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quarta-feira, 30 de outubro de 2019

A casa da Quinta da Oliveira

D. Francisco de Noronha (1863-1953), fidalgo de quatro costados — e dos quais não blasona — é um ancião de 85 anos, que vive no seu solar modesto de Cacilhas, contiguo aos terrenos que foram dos condes Assumar e dos marqueses de Alorna, integrados na casa Mascarenhas, e que há pouco passaram, e em boa hora, para a Camara Municipal de Almada.

A casa de D. Francisco de Noronha (Prédio do Gato).
Alexandre M. Flores, Almada antiga e moderna, Freguesia de Cacilhas, CMA, 1985

D. Francisco, de memória viva, metido entre os seus livros — que são alguns preciosos — as suas evocações, os seus constantes escritos literários que dispersa, generosamente — conheceu Bulhão Pato. Foi da sua privança.

D. Francisco de Melo e Noronha (1863-1953).
Espólio AIRFA (InfoGestNet)

— Como não ser? Meu tio, que foi juiz desembargador, legou-me esta minha pobre casa, que ele comprara aí por 1872. Por aqui tenho vivido. (1)

*
*     *

É sempre um prazer encontrar alguém interessado como nós em conhecer os antepassados. Na nossa família existe uma geração em que se sabe ter havido escritura ante-nupcial, em que se estipulava a conservação e prioridade do apelido Netto, num casamento cerca de 1820, em S. Paulo de Almada (meus tetra-avós). também encontrei Assentos de Baptismo, Casamento e Óbito desde cerca de 1580; aliás os assentos só passaram a ser obrigatórios nessas datas. 

Muito do restante foi encontrado em enciclopédias, História de Portugal de Alexandre Herculano, Torre do Tombo e tradição oral e familiar. (2)

Almada, Casa do Gato, posteriormente Externato Liceal de Almada (Externato do Gato), década de 1960.
Casario do Ginjal

É interessante que haja uma certa continuidade da ideia da ascendência judaica, pois o meu trisavô Isidoro d'Oliveira Carvalho Netto (1827-1859), [filho de Isidoro de Oliveira Carvalho nascido em Secarias, Arganil, 1 de abril de 1776 e falecido em Almada no ano de 1849 e de Ana Moreira Netto nascida em Vilela, Paredes, 5 de julho de 1799 e falecida em Almada no ano de 1851, ], tinha uma Estrela de David por cima do portão de entrada da sua casa em Almada [Quinta da Alegria, anteriormente dita dos Bixos?]

[Da descendência de Isidoro de Oliveira Carvalho (1776-1849) e de Ana Moreira Netto (1799-1851), para além de Isidoro d'Oliveira Carvalho Netto (1827-1859), conhecemos ainda Maximiana Isidora Oliveira Netto, nascida na Quinta da Oliveira, Almada, em 23 de abril de 1832, que casou em 2 Fevereiro 1850, em S. Tiago, Almada, com António Carlos Pereira Serzedello, e Feliciana Isidora Oliveira Netto, nascida também na Quinta da Oliveira, Almada, em 24 de outubro de 1833, que casou em 14 Abril 1850 com José Eduardo Pereira Serzedello (v. mais informação sobre os Pereira Serzedello).]

Antiga residência de D. Francisco de Noronha, década de 1970.
Alexandre M. Flores, Almada antiga e moderna, Freguesia de Cacilhas, CMA, 1985

O meu bisavô Isidoro d'Oliveira Carvalho Netto (1850-1883) casou com uma senhora, que também devia ter ascendência judaica e dos 6 filhos que tiveram, 3 tinham nomes judaicos, Moisés Levi, Henrique Samuel e Esther. Um primo que ainda conheci era Levi Jenochio. 

No entanto foram sempre educados na religião católica, com muita abertura de espírito! O filho varão mais velho continuava a tradição do nome e apelido, meu avô José Isidoro d'Oliveira Carvalho Netto (1875-1960) (3)

Á noite deu sr. presidente da camara [Bernardo Francisco da Costa, no domingo, 1 de novembro de 1874, por ocasião dos festejos da inauguração Chafariz de Cacilhas] um baile esplendido ás pessoas das suas relações, tendo-lhe prestado para esse fim a sua casa o seu intimo amigo o sr. Isidoro Netto [Isidoro de Oliveira Carvalho Netto], por ser mais espaçosa do que a de s. ex.ª.

Retrato de Bernardo Francisco da Costa
Galeria dos Goeses Ilustres

Tudo foi deslumbrante n'esta reunião de pesssoas de amisade, primeiro que tudo a amabilidade dos donos da casa, depois a animação do baile, a profusao do serviço; em fim não ha phrases com que se descreva o que ali se passou. 

O baile terminou ás 6 horas da manhã. As toilettes eram em geral de muito gosto. A ex.ª sr.ª D. Luiza Costa tinha um lindo vestido de faie azul claro enfeitado de ramos de flores; — da mesma côr vestia a ex.ª sr.ª  D. Amelia Affonso com toda a elegancia propria da sua ingenuidade; a ex.ª sr.ª D. Amalia Tavares vestia de veludo preto por estar de luto, era rico o seu vestuario; — sua irmã a ex.ª sr.ª   D. Henriqueta Tavares Marques tambem vestia de damasco preto, uma rica toitette; a ex.ª sr.ª   D. Maria José Collares trajava um rico vestido de setim côr de rosa, com enfeitos pretos; — da mesma cõr em damasco, com enfeites brancos, e rendas de França era a toitette da ex.ª sr.ª   D. Izabel Affonso: emfim todas as senhoras estavam elegantissimas. — Foi um baile esplendido na verdadeira significação da palavra. (5)

José Isidoro d'Oliveira Carvalho Netto (1875-1960) nasceu às 20h00 do dia 2 de Junho de 1875, na Rua da Oliveira em Cacilhas, numa casa conhecida por "Casa do Gato".

José Isidoro d'Oliveira Carvalho Netto
(Almada 02-06-1875 – Lisboa 10-01-1960)
Ser Benfiquista

O pequeno José era filho de Isidoro de Oliveira Carvalho Netto, proprietário, natural de Almada e de Dona Júlia Amélia Freitas Netto, doméstica e natural da freguesia de Nossa Srª dos Anjos em Lisboa.

Nasceu no seio de uma família abastada mas quis o destino que na sua meninice a sua família entrasse em falência num processo de garantia para um banqueiro chamado Moura Borges. (4)

Foi educado na Casa Pia, frequentou as Belas Artes de Lisboa, o curso de Escultura com 20 valores, com Anatol Calmels e Jose Simões de Almeida, tio, seus professores. Foi seu colega Simões de Almeida, sobrinho.

As suas obras foram premiadas com Medalhas de Bronze e Prata, em 1895, 1896 e 1898. Em 1910 recebe o Prémio Valmor. Foi bolseiro em Paris de 1909 a 1911. Na Exposição Madrid de 1912 recebeu a comenda de Isabel a Católica. Possui ainda medalha de Ouro da exposição do Rio de Janeiro 1923.

Professor de Desenho da Escola Nacional e vários colégios dependentes da Casa Pia de Lisboa, tendo sido seu aluno Leopoldo de Almeida.

Foi um dos fundadores do Sport Lisboa e Benfica, na farmácia Franco em Belém, em Fevereiro de 1904 [...] (6)


(1) Diário de Lisboa, 28 de agosto de 1946
(2) Manuela Netto Rocha, Geneall
(3) Manuela Netto Rocha, Idem
(4) Ser Benfiquista
(5) Diario Illustrado, 3 de novembro de 1874
(6) José Isidoro d'Oliveira Carvalho Netto, Wikipédia

Artigos relacionados:
Courelas e Figueirinhas
D. Francisco de Noronha recorda Bulhão Pato
Largo Gil Vicente
Serzedello & Ca., Laboratorio Chimico na Margueira

sábado, 7 de setembro de 2019

Chafariz de Cacilhas (os festejos da inauguração)

Foi no domingo dia de grandes festejos em Cacilhas. Logo de manhã começaram a subir ao ar muitos foguetes annunciando a costumada festividade religiosa, e tambem a inauguração do excellente chafariz que a camara municipal mandou construir n'aquelle local.

Chafariz de Cacilhas, inaugurado em 1 novembro 1874.
Biblioteca Nacional de Portugal

Ás 11 horas da manhã sairam dos paços do concelho a camara municipal, que se compunha do sr. presidente Bernardo Francisco da Costa, dos srs. vereadores Antonio de Brito, e Salvador Duarte, escrivão e todos os seus empregados; acompanhavam tambem a camara o sr. Palmeirim, administrador do concelho, o seu escrivão e empregados da administrado, além das diferentes auctoridades, e cavalheiros da terra indo á frente de todos uma excelente philarmonica.

Banda da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, 1894-1896.
InfoGestNet

Chegados a Cacilhas e junto do chafariz, onde se haviam collocado uma meza e cadeiras, estava o sr. engenheiro director o sr. Carlos Agostinho da Costa, soltando a agua e fazendo-a correr pelas quatro torneiras, e fez entrega á camara da obra que lhe havia sido incumbida, lavrando-se em seguida o auto de inauguração, que foi assignado pelas auctoridades e por muitos funccionarios que se achavam presentes, entre os quaes vimos o sr. commendador Holbeche, conservador Quaresma, dr. Loureiro, Manuel de Jesus Coelho, Madureira Chaves, Chichorro da Costa, etc.

As damas mais elegantes de Almada tambem concorreram a embellesar este acto com a sua presença. 

Nas janellas das casas em ter-no do chafariz viam-se magnificas toilettes. 

Encerrado o auto o sr. presidente leu em voz alta a seguinte saudação que foi acolhida com acalorados vivas: 

Retrato de Bernardo Francisco da Costa
Galeria dos Goeses Ilustres

Salve, ó fonte amiga! Manem fecundas e perennaes tuas aguas puras e cristalinas. Nunca tuas forças cancem; nunca teu curso sereno esmoreça; nunca teu doce murmurio cesse.

Salve, ó fonte amiga! A aurora, que hoje esplendida te raia, seja a luz suave que sempre teus dias innocentes doire. Se nas salsas aguas do mar peregrina perdida andavas; se entre os limos do visinho rio teus ricos encantos se iam sumidos; se assim aviltada em lamentavel olvido por seculos se contava esse teu viver mesquinho; por seculos se contém tambem, d'ora avante, teus dias alegres e formosos.

Salve, ó fonte amiga! Tres vezes salve! Mil distantes metros percorrendo risonha vens até ás nossas moradas? Mil vezes bem vinda sejas. Milhares de vezes tuas limpidas aguas possam nossos labios libar. Por milhões valham teus gratos serviços. 

Vem, ó mimosa fonte, ser nossa companheira quotidiana, presidir á hygiene publica, extinguir os incendios. Vem ó fonte meiga, entra sempre copiosa assim na modesta cabana do pobre, como nos amplos salões do rico. Desde muito anciosamonte desejada, a despeito de larga descrença nascida, entre labores arduos creada, com merecida alacridade recebida; vem ó filha deste povo, entre nós e para nós viver.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Delcampe

Não te desvaneças porém de seres hoje a unica, que amanhã novas irmãs comtigo á partilha virão. Nem então d'ellas inveja deves ter porque sempre a primogenita has de ser. Nem tão pouco te pése o seres obra modesta e não faustosa, pois sabes que no mundo tudo é relativo, e que por muitos d'aqueiles, que podem apreciar as condições difficeis d'este concelho, foste reputada de fundação quasi impossivel.

Ouves essas harmonias? Escutas essas philarmonica? Sentes o atroar estridente dos foguetes? Observas as bandeiras e galhardetes que as ruas enfeitam? Contemplas gostosa tantas damas lindas, tantos cavalheiros elegantes, que todos risonhos se apinham em torno de ti. Apraz-te este numeroso e alegre concurso? Embevece-te o prazer phrenetico e ruidoso que te circunda? É a tua recepção festival, é o enthusiasmo por um dos muitos melhoramentos de que esta terra carece, e a que justamente o povo aspira.

Anima-o, ó fonte fagueira, para que na larga, se bem que custosa, vereda de creações uteis e produclivas prosiga corajoso. Fortalece-o para que novas victorias nestas lutas incruentas das artes da paz alcance glorioso; para que na marcha encetada não suspenda o passo; para que com outros e mais avantajados beneficios dote este concelho; para que rompa novas vias de communicação e aperfeiçoe as antigas; para que, em uma palavra, a seus obreiros conceda recursos e cooperação.

É pois que tu, ó recemvinda, me dizes que te anima profunda gratidão a este bom povo, por haver quebrado o encanto da tua mofina existencia passada — ao concelho deste districto porque prestes deu todo o superior apoio para a tua regeneraçao — á camara e conselho municipal, que se empenharam até levar a cabo a tua emancipação ao joven architeeto, que com dedicação inexcedível construiu o teu elegante berço e aos proprietarios do Ginjal, Covalinho e Cacilhas que benevolamente coadjuvaram os trabalhos; concede-me o doce encargo de teu interprete e permitte que em teu nome eu diga:

Vivam os habitantes do concelho de Almada. 

Viva o conselho do districto de Lisboa. 

Vivam a camara e o conselho municipal de Almada.

Vivam todos aquelles que cooperaram para se levar a effeito esta obra.

Cacilhas 1 de novembro de 1874.

Seguia-se a ceremonia religiosa que todos os annos se faz, n'este dia, em Cacilhas, em cumprimento de um voto feito por occasião do terramoto de 1755. 

A imagem da Nossa Senhora do Bom Successo, conduzida em procissão pela sua irmandade, vem até á beira mar, pára ali, todos ajoelham, e resa-se um antiphona: é um acto edificante e de muito respeito. 

Cacilhas, imagem da Nossa Senhora do Bom Sucesso em procissão.

Na procissão ia o Santissimo, levado pelo reverendo padre João Pereira Netto, que depois cantou á missa, orando ao Evangelho o reverendo conego Antonio José Pereira. Tanto a festa como o sermão foram rnagnificos.

A todos estes actos seguiu-se um opiparo lunch ao Ginjal em casa do sr. engenheiro Costa, para oque tinha convidado muitos dos seus amigos, e posto que não assistissimos, por motivos superiores aos nossos desejos, com, tudo, bem informados, sabemos que não deixou nada a desejar. O sr. Costa e a sua familia obsequiaram o mais possivel os seus convivas.

Á noite deu sr. presidente da camara um baile esplendido ás pessoas das suas relações, tendo-lhe prestado para esse fim a sua casa o seu intimo amigo o sr. Isidoro Netto, por ser mais espaçosa do que a de s. ex.ª. Tudo foi deslumbrante n'esta reunião de pesssoas de amisade, primeiro que tudo a amabilidade dos donos da casa, depois a animação do baile, a profusao do serviço; em fim não ha phrases com que se descreva o que ali se passou. 

Vista da Praça do Comércio, rio Tejo e Cacilhas na Outra banda, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
  Biblioteca Nacional de Portugal

O baile terminou ás 6 horas da manhã. As toilettes eram em geral de muito gosto. A ex.ª sr.ª D. Luiza Costa tinha um lindo vestido de faie azul claro enfeitado de ramos de flores; — da mesma côr vestia a ex.ª sr.ª  D. Amelia Affonso com toda a elegancia propria da sua ingenuidade; a ex.ª sr.ª D. Amalia Tavares vestia de veludo preto por estar de luto, era rico o seu vestuario; — sua irmã a ex.ª sr.ª   D. Henriqueta Tavares Marques tambem vestia de damasco preto, uma rica toitette; a ex.ª sr.ª   D. Maria José Collares trajava um rico vestido de setim côr de rosa, com enfeitos pretos; — da mesma cõr em damasco, com enfeites brancos, e rendas de França era a toitette da ex.ª sr.ª   D. Izabel Affonso: emfim todas as senhoras estavam elegantissimas. — Foi um baile esplendido na verdadeira significação da palavra. (1)


(1) Diario Illustrado, 3 de novembro de 1874

Artigo relacionado:
Chafariz de Cacilhas

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Almada (1967)

No cineteatro da Academia Almadense estreou-se no mês findo o documentário colorido "Almada – Varanda do Tejo", ao qual assistiu o senhor Governador Civil do distrito de Setúbal, que se encontrava acompanhado pelos senhores presidente e vice-presidente da câmara, vereadores e entidades militares, civis e religiosas.

Excerto do filme Almada - Varanda do Tejo (cor, 35 mm), Ricardo Malheiro, 1967.
Cinemateca Digital

Patrocinado pela câmara de Almada, [o filme foca] a projecção turística urbana e industrial do concelho de Almada. (1)


(1) Jornal Praia do Sol, 1 de novembro de 1967

domingo, 19 de junho de 2016

Crescimento do largo de Cacilhas

Durante a década de 1860, após várias tentativas desastrosas de estabelecimento de carreiras de vapores subsidiadas pelo Estado, a Empresa de Vapores Lisbonenses [empresa de Guilherme Burnay, depois Parceria de Vapores Lisbonenses] conseguiu assegurar o funcionamento de algumas carreiras em barcos a vapor para o transporte de passageiros e mercadorias de Lisboa para Paço de Arcos, Belém e Cacilhas.

Barco a vapor a atracar em Cacilhas.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A firma dominou os transportes fluviais a vapor no Tejo em toda a segunda metade do século, assegurando a exclusividade no transporte para Cacilhas.

A partir daqui as pessoas deslocavam-se para Almada e outras povoações em burros ou trens especialmente fretados para o efeito, os "chars-à-bancs" [charabans, pop.].


Cacilhas, Molhe e pharol, ed. Martins/Martins & Silva, 19, c. 1900.
Imagem: Delcampe, Oliveira

Nas primeiras décadas do século XX o aumento da população da margem esquerda e o estabelecimento das ligações rodoviárias com o Sul forçaram a um alargamento do cais de Cacilhas a partir de Novembro de 1928, o que permitiu uma atracagem mais frequente dos barcos de diversas empresas que faziam a travessia do Tejo.

A partir de 1925 começaram a estabelecer-se carreiras regulares entre Cacilhas e diversas localidades do Sul do país, o que levou as autoridades marítimas a iniciar o referido alargamento do cais, de forma a permitir o estacionamento dos veículos das empresas que iam tomando as concessões dessas carreiras.

Largo de Cacilhas, 1.a Volta a Portugal a Cavalo, 10 de outubro de 1925.
Imagem: Luís Bayó Veiga, Cacilhas - Imagens d' antigamente, 2011, Junta de Freguesia de Cacilhas, 55 págs.

A intensificação do trânsito rodoviário de ligação ao Sul começou, em meados dos anos 30 [...]

Autocarro da Seixalense no largo de Cacilhas em 1931. No letreiro: Cacilhas-Seixal e vice-versa.
Imagem: José Luis Covita, Memórias de um Século de Autocarros a Sul do Tejo, Scribe, 2013

As obras, no entanto, prolongaram-se até 1933, e durante este período os numerosos auto-cars foram forçados a utilizar apenas a parte antiga do largo, pois a falta de pavimentação do acrescento transformava-o num lodaçal. (1)

Cacilhas, chegada dos concorrentes da prova dos 10 mil quilómetros, organizada pelo Automóvel Clube da Alemanha, 1931.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

Por esse tempo, Cacilhas parecia uma cobra a mudar de pele. A praia e a rampa onde os barcos de pequeno calado encontravam abrigo, a uma pequena parcela de muralha, o primeiro aterro. Os trens e as carroças foram rendidos pelas camionetes e os taxis, relegando as bestas de tracção para outras tarefas [...] (2)

Pontaleto de Cacilhas, década de 1940.
Imagem: Flores, A. M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas

Em 1949 a Autocarros do Sul fundiu-se com a Transportadora Beira-Rio, do Seixal, e constituiu a Empresa de Transportes Beira-Rio, L.da.

A Autocarros do Sul, com sede em Cacilhas foi integrada na Transportes Beira-Rio, Lda. que havia sido constituída em 1943 em Paio Pires, por José Vicente Moreira e Joaquim Ferreira dos Santos.

No mesmo ano o dono da Autocarros do Sul (João Carneiro Zagalo e Melo) vai adquiri-la e mudar a sede para Cacilhas.

Essa empresa é que chegará pela mão da família Zagalo a 1968 e constituirá a Transul ( juntamente com a Piedense).

José Luis Covita
A partir de 1945 passaram a existir apenas duas empresas de transporte de passageiros entre as povoações do concelho de Almada: a Empresa de Camionagem Piedense, L.da, que assegurava as ligações de toda a zona norte do concelho, de Cacilhas à Costa da Caparica, e a Autocarros do Sul Empresa de Transportes Beira-Rio, L.da, com a concessão de todo o eixo de saída para o Sul, englobando a Cova da Piedade, Laranjeiro, Sobreda, Seixal e Paio Pires.

Cacilhas, largo do Costa Pinto, Mário Novais, 1946.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A aceleração da urbanização da zona de Almada, a partir de 1947, e a intensificação do tráfego rodoviário para o Sul do país fizeram com que o Largo de Cacilhas se revelasse novamente insuficiente para a movimentação cada vez maior de autocarros.

Cacilhas, Lisboa vista de Cacilhas, ed. Postalfoto, 468, década de 1950.
Imagem: Delcampe

Em 1950 efectuou-se um novo e decisivo alargamento do largo para a sua dimensão actual [2000], transformando-se num dos maiores centros rodoviários do país [...] (3)


(1) Jorge de Sousa Rodrigues, Infra-estruturas e urbanização da margem sul: Almada, séculos XIX e XX, 2000, 35 págs.
(2) Romeu Correia, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.
(3) Jorge de Sousa Rodrigues, idem


Referências;
José Luis Gonçalves Covita, História da Camionagem no Concelho de Almada, Câmara Municipal de Almada, 1995

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Cacilhas vista do Tejo, em 1847
Na esplanada do forte de Cacilhas

Largo do Costa Pinto
A calheta de Cacilhas

quarta-feira, 15 de junho de 2016

A calheta de Cacilhas

Offerecemos uma vista da pequenina abra ou calheta do logar de Cacilhas, tomada do barco de vapor que para alli faz constante carreira diaria. (1)

Vista Geral de Cacilhas, ed. José Pinto Gonçalves, década de 1920.
Imagem: Delcampe - Bosspostcard

A referência mais antiga a Cacilhas de que dispomos data de 1348 onde a palavra Cacilhas se inscreve em assento notarial.

Sabemos que o porto, anteriormente a 1838, era uma baía protegida dos ventos de Norte por uma linha de rochas, o Pontaleto, e limitado a Sul por um promontório o Pontal. Entre estes limites dois outros alinhamentos rochosos também de sentido Leste-Oeste dividiam a baía em três partes: a do Norte era a praia de Cacilhas propriamente dita, a do Sul a praia das Conchinhas e entre ambas ficava a da Lapa.

À parte os alinhamentos rochosos as praias eram de areia, propicias ao encalhe de pequenos barcos e proporcionavas ás embarcações um bom abrigo dos ventos, excepto os de Leste e Nordeste. Estes mais desagradáveis que ofensivos.

Cacilhas, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 20, década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Lugar de embarque privilegiado entre a "outra banda" e Lisboa é natural que tenha surgido ali, muito cedo (Século XII?) uma albergaria destinada a peregrinos e outros viajantes como se depreende do primitivo nome: Albergaria dos Palmeiros.

Pontal de Cacilhas, ed. Alberto Malva/Malva & Roque, 135, década de 1900
Imagem: Delcampe

Mais tarde, (Século XIV) aparece uma gafaria, tendo por Orago S. Lázaro. Gafaria e Albergaria são, no principio do Século XV, a mesma instituição designada por Casa dos Gafos de Cacilhas e, pouco depois, por Albergaria de S. Lázaro.

Dispunha de alojamentos separados, em diferentes casas, para peregrinos e para os gafos, como seria obrigatório; entre as duas casas havia um pãtio ou terreiro onde se erguia a ermida de S. Lázaro. A administração era municipal, parecendo ser, entre as instituições nacionais mais antigas congéneres, uma das raras que pode ter sido de iniciativa municipal.

O farol e a doca de Cacilhas, colecção Henrique Seixas, Museu da Marinha,
in Loureiro, Carlos Gomes de Amorim, Estaleiros Navais Portugueses...
Imagem: Livreiro Monasticon

Em 1569, por uma provisão de D. Sebastião, a administração foi confiada à Misericórdia de Almada que, no entanto, elegia anualmente para "mamposteiro", em representação do provedor da Misericórdia dos dois juízes ordinários de Almada que haviam exercido funções no ano anterior.

Foram "mamposteiros" de 5. Lázaro, no Século XVI, D. João de Portugal, que inspirou o famoso "romeiro" de Garrett, D. João de Abranches e Fernão Mendes Pinto, entre outros.

Segundo supomos a albergaria situava-se do lado Norte da Rua Carvalho Freirinha, perto das novas instalações do Ginásio Clube do Sul. Neste local foram encontradas ossadas (não estudadas) que deviam pertencer ao antigo cemitério do gafos.

As casas da albergaria estavam separadas da povoação por uma Quinta de lavoura. No mesmo sítio Esteve instalado no Século XVIII o "hospital dos ingleses" uma instituição que provia à assistência de passageiros e tripulantes de barcos ingleses, incluindo os obrigados às quarentenas.

Vista norte de Cacilhas. Em primeiro plano ao lado esquerdo, dois marinheiros carregam cestos a partir de uma barcaça, com a inscrição 'JWells Aqua', para o convés de um ferry-boat onde uma mulher e dois homens aguardam. Do lado direito um barco transporta um passageiro abrigado por um dossel e seis remadores. Vista da igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso, do porto e do lugar de Cacilhas. A bandeira inglesa sobre o hospital. Ao fundo, veleiros no rio Tejo.
in British Library    
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Ainda há poucos anos os terrenos neste sítio pertenciam a súbditos ingleses que os devem ter adquirido à antiga instituição; o hospital dos ingleses deixou de funcionar em meados do Século XIX.

Praia de Cacilhas, The Harbour of Lisbon, Charles Henry Seaforth (1801 - c. 1854).
Imagem: reprodução em colecção particular

No Século XVI a povoação é frequentemente citada com a designação de "porto de Cacilhas" e tanto quanto sabemos era uma pequeno aglomerado que não consta que dispusesse: sequer de igreja que não fosse a dos lázaros, a qual enquanto houve leprosos (até ao Século XV) servia apenas a estes.

No Século XVII já estava em funcionamento outra ermida, a de Santa Luzia, dependente da matriz da Freguesia de Santiago.

O terramoto de 1755 destruiu ambas as ermidas, que não foram reconstruidas. A ermida de Santa Luzia situada talvez no Beco do Bom Sucesso, logo à entrada, segundo cremos, pela existência de um painel de azulejos que se conservou até há pouco num pequeno prédio e pela antiga designação de "Rua das terras da igreja".

Cacilhas, Caes e Pharol, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Fundação Portimagem

Em meados do Século XVIII já ao antigo orago da ermida Santa Luzia se sobrepunha o novo a Senhora do Bom Sucesso que vem a ser a invocação da nova Igreja de Cacilhas, construída após o terramoto.

De S. Lázaro, protector dos leprosos, passa se a Santa Luzia, ainda protectora de doentes e depois à Senhora do Bom Sucesso orago de navegantes; uma evolução que exprime, de certo modo, a transformação social e económica: de sítio de passagem, relativamente pouco povoado (até ao Século XV) e albergue de doentes e viajantes passa a porto importante com grande movimento comercial e predomínio de população ligada às fainas marítimas.

Cacilhas, Caes e Pharol, ed.Tabacaria Havaneza, década de 1900.
Imagem: Delcampe

É pelos Séculos XVII e XVIII que aparecem os grandes armazéns de vinhos e de azeites em Cacilhas, principalmente ao longo do Ginjal, correspondendo ao apogeu da cultura da vinha na região de Almada.

Em 1838 o porto foi melhorado com a construção de um cais de alvenaria sobre o Pontaleto, formando esporão e com a construção ou reconstrução da muralha que ia desde o Pontaleto ao extremo Sul da praia, frente à actual Rua Cândido dos Reis. No extremo do esporão e escadaria que o rematava instalou se uma coluna de pedra com uma lanterna, servindo de farol.

Cacilhas, Charles Chusseau-Flaviens, c. 1900/1919
Imagem: George Eastman House

Em princípios do Século XIX Cacilhas estendia-se quase duas centenas de metros ao redor da pequena baía. (2)


(1) O Panorama, n° 18, vol. IX, Lisboa, Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, 1847
(2) R. H. Pereira de Sousa, Almada, Toponímia e História, Almada, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

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Na esplanada do forte de Cacilhas
Cacilhas vista do Tejo, em 1847

Tema:
Cacilhas

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Horizontes

A aplicação do Plano de Urbanização de Almada (1946) é o motor de mudanças profundas na ocupação e forma de povoamento, alteração de usos do solo e das formas de concentração populacional, condicionando a sustentabilidade e administração territorial futura. 

Almada, Cacilhas - Vista Parcial, ed. J. Lemos, s/n, década de 1950.
Vista da Avenida Frederico Ulrich, atual 25 de Abril, Vila Brandão e morro do moinho.
Imagem: José Luis Covita

Nasce uma nova cidade, com outras dinâmicas económicas e sociais.

Abertura das novas avenidas de Cacilhas para a Cova da Piedade e Almada, 1954.
Imagem: Mário Cruz Fernandes in , As Margueiras, Contributos para a história de Cacilhas

A estrutura da vila é redesenhada, projetando-se o seu desenvolvimento para leste, incluindo áreas industriais de dimensão acentuada (Cova da Piedade e Cacilhas) e as zonas rurais no seu perímetro de influência (Pragal, Laranjeiro, Feijó).

Criam-se instrumentos de planeamento urbano para a intervenção em áreas maioritariamente rurais: expropriações de terrenos com caráter público (para novas vias, bairros de casas económicas, centro cívico e avenidas centrais) e tipologias de planos para construção massiva de novas infraestruturas.

Projecto da Avenida Engenheiro José Frederico Ulrich, 1951-1952.
Imagem: Ver Almada crescer: 10 anos do Museu da Cidade (catálogo)

A construção da parte nova da vila decorre num ritmo lento em comparação com a afluência de novos habitantes: os consumidores de água no Concelho aumentam de 5 mil em 1951 para 18 mil em 1961; a Companhia dos Telefones de Almada tem uma lista de espera de 2 anos para obtenção de telefone doméstico. (1)


(1) Ver Almada crescer: 10 anos do Museu da Cidade (catálogo)

Artigos relacionados:
Largo Gil Vicente
Praça da Renovação

Leitura adicional:
Rodrigues, Jorge de Sousa, Infra-estruturas e urbanização da margem sul: Almada, séculos XIX e XX, 2000, 35 págs.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O morro do moinho

Bem perto das Margueiras, existiam terras de cultivo, que garantiam a sustentabilidade dos ocupantes do espaço.

Vista poente de Cacilhas junto ao rio Tejo (detalhe), Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Durante séculos, o trigo, o milho, a cevada e outros cereais, chegavam ao morro sobranceiro ao Tejo, onde os moinhos aí existentes cumpriam a sua função de fornecer aos habitantes a farinha, tão necessária à confecção do pão e de outros alimentos de uso quotidiano [...]

Vista nascente de Almada e Cacilhas junto ao rio Tejo (detalhe), Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Para facilitar a ligação entre o cais de Cacilhas e a Margueira existia um túnel, que passava por baixo do morro, logo a seguir à Lapa.

Junto à Lapa, encostado ao morro, existia um mirante, que se destacava pela sua altura a par do morro, cuja existência alimentou durante muitos anos a imaginação popular [...]

Detalhe da torre e mirante (arquvivo "O Século", Grupo de Obuses Pesados, Manobras militares do Outono), 1937.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

No início dos anos 50 instalou-se aí a fábrica de Manilhas do senhor Patraquim, na sequência do qual foi derrubado o muro existente que delimitava a propriedade e impedia o seu livre acesso, e abriu espaço à instalação de famílias no morro do Moinho.

O Berlinde por um Óculo, fotografia de Fernando Barão.
Imagem: Casario do Ginjal

Este local era conhecido de forma carinhosa por ilha do Papagaio Cinzento [...]

Construções no morro do moinho, c. 1950.
Imagem: Bildarchiv Foto Marburg

Como se torna evidente as habitações eram bastante modestas, sem electricidade, água canalizada e saneamento. 

Porém, no núcleo do moinho, algumas delas estavam acabadas com algum esmero, onde não faltava um pátio de entrada, perfeitamente delimitado com gradeamentos de madeira e passadiço do mesmo material até à porta de entrada das casas, onde pontificavam caramanchões e outras plantas ornamentais [...]

O abastecimento de água era feito através de chafarizes públicos. Inicialmente os habitantes do núcleo norte, desciam a encosta e recolhiam-na num chafariz existente no início do Beco do Bom Sucesso, os habitantes do núcleo do moinho transportavam-na do chafariz que também abastecia a Vila Brandão.

Chafariz de Cacilhas, década de 1950.
Imagem: Flores, A. M., Almada antiga e moderna,
roteiro iconográfico, Freguesia de Cacilhas

Mas no início dos anos sessenta a CMA com trabalho voluntário dos moradores levou a água ate à "Rocha", designação também dada à quinta da "Margueira Velha", onde foram implantados dois chafarizes, um no cimo do caminho por onde se acedia ao morro através do então Largo Costa Pinto que servia o núcleo norte e outro junto ao moinho, a poente, que servia esse núcleo.

Miúdos do Moinho, fotografia de Hélio Quartim, 1976.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Por esta altura foram também construídos balneários públicos com duas ou três cabinas de duche (água fria), um luxo [...]

Demolição de algumas barracas no morro de Cacilhas, c. 1970.
Imagem: Lurdes B. Ferreira

Porém, a centralidade da "Rocha" era, e ainda hoje é, o seu moinho de vento. Ao tempo deste relato era habitado pelo sr. João (João do moinho).

Solteirão, com várias namoradas, recriminado por isso pela sua "velha" mãe quando o visitava. (1)


(1) Farol, O, Associação de Cidadania de Cacilhas, As Margueiras, Contributos para a história de Cacilhas, Junta de Freguesia de Cacilhas, O Farol, 2013, 248 págs.

Artigos relacionados:
O torreão e a Lapa
O incendio da fabrica da Margueira
A menina do mirante




Moinho e moleiro do Oeste, Domingos Alvão, 1934.
Imagem: Moinhos de Portugal no Facebook

terça-feira, 23 de junho de 2015

O incendio da fabrica da Margueira

A nossa gravura de hoje representa o incendio da fabrica da Margueira, visto de Lisboa, na noite de 18 [de março de 1883], e illuminando o Tejo com os seus clarões sinistros. (1)

Incendio na fábrica de cortiça Henry Bucknall & Sons, 17 de março 1883.
Imagem: Hemeroteca Digital

Hontem, pelas 11 horas da manhã, o vento soprava rijo do sul, espalhou pela cidade denso fumo, não tardando em cair uma chuva de cortiça carbonizada.

Correu logo a noticia de que havia na Outra Banda um incendio pavoroso. De facto os curiosos que correram a extensa cortina do Aterro viram elevando-se do lado do sul uma enorme columna de fumo, por entre a qual surgiam grandes labaredas. Parecia que se achava em chammas toda a casaria de Cacilhas.

A força do vento e a violencia do incendio eram taes que não só caiam grandes bocados de cortiça queimada no caes do Sodré, ruas do Alecrim e immediações, mas até muitos bocados foram a enormes distancias.

Na rua do Sol ao Rato, no Campo de Sant'Anna e até na estrada de Palhavã foram cair pedaços de Cortiça.

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O sr. visconde de Coruche, voltando da Charneca, encontrou na estrada, muitos pedaços de cortiça que tinham sido lançados até ali.

Averiguou-se emfim que o fogo era na Margueira, na grande fábrica de cortiça dos srs. Henri Buchnal & Filhos [Henry Bucknall & Sons], de Londres. Sabe-se que era aquella uma das maiores fabrica porque havia ali mais cortiça do que toda a que ha em todas as outras fabricas do reino, e que empregava um pessoal de 400 pessoas. Ocupava uma area immensa, sendo a parte já incendiada de nada menos de 3:000 metros.

Além dos grandes armazens bem providos, existiam n'essa area grandes pilhas de cortiça em bruto, que se tornaram em outras tantas montanhas de fogo.

O fogo manifestara-se ás 10 horas e meia em uma das grandes pilhas, assumindo logos as mais assustadoras proporções.

Os primeiros socorros foram logo prestados pelas proprias gentes da fabrica, que pouco ou nada podia faser, em rasão dos seus esforços serem destruidos pela força do vento.

Quando chegou a primeira bomba, que foi a do Vasco da Gama, acompanhada por um contigente d'esse navio, já o fogo se comunicara a um grande numero de pilhas, ameaçando devorar toda a fabrica.

Couraçado Vasco da Gama, gravura, J. Pedroso, O Occidente, 1880.
Imagem: Hemeroteca Digital

Apóz essa bomba compareceram as das corvetas Rainha de Portugal, transporte de guerra África, bomba a vapor do arsenal de marinha, a dos voluntarios de Lisboa e Junqueira,  Almada, bombas municipaes de Lisboa 1 e 17, pessoal dos carros 21, 23 e 24, um piquete de 60 praças de sapadores etc.

Desenvolveu-se a maior actividade no ataque, funccionando todas as bombas e pessoal á proporção que iam chegando. Na inteira possibilidade, porém, de se salvar a fabrica, convergiram as atenções para a rua principal de Cacilhas, cujos predios do lado do nascente, desde o n° 91 até 150 se achavam em grande risco. Em alguns d'elles e na igreja chegou mesmo a pegar o fogo. Aos grandes esforços no entanto empregados pelo pessoal encarregado da defeza d'essas propriedas, e principalmente aos dos marinheiros da armada, deve-se a salvação, póde assim dizer-se, de toda a rua de Cacilhas.

Rua Direita — Cacilhas, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe, Oliveira

Era admiravel a coragem, a valentia desenvolvida por aquelles bravos, que por sobre os telhados, corriam a um e outro ponto a apagar o fogo que começava a lavrar.

Os marinheiros do Africa, sabendo que no predio n.° 107 existe um importante deposito de enxofre, correram ali, tratando de remover todo o conteúdo do deposito, que foi uma das casas onde primeiro se communicou o fogo.

No ministerio do reino, recebeu-se, pouco depois de se ter manifestado o incendio, o primeiro telegramma, que, apesar do seu laconismo, não podia ser mais aterrador: "Acudam-nos, que morremos todos queimados."

É que já n'essa occasião, caiam sobre os telhados da rua Direita de Cacilhas montões de faulhas, começando a manifestar-se o incendio em diversos pontos. Quando nós desembarcamos em Cacilhas, vimos muitas familias, percorrendo as ruas por terem, receiosas abandonado as casas, e montes de mobília, roupas, etc. disseminados por diversos pontos. Parecia o dia do juízo.

Não nos foi possivel aproximar do local do incendio; era mesmo impossivel, não só para nós, como para a gente do trabalho qualquer aproximação d'aquella fornalha immensa.

Ás 2 horas da tarde ardiam os moinhos, vinhas, mattos, arvoredo, apresentando toda aquella enorme area incendiada, um espectaculo admiravelmente horrivel. Ás 4 horas começou funccionando a bomba de vapor, tendo por alvo o laboratorio de productos chimicos e as casas proximas. O laboratorio, não obstante todos os esforços empregados, ficou destruido.

Não se pôde fazer calculo exacto dos prejuisos. Ha porém quem os avalie em uns 900 contos. A fabrica e a cortiça estavam seguras em companhias inglezas com agencias em Londres, em 40:000 libras.

Compareceram no local os srs. ministro do reino e da marinha, commissario geral de golicia, admmistrador do concelho, grande numero de policias, e piquetes de infantaria 2, 5, 7 e guarda municipal.

E bom foi que houvesse essa providencia, porque além de se tomar precisa para que se  garantisse á gente de trabalho a completa liberdade de acção, a policia tinha de se haver com uma enorme quantidade de gatunos, que aproveitando-se do ensejo quizeram pôr em pratica as suas costumadas proesas.

As casas proximas do incendio, por exemplo, que foram abandonadas pelos seus proprietarios, foram saqneadas pela gatunagem, que roubou tudo o que pôde.

O sr. commissario, porém, tomando as suas medidas contra os gatunos, preparou-lhes uma armadilha na ponte dos vapores; foram ali agarrados todos os que são conhecidos, e que evidentemente deram um passeio á Outra Banda para exercerem as suas habilidades.

Ás 7 horas pda tarde o sr. inspector dos incendios mandou refeição para o seu pessoal, que se acha ali na força de cento e tantos homens, que desde que começaram trabalhando até á chegada o sr. Carlos Barreiros foram comandos pelo sr. ajudante Conceição.

Ha suspeitas de duas victimas. Á hora em que escrevemos prosegue a extincção do incendio, que ainda activo. (2)

Durante a noite de sabbado para domingo continuaram os trabalhos de extincção do incendio, trabalhando debaixo de chuva todo o pessoal tanto de Lisboa, como de Almada Belem, Junqueira etc.

O fogo achava-se localisado ás 10 horas da noite. De manhã, pelas 10 horas, chegou mais uma força de 40 bombeiros municipaes de Lisboa e 50 conductores de differentes bombas.

As propriedades das ruas Direita de Cacilhas e d'Oliveira soffreram muito nos telhados. Essas propriedades foram durante a noite refrescadas a cada momento.

Felizmentè o laboratorio chymico não foi destruído, soffrendo, contudo bastante nos madeiramemtos.

Serzedello & Ca., década de 1840
Imagem: documento do acervo de Carlos António Serzedelo Palhares, Lisboa

Á noite ja não havia chamma, mas apenas o enorme brazido. O trabalho do rescaldo deve terminar hoje. (3)

A nossa folha dos dias 18 e 19 do corrente deu jà, com todos os pormenores, que então podémos colher, a descripção d'este pavoroso incendio. É portanto, desnecessario relatar hoje novamente a catastrophe, com um cortejo de detalhes sabidos e de noticias que ninguem ignora.

Toda a gente viu de Lisboa, na manhã e noite do dia 17, aquelle espectaculo ao mesmo tempo magestoso e horrivel, desenrolando-se, como um panno de fundo de magica, na outra banda do Tejo. Não houve quem não presenciasse aterrorisado e cheio de curiosidade aquelle quadro sinitro, que um dia tristonho de inverno tornava ainda mais lugubre e pesado.

O incendio durou dois dias, tendo-se manifestado em uma das grandes pilhas de cortiça da importanfissima fabriea dos srs. Henri Buchnall & Filhos, na Margueira.

Fora impossivel atalhal-o, apesar de todas as diligeneias empregadas, porque o vento sul, soprando com desmedida furia, se encarregava de ateiar as chammas.

O primeiro telegramma recebido no ministerio do reino, dando parte do horrivel sinistro, e pedindo promptos soccorros, dizia assim: "Acudam-nos que morremos todos queimados!"

É que já n'essa occasião caiam sobre os telhados da rua Direita de Cacilhas, montões de faulhas, principiando o incendio a lavrar em diversos pontos.

Pontal de Cacilhas, ed. Alberto Malva/Malva & Roque, 135, década de 1900
Imagem: Delcampe

Quando nós desembarcamos em Cacilhas, vimos muitas familias, percorrendo as ruas, por terem, cheios de pavor, abandonado as casas. Aqui e alí, divisavam-se montões de mobilias, roupas, etc, espalhados ao acaso. Tristissima e pungitiva scena!

A fabrica, e a cortiça estavam seguras em companhias inglezas com agencias em Londres, na somma de 40.000 libras. Os prejuizos ascendem a mais de 400 contos.

Felizmente, ninguem morreu victima do incendio, havendo apenas leves ferimentos entre a gente de trabalho, que prestou serviços relevantissimos.

O sr. Bucknall, proprietario da fabrica incendiada, mandou abonar, no dia immediato ao do sinistro, 300 réis diaríos aos trabalhadores casados, e 200 réis aos solteiros.

Dos 454 operaríos desempregados em consequencia do fogo, metade foi já admittida a trabalho, contando o honrado proprietario da fabrica empregar novamente o resto, dentro de poucos dias.

Cacilhas (Portugal), Largo do Costa Pinto, ed. Martins/Martins & Silva, 18, década de 1900
Imagem: Delcampe

Vê-se, por isto, que o sr. Bucknall, apesar da naturalissima preocupação do seu espirito, em horas de tamanha angustia como aquellas, não esqueceu, nem um momento, os interesses dos pobres operarios. (4)


(1) Diário Illustrado, 31 de março 1883
(2) Diário Illustrado, 18 de março 1883

(3) Diário Illustrado, 19 de março 1883

(4) Diário Illustrado, 31 de março 1883