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terça-feira, 21 de abril de 2020

Memórias da minha rua

Memórias da minha rua é um livro com memórias de vivências passadas numa rua do Município de Almada na década de 1955/65. 

Mutela, Cecília Alves e outras crianças, c. 1960.
Cecília Alves

Retrata a forma como então se vivia dia a dia num pequeno aglomerado urbano do nosso país, descrevendo não só as vidas de alguns moradores da rua, como as atividades económicas, recreativas, sociais e até políticas desenvolvidas pelos personagens. 

Rua Manuel Febrero, (álbuns de fotografia da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Almada).
InfoGestNet

A maior parte das histórias contadas são verdadeiras, havendo, contudo, algumas que são ficção.

Mutela, Cecília Alves e outras crianças, c. 1960.
Cecília Alves

No conjunto são as memórias de uma rua pela perspectiva do olhar de uma criança. (1)

Memórias da minha rua.
Cecília Alves


(1) Programa Fórum Municipal Romeu Correia, janeiro e fevereiro 2019

Informação relacionada (outras crianças em Mutela):
O meu livro de memórias: Os meus primeiros anos

Leitura relaacionada:
Cecília do Carmo Alves, Memórias da minha rua, Olhão, 2018, 155 pág.

Cecília Alves apresenta "Memórias da Minha Rua" em Olhão.
Região Sul

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Fábrica moderna para produção de óleo de fígado de bacalhau

A Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau [SNAB] completou a construção de uma nova fábrica para produção de óleo de fígado de bacalhau no Ginjal, Cacilhas, no município de Almada.

Ginjal, vista aérea c. 1960.
OBSERVADOR

A fábrica consiste em três edifícios: (1) o laboratório, escritórios e edifícios administrativos; (2) a própria fábrica; e (3) abrigo para tanques de armazenamento.

Vista da entrada da fábrica. À direita, o edifício administrativo; à esquerda, a fábrica, vista leste.
Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955

A capacidade de produção é de cerca de 30 toneladas de matéria-prima por oito horas diárias, variando de acordo com o número de tratamentos efectuados.

Vista do armazém. Abriga tanques metálicos para armazenamento.
Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955

A capacidade de armazenamento é de aproximadamente 1.100 toneladas, de acordo com um despacho de 30 de agosto da Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa.

Interior da fábrica mostrando os tanques de operação.
Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955

A fábrica está equipada para neutralizar ácidos gordos livres; limpeza e secagem; desodorização parcial; filtragem; e extração de estearinas e outros resíduos. Tratamentos ainda mais especializados podem ser realizados no futuro.

Interior dos armazéns que abrigam os tanques de armazenamento.
Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955

A fábrica está ainda equipada com uma grande secção para encher, rotular e embalar as garrafas com um nível elevado de produção e pode processar o óleo de fígado de bacalhau para qualquer uso conhecido, seja para nutrição humana ou animal. (1)

Outra vista do interior da fábrica.
Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955

Um importante documento que, possivelmente, marca o início da distribuição do óleo de fígado de bacalhau nas escolas, sobretudo para os alunos mais carenciados, constitui a Circular nº 2628 de 4 de Janeiro de 1956. Como consta nessa circular que chegou às escolas naquele ano:

"Os serviços da Direção Geral do Ensino Primário, estão a distribuir pelas cantinas escolares do Distrito, elevado número de frascos de óleo de fígado de bacalhau, destinado a completar a alimentação das crianças pobres que são beneficiadas por aquelas instituições. Em cumprimento de despacho superior determina-se aos senhores diretores das cantinas citadas: 

1º.) - que promovam seja efectuada pelos agentes de ensino a conveniente propaganda no sentido de se ensinar aos estudantes a utilidade do uso do óleo de fígado de bacalhau; 

Rótulo para frasco.

2º.) - sejam conservados, cuidadosamente lavados, os frascos do óleo, depois de vazios, tendo em conta a futura utilização; as embalagens devem ser cuidadosamente conservadas; 

3º.) - que informem diretamente a Direção sobre a data do recebimento, número de frascos e despesa que, porventura, tenham efectuado com o transporte."

Crianças de Bradford Inglaterra tomam dose de medicamento.
PostcardEddie

Segundo as fontes consultadas, distribuía-se o óleo de fígado de bacalhau “DÓRI”. Este óleo era dado diariamente na sala de aula aos alunos com vista ao melhoramento da sua condição nutricional e de saúde. (2)

Embalagem.


(1) Commercial Fisheries Review nr. 65, November 1955
(2) Monica Truninger, A evolução do sistema de refeições escolares... 2012

Artigo relacionado:
O Grémio

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O Monumento

Orgão da Propaganda do Monumento Nacional a Cristo Rei

MIÚDOS DE PORTUGAL são estes os vossos colegas da Escola Recreativa de S. José de Lisboa. Deram o ano passado para o Monumento de Cristo Rei MIL TREZENTOS E OITENTA E DOIS ESCUDOS de Pedras Pequeninas. E vós quanto quereis dar? As vossas PEDRINHAS e CORTEJOS INFANTIS DE OFERENDAS são capazes de acabar muito depressa o Monumento. É SÓ QUERERDES. (1)

Alunos da Escola Recreativa de S. José em Lisboa, 1955.
Imagem: Hemeroteca Digital

Vai a obra em mais de meio. Gastaram-se nela já para cima de DEZ MIL CONTOS.

No fim de Setembro [de 1955]o pedestal ficou na altura de 60 metros.
Faltam-lhe ainda 20 metros para chegar à base da estátua.
Imagem: Hemeroteca Digital

O que falta para a concluir — DOIS MIL CONTOS no pedestal e TRÉS MIL CONTOS com a estátua — repartido por todo o pais é uma migalha de contribuição de cada terra, de cada pessoa.

Eis o Santo Mealheiro...
— Quem não dá um pó de terra
A quem deu o Céu inteiro?!

O Santo Mealheiro, Abel Cardoso, 1938.
Imagem: Delcampe

A Campanha do Monumento dura há 17 anos! É tempo de se lhe pôr fim, que será glorioso. (2)


(1) O Monumento n.° 19, dezembro de 1955
(2) O Monumento n.° 18, outubro de 1955

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Lisbon South Bay (um ano e três meses depois...)

Sentado ao sol da manhã
Vou estar sentando quando a noite vier
A ver os navios a chegar
Então vejo-os novamente a partir, sim

Cacilhas, ed. Supercor, 1808, década de 1980.
Imagem: Delcampe

Estou sentado no cais da baía
Assistindo ao vazar da maré, ooh
Estou sentado no cais da baía
Perdendo tempo

Rio Tejo, muralha de cantaria junto à Praça do Comércio, Henri Cartier-Bresson, 1955.
Imagem: Pinterest

Deixei minha casa na Georgia
Vim para a baía de Frisco
Porque nada tinha para que viver
E parece que nada vai surgir no meu caminho


Então, apenas vou sentar-me no cais da baía
Assistindo ao vazar da maré
Estou sentado no cais da baía
Perdendo tempo

Lisboa 30, Maluda, 1985.
Imagem: Modus vivendi

Parece que nada vai mudar
Tudo ainda continua o mesmo
Não posso fazer o que dez pessoas me dizem para fazer
Então, acho que vou permanecer o mesmo, ouçam

Vista de Lisboa e do Tejo tomada do castelo de S. Jorge, Henri Cartier-Bresson, 1955.
Imagem: Pinterest

Aqui sentado a descansar meus ossos
E esta solidão não me deixa só, ouçam
Duas mil milhas vagueio
Apenas para fazer desta doca a minha casa, agora

Sarner, Eric, (argumento), Prado, Miguelanxo, (desenhos), Carta de Lisboa, Meribérica/Líber, 1998
Imagem: Casario do Ginjal

Vou apenas sentar-me no cais de uma baía
Assistindo ao vazar da maré, ooh
Sentado no cais da baía
Perdendo tempo (1)


(1) Writers: Stephen Lee Cropper, Otis Redding, 1968; Copyright: Cotillion Music Inc., East Memphis Music Corp.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Iconografia de Lisboa (9.ª parte)

Ainda no último quartel do século XVIII foi Lisboa visitada por vários artistas e sábios estrangeiros que vieram a Espanha e a Portugal, em viagem de recreio ou científica, para colher elementos que interessavam aos seus estudos ou aos seus espíritos.

A View of the PRAÇA DO COMMERCIO at LISBON, taken from the Tagus : the original Drawing by Noel in the possession of Gerard de Visme Esq.r / Drawn by Noel ; Engraved by Wells.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal
Navios e barcos, num deles carregando um soldado e um padre, aproximam o porto de Lisboa no Rio Tejo. À esquerda a Praça do Comércio com a estátua equestre de D. José I. Ao centro vêem-se as torres da Sé acima dos telhados e ao fundo o castelo de S. Jorge sobre uma colina.

in British Library
Citaremos os seguintes artistas:

a) — Jean Alexandre Noël, pintor francês de marinhas e paisagens, que por várias vezes veio a Lisboa, uma das quais em 1780, onde pintou uma vista da "Torre de Belém", passada para gravura em cobre por Gaspar Fróis Machado cm 1783, como disse;

1500 Almada concelho Arte Gravura Alexandre Jean Noel Torre de Belem 02.jpg

8 quadros com diferentes vistas, das quais 5 de Lisboa, mandadas fazer por um rico inglês Gerard de Visme, e gravadas a água-tinta por J. Wells, de 1793 a 1795;

The Harbour of Lisbon, segundo Alexandre Jean Noël, 1796.

uma vista panorâmica de Lisboa e seu porto, gravada em cobre por Alix; além de vários desenhos a lápis, que se conservam num álbum no Museu de Arte Antiga.

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
Imagem: FRESS

b) — Jean Baptista Pillement, que algumas temporadas veio passar em Lisboa, a última das quais em 1780;

Vista de Lisboa, Jean Baptiste Pillement.
Imagem: Viático de Vagamundo

c) — o pintor Nicolas [Louis Albert] Delarive [Delerive] (1755-1813);

Lisboa, Feira da Ladra na Praça da Alegria, Nicolas Delarive, aspecto na década de 1810.
Imagem: MNAA

d) e) — O duque de Chatelet, que viajou por Portugal em 1777, e o arquitecto James Murphy, que aqui esteve também, deixaram nas relações impressas das suas viagens, as vistas de alguns trechos olisiponenses.

Recuperando alguns dos artigos já publicados, pela nossa parte, faremos a propósito algumas referências:

a) — Rev. William Morgan Kinsey, Portugal Illustrated in a series of letters, 1827;

Belem Castle, Rev. William Morgan Kinsey, Portugal Illustrated in a series of letters, 1827.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

b) — Robert Batty (1789 – 1848), ilustrador e topógrafo que serviu na Guerra Peninsular, 1809 - 1814, e que, como Ajudante de Campo do General William Henry Clinton, regressou a Portugal (1826 - 1827). Foi o  autor de uma série de vistas de lisboa publicadas em Select Views of some of the Principal Cities of Europe, London, Moon, Boys, and Graves, 1832.

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.

Select Views of some of the Principal Cities of Europe inclui, por esta ordem, as gravuras "Torre de Belém", "Convento de S. Jerónimo em Belém", "Lisboa vista da rua de S. Miguel",

Lisbon from the Rua de San Miguel, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

"Lisboa vista da colina da capela de N.a Senhora do Monte", "O Largo do Pelourinho" e "Lisboa vista de Almada".

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Como na abordagem, prévia, tratada no artigo Originais de Roberto Batty, sabemos ainda existir outras imagens, que representam, o Convento de N.a Senhora da Graça (três versões) e a Torre do Bugio.

Como consequência das agitações políticas que em Portugal perturbaram toda a sua vida nos princípios do século XIX, o renascimento artístico que com bons auspícios se havia inaugurado, decaiu consideravelmente, e, pelo que respeita a iconografia de Lisboa, apenas podemos citar as estampas que acompanham os 2 volumes do "Jornal de Bellas Artes ou Mnémosine Lusitana" (1816/17), gravuras em cobre de P. A. Cavroé e desenhos de Fonseca filho (António Manuel da Fonseca).

Mas devido à descoberta do processo litográfico e à invenção da propaganda noticiosa, política e artística, que, por meio de publicações periódicas, revistas e jornais ilustrados, cerca do ano 1830 começou em Inglaterra, França, Alemanha, Itália, etc., foram estes métodos adoptados entre nós, nos princípios do segundo quartel do dito século, surgindo, e aumentando no decorrer do mesmo, uma plêiade de artistas nacionais, especializados em cada um dos processos de reprodução de desenhos, cujo número, na representação de aspectos da cidade, de edifícios, e de outros objectos com ela relacionados, ultrapassou rapidamente em muito o dos estrangeiros que também se ocuparam dos mesmos assuntos olisiponenses, ao contrário do que acontecera anteriormente.

Vista oriental de Lisboa tomada do jardim de S. Pedro de Alcântara, litografia Sousa e Barreto, 1844.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Cremos que as primeiras obras periódicas em que se publicaram estampas de Lisboa, depois da "Mnémosine Lusitana" (1816/17), foram principalmente as seguintes:

"O Recreio" (1835 a 1842), com litografias não assinadas;
"Jornal Encyclopedico" (1836/37), com litografias;
"O Panorama" (1837 a 1868), com gravuras em madeira.

A gravura em cobre foi abandonada quase por completo nestas publicações periódicas (jornais, como lhes chamavam, imitando a denominação francesa), e a gravura em madeira e a litografia, ao principio bastante toscas, foram-se desenvolvendo paralelamente, podendo dizer-se que as primeiras que aparecem mais correctas são: as de A Illustração (1852), e do semanário A Illustração Luso-Brazileira (1856 a 1859), pelo que respeita a gravuras em madeira, desenhadas ou feitas por Manuel Bordalo Pinheiro, Nogueira da Silva, Barbosa Lima, Caetano Alberto Nunes, Baracho, João Pedroso, Coelho pai e filho, Gomes da Silva, Flora, etc., e as da Illustração Popular (1866 a 1870), pelo que se refere a litografias, especialmente devidas aos artistas Legrand e Michellis.

Nas publicações periódicas até ao fim do século XIX a perfeição das gravuras em madeira atingiu o seu auge na ilustração do quinzenário O Occidente, que, sob a direcção de Manuel de Macedo, redador e desenhador, e de Caetano Alberto da Silva, gravador, foi entre nós, desde 1878, e durante 38 anos, o repositório mais perfeito dos principais acontecimentos nacionais e estrangeiros, adornado sempre com estampas, entre as quais são numerosas as que tratam de assuntos de Lisboa, geralmente copiadas do natural pelos desenhadores Luciano Freire, Cristino da Silva e outros, e gravadas em madeira por Caetano Alberto da Silva, Cazellas, etc.

Vista panorâmica de Lisboa tomada de Almada (recomposição), água-forte, Isaías Newton (1838-1921).
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

Muitas das revistas periódicas ilustradas nacionais tiveram uma vida pouco duradoura, devido à penúria de fundos para a sua publicação, reveladora da falta de apreço ou de preparação do público para tais leituras.

No estrangeiro, pelo contrário, as revistas ilustradas foram, no século XIX, muito numerosas, e tiveram longa existência, mas pouco se ocuparam de vistas e monumentos de Lisboa, havendo exibido principalmente vistas dos acontecimentos mais importantes sucedidos nesta cidade, daqui comunicados em esboços ou fotografias pelos artistas seus correspondentes.

Uma das aplicações mais importantes das estampas foi para ilustração de livros, quer em gravuras impressas com os textos, quer em litografias em folhas soltas intercaladas no texto.

Afora a sua inserção em livros e em revistas, foram produzidas durante o século XIX muitas estampas de Lisboa destinadas a quadros, tais como a "Vista do Convento de S.to Jerónimo de Belém e Da Barra de Lisboa" e a "Vista da Cidade de Lisboa Tomada da Junqueira", por Henrique L'Evêque [Henry], ou constituindo colecções ou albuns de vistas, acompanhadas ou não com um texto descritivo, não exclusivamente de Lisboa, mas juntamente com as de outras terras;

tal era, por exemplo, entre as nacionais, a "Collecção de Paizagens e Monumentos de Portugal", editada e litografada por João Pedro Monteiro, em que colaborou também Tomás J. d'Anunciação.

Várias medalhas se cunharam durante o século XIX, comemorativas de factos passados em Lisboa, e que por isso fazem parte da medalhística olisiponiana.

Descoberta a fotografia pelos meados do século XIX, algumas revistas e livros passaram a ser ilustrados com fotografias, ou sós, como, por exemplo, "Monumentos Nacionais" (1868), por J. da S. [José da Silva] Mendes Leal, ou conjuntamente com gravura, ou litografias, como: "Archivo de Architectura Civil" (1865). Ambas estas obras, assim oomo algumas outras mais, contêm trechos de Lisboa.

Vários fotógrafos, na 2.a metade do século XIX, tiraram [tiravam] e vendiam vistas fotográficas de terras e edifícios de Portugal, e entre elas figurava sempre Lisboa.

Baixa e Rio Tejo (montagem), Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os mais conhecidos foram Francisco [Francesco] Rocchini, que desde 1870 fotografou mais de 300 vistas panorâmicas e de edifícios e monumentos de Lisboa, coladas em cartões com os títulos impressos;

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

A. S. Fonseca, Largo de S. João da Praça, de que conhecemos 20 fotografias de Lisboa;

e Moreira, Rua da Alegria, que apresentou 42, pelo menos, igualmente coladas em cartolina, e com os títulos impressos.

Também havia, de fabricação estrangeira, álbuns com fotografias de Lisboa, assim como litografias a uma ou mais cores.

No mercado apareceram colecções de vistas fotográficas estereoscópicas, tanto de publicação nacional como estrangeira.

Descobertos, no último quartel do século XIX, os processos fotomecânicos para a feitura de matrizes para a reprodução de estampas: fotolitografia, zincogravura, fotogravura, fototipia, cromolitografia, etc. que simplificaram e embarateceram as ilustrações de livros e de publicações periódicas, fizeram eles pôr de parte, quase por completo, os antigos processos de gravura e estampagem, dando também origem ao aparecimento de muitos objectos de preço acessível às pequenas bolsas, com vistas de Lisboa e de outras terras do pais, tais como albuns de propaganda de Portugal, bilhetes postais ilustrados, caixas de fósforos, selos de propaganda, marcas industriais e comerciais, anúncios, estampas litografadas a cores destinadas para quadros, etc.

Panorama de Lisboa, ed. Tabacaria Costa, c. 1900.
Imagem: Bosspostcard

Nestes géneros tem florescido, desde o meado do século XIX, mas principalmente no último quartel, continuando-se pelo corrente [XX], uma numerosa série de brilhantes artistas, que muito têm honrado a arte nacional, e cujos nomes têm ultrapassado as nossas fronteiras, emparelhando com os dos melhores e mais afamados artistas estrangeiros.

Panorama de Lisboa, ed. A. Myre (detalhe), c. 1900.
Imagem: Delcampe

Além das vistas de Lisboa, dos seus monumentos e trechos panorâmicos, impressos ou estampados em papel, pergaminho e tecidos, muitos aspectos de Lisboa têm sido produzidos, desde o século XVI, em quadros a óleo ou aguarela, existentes em museus ou em casas de particulares, em objectos de cerâmica, em painéis de azulejo, em galvanoplastia, em artigos cunhados, etc.

Muitos são desconhecidos do público, por constituírem documentos únicos, guardados pelos seus proprietários, sendo quase impossivel obter de todos eles esclarecimentos completos.

A maioria das estampas, tanto as antigas como as modernas, não é datada, e algumas não mencionam o nome do artista que as produziu, o qual muitas vezes não é português.

Quando o citado ou o signatário é estrangeiro, nem sempre se conhecem os dados biográficos ou a época em que exerceu a sua actividade artística.
Todas estas faltas tomam muito difícil, ou mesmo impossível organizar a seriação cronológica das estampas com vistas panorâmicas ou dos monumentos de Lisboa.

Uma das outras dificuldades com que se luta entre nós para se obter uma lista ou relação iconográfica de Lisboa que se aproxime bastante da perfeição, é a falta, nas nossas bibliotecas públicas, dos livros a que pertencem muitas estampas que se encontram avulsas no mercado. 

Essa falta diligenciámos supri-la recorrendo a pedidos de informação no estrangeiro, no que nem sempre fomos bem sucedidos.

Durante o século XX a abundância de estampas de Lisboa, em livros, revistas, jornais e folhas soltas, assim como em quadros a óleo, a aguarela e a pastel, é tão grande, que a sua inventariação e classificação desafia a paciência mais beneditina, podendo sem receio de desmentido afirmar-se que seria trabalho para uma vida inteira, e a lista que se organizasse ficaria necessariamente imperfeita.

Praça do Comércio, comandante Cyrne de Castro aos comandos do seu Curtiss "Helldiver", 1955.
Imagem: Na Rota do Yankee Clipper

Essa abundância é devida não só à grande facilidade da fabricação de matrizes para tal produção, mas ao maior grau de apreço por esta manifestação artística, que o progresso da cultura geral do povo tem criado e estimulado. (1)


(1) Vieira da Siva, Augusto, Iconografia de Lisboa, Revista Municipal n.° 32, Câmara Municipal de Lisboa, 1947
 
Artigos relacionados:
Da fábrica que falece à cidade de Lisboa
Delícias ou descrições de Lisboa
Panorâmica de Lisboa em 1763

Leitura adicional:
Lisboa do século XVII "a mais deliciosa terra do mundo"

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Escolas por onde passei

Estávamos em 1955 chegou o dia 8 de Outubro, primeiro dia de aulas, para a maioria era a primeira vez, havia outros que eram repetentes, estávamos na primeira classe, íamos aprender a ler e a escrever, coisa que não tinha acontecido com muitas gerações anteriores á nossa, uns por necessidades das famílias, foram obrigados a ir trabalhar muito cedo para ajudarem em casa, outros não queriam aprender e fugiam da escola.

Aniki-Bóbó, Manuel de Oliveira, 1942.
Imagem: HARVARD FILM ARCHIVE

Nesse dia lá estávamos todos preparados para o arranque de uma nova vida, uns levavam batas brancas outros com a sua roupa normal acompanhados pelo tradicional caderno de duas linhas, uma ardósia, um lápis e uma borracha, material essencial para o arranque do ano lectivo.

Almada, escola Conde de Ferreira,  1954 - 1955.
Imagem: almaDalmada

Muitos daqueles meninos já os conhecíamos de vista mas não tínhamos muita aproximação, a partir daquele dia criámos fortes amizades, algumas chegaram até ao dia em que estou a escrever estas linhas.

LIVRO DA PRIMEIRA CLASSE, ed. 1954.
Imagem: Restos de Colecção

Eram rapazes da Romeira, das Barrocas, da Praceta, do Brejo, do Chegadinho (Alagoa), do Bairro, da Ramalha, da Mutela, do Altinho e do centro da Cova da Piedade, eram lugares da freguesia (fundada em 7 de Fevereiro de 1928).

Antes da uma hora já estavam todos junto á escola á espera do professor neste caso foi uma professora a D. Ilda era uma senhora com cerca de 50 anos já tinha alguns cabelos grisalhos de estatura média um pouco para o forte e com uma voz muito suave logo nos cumprimentou e deu ordem para entrarmos para a sala de aula, a escola funcionava numa vivenda, era uma escola provisória (Escola do Posto) e assim se manteve durante muitos anos até á sua extinção, por ali passaram centenas de rapazes que aprenderam a ler e a escrever, a escola ficava na actual Rua Pedro Matos Filipe junto da drogaria do Hermínio (o Hermínio era um homem alto e forte era do Pragal e falava muito alto), fazia esquina com a Av. da Fundação hoje o local está em degradação total.

Cova da Piedade, escola do Bairro das Casas Económicas, c. 1968.
Imagem: Eleutério L. M. Varela

Ainda não tínhamos os lugares marcados éramos cerca de trinta alunos sentámo-nos no lugar que estivesse vago e por ultimo entrou a Senhora Professora D. Ilda. Deu-nos as boas-vindas e falou das normas que teríamos de respeitar durante o período das aulas, a forma como nos devíamos comportar ao entrar e á saída da escola assim como durante as aulas, este primeiro dia foi de apresentação ficamos a saber o nome de cada um dos companheiros.

Lembro o João de Deus e o irmão que era deficiente e grande passarinheiro, o Canina, o Vítor Henriques, José Francisco, O Borrego, o Vítor (gordo) morava em frente á escola, o João (Soneca), o Morgado, o Câmara, o Funileiro, o Ferreira, o José Martins Vieira foi jogador do Desportivo e seu capitão e músico na SFUAP (mais tarde foi o 1º. Presidente da Câmara Municipal de Almada após o 25 de Abril de 1974), o Pereira, o Mário, o Alberto (Massaroca), o Diniz, o Zeca (Sardinha) (foi um óptimo cantor em diversos conjuntos musicais) ainda hoje canta, o Jorge Alberto Roseiro (Laica), o Campos e eu próprio (Alberto Jorge) e outros que não me vem á memoria.

Almada, alunos da Escola Conde de Ferreira, c. 1948.
Imagem: Antigos Alunos da Escola Conde Ferreira - Almada no Facebook

É mesmo curioso um Jorge Alberto e um Alberto Jorge na primeira classe, o destino estava marcado ao sermos companheiros de carteira com os nomes trocados, ainda hoje somos bons amigos.

Foram os primeiros passos na nossa aprendizagem e como eles foram importantes para a nossa formação. Até fazermos a 4ª Classe ainda passamos por outras escolas, algumas sem condições mas era o que havia naquele tempo, as escolas não eram mistas ou seja dum lado a escola das meninas do outro lado os rapazes, tivemos aulas na escola das meninas que ainda hoje existe na Av. da Fundação era a única classe de rapazes que havia naquela escola (tivemos só um ano por falta de salas), também frequentamos a escola das meninas que ainda existe no Bairro da Nossa Senhora da Piedade (Escola do Bairro) (por pouco tempo), estivemos na Escola do Gomes com o Prof. Leitão que era o director da escola e vivia no primeiro andar da mesma e por ultimo frequentamos a velhinha Escola do Brejo que hoje já não existe, era perto das bombas de gasolinas que hoje ali existem e do Estádio José Martins Vieira (Campo do Desportivo).

Escola Primária António José Gomes, inaugurada em 1911, projecto do arquitecto Adães Bermudes.
Imagem: Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial

Lembro-me do velho pátio que servia de recreio á escola, a sala de aula ficava no primeiro andar (chovia lá dentro como na rua) tínhamos que subir uma enorme escadaria para entrar na escola, em tempo de chuva a azinhaga do Brejo enchia-se de água, ali perto ficava uma mercearia conhecida pelo Armazém, aí entroncava uma azinhaga que ia para o campo do Desportivo (Campo Silva Nunes) também ela ficava alagada com as chuvadas da época, os Invernos eram intensivos e muito prolongados, lembro que muitas vezes ajudamos a desentupir as saídas das águas e quando chegávamos á escola estávamos completamente encharcados logo a professora nos mandava para casa para mudarmos de roupa, nesse dia já não voltávamos á escola, tínhamos mais tempo para a brincadeira.

Cova da Piedade, Azinhaga do Brejo, edifício da Escola do Brejo, década de 1980.
Imagem: José Luis Covita

Depois chegou altura de fazermos o exame da 4ª. Classe fomos fazê-lo á Escola do Campo em Almada junto do Cemitério da Vila, ao completarmos a instrução primária fizemos a admissão á escola técnica, o exame foi na Escola António da Costa na Rua D. João I em Almada, já no Ciclo Preparatório e como as instalações eram pequenas fomos colocados na Escola Emídio Navarro (já tem mais de cinquenta anos) junto da antiga azinhaga de Mata Cães e perto dos Caranguejais um bairro de lata que ali existia (hoje existe a Escola António da Costa e o Teatro Municipal), nesse local havia um fabrico de cortiça do Jacinto do Carmo Marques que foi jogador do Liberdade-Mutela e do Benfica um dos vencedores da Taça Latina, frequentamos o ciclo preparatório nessa escola e continuamos na Emídio Navarro (O seu patrono foi Ministro das Obras Publicas, morreu em 1905) a frequentar o Curso Geral do Comercio já no período da noite porque era hora de começar a trabalhar.

Em 2.° plano a Escola Prepatória D. António da Costa no dia 25 de abril de 1975.
Imagem: almaDalmada

Quero deixar uma homenagem muito sentida á Professora D.Ilda (infelizmente já desaparecida) que me ensinou a ler e a escrever assim como a muitas centenas de meninos como eu, onde ela estiver o meu reconhecido obrigado.

Hoje ao escrever sobre as minhas escolas, é importante dar a conhecer aos vindouros os locais das escolas que frequentamos e os amigos que criamos num tempo em que as dificuldades eram enormes.

Na esquerda mão um livro me pintaste,
Na outra a palmatória,
Com carregado, ríspido focinho,
Dictando leis em tribunal de pinho.

Imagem: Obras completas de Nicolau Tolentino de Almeida

Hoje, tudo é mais fácil, só quero dizer aos mais novos que aproveitem as óptimas condições que lhes são oferecidas e que gostem da vossa escola como eu gostei da minha. (1)


(1) Uma história por Alberto Silva

Artigos relacionados:
A escola da dona Assunção
SFUAP, origens, teatro e escola
Clube Desportivo da Cova da Piedade


Mais informação:
Ensino Primário

sábado, 27 de junho de 2015

Lisbon South Bay

Sentado ao sol da manhã
Vou estar sentando quando a noite vier
A ver os navios a chegar
Então vejo-os novamente a partir, sim

Cacilhas, ed. Supercor, 1808, década de 1980.
Imagem: Delcampe

Estou sentado no cais da baía
Assistindo ao vazar da maré, ooh
Estou sentado no cais da baía
Perdendo tempo

Rio Tejo, muralha de cantaria junto à Praça do Comércio, Henri Cartier-Bresson, 1955.
Imagem: Pinterest

Deixei minha casa na Georgia
Vim para a baía de Frisco
Porque nada tinha para que viver
E parece que nada vai surgir no meu caminho


Então, apenas vou sentar-me no cais da baía
Assistindo ao vazar da maré
Estou sentado no cais da baía
Perdendo tempo

Lisboa 30, Maluda, 1985.
Imagem: Modus vivendi

Parece que nada vai mudar
Tudo ainda continua o mesmo
Não posso fazer o que dez pessoas me dizem para fazer
Então, acho que vou permanecer o mesmo, ouçam

Vista de Lisboa e do Tejo tomada do castelo de S. Jorge, Henri Cartier-Bresson, 1955.
Imagem: Pinterest

Aqui sentado a descansar meus ossos
E esta solidão não me deixa só, ouçam
Duas mil milhas vagueio
Apenas para fazer desta doca a minha casa, agora

Sarner, Eric, (argumento), Prado, Miguelanxo, (desenhos), Carta de Lisboa, Meribérica/Líber, 1998
Imagem: Casario do Ginjal

Vou apenas sentar-me no cais de uma baía
Assistindo ao vazar da maré, ooh
Sentado no cais da baía
Perdendo tempo (1)


(1) Writers: Stephen Lee Cropper, Otis Redding, 1968; Copyright: Cotillion Music Inc., East Memphis Music Corp.