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sábado, 2 de abril de 2016

Quinta do Outeiro do Alfeite

Pertenceu ao conjunto de quintas que faziam parte da Casa do Infantado. Foi adquirida em 1707 pelo infante D. Francisco ao conde de Tarouca. (1)

Viata da Quinta do Outeiro, Caramujo e enseada da Cova da Piedade, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A Quinta do Outeiro apesar de ser da Capela instituída pelo Doutor Manuel Lucas da Silva, e sua mulher Dona Catarina Josefa de Lima, administrada pelo Doutor José da Silveira Zuzarte, foi incorporada na Quinta do Alfeite por a utorização da Rainha a Senhora Dona Maria 1ª, concedida por Alvará de 15 de Maio de 1789. (2)

Em 1834, pelo decreto lei de 18 de Março é extinta a Casa do Infantado e passados 10 anos é feito um tombo da Real Quinta do Alfeite a 21 de Março de 1844, pelo almoxarife Severiano Fernandes de Oliveira onde nos é dado a conhecer a relação de prédios do circulo administrativo do Almoxarifado do Alfeite [...]

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847

[Relativamente à] Quinta do Outeiro - constituída por um prédio urbano (casas de habitação e várias casas de acomodações, cavalariça e palheiro e seis armazéns grandes) e prédio rústico (um bocado ajardinado, horta, vinha, arvores de pevide e caroço, e de espinho, poço com engenho e dois tanques) [...] (3)

Aproveitando a tradição do local para a prática da querenagem e as condições naturais de um baldio que existia junto à Quinta do Outeiro, uma das sete propriedades que a Casa do Infantado possuía no Alfeite, o industrial António José Sampaio instala um pequeno estaleiro nesse terreno junto ao salgado do rio, confinando a Sul com a referida Quinta do Outeiro, a Poente com a Romeira Velha, a Norte com o Caramujo e a Nascente com o rio Tejo.

Este estaleiro, vocacionado apenas para a construção de embarcações em madeira, encontrava-se em plena laboração em 1850 [...] (4)

[...] a Quinta do Outeiro tinha já sido vendida no tempo do Rei D. Luís à firma Rankin & Sons; (5)

Panorâmica da fábrica William Rankin & Sons na quinta do Outeiro no Alfeite, 1885.
Imagem: Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário...

A propriedade arrendada pela administração da Casa Real à William Rankin & Sons, foi depois comprada pela firma ao rei D. Luis, em hasta pública, em 1887, por vinte contos de réis.

Compreendia cinco armazéns, cavalariça, cocheira, casa para criados, palheiros, adega, lagar, casa de habitação com terreno para logradouro e terreno junto à praianuma área de 5168 m2.

Em 1898, a firma compra, também em hasta pública, ao rei D. Carlos, mais uma porção de terra com uma pequena casa e pomar, por cinco contos de réis e com a condição da William Rankin & Sons construir um muro com dois metros de altura para garantir a privacidade da Quinta Real do Alfeite.

Enseada da Cova da Piedade, c. 1900.
Em 1.° plano o pontão e a entrada da quinta do Alfeite e, em 2.°, o cais da Rankin & Sons.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Segundo Carol Mason, Cunison Deans Rankin adquire, em 1905, um estaleiro junto da fábrica, com anexos situados "na rua da praia" de acesso à quinta do Outeiro, à familia Sampaio, por dois contos de réis. (6)

A corticeira Rankin & Sons Ltd instalou-se na zona ribeirinha do Outeiro do Alfeite em 1884.

A preparação de pranchas de cortiça para exportação foi a actividade principal da fábrica durante os primeiros anos de funcionamento  [...]

A Rankin & Sons Ltd concentrou um grande número de mão-de-obra especializada, homens e mulheres divididos por sectores fabris, correspondentes às diversas fases da cadeia de produção.

Quinta do Outeiro do Alfeite, fábrica da Rankin and Sons, 1937.
Imagem: Rui M. M. Mendes

Esta corticeira constitui um exemplo do tipo de fábricas que se instalaram no Concelho. Acompanhou os períodos de recessão e de incremento no sector, o início das lutas operárias e a mobilização sindical e cooperativa dos trabalhadores. Encerrou definitivamente em 1956. (7)


(1) R. H. Pereira de Sousa, Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003
(2) Susana Maria Lopes Quaresma e Pereira, O palácio real do Alfeite..., Lisboa, Universidade de Lisboa, 2009, 5 Vols., cf. Alexandre M. Flores, António Neves Policarpo, Arsenal do Alfeite: contribuição para a história naval em Portugal, Junta de Freguesia, Laranjeiro, D. L. 1998, 2003
(3) Artur Vaz, Jornal da Região – Almada,  12. de julho de 2000
(4) Deputados do Grupo parlamentar do PCP, Cria o Museu Nacional da Indústria Naval, Lisboa, Parlamento, 2005
(5) Susana Maria Lopes Quaresma e Pereira, op. cit. 
(6) Alexandre M. Flores, Almada na história da indústria corticeira e do movimento operário (1860-1930), Câmara Municipal de Almada, 2003, cf. Alexandre M. Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990
(7) Fábrica da Rankin & Sons


sábado, 16 de janeiro de 2016

Iconografia de Lisboa (6.ª parte)

Além dos trabalhos já citados: "Theatrum Urbium", de Jorge Bráunio [Georg Braun], da colecção de Dirck Stoop, constituídas por vistas de Lisboa, panorâmicas e de edifícios isolados, e de divertimentos e cerimónias paçãs, podemos mencionar, entre outros, os seguintes autores que coligiram vistas de Lisboa, ou livros em que se encontram coligidas:

Fr. Vincenzo Maria Coronelli (1650–1718).
Imagem: Wikipedia

a) — P.e Coronelli [Vincenzo Maria Coronelli (1650–1718)]. Escreveu: Portugallo delineato e descritto dal P. Coronelli, sem data 1707 (?) [e também, referente a Portugal, Regno di Portogallo e Teatro della Guerra, mapas, globos terrestres etc., hoje verdadeiras raridades], que contém 32 estampas gravadas em cobre, de vistas e plantas de terras de Portugal, das quais 18 são de Lisboa.

Teatro della Guerra di P. Coronelli, 1706 Évora, Arronches.
Imagem eBay

b) — Pierre Vander Aa [v. referência abaixo: Lisboa do século XVII "a mais deliciosa terra do mundo"]; mandou gravar ou coligiu muitas estampas de diferentes terras, trajos, etc., gravuras em cobre, entre as quais figuram 14 de Lisboa, que foram publicadas nas seguintes obras:

"Les delices de l'Espagne et du Portugal", por Don Juan Alvarez de Colmenar, Leide [Leiden], 1.a ed., 1707, em 5 tomos, 2.a ed., 1715, era 6 tomos.

"Beschryving van Spanjen en Portugal", Leide, 1707, em 5 tomos.

"Les royaumes d’Espagne et de Portugal representés en tailles-douces... presenté à Sa Majesté Dom Jean V Roi de Portugal", Leide, s/n., s/d.; album com 16 vistas de Lisboa e vários mapas.

"Les royaumes d’Espagne et de Portugal representés en tailles-douces trés exactes", Leide, s/n., s/d.; album com 166 vistas.

"Annales d'Espagne et du Portugal", por D. Juan Alvarez de Colmenar, Amsterdam, 1741; uma edição em formato in/4.° em 4 tomos, e outra ed. in/8.° em 8 tomos.

c) — Pieter van der Berge [van den Berge, arc.], coligiu 88 (?) vistas de terras de Espanha e Portugal, entre as quais 9 de Lisboa, idênticas às de Vander Aa [umas baseadas outras semelhantes ás de Dick Stoop], e que foram inseridas na obra Teatrum Hispaniae, Amsterdam, 1705 (?). Todas estas estampas têm os títulos redigidos em latim, espanhol, holandês e francês.

Vista do palácio real em Lisboa, Pieter van den Berge, segundo Dirk Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

Depois dos emissários de Jorge Bráunio, no último quartel do século XVI, sabe-se que até ao meado do XVIII vieram ou estiveram em Portugal alguns artistas estrangeiros, que, ou em cargos palacianos, ou contratados, ou como simples particulares, escolheram para assunto dos seus quadros, desenhos ou gravuras, vistas panorâmicas, edifícios ou monumentos de Lisboa.

Mencionaremos principalmente os seguintes:

a) — Dirck Stoop, flamengo, que foi pintor da Real Câmara de D. João IV, e do qual já tratámos.

Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Pier Maria Baldi.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

b) — Pier Maria Baldi, italiano, ajudante da câmara do príncipe Cosme de Medicis, a quem acompanhou na viagem que este fez por Espanha e Portugal em 1668/69, durante a qual desenhou as vistas de várias terras por onde passaram, entre as quais um panorama de Lisboa, o palácio real de Alcântara e Mosteiro das Flamengas [v. 5.ª parte desta série], e o Convento dos Jerónimos e Torre de Belém, que se guardam, com a relação da viagem, na Biblioteca Laurenciana de Valência, tendo sido reproduzidas cm fototipia já no século corrente [XX].

Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Pier Maria Baldi.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

c) — Quillard (Pierre Antoine) esteve em Lisboa, onde gravou uma estampa representando a antiga Ribeira das Naus [Arsenal], e o lançamento ao mar da nau Lampadosa, em 1727, na presença do rei D. João V e da rainha sua mulher.

Lisboa, Nau de guerra Nossa Senhora da Lampadosa, Pierre Antoine Quillard, 21 de Janeiro de 1727.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

d) — Guilherme F. L. Debrie e seu filho António Debrie, que gravaram em cobre várias vistas relativas a Lisboa, entre as quais 3 do convento do Carmo, para ilustrarem os 2 volumes da Chronica dos Carmelitas (1745 e 1751), por Frei José Pereira de Sant'Ana, a reprodução dum selo de lacre, no tomo IV (1788) da História Genealógica, por D. Manuel Caetano de Sousa; 

Chronica dos Carmelitas, Guilherme Francisco Lourenço Debrie, 1745.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

uma vista da Torre de Belém, que acompanha o "Almanach de Lisboa" para o ano de 1789; 

Chronica dos Carmelitas, Guilherme Francisco Lourenço Debrie, 1745.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

e uma cerimónia de lava-pés, efetuada por D. João V no Paço da Ribeira.

Lisboa, Paço da Ribeira, Lava pés aos pobres por D. João V, c. 1748.
Imagem: Wikipédia

e) — Olivarius Cor, que em 1746 gravou uma vinheta-cabeção contendo a Torre de Belém e mais dois fortes da Barra do Tejo [assim como letras capitulares com motivos de Lisboa], que se encontra na "Vida do Padre António Vieira", pelo P.e André de Barros; 

Lisboa Arte Gravura Vida do Padre António Vieira Olivarius Cor 1746
Imagem: Internet Archive

e em 1747 uma estampa de propaganda para a canonização do rei D. Afonso Henriques.

D. Afonso Henriques, Conquista de Lisboa, Olivarius Cor, 1747.
Imagem: Pedra Formosa (Sociedade Martins Sarmento)

Temos a convicção de que, afora os já mencionados, nenhum outro artista estrangeiro veio a Lisboa, ou aqui esteve, até ao fim do 2.° quartel do século XVIII, que se dedicasse a copiar "de visu" o panorama ou edifícios da cidade, e que as numerosíssimas vistas de Lisboa que até então apareceram no mercado foram pelos seus autores compostas nos seus países, copiando-as de outras que as precederam, quer para livros, quer para folhas soltas, nas quais introduziram modificações de pormenores e de formato, conforme lhes sugeria a sua fantasia, para lhes dar um falso cunho de originalidade.

A lista completa destes artistas estrangeiros, especialmente holandeses, alemães, ingleses e franceses, é muitíssima extensa, e fica reservada para outro lugar, assim como os títulos dos livros de que as estampas fazem parte, ou locais onde se acham situadas. (1)

Com efeito, faltaria mencionar ainda, pelo menos, Alain Manesson Mallet (1630–1706), cartógrafo e engenheiro francês ao serviço do rei de Portugal, Afonso VI, desde 1663 até à assinatura do tratado de Lisboa em 1668.

Mallet, Alain Manesson, Les Travaux de Mars, ou l'art de la guerre, 1. Ed., Paris, 1671, 3 v.

Publicou a Description de L'Univers em 1683 (e em 1686 a versão alemã), em 5 volumes, e Les Travaux de Mars ou l'Art de la Guerre, em 1684, em 3 volumes.

Alain Manesson Mallet, Description de L'Univers, 1683 (1686 DE ver.).

Mallet fortificou as fortalezas de Arronches (1666) e de Ferreira (1667) e fez reparar os sistemas defensivos de Évora e Estremoz.


(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
 
Artigos relacionados:
Da fábrica que falece à cidade de Lisboa
Delícias ou descrições de Lisboa
Panorâmica de Lisboa em 1763

Leitura adicional:
Lisboa do século XVII "a mais deliciosa terra do mundo"

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Iconografia de Lisboa (5.ª parte)

Na Lisboa anterior ao século XVIII podem citar-se os seguintes edifícios, monumentos, cerimónias e festejos públicos como os assuntos mais interessantes, e que mais atraíam o lápis dos desenhadores e o pincel dos pintores:

Formatura militar no Terreiro do Paço (detalhe), Dirck Stoop, após de 1662.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

a) — O "Palácio Real da Ribeira" e a "Praça do Palácio" ou "Terreiro do Paço", onde o primeiro havia sido erigido pelo rei D. Manuel nos princípios do século XVI.

As primeiras vistas que se fizeram deste palácio existem em pergaminho, no "Livro das Horas de D. Manuel" (1517), no Museu Nacional de Arte Antiga, e na "Chronica de D. João I", por Fernão Lopes (1.° quartel do século XVI), no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Em pintura a óleo conservam quatro quadros, todos dos meados do século XVII.

Lisboa, Terreiro do Paço, A entrada do Embaixador Francisco de Mello e Torres (detalhe), Dirck Stoop, 1662.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

O primeiro é sobre tela, e devido ao pintor flamengo Dirck [Dirk] Stoop, então ao serviço do rei de Portugal D. João IV, está na embaixada de Portugal em Paris.

Um outro quadro, mui semelhante ao anterior, foi pintado pelo artista [Johannes, Johann] Lingelbach (1622-1674) [?], da escola holandesa, que se acha algures no estrangeiro.

Os dois restantes são de autor desconhecido, e tem por assunto a aclamação do rei D. João IV; pertencem ao Estado, e acham-se expostos no palácio Almada.

Lisboa, Terreiro do Paço, A entrada do Embaixador Francisco de Mello e Torres, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

Em azulejos foi pintado no século XVII, um aspecto do Terreiro do Paço e do Palácio, num grande painel que existia num prédio da Estrada de Benfica, mas cujo paradeiro desconhecemos.

Há ainda outros pequenos quadros em azulejo, onde está representado torreão do Palácio Real e o Terreiro do Paço, tais como um pequeno painel que foi encontrado num prédio da Costa do Castelo, actualmente no Museu da Associação dos Arqueólogos; outro no extinto convento das Trinas do Mocambo, guardado no Museu de Arte Antiga, etc.

b) — "O Palácio real de Alcântara e mosteiro das Flamengas", desenhados por Pier Maria Baldi (1668-1669), e só reproduzidos pela fototipia no século corrente [XX].

Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Villa Realle D Alcantara, Pier Maria Baldi.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

c) — "O Palácio do Corte Real", visto do lado do Corpo Santo. A primeira vista foi gravada por Dirck Stoop (1662).

O Palácio do Infante Dom Pedro em o Corpus Sancto em Lisboa, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

d) — "O Palácio do Corte Real e a Ribeira das Naus", vistos do lado do Tejo. A mais antiga gravura [publicada em livro] deve-se a Pieter Vander Aa (c. 1703).

Vista e perspectiva do palácio do irmão do rei, Louis Meunier, 1668.
Imagem: British Museum

e) — "A Igreja e Convento do Jerónimos". A mais antiga representação iconográfica foi gravada em cobre por Dirck Stoop (1662).

O convento de S.to Hieronymos Em Bellem, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

Do mesmo artista existe um quadro a óleo [View of Belem Monastery near Lisbon, c. 1660 - 1670], que está no Museu de Haia (Holanda) [Mauristhuis Museum].

Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém, Dirck Stoop, c. 1660 - 1670.
Imagem: Mauristhuis Museum

Outro quadro a óleo, com assunto idêntico, foi pintado por Filipe Lobo (1650); pertence a um particular [pertencia a João da Costa de Sousa Macedo, e está actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga].

Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém, Filipe Lobo, 1657 (?).
Imagem: MNAA

[Sobre os Jerónimos, também de Filipe Lopo existe um outro quadro, assinado Philippus Lupis Fecit 16--, vendido em pela Christie's em 4 de dezembro de 2013.]

Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém, Filipe Lobo, 16--.
Imagem: Christie's

e) — "Igreja de S.to Amaro, à Junqueira". A primeira gravura, em cobre, é devida a Dirck Stoop (1662).

Vista  de Santo Amaro e Perspectiva do lugar de Bellem, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

g) — "O Mosteiro da Madre de Deus"; a vista do edifício foi gravada por Dirck Stoop em 1662, e não voltou a ser reproduzida até ao fim do século XIX.

Vista do Convento da Madre de Deus, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

h) — "A Igreja e Convento da Graça". Foram representados num painel de azulejos que forma o silhar do refeitório do ex-convento de S. Bernardino [em Atouguia da Baleia], próximo de Peniche. Parece ser pintura do século XVII.

i) — "A Torre de S. Vicente, em Belém"; a primeira gravura que se fez desta obra arquitectural consta da colecção de Dirck Stoop (1662). É o monumento de Lisboa que tem sido objecto do maior número de produções iconográficas até à actualidade.

A torre E entrada da Barra de Bellem, Dirk Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

j) — "A Casa dos Bicos e o mercado da Ribeira Velha"; estão representados num painel de azulejos do século XVII, que devia fazer parte do silhar duma sala. Pertence hoje a um particular [ao Museu da Cidade de Lisboa].

Painel de azulejos, A Casa dos Bicos e o mercado da Ribeira Velha, século XVII.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

k) — "O Desembarque de D. Filipe II de Portugal no Terreiro do Paço, em 29 de Junho de 1619, desenho de Domingos Vieira Serrão, gravado a buril por Ioan Schorquens, para figurar nas duas edições do livro comemorativo da viagem daquele monarca a Portugal.

Chegada do D Filipe II de Portugal a Lisboa para uma viagem no Reino de Portugal,
Ioam Schorquens, segundo Domingos Vieira Serrão, 1619.
Imagem: Wikimedia

l) — "A Viagem da Rainha D. Catarina, filha de D. João IV, para Inglaterra". Foram gravados por Dirck Stoop vários episódios dessa viagem, nos quais se acha representado o Terreiro do Paço (cerca de 1662).

O modo como sua Majestade D. Catarina embarcou de Lisboa para Inglaterra, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

m) — "Uma Tourada no Terreiro do Paço", de que a primeira vista é devida a Dirck Stoop (1662).

Touros Reays nas Festas do Casamento da Raynha da Gran Bretanha Em Lisboa, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

n) — Vistas de "Cerimónias da Inquisição", de que julgamos terem sido gravadas as primeiras por Pieter Vander Aa (c.1705) [Les royaumes d’Espagne et de Portugal representés en tailles-douces trés exactes, dessinées sur les lieux mêmes qui comprennent les principales villes]; uma delas mostra uma procissão saindo do edificio da inquisição no Rossio; a outra é a representação dum "Auto de Fé no Terreiro do Paço".

Lisboa, Rossio, Palácio dos Estaús, Procissão do Auto de Fé, Pieter Vander Aa, rep. c. 1707.
Imagem: Histórias de Lisboa, Tempos Fortes

São estes os edifícios e cenas em praças públicas de Lisboa que só com duas excepções (alíneas b, g), maior número de vezes foram representados em estampas antigas, até aos fins do século XVIII, isolados das vistas panorâmicas da cidade.

Lisboa, Terreiro do Paço, Maneira de queimar os que foram condenados pela Inquisição, Pieter Vander Aa, rep. c. 1707.
Imagem: Histórias de Lisboa, Tempos Fortes

Com respeito a vias públicas da antiga cidade de Lisboa, além das já citadas vistas do Terreiro do Paço, mencionaremos:

a) — "A antiga Rua Nova", iluminura em pergaminho do Livro de Horas de D. Manuel (1517), existente no Museu Nacional de Arte Antiga, que não tornou a ser reproduzida senão no século XIX [v. 4.ª parte desta série].

b) — "O Rossio". A mais antiga representação desta praça, isolada das vistas panorâmicas é do século XVII, e está num painel de azulejos que existia num prédio na Estrada de Benfica; ignoramos o seu paradeiro.

Lisboa, Rossio, Hospital de Todos os Santos, Francisco Zuzarte.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Outro painel de azulejos mostra o Rossio e o Chafariz do Neptuno; é da mesma época que o anterior; estava situado numa sala do extinto Convento das Trinas, e acha-se actualmcnte no Museu de Arte Antiga [Museu da Cidade de Lisboa].

Rossio, Chafariz de Neptuno e Hospital Real de Todos os Santos, Painel de azulejos da 1.ª metade do século XVIII (?).
Imagem: Wikimedia

As gravuras eram geralmente estampadas a preto, e algumas vezes a sépia ou a sanguínea. O empenho, porém, de as valorizarem, e o intuito do seu aproveitamento, depois de emolduradas, para ornamentação de salas, levou muitos artistas a iluminá-las ou colori-las com tintas muito vistosas, e por vezes bastante diferentes das cores naturais dos objectos representados; as colorações feitas à mão variavam de estampa para estampa.

Por isso se encontram no mercado, ou nas colecções, muitas vistas antigas de Lisboa, quer com a sua cor de estampagem, quer com as cores berrantes com que as coloriam. Algumas águas-tintas foram estampadas a cores, ou iluminadas à mão.

As gravuras publicadas até ao terremoto de 1755, ou são estampas isoladas para quadros; ou formavam colecções ou álbuns associados a vistas doutras terras; ou encontravam-se em livros acompanhando, ilustrando e documentando ou textos, onde se lhes faz alusão, ou a sua descrição.

Acrescentaremos que, exceptuando o manuscrito de Francisco de Olanda: "Da fabrica que fa1ece ha Çidade Lysboa", não existe outro trabalho antigo exclusivamente sobre Lisboa, com ilustrações da cidade, quer nacional, quer estrangeiro.

Alguns autores e editores dos séculos XVII e XVIII organizaram colecções de estampas então já conhecidas, ou álbuns com ou sem um pequeno texto descritivo impresso, ou inseriram-nas em livros, quer intercaladamente no texto, quer reunidas no fim dos volumes.

Essas estampas ou eram tiradas com as matrizes em cobre de gravuras anteriores, ou produzidas em novas matrizes copiadas de estampas anteriores. (1)


(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
 
Artigos relacionados:
Da fábrica que falece à cidade de Lisboa
Delícias ou descrições de Lisboa
Panorâmica de Lisboa em 1763

Leitura adicional:
Lisboa do século XVII "a mais deliciosa terra do mundo"
A entrada pública do Núncio Giorgio Cornaro em Lisboa (1693)
O Terramoto de 1755, a Torre do Tombo e Manuel da Maia
A genealogia das imagens de Lisboa...
Saudades da Lisboa Desaparecida
Histórias de Lisboa, Tempos Fortes
O Paço Real da Ribeira - XVI-XVIII

sábado, 22 de agosto de 2015

Nossa Senhora do Castelo

Devido a sucessivas obras, este edifício, construído em 1795 para conter a Câmara, o tribunal, as finanças e a cadeia, encontra-se de tal modo alterado, que é possível encontrar portas e janelas entaipadas, salas pequenas sem entradas (normais) e outras aberturas de difícil interpretação.

Almada, edifício dos Paços do Concelho, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Se a tudo isto se juntar a hipótese, provável, de que aqui se situou a igreja de Nossa Senhora da Assunção (desaparecida aquando do terramoto de 1755) e que dela foram aproveitados alguns restos de paredes ou fundações, teremos um panorama quase caótico, onde se torna de extrema dificuldade a interpretação das estruturas que foram aparecendo, no decorrer dos trabalhos arqueológicos. (1)

Praça Camões, Tribunal e Paços do Concelho — Almada, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

A mais antiga notícia que conhecemos relativa à Igreja de Santa Maria do Castelo, em Almada, consta de um documento da chancelaria de D. Afonso V, datado de 1443, onde se encarrega Lopo Afonso, escrivão da puridade, de administrar uma capela de João Gonçalves, alcaide de Almada, e de sua mulher, Isabel Gonçalves, capela essa situada na Igreja de Santa Maria [...]

Almada. Rua Direita e Egreja de S. Paulo Câmara Municipal, ed. Martins/Martins & Silva, 31, c. 1900
Imagem: Fundação Portimagem

Desconhece-se a data de fundação da Igreja de Santa Maria, devendo admitir-se que é de fundação posterior à de Sant'Iago [Santiago]. Para esta é geralmente aceite que remonta aos primeiros anos da reconquista cristã e, por isso, recebeu por orago o patrono da ordem dos Espatários, que foi donatária de Almada por iniciativa de D. Sancho I.

A notícia mais completa da Igreja de Santa Maria deve-se a Frei Agostinho de Santa Maria que, no seu "Santuário Mariano" editado em 1707, diz entre outras coisas que ela era sede da freguesia de Nossa Senhora da Assunção, orago da Igreja chamada de santa Maria do Castelo. Diz ainda:
"A matriz da vila de Almada é dedicada à rainha dos anjos. Maria santíssima, como são quase todas as deste reino, debaixo do título do castelo não só por que se festeja no dia de sua gloriosa assumção em que se canta o evangelho: 'intravit Iesus in quoddam castellum' mas porque foi achada em os muros do castelo, a invocação também com esse título".

Mas Frei Agostinho dá-nos melhor razão para a igreja se chamar "do castelo", sem que estivesse contida neste ou na sua proximidade:
"Tem esta igreja uma capela mor, majestosa, nela se vê um retábulo dourado, no meio de uma tribuna em que está colocada sobre um trono outra imagem grande [a anteriormente citada, de Nossa Senhora da Assunção era pequena], a quem também dão o título de castelo da Assunção".

Eis a razão fundamental porque a igreja se chamava de Santa Maria do Castelo [...]

Comparem-se algumas formas e volumetrias da ermida de Nossa senhora do Castelo em Mangualde, na imagem, com elementos equivalentes dos Paços do Concelho de Almada.
Imagem: Turismo de Mangualde

Para além destes elementos, sabe-se que a igreja foi reconstruída no reinado de D. João V, por mandado deste, enquanto que na mesma época o foi igualmente a igreja de Sant'Iago por iniciativa do irmão de D. João V, o infante D. António.

As últimas notícias fidedignas sobre a igreja reportam ao séc. XVIII e informam-nos que o edifício foi destruído pelo terramoto de 1755.

Vista geral de Lisboa, tomada perto de Almada, século XVIII.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

A partir de então as várias citações de diversos autores mergulham na confusão: a igreja por se ter chamado do Castelo, é localizada dentro da fortificação, confundida com a de Sant'Iago ou dada como completamente desaparecida.

Planta do castelo de Almada em 1772.
Imagem: Rui Manuel Mesquita Mendes.

Nenhum texto conhecido a localiza com fundamento razoável [...] (2)

Almada, praça Nova e rua Direita, década de 1890.
Imagem: Hemeroteca Digital


(1) Barros, Luís, Al-madam, I série, n.º 3 Almada, Centro de Arqueologia de Almada, 1984
(2) Pereira de Sousa, R. H., idem

Artigos relacionados:
Os Paços do Concelho
O castelo, a igreja, a vila e a cerca

Informação relacionada:
Da Imagem de nosa Senhora do Castello da villa de Almada

terça-feira, 3 de março de 2015

Delícias ou descrições de Lisboa

Les delices de l’Espagne et du Portugal: ou l’on voit une description exacte des antiquités, des provinces, des montagnes, des villes, des riviéres, des ports de mer (...) de Juan Alvarez de Colmenar,

Vista de lisboa do lado do Tejo.
Imagem: Les delices de l'Espagne et du Portugal...

[...] as gravuras surgem com a legenda em francês mesmo na versão holandesa desta obra, que foi publicada no mesmo ano com o título Beschryving van Spanien en Portugal waar in, op het naauwkeurigste, al het geene, dat zoo ten opzigte van hunnen ouden (...).

Vista da praça do palácio em Lisboa.
Imagem: Les delices de l'Espagne et du Portugal...

As gravuras aí reproduzidas surgem num volume só com as imagens, que não está datada mas também poderá ser de cerca 1707, o qual tem por título Les royaumes d’Espagne et de Portugal representés en tailles-douces trés exactes, dessinées sur les lieux mêmes qui comprennent les principales villes.

Palácio do conde de Aveiro em Lisboa onde Charles III foi alojado.
Imagem: Les delices de l'Espagne et du Portugal...

A preparação das gravuras é indicada como sendo da responsabilidade de: J. Baptist Sculp. - J Goerce delin, seguindo-se de perto as que foram traçadas por Dirck Stoop para as vistas dos monumentos e do casamento de D. Catarina,

Vista do palácio real de Lisboa.
Imagem: Les delices de l'Espagne et du Portugal...

mas com o acréscimo e ligeiras alterações das duas que haviam sido apresentadas por van Merle (o palácio Corte Real com a Ribeira das Naus) e Pieter van den Berge (o palácio Corte Real com o torreão do Paço da Ribeira), sendo por isso a colecção que reúne tudo o que havia sido publicado no século XVII, a que se acrescentaram novas imagens sobre a Inquisição. (1)

Vista do palácio que o rei de Portugal comprou.
Imagem: Les delices de l'Espagne et du Portugal...

Juan Álvarez de Colmenar autor de "Les Delices de l'Espagne et du Portugal" (Leiden, Pieter van der Aa: 1707), traduzidas para neerlandês "Beschryving van Spanjen en Portugal"

Vista do porto e da igreja de Belém e da de Santo Amaro.
Imagem: Les delices de l'Espagne et du Portugal...

Provavelmente um francês que vivia nos Países Baixos.

O Tejo, rio, Cascais, Belém.
Imagem: Les delices de l'Espagne et du Portugal...

Assume-se que tenha adotado um nome espanhol a pedido do editor para apoiar o seu livro em Espanha e Portugal. (2)

Igreja e mosteiro real de Belém.
Imagem: Les delices de l'Espagne et du Portugal...

El gravat presenta la torre de Belem a Lisboa obra de l’arquitecte Francisco de Arruda. La construcció d’aquesta es va iniciar en el segle XV impulsada pel monarca Manuel I. La imatge mostra la ciutat, la torre i el mar Atlàntic amb vaixells. Existeixen molts gravats d’aquesta torre i tots presenten una imatge molt semblant. Destaquen els d’Allain Manesson Mallet i Albrizzi (1755). (3)

Vista da Torre de Belém.
Imagem: Les delices de l'Espagne et du Portugal...


(1) Lisboa do século XVII "a mais deliciosa terra do mundo"
(2) The British Museum
(3) Col·lecció Josep Ibarz

Leitura adicional:
Colmenar, Juan Alvarez, Les delices de l'Espagne et du Portugal, eu l'en voit des montagnes, des villes, des rivières, Volume 5, Leiden, Pierre van der Aa, 1707
Iconografia de Lisboa