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segunda-feira, 7 de maio de 2018

Cella Nova, Senhora da Rosa de Caparica

Alferrara e Mendoliva constituíam, com o lugar de Barriga, ou Cela Nova (futuro mosteiro de Nossa Senhora da Rosa da Caparica), um núcleo de eremitérios fundados em torno das vilas de Almada, Palmela e Setúbal, numa zona de forte presença santiaguista e com o apoio régio e dos mestres da Ordem. 

Nossa Senhora da Rosa com o Menino (detalhe), séc. XVI.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Sitos em território da diocese olisiponense, acabariam, todos eles, por ser anexados ao mosteiro do Santíssimo Sacramento de Lisboa, fundado nessa cidade em 1647 e posteriormente escolhido como nova sede da Província dos Paulistas. 

Com a extinção das casas de Alferrara e de Nossa Senhora da Rosa da Caparica, já concluída em 1813, os cartórios de todos os eremitérios acima referidos acabariam assim por migrar para Lisboa e, após 1834, com o arquivo desta casa, viriam a transitar para a Torre do Tombo [...]

Nossa Senhora da Rosa com o Menino, séc. XV.
Imagem: Wikipédia

Filho de Mestre Joane [Fernando, regedor, a. 1433-1463 (Barriga — Cela Nova)], físico do Infante D. João, apresenta-se a si mesmo, em 1445, como "pobre Jrmjtam da Jrmjndade e companhia de Meem de sseaura pobre Ja finado".

Companheiro, pois, de Mendo Seabra, ingressou na pobre vida ainda antes de 1433, dado que, após a morte de João Fernandes, regedor da Serra de Ossa, ocorrida necessariamente antes desta data, é a ele quem o dito Mendo envia para reger o eremitério de Barriga, que este entretanto reedificara.

Sabemos que Mendo Seabra manteve, até à sua morte, o governo de Mendoliva e a supervisão sobre os eremitérios de Barriga ou Cela Nova e de Alferrara, colocando aí eremitas da sua confiança.

Santo Antão e S. Paulo 1.o Ermita, Mestre dos Arcos,
(Gregório Lopes ?).
Imagem: MNAA

Na eminência da sua morte (1442), nomeara para o suceder, com os mesmos poderes, ao eremita João Eanes, a quem também o regedor de Cela Nova manifestou a sua obediência, atestada no diploma que para o efeito manda redigir em Setúbal a 29 de Setembro de 1445. 

Pelo mesmo documento, procurava ainda garantir o reconhecimento de todos os bens que lhe haviam sido anteriormente doados como pertencentes ao conjunto da comunidade. 

Para isso inclui no mesmo acto o traslado de uma anterior doação que lhe fora feita, ainda em 1442 mas já após a morte de Mendo Seabra, de chãos, casas e outros bens no dito lugar de Barriga, renunciando expressamente a todo o direito pessoal sobre os mesmos [....] (1)

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A vila de Almada encontrava-se, desde 1385, entre as terras doadas ao Condestável, com a respectiva jurisdição, mantendo, contudo, a Ordem de Santiago os seus direitos de padroado sobre as igrejas da urbe, na sequência do escambo estabelecido com o rei Dinis em 1297. 

Em Maio de 1422, Nuno Álvares Pereira doaria a vila e os respectivos direitos jurisdicionais à sua neta Isabel, futura mulher do Infante D. João, administrador do mestrado santiaguista.

Em 1527, uma visitação feita pelos oficiais da Ordem de Santiago revela a existência, neste local, de uma ermida, que aparentava obras recentes e com algum investimento ao nível dos materiais construtivos e decorativos, das pinturas, imagens e alfaias.

De nave única, embora com dois altares laterais, dispunha ainda de uma torre sineira, pia baptismal e alpendre. Anexa, refere-se a existência de uma sacristia e de estruturas de habitação para os pobres, rodeadas por uma vinha e pomar.

Apesar dos dados disponíveis confirmarem o apoio recebido posteriormente por parte de importantes membros da nobreza, nada se conhece sobre eventuais reconstruções ou ampliações do mosteiro, sabendo-se que este manteve sempre uma comunidade de pequenas dimensões.

Extinção: c. 1813, sendo as respectivas rendas anexadas ao Mosteiro do Santíssimo Sacramento de Lisboa.

The environs and harbour of Lisbon (assinalam-se o mosteiro e a ribeira), Laurie & James, publ. 1812.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Vestígios materiais do eremitério medieval: A igreja do mosteiro já se encontrava em completo estado de ruína e abandono em finais do século XIX, sobrevivendo hoje apenas alguns vestígios arquitectónicos integrados em casas particulares. (2)

Em 1834, no âmbito da "Reforma geral eclesiástica" empreendida pelo Ministro e Secretário de Estado, Joaquim António de Aguiar, executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837), pelo Decreto de 30 de Maio, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as de religiosas, sujeitas aos respectivos bispos, até à morte da última freira, data do encerramento definitivo.

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813
Imagem: IGeoE

Os bens foram incorporados nos Próprios da Fazenda Nacional. (3)

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Notas:
Cela Nova (Termo de Almada)
Designação:
1. Barriga (termo de Almada) [Termo documentado pela primeira vez em 1414 (cf. TT, Mosteiro de Nossa Senhora da Rosa da Caparica, maço 2 de pergaminhos, nº 30 [antigo maço 1, nº 1] (1414.12.10, Almada). Pressupõe que o eremitério já existia nessa data, aproximando-se da data de 1410 proposta pela cronística moderna da Ordem para a fundação do eremitério (cf. Fr. Manuel de S. Caetano Damásio, Thebaida Portuguesa…, tomo I, p. 325).), é utilizado paralelamente com o de Cela Nova.]
2. Cela Nova (termo de Almada) [Assim referido por Mendo Seabra em 1442 (TT, Mosteiro de Nossa Senhora da Consolação de Alferrara, maço 3, nº 17). Ao longo do período medieval, é utilizado paralelamente com o de Barriga para designar este eremitério.]
3. Vale de Grou (termo de Palmela [sic]) [O topónimo surge em duas cartas régias, de 1451 e 1455, na última referindo-se pertencer ao termo de Palmela (TT, Chancelaria de D. Afonso V, lv. 35, fl. 93v e lv. 15, fl. 183). Contudo, o topónimo pertence efectivamente ao concelho de Almada e à freguesia da Caparica, respeitando os documentos referidos ao eremita Fernando (III) que dirige o eremitério de Cela Nova entre a. 1433 e 1463 (cf. parte II, B 96).]
4. Santa Maria de Barriga (termo de Almada) [TT, Leitura Nova, Odiana, lv. 3, fls. 145v-146 (1457.03.03, Lisboa).]
5. Santa Maria da Rosa (termo de Almada) [Já aparece com a referência a Santa Maria da Rosa em 1511 - TT, Mosteiro de Nossa Senhora da Rosa da Caparica, maço 2 de pergaminhos, nº 35 [antigo maço 1, nº 33] (1511.06.11, Borba).] (4)


(1) João Luís Inglês Fontes, Da "Pobre vida" à congregação da serra de ossa..., 2012
(2) João Luís Inglês Fontes, Idem
(3) Arquivo Nacional Torre do Tombo
(4) João Luís Inglês Fontes, Idem, ibidem

Mais informação:
Chronica dos Erémitas da Serra de Ossa, no reyno de Portugal...
Santuario Mariano e Historia das Imagēs milagrosas de Nossa Senhora...
Chorographia moderna do reino de Portugal...
Corografia Portugueza e descripçam topografica...
Portugal antigo e moderno...

Informação relacionada:
Histórias da História da Charneca de Caparica
Mosteiro da Rosa na revista ARTIS

domingo, 14 de maio de 2017

Cronologia do Convento dos Capuchos (Caparica)

1558 - fundação e construção do convento com invocação a Nossa Senhora da Piedade, integrado na Ordem dos Franciscanos Arrábidos, ordenada por D. Lourenço Pires de Távora (1510-1573), da família nobre dos Távora, 4º senhor da Casa e Morgado da Caparica, nascido em Almada, homem de armas e diplomata ao serviço de Portugal, que passa a ser seu padroeiro; 

Mapa de Portugal, Mosteiro da deceda, Convento dos capuchos Fernando Álvares Seco, 1561
Imagem: Wikimedia Commons (detalhe)

a construção é de linhas simples, com as celas nos sobrados e as restantes dependências na parte inferior, nas traseiras da igreja; construção de uma ermida, na cerca do convento, de invocação ao Apóstolo São Pedro, para as orações particulares dos religiosos; a comunidade religiosa é protegida pelos padroeiros do convento, donos das quintas da região e pelo próprio rei D. Sebastião que concede aos freires o privilégio de se abastecerem de lenha dos seus pinhais de Caparica;

1560 - o papa Pio IV concede ao altar-mor as mesmas indulgências de que usufruíam as igrejas de São Gregório de Roma e de São Sebastião de extra-muros da mesma cidade;

1573 - falecimento do instituidor do convento que, cinco semanas antes da sua morte, se tinha recolhido nele; A lápide da sepultura da capela-mor tem a inscrição "SEPULTURA DE LOURENÇO PIRES DE / TAVORA DO CONSELHO DO ESTADO DEL- / REI D. SEBASTIAO O I DESTE NOME INS- / TITUIDOR E PADROEIRO DESTA CASA. / FALECEU DE IDADE DE 63 ANOS A / 15 DE FEVEREIRO NO ANO DE 1573 / AVENDO CINCO SEMANAS Q. DESCANSAVA / EM SUA CASA DE MUITOS SERVIÇOS Q. FEZ A ESTE REINO NA PAZ E NA GUER- / RA E NA ASIA AFRICA E EUROPA".

Zee Caerte van Portugal Daer inne Begrepen de vermaerde Coopstadt van Lisbone, Lucas Janszoon Waghenaer, 1586.
Imagem: Wildernis

1618 - renovação dos dormitórios;

Pascaarte vande Zeecusten van Portugal tusschen de Barlenges en de C. de S. Vincente geleghen, W. J. Blaeu, 1612.
Imagem: Vlaams Instituut voor de Zee

1630 - obras de ampliação e beneficiação com re-edificação do imóvel, provavelmente incluindo a fachada principal, com acrescento do coro-alto e do nártex com uma serliana e que, para além do símbolo dos Franciscanos e das armas dos Távoras, passa a ter duas janelas laterais e, ao centro, um nicho; revestimento do nártex com azulejos e feitura do púlpito da igreja, da responsabilidade do Provincial Frei Lourenço da Madre Deus;

El Atlas del Rey Planeta (detalhe), Pedro Teixeira, 1634
Imagem: La descripción de España y de las costas y puertos de sus reinos

1755, 01 novembro - terramoto causa grave destruição do convento, à exceção da frontaria;

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes, Jacques Nicolas Bellin, 1756.
Imagem: O Mundo do Livro

Séc. 18 - é padroeiro do convento José Menezes Távora;

Mappas das provincias de Portugal novamente abertos e estampados em Lisboa, João Silvério Carpinetti, 1769.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1778 - data inscrita no painel de azulejos do portal de acesso ao jardim sobrelevado da cerca;

1779 - os frades passam a assegurar uma "escola de ler, escrever e contar" onde afluem jovens das aldeias vizinhas;

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813
Imagem: IGeoE

1834 - extinção das Ordens religiosas e sequente declínio do convento e desaparecimento dos azulejos do nártex; residem, então, no convento, apenas 9 frades, passando a tutela para a responsabilidade do Juiz do Povo da Freguesia; supressão do convento devido ao baixo número de frades residentes e a ter sido considerado inútil;

Um frade franciscano e um irmão laico antes da abolição da sua Ordem, c. 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

1872 - nacionalização dos bens do convento;

Sécs. 19 - 20 - sofre longas vicissitudes que levam à ruína da ermida de São Pedro juntamente com o convento, ficando apenas alguns vestígios, que possibilitam o posterior levantamento das paredes deste, no mesmo local; é ocupado, ao longo dos anos, por pastores e agricultores da região com pastagens nas imediações, tendo passado por várias transmissões;

Caparica, Convento dos Capuchos, década de 1900.
Imagem: Hemeroteca Digital

1925 - desaparecimento dos azulejos da igreja;

A Praia do Sol, Panorama dos Capuchos, ed. Acção Bíblica/Casa da Bíblia, 107, década de 1930.
Imagem: Delcampe, Bosspostcard

1950 - compra de toda a parte rústica e urbana da propriedade do antigo convento dos Capuchos, pela Câmara Municipal de Almada ao então proprietário Virgílio Alves Xavier;

Costa da Caparica, Convento dos capuchos antes da restauração, ed. Passaporte, 30, c. 1950
Imagem: Delcampe, Oliveira

1952 - data das imagens do interior da igreja e da talha dourada do altar, oferecidos pelo Dr. João Couto, então Diretor do Museu Nacional de Arte Antiga;

Caparica,, Convento dos Capuchos, década de 1950.
Imagem: Delcampe

1952, 18 outubro - regresso das ossadas do instituidor e padroeiro do convento e seu sepultamento à entrada da capela-mor;

Costa da Caparica, Almada, Miradouro dos Capuchos e Caparica
Ed. Passaporte, 30

1960 - 1970, décadas - construções nos jardins, época de imagens de santos e outras obras expostas, resultado de ofertas provenientes de monumentos demolidos de Almada e Lisboa, tendo algumas obras sido realizadas por mestre de obras e pedreiros;

Miradouro do Convento dos Capuchos, ed. Passaporte, 57, 1966
Imagem: Delcampe

1982 - data inscrita sobre um dos arcos do miradouro recente, possivelmente assinalando a sua construção;

1984 - elaboração de um convénio entre o Museu Municipal de Almada e o Centro de Arqueologia de Almada; início da fase de estruturação e instalação no convento do Museu Municipal de Almada;

2000, 13 maio - assinatura do auto de consignação que marca o início das obras de restauro, consolidação e ampliação do convento;

Caparica, Convento dos Capuchos,
Painel de azulejos, Nossa Senhora da Boa Viagem.

2000 - início da requalificação do convento pela Câmara Municipal de Almada. (1)


(1) Albertina Belo, SIPA, 2001

Artigos relacionados:
Quinta Távora e Mosteiro da deceda
A Costa romântica de Bulhão Pato

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Luctas caseiras

Passos Manuel, durante os trabalhos das Cortes de 1821 reunidas no Palácio das Necessidades, que aprovariam a primeira Constituição Portuguesa. Pintura de Veloso Salgado, que decora o interior da Sala das Sessões do Parlamento.
Imagem: Assembleia da República

ADVERTÊNCIA PRELIMINAR

Devia comprehender um volume o trabalho de investigação historica a que demos o titulo de Luctas caseiras. Os materiaes, porém, reunidos sobre a epocha que nos propozemos historiar são tantos e tão valiosos, que impossivel foi incluir n'elle só a narração dos acontecimentos politicos de que Portugal foi testemunha de 1834 a 1851 [...]

Lisboa, Praça do Rossio no dia 1 de outubro de 1820. Entrada solene da Junta Provisória do Porto.
Imagem: Histórias com História

INDICE ANALYTICO 

Introducção (pag. ix a clxxvi)

Revolução de 21 de agosto de 1820 — Installa-se no Porto uma junta provisória — Primeiras desintelligencias entre os seus membros — Drago Cabreira e Silva Carvalho — Fustão em Alcobaça da junta do Porto com a de Lisboa — Partido militar — Suas aspirações e fins — Projectos de revolução — Acontecimentos do dia 11 de novembro — Proclamação de Gaspar Teixeira e ordem do dia de Pereira Sampaio — Alliança momentânea de ultra-liberaes e absolutistas — O partido militar triumphante, mas não vencedor — O governo cede ás suas imposições, mas a população de Lisboa protesta, e tudo volta ao estado anterior — Radica-se a divergência entre os homens da revolução — Eleições — Memoria sobre a abstenção das chamadas classes privilegiadas — Congresso constituinte — Nomeação da regência — Opiniões politicas que predominavam no congresso — Muitos dos que alli se apresentaram como liberaes exaltados tornaram-se depois em ullra-conservadores — Impressão que na corte do Rio de Janeiro produz a noticia da revolução do Porto — Conselhos sensatos do conde de Palmella a D. João VI, que só uma revolução no Brazil obriga a acceitar a nova ordem de cousas eslabelecida em Portugal — Regresso de D. João VI á Europa — É vedado por ordem do congresso o desembarque em Lisboa a algumas das pessoas que o acompanhavam — Jura o rei perante o congresso as bases da nova constituição — Descontentamento que produz no congresso o discurso lido por essa occasião em nome do mesmo rei — Novo ministério com que o congresso se declara logo em opposição, que dias depois provoca uma crise, e em seguida a demissão de todos os ministros — Ultima-se a discussão da constituição, a que a rainha se recusa a prestar juramento — Novo rumo politico que começa a tomar a maioria do congresso — O procedimento da rainha em se recusar a jurar a constituição é o signal do alarme para os inimigos d'esta saírem a campo — Procede-se á eleição dos deputados para as côrtes ordinárias, triumphando em quasi toda a parle o partido liberal — Aberta a camara fere-se logo batalha entre liberaes e conservadores — Pronuncios de revolução absolutista, a que não é estranha a rainha — Medidas de repressão tomadas pelo governo — Fins a que visava a revolução — A camara ao lado do governo — Revolução absolutista em Traz os Montes abortada — O infante D. Miguel sáe de Lisboa para Villa Franca com uma parte da guarnição de Lisboa — Motivo d'esta jornada — Augmenta o numero dos parciaes do infante, cujos desígnios de derrubar a constituição são conhecidos de todos — Plano occulto — O governo leva o rei a condenmar o procedimento do infante — Tibieza da maioria dos deputados e demissão do ministério — D. João VI adhere tambern á revolução, e segue do mesmo modo para Villa Franca — Protesto da camara dos deputados — D. Miguel nomeado commandante em chefe do exercito — Ministério Palmella-Subserra — Regresso do rei a Lisboa, e politica adoptada pelo novo ministério — Projectos mallogrados de nova revolução absolutista — Assassinato do marquez de Loulé — Successos do dia 30 de abril — D. João VI passa para bordo de uma nau ingleza de onde providenceia sobre vários assumptos de politica interna, e ordena a saida do infante D. Miguel para França — Diligencias infructiferas para que a rainha D. Carlota Joaquina saia de Portugal — O partido miguelista continua a conspirar — Receios infundados que ao governo infunde ao partido liberal — Falta de união entre os membros do governo — Approximação entre liberaes e moderados — Rasões que teve o governo para afastar da successão da coroa o infante D. Miguel — Queda do ministério PalmelIa-Subserra — Reconhecimento da independência do Brazil, e declaração de que o herdeiro da coroa era o príncipe D. Pedro de Alcântara — Conselho de regência nomeado por D. João VI, e morte do mesmo soberano — Partidos políticos existentes ao tempo em Portugal — Aclamação do novo rei — Outorga da Carla constitucional, e nomeação de pares — Abdicação que da coroa de Portugal faz D. Pedro — Esforços dos absolutistas para que D. Miguel regresse a Portugal, e reconhecimento que o mesmo faz da soberania do irmão — Má impressão que no paiz e fora d'elle produz a noticia da outorga da Carta — Indecisão do governo em dar cumprimento aos decretos de D. Pedro — Saldanha, obrigando o governo a fazer jurar a Carta, obtém um logar no ministério e a chefia do partido liberal — Absolutistas em armas — Saldanha, que marchara contra os revoltosos, é afastado pela doença da gerência da pasta da guerra — Eleição de deputados e abertura do parlamento — Sublevação absolutista em Traz os Montes — O governo reclama o auxilio de tropas inglezas — Opposição que encontram nas duas camarás alguns dos seus actos — Os absolutistas são batidos — Recomposição ministerial — A opposição ao governo do parlamento augmenta na ses- são ordinária — Desentelligeneias graves entre a camara electiva e a dos pares — Proposta apresentada n'aquella para se pedir a demissão do ministério — Decretos e ordens de D. Pedro que não são cumpridas — Decrela-se uma amnistia — Saldanha reassume a sua pasta e promove a queda do ministério — Novos ministros— D. Miguel chamado ao Rio de Janeiro por D. Pedro recusa-se a partir — Saldanha demitte-se de ministro da guerra — Manifestação de sympathia que lhe faz o povo de Lisboa, e que dias depois se repete no Porto — Alteração no ministério — Medidas de repressão tomadas pelo governo — D. Pedro, approvando o procedimento de Saldanha, faz com que a regente demitta dois dos ministros — D. Miguel é nomeado por D.Pedro seu logar-tenente em Portugal — Descontentamento que este facto produz no partido liberal, e enthusiasmo que disperta entre os absolutistas — D. Miguel saindo de Vienna para Portugal segue por França e Inglaterra — Falta de interesse que offerecem as sessões parlamentares — Desembarque em Lisboa de D. Miguel e seu juramento á Carta — Nomeia novos ministros e dissolve a camará dos deputados — Representações que lhe são dirigidas para que se faça aclamar rei — São convocados os antigos três estados — Muitos liberaes emigram, para Inglaterra — O corpo diplomático pede os seus passaportes — O partido liberal appella para a revolução, onde se levanta o primeiro grito, e corpos de linha que adheriram — Junta provisória organisada no Porto — Apreciação que da mesma fazem dois escriptores contemporâneos — Forças liberaes e absolutistas — D. Miguel procura debellar a revolta — Primeiros recontros — Delegação da junta do Porto em Coimbra — Retirada das forças constitucionaes — Chegada de Inglaterra ao Porto de differeiítes generaes do partido liberal — Falta de união entre os recem chegados — Palmella commandante em chefe do exercito constitucional — Desanimo no campo liberal — Saldanha, que acceitára substituir Palmella no commando em chefe, exonera-se do mesmo commando — Retirada para Hespanha do exercito constitucional — O partido absolutista abusando da sua vicloria — O marquez de Palmella chefe da emigração — Saldanhistas e palmellistas — Deposito de Plymouth — Revolução na Madeira — Soccorros enviados para ali por Palmella — carta que este dirige a D. Pedro, defendendo-se das accusações que lhe faziam os seus inimigos — Este documento e a defeza que depois publicaram os membros da junta do Porto provoca protestos vehementes por parte de Saldanha e de seus partidários — Saldanha chefe da opposição a Palmella — Dissolve-se o deposito de Plymouth — Queixas infundadas que isto provoca por parte dos emigrados — Palmella procura mandar soccorros para a Terceira — Expedição para a mesma ilha sob o commando de Saldanha — O governo da Terceira é confiado por Palmella ao conde de Villa Flor — Regência nomeada por D. Pedro — Falta de confiança que a mesma inspira — Carta de Silva Carvalho sobre o assumpto — Aggravam-se as desintelligencias ha muito existentes entre Saldaidia e Palmella — Inslalla-se a regência na Terceira — Tentativa de revolta contra ella — Chegada de D. Pedro á Europa, seu pensamento politico com relação aos negócios de Portugal — Principia a formar-se o, depois, chamado partido de D. Pedro — Rodrigo Pinto Pizarro — Da expedição organisada para vir sobre Portugal é excluído Saldanha c outros officiaes seus partidários — No Porto — Esforços empregados pelos saldanhistas para avinda do seu chefe — Mousinho da Silveira deixa a pasta da fazenda, em que é substituido por Silva Carvalho — José da Silva Carvalho c o seu tempo (nota) — Difficuldades que levanta aquella crise ministerial — Vinda de Saldanha, e incremento que com este fado toma o seu partido — O governo principia a receiar dos triumphos militares de Saldanha — Palmella, que estava no desagrado de D. Pedro, é indigitado pelos saldanhistas para chefe do governo — Tomada Lisboa muda-se para ali o theatro da lucta politica — D. Pedro chefe de partido  — Crise ministerial — Cartas de alguns membios da opposição a D. Pedro — Novo partido opposicionisla — Uma medida violenta do governo contra um membro da opposição ia provocando uma revolução — D. Pedro implora a neutralidade de Saldanha — O partido miguelista agonisante — Conselho de generaes em Évora sob a presidência de D. Miguel — O general miguelista Lemos propõe uma suspensão de armas, que é acceita — Concessão de Evora Monte, que não agrada nem aos liberaes, nem aos miguelistas — Tumultos no theatro de S. Carlos — Tentativa de assassinato contra D. Miguel — Embarque do mesmo em Sines — Protesto que publica á sua chegada a Génova — Victorias successivas alcançadas pela opposição no Porto — A camara de Lisboa manifesta-se abertamente contra a marcha politica do governo — A opposição augmenta de dia para dia — Trabalhos eleitoraes — Prisão do coronel Pizarro — Candidatura do mesmo Pizarro — Viagem do regente ao Porto — A opposição triumpha ali na eleição de deputados — Abertas as camarás principia logo uma lucta formidável entre a opposição e o governo — Discute-se e approva-se uma proposta para a continuação da regência — Pares do governo e pares da opposição — Projecto de lei para a rainha poder casar com príncipe estrangeiro — Propostas contra D. Miguel.

S.M.I. o Senhor D. Pedro restituindo sua Augusta Filha a Senhora
D. Maria Segunda e a Carta Constitucional aos Portugueses,
Nicolas-Eustache Maurin,1832.
Imagem: Wikipédia

CAPITULO I

1834-1835 (pag 1 a 179)

D. Pedro communica ás camarás que não pôde continuar a gerir os negócios públicos — O que motivou esta resolução — Projecto de uma regência— A rainha é declarada maior — Opposição que o projecto encontra na camara dos pares — Ultimo ministério de D. Pedro — Juramento da rainha — Como começa a exercer a soberania — Quem organisou o novo ministério — Morte de D. Pedro — Os novos ministros — Apresentação nas camaras do gabinete Palmella — Enterro do imperador — Projecto de responsabilidade ministerial apresentado pelo governo — Accusação da commissão de infracções sobre a nomeação de um presidente de conselho — Forças do governo e da opposição na camará electiva — Violência que adquirem os ataques da opposição — Iniciam-se os accordos — D. Miguel é banido para sempre de Portugal — Politica ministerial — A camará dos pares e a lei de liberdade de imprensa — O governo communica ás camaras que a rainha vae desposar o príncipe Augusto de Leuehtenberg — Rasões que houve para a escolha do noivo — Difficuldades por parte d'este em acceitar a mão da rainha — Condições inacceitaveis — Segredo que foi mister guardar sobre as negociações — A escolha do príncipe Augusto Leuehtenberg é bem recebida por todo o partido liberal — Dotação do príncipe e enxoval da rainha — Termina a sessão extraordinária do parlamento — Discurso de encerramento lido pela rainha — Reahre-se o parlamento, que logo é encerrado — Tentativas para attrahir Saldanha ao partido governamental — Reabertas novamente as camaras, a opposição inicia uma vigorosíssima campanha contra o governo — Mensagem de um grande numero de deputados pedindo a demissão do ministério — Saldanha abandona os seus antigos amigos e torna-se ministerial — Chegada do príncipe Augusto, acção nobilíssima destinada a commemorar a sua vinda, ratificação do seu casamento, discurso que pronuncia na camara dos pares por occasião de tomar ali assento — O príncipe é nomeado commandante em chefe do exercito — Tal nomeação levanta grande opposição — Doença e morte do príncipe — Tumultos que a noticia d'esta occasiona — Mensagem da camara dos deputados pedindo á rainha para que contráiha segundas núpcias — Resposta da rainha — Termina a sessão ordinária — Faz-se a historia d'ella — Carta de José Passos — O presidente do conselho e o ministro da justiça demittem-se — Dois ministros novos — O conde de Linhares presidente do conselho — Difficuldade em encontrar noivo para a rainha — Demissão do ministério — Golpe de vista sobre a sua administração — Plano financeiro do antigo ministro da fazenda Silva Carvalho — Indemnisações — A opposição não conquista o poder, é este que se lhe entrega — Ministério de conciliação presidido por Saldanha — Os novos ministros e o seu passado politico — Applauso geral e unanime com que é recebido — Programma ministerial apresentado por cada um dos novos ministros — Annuncios de tempestade — Alterações na atmosphera politica annunciadas diariamente pelo "Nacional" — Crise ministerial que se avizinha — A rainha procura afastal-a nobilissimamente — O ministro da fazenda Campos pede a demissão, que lhe é acceita — Manifesta-se abertamente a crise ministerial, que influencias palacianas procuram resolver em proveito próprio — É julgada indispensável a entrada de Silva Carvalho para o ministerio — Rodrigo da Fonseca Magalhães ministro do reino — A antiga opposição de novo em campo — Tratado de 1810 — O marquez de Loulé é subslituido na gerência da pasta da marinha por Jervis de Athouguia — O conde de Lavradio encontra emfim um noivo para a rainha — O principe de Carignan tão depressa escolhido como rejeitado — Assenta-se a final na escolha do principe Fernando Coburgo para marido da rainha — Tratado com a Hespanha sobre a livre navegação do Douro — Procedimento inqualificável de Saldanha para com Sá da Bandeira — Apologia que este faz dos seus serviços, e põe a claro alguns factos pouco honrosos da vida publica de Saldanha — O governo nomeia novos pares, e manda proceder á eleição supplementar do deputados — A campanha eleitoral — A Hespanha reclama o auxilio de Portugal para combater os carlistas em armas — Organisa-se uma divisão auxiliar para este fim — Instrucções dadas ao respectivo commandante — Apreciação injusta que d'ellas faz a opposicão — Projecto para a venda em globo das lezírias do Tejo e Sado — Protestos que levanta — Reforma de instrucção publica — Applausos e protestos com que é recebida — Crise ministerial provocada pela rainha — Esta acceita a demissão do ministério, e logo depois recusa-lh'a — Como se suicida um governo — Intervenção dos commandantes de alguns corpos nos trabalhos eleitoraes — Censura que aos mesmos inflige o commandante em chefe do exercito — Descontentamento que no exercito produz esta providencia — Officiaes desligados dos respectivos commandos — Manifestação militar contra o ministério — Em resultado d'ella e do voto do conselho d'estado, ouvido sobre o assumpto, o governo demitte-se — Novo ministério sob a presidência de José Jorge Loureiro — Os novos ministros — Economias — É revogada a reforma de instrucção publica do ultimo ministério — O governo triumpha nas eleições supplementares para deputados — forças do governo e da opposicão na camará electiva — Extincção do commando em chefe do exercito — Curto alcance das medidas ministeriaes — Os jornaes governamentaes são os primeiros a confessal-o — Estado anarchico em que se encontra o paiz — Realisa-se o segundo casamento da rainha — Discurso lido pela rainha na abertura do parlamento — O governo consegue ter maioria na camará electiva — Novo projecto para a venda das Lezírias — Estado precário do thesouro — Silva Carvalho defende brilhantemente a sua administração — É votado o projecto relativo ás lezírias — O ministro da fazenda, querendo engrandecer os seus méritos de estadista, exagera o mau estado da fazenda publica — Venda dos bens nacionaes a dinheiro de contado — Nas camaras a opposicão ao ministério cresce de dia para dia — Prorogação do tratado de 1810 — Nomeação do principe D. Fernando para commandante em chefe do exercito — O governo, ao ver-se fortemente atacado no parlamento, adia as camarás — Operação financeira mal recebida e peior succedida — Nota curiosa sobre o assumpto, escripta por Silva Carvalho — Demissão do ministro da fazenda — O ministério agonisa — Frieza com que é recebido o príncipe D. Fernando na sua chegada a Lisboa — O governo, encerrando repentinamente o parlamento, apressa a sua queda — Já demissionário nomeia o principe D. Fernando commandante em chefe do exercito — O marquez de Valença é encarregado de organisar ministério, mas depressa resigna a rnissão, que é confiada a Agostinho José Freire.

Duque de Saldanha (1790-1876), c. 1870.
Imagem: Wikipédia


CAPITULO II

A revolução de setembro (pag. 181 a 240)

Novo ministério presidido pelo duque da Terceira — Manuel Gonçalves de Miranda — Silva Carvalho e a situação do thesouro — O principe D. Fernando assume o commando em chefe do exercito — Protesto da opposição — Club dos Camillos [Sociedade Patriótica Lisbonense] — Convocação extraordinária das camaras — O governo fixa previamente o que se deve discutir — Aberto o parlamento, o ministério soffre logo um cheque — Dissolução da camara electiva — Tumultos no Porto — Visita que a esta cidade faz o principe D. Fernando — Incêndio do thesouro — O governo triumpha nas eleições — Deputados eleitos —Annuncios de revolução — O governo pensa em tomar medidas repressivas — Manifestação popular em Lisboa á chegada dos deputados opposicionistas — Soares Caldeira, França e Leonel Tavares heroes do dia — A guarda nacional em armas proclama a constituição de 1822 — O governo em vão procura suffocar a revolta nascente — Fraternisação da tropa de linha com a guarda nacional — A revolução triumphante — Mensagem dos revoltosos á rainha — O governo demitte-se — O conde de Lumiares e o visconde de Sá da Bandeira são encarregados de formar novo governo — Recusa do visconde de Sá — Instancias do principe D. Fernando e do corpo diplomático para que não mantenha esta resolução — Condições impostas e acceitas — Novo ministério —Traços biographicos de cada um dos seus membros — A constituição de 1822 restabelecida — Juramento á nova constituição — Uma revolução em Hespanha foi uma das causas principaes da revolução de setembro — Antecedentes curiosos — Como se consolida a revolução — Situação financeira e economias — Dictadura — Começa a manifestar-se a desunião entre os vencedores — Resistência pacifica á nova ordem de cousas — Muitos funccionarios públi- cos demittem-se para não jurarem a nova constituição — Protesto dos pares do reino contra a nova constituição — Errada politica do partido cartista — A rainha em desconfiança permanente com o ministério — Vieira de Castro tenta em vão fazer desapparecer este preconceito — O principe D. Fernando exonerado do commando em chefe do exercito — Os mareehaes Terceira e Saldanha, nem juram a nova constiluição, nem são demittidos — Febre demissionaria — Tentativas da Bélgica, de accordo cora o gabinete inglez, para intervir nos negócios internos de Portugal — O paço favorecendo o restabelecimento da Carta — Annuncios de um golpe de estado.

Columbine e diversos navios experimentais na barra de Lisboa, John Christian Schetky, 1831.
Imagem: Royal Museums Greenwich

CAPITULO III

A Belemzada (pag. 241 a 358)

Preparativos de desembarqae da esquadra ingleza, surta no Tejo, na noite de 2 de novembro de 1836 — Protestos de Sá da Bandeira de fidelidade á monarchia perante o ministro inglez, e de Passos Manuel perante a rainha — O ministro da justiça Vieira de Castro é instado pela rainha para que de novo se proclame a Carta constitucional — O governo sabe que se conspira — A rainha, por conselhos do rei da Bélgica, deixa o paço das Necessidades e vae para o de Belém — Os ministros, a corte, conselheiros d'estado, auetoridades e corpos da guarnição são chamados por ordem da rainha a Belém — Nem todos obedecem — Golpe de estado — Demissão do ministério e nomeação immediata de outro, de que é presidente o marquez de Valença — Feição politica dos novos ministros — Proclamação da rainha — Passos Manuel propõe em conselho a resistência ao golpe de estado — A guarda nacional em armas — Passos Manuel é chamado a Belém pela rainha — Comité revolucionário em Lisboa — Forças que estavam em Belém — Assassinato de Agostinho José Freire — Photographia da revolução em Belém n'este momento — Franca e nobre exposição de Passos Manuel á rainha — Resposta enérgica de Passos Maimel ás ameaças de lord Howard [de Walden (Sá da Bandeira, Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, marquês de, The slave trade and Lord Palmerston's bill, 1840)], e um dito pouco feliz do principe D. Fernando — A rainha encarrega o marechal Saldanha e o conselheiro Trigoso de negociarem um accordo com Passos Manuel — Bases d'este accordo — Sá da Bandeira toma o commando da guarda nacional, e á sua frente marcha para Belem — Desembarque das tropas inglezas — Communieação do visconde de Sá ao marechal Saldanha — Reconhece-se afinal em Belém a impossibilidade de restaurar a Carta — Entrevista de Saldanha com Sá da Bandeira — A rainha nomeia Sá da Bandeira presidente do conselho, e deixa-lhe a livre escolha dos ministros — Recebido pela rainha, dicta as suas condições e indica o nome dos seus collegas — Excitação popular — A rainha assigna os decretos da nomeação do novo ministério, e volta para as Necessidades — Trecho de um discurso de Passos Manuel sobre o assumpto — Exemplo da hospitalidade ingleza — Cartas trocadas entre os chefes da contra-revolução triumphante e Silva Carvalho — Restabelecimento da ordem — Generosidade para com os vencidos — Triumvirato — Retrato de Passos Manuel por D. António da Costa — A iniciativa rasgada d'aquelle manifesta-se a uma longa serie de medidas decretadas por elle — Opposição que a Manuel Passos fazem os seus próprios amigos — Atacado na imprensa, defende-se n'uma carta dirigida ao "Nacional" — Decreta-se a elegibilidade dos ministros — Protestos que este decreto levanta por parte de alguns partidários do governo — João Bernardo da Rocha — Como se formou a opposição setembrista ao ministério — Clubs políticos — Eleição de deputados e poderes extraordinários que os mesmos recebem dos eleitores — Abre-se o congresso e fere-se a primeira batalha contra o governo — Discute-se o decreto da elegibilidade — Passos Manuel defende na camará os seus actos como ministro — Representação do partido cartista no congresso — Os poucos deputados d'este partido que foram eleitos renunciam aos seus logares — Situação financeira — Relatório de Manuel Passos — Discussão sobre as leis da dictadura — Defeza brilhante que faz Manuel Passos — Votação no congresso sobre o assumpto — Começa a discutir-se o projecto de uma nova constituição — Importância dos debates — É votada a generalidade d'aquelle projecto — A opposição setembrista no congresso— Votação contraria ao governo — Parece que este a aguardava para deixar o poder — Manuel Passos declara no congresso que se retira do poder — Ministério Passos.

Lisbonne vue du vieux port, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: LMT no Facebook

CAPITULO lV

Conspiração das Marnotas (pag. 359 a 427)

Estado de fraqueza em que se encontrava o partido miguelista quando caiu o ministério Passos — D. Miguel em Roma — Falta de recursos pecuniários com que luctou durante muito tempo (nota) — D. frei Fortunato de S. Boaventura — Protesto de D.Miguel contra a venda dos bens nacionaes — Protecção e apoio que encontrou sempre na corte pontificia — António Ribeiro Saraiva — Os seus primeiros serviços á causa de D. Miguel, e desfavor com que os ministros d'este o trataram — É nomeado secretario de embaixada em Londres — Vem a Portugal com propostas do governo inglez para o reconhecimento de D. Miguel — Estas propostas, que foram rejeitadas, originam alterações no ministério miguelista — Ribeiro Saraiva agenceia a vinda para o exercito miguelista de alguns officiaes e marinheiros estrangeiros — Opposição que a este auxilio faz o ministério miguelista — Testemunho de vários escriptores sobre o aprisionamento da esquadra miguelista — Terminada a lucta entre D. Pedro e D. Miguel, António Ribeiro Saraiva continua em Londres com o mesmo caracter politico que até então tivera — Jornaes que em Portugal e no estrangeiro advogavam a causa de D. Miguel — Ribeiro Saraiva, havendo caído no desagrado do seu rei, é substituído na direcção do partido por D. frei Fortunato de S. Boaventura — Preseguições de que é víctima o partido miguelista era seguida á concessão de Évora Monte — Principia a manifestar-se em differentes pontos do paiz um scisma religioso— Cousas apparentes e reaes d'este scisma — Vista retrospectiva sobre as relações diplomáticas de Portugal com Roma, e apoio que na corte pontifícia sempre encontrou o governo de D. Miguel — Reformas ecclesiasticas decretadas pela regência de D. Pedro, e protestos do papa contra ellas — Tentativas de reconciliação por parte do governo portuguez com a corte pontifícia — Golpe de vista sobre o estado da administração ecclesiastica, e manifestação e progressos do scisma nas differentes dioceses do paiz — Guerrilhas miguelistas no Algarve — O Remechido — Projectos mallogrados de uma revolução combinada entre os miguelistas de Portugal e os carlistas de Hespanha — Tentativa de revolução nas proximidades de Lisboa, e prisão de alguns officiaes do antigo exercito de D. Miguel — Correspondência sobre o assumpto trocada entre o ministro de França e Sá da Bandeira.

Lisboa, Praça de D. Luiz e monumento ao Marquez de Sá da Bandeira, c. 1900.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Nota n.° 1, pag. 429
Nota n.° 2, idem
Nota n.° 3, pag. 432
Nota n.° 4, pag. 433
Nota n.° 5, pag. 440

A verdade histórica e a "Historia da revolução de setembro" pag. 485



Marques Gomes, Luctas caseiras: Portugal de 1834 a 1851, Lisboa, Imprensa Nacional, 1894

sábado, 2 de abril de 2016

Quinta do Outeiro do Alfeite

Pertenceu ao conjunto de quintas que faziam parte da Casa do Infantado. Foi adquirida em 1707 pelo infante D. Francisco ao conde de Tarouca. (1)

Viata da Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A Quinta do Outeiro apesar de ser da Capela instituída pelo Doutor Manuel Lucas da Silva, e sua mulher Dona Catarina Josefa de Lima, administrada pelo Doutor José da Silveira Zuzarte, foi incorporada na Quinta do Alfeite por a utorização da Rainha a Senhora Dona Maria 1ª, concedida por Alvará de 15 de Maio de 1789. (2)

Em 1834, pelo decreto lei de 18 de Março é extinta a Casa do Infantado e passados 10 anos é feito um tombo da Real Quinta do Alfeite a 21 de Março de 1844, pelo almoxarife Severiano Fernandes de Oliveira onde nos é dado a conhecer a relação de prédios do circulo administrativo do Almoxarifado do Alfeite [...]

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847

[Relativamente à] Quinta do Outeiro - constituída por um prédio urbano (casas de habitação e várias casas de acomodações, cavalariça e palheiro e seis armazéns grandes) e prédio rústico (um bocado ajardinado, horta, vinha, arvores de pevide e caroço, e de espinho, poço com engenho e dois tanques) [...] (3)

Aproveitando a tradição do local para a prática da querenagem e as condições naturais de um baldio que existia junto à Quinta do Outeiro, uma das sete propriedades que a Casa do Infantado possuía no Alfeite, o industrial António José Sampaio instala um pequeno estaleiro nesse terreno junto ao salgado do rio, confinando a Sul com a referida Quinta do Outeiro, a Poente com a Romeira Velha, a Norte com o Caramujo e a Nascente com o rio Tejo.

Este estaleiro, vocacionado apenas para a construção de embarcações em madeira, encontrava-se em plena laboração em 1850 [...] (4)

[...] a Quinta do Outeiro tinha já sido vendida no tempo do Rei D. Luís à firma Rankin & Sons; (5)

Panorâmica da fábrica William Rankin & Sons na quinta do Outeiro no Alfeite, 1885.
Imagem: Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário...

A propriedade arrendada pela administração da Casa Real à William Rankin & Sons, foi depois comprada pela firma ao rei D. Luis, em hasta pública, em 1887, por vinte contos de réis.

Compreendia cinco armazéns, cavalariça, cocheira, casa para criados, palheiros, adega, lagar, casa de habitação com terreno para logradouro e terreno junto à praianuma área de 5168 m2.

Em 1898, a firma compra, também em hasta pública, ao rei D. Carlos, mais uma porção de terra com uma pequena casa e pomar, por cinco contos de réis e com a condição da William Rankin & Sons construir um muro com dois metros de altura para garantir a privacidade da Quinta Real do Alfeite.

Enseada da Cova da Piedade, c. 1900.
Em 1.° plano o pontão e a entrada da quinta do Alfeite e, em 2.°, o cais da Rankin & Sons.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Segundo Carol Mason, Cunison Deans Rankin adquire, em 1905, um estaleiro junto da fábrica, com anexos situados "na rua da praia" de acesso à quinta do Outeiro, à familia Sampaio, por dois contos de réis. (6)

A corticeira Rankin & Sons Ltd instalou-se na zona ribeirinha do Outeiro do Alfeite em 1884.

A preparação de pranchas de cortiça para exportação foi a actividade principal da fábrica durante os primeiros anos de funcionamento  [...]

A Rankin & Sons Ltd concentrou um grande número de mão-de-obra especializada, homens e mulheres divididos por sectores fabris, correspondentes às diversas fases da cadeia de produção.

Quinta do Outeiro do Alfeite, fábrica da Rankin and Sons, 1937.
Imagem: Rui M. M. Mendes

Esta corticeira constitui um exemplo do tipo de fábricas que se instalaram no Concelho. Acompanhou os períodos de recessão e de incremento no sector, o início das lutas operárias e a mobilização sindical e cooperativa dos trabalhadores. Encerrou definitivamente em 1956. (7)


(1) R. H. Pereira de Sousa, Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003
(2) Susana Maria Lopes Quaresma e Pereira, O palácio real do Alfeite..., Lisboa, Universidade de Lisboa, 2009, 5 Vols., cf. Alexandre M. Flores, António Neves Policarpo, Arsenal do Alfeite: contribuição para a história naval em Portugal, Junta de Freguesia, Laranjeiro, D. L. 1998, 2003
(3) Artur Vaz, Jornal da Região – Almada,  12. de julho de 2000
(4) Deputados do Grupo parlamentar do PCP, Cria o Museu Nacional da Indústria Naval, Lisboa, Parlamento, 2005
(5) Susana Maria Lopes Quaresma e Pereira, op. cit. 
(6) Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário (1860-1930), Câmara Municipal de Almada, 2003, cf. Alexandre M. Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990
(7) Fábrica da Rankin & Sons


segunda-feira, 7 de março de 2016

Defesa de Lisboa em 1834

D. Miguel dispunha ainda pela sua parte de todos os recursos do reino, exceptuando apenas as duas cidades de Lisboa e Porto. Por todo o paiz os membros do clero secular e regular haviam pregado uma nova cruzada contra os constitucionaes [...]

Almada vue d'Alfeita [sic], François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: artnet

O elevado morro de Palmella havia sido fortificado e guarnecido com doze bocas de fogo, o que igualmente tinha succedido a Almada e Cacilhas, onde se formara uma espécie de isthmo por meio de uma linha, que corria do Pragal á Margueira, guarnecida também por vinte e duas peças de artílheria. (1)

Mutela na enseada da Cova da Piedade (detalhe da vista de Cacilhas e de S. Julião), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Em 1833-1834 as forças liberais, logo após a tomada de Lisboa, prevenindo-se contra um ataque à capital pelos miguelistas que continuavam em operações a sul do Tejo, estabeleceram entre o Paliarte [Palliart, quinta e convento de S. Paulo] e a Margueira uma linha fortificada continua que cortava por completo o acesso a Almada e Cacilhas.
Quando se elaborou a carta topográfica militar de 1834 representando a linha fortificada já a quinta e convento de S. Paulo pertenciam a um comerciante de nome Palliart ou Paliarte, como se indica na legenda da carta. As propriedades haviam sido vendidas em consequência da extinção das ordens religiosas. A propriedade regressou à posse da igreja em 1934, voltando então a ser designada por quinta de S. Paulo, mas o nome de Paliarte, que perdurou 100 anos, ainda é uma designação conhecida.
Segundo Fernando Mendes [A dynastia de Bragança...] a linha comportou 22 peças, artilhamento que confere aproximadamente com o constante da carta topográfica militar [Planta da linha de defensa que cobre as villas d'Almada e Cacilhas] levantada [e desenhada] pelo 2.° tenente [do Real Corpo de] engenheiro[s] Manuel Maria da Rocha em 1834: 18 peças.

Vista parcial do lado sul de Almada, Possidónio da Silva, 1863
Imagem: Revista pittoresca e descriptiva de Portugal

A carta é pormenorizada quanto ao traçado da linha e sua construção mas quase omissa quanto ao terreno, apenas se representando toscamente as arribas da margem e pequenos troços das azinhagas que cruzavam a linha.

A localização da linha pode no entanto fazer-se com rigor a partir do desenho que serviu de base ao plano hidrográfico do porto de Lisboa, levantado em 1845-1847.

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847.

O flanco direito da linha assentava na encosta a norte do convento de S. Paulo; de aqui contornava a igreja e o convento de S. Paulo e descia para sueste numa frente rectilínea até a proximidade do teatro da Academia Almadense; ao cruzar a estrada para a Caparica, actual rua Capitão Leitão, formava um reduto; inflectia um pouco para leste e, junto ao local ocupado pela nova igreja de Almada apresentava um meio reduto; continuava para leste com duas frentes formando um ligeiro saliente próximo da rua Lourenço Pires de Távora, no sítio onde estivera o reduto do Conde; atravessava depois a estrada Cacilhas-Piedade pelo alto da Mutela, junto à rua Jorge de Paiva, formando um relente; dirigia-se daqui para sul e rematava na arriba com uma pequena frente olhando a Mutela.

Vista Geral, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Uma muralha isolada cortando a praia desde o sopé da arriba até ao nivel do baixa mar completava a obra protegendo o flanco. 

A esquerda da linha coincide num ponto com obra já existente: o meio reduto da Quinta do Conde que pode ter aproveitado parte do Forte do Conde. 

A casa de D. Francisco de Noronha (Prédio do Gato) Cacilhas, década de 1920/1930.
Imagem: Nuno Machado

Esta coincidência reforça a convicção de que os fortes do Conde e da Margueira ainda existiam em 1833 e que a última resistência séria oferecida por Teles Jordão em retirada, buscava apoio nas fortificações.

Sabe-se que nesse local, entre os dois fortes, passava a estrada Piedade-Cacilhas e Teles Jordão colocara aí artilharia. o castelo de Almada e as Linhas de Defesa estavam subordinados ao mesmo comando.

Oficial do Regimento de Infantaria n° 2, 1834.
Aguarela de Ribeiro Arthur.
Imagem: Colecção de Postais de Ribeiro Arthur

Desconhecemos se o mapa de guarnição elaborado em 1833, com o total de 148 homens abrangia não só o castelo mas as linhas de defesa que contariam também com o reforço do Batalhão Nacional Fixo d'Almada. Em qualquer caso, a importância das linhas e o quantitativo da guarnição justificavam o comando de um tenente-coronel e a presença de um cirurgião mor.

Exerceram o comando, no período de maior perigo para os liberais dois oficiais notáveis: Amaro dos Santos Barroso (1833-34) e Adriano Mauricio Guilherme Ferreri (1834-35) e o cargo de cirurgião mor, o cirurgião civil Francisco Inácio Lopes, um almadense também notável.

Planta do Rio Tejo e suas margens (detalhe), 1883.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Pela observação dos planos hidrográficos conclui-se que a linha ainda existia em 1847 e, muito provavelmente, em 1878. Desapareceu antes do fim do século. (2)


(1) Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal... Tomo V, Lisboa, Imprensa Nacional, 1885
(2) R. H. Pereira de Sousa, Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal, 1981, 192 págs.

Artigo relacionado:
Defesa de Lisboa em 1810