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terça-feira, 10 de julho de 2018

Contos rápidos: uma passeata...

Até que finalmente tinha chegado o desejado dia dos annos da Marianna, em que segundo promettera o primo Alfredo, iriam todos passear até á Outra Banda. 

Recordação de uma "pandiguinha" na tapada do Alfeite em 28 de Setembro de 1913.
Casa Comum

Desde as quatro da manhã que em casa dos Rochas, andava tudo n'uma debadoira, pois cheirava a pandega, e demais a mais, pandega paga pelo primo, rapaz com algum vintem, que estava para casar  com a Piedade, irmã da Marianna.

O pae das raparigas, o sr. Rocha, um amanuense encravado do ministerio do Reino, a quem o magro ordenado mal chegava para sustentar aquella tropa fandanga de seis pessoas, elle, mulher e quatro filhas, exultava de contente n'aquelle dia, não só por poupar o jantar em casa; como também lhe cheirar a comer de borla e tirar o seu ventresinho de miseria. 

A D. Pulcheria senhora já quarentona e mãe de raparigada, essa tombem não cabia dentro da pelle, com o contentamento que sentia, e agourando de antemão um dia bem passado fóra de casa. 

Ás seis horas chegou o Alfredo, todo dandy, de fato claro, Panamá de palha posto á mosqueteiro, e saboreando um carmelita aromatico, que deixava nos ares um aroma deliciosissimo.

As Rochas estavam esperando impacientes, todas aprumadas e mais firmes do que o seu apelido, na casinha de fóra, por isso foi um delírio quando a campainha telintou alegremente.

— Ora graças!... disse a D. Pulcheria que foi quem abriu a porta, emquanto o Rocha pae escovava o côco e as filhas ensaiavam caretas ao espelho. 

Julguei que não chegava hoje!... O seu relogio está muito atrasado! 

— Ora essa?... Está pelo tiro, que o accertei hontem, voltou o Alfredo puchando pela cebolla e mostrando-a á futura sogra. 

— Então é o de cá, que está adiantado, voltou a Annita cofiando o penteado na testa. 

O Alfredo foi-se chegando para o pé, da Piedade e apertou-lhe a mão ternamente, emquanto o pae Rocha, já de bengala empunhada e chapéo na cabeça, dizia:

— Bem, então não ha tempo a perder. Vamos andando a ver se apanhamos o vapor das seis e meia.

Embarque na ponte dos Vapores Lisbonenses, fotografia de Joshua Benoliel (1873-1972).
Arquivo Municipal de Lisboa

Eram sete e meia quando o alegre bando desembarcou em Cacilhas.

O Alfredo sempre agarrado ao braço da Piedade, propôz para irem ao Alfeite vêr a quinta, mas primeiro seria conveniente almoçarem em qualquer parte.

Acceite o convite com todo o contentamento, dirigiram-se a uma casa de pasto onde almoçaram regaladamente bife, ovos estrellados, vinho etc.

Se nós agora fossemos de burricos até ao Joaquim dos melões? alvitrou o Rocha pae.

Cá por mim antes queria ir á Cova da Piedade, disse o Alfredo olhando sorrateiramente para a prima, que se poz vermelha como um tomate.

Cova da Piedade, Rua Tenente Valadim, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Nada, nada vamos nos burros dar um passeio maior, retorquiram em côro as outras irmãs.

Alugaram-se burros e começaram a montar, mas o Alfredo e a prima deixavam-se ficar para traz, cochichando em voz baixa.

— Então vocês não veem nos burros? perguntou a D. Pulcheria já quando os jumentos se punham em marcha.

Grupos de arraial, Alfredo Roque Gameiro, J. Novaes Jr., c 1900.
Internet Archive

Não mamã! respondeu a Piedade batendo as palmas. Vão andando, vão andando, que eu e o primo vamos em cavallo... 

E foram.  (1)


(1) O Zé, successor do Jornal "O Xuão", 13 de dezembro de 1910

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Vale de Rosal e os dias 4 e 5 de outubro de 1910

A quinta de Val de Rosal, na Caparica, na margem esquerda do Tejo (arredores de Almada) foi, para os jesuítas, uma verdadeira relíquia. Foi, desde o século XVI, propriedade da irmandade até à sua expulsão em 1759 sob o reinado de D. José I. Foi aí que durante vários meses B. Inácio de Azevedo e os seus companheiros tinham preparado a sua partida para o Brasil, exercitando as virtudes heróicas que Deus iria recompensar pelo martírio.

Vale de Rosal antes de 4 de outubro de 1910.
Imagem: Internet Archive

O solo é arenoso é pouco fértil: os seus horizontes, onde se destaca o verde escuro dos pinhais, são monótonos; as brisas do entardecer espalham sobre os cumes melancólicos das colinas o eco distante das vagas que rebentam na praia. Poderíamos crer reencontrar a solidão dos antigos claustros impregrados ascetismo.

Vale de Rosal, após o assalto.
Imagem: Internet Archive

Hoje, no entanto, esta região, justamente chamada a Charneca, está pontilhada de pequenas casas rurais brancas e agradáveis escondidas nas dobras do terreno ou expostas nas encostas arredondadas das colinas.

Entre elas, a fazenda de Val de Rosal conservava, graças aos seus edifícios mais imponentes e sobretudo ás suas tradições veneráveis, uma superioridade que não se sonhoria contestar.

Vale de Rosal, após o incendio.
Imagem: Internet Archive

Não se encontravam nem belezas arquitetônicas, nem qualquer outra maravilha de arte. Mas tudo respirava piedade e recordava as virtudes heróicas dos nossos mártires.

Vale de Rosal, um corredor interior após o incendio.
Imagem: Internet Archive

A capela tinha sido cuidadosamente restaurada. O retábulo de madeira do altar-mor que representava a Assunção da Santa Virgem, era obra, acreditava-se, de um dos bem-aventurados companheiros abençoados Inácio de Azevedo.

Vale de Rosal, a capela após o incendio.
Imagem: Internet Archive

Admiravam a inspiração ingênua que nos transporta a esses tempos em que a arte cristã possuía ao mais alto nível, mesmo os artistas de talento inferior, a intuição das realidades sobrenaturais e vivas dos mistérios de Nosso Senhor e de sua Santa Mãe.

Vale de Rosal, o calvário.
Imagem: Internet Archive

Os azulejos que formavam a frente dos três altares foram a tinham a data de 1568. Tudo neste lugar abençoado merecia ter sido cconservado com veneração.

Vale de Rosal, o assalto ao calvário e derrube do cruzeiro, 5 de outubro de 1910.
Imagem: Internet Archive

Os professores do colégio de Campolide iam, no verão, passar em Val de Rosal quinze dias de férias. 

O povo das redondezas vivia, em grande parte, na mais crassa ignorância das verdades religiosas. Tal família, por exemplo, não fazia sequer baptizar os seus filhos, que cresciam sem nenhuma cultura.

Vale de Rosal, o calvário após o assalto.
Imagem: Internet Archive

Os lugares de Almada e Cacilhas, em particular, eram conhecidos pelo seu anticlericalismo e grosseiros insultos manifestados, à passagem, a qualquer eclesiástico [...] (1)


(1) Luís Gonzaga de Azevedo, Luís Gonzaga Cabral, pref., Proscrits, Tournai, Établissements Casterman, 1912

Versão portuguesa na Biblioteca Nacional de Portugal:
Luís Gonzaga de Azevedo, Luís Gonzaga Cabral, pref., Proscritos, Valladolid : Florencio de Lara, Editor, 1911-1914

Artigos relacionados:
Valderozal
A visita do sr. ministro
Freguesia de Caparica no século XIX

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Neo-realismos

Inspirado pelas teorias marxistas do materialismo histórico e dialéctico, divulgada nos meios políticos e intelectuais portugueses em meados dos anos 30, o movimento cultural do Neo-Realismo começa a desenhar-se a partir de importantes polémicas literárias então publicadas em periódicos como O Diabo, Sol Nascente e, alguns anos mais tarde, a revista Vértice, que afirmavam uma veemente oposição ao subjectivismo presencista, ao defenderem uma "arte útil" virada para os problemas reais da sociedade, fazendo assim a ruptura com o ideário romântico e positivista do século XIX.

Revista Vértice, 258, ilustração Manuel Ribeiro de Pavia, 1965.

Na verdade, as condições político-sociais de uma década marcada não só pela crescente oposição entre fascismo e comunismo, como pelos ecos de sofrimento da Guerra Civil Espanhola e o início da II Guerra Mundial, exigiam a uma nova geração de escritores maior intervenção cívica e cultural, solidarizando-se desde logo com os desígnios progressistas da esquerda europeia, desde a Revolução Russa à Front Populaire, em França, ou à defesa da ética republicana, em Espanha. (1)

Baseado no conto de João Rodrigues de Freitas "Os Meninos Milionários", Aniki-Bóbó [1942] foi um ousado tiro alegórico de Manuel de Olivieira a Salazar o ditador de Portugal. Ridicularizado no tempo do seu lançamento por descrever a infância como um difícil e assustador campo minado,  para ser negociado: pleno de enganos, crueldade e manipulação.

Aniki-Bóbó, Manuel de Oliveira, 1942.
Imagem: El cine y otras catastrofes

Apenas em retrospectiva o valor do Aniki-Bóbó é devidamente apreciado e o seu lugar reconhecido como uma pedra de fundação do movimento italiano Neo-realista. Oliveira conseguiu com sucesso subverter a sua mensagem, em que as figuras de autoridade adulta são as não confiáveis​​, aquelas sem contato com os acontecimentos reais.

in filmuforia

Centremos agora em Romeu Correia duas escassas palavras sobre o teatro neo-realista.

Tendo ensaiado os primeiros passos nos tablados populares da nossa primeira região industrial — a margem sul do Tejo —, Romeu Correia conseguiu exprimir os conflitos sociais integrando-os no que há de ritual poético no melhor teatro. [...]

As suas peças inserem-se, quase letra a letra, na direcção que Ernst Fischer apontou assim: "É verdade que a função essencial da arte para os que estão destinados a transformar o mundo não é a de fazer mágica, e sim a de esclarecer e incitar à acção; mas é igualmente verdade que um resíduo mágico na arte não pode ser inteiramente eliminado, uma vez que sem este resíduo provindo da sua natureza original a arte deixa de ser arte." [...] (2)

Nos fins de Setembro de 1961 eu e o Romeu Correia estamos em Cacilhas, num tasco à beira-rio. Ali, no Cais do Ginjal. Ao longe, Lisboa entornada sobre todas as colinas da margem oposta. 

Romeu Correia no miradouro Luís de Queirós ou Boca do Vento.
Imagem: Wikipédia

Em 1982, no seu romance O Tritão, Romeu escreverá:

"Que imenso é o rio Tejo, essa massa de água de tantas e inesperadas cores e rebeldias, habitado por peixes e mistérios sem fim que maravilhara desde sempre o meu entendimento! Rio generoso, rio velhaco, ora a correr para a barra, ora a subir para a nascente, consoante o capricho das marés."

E em 1947, no Sábado sem Sol, evocara a fábrica de gelo para os frigoríficos de bordo, com aquela ponte em cimento tracejada de rails para vagonetas... Também o relógio da torre, em Almada, e as cinco badaladas no bronze do sino, logo o apito para a saída do pessoal da Companhia Portuguesa de Pesca.

— Romeu, para ti, na literatura portuguesa quais são as melhores obras de ficção?

— Para mim são As Novelas do Minho e o Amor de Perdição, do Camilo; o Primo Basílio e Os Maias, do Eça; a Maria Adelaide, do Teixeira Gomes; as Terras do Demo, do Aquilino; os Bichos e a Montanha, do Torga; A Curva da Estrada do Ferreira de Castro; a Fanga do Redol; Onde A Noite Se Acaba do Miguéis; os Retalhos da Vida de um Médico do Namora; a Prisão do Domingos Monteiro e a Sedução, do Marmelo e Silva.

Ferreira de Castro na Cooperativa de Consumo Piedense, 1964.
Imagem: Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

— E o que há de comum entre todas essas obras? Ou seja: o que é que diferencia a ficção portuguesa das outras ficções?

— Na nossa literatura espalha-se a fibra romântica, a inclinação melancólica, saudosista, passadista, e a centelha irónica, sarcástica, inconforme e revoltada que caracterizam o homem português. 

Capa do livro de Romeu Correia, Gandaia.
Ilustração Manuel Ribeiro de Pavia.

Subjectivismo lírico e realismo irónico ou irreverente, são as duas constantes da literatura nacional.

Capa do livro de Romeu Correia, Calamento.
Ilustração Manuel Ribeiro de Pavia.

— Mas qual a corrente que melhor vingou nos nossos dias?

— A grande, impetuosa e invencível corrente que vem do naturalismo, que triunfa no realismo e dá o neo-realismo.

— Mas tu não achas que em Portugal o realismo e o neo-realismo estão em crise?

— Não há crise. Nunca houve um movimento assim pujante na ficção portuguesa. Apesar de tudo — e esse tudo é muito — os neo-realistas são a maioria e a maioria dos melhores. [...] (3)

Esta morte, assim sem mais nem menos, que um amigo me comunica, entala-se-me na garganta.

Manuel Ribeiro de Pavia (1910 - 1957).
Imagem: Poet'anarquista

"Morreu o Manuel Ribeiro de Pavia. Levou-o uma pneumonia que o foi encontrar depauperado por uma vida quase de miséria. Passava fome! Tinha uma única camisa! Não pagava o quarto há imenso tempo! E nós a falarmos-lhe de poesia..."


Capa do livro de Alexandre Cabral, Fonte da Telha.
Ilustração Manuel Ribeiro de Pavia.

Assim é: passava realmente fome. Todos nós o sabíamos.

E ele a falar-nos de pintura, de poesia, da dignificação da vida. É justamente nisto que residia a sua grandeza. Não falava da sua fome — de que, feitas bem as contas, veio a morrer.

A fome não consta de nenhum epitáfio
.

Pescadores e Varinas, Manuel Ribeiro de Pavia.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

in Andrade, Eugénio de, Os Afluentes do Silêncio
A contribuição marxista para a deturpação da cultura portuguesa foi feita através de uma organização de escritores, jornalistas, professores e editores que recebeu a designação, primeiro, de "novo humanismo" (cujas manifestações foram coligidas num livro que se deixou esquecer, Por um Novo Humanismo, da autoria de Rodrigo Soares, pseudónimo de um professor da Universidade de Coimbra) e, depois, de "neo-realismo" [...]

Em 1938, aparecia nas livrarias um romance com o título de Marés. Era o primeiro romance de Alves Redol e, viria a saber-se mais tarde, a primeira manifestação do neo-realismo. A fotografia do autor, de perfil e de boina, passou a figurar em todos os jornais e em todas as montras [...]

Alves Redol (1911 - 1969).

Alves Redol era de Vila Franca de Xira e em Vila Franca de Xira escrevia sobre os rurais e os operários desse subúrbio lisboeta. Ali vivera seus anos de infância e adolescência, a admirar toureiros, touros e grandes lavradores. Dessa admiração, e também do ressentimento socializante que ele deixa nas pequenas almas, deixou os sinais no melhor romance que conseguiria escrever: Barranco de Cegos.

Alves Redol na biblioteca da Cooperativa de Consumo Piedense, década de 1960.
Imagem: Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

De Alhandra, ao lado de Vila Franca, veio a segunda manifestação neo-realista: a de Soeiro Pereira Gomes, autor de Esteiros, romance da borda d'água inspirado pelo Jorge Amado dos Capitães da Areia e, sobretudo, pelo William Wyler de As Ruas de Nova Iorque. Pereira Gomes era cunhado de Casais Monteiro e, penetrado da atmosfera proletária, fabril e socialista dos ambientes onde estava empregado, adoptava, como Alves Redol, uma atitude humilde e simpática perante os altos valores literários que o seu cunhado, discípulo de Leonardo Coimbra, presencista e cosmopolista, então representava [...]

Capa do livro de Alves Redol, Gaibéus.
Ilustração Manuel Ribeiro de Pavia.

O neo-realismo, entretanto, absorvido A. Redol no patronato industrial e fugido Pereira Gomes em Inglaterra, transferia-se de Vila Franca para Coimbra e caía nos braços de estudantes, bacharéis e doutores. 

Sem ainda terem feito coisa nenhuma, anunciavam, em sueltos que espalhavam por todas as folhas de imprensa da província, uma grandiosa e definitiva obra cultural, intelectual e artística, um "movimento cultural-político único na história do nosso país" [...]

Os literatos de Lisboa, mais "naturais" e urbanos, sem aquele arrebatamento que a província filtrada por Coimbra dá aos triunfadores, rendiam-se aos bárbaros já instalados na direcção das editoriais mais conspícuas e conservadoras e na presidência das colunas dos jornais mais reaccionários: ou se lhes entregavam logo arvorando o rótulo de socialistas, como Urbano Tavares Rodrigues; ou largavam a correr as salas da Mocidade Portuguesa para confessarem eternas fidelidades neo-realistas, como Luís Francisco Rebelo; ou identificavam, como Romeu Correia, o seu populismo cacilheiro e ingénuo com a segura doutrina dos novos doutores de Coimbra [...] (4)


(1) Museu do Neorrealismo

(2) Mário Sacramento: Há uma estética neo-realista?

(3) Vidas Lusófonas: Romeu Correia

(4) Orlando Vitorino: A Grande Deturpação (iii)


Informação relacionada:

Almanak Silva

Literatura neo-realista e ilustração

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Moinho do Mesquitela

Designava-se por Mesquitela o moinho de maré e respectiva caldeira, situados entre a Mutela e o Caramujo.

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso (editada), 1892.
Referencia: Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial
Imagem: Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes

Mais precisamente, a caldeira ocupava o espaço hoje tomado pelo ultimo quarteirão do lado nascente da rua Manuel Febrero, ficando o Moinho sobre a actual avenida Aliança Povo M.F.A..

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal, José Maria das Neves Costa, 1813 (detalhe)
Imagem: Instituto Geográfico do Exército


A sul da caldeira ficavam as valas alimentadas pelas águas do ribeiro da Mutela (o que corre pelo vale de Mourelos) e pelas águas de maré. 

A passagem entre as valas e a caldeira era "a ponte", nome que ainda hoje é lembrado.

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Imagem: Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos *

Desde o século XVII, e até fins do século XVII, moinho e caldeira diziam-se dos Costas, por pertencerem aos Costas, armeiros mores do reino.
O moinho de maré só funcionava na vazante. Nas enchentes os três rodízios estavam parados, e a comporta abria com a força da água que entrava na caldeira.
A água da caldeira mantinha-se represada, aguardando o período da vazante para que os rodízios se colocassem em movimento. Abertos os acessos aos rodízios, estes giravam produzindo energia para as mós triturarem os cereais.

in Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

O moinho de maré da Mutela já existia pelo menos no século XV, com base numa carta de venda datada de 1497, de umas casas e marinhas na praia da Mutela [...]

in Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.


5
Barcos dos Moinhos
Barques elles transportent des molins de l'autre côté
de l'eau les farines pour la Ville
Imagem: Souza, João de, Caderno de Todos os Barcos do Tejo, Sociedade de José Fonseca, 1785
Passaram a designar-se por Mesquitela após a atribuição em 1787 do Título de Visconde de Mesquitela ao Armeiro-Mor D. José Francisco da Costa e Sousa, que casara coma filha primogénita e herdeira do 1.° Visconde de Mesquitela.

Em 1883 o inglês Jorge Taylor, maquinista da moagem do caramujo, aforou aos Mesquitela a caldeira e terrenos vizinhos. 

Este mesmo Jorge Taylor, em 1907, fez doação de parte da propriedade ao seu patrão, António José Gomes, o industrial da moagem do Caramujo, recebendo em troca uma pensão de 10.000 réis por mês.
Quando em 1907 Jorge Taylor fez doação da propriedade, declarou na escritura que trabalhava na moagem havia mais de quarenta anos.
Sendo ele o conductor da máquina a vapor da moagem muito provávelmente desde a instalação, conclui-se que a moagem dispunha da máquina desde cerca de 1866.
A propriedade, cedida a António José Gomes, destinava-se, em parte, à construção da escola primária.

 A escola, a primeira que teve a Cova da Piedade, foi inaugura da em 1911, e tem o nome de António José Gomes, então já falecido.

Escola Primária António José Gomes, inaugurada em 1911, projecto do arquitecto Adães Bermudes.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial

A caldeira e o moinho estavam em 1910 na posse de Manuel de Jesus Silva que pagava 50.000 réis de foro aos herdeiros do conde de Vila Franca; depois, cerca de 1911, foram arrendados ao industrial José Alves da Silva, por nove anos.

A caldeira desapareceu, por entulhamento, cerca de 1920 e o moinho foi demolido quando se abriu a estrada de Cacilhas à Cova da Piedade [a partir de 1947]. (1)

O Tejo em frente do Caramujo, Revista Illustrada, fotografia de A. Lamarcão, gravura de A. Pedroso, 1892.
Referencia: Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial
Imagem: Fernandes, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes



(1) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Leitura adicional:

Toscano, Maria da Conceição da Costa Almeida, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial, Vol I , Lisboa, Universidade Aberta, 2012, 16.37 MB.


Fernandes
, Samuel Roda, Fábrica de molienda António José Gomes, Lisboa, Universidade Lusíada, 2013.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

Estradas Real 79, Distrital 156 e outras vias

[...] nenhum carreiro desta vila assim como do seu termo passe com o seu carro carregado, nem vazio pela calçada de Mutella e São Simão, salvo quando fizerem tão notaveis atolleiros que não possão hir por outra parte  [...]

Fountain at village outside Lisbon (Mutela?), 1906.
Imagem: Ecomuseu Municipal do Seixal

[...] quem tiver vinhas e herdades que entestarem nos caminhos do concelho que fação as testadas dos seus valados e cortem os seus silvados e mattos de maneira que os caminhos sejam livres e dezempachados [...]

[...] os caminhos do concelho, e nos vallados das ditas havia muntos mattos silvados de maneira que tapão os caminhos e o sujão de maneira que não podem andar neles [...] (1)


A topographical chart of the entrance of the river Tagus (detalhe), W. Chapman, 1806.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A situação de Portugal nesta epocha [1807] era bem lastimosa; não havia estradas; o estado dos caminhos, em geral, mau ou pésssimo, tinha-se tornado perigoso pelo rigoroso inverno; chuvas copiosas, tresbordo de rios e ribeiras, grandes innundações haviam assolado o paiz, tornando difficil, penosa e arriscada a marcha das tropas; (2)

Carta militar das principaes estradas de Portugal (detalhe), Lourenço Homem da Cunha de Eça, 1808.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

 A cituação e a commodidade que offerece o porto de Cassilhas de toda a hora se encontrar maré, condição unica que não acha nos outros portos da margem esquerda do Tejo

Lisboa, Vista tomada de Cacilhas, ed. Martins/Martins & Silva, 7124, década de 1900
Imagem: Delcampe

fariam da Villa de Almada hum ponto mais interessante para a circulação do commércio interior do Alentejo do que Mouta ou mesmo Aldea Gallega, 

Carta chorographica dos terrenos em volta de Lisboa  (detalhe), 1814.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

se as estradas fossem melhores, ou antes se houvessem estradas de comunicação, pois que passado o recinto da Villa, os caminhos para toda a parte são pessimos, não offerecem senão estorvo ao transporte, por serem antes trilhos do que estradas reais. (3)

Lisbonne son port, ses rades et ses environs avec une petite carte routière du Portugal (detalhe), 1833.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

[...] no Diccionario Chorographico publicado em 1878, Agostinho Rodrigues de Andrade estabelece uma classificação das diferentes vias.

Assim, são de primeira ordem as estradas reais (de primeira e segunda classe), enquanto nas de segunda ordem inclui os caminhos municipais e vicinais.

No concelho de Almada este autor identifica estradas de segunda ordem que ligam a vila a Sesimbra à Trafaria e esta à Costa. 

Trafaria, Estrada da Costa, ed. Manuel Henriques, 16, década de 1900.
Imagem: Delcampe

Já no Seixal, apenas refere a estrada que liga a povoação a Sesimbra passando pela Arrentela.

Companhia de laníficios da Arrentela, desenho Nogueira da Silva, gravura João Pedroso,  1858.
Referências: Lugares do concelho do Seixal, Restos de colecção 
Imagem: Hemeroteca Digital

Embora se concentre na freguesia de Caparica, a obra de Vieira Júnior, datada de 1897, refere diversas vias de comunicação, designando estradas reais e distritais. azinhagas e caminhos. sem no entanto as caracterizar.

Identifica como real a já referida estrada para a Trafaria, passando pelos lugares de Casas Velhas, Torrinha, Costas de Cão, Cova, Pêra e Valle de Meirinho.

Referindo as estradas distritais, o autor salienta a que atravessa a Chameca vinda do Arieiro como: "sendo esta o melhor lanço de estrada que existe em todo o concelho de AImada", de onde também parte a estrada para a Costa.

A caminho da Costa da Caparica, João José Penha Lopes, 1921.
Imagem:Arquivo Municipal de Lisboa

No lugar da Torre entroncam as estradas que conduzem a Almada, à Charneca, ao Porto Brandão e à Trafaria.

No vale da Sobreda passa, segundo o mesmo texto, um caminho que conduz à estrada real, passando em Casas Velhas. 

De Murfacém saem para a Trafaria "dois caminhos principaes, a estrada velha e o moderno accrescente da estrada districtal".

Por último, são ainda registadas duas azinhagas, uma "que do Salgado vae á Seixeira, Silveira, Urraca, e Ginjal (Monte), até ao Bicheiro pela estrada real" e outra "de Poçolos ao sitio das Casas Velhas, pelo caminho a da 'Formiga',  se volta ao 'Monte' propriamente dito". (4)


Em 1862, a rede de estradas existente e projectada é classificada em 1.ª classe, estradas reais (com origem directa ou indirecta — travessias fluviais p. ex. — em Lisboa), 2.ª classe, estradas distritais, e estradas municipais, estas últimas geridas pelos munícipios.


Estudo, construção, reparação e conservação das
estradas ordinárias, Escola do Exército, 1897 — 1898

Com a abolição da monarquia em 1910, as estradas Reais foram renomeadas estradas nacionais.


Corpo do Estado Maior do Exército, assinaladas a Estrada Distrital 156 e a Estrada Real 79, 1902.
Imagem: IGeoE

Em 1913, as estradas distritais foram também renomeadas estradas nacionais. (5)


(1) Posturas da Câmara Municipal de Almada, 1750, referenciado e documentado em Silva, Francisco Manuel Valadares e, Ruralidade em Almada e Seixal nos séculos XVIII e XIX, Imagem, Paisagem e Memória, Lisboa, Universidade Aberta, 2008, 271 págs.

(2) Fonseca Benevides, Francisco, No tempo dos francezes, Lisboa, A Editora, 1908, 319 págs.

(3) AHMOP, Memoria Económica da Vila d'Almada, e seu Termo, 1835, referenciado e documentado em Silva, Francisco Manuel Valadares e, Ruralidade em Almada e Seixal nos séculos XVIII e XIX, Imagem, Paisagem e Memória, Lisboa, Universidade Aberta, 2008, 271 págs.

(4) Silva, Francisco Manuel Valadares e, Ruralidade em Almada e Seixal nos séculos XVIII e XIX, Imagem, Paisagem e Memória, Lisboa, Universidade Aberta, 2008, 271 págs.

(5) Fonte: Wikipédia


Referências:

Andrade, Agostinho Rodrigues de, Dicionário corográfico do reino de Portugal, Coimbra, Imp. da Universidade, 1878, 254 págs.

Júnior, Duarte Joaquim Vieira, Villa e termo de Almada: apontamentos antigos e modernos para a história do concelho, Typographia Lucas, Lisboa, 1896.