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segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A ponte monumental

A architetura exterior dos edificios públicos, das egrejas, dos grandes palacios, é lamentável de banalidade e insulsez: e os modernos quazi todos peores do que os antigos; fóra do manuelino, de que o terremoto deixou poucos bocados, fóra do D. João V, que é um entre Luiz XIV e Luiz XV luxurioso e freiratico, Lisboa não tem nada que vêr-se possa, a não ser o Terreiro do Paço e a jesuitica egreja da Estrela, feita com o dinheiro que o marquez destinava á ponte monumental entre Almada e Lisboa, e o estafermo beato de D. Maria I derreteu em honra dos seus terrores supersticiosos. (1)

Bellisle looking down the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Bonhams

A ideia inadiavel da prolongação das linhas do Barreiro até Cacilhas ou Almada, trazendo os comboios á parte mais estreita do Tejo, frente a Lisboa, a 10 ou 12 minutos de travessia maritima da capital, necessariamente desperta na poderosa Companhia Real (dos Caminhos de Ferro Portugueses) os antigos rancores, pois, realisada a obra, os sonhos do Cetil carriando a Lisboa a mór parte das mercadorias do Alemtejo Medio e Baixo, em fumo vão-se, e visto o desenvolvimento espantoso que este acrescente trará ao Sul e Sueste, não haverá mais meio de pensar em o arruinar e adquirir por tuta e meia (...)

Lisboa — Vista de Lisboa e Tejo, ed. desc., década de 1900.
Delcampe

Mas se é certo que a teimosia dos comerciancites, por bronca, faz suspeitar que por traz d’ela alguma tramoia a Companhia Real fomenta e móve, não menos descabida parece a ancia que teem os engenheiros do Sul e Sueste em querer já construir a estação terminal nos aterros do caes jacente á Alfandega, sem primeiro trazerem a linha a Cacilhas ou Almada, sem prolongamento logico e natural (...) (2)

Lisboa monumental, ilustração, Alonso (Joaquim Guilherme Santos Silva, 1871 — 1948).
Hemeroteca Digital

É do folheto "Ainda a estação fluvial das linhas do sul e sueste" do sr. engenheiro A. Santos Viegas que extracto a enumeração desses projectos:

Em 1888, projecto do americano Lye: vinha a ponte d'Almada ao Thesouro Velho, e ahi ficava a estação de mercadorias do sul e sueste, com entrada pelo Largo das Duas Igrejas [Praça do Chiado]. "A este plano, acrescenta o sr. Santos Viegas, alvitra-se agora acrescentar elevadores que nas alturas do Caes do Sodré transportariam vagões entre a linha superior e a estação da companhia". Custaria de 8 a 10:000 contos.

Em 1889: projecto de Bartissol e Seyring [sic, Seyrig], fazendo da estação do Rocio a testa das linhas sul e sueste, quando ainda a companhia Real pensava d'açambarcar os caminhos de ferro do estado. Custava 9:000 contos, a que opinões meticulosas ajuntam mais 1:000 para expropriações.

Ponte sobre o Tejo, E. Bartissol e T. Seyrig, O Occidente n.° 380, ilustração L. Freire, 1889.
Hemeroteca Digital

Em 1890: projecto do engenheiro Proença Vieira, que iria de'Almada a um ponto ao norte da rocha do Conde de Óbidos, seguindo a linha ferrea até cêrca de Campolide. Custava 7:500 contos mas é possível que chegasse a muito mais, visto haver sítios do rio onde as fundações dos pilares iriam até 60 metros de fundo, e no projecto não se faziam calculos explicitamente rigorosos ácêrca d'essas fundações.

Depois de 1891 houve mais dois projectos. Um, do fallecido Miguel Paes, de todos os expostos o mais sensato sob o ponto de vista de ligação ferroviaria, vinha do Pinhal Novo onde toda a rede do sul se acha reunida n'um tronco unico, o espigão do Montijo, e d'ahi por uma immensa ponte, aos Grillos, fóra da zona de grande navegação do Tejo. N'este sitio, teria a ponte muito menor importancia para a viação ordinária.

A construcção seria mais facil, mas a extensão muito maior, devendo o custo exceder pouco mais de 4:000 contos.


Ponte sobre o Tejo, estudo do engenheiro Miguel Pais, 1872.
Arquivo Municipal de Lisboa

Finalmente o ultimo projecto de travessia do Tejo era a concessão a uma empreza americana, d'uma ponte ara peões, carros, "tramways" electricos e caminhos de ferro, entre Almada e o bairro da Lapa, sem bases porem que permittissem avaliar da sua exiquibilidade.

Elegante projecto da ponte Lisboa Cacilhas,
propaganda republicana, década de 1910.
O Mundo do Livro

O sr. Santos Viegas opina (e nós tambem) que a ideia Julio Vernesca da ponte sobre o Tejo deve deixar-se ás futuras gerações. Não que ella não represente um arrojado e utilissimo melhoramento, mas por ser devorante o custo, e não se devem adiar outras obras mais urgentes, como a da trazida do caminho dez ferro do sul a Cacilhas ou Almada, e fundação da nova cidade da margem esquerda, em que urge desdobrar, o mais rapidamente possivel, a nossa actual Lisboa fabril e commercial. (3)


(1) Fialho de Almeida, "Barbear, Pentear" (jornal d'um vagabundo), 1910
(2) Fialho de Almeida, Idem
(3) Fialho de Almeida, Illustração Portugueza, Lisboa Monumental II, Lisboa, 19 novembro 1906

Artigos relacionados:
Lisboa monumental em 1906
Projecto de travessia do Tejo em 1889
A ponte

domingo, 1 de janeiro de 2023

Os O'Neill e a Quinta da Arealva

Foi o local escolhido por João O’Neill para sua residência, no que foi ajudado pelo Reitor do Colégio Irlandês em Lisboa. A quinta estremava a Nascente com a Quinta do Olho de Boi pertencente a primos da sua mulher D. Valentina Ferreira uma proprietária na Merceana perto de Alenquer.

Vista de Lisboa (tomada da margem sul), Alexandre-Jean Noël.
Cabral Moncada Leilões

Nessa época quase todos os chefes das grandes famílias Irlandesas que não aderiram ao protestantismo e à Coroa Inglesa, foram proscritos e para manter os seus direitos de linhagem viram-se obrigados a sair da Irlanda na esperança de poderem voltar. A ancestral tendência em associar a natureza humana ao resto da natureza levou o povo a apelidar esse movimento de Flight of the Wild Geese — voo dos gansos bravos — pela semelhança com o regresso das aves migratórias ao seu ponto de partida.

A dúvida quanto à probabilidade da criação de condições que tornassem o regresso útil levou muitos destes lideres emigrados, a procurar soluções mais duradouras que, tirando partido da sua experiencia, dos seus hábitos e da sua visão especial da vida, se lançassem em actividades em que tivessem um fac- tor diferenciador positivo em relação aos seus concorrentes.

A produção e distribuição de vinho e de bebidas alcoólicas em cuja avaliação eram peritos, foi naturalmente uma das principais escolhas. O afinado sentido de humor dos irlandeses levou-os a apelidar estes líderes emigrados “Wine Geese” os gansos do vinho.

A nossa família obteve as duas qualificações: Wild Geese pela saída de Felim O’Neill para França à frente do regimento O’Neill da Brigada Irlandesa e Wine Geese devido à montagem pelo seu neto Shane ou João na Quinta da Arealva de uma adega e um negócio de compra e venda de vinhos, que mais tarde evoluiu para a exportação de vinhos para os Estados Unidos em colaboração com Charles, seu irmão, que veio mais tarde para Portugal armando um navio “João e Carlos” especialmente destinado a este transporte e que usava o ainda existente cais da Quinta para a carga e descarga dos vinhos.

Os vinhos foram ganhando fama tendo João recebido a visita de Giuseppe Baretti, um homem de letras e um desfrutador da vida, que o visitou em 1760 assinalando a sua visita numa das suas obras, onde descreve o cais, a qualidade dos vinhos e a elegância da adega e da quinta. (1)

E foi uma felicidade que aquele senhor negociante de vinhos que se chama O'Neal, usasse para commigo de tanta cortezia quanta vilania tinha praticado o velho doutor da tal mulher nova, o qual apenas quiz consentir que eu depenicasse um cacho das suas vinhas, que todavia estavam carregadíssimas d'elles.

Retrato de Giuseppe Baretti (1719-1789) por Joshua Reynolds.
Wikipedia

Deu-me com liberalidade o sr. O'Neal a beber quanto eu quiz, e fez-me provar mais qualidades de vinhos muito estimados, e aos meus suados barqueiros deu tambem um garrafão, pondo ainda dificuldade em deixar metter algum dinheiro no bolso de um seu pequeno.

Aquelle cavalheiro tem a sua casa protegida do rio por uma espécie de molhe construido de grossos penedos, e, tendo eu subido a esse molhe, recreei-me de ver dois escravos da Guiné, mais pretos do que pez nadarem no rio, e darem viravoltas e saltos na agua, e mergulhos, que era um regalo vel-os; e, a troco de alguns cobres que lhes dei, armaram uma dança sobre as ondas, cantando á sua moda, ora mergulhando, ora pulando de todo no ar. de modo tão assombroso, que seria mais facil agarrar uma enguia pelo rabo. (2)

Quinta da Arealva (detalhe)
Margarida Bico

Valentina Ferreira morre em 1766 e João O’Neill resolveu construir em sua memória uma ermida a que deu o nome de S. João Baptista, padroeiro de Almada. Aí casou a sua filha Maria com Brian Lynch em 1774. Em 1786 dois dos seus filhos puseram-lhe uma acção de partilhas e obtiveram do tribunal a posse provisória da Quinta.

João O’Neill morreu em 1788 e após a sua morte a casa e quinta passaram para a sua filha Maria que a vendeu em 1813 a João Luis Lourenço (...) (3)


(1) António Cunha Bento, Inês Gato de Pinho, Maria João Pereira Coutinho, Património arquitectónico civil de Setúbal e Azeitão, 2019
Occidente n.° 625, 5 de maio de 1896
António Cunha Bento, Inês Gato de Pinho, Maria João Pereira Coutinho, Idem

Artigo relacionado:
Almada em 1760

Informação relacionada:
Lugares de Almada: Da Fonte da Pipa à Arialva, passando pelo Olho de Boi
Andrew Shepherd, The O’Neills of Portugal, 2020

sábado, 9 de julho de 2022

O prédio azul

À beira cais, sobressaía o imponente prédio construído na década de 1850, com a sua fachada frontal forrada de azulejo azulado por debaixo do qual através da entrada pela porta com o no 52, se tinha acesso não só à habitação do primeiro piso mas também acesso por outra porta ao espaço existente no piso térreo, onde em tempos existiu a Taberna do “Luis dos Galos”, para além da escadaria ao fundo do corredor por onde se chegava ao Pátio do Ginjal.

O prédio azul no Cais do Ginjal.
O Pharol n° 47, dezembro 2021

Todo o 1° piso do prédio destinado a habitação constituía um só fogo com 8 assoalhadas e nele residia o encarregado dos armazéns e sua família. Anos mais tarde, no início da década de 1930, a firma CR&F, procede à mudança dos seus armazéns para outro local situado mais além na direcção poente do cais do Ginjal. Com a deslocação do encarregado, todo o 1° andar ficou vago, vindo a ser arrendado a uns inquilinos que nele instalaram a “Pensão Bom Gosto” que ali funcionou até ao limiar dos anos 50.

 O prédio azul no Cais do Ginjal.

Com o encerrar da pensão, a empresa proprietária do imóvel, decidiu proceder a obras de remodelação do 1° piso, de modo a adaptá-lo para duas habitações sendo aberta na fachada defronte ao cais, uma porta com o n° 50, pela qual se subia por escada, ao 1° Esq°, enquanto a habitação do 1° Dt° manteve a antiga entrada pela porta localizada ao início do interior do corredor do Ginjal. (1)

maria bello, cais do ginjal, portugal, 2008

Em breve descrição, e segundo o testemunho de Júlia Capelo, o Pátio do Ginjal, situava-se nas traseiras do prédio sobranceiro ao rio, distribuído numa plataforma elevada junto ao sopé da escarpa da arriba fóssil.

Confinava com um outro patamar mais elevado, a que chamavam Quinta do “tio João” também com algumas casas onde viviam duas figuras populares do Pátio: o “tio João do Ginjal” e o “António Pescador” com sua família.

A Quinta do Tio João.
O Pharol n° 47, dezembro 2021

O seu acesso ao Pátio, era feito pela entrada do no 52 no cais do Ginjal, seguindo-se um corredor que finalizava em escadaria de pedra a que se seguiam dois lances de degraus em madeira até se chegar ao Pátio.

Corredor do Ginjal. De regresso, Manuel Abranches, 1953.
Plano Focal n° 4, Hemeroteca Digital de Lisboa

Há referências que desde o séc. XVII, já neste local existia um núcleo de pequenas habitações ocupadas por gente ligada sobretudo à faina de pesca no rio Tejo. (2)


(1) Luis Bayó Veiga, Maria Julia... O Pharol n° 47, dezembro 2021
(2) Idem

Tema: Ginjal

Leitura relacionada:
O Pharol n° 34, O Ginjal “porta a porta” 1a parte: Da “Fonte da Alegria” ao “Grémio”
O Pharol, n° 35 O Ginjal “porta a porta” 2a parte: Do “Grémio” ao “Corredor do Ginjal”
O Pharol n° 36, O Ginjal “porta a porta” 3a parte: Do “Corredor do Ginjal” ao “Ponto Final”

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Conductor: rebocador (e cacilheiro) a vapor

Luís Ascêncio Tomasini (1823-1902) é o nome desse pintor, que foi, de profissão, capitão de navios e nos deixou uma obra notável. A tela que reproduzimos, está datada de 1887 e tem um interesse especial porque representa uma cena que não temos visto na pintura do século XIX.

Rebocador de vapor com o brigue entrando no Tejo (detalhe), Luís Ascêncio Tomasini, 1887.
Museu de Marinha

Como é sabido, a utilização do vapor na propulsão dos navios, constituiu um enorme salto tecnológico, em relação à navegação à vela, porque passou a ser possível fazer viagens cumprindo datas de largada e de chegada, independentemente de haver ou não vento e, mesmo, quando o houvesse, nem sempre era favorável.

Em Portugal tivemos o primeiro navio de passageiros em 1819 mas, na Marinha de Guerra, o vapor só entrou ao serviço em 1833. (1)

* * *

REGATA NO TEJO PROMOVIDA PELA REAL ASSOCIAÇÃO NAVAL

Realisou-se no dia 21 do mez que findou, a regata no Tejo promovida pela Real Associação Naval, conforme é costume nos mais annos, e á obsequiosa collaboraçáo do sr. José Pardal devemos o poder publicar hoje um desenho d'esta festa.

A regata no Tejo no dia 21 de agosto promovida pela Real Associação Naval
(Desenho do natural, pelo artista amador sr. José Pardal)
O Occidente n.° 313, 1 de setembro de 1887

A regata effectuou-se no Dáfundo em presença de sua magestade el-rei D. Luiz, que de bordo do seu yacht de recreio Syrius assistiu ás corridas dos barcos. Muitos vapores, fragatas e barcos de recreio embandeirados conduzindo grande numero de espectadores assistiram á festa.

Viam-se alli o vapor Dragão de S. M. El-rei D. Luiz, os yachts Amelia de S. A. o Principe D. Carlos, o Aura de S. A. o Infante D. Alfonso, e o Gypsy, Surpreza, Gwendoline, Irene, Iris, Gavina, Relampago, Hilda, Ninni, e o escaler a vapor do yacht francez Velox que estava no Tejo com o seu proprietario barão E. Boissard de Bellet, do Havre, que representava o Yacht Club dc França.

Os socios da Real Associação Naval com suas familias iam a bordo do Conductor, onde tocava charanga da armada.  

Vapor de pás Conductor, festival náutico no Tejo 1888/1889.
Museu de Marinha (digital)

Pelas 3 horas principiaram as corridas por duas guigas de quatro remos tripuladas pelos alumnos do collegio Arriaga, sendo a primeira, a Sereia tripulada pelos srs. Raul Borges, Ignacio Avellar, Arthur Fortes e Voga José Gd, tendo por timoneiro a sr.a D. Maria da Camara Arriaga, e a segunda a Attempt, tripulada pelos srs. Alfredo Pereira, Raul Garcia, José de Freitas e Voga José de Sousa, tendo por timoneira a sr.a D. Maria da Gloria Loureiro... (2)

Conductor (1880).
Conductor National Maritime Museum, Greenwich, London

Name: CONDUCTOR
Launched: 1879
Completed: 01/1880
Builder: Joseph T Eltringham, South Shields
Yard Number: 87
Dimensions: 150grt, 31nrt, 117.6 x 19.6 x 10.3ft; (1892: 165grt, 10nrt); (1914: 165grt, 63nrt)
Engines: 2 x SL1cyl (30.5 x 54ins), 90nhp; (1892: 62nhp, 11.5knots)
Engines by: Hepple & Co, South Shields
Propulsion: Paddle
Construction: Iron
Reg Number: 81606


History:
17/01/1880 William Hepple, South Shields; registered at London
01/1880 John Mitchell, Gravesend
07/1880 Frederico G Burnay, Lisbon; registered at Lisbon
19/05/1892 Sunshine Steam Tug Co (Adolph Gottschalk & Joseph Stuart managers), Liverpool
19/05/1892 Registered at Liverpool
03/1901 The Steam Tug Conductor Ltd (Adolph Gottschalk & Joseph Stuart managers), Liverpool
03/1914 Joseph John King & Sons Ltd, Garston
06/1914 William Cooper & Sons Ltd, Widnes
1929 Broken up


Comments: 1881: Stationed at Lisbon, Portugal

29/12/1899: Beached at Egremont, Wallasey, on the Wirral, following a collision

02/01/1900: Refloated and placed in Clover’s Dry Dock at Birkenhead

01/1923: Converted to a dumb dredging barge (151grt, 131nrt) (3)



(1) Revista da Armada n.° 385, abril de 2005
(2) O Occidente n.° 313, 1 de setembro de 1887
(3) Tyne tugs and tug builders

Mais informação:
ALERNAVIOS: «CONDUCTOR»

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Ode marítima (perto do outro lado do rio)

Lisboa. Vista panorâmica (8049 ed. desc.).
Delcampe

Ah, como pude eu pensar, sonhar aquelas coisas?
Que longe estou do que fui há uns momentos!
Histeria das sensações — ora estas, ora as opostas!
Na loura manhã que se ergue, como o meu ouvido só escolhe
As coisas de acordo com esta emoção — o marulho das águas,
O marulho leve das águas do rio de encontro aos cais...,
A vela passando perto do outro lado do rio,
Os montes longínquos, dum azul japonês,
As casas de Almada,
E o que há de suavidade e de infância na hora matutina!... (1)
.  

Vista de Lisboa e Tejo (ed. desc.).
Delcampe


(1) Álvaro de Campos, Ode marítima, 1ª publ. in Orpheu, nº2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Ninette

O baptismo do "inrigger" do Ginásio Clube do Sul, construído em Cacilhas [...]

Inrigger do Ginásio Clube do Sul, Ninette, Baptismo, 1926.
Museu de Marinha

Foi-lhe atribuído o nome de "Ninette".

Inrigger do Ginásio Clube do Sul, Ninette, Baptismo, 1926.
Museu de Marinha

A cerimónia a que assistiram várias individualidades realizou-se pelas 14 horas do dia 14 de março de 1926.

Inrigger do Ginásio Clube do Sul, Ninette, Lançamento à água, 1926.
Museu de Marinha

Lançamento à agua em Cacilhas do inrigger "Ninette" [...]

Inrigger do Ginásio Clube do Sul, Ninette, Lançamento à água, 1926.
Museu de Marinha

Construido no Ginjal, no estaleiro do desportista Augusto Salgado, que também dirigiu a respectiva construção.

Inrigger do Ginásio Clube do Sul, Ninette, Treino no Rio Tejo, 1926.
Museu de Marinha

Tripulações de embarcações do Ginásio Club do Sul, treinando-se no rio Tejo. É a "Ninette". (1)

Inrigger do Ginásio Clube do Sul, Ninette, Treino no Rio Tejo, 1926.
Museu de Marinha

Prova de mar da guiga "Ninette", do prestigiado Ginásio Clube do Sul, descendo o Tejo, entre a antiga Fábrica Symington & C.ª e o Farol de Cacilhas, em 14 de Março de 1926. 

Inrigger do Ginásio Club do Sul, Ninette, reprodução de foto original de F. Santos (1926).
Colecção de Alexandre Flores

Na imagem, da esquerda: António Carbone, Tomaz Raimundo da Silva, Hernâni Jorge da Silva, Manuel da Luz "Maçangão" e Augusto Salgado.

Com a modalidade do remo, o Ginásio Clube do Sul obteve uma série de triunfos dignos de menção, entre os quais: a "Grande Travessia de Lisboa" (1929), onde a equipa de remadores estabeleceram o "record" de fundo de 9. 260 mil milhas; a valiosa taça "Dr. Manuel de Arriaga", disputada em "in-riggers" de 4 remos, durante 4 anos consecutivos; o campeonato de "out-riggers" de "g", na Figueira da Foz (11 de Setembro de 1927), onde a equipa apenas com um treino na véspera da corrida, com um barco emprestado da Associação Naval 1.º de Maio da F. da Foz, alcançou o 1.º lugar. 

A equipa vencedora do Campeonato Nacional do Remo na Figueira da Foz era constituída por: António Carbone (timoneiro), João Jurado (voga), Domingos R. Pinto (7), António Nunes (6), José Antunes (5), Carlos Henriques (4), Hernâni Jorge da Silva, Aurélio Joaquim (2) e Américo Morais. (1)

(1) Museu de Marinha
(2) Alexandre Flores

Artigo relacionado:
Ponte dos vapores da Trafaria

Leitura relacionada:
Fernando Barão, Henrique Mota, Ginásio Clube do Sul - 75 Anos de Glória, 1995

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Álvaro e Pedro, no Tejo (1977-1983)

Álvaro Martins Homem (1941), Argus (1983-94). Arrastão de aço, construído no estaleiro da Companhia União Fabril, Lisboa (C107), em 1941, para SNAB, Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau.

"Estuário do Tejo - Cais do Olho de Boi 1984 - 3 atuneiros da Empresa de Pescado do Algarve; 4 arrastões da CPP da classe ALMADA; 4 arrastões da SNAPA da classe ILHA DE SÃO VICENTE; os arrastões PEDRO DE BARCELOS e ÁLVARO MARTINS HOMEM, da SNAB" cf. Navios à vista, edição Santuário do Cristo-Rei, Henrique Santos

Custou 6.285.345$92, equipado e com o motor foi avaliado em 10.835.345$92. Foi registado em Lisboa a 12 de Julho de 1941, com o nome de Álvaro Martins Homem, com o número G419 e com o indicativo CSGV.

Arrastão Álvaro Martins Homem entra em Leixões nos anos cinquenta.
Os Arrastões do Bacalhau (1909-1993)

O navio tinha 1.250,15 tab e 623,26 tal. O casco tinha de comprimento 65,70 metros, 71,13 de comprimento ff, 11,04 de boca, 5,00 de pontal e 5,23 de calado. Estava equipado com um motor Diesel, marca Fairbanks-Morse, tipo 37D16 fabricado em 1940, de 7 cilindros, a 2 tempos e com a potência de 950 HP. 

Aspecto inicial do arrastão Álvaro Martins Homem.
Os Arrastões do Bacalhau (1909-1993)

Com um hélice, o navio atingia a velocidade de 11 nós. Dispunha de tanques para 392 m3 de Diesel Oil e capacidade para 1.314,6 m3 de peixe salgado, ou sejam 18.008 quintais de bacalhau.

Arrastão Álvaro Martins Homem.
Baseado no desenho nº1154 dos estaleiros Navais da CUF, 1939, existente Museu de Marinha
Os Arrastões do Bacalhau (1909-1993)

Era tripulado por 8 oficiais e 64 outros tripulantes. Realizou a primeira campanha em 1941, capitaneado por José Nunes de Oliveira. Foi autorizado a realizar viagens de comércio de 14 de Setembro de 1942 a 15 de Fevereiro de 1943. A 8 de Janeiro de 1946 recebeu o número LX-10-N320. Em 23 de Fevereiro de 1956 as arqueações passaram a ser 1.256,43 tab, 596,91 tal e 1.510 tm de porte. Foi suprimida a capacidade de arrasto a bombordo e substituído por alojamentos em 1964?. O parque da pesca foi coberto em 1971?. As arqueações passaram a ser 1.250,15 tab e 623,26 tal.

Sociedade de Reparações de Navios, Lda.
Duas Pátrias, julho de 1954

A partir de 1977 foi imobilizado no Tejo aguardando a transformação para a pesca com redes de emalhar. Em 23 de Março de 1983 foi adquirido pela Parceria Geral de Pescarias, Lda.

Arrastão Álvaro Martins Homem no Cais do Ginjal.
Arquivo Municipal de Lisboa

Em 28 de Setembro de 1983 foi registado em Ponta Delgada com o nome de Árgus e com o número PD-449-N. Foi transformado em navio de pesca com redes de emalhar com quatro lanchas e parcialmente congelador em 1989 para 223 toneladas, para a qual foi pedido um subsídio321. Apesar da modificação, manteve os aros de arrasto e o guincho. Em 6 de Setembro de 1989, foram averbadas as arqueações 1.255,26 tab e 586,26 tal. Voltou à pesca em 1989, capitaneado por Armando Vieira Lau. A 7 de Setembro de 1993 regressou da última viagem. Foi demolido em Alhos Vedros. O registo foi cancelado em 5 de Abril de 1994. (1)

Pedro de Barcelos (1945), Labrador (1983-1993). Arrastão de aço construído no estaleiro da Companhia União Fabril (C118) em Lisboa, em 1945, para a SNAB, Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau.

Arrastão Pedro de Barcelos a pescar nos anos cinquenta. já equipado com radar.
Os Arrastões do Bacalhau (1909-1993)

Foi lançado em 12 de Maio de 1945, juntamente com o João Álvares Fagundes. Custou 7.011.150$00, equipado e com o motor foi avaliado em 18 mil contos. Foi registado em Lisboa em 7 de Agosto de 1945, com o nome Pedro de Barcelos, com o número LX-17-N e com o indicativo CSDL. O navio tinha 1.269,45 tab, 660,27 tal e 1.430 tm de porte bruto. O casco tinha de comprimento 66,05 metros, 71,45 de comprimento ff, 64,00 entre pp, 11,03 de boca, 5,00 de pontal e 5,45 de calado. Estava equipado com um motor Diesel, marca Mirrless, com o nº 5882/42, fabricado em 1944, de 8 cilindros e com a potência de 950 HP a 250 rpm. Com um hélice de 4 pás, o navio atingia a velocidade de 11 nós. Dispunha de tanques para 431 m3 de Diesel Oil e capacidade para 1.327,4 m3 de peixe salgado, ou sejam 18.183 quintais de bacalhau.

Era tripulado por 7 oficiais e 66 outros tripulantes. Realizou a primeira campanha 1945, capitaneado por José Nunes de Oliveira. Foi instalado um novo motor Diesel em Halifax, da marca Cooper-Bessemer tipo LS8DR, nº 3861, fabricado em 1947, de 8 cilindros e 300 rpm. Com 1.000 BHP e 12 nós de velocidade. O motor original foi montado no navio de pesca à linha Sam Tiago então em construção para a SNAB. Em 2 de Maio de 1953, foram averbadas as alterações do aparelho motor. Em 8 de Maio de 1964, foram averbadas as seguintes alterações, resultante do fecho da borda a bombordo a ré, 1.399,31 tab e 736,88 tal. O motor passou a sobrealimentado e com 1.320 BHP. Em 15 de Junho de 1976 foram averbadas as arqueações, resultante do fecho do parque de pesca, para 1.458,24 tab e 781,39 tal.

Foi imobilizado no Tejo em 1977, após incêndio que lhe destruiu a ponte. Não voltou a navegar. Foi vendido à Parceria Geral de Pescarias em 26 de Março de 1983.

Sociedade Nacional dos Armadores de Bacalhau.
Duas Pátrias, julho de 1954

Foi registado em 28 de Setembro de 1983 em Ponta Delgada como Labrador e com o número PD-450-N e com as novas arqueações, 1.299,80 tab e 662,86 tal. Foi pedido um subsídio para modernizado e conversão em navio para a pesca com redes de emalhar. A quota de pesca na NAFO, deste navio foi usada pelo Neptuno. Foi pedido o seu abate 1986330. Em 25 de Maio de 1993, foi considerado demolido, por Baptista & Irmão, Lda. (2)

(1) Ricardo Lisboa da Graça Matias, Os Arrastões do Bacalhau (1909-1993)
(2) Idem

Artigos relacionados:
O Grémio
Sítio de Olho-de-Boi

Mais informação:
Pedro de Barcelos (Museu Maritimo de Íhavo)
Álvaro Martins Homem (Museu maritimo de Íhavo)
Frota da pesca do bacalhau em 1946
A pesca do bacalhau, Duas Pátrias, julho de 1954

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O grande Peixe

O grande Peixe, que entrou neste porto a semana passada, se não tem certo conhecimento da sua especie, Alguns entendem ser huma Bufalina, a que os Francezes dão o nome de "Soufleur", id est, Assoprador, outros que seja certa especie da Balea a que os Hollandezes charnam Kapeku; mas como a sua figura é differente da Balea, e de qualquer outro peixe conhecido, se espoem aqui em estampa aos curiozos som as medidas de todos os teus membros, e huma breve de descripção da sua estructura com mais certeza, que a semana passada.

Embouchure de la Rivière Du Tage, Nicholas De Fer, 1710.

Tinha este Peyxe 87. palmos de comprimento, e na sua mayor grossura 43. de circunferencia, que por ser perfeitamente redondo, teria dc alto 14. e hum terço. Na parte onde acaba a barbatana do espinhaço tinha 14. de circunferencia. Desde alli hia diminoindo com figura chata até grossura de 2. palmos e meyo somente, e na parte mais delgada começava e rabo, deitado, e não ao alto como os outros peixes com 4. palmos de comprido, e 7. em circunferencia, acabando em duas pontas como os das Andorinhas com exensão de 18. palmos.

Lisabona, Ankunfft Konigs Caroli des III in Hispan zu Lissabon..., 1704.
ZVAB

A cabeça era de notavel grandeza. O rasgado da boca tinha 15. palmos , e toda a círcunferencia della 6o. Seis homens metidos em pè dentro na sua concavidade parecia occuparem puma pequena parte della; o queixo de cima acabava tomo unha de ancora, e era guarnecido em lugar de dentes dc 644. barbas, que principiavaõ com meyo palmo , e acabavaõ em dous e meyo junto ao canto da boca. As de diante occupavão 5. palmos de cada lado, e erão brancas em numero de 294. As que occupavão os dez palmos ate  junta dos queixos, erão 350. e tiravão a cor dc chumbo, como a do mesmo Peyxe.

A parte superior da concavidade da boca tinha huma especie de sedas como de Javali, quasi brancas, com hum terço dc palmo de comprimento, e no meyo huma fórma dc quilha, que continuava da ponta da boca até a goela, branca, e liza, com meyo palmo de largo , e outro tanto de grosso, mas adelgaçando no meio acabava com dous palmos de largura. A parte era liza, e da cor do mesmo Peyxe. No alto da cabeça tinha duas ventas, ou buracos por onde respirava com dous palmos e meyo de comprido. Cada hum dos olhos tinha hum palmo de diametro e contavam-se 13. entre hum, e outro.

Vista de Lisboa e fantasia da margem sul do Tejo, Martin Engelbrecht segundo Friedrich Bernhard Werner, 1750.
AbeBooks

Sobre o lombo tinha huma barbatana de palmo e meyo de alto, coai dous e tres quartos de comprido, e desta até o rabo havia 17. e meyo de distancia. Tinha nas ilhargas duas azas de 11. palmos de extensão cada huma, as quaes distavão 9. e meyo do canto da boca. Desde os queixos pela parte da barriga tinha 33. listas brancas, e entre ellas outras tantas meyas canas cor dc chumbo, com que fazião 66. as quais acabavão todas em fórma pyramidal no embigo, que se distinguia com huma concavidade de meyo palmo, e havia sete e meyo ate a via da propagação, a qual mostrava ser femea, e tinha dous palmos e meyo de comprido, e de cada parte huma mamadeira, ou teta de palmo com seu bico no meyo.

Vista norte de Cacilhas. Em primeiro plano ao lado esquerdo, dois marinheiros carregam cestos a partir de uma barcaça, com a inscrição 'JWells Aqua', para o convés de um ferry-boat onde uma mulher e dois homens aguardam. Do lado direito um barco transporta um passageiro abrigado por um dossel e seis remadores. Vista da igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso, do porto e do lugar de Cacilhas. A bandeira inglesa sobre o hospital. Ao fundo, veleiros no rio Tejo.
in British Library 
Cabral Moncada Leilões

A via do excremento tinha hum palmo. A guela hum quarto de palmo de diametro , e della para a boca lhe cahião sobre o queyxo dc bayxo humas pelles como redenhos de perto de dous palmos e meyo brancas, encarnadas, e vermelhas, ou tirantes a roxo. A pelle era delgada, e tão mimosa que com pouca força, que se lhe applicava, a destazião.

Baleia de bossa, infograma publicado na Gazeta de Lisboa Occidental, 21 de janeiro de 1723.

Dizem que havendo entrado neste rio discorrera por elle até sitio da Madre de Deos, donde voltára para a vizinhança de Cassilhas, e que se chegára tanto a terra, que enraiando-se entre huns grandes penedos, não pudera sahir deles, e vacando a maré, se achára em seco, e forão tão grandes os urros, que dava de se ver fóra da agua, que atemorizou os moradores naquelle destrito. (1)


(1) Gazeta de Lisboa Occidental, 21 de janeiro de 1723

quarta-feira, 13 de junho de 2018

terça-feira, 15 de maio de 2018

Sítio de Olho-de-Boi

Parece que não será no edificio do sr. Raton, mas na Outra-banda, no sitio de Olho-de-boi, que a companhia de "Fiação e Tecidos" vai estabelecer a sua fábrica. N'este último local esteve a fábrica de "lanificios de patente" [panos de feltro?], empresa que está em liquidação.

Olho de Boi, João Vaz, 1887.
Imagem: MNSR

Em qualquer sitio porém que a companhia de "Fiação e Tecidos" se estabeleça, fazemos votos pela sua prosperidade. (1)

Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense [fundada em 1838], armazéns, rua dos Fanqueiros 135, Lisboa.

Fonte da Pipa — Almada,
Olho de Boi, ed. desc.,década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Tecidos de algodão. Esta companhia tem três fábricas: duas em Santo Amaro, Belem, para a fiação e tecelagem; uma em Olho de Boi, Almada, para a fiação e tinturaria.

Operários (durante as épocas normais): 285 do sexo masculino e 465 do sexo feminino.

Salários: de 280 réis a 800 réis por dia para os homens; de 420 réis a 240 réis por dia para as mulheres; de 80 réis a 460 réis por dia para os menores.

Produção anual: 385 contos de réis mais ou menos. Escoamento: os de Portugal e colónias de África, Brasil e Espanha.

Almada, Boca do Vento, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 12, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Medalhas nas esposições de Lisboa 1849, Porto 1861, Lisboa 1863, Londres 1861, Londres 1862, Paris 1855, Porto 1865. (2)

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CPP (Companhia Portuguesa de Pesca, Lisboa)

E em 1947, no Sábado sem Sol, evocara a fábrica de gelo para os frigoríficos de bordo, com aquela ponte em cimento tracejada de rails para vagonetas... Também o relógio da torre, em Almada, e as cinco badaladas no bronze do sino, logo o apito para a saída do pessoal da Companhia Portuguesa de Pesca. (3)

Olho de Boi, Companhia Portuguesa de Pesca, Amadeu Ferrari, década de 1940.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A Companhia Portuguesa de Pesca foi fundada no ano de 1920 por quarto pequenos armadores de pesca de arrasto, cada um proprietário de um navio.

Tipo de arrastão a vapor do início do séclo XX.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Esta Companhia surgiu num contexto de expansão da indústria conserveira e piscatória.

Inicialmente, os navios dedicados unicamente à pesca por arrastão costeira funcionavam a partir do cais de Santos, na margem norte, em Lisboa. devido ao pouco espaço na margem direita do rio Tejo, por estarem já implantadas algumas das importantes unidades fabris e devido à manutenção e aparelhagem dos navios, a direcção decidiu que era necessário construírem infra-estruturas de apoio.

Arrastões da Companhia Portuguesa de Pesca, Alcatraz e Liberal Primeiro, na Doca 1 da C.U.F., em Lisboa.
Imagem: Caxinas a freguesia

O local escolhido foi a margem esquerda, no Olho de Boi em Almada.

Numa primeira fase, foi celebrado um contrato de aluguer com a Administração Geral do Porto de Lisboa para a zona ribeirinha na margem sul, que ia desde o início do caminho para Almada até à Quinta da Arealva.


Nesta zona encontrava-se já uma muralha, que permitia a acostagem dos arrastões. Esta foi alargada mais tarde com a construção de um cais, assente em pilares, que avançou umas dezenas de metros em relação à estrutura existente, sendo assim possível atingir área profunda e portanto mais favorável à manobra das embarcações.

Lançamento à água do arrastaõ Almada em 1953.
Foram gémeos do Almada na Companhia Portuguesa de pesca os arrastões Alfama, Ajezur, Alvalade e Alfeite.
cf. Navios à vista

A escolha deste local deve-se também ao facto de se encontrar aí um edifício desactivado, que pertencera à Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonenses, passando este edifício a ser a zona de mecânica da CPP e o pólo das restantes estruturas fabris posteriormente construídas.

Olho de Boi - Beira Tejo, Manuel Tavares, aguarela sobre papel, 1960
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Esta fábrica era uma das unidades industriais cujo aparecimento na segunda metade do séc. XIX foi um dos marcos da industrialização na margem sul.

Navios no cais do Ginjal, Real Bordalo, 1976.
Imagem: eBay

A CPP adquiriu este edifício, assim como algumas quintas contíguas, que se estendiam entre a orla ribeirinha e a arriba.

Cais do Ginjal, arrastões Algol e Alcoa da CPP, 1984.
Imagem: Nuno Bartolomeu

Alguns anos mais tarde a companhia expandiu-se ao longo da zona ribeirinha, para Este, até ao cais da Fonte da Pipa [...] (4)

"Estuário do Tejo - Cais do Olho de Boi 1984 - 3 atuneiros da Empresa de Pescado do Algarve; 4 arrastões da CPP da classe ALMADA; 4 arrastões da SNAPA da classe ILHA DE SÃO VICENTE; os arrastões PEDRO DE BARCELOS e ÁLVARO MARTINS HOMEM, da SNAB / foto de autor desconhecido, gentilmente cedida por Nuno Bartolomeu."
cf. Navios à vista
Resolução do Conselho de Ministros n.º 30/84

Pelo Decreto-Lei 139/84, foi extinta a CPP - Companhia Portuguesa de Pesca, S. A. R. L., tendo o Estado exercido o direito de reserva relativamente a alguns bens do património da empresa, abrangendo navios, participação financeira e direitos de crédito, com a possibilidade de os mesmos serem afectos a outras empresas [...] (5)

Art. 5.º - 1 [Decreto-Lei 139/84]- Ao abrigo do n.º 2 do artigo 44.º do Decreto-Lei 260/76, de 8 de Abril, o Estado reserva, do património da empresa, o seguinte:

1.º - Navios:
a) Aldebaran - Lx-39-A;
b) Alcoa - Lx-30-A;
c) Alcyon - Lx-51-A;
d) Algol - Lx-32-A;
e) Algenib - Lx-41-A;
f) Alvalade - Lx-65-A;
g) Alfeite - Lx-67-A;
h) Alcântara - Lx-19-A;
i) Almada - Lx-57-A;
j) Alcaide - Lx-71-A;
l) Alfama - Lx-59-A;
m) Aljezur - Lx-63-A. [...] (6)


(1) Revista Universal Lisbonense n.° 12, setembro de 1845
(2) Catalogue spécial de la section portugaise à l'Exposition universelle de Paris en 1867
(3) Vidas Lusófonas: Romeu Correia 
(4) Almada Digital
(5) Resolução do Conselho de Ministros 30/84, de 7 de Maio
(6) Decreto-lei 139/84, de 7 de Maio

Artigos relacionados:
O Grémio

Mais informação (Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense):
Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense : relação dos seus accionistas... 1872
Revista da exposição portugueza no Rio de Janeiro em 1879

Mais informação (CPP - Companhia Portuguesa de Pesca, Lisboa):
Flickr (FCG), Pescas, Mário Novais
Companhia Portuguesa de Pesca (entrevista a Augusto Ramos)
Companhia Portuguesa de Pesca (entrevista a Augusto Ramos - tabela de excertos)
Restos de Colecção: Companhia Portuguesa de Pesca
Marinha (arquivo histórico)
Navios à vista: o abalroamento do arrastão Alvor
Blogue dos navios e do mar: Fishing vessel Blue


Leitura adicional:
50 anos da Companhia Portuguesa de Pesca, "Jornal do Pescador", Agosto 1970, pp 25-27.
Os Arrastões do Bacalhau



Sobre o Açor e o Alda Benvinda (os primeiros barcos de pesca a vapor em Portugal):
Momentos de História
Agepor 11