Mostrar mensagens com a etiqueta Alfeite. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alfeite. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 20 de março de 2023

Encerrado desde março de 2023

A praia do Alfeite junto à Quinta do Outeiro com o lugar do Caramujo e Almada em fundo, pintura do jovem Antóno Ramalho, encerra o ciclo de publicações deste blog.

Como resposta às lacunas de informação e objectividade apresentadas pelo Museu da Cidade de Almada, inaugurado em novembro de 2003, pretenderam os espaços Almada virtual museum (2014) e Mar da Costa (2016) promover o estudo, a investigação e o interesse pelas memórias e património de Almada e do seu termo, disponibilizando fontes, factos e eventos, ordenar, relacionar e contextualizar a informação, estabelecer uma plataforma de acesso a conteúdos externos, registar, indexar e cruzar informação e referências, atribuir palavras-chave de modo a agrupar e/ou filtrar expressões ou termos e optimizar o desempenho dos motores de busca online.

Tejo junto à Praia do Alfeite, António Ramalho, 1880.
Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

Atingidos esses objectivos resta dar por concluídas a edição e actualização deste blog dedicado a Almada e daquele dedicado a Caparica,  onde ontem se fez O último "lance"...). A plataforma associada de discussão no Facebook (Almada virtual) vai manter-se activa.

Com uma perspectiva mais abrangente,
atravessando margens, Eventualmente Lisboa e o Tejo (Arte e Memórias) irá incluir sempre que necessário as temáticas dos espaços agora encerrados.

Resta agradecer a vossa companhia nesta viagem.
Um grande bem-hajam!

Rui Granadeiro, março de 2023

sexta-feira, 5 de julho de 2019

As praias obscuras

Junto de Lisboa, na margem esquerda do Tejo, encontram-se ainda alguns logares de banhos onde a vida é mais barata que na margem de cá. Taes são:

Porto Brandão, em frente de Belém. Magnifica vista para a margem opposta do Tejo. Arvores — coisa rara — nas visinhanças. Soffriveis casas a preços módicos.

Lisboa vista do Porto Brandão, James Holland, 1837, 1838 ou 1847.
Imagem: Museu de Lisboa

Um bello passeio de cerca de três léguas pela charneca até á Lagoa de El-Rei, o retiro predilecto de D. Pedro V. O pequeno e modesto prédio da casa real, de um só pavimento ao rez do chão, fica á beira do lago, na solidão da charneca.

Hum projecto para a casa de rendez-vous das caçadas reais na Lagoa de Albufeira (detalhe), J. Possidónio Silva, 1854.
Arquivo Nacional Torre do Tombo


A paizagem é de uma grande melancholia sympathica, de um encanto profundamente penetrante. A agua tranquilia da grande lagoa, o áspero aspecto da charneca, a grande solidão, a planice, o profundo silencio, infundem uma pacificação e um sentimento de serenidade ineffavel.

A lagoa é muito povoada, mas a pesca é prohibida sem licença expressa do individuo que a arremata em cada anno. 

Não obstante, o auetor d' estas linhas na ultima vez que ali foi apoderou-se de um polvo, fisgando-o contra uma rocha com uma navalha americana que o seu amigo Eça de Queiroz lhe mandou de presente das margens do Niagara. 

Fundamos o nosso direito a este polvo na circumstancia de que a rocha não é agua mas sim terra firme. Em todo o caso aproveitamos esta occasião para desencarregarmos a consciência pedindo humildemente perdão a sua excellencia o arrematante da lagoa e a sua magestade o proprietário d'ella. Estamos prontos a dar outro polvo, se a coroa assim o exigir.

Planta da Lagoa de Albufeira, 1849.
Arquivo Nacional Torre do Tombo

Os contornos do lago são habitados por óptimos coelhos, magros, mas de um especial sabor salgado e bravio. O snr. D. Pedro v matava-os na carreira, á bala, com notável perícia.

A caça não tem arrematante e é permittida ao publico. Além dos coelhos, que são abundantes, ha massaricos, patos e outras aves marinhas.

Paço Real do Alfeite, Aguarela, Enrique Casanova
Cabral Moncada Leilões

O Alfeite, perto da quinta real do mesmo nome, junto de Cacilhas e da Cova da Piedade. É o mais pittoresco sitio da margem do sul do Tejo.

Fonte da Pipa, aguarela de Álvaro da Fonseca, c. 1915.
Almada na Historia, Boletim de Fontes Documentais, 27-28

A Fonte da Pipa. Logar árido, abafado, triste. Poucas casas sem mobília. Pequenos preços. (1)


(1) Ramalho Ortigão, As Praias de Portugal..., Porto, Magalhães & Moniz, 1876

Artigo relacionado:
Lagoa de El-Rei

domingo, 19 de maio de 2019

Dornier Do X1 no areal do Alfeite em janeiro de 1931

Para apresentar o avião ao potencial mercado dos Estados Unidos o Do X descolou de Friedrichshafen na Alemanha a 3 de novembro de 1930, sob o comando de Friedrich Christiansen, para um voo de teste transatlântico até Nova Iorque.

Dornier X no areal do Alfeite para limpeza em Janeiro de 1931, aquando da passagem por Lisboa...
Museu de Marinha

A rota levou o Do X à Holanda, Inglaterra, França, Espanha, e Portugal. A viagem foi interrompida em Lisboa a 29 de novembro, quando um oleado entrou em contacto com um tubo de escape quente e começou a arder, consumindo a maior parte da asa esquerda.

Dornier X frente ao Mosteiro dos Jerónimos.
Vela de bombordo do Dornier DoX na sequência do fogo ocorrido quando o aparelho estava atracado em Lisboa em 29 de novembro de 1930.
age fotostock

Depois de ter estado parado no porto de Lisboa durante seis semanas, enquanto novas peças foram fabricadas e os danos reparados, o hidroavião continuou (com posteriores adversidades e atrasos) pela costa ocidental de África e a 5 de junho de 1931 chegou às ilhas de Cabo Verde, donde cruzou o oceano até Natal no Brasil [...] (1)

Hidrovião DO X1 na baía de Alfeite perto de Lisboa, Portugal:
Escadas até a fuselagem, levantadas na popa; Vista oblíqua de trás para a porta.
Flugschiff DO X1 in der Bucht von Alfeite bei Lissabon

A aeronave tinha 41 metros de comprimento por 48 metros de envergadura e 10 metros de altura. Possuía doze motores radiais Bristol Jupiter, fabricados sob licença pela Siemens, com 524 HP cada um, montados em tandem em seis naceles duplas, tendo, assim, seis hélices tratoras e seis hélices impulsoras. 

Hidrovião DO X1 na Baía de Alfeite em Lisboa, Portugal:
Vista de homens e meninos indígenas.
Flugschiff DO X1 in der Bucht von Alfeite bei Lissabon

A fuselagem era em duralumínio, e as asas, com uma superfície de 450 metros quadrados, possuíam estrutura em alumínio e aço, revestidas em tela pintada em cor alumínio. 

Hidrovião DO X 1 na baía de Alfeite perto de Lisboa, Portugal:
trabalhador esfregando e escovando o casco a bombordo, homens de pé ao redor com boina de marinheiro...
Flugschiff DO X1 in der Bucht von Alfeite bei Lissabon



O peso máximo de descolagem era de 56 toneladas, e a velocidade de cruzeiro era de 109 MPH. Tinha capacidade para 66 passageiros com todo o conforto, em voos transoceânicos, ou até 100, em distâncias mais curtas.

 

Tendo os primeiros voos demonstrado que os motores Jupiter, refrigerados a ar, tendiam a superaquecer e não conseguiam erguer a aeronave além de 1.400 pés em velocidade de cruzeiro, altitude insuficiente para realizar voos através do oceano Atlântico, a partir de 1930, a Dornier substituiu-os por 12 motores americanos "Curtiss Conqueror", de 12 cilindros em "V" e refrigerados a líquido, eliminando assim os problemas de superaquecimento. 


Com 610 HP cada um, esses motores podiam fazer o avião alçar-se a 1650 pés, suficiente para cruzar o Atlântico com segurança. (2)


(1) Wikipedia (en)
(2) Wikipédia (pt)

Mais informação:
1929-1932 The Dornier Do-X
A flight aboard the DoX - 1930 (youtube)
Delcampe

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Estaleiro de J. A. Sampaio

É este um dos principaes estabelecimentos da cidade de Lisboa, destinado a construcções marítimas, cujos créditos estão de ha muito solidamente conquistados por um trabalho ímprobo e insano.

Vista tomada no porto de Cacilhas, face a Lisboa, Hubert Vaffier,  1889.
Bibliothèque nationale de France

As construcções navaes feitas na doca do sr. Sampaio em Cacilhas, teem merecido as melhores referencias por parte dos technicos d'aquellas especialidades.

O estaleiro tem vastos depósitos onde também se encontra um variado e completo sortimento de materiaes para construcções urbanas e ruraes.

Á frente d'este importantíssimo estabelecimento, encontra-se o nosso velho amigo sr. Eduardo Sampaio, um moço muito activo, intelligente e trabalhador. (1)

*
*     *

Aproveitando a tradição do local para a prática da querenagem e as condições naturais de um baldio que existia junto à Quinta do Outeiro, uma das sete propriedades que a Casa do Infantado possuía no Alfeite, o industrial António José Sampaio instala um pequeno estaleiro nesse terreno junto ao salgado do rio, confinando a Sul com a referida Quinta do Outeiro, a Poente com a Romeira Velha, a Norte com o Caramujo e a Nascente com o rio Tejo.

Tejo junto à Praia do Alfeite, António Ramalho, 1880.
Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

Este estaleiro, vocacionado apenas para a construção de embarcações em madeira, encontrava-se em plena laboração em 1850.

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847.

Em 1855, o seu proprietário, por escritura notarial celebrada em Lisboa no dia 27 de Janeiro, toma de foro ao Conde de Mesquitela, um pedaço de terreno na praia da Mutela, junto à Margueira, para ali instalar uma caldeira em estacaria ou de pedra e cal, na extremidade da qual projectava construir duas rampas para querenagem de embarcações.

Doka velha, Leitão de Barros, 1916
[eventualmente trata-se da mesma aguarela referenciada como Estaleiro da Mutela (Mutelo) e Casas na Mutela].
Ilustração Portuguesa,n° 567, 1 de janeiro de 1917

Desconhecem-se pormenores da actividade destes dois estaleiros, a não ser o facto de ambos se terem mantido na posse daquele industrial até Dezembro de 1892, altura em que o Governo, pretendendo proceder à reforma dos meios navais, consulta os industriais do ramo, procurando avaliar das condições de que dispunham os seus estaleiros para efectuarem a construção dos navios necessários.

Os documentos da época esclarecem que efectivamente nem o estaleiro de António José Sampaio se encontrava preparado para construir os navios metálicos, nem os orçamentos apresentados pelo seu proprietário mereceram a apreciação favorável das entidades responsáveis da Armada.

Duvida-se que António José Sampaio tenha concluído o projecto da construção das rampas de querenagem segundo o projecto de intenções subscrito em 1855, por duas razões objectivas: a primeira, porque o local aforado na Mutela era extremamente exíguo e em condições semelhantes já aquele industrial possuía o estaleiro da Praia do Outeiro, muito melhor abrigado.

Panorâmica da fábrica William Rankin & Sons na quinta do Outeiro no Alfeite, 1885.
Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário...

A segunda razão encontra-se relacionada com o facto de em 1865, Sampaio se preparar para dar início à construção de um grande estaleiro na Praia da Lapa, em Cacilhas, dotado de duas docas secas, sendo deste modo previsível que este último projecto o levasse a colocar em segundo plano das suas prioridades o investimento na Mutela [...]

Em 10 de Junho de 1865, António José Sampaio procede à escritura do aluguer de um pedaço de salgado na Praia da Lapa, em Cacilhas, para aí construir um estaleiro de maiores dimensões que aqueles que possuía nas proximidades da Quinta do Outeiro e no lugar da Mutela.

Em 17 de Dezembro de 1872, aquele industrial paga à Câmara Municipal de Almada, pelo foro do referido salgado situado em Cacilhas, a importância de vinte e dois mil e quinhentos réis. (2)


(1) O Defensor do Povo n.° 59, Coimbra, 9 de fevereiro de 1898
(2) Samuel Roda Fernandes, Fábrica de Molienda "António José Gomes", Anexos

Artigos relacionados:
H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal
H. Parry & Son, estaleiro em Cacilhas

Mais informação:
Restos de Colecção

Tema:
Construção naval

sexta-feira, 15 de junho de 2018

A Escola Naval e o Arsenal do Alfeite

Dez horas batidas nesta manhã de Setembro transparente e calma, encontro junto à Casa da Balança do velho Arsenal do Terreiro do Paço, o 1.° tenente Teixeira da Silva, meu guia amável na visita que pretendo fazer à Escola da Marinha e Oficinas da Real Quinta do Alfeite, na margem fronteira.

Uma expressiva imagem do Arsenal do Alfeite.
Panorama n° 4, setembro de 1941

Aguarda-nos um rebocador, onde empreendemos a travessia. 

Diante de nós o Tejo prolonga-se num plaino reverberante, incendiado pela crueza da luz, que desce a prumo sobre a água e entontece o vôo musical das gaivotas.

O rio vive as horas matinais da faina ribeirinha que já Fernão Lopes, há quinhentos anos, não resistiu ao gôzo de anotar, e a vela côr de açafrão, perdida além, é a legenda que melhor acerta no perfil moreno de Lisboa.

Ao lado, o vaporzinho cacilheiro deixa um rasto de espumas batidas pela hélice diligente. 

À medida que nos acercamos da margem esquerda, ficam para trás as povoações da Cova da Piedade e do Caramujo, sumidas na teia de névoas que sobe da massa aquática e alastra pelas ribas até as envolver.

Vista aérea da Escola Naval e do Arsenal do Alfeite, Mário Novais.
Flickr

Agora destrinço, nitidamente, as diversas construções que compõem os conjuntos da Escola Naval e das Oficinas; no primeiro plano, à direita, observo com curiosidade o palácio mandado levantar, nos meados do século xlx, por D. Pedro V. 

Salto para um batelão, que me facilita o desembarque e antes de iniciar a minha peregrinação. chamo à lembrança. apressadamente, a leitura, feita na véspera, do "Guia de Portugal". A Quinta do Alfeire, situada a S.E. da Cova da Piedade, entesta com o Seixal e foi propriedade da Rainha D. Leonor Teles. 

Em 1401, passou para D. Duno Alvares Pereira, sendo muito mais tarde adquirida por D. Pedro II, que a encorporou na Casa do Infantado.

D. João IV e D. Miguel acrescentaram-na com novas quintas circunjacentes, até que em 1834 foi definitivamente incluída nos bens da coroa. 

Na Escola Naval recebe-me, fidalgamente, o 2.° Comandante Nuno Frederico de Brion, com aprumo e galhardia, timbre dos marinheiros de alta estirpe. 

Um ângulo da Escola Naval.
Flickr

Percorro as instalações escolares acompanhado pelo Oficial de serviço, que leva a sua gentileza ao ponto de tentar explicar-me o funcionamento da aparelhagem complicada que me rodeia.

Tudo aqui é de um asseio irrepreensível e o ambiente das aulas alegre e cheio de claridade. 

Visito a Oficina Escolar e de Reparações, o Gimnásio e as instalações dos Cadetes, atravesso um campo de "foot-ball' e entro no edifício do Comando, obra dos arquitectos Rebelo de Andrade, que conseguiram sugerir nos volumes da construção reminiscências de arquitectura náutica de feliz equilíbrio. 

O "hall", pavimentado de mosaicos de lioz, é encimado por uma ampla galeria, que corre nas quatro faces, assente em colunas de cantaria de Sintra. 

A fachada do edifício de comando da Escola Naval — Foto Mário Novais.
Flickr

No piso inferior do edifício alinham-se as salas de aula, pedagógicamente apetrechadas com o material indispensável para um ensino que necessita, a cada passo, de se apoiar no próprio objecto. 

Mostram-me, entre outras, as aulas de torpedos, motores, máquinas, balística e electricidade; subo ao primeiro andar, onde se encontra o gabinete do Comandante, mobilado com um bom gôsto que me surpreende, dou ainda um olhar pela Sala do Conselho, apeteço, por um pouco, a simpática solidão da Biblioteca e galgo a escada de caracol que me leva ao terraço, do qual descubro um admirável panorama, diluído na lonjura em que se projecta. 

Do meu lado direito descortino o castelo de Palmela e o dorso violeta da Serra da Arrábida; à esquerda, alonga-se um exíguo promontório, onde se aninham as vilas de Cacilhas e de Almada e, na quieta luminosidade do entardecer, avulta, como pano de fundo, a cidade de Lisboa, reflectida na translucidez irisada do Tejo. 

Vista do Arsenal do Alfeite, Mário Novais.
Flickr

Deixo o corpo central do edifício com a sua Ponte de Comando, Tôrre da Bússola, Casa da Pilotagem e outras dependências; espreito o pinhal rumorejante e adivinho ali a melodia doce de um melro, que parece suspensa no esmorecer da luz. 

Resta-me, apenas, como final da viagem, a colheita de alguns elementos, que me disponho a adquirir, sôbre a organização e funcionamento do Arsenal edificado beira-rio, em frente da Escola de Marinha. 

O poderoso guindastre do Arsenal.
Panorama n° 4, setembro de 1941

Compôem-no um corpo de vários edifícios; porém, sómente dois são obra dos arquitectos irmãos Rebelo de Andrade, pertencendo os restantes a construções anteriores. 

Da actividade das suas oficinas, fala, mais do que que tudo, o Relatório do ano de 1940, publicado há pouco. Dêle extraímos os dados estatísticos que se nos afiguram de maior importância. 

Assim, para os que se interessem pela questão, diremos que em 1940 foi construído no Arsenal do Alfeite o novo navio hidrográfico "D. João de Castro", ultimada a construção de duas lanchas de fiscalização, começada a construção de outras duas, de um batelão, dois vapores arrastões, seis embarcações menores e duas vedetas. 

Uma expressiva imagem do Arsenal do Alfeite.
Panorama n° 4, setembro de 1941

Quanto ao trabalho de reparações e de beneficiações, destaca-se o efectuado no contratorpedeiro "Lima" e na canhoneira "Ibo", realizado com a melhor das proficiências técnicas. 

Do exposto no referido Relatório conclui-se que o movimento diário do Arsenal, no capítulo de consertos e melhoramentos, foi, no ano findo, de seis navios com o total de 5.550 toneladas, perfazendo o pessoal mobilizado no serviço, o elevado número de 1.474 pessoas. 

As amplas oficinas do Arsenal — Foto Mário Novais.
Panorama n° 4, setembro de 1941

Julgamos estas notas suficientes para, através delas, se poder calcular o enorme e disciplinado esfôrço que representa a renovação das nossas indústrias navais, superiormente orientadas. Basta ir ao Alfeite e procurar ver, para disso trazermos a certeza. (1)


(1) Panorama n° 4, setembro de 1941

Artigos relacionados:
O Almoxarifado do Alfeite em 1850
O rei moço
Quinta do Outeiro do Alfeite
O Alfeite para escola liberal

Mais informação:
Flickr (FCG), Mário Novais

quarta-feira, 13 de junho de 2018

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Alfeite visto da Piedade em 1850

Será hoje difícil saber quantos álbuns de esboços o artista terá utilizado ao longo do seu acidentado percurso criativo. Mas, certamente, que Cristino [João Cristino da Silva] trazia sempre consigo, nas suas deambulações, um pequeno álbum onde, simultaneamente, ia desenvolvendo a atenção do olhar, disciplinando a destreza da mão e registando a impressão do momento.

João Cristino Silva, auto-retrato (detalhe).
Imagem: Arcadja

Um desses álbuns de desenho terá passado do seu filho, o também pintor João Ribeiro Cristino (1858-1948), para o seu neto, o arquitecto Luís Cristino da Silva (1896-1976), cujo espólio foi doado à Fundação Calouste Gulbenkian na década de 1980, encontrando-se actualmente no fundo documental da Biblioteca de Arte. 

Alfeite visto da Piedade [sic: Val feito - visto da piadade], João Cristino da Silva, Album de desenhos, c. 1850.
Imagem: Álbum de desenhos de João Cristino da Silva (1829-1877) no flickr

Ao longo das duas faces das 68 folhas de papel que o tempo amareleceu, o avô Cristino desenhou apontamentos a grafite e carvão da paisagem e da arquitectura dos locais – Sintra, mas também Cascais, Santarém, Leiria, Buçaco… – por onde se fez a sua vida, e dos elementos animais – burros, bois, vitelos – e vegetais que os habitavam. 

Burro cacilheiro, João Cristino da Silva, Album de desenhos, c. 1850.
Imagem: Álbum de desenhos de João Cristino da Silva (1829-1877) no flickr

São várias as cenas de costumes numa atenção ao pitoresco que caracterizou a pintura do Romantismo nacional. (1)


(1) Álbum de Desenhos, Biblioteca de Arte Gulbenkian

Informação relacionada:
Álbum de desenhos de João Cristino da Silva (1829-1877) no flickr

terça-feira, 6 de junho de 2017

O Alfeite para escola liberal

Apareceram em alguns jornaes noticias ácerca da proposta de compra ao Estado do palacio do Alfeite, por um grupo de cidadãos liberacs de que fazem parte os srs. Tomaz da Fonseca, deputado e diretor das escolas normaes, Ferreira do Amaral, engenheiro, Francisco Grandela, comerciante, etc.

Recordação de uma "pandiguinha" na tapada do Alfeite em 28 de Setembro de 1913.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

As mesmas noticias dizem que sobre este assunto, os interessados tem tido varias conferencias com o sr. ministro do fomento e que a oferta é de cem contos por esta propriedade.

Praia do Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

Como ilucidação cabe fazer aqui a breve historia desta propriedade, uma das mais rendosas que pertencia á corôa desde 1834.

Quando D. Afonso Henriques conquistou Lisboa, já esta propriedade existia com a denominação de Penha. D. Afonso doou-a então aos inglêses, que o ajudaram na conquista.

D. Sancho I fez passar esta propriedade aos cavaleiros da Ordem de S. Tiago, até que, no reinado de D. Diniz, foi encorporada nos bens da corta dando em troca áquela ordem as vilas de Almodovar c Ourique, e os castelos de Monchique e Aljesur.

Tejo junto à Praia do Alfeite, António Ramalho, 1880.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

D. Fernando I incluiu a Penha nos bens com que dotou sua mulher D. Leonor Teles, a qual, depois da morte do marido, os doou ao celebre judeu David Negro, almoxarife das alfandegas do reino.

Este judeu, seguindo o partido da rainha viuva, acompanhou-a na fuga para Alemquer, a isso obrigada pela revolta em favor do Mestre de Aviz.

Por este facto David Negro foi declarado traidor á patria e sequestrado-lhes todos os seus bens.

D. João I, ainda regente, doou a Penha ao seu companheiro de armas, o condestavel D. Nuno Alvares Pereira.

Pomar do Antelmo, Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

A mulher de David Negro, porém, sabendo desta doação, tentou embargal-a em nome dos filhos, e disto se originou uma demanda, que durou nove anos, terminando por urna composição, em que ela ficou com os bens de Almada, que compreendiam a Penha e o condestavel com os de Lisboa.

Mais tarde, conforme a tradição, D. Nuno Alvares Pereira comprou aos herdeiros de David Negro, aquela propriedade para a reunir a outras que possuia da outra banda do Tejo, até que, em 28 de julho de 1404, doou estes e outros bens que tinha á Ordem dc Santa Maria do Carmo. Foi depois desta doação que a propriedade da Penha passou a denominar-se do Alfeite.

Paisagem na Real Quinta do Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

Passam-se mais de dois seculos em que a propriedade do Alfeite sofreu varias alternativas e, só em 1697, parece que a adquiriu D. Pedro II, de Gerardo Huguer Marcem, que então estava de posse dela, e a incorporou na Casa do Infamado.

No reinado dc D. João V, o infante D. Francisco, a quem pertencia esta Casa, instituida por D. João IV, reuniu-lhe a quinta da Romeira, comprada, em 1707, ao conde de Tarouca, e mais outra que comprou ao desembargador Antonio da Maia Aranha.

Lavadeiras na Romeira, Alfeite, António Ramalho, 1881.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, Op. Cit.

D. Maria I aumentou os bens do Infantado com mais propriedades que lhes juntou, e D. Miguel, no 1.° de julho de 1833, arrematou a quinta da Piedade, que se ligava com as do Alfeite, e que depois passou á posse de Pompeu Dias Torres, negociante em Lisboa, que por sua vez a vendeu ao moageiro Antonio José Gomes, sendo hoje dos seus herdeiros.

A propriedade do Alfeite, com os seus palacios, compôe-se do Outeiro, Quintinha, Antelmo e Bomba, pertencendo-lhe tambem a vinha do Pagador, a Lagôa de Albufeira, os pinhaes de Corrolos e do Cabral, os moinhos do Gaivão, Passagem, Capitão e Torre. 

Em 1851 debateu-se na Camara dos Pares a questão do arrendamento da propriedade do Alfeite ao conde de Tomar — Costa Cabral — então presidente do conselho. Esse arrendamento era por 99 anos e por 2:500$000 réis anuaes. A quinta do Alfeite era naquele tempo um onus para a casa real, bem ao contrario do que hoje acontece, pois só a venda da arda extraida dos seus areiaes para as construç8es dc Lisboa e seu termo, constitue um rendimento importantissimo.

Paul da Outra banda, Pântano, Vista do Alfeite, Charco de Corroios, José Malhoa, 1885.
Imagem: Blog do Noblat

A questão a este respeito ventilada na camara alta foi das mais escandalosas, entre os partidarios de Costa Cabral e os adversarios á frente dos quaes se encontrava o marechal Saldanha. A ultima sessão em que este assunto foi debatido e em que o conde de Tomar pronunciou o seu ultimo discurso parlamentar, tomando a propria defesa, realisou-se em 22 de março de 1851. O parlamento foi encerrado e poucos dias depois iniciava o duque de Saldanha o movimento revolucionario conhecido pela Regeneração, que importou a queda do governo dc Costa Cabral e a este se exilar para o estrangeiro. 

Paço Real do Alfeite, Aguarela, Enrique Casanova
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Em 1857 D. Pedro V fez grandes melhoramentos na quinta do Alfeite, e mandou construir o novo palacio mais elegante e confortavel do que o antigo, que cahira em ruinas, assim como no Antelmo, pertensa da mesma propriedade, que foi restaurada. 

Lago do Antelmo — Alfeite, João Ribeiro Cristino, 1883.
Imagem: Veritas leilões

Nos ultimos tempos, o palacio do Alfeite era utilisado pelo sr. infante D. Afonso e pela rainha sr.a D. Amelia, que ali ia passar alguns dias, no outono.

Alfeite (ao tempo) lugar da freguesia da Nossa Senhora da Piedade.
Imagem: Delcampe

A proposta que aparece agora para a compra desta propriedade, não deixa de fazer lembrar a que em 1851, o conde de Tomar tentou para o seu arrendamento, por 2:500$000 réis, talvez menos da quarta parte do rendimento só da areia que de ali se extrae anualmente. (1)


(1) Occidente n.° 1203, 30 de maio de 1912

Tema: Alfeite

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Almada, reportagem fotográfica Paulo Guedes, c. 1903

Paulo Emílio Guedes (1886-1947), nasceu em Mondim de Basto da Beira a 23 de Março de 1886 e faleceu em Lisboa a 1 de Dezembro de 1947.

Papelaria e tipografia Paulo Guedes & Saraiva, Joshua Benoliel, início do século XX.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Foi fotógrafo de imagens que posteriormente editava em postais ilustrados através da sua firma "Papelaria e Tipografia Paulo Guedes e Saraiva", em 1912 já tinha publicado cerca de mil novecentos postais diferentes.

Os agrupamentos temáticos abrangem panorâmicas de Lisboa, aspectos de rua, feiras, jardins, tipos populares, interiores e exteriores de edificios, acontecimentos sociais e festividades religiosas. Sem nunca ter abandonado a actividade de fotógrafo, trabalhou nos últimos anos da vida como livreiro. (1)

Paulo Emílio Guedes & Saraiva, verso de Bilhete Postal Ilustrado, UPU, década de 1900.
Imagem: Nazaré em Postal Ilustrado

Papelaria e Tipografia Paulo Guedes e Saraiva, Aurea 80, Portugal - Lisboa

Grande empresa editora de B.P.I.´s de grande qualidade e de predomínio fototipico. Como F. A. Martins , utilizou e cedeu clichés de e a outros editores, tendo editado para a província , por encomenda e com clichés de fotógrafos locais.

Conhecem-se-lhe varias colecções editadas , com numeração geral em romano ou em árabe pela ordem crescente e com sub numeração por localidade ou sub-colecções temáticas. A sua colecção geral intitula-se "Portugal " em que sobressaíram reportagens da situação politica e da vida portuguesa. Subdividiu-se em varias sub-colecções ou colecções temáticas.

A edição relativa ao concelho de Almada compreende, que seja do nosso conhecimento, os postais numerados de DCCLXXXV a DCCCVI da colecção geral:

  • 01 Chegada do vapor a Cacilhas
  • Almada, Chegada do vapor a Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 01, década de 1900.
    Imagem: AVM

  • 02 Um desembarque em Cacilhas
  • Almada, Um desembarque em Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 02, década de 1900.
    Imagem: Delcampe, Bosspostcard

  • 03 Pharol de Cacilhas
  • Almada, Pharol de Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 03, década de 1900.
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 04 Chafariz de Cacilhas
  • Almada, Chafariz de Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 04, década de 1900.
    Imagem: Alexandre Flores, Almada antiga e moderna... Cacilhas, Almada, ... 1987

  • 05 Largo do poço em Cacilhas
  • Almada,  Largo do Poço em Cacilhas, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 05, década de 1900
    Imagem: Delcampe

  • 06 Uma das muralhas do castelo
  • Almada, Uma das muralhas do castelo, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 06, década de 1900.
    Imagem: Delcampe

  • 07 O interior do castelo
  • Almada, O interior do castelo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 7, década de 1900
    Imagem: Delcampe

  • 08 Uma das peças do castelo
  • Almada, Uma das peças do castelo,  ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 1, década de 1900.
    Imagem: AVM

  • 09 Lado sul (vista panorâmica com o n° 10)
  • Almada, Lado Sul, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 09, década de 1900.
    Imagem: Delcampe, Bosspostcard

  • 10 Lado norte (vista panorâmica com o n° 09)
  • Almada, Lado Norte, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 10, década de 1900.
    Imagem: Delcampe, Bosspostcard

  • 11 Camara Municipal
  • Almada, Camara Municipal,
    ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 11, década de 1900.
    Imagem: Delacampe

  • 12 Bocca do vento
  • Almada, Boca do Vento, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 12, década de 1900.
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 13 Jardim da Cova da Piedade
  • Jardim da Cova da Piedade, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 13
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 14 Uma Burricada
  • [Cova da Piedade], Uma Burricada, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 14, década de 1900.
    Imagem: Delcampe, Bosspostcard

  • 15 Caramujo
  • Caramujo, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 15, década de 1900.
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 16 Romeira

  • Almada,  Romeira, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 16, década de 1900
    Imagem: Alexandre Flores, Almada antiga e moderna... Cova da Piedade, Almada, ... 1990

  • 17 Largo Lago da Quinta Real do Alfeite
  • Almada,  Largo da Quinta Real do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 17, década de 1900
    Imagem: Delcampe

  • 18 Palácio Real do Alfeite
  • Almada, Palácio Real do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 18, década de 1900
    Imagem: Delcampe

  • 19 Praia do Alfeite
  • Almada,  Praia do Alfeite, Paulo Emílio Guedes & Saraiva 19, década de 1900
    Imagem: Delcampe

  • 20 Cacilhas
  • Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 20, década de 1900.
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 21 Ginjal
  • Almada, Ginjal, Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 21, década de 1900.
    Imagem: Fundação Portimagem

  • 22 n. id.
  • 23 Typos de catraeiros
  • Typos de Catraeiros,
    ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 23, década de 1900.
    Imagem: Delcampe

A extinção da Papelaria Guedes herdeira da firma Paulo Emilio Guedes ocorreu antes de 1922. (2)


(1) Arquivo Municipal de Lisboa
(2) Vicente Sousa, Neto Jacob, Portugal no 1º quartel do século XX documentado pelo bilhete postal ilustrado...,
Bragança, Câmara Municipal, 1985, cf. Nazaré em Postal Ilustrado