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segunda-feira, 29 de abril de 2019

Almada e Val de Piedade no diário de Dorothy Quillinan

Seja o que for que tenha provocado o ataque de Byron contra os portugueses parece ter dissipado a raiva do seu sistema, pois fez anjos dos espanhóis, no seguinte passo das suas viagens. Com contrariedade específica à troça de Byron, Dorothy Quillinan, filha de Wordsworth, determinou-se "ajudar a remover os preconceitos que fazem de Portugal uma terra a evitar". A sua permanência em Portugal em 1845 foi registada num diário. (1)

Doroty Quillinan (Dora Wordsworth) (1804-1847).
The Times

*     *
*

Tomámos novamente um barco em Belém e fomos a remos até Almada, no lado oposto do rio. Aqui deixámos os nossos barqueiros, que receberam contentes a soma que tinhamos combinado por nos trazerem tão longe, e por isso lhes demos um pouco mais, "para beber"; subimos a calçada inclinada, a qual se dirige, com belas vistas abaixo e além do rio, para a pequena vila, onde as ruas são sujas, tal como Mr. Southey [Robert Southey] descreve as de Lisboa como tendo sido meio século atrás.

Vista de Lisboa tomada da margem esquerda do Tejo, Joseph Fortuné Séraphin Layraud, 1874.
Musée Saint-Loup, Troyes, no flickr

Pedi para ser levada a uma venda pobre, mas de aparência limpa, e aqui fomos servidos por um belo jovem, de modos superiores à sua condição, que nos trouxe água fresca, serviu-nos vinho do barril, e pôs diante de nós laranjas, mais do que aquelas que pedimos  — laranjas com folhas verdes frescas agarradas  — trouxe-nos facas e pratos, e então, como um verdadeiro cavalheiro  — pois há cavalheiros da moda na natureza  — deixou-nos comer o nosso almoço imperturbados pela sua presença  — deixou-nos na sua loja, o seu balcão a nossa mesa, na qual, num extremo, estavam empilhadas laranjas, garrafas diversas, etc. no outro, atrás do balcão, estavam vários barris grandes de vinho, e alguns, mais pequenos, nas prateleiras acima.

A sala continha pouco mais mobília — nada, creio, excepto um pequeno banco de madeira, que o mestre tirou da parede para nos sentarmos; as paredes não tinham reboco, o telhado sem tecto, o chão de terra batida; a casa apresentava um contraste com o dono que nunca encontraria em Inglaterra.

A princípio, as laranjas não estavam incluídas na sua "conta" e, quando insistimos em pagá-las, "o total de tudo" era de cerca de três "pence" ingleses. Ele saiu para a rua para nos mostrar o caminho para o castelo e, em seguida, cortêsmente deixou-nos.

Rua da Judiaria (Almada), Silva Porto (1879-1893).
Nuno Prates, Casa dos Patudos

Fomos dentro da capela de Santiago, perto da muralha do castelo. Telhado em abóboda de aresta berço (preto e branco) muito notável. O tecto do corpo da capela pintado em painéis.

Igreja de S. Tiago.
Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, c. 1826.
  Wikimedia

Um velho soldado à porta do castelo admitiu-nos, e conduziu-nos por todo o lugar. Castelo, não sei porque assim é chamado, por ser meramente uma fortificação de terra crua [adobe] facetada com pedra. O nosso guia não estava satisfeito em nos mostrar as vistas da muralha mais elevada, e em algumas partes fez-nos andar por três alturas diferentes.

O Tejo de Lisboa a Aldea Gallega é 12 milhas de largo, e por mais tantas milhas cidade acima parece mais um refúgio nascido no mar do que um fugitivo da distante e interior montanha espanhola, de onde viajou cerca de 400 tortuosas milhas, todo o caminho desde as terras selvagens de Albarracin.

Dora Wordsworth (1804-1847) Lisbon, April 14 (1846) see Journal Vol II p. 74.
Dora Wordsworth's Portuguese Sketch book (1845-1846)

As vistas desde o castelo de Almada são boas em todas as direcções: rio acima em direcção de Alhandra, mesmo devante, onde toda a cidade de Lisboa está espalhada à vossa frente, e abaixo da maré até Belém, além, e atrás da qual nascem os altos rochosos e irregulares de Cintra.

Podíamos ver as casas brancas cintilar à luz do sol. A sul está o rico vale da Piedade, de onde Sartorius toma seu título de Visconde, e onde está a sua casa convento — estranho título, estranha casa estranha e estranha história para um blue-jacket [marinheiro de guerra] inglês!

E o galante Admiral Viscount Piety tem outra propriedade conventual em Cintra. Ambas foram compradas com os fundos recebidos do governo português pelos seus serviços a Don Pedro, o subversor das instituições monásticas.

Deixámos o nosso soldado guia, dando-lhe pelo seu incómodo uma pequena gratificação com a qual ficou mais do que satisfeito. Descemos a encosta, pelo lado oposto aquele pelo qual tinhamos subido para o cais de Cacilhas, passando debaixo de muros de jardim, sobre e abaixo dos quais pendiam ramos e festões de bem cheirosas e ricamente coloridas flores de várias espécies, e através de ruas não particularmente limpas, mas não tão sujas como aquelas de Almada.

Antes de alcançarmos o cais tivemos uma multidão ruidosa de barqueiros, cada um apregoado preços  mais baixos que os outros para passagem do rio. O barulho que faziam era tão grande que não podiam escutar Mr. 's assegurar-lhes que necessitávamos de burros e não de barcos.

Cacilhas vista do Tejo, gravura xilográfica, João Pedroso, 1846
O Panorama, n° 18, 1847

Por fim, quando isto foi entendido, a turbulência apenas aumentou, e realmente pensei que Mr. estava prestes a ser demolido entre barqueiros e burriqueiros, quando para minha surpresa, ele gritou para mim, "Venha, , monte este cinzento." Fui imediatamente assistida pela pessoa mais próxima, e perguntei-me por qual magia.

A tempestade foi acalmada. R montou um outro; Mr.  montou um terceiro. Forçámos o nosso caminho através da multidão, seguidos pelo nosso alto, magro, guia de olhos pretos, com o seu barrete escarlate tombando sobre o ombro direito, em direcção à vila, e então à esquerda para o vale da "Piedade". O assunto ficou então arrumado.

"Não falem mas oiçam-me. Quero três burros para nos levarem ao convento da Piedade, e darei seis vinténs cada para irem e voltarem, guia e burros esperam por nós tanto tempo quanto possa ser necessário."

Uma vez a proposta aceite pela pessoa mais próxima dele; os outros donos dos burros ficaram em paz, e pusemo-nos à estrada. Nada particularmente impressionante na aparência do vale que é rodeado de colinas suaves, algumas delas cobertas de pinheiros, sendo que em geral há uma grande procura de madeira em ambos os lados, norte e sul, do Tejo.

Passámos por dentro de um lugar que me lembrou uma aldeia inglesa, ou melhor, irlandesa, com os seus espaços verdejantes, e as suas casas franjeando o verde —  uma corrente lamacenta de água furtivamante passava-lhe através. Uma ponte muito velha e curiosa com três arcos, pequena, baixa, e circular, evidentemente romana, passava sobre a corrente para uma estalagem de aspecto inconfortável, como é costume ver-se em Stanmore com "good entertainment for man and horse" pintado em letras pretas muito grandes nas paredes lavadas de branco; aqui similarmente estava pintado "Casa de Pasto."


Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos

— Passámos por várias sebes de aloés e cactos; palmeiras aqui e ali, e bonitas flores por todo o lado.  Vinte minutos de passeio trouxeram-nos ao portão do convento, que é em pedra talhada, e formoso, e sobremontado por uma cruz simples e bonita.

Muito do convento foi destruído, e a parte que resta não é formosa — um lance de pedra destaca-se, a única quebra na longa linha direita da frente. Um criado inglês dirigiu-no através do jardim, onde estava uma bonita imagem, um pequeno moinho, algo como os nossos moinhos de debulha, sombreado por um grupo de palmeiras.

Quinta dos Frades. De Paço do Desembargador d'El Rei a Museu da Cidade de Almada, António Policarpo, 2017.
Rostos

Então subimos as escadas de pedra, entrámos numa sala larga e baixa onde está uma mesa de bilhar, e onde estão pendurados retratos de santos e monges e muita relíquias curiosas de tempos passados. Voltámos à nossa direita através de uma antecâmera onde estavam pendurados mais monges e santos, e ao fim da qual está outra divisão longa e baixa, a sala de estar, com janelas nos três lados — tão bonita esta sala! uma mescla de conforto inglês com frescura portuguesa e riquezas orientais de côr e explendor.

O passatempo do almirante — o lagar de azeite — foi-nos mostrado, e também o foi o lagar de vinho, e a adega, que são as partes mais notáveis do edifício.

Apressámo-nos de volta a Cacilhas, para apanhar o vapor das três em ponto, mas felizmente chegámos um pouco atrasados

Praia de Cacilhas, The Harbour of Lisbon, Charles Henry Seaforth (1801 - c. 1854).
reprodução em colecção particular

— felizmente, porque alguns dos barqueiros barulhentos com os quais já tinhamos falado ofereceram-se para nos transportar por oito vinténs, e fizeram-no, muito agradados, no seu barco muito limpo, com a sua vela triangular, e desembarcaram-nos no "Caes do Sodre."

Passámos perto de três navios de guerra, o "Vasco da Gama," muito novo, "Ferdinando," e "Don Joao."

Barra de Lisboa vista do Caes do Sodré.
 Internet Archive

Tudo o que pagámos pelas grandes e bonitas vistas de hoje, incluindo barcos e barqueiros, burros e burriqueiros, e vinho e laranjas, foram was 5s. [shillings] 6d. [pennies]. Não tivemos problemas com algum dos homens; eles disseram uma vez a soma pela qual se comprometiam a nos levar, estavam contentes com isso, e bem agradados com os poucos pence pagos a mais. (2)


(1) Paul Buck, Lisbon: A Cultural and Literary Companion, Lisbon, Signal Books, 2002
(2) Quillinan, Dorothy (Wordsworth), Journal of a few months' residence in Portugal... London, E. Moxon, 1847

Artigos relacionados:
Francisco Inácio Lopes
O visconde da Piedade
Fragata D. Fernando II e Glória
etc.

Mais informação:
Dora Wordsworth's Portuguese Sketch book (1845-1846)
Referências a Portugal em Wordsworth Trust (incl. Dora Wordsworth sketchbook)
Quillinan, Uma Família Irlandesa em Portugal
Biblioteca Nacional de Portugal
Quillinan, Dorothy (Wordsworth), Journal of a few months' residence in Portugal... Volume 1
Quillinan, Dorothy (Wordsworth), Journal of a few months' residence in Portugal... Volume 2

Leitura relacionada:
Robert Southey on Portugal: Travel Narrative and the Writing of History



QUILLINAN, EDWARD (1791–1851)
poet, born at Oporto on 12 Aug. 1791, was the son of Edward Quillinan, an Irishman of a good but impoverished family, who had become a prosperous wine merchant at Oporto. 
His mother, whose maiden name was Ryan, died soon after her son had been sent, in 1798, to England, to be educated at Roman catholic schools. Returning to Portugal, he entered his father's counting-house, but this distasteful employment ceased upon the French invasion under Junot in 1807, which obliged the family to seek refuge in England. After spending some time without any occupation, he entered the army as a cornet in a cavalry regiment, from which, after seeing some service at Walcheren, he passed into another regiment, stationed at Canterbury. A satirical pamphlet in verse, entitled 'The Ball Room Votaries,' involved him in a series of duels, and compelled him to exchange into the 3rd dragoon guards, with which he served through the latter portion of the Peninsular war. In 1814 he made his first serious essay in poetry by publishing 'Dunluce Castle, a Poem,' which was printed at the Lee Priory Press, 4to; and it was followed by 'Stanzas by the author of Dunluce Castle' (1814, 4to), by 'The Sacrifice of Isabel,' a more important effort (1816); and by 'Elegiac Verses' addressed to Lady Brydges in memory of her son, Grey Matthew Brydges (Lee Priory, 1817, 4to). In 1817 he married Jemima, second daughter of Sir Samuel Egerton Brydges [q.v.], and subsequently served with his regiment in Ireland. In 1819 'Dunluce Castle' attracted the notice of Thomas Hamilton (1789-1842) [q.v.], the original Morgan O'Doherty of 'Blackwood's Magazine,' who ridiculed it in a review entitled 'Poems by a Heavy Dragoon.' Quillinan deferred his rejoinder until 1821, when he attacked Wilson and Lockhart, whom he erroneously supposed to be the writers, in his 'Retort Courteous,' a satire largely consisting of passages from 'Peter's Letters to his Kinsfolk,' done into verse. The misunderstanding was dissipated through the / p.104 / friendly offices of Robert Pearse Gillies [q.v.], and all parties became good friends. In the same year Quillinan retired from the army, and settled at Spring Cottage, between Rydal and Ambleside, and thus in the immediate neighbourhood of Wordsworth, whose poetry he had long devotedly admired. Scarcely was he established there when a tragic fate overtook his wife, who died from the effects of burns, 25 May 1822, leaving two daughters. 
Wordsworth was godfather of the younger daughter, and he wrote an epitaph on Mrs. Quillinan. Distracted with grief, Quillinan fled to the continent, and afterwards lived alternately in London, Paris, Portugal, and Canterbury, until 1841, when he married Wordsworth's daughter, Dorothy (see below).  The union encountered strong opposition on Wordsworth's part, not from dislike of Quillinan, but from dread of losing his daughter's society. He eventually submitted with a good grace, and became fully reconciled to Quillinan, who proved an excellent husband and son-in-law. In 1841 Quillinan published 'The Conspirators,' a three-volume novel, embodying his recollections of military service in Spain and Portugal. In 1843 he appeared in 'Blackwood' as the defender of Wordsworth against Landor, who had attacked his poetry in an imaginary conversation with Porson, published in the magazine. Quillinan's reply was a cento of all the harsh dicta of the erratic critic respecting great poets, and the effect was to invalidate in the mass an indictment whose counts it might not have been easy to answer seriatim. Landor dismissed his remarks as ' Quill-inanities ;' Wordsworth himself is said to have regarded the defence as indiscreet. 
In 1845 the delicate health of his wife induced Quillinan to travel with her for a year in Portugal and Spain, and the excursion produced a charming book from her pen (see below). In 1846 he contributed an extremely valuable article to the ' Quarterly' on Gil Vicente, the Portuguese dramatic poet. In 1847 his second wife died, and four years later (8 July 1851) Quillinan himself died (at Loughrig Holme, Ambleside) of inflammation, occasioned by taking cold upon a fishing excursion ; he was buried in Grasmere churchyard. His latter years had been chiefly employed in translations of Camoens's ' Lusaid,' five books of which were completed, and of Herculano's 'History of Portugal.' The latter, also left imperfect, was never printed ; the 'Lusiad' was published in 1853 by John Adamson [q.v.], another translator of Camoens. 
A selection from Quillinan's original poems, principally lyrical, with a memoir, was published in the same year by William Johnston, the editor of Wordsworth. Quillinan was a sensitive, irritable, but most estimable man. ' All who know him,' says Southey, writing in 1830, 'are very much attached to him.' ' Nowhere,' says Johnston, speaking of his correspondence during his wife's hopeless illness, 'has the writer of this memoir ever seen letters more distinctly marked by manly sense, combined with almost feminine tenderness.' Matthew Arnold in his 'Stanzas in Memory of Edward Quillinan,' speaks of him as ' a man unspoil'd, sweet, generous, and humane.' As an original poet his claims are of the slenderest ; his poems would hardly have been preserved but for the regard due to his personal character and his relationship to Wordsworth. His version of the 'Lusiad,' nevertheless, though wanting his final corrections, has considerable merit, and he might have rendered important service to two countries if he had devoted his life to the translation and illustration of Portuguese literature. 
His wife, DOROTHY QUILLINAN (1804-1847), 
the second child of William Wordsworth, was born on 6 Aug, 1804. She was named after Dorothy Wordsworth, her father's sister. By way of distinguishing her from her aunt, Crabb Robinson used to call her 'Dorina.' The same writer calls her the 'joy and sunshine' of the poet, who saw in her an harmonious blending of the characteristics and lineaments of his wife and sister. 'Dora,' he wrote in 1829, 'is my housekeeper, and did she not hold the pen it would run wild in her praises.' 
She published in 1847 (2 vols, 8vo, Moxon) 'A Journal of a Few Months' Residence in Portugal, and Glimpses of the South of Spain,' dedicated to her father and mother. Wordsworth's later poems contain several allusions to Dora, and she is celebrated in particular along with Edith Southey and Sara Coleridge in 'The Triad.' She died at Rydal Mount on 9 July 1847, and was buried in Grasmere churchyard.
[cf. Dictionary of National Biography, Vol.47]

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Fragata D. Fernando II e Glória

A Fragata "D. FERNANDO II E GLÓRIA", o último navio de guerra exclusivamente à vela da Marinha Portuguesa e também a última "Nau" a fazer a chamada "carreira da India" verdadeira linha militar regular que, desde o século XVI e durante mais de 3 séculos, fez a ligação entre Portugal e aquela antiga colónia foi o último navio que os estaleiros do antigo Arsenal Real de Marinha de Damão construíram para a nossa Marinha.

Fragata D. Fernando II e Glória, Roger Chapelet (1903 - 1995).
Imagem: flickriver

Sob a supervisão do Guarda-Marinha construtor Naval Gil José da Conceição, foi encarregam da sua construção o mouro Yadó Semogi e nela participaram operários portugueses e indianos.

Fragata D. Fernando II e Glória, Roger Chapelet (1903 - 1995).
Imagem: Revista da Armada,  A recuperação da fragata D. Fernando II e Glória, janeiro 1998

O casco foi construído com madeira de teca proveniente de Nagar-Aveli e, após o lançamento à água, em 22 de Outubro de 1843, foi rebocado para onde aparelhou a galera. A sua construção importou em 100.630 mil réis.

A Fragata recebeu o nome de "D. FERNANDO II E GLÓRIA", não só em homenagem a D. Fernando Saxe Coburgo Gota, marido da Rainha D. Maria II, mas tambem por ter sido entregue à protecção de Nossa Senhora da Glória, de especial devoção entre os goeses.

Fragata D. Fernando II e Glória.
Imagem: Maritima et Mechanika

O navio foi preparado para receber 50 bocas de fogo, sendo 28 na bateria (coberta) e 22 no convés.

A lotação do navio variava consoante a missão a desempenhar, indo do mínimo de 145 homens na viagem inaugural ao máximo de 379 numa viagem de representação [...]

A viagem inaugural, de Goa para Lisboa, leve lugar em 1845 com largada em 2 de Fevereiro e chegada ao Quadro dos Navios de Guerra, no Tejo, em 4 de Julho.

Desde então, foi utilizado em missões de vários tipos até Setembro de 1865, data em que substituiu a Nau Vasco da Gama, como Escola de Artilharia, tendo ainda, em 1878, efectuado uma viagem de instrução de Guarda Marinhas aos Açores [...]

Fragata D.Fernando II e Gloria, 3 de Abril de 1963.
Imagem: Cesto da gávea

Em 1940, depois de ter sido considerado que já não se encontrava em condições de ser utilizado pela Marinha, iniciou uma nova fase da sua vida, passando a servir como sede da Obra Social da Fragata D. Femando, criada para recolher rapazes oriundos de familias de fracos recursos económicos, que ali recebiam instrução escolar e treino de marinharia, facilitando, assim, o seu ingresso nas marinhas de guerra, do comércio e de pesca. (1)

Fragata D. Fernando II e Glória, aguarela de Alberto Cutileiro, Museu da Marinha.
Imagem: Cesto da gávea

Desde finais da década de 40 até meados da década de 70 do século passado, decorreu (inicialmente a bordo de uma velha fragata da Carreira da India e posteriormente em instalações em terra) a Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória.

Fragata D. Fernando II e Gloria, selo de Carlos Alberto Santos, 1997.
Imagem: Tangerino

Em pleno Estado Novo, a Obra parece ter seguido um percurso que acompanhou o próprio sistema político vigente. Recorrendo a um sistema assistencial, educacional e de integração profissional próprios do período, assistiu-se ao crescimento, estagnação e declínio que seguiu o perfil do regime.

Fragata D. Fernando II e Gloria, selo de Carlos Alberto Santos, 1997.
Imagem: Tangerino

Tendo como objetivos principais, a recolha, educação e instrução de rapazes sem família ou sem recursos, a instituição pode, contudo, ter sido muito mais do que estes princípios fundadores previam.

A história da fragata D. Fernando II e Glória, pode dividir-se em várias fases que ilustram as características multifuncionais e multifacetadas que a mesma teve ao longo dos tempos, desde a sua largada de Goa para Lisboa em 1845 até à atualidade.

Assim podemos dividir em sete fases distintas a história do navio:
a) A fase da construção (1832 – 1845, durou 13 anos).
b) A fase operacional, onde efetuou várias viagens (1845 – 1878, durou 33 anos).
c) A fase em que foi Escola de Artilharia e sede de Brigada de Artilheiros (1865- 1937, durou 72 anos).

Fragata D. Fernando II e Gloria, Escola de Artilharia, 1904.
Imagem: Hemeroteca Digital

d) A fase em que foi sede de vários comandos e organismos (1938 – 1945, 7 anos).
e) A fase em que foi sede da “Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória” (1945 – 1963, 18 anos).
f) A fase imediatamente a seguir à destruição, o abandono (1963 – 1992, 29 anos).
g) O restauro, recuperação e museu (1992 até à atualidade).


in Alves, Américo José Vidigal, ASSISTÊNCIA, EDUCAÇÃO E TRABALHO NO ESTADO NOVO, O caso da Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória, 2013

Em Janeiro de 1945, o Ministro da Marinha, Américo Thomaz, através da Portaria nº 10:827 de 9-1-1945 (O.D.A. nº 8, de 10-1-1945) determina “que a fragata D. Fernando seja posta à disposição da Brigada Naval, para fins de instrução e utilização compatíveis com o estado em que se encontra.

Fragata D. Fernando II e Gloria, aula de ginástica, 1956.
Imagem: O caso da Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória

De acordo com o primeiro artigo, do capítulo I, denominado "Fundação e Objetivo" constante no Regulamento Geral da Obra144, "é criada a Obra Social da Fragata D. Fernando que tem como objetivo a recolha, alimentação, educação e instrução, gratuitamente e em regime de internato, de rapazes com 12 a 16 anos de idade, desprotegidos, sem família, sem meios e sem trabalho, a livrá-los dos perigos morais a que a ociosidade e a libertinagem os podem conduzir e prepará-los para a vida no mar, a servirem nas frotas das Marinhas de Guerra, mercante ou de pesca."

Fragata D. Fernando II e Gloria, alunos por identificar.
Imagem: Cesto da gávea

[...] o dia de entrada na fragata, era precedida de inspeções médicas, corte de cabelo, limpeza do corpo e distribuição de roupa interior (camisola e cuecas) e exterior (blusão e calças de cotim). Sobre o calçado, este ex-aluno, apenas refere que, aos pés era dado o “calejamento das águas do Tejo” o que pressupõe que no início da obra, ou nos primeiros dias de permanência, os alunos andariam descalços [...]

Fragata D. Fernando II e Gloria, alunos trabalhando com cabos a bordo.
Imagem: O caso da Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória

Neste primeiro dia eram ainda distribuídas as macas, que faziam as vezes da cama. Estas eram compostas por um travesseiro, um colchão, uma manta e uma coberta de lona. Depois desta distribuição, os alunos eram agrupados por pelotões para a formatura, comandados por alunos mais velhos.

Este enquadramento levado a cabo pelos alunos mais velhos era contínuo e não se confinava aos primeiros dias, sendo observável também à mesa, durante as refeições, e quando se desfilava em parada na via pública.

Durante a noite os alunos efetuavam vigias ao navio que duravam quatro horas. Além do aluno de vigia havia também um marinheiro ou grumete de vigilância, controlando este, a guarnição e os alunos.

Após passagem pelos lavabos para lavar cara, mãos e dentes, prosseguia-se ao enrolar das macas. Pouco tempo depois tocava a formar para a primeira refeição que, quase sempre, consistia em café com leite e pão com manteiga ou marmelada. A seguir ao pequeno-almoço tocava novamente a formar para distribuição de serviços, tarefas e obrigações. Entendia-se por serviços ou tarefas o escalamento para as embarcações, para baldeações e para lavagem de loiça de alumínio após as refeições.

Fragata D. Fernando II e Gloria, aprendendo a arte de fazer nós.
Imagem: O caso da Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória

As obrigações tratavam-se de tarefas fixas que alguns alunos podiam ter permanentemente, como adjuntos das oficinas de bordo (sapateiro e carpinteiro), aulas de instrução primária, de ginástica, de marinharia, de vela, de remo e de natação, entre outras.

Fragata D. Fernando II e Glória, familiares de alunos de visita, 1956.
Imagem: Cesto da gávea

Também a roupa era lavada pelos próprios alunos [...]

Fragata D. Fernando II e Gloria, mergulho no Tejo.
Imagem: O caso da Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória

Digno de registo é também o mergulho do Madeirense. Esta autêntica proeza aconteceu num dos primeiros verões após constituição da Obra, encontrando-se o navio fundeado em Belém, como era hábito nessa altura do ano. (2)


(1) Revista da Armada,  A recuperação da fragata D. Fernando II e Glória, janeiro 1998
(2) Alves, Américo José Vidigal, ASSISTÊNCIA, EDUCAÇÃO E TRABALHO NO ESTADO NOVO, O caso da Obra Social da Fragata D. Fernando II e Glória, 2013

Informação adicional:
D. FERNANDO II E GLÓRIA
Cesto da gávea

Cesto da gávea em imagens
No dia da apresentação da Tese de Mestrado de Américo Alves, sobre a Fragata D. Fernando II e Glória
Sachetti, António, D. Fernando II e Glória. A Fragata que Renasceu das Cinzas, Lisboa, Edições CCT, 1998
Sousa, Victor Manuel de, Apontamentos sobre a Fragata D. Fernando II e Glória, edição do autor
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Romântico Porto Brandão

Ninguém me há de acreditar a história da quarta mulher. Quer creiam, quer não, ela ai vai com pouca arte, a ver se a sua mesma desnudez a faz menos incrível.

Lisbon from Porto Brandão, James Holland, 1845.
Imagem: BBC Your Paintings

Fui um dia de agosto a Porto Brandão, onde estava a banhos um meu amigo. Numa quinta para lá da encosta houve uma reunião de famílias de Lisboa, à qual fui convidado. O meu amigo apresentou-me a um cavalheiro, que me tomou o braço e me apresentou a algumas senhoras, todas galantes, palreiras e doutoras em Paulo de Kock. 

Pedi miúdos esclarecimentos acerca de todas, e particularmente da mais bonita e modesta. O cavalheiro de todas disse mal, mal, porém, que eu indultei cordialmente, defeitos que são enfeites, vícios que alindam as formosas e denigrem as feias. O crime de todas era a casquilhice, que o leitor pode, se quiser, traduzir para coquetterie. Amavam toda a gente, segundo o informador. Fiquei satisfeito, pensando que o amarem elas toda a gente era boa probabilidade para eu ser amado. Eu não queria mais nada.

Camilo Castelo Branco (1825 -1890).

Languiram em doce ternura meus olhos, fitos na mais amável das quatro. Algumas vezes nossas vistas se encontraram, e disseram profundos mistérios da alma. Fugi outras vezes da sala e fui a uma varanda, donde se ouvia o bramido do oceano, casar as melodias do meu amor com as dissonâncias formidolosas do estrugir das ondas. A lua prateava-me a testa, em que o sangue, aquecido no coração, subia em arquejos daquela poesia, que não sai em rimas, e enlouquece, se a paixão a não desafoga em suspiros. Aquilo é que era!

Ao romper de alva, vi que um rancho de meninas desciam ao jardim e colhiam flores. A minha amada ficou à janela conversando com senhoras idosas. "Tragam-me a mim uma rosa de musgo", disse ela às amigas. E as amigas voltaram sem a rosa. Desci ao jardim, colhi duas rosas aljofradas das lágrimas da aurora, pedi licença para lhes oferecer, e disse: "Não as enxuguei, para não privar as florinhas das carícias de um anjo."

Porto Brandão, à esquerda do Tejo.
Imagem: Ateneu Livros

Eu queria comunicar a exuberância da minha ventura, mas tive sempre para mim que a felicidade quer-se recatada para não suscitar invejas: é ela como a fina essência das flores destiladas, que perde o aroma, destapado o cristal que a encerra. Não contei nada ao meu amigo; simulei até desapego das mulheres mais belas do baile, e da preferida nem se quer falei.

Este meu dito foi celebrado em Porto Brandão [...] (1)


(1) Castelo Branco, Camilo, Coração, cabeça e estômago, Lisboa, Publicações Europa América, 1988 [1.a ed. 1862]

sexta-feira, 23 de maio de 2014

À Bulhão Pato

Aos meus camaradas devotos de Santo Humberto


Retrato do poeta Raimundo Bulhão Pato, Miguel Angelo Lupi, C. 1880
Imagem: ComJeitoeArte

Imaginemos que a partida de caça é no Alemtejo a grande coitada do paiz. 

Pernoita-se no Monte. 

Temos á flammante lareira, onde crepita ó toro de azinho, as paredes alvissimas, a prateleirinha um brinco, a cantareira um primor; duas enormes talhas com vinho novo, que se provou ha dois dias; que está magnífico: — tudo isto ahi... por princípios de novembro.

Ainda não houve a entrada real das gallinholas.

Nos montados os pombos são ás bandadas, são como nuvens, e arrazam a boleta; mas nós não vamos aos pombos. 

Parte dos companheiros batem as perdizes nos montes; outra, com as buscas e os galgos, correm as lebres a cavallo nos espragães e nas Sumarias.

Dois, com menos pernas, atiradores mais somenos, vão até um pedaço de juncal a ver se levantam alguma còdorniz crioula, e eu lhes direi logo o por quê.

Temos lebre, temos perdiz, e por ahi umas vinte codornizes.

Vamos ao banquete.

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Açorda á Andaluza
Arroz opulento
Perdizes á Castelhana
Lebre á Bulhão Pato

Açorda á Andaluza — Corte se um pão em fatias; torrem-se as sobreditas fatias; façam-se em quadrados, não em quadradinhos; pisem-se n'um almofariz vários dentes de alho, deixando três ou quatro com a casca — dá-lhe isto um certo sainete — sal, colorau doce e colorau do que morde; deve sair um bocadinho picante, que o palhete lá o está pedindo.

Sobre o pão torrado corram-se uns bons fios de azeite, se for do A. Herculano é oiro sobre azul.

Deite-se por cima el majado, isto é, o conteúdo no almofariz, e agua a ferver, mas com cautela, que fique enxuto. 

Abafe-se, deixe-se abeberar por cinco minutos, venha para a mesa. 

Temos uma sopa opipara!

Perdizes á Castelhana — Depennem-se quatro perdizes com todo o cuidado e o maior asseio — a caça fica dissaborosa em se lavando.

Tirados os interiores, mettam-se as perdizes n'uma panella de barro poroso.

Uma cabeça de alho inteira e com a casca, sal, colorau doce e pimenta preta em pó.

Duas chicaras de azeite e uma só de vinagre, quando seja muito forte; tape se a boca da panella com uma folha de papel passento; metta-se no borralho, isto é, onde a braza morde, debaixo da cinza; deixe-se ferver até que o garfo entre com facilidade.

Venham para a mesa os convivas, e se sobrar alguma cousa guarde-se como oiro, porque depois de frio, ao almoço... isto é da gente lhe lamber os dedos!!

Arroz opulento — Se os dois marteleiros metterem na rede vinte, quinze — uma dúzia de codornizes que sejam; se na sociedade houver um caçador jubilado, um immortal companheiro que se chame Lopes Cabral de Medeiros, e trouxer na mala, dentro de uma caixa de lata, um pedaço de queijo parmesão, d'aquelle que faz lagrimas, então o caso é serio!

Aproveitem-se figado, coração e moela; arranjem-lhe um refugado qualquer.

Noutra vasilha mettem-se as codornizes, com umas pedrinhas de sal e cobertas de agua, como para um caldo.

Numa fervura branda, ao cabo de três horas, as codornizes, tenrissimas, estão completamente delidas.

Coam-se por um passador fino. No caldo deita-se arroz. Vae-se ralando o queijo.

Quando o arroz estiver cozido, em boa conta e enxuto, dá-se-lhe graça e côr com uns longes de, açafrão: misturam-se-lhe òs interiores já competentemente guisados.

No momento de se tirar do lume deitam-se-lhe umas boas colhéres de manteiga — sendo fresca sobe de ponto o primor do acepipe. Queijo parmezão com mão larga.

Revolva-se; sirva-se bem quente, e temos um prato capaz de abalar a coragem do mais austero cenobita!

Lebre á Bulhão Pato — Esfole-se a lebre, esfregue-se com pimentão e sal; metta-se na vasilha onde deve estar aproveitado o sangue.

Vinagre forte e de bom vinho; rodas de cebola, alguns dentes de alho, poucos; uma folha de louro.

Como estamos no Monte ha de haver um pedacito de chão tratado de horta e na horta um canteirinho de salsa. Se a encosta próxima for de mato-jardim lá ha de estar o aromatico tomilho.

Venham também uns raminhos de salsa, e um tudo-nada de tomilho.

Passadas doze horas (se forem vinte e quatro não perde) envolva-se a lebre em pranchas finas de bom toucinho.

Espeto com ella;

De quando em quando constipada á corrente do ar; a espaços borrifada com a vinha, e, se, á falta de sercial ou malvasia, algum companheiro previdente tiver trazido uma garrafa de fine Champagne, para cortar a agua por causa das sezões, minutos antes de vir para a mesa borrife-se a lebre com um copito de cognac.

Quente é um assado optimo, e frio um fiambre primoroso.

Aqui ficam quatro receitas.

Agora se n'este inverno, que se annuncia próprio para os caçadores, por esses montes de Christo, um meu camarada, depois de uma boa batida, pozer em pratica algumas d'estas receitas e achar saboroso o guisado, beba um copo de vinho á saúde do seu confrade.

Outubro, 9, 1870, Bulhão Pato (1)

Bulhão Pato, Rafael Bordalo Pinheiro, Album Glórias, 1902
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Raimundo António de Bulhão Pato nasceu em Bilbau e morreu no Monte da Caparica (1829-1912), viveu a sua infância no país basco sob os efeitos dramáticos da guerra civil.

Em 1837, a família veio para Portugal, cansada das agruras da instabilidade espanhola, e em 1845 o jovem inscreveu-se na Escola Politécnica, frequentando, desde muito cedo os meios literários, onde conheceu Herculano, Garrett, Andrade Corvo, Latino Coelho, Mendes Leal, Rebelo da Silva e Gomes de Amorim.

Com Herculano estabeleceu uma relação muito especial e intensa bem patente nas suas recordações, através das quais conhecemos muitos pormenores biográficos do historiador.

Como poeta cultivou a influência romântica.

A sua primeira obra é de 1850 ("Poesias"), tendo publicado em 1866 a muito celebrada "Paquita" (depois de ter dado à estampa "Versos", em 1862).

Apesar dos elogios dos seus contemporâneos sobre a sua poesia, em especial de Herculano e Rebelo da Silva, o certo é que será como memorialista de primeira água que Bulhão Pato se afirma.

A sua prolífera criação chegou aos palcos do Teatro Nacional, em pelo menos um original e em traduções de obras clássicas.

Escritor dotado e de pena fácil dedicou-se também ao jornalismo. Amigo de Antero de Quental, sobre este disse: «bem no fundo, Antero foi sempre um romântico. [...]

Sobre a perfeição da verve disse do poeta micaelense [Antero de Quental]: "a língua, que principiava a ser desfeiteada, respeitou-as ele sempre. Percebeu que quanto houvesse moderno, seguindo todas as correntes, numa evolução progressiva, se podia dar dentro dela. Logo na infância a tinha bebido na fonte mais cristalina e abundante, porque fora discípulo de Castilho, quando o luminoso cego abrira o colégio do Pórtico. Na sua obra capital – os "Sonetos" - se pode ver como ele a maneja. Se não conhecesse a língua, não tinha feito aquela obra-prima". [...]

Lembremos sobre Herculano a invocação do Vale de Santarém: "Era plena primavera. Num ramalhete ondeante de loireiros, que sombreavam a azenha, os rouxinóis cantavam e eu julgava ver os olhos verdes de Joaninha, faiscando como esmeraldas, ao escutar os hinos daqueles inovadores alados que, do carinho da noite até à madrugada, improvisam, há milhares de anos, o poema vivo que faz palpitar todos os corações juvenis". [...]

E cabe uma derradeira nota, gastronómica.

Bulhão Pato aparece associado às amêijoas que não são suas, mas uma homenagem do grande João da Matta.

Guilherme d'Oliveira Martins (2)

Ameijoas à Bulhão Pato

Ingredientes:
1kg de ameijoas
6 dentes de alho
1dl de azeite
1dl de vinho branco
1 pitada de sal
1 pitada de pimenta
Piripiri
1 raminho de coentros
1 colher (sopa) de manteiga
Sumo de 1/2 limão


Preparação:
Lave as ameijoas e ponha de molho em água fria durante algumas horas.
Descasque e lamine os alhos e refogue-os ligeiramente num tacho com o azeite quente.
Quando estiver a ficar louro, regue com o vinho branco e junte as ameijoas.
Tempere com sal, a pimenta e um pouco de piripiri.
Aromatize com os coentros e deixe cozinhar com o tacho tapado, até as conchas abrirem.
Nesta altura, retire o tacho do calor e incorpore a manteiga no molho, agitando até derreter.
Regue com o sumo do limão, transfira para uma travessa de servir e decore com coentros. (3)


(1) Plantier, Paul, O Cozinheiro dos Cozinheiros, Lisboa, P. Plantier, 1905, 797 págs.

(2) A vida dos livros in Centro Nacional de Cultura
 

(3) Petitchef

Leitura adicional:
Illustração Portuguesa, 1906, Lisboa, Empreza do Jornal O Seculo, 1903-

Artes e Letras, 1902 (referências a Bulhão Pato, Paulo Plantier, Miguel Ângelo Lupi etc.), Rolland & Semiond, Lisboa

Obras de Bulhão Pato em Archive.org (ver todas):
Bulhão Pato, Raimundo António de, Memórias, Vol. I, 1894, Typ. da Academia Real das Sciencias, Lisboa
Bulhão Pato, Raimundo António de, Memórias, Vol. II, 1894, Typ. da Academia Real das Sciencias, Lisboa
Bulhão Pato, Raimundo António de, Memórias, Vol. III, 1894, Typ. da Academia Real das Sciencias, Lisboa