctor e abonam as suas faculdades de technico e tratadista nas especialidades, nós quizessemos tambem referirmo-nos às muitas obras de construcção civil que tem dirigido, muito teriamos a dizer, pois se lhe deve a cuidada e intelligente direcção de trabalhos importantes, taes como a transformação do velho pardieiro de Arroyos n'um hospital digno de vista; o alteamento do tecto da sala da Junta Consultiva de Obras Publicas, traballho em que se levantaram as asnas sem tocar no madeiramento; os grandes melhoramentos feitos no Lazareto, obras que dirigiu com notavel proliciencia, merecendo os mais decididos. louvores do engenheiro Cecilio da Costa.

Mas a obra que lhe foi querida por excellencia é a do ambamento interno do edificio da Madre de Deus, em Xabregas, onde o seu bom gosto e são criterio soube multiplicar-se em_carinhosos cuidados, forniando d`aquelIe historico edificio, verdadeiro escrinio de preciosidades, um incomparavel museu de antigos azuleios poriuguezes alli sabiamente collocados. obedecendo a methodica e artística distribuição. 

Ainda por ultimo são obra de direcção sua aquellas enormes abobadas que se estão fazendo no quartel dos marinheiros em Alcantara para sobre ellas assentar a respectivra parada.

Seria na verdade fastidioso querer deixar aqui uma mais Ionga enumeração das obras em que a actividade d'este distincto constructor se tem evidenciado, porque essa lista ficaria sempre muito longe da verdade.

Fallando assim um pouco pormenorisadamente dos trabalhos de Liberato Telles, não quizemos de modo algum. eximir-nos a fallar da vida do homem, accrescendo que o nosso periodico sempre prestou especial cuidado ás biograpliías dos seus retratados. 

Assim, sabemos que Liberato Telles é natural de Cacilhas, onde viu a luz do dia em 21 de janeiro de 1843. 

Pontaleto de Cacilhas, espólio do duque de Palmela, 1885.
Imagem: Delcampe

Seus paes, Francisco Liberato a Silva que foi 2.° commandante da guarda municipal, e D Maurícia Tellesde Castro da Silva, destinaram-o á carreira militar, onde a sua familia conta nomes illustres, frequentando para isso o Collegio Militar, cujo curso não completou, attrahido por outros estudos, como a economia politica, destinando-se à carreira diplomatica. 

Pela morte do conde do Lavradio que prometera protegel-o ne nova carreira, teve Liberato Telles que voltar para outros assumptosa sua actividade intelligente, trabalhando nas obras da fortificacão de Lisboa, e iniciando os seus estudos topográphicos, alcançando em 1863 o logar de aspirante a conductor, sendo collocado no districto de Santarem, onde em trabalhos importantes se conservou até 21 de dezembro de 1877, em que foi transferido para na direcção das obras publicas do districto de Lisboa.

Desde então para cá, Liberato Telles nunca deixou de affirmar os seus dotes de conductor illustrado, merecendo de mais em mais o dcsvanecedor apreço que todos que o conhecem lhe tributam, e ao qual nós juntamos tambem o nosso quinhão.  (1)
Os anuários comerciais de 1885 e 1888, no âmbito do levantamento de exitências de máquinas a vapor, referem a fábrica de britagem de pedra de Liberato Telles, na zona da Lapa, em Cacilhas.

Trituração de Pedras Liberato Telles & Companhia (Lapa, Cacilhas, 1885),
Docas A. J. Sampaio (Lapa, Cacilhas, 1888, 1896),
Fábrica de Britar Pedra Liberato Teles de Liberato Pinto (Cacilhas, 1888).


in A produção social da solidariedade operária: o caso de estudo da Península de Setúbal (1890-1930)

Vista tomada no porto de Cacilhas, face a Lisboa, Hubert Vaffier,  1889.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Para concluir a revista d'este numero, reproduziremos uma noticia que vem avivar-nos a saudosa lembrança de Liberato Telles, ha pouco fallecido. 

Este distinctissimo conductor de obras publicas, ultimamente agraciado com a promoção ao honroso cargo de conductor principal, organizara uma monographia interessante, como outras que elle deu à estampa, ácerca do edificio e egreja do antigo convento de S Paulo, em Almada, cujas obras de restauração foram, durante bastante tempo, dirigidas por aquclle illustre e benemerito funccionario.

Esta memoria, porém, infelizmente ficou manuscripta, e foi pelo auctor offerecida e enderessada ao conselho superior dos monumentos nacionaes, acompanhada de um magnifico album contendo photographias das fachadas, planta e corte do edificio, onde repousam entre outras, as ossadas de fr. Francisco Foreiro, qualificador do Santo Officio, e confessar de D. Joäo lll, que alli falleceu em 1581, e de D. Alvaro Abranches da Camara, um dos mais valorosos campeões da independencia, em 1640, e heroe das luctas com os hollandezes no Brazil. 

O fallecido Liberato Telles, cujo dedicado amor pelas cousas nacionaes e pelos assumptos artisticos e archeologicos era bem conhecido, pedia que o antigo convento de S. Paulo, theatro do pungente drama da vida de fr. Luiz de Sousa, fosse considerado monumento nacional.

Este magestoso templo que se achava já bastante arruinado, está sendo actualmente reparado por um troço de operários sob a direcção do illustre conductòr de obras publicas, sr. Liberato Telles de Castro e Silva.

Estas reparações foram mandadas fazer pelo governo, para o que muito contribuiu o nosso amigo e conterrâneo sr. Antonio Dionizio Parada.

ver artigo relacionado:  Almada em 1897

Ainda ha pouco, um dos nossos mais illustres investigadores, que tantos e tão relevantes serviços tem prestado à historia da arte nacional, o sr. dr. Sousa Viterbo, chamara sobre este ediñcio antiquissimo as attenções dos estudiosos, na sua interessantisstma Memoria, publicada na collecção das Memorias da Academia Real das Sciencias, intitulada: D. Manuel de Sousa Coutinho (fr. Luiz de Sousa) e sua mulher D. Magdalena Tavares de Vilhena (op. de 60 pg. — 1902).

Liberato Telles publicara tambem em 1901, no Boletim da Associação dos Conductores de Obras publicas, e depois em bella separata, a sua exceIente memoria acerca do antigo mosteiro e egreja da Madre de Deus, monographia acompanhada de um precioso album de illustrações de B. Ceia.

Relevante serviço prestariam por certo o Conselho Superior dos Monumentos, ou a referida Associação, publicando a memoria acerca do convento de S. Paulo. (2)



A Decoração na Construção Civil, Liberato Telles.
Imagem: Alfarrabista Roma


(1) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 716, novembro, 1898.

(2) O Occidente, revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.° 862, dezembro, 1902


Bibliografia de Liberato Teles:


Teles, Liberato, Duas palavras sobre pavimentos, Lisboa, Typographia da Companhia Nacional Editora, 1896, 272 págs.

Teles, Liberato, Pintura Simples, A Decoração na Construção Civil, Lisboa, Typographia do Commercio, 1898, 1º vol 233 págs, 2º vol 252 págs.

Teles, Liberato, Mosteiro e egreja da Madre de Deus, Lisboa, Imp. Moderna, 1899, .

Teles, Liberato, A arte de dourar, Lisboa, Typographia do Commercio, 1900, 3.a edição revista e aumentada, 108 págs.


Outras referências: O Paço de Cintra, Lisboa, Imprensa Nacional 1903.