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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Real Capella do Apostolo S. Simão (a festa annual)

A Meza da Real Irmandade de Nossa Senhora da Piedade dos Milagres, e da Victoria, da Cova de Mutella, limite da Villa de Almada, tem determinado fazer a festa annual da Invocação da sua Real Irmandade no presente anno da maneira seguinte:

Cova da Piedade, igreja Nossa Senhora da Piedade, década de 1970.
almaDalmada

No dia 28 do corrente, vespera da sua festividade annual, se cantará huma solemne Missa, por muzica vocal e instrumental, pela conservação da Preciosa Vida de Sua Magestade o Senhor Dom Miguel I, Augusto Protector Perpétuo da mesma Real Irmandade,

D. Miguel I e suas irmãs dando graças a Nossa Senhora da Conceição da Rocha, 29 de janeiro de 1829.
Cabral Moncada Leilões

finda a qual se fará a inauguração das Reaes Armas no frontespicio da Real Capella do Apostolo S. Simão, onde a mencionada Irmandade se acha erecta, com todas as demonstrações de jubilo em similhantes occasiões praticadas, e á noute illuminação.

Bandeira de D. João V, também armas reais de D. Miguel na bandeira nacional de Portugal de 1826 a 1830.
Wikipédia

No dia 29 se fará com muito maior pompa, que nos annos antecedentes, a festividade annual denominada, da Casa, com Missa solemne por muzica vocal e instrumental, Sacramento exposto todo o dia, á tarde segundas Vesperas de Nossa Senhora, e Te Deum em Acção de Graças pela conservação de Sua Magestade o Senhor Dom Miguel I no Throno de Seus Maiores, e pelas Mercês que o Mesmo Augusto Senhor foi servido liberalizar a esta Irmandade declarando-Se seu Protector Perpétuo, e concedendo á mesma, e á Capella em que se acha erecta, o Titulo, Honras, e Privilegios de Reaes;

Paroquianos no adro da igreja da Cova da Piedade.
Delcampe

á noute illuminação, e hum vistoso fogo de artificio, havendo em ambos os dias e noutes muzica de arraial: sendo Oradores, no Sabbado á festividade o Muito Reverendo Padre Mestre Frei Francisco da Piedade; no Domingo de manhã, o Muito Reverendo Padre Mestre Frei Pedro da Purificação Alves Preto; e de tarde o Muito Reverendo Padre Mestre Frei José Machado, todos Prégadores Regios, e Dominicos. (1)


(1) Gazeta de Lisboa, 18 de agosto de 1830

Artigos relacionados:
S. Simão das Barrocas
Nossa Senhora da Piedade

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Ramalho Ortigão, verão de 1886

Cartas portuguezas*

Cova da Piedade, 22 de outubro [de 1886]

Escrevo-lhes estas linhas de uma pequena, mas bem interessante povoação, aonde vim passar o verão.

Cacilheiro, D. Carlos de Bragança, aguarela, 1893.
Imagem: Cabral Moncada Leilões

A Cova da Piedade fica ao sul do Tejo, a vinte minutos da ponte dos vapores, na estrada de Cacilhas a Cezimbra. Da bacia da Piedade faz parte a praia do Caramujo para léste, e para oeste o lindo e fértil valle de Mourellos, todo elle um pomar, em que a bella uva trincadeira, de bagos grossos e duros como cerejas, amadurece em enormes cachos, por entre as romanzeiras, as figueiras moscatel, as macieiras e os medronheiros cobertos de fructo. É uma terra abençoada para a producção. N'uma estreita nesga de quinta, uma familia habilidosa e diligente vive n'um confortável commodo burguez sem outra renda além da que resulta do cuidadoso amanho da sua vinha e da sua horta.

Cova da Piedade, zona rural, Francesco Rocchini, anterior a 1895.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Não se faz vulgarmente idéa do gráu de intensidade a que se póde chegar na cultura, porque a verdade é que em geral a terra portugueza produz como muito bem quer. Ainda ha muito pouco tempo principiámos a estrumar as vinhas, mas os cuidados de que a cepa é objecto, estão ainda a uma distancia infinita d'aquelles que se lhe consagram, por exemplo, nos vinhedos do Rheno. De sorte que, apparecendo um proprietario entendido e zeloso, assíduo ao trabalho, vigiando elle próprio dia a dia a sua vinha, curando por assim dizer a cacho por cacho, suspendendo aqui, amparando acolá, abrigando n'uns sitios, desparrando n'outros, pondo estes cachos á sombra e expondo aquelles ao sol, torna-se enorme, no pequeno terreno assim tratado, a differença remuneradora no lucro.

Ha nas visinhanças duas grandes quintas reaes : a quinta do Alfeite, pertencente a el-rei, e a da Amora, tambem chamada da princeza, pertencente ao Sr. infante D. Augusto.

Nenhuma d'estas propriedades póde infelizmente considerar-se um modelo de cultivo. São meras quintas de recreio, no triste sentido portuguez d'esta infeliz expressão.

O Alfeite é quasi inteiramente um parque, parque enorme, principalmente ensorabrado de pinheiros mansos, arruado por entre moitas de giestas, de tojo e de rosmaninho, d'onde rompem, atravessando os caminhos, ao ruído de passos, as abaladas de coelhos. Desde que, sendo os príncipes crianças, a rainha aqui passou com elles alguns dias para os curar de tosse convulsa, nunca mais — creio — tornou o Alfeite a ser habitado por pessoas da familia real, e o palácio é apenas um descanço de caça para as rápidas excursões venatorias de suas altezas, quo nos bons dias de inverno aqui vêm, ás vezes, dar alguns tiros aos coelhos ou ás gallinholas.

Paço Real do Alfeite, Aguarela, Enrique Casanova
Imagem: Cabral Moncada Leilões

A quinta da Princeza, na Amora, que o Sr. D. Augusto recentemente alargou com a compra de terras adjacentes, construindo uma nova e grande casa de habitação no alto chamado de Cheira-ventos, é uma bella propriedade do seculo passado, entrecortada de jardins de murtas, de restos de cascatas, a que cahiram os velhos embrechados, e de antigas escadarias de pedra, hoje desconjuntadas pelos escolrachos e cobertas de musgo. Tem sombras espessas, doces meandros de alameda, platanos magníficos, e á beira da agua que a cingo n'um d'esses longos e contorcidos bracejamentos do Tejo, nos espraiados da margem esquerda, perto da confluência do Coina, um grande lago com as ruinas de tres ilhas, a que cahiram as pontes, a com um viveiro de peixes, separado do Tejo por adufas de represa. N'outra vertente da propriedade, ha vinhedos de optimas castas, comparaveis ás do Lavradio, algumas terras de semeadura e pomares dè larangeiras. Creio, porém, que o infante Sr. D. Augusto não tem por esta quinta predilecção mais vivamente manifesta, que a de seus parentes pelo Alfeite. O palácio de Cheira-ventos, inteiramente deshabitado, acha-se por mobilhar desde que foi concluído, e os ventos do logar, n'uma exposição magnífica sobre Lisboa, sobre a enseada de Seixal e sobre as colunas, acastelladas de Palmella e de Cezimbra, são cheirados apenas por meia duzia de poldros e por tres ou quatro éguas de criação, em pastagem nas terras de Sua Alteza.

Palácio da Quinta da Amora, Cheira-ventos, 1899.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Durante a mocidade de nossos paes, a Cova da Piedade foi celebre pela casa de pasto do antigo Escoveiro, theatro de memoráveis noitadas de amor e de batota.

Botequim de Lisboa no século XIX, Alberto de Sousa, 1924.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

O pretexto da concurrencia ao Escoveiro era a sua afamada sopa de camarões e os salmonetes, que elle preparava do um modo especial, mettendo-os no forno envoltos n'um papel com manteiga, e servindo-os em sumo de limão, polvilhados de pimenta. Uma belleza! Comidos os salmonetes, armava-se a mesa do monte e muitos dos estroinas celebres da terrível Lisboa de ha trinta annos abancavam ao jogo até o outro dia pela manhã. N'uma noite que lhe deveria ter ficado de memória, o pobre Escoveiro deixou as caçarolas, para ver a jogatina, em que se faziam, paradas de cincoenta moedas, e arriscou de porta um cruzado novo. Cruzado novo foi elle, qua puxou atraz de si para o panno verde, dentro de pouco tempo, toda a linda fortuna que o Escoveiro accumulara om longos annos de sabia economia e de lucrativa gloria culinária. O infortúnio do estalajadeiro destingiu lugubremente na estalagem, e toda clientella — noivados, que por vezes vinham aos sabbados com os padrinhos, os parentes e os convidados celebrar os bodas com um jantar; raparigas alegres, rapazes patuscos, simples burguezes, pacatos amantes da boa mesa, e os próprios batoteiros, — fugiu, como de um lugar sinistro, da assignalada casa do Escoveiro arruinado Ainda hoje, depois de tantos annos, o prédio respectivo, á entrada da estrada de Cezimbra, sempre fechado, de frontaria apalaçada, mas ennegrecida, tem como um ar de desgraça.

Extinto o Escoveiro, veio o José [Joaquim?]dos Melões, e as merendas populares suecederam-se aos jantares e ás ceias da burguezia romântica.

No Lazareto de Lisboa, Joaquim dos Melões, Rafael Bordalo Pinheiro, 1881.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Hoje, o logar é um considerável centro industrial, com uma grande officina da moagem a vapor e quatro fabricas de rolhas, no sitio do Caramujo. Ha abastados agricultores, intelligentes e instruidos, tomando a terra a serio como Pompeu Dias Torres, que amanhece a anoitece a cavallo, e percorre quotidianamente a área de toda a sua lavoura, dirigindo em pessoa as cavas, as mondas, os varejps, as podas, as vindimas, as lagaradas, as cortimentas, todos os serviços emflm da grande lavra; e como Paulo Plantier, que na sua quinta do Pombal fabrica o mais especial vinho branco da região e as mais bellas rosas de todo o paiz, em rosaes de dez mil pés, cingidos de sementeiras preciosas de morangos e de melões da mais fina e delicada selecção horticola.

Além d'estes elementos de actividado o de riqueza local, quasi todas as pequenas casas da população indígena da Piedade são, mais ou menos, restaurantes campestres, com a taberninha á frente, o retiro bucólico ao fundo, com a mesa de jardim debaixo do parreiral ou do aboboreiro, e o terreno para o jogo da malha ou do chinquilho, a um lado da horta. Porque não ha dia lindo, com céu azul, quer de verão, quer de inverno, em que uma alegre burricada ou uma cavalgada impetuosa não passe com os respectivos cavalleiros aguçados de appetite pelo ar vivo do campo, uns ávidos de coelho guizado, de fritura d'ovos e chouriço, e de salada de pimentas, outros sequiosos da frescura de um melão maduro e da espuma vermelha do vinho palhete de Santa Martha ou do S. Simão, sugado pela chupéta ao batoque do casco e decilitrado ao pé da mãi.

Os estudantes e os caíxeiros preferem nas excursões equestres os esgalgados o escancellados cavallos de Cacilhas, aos quaes elles se impõem o dever sagrado de tirar em duas horas de gineta as manhas de uma vida intoira de mortificação e de jejum.

Os mestres d'officios com suas mulheres, os pequenos logistas com as sua. famílias, as coristas do theatro do Recreio ou da Trindade com os músicos ou com os poetas seus amigos, as costureiras e as cocottes com os seus companheiros, optam pelos burrinhos, em cujos albardôes o guarda-pó do cavalleiro, enfunado ao sopro, da brisa, e as bamboloantes botinas da dama, descobertas até o ultimo botão, são logo dopois de montar um começo auspicioso de festança. E na minha qualidade de paizagista eu bemdigo os que continuam a ser pela velha tradição da burricada cacilheira, porque não ha cousa que mais avivente e alegre o macadam poeirento, faiscante de sol, entre os aloés e as oliveiras alvacentas da beira das estradas, do que essas luminosas manchas movediças de guardas-sol brancos, azues e vermelhos, trespassados de sol, por baixo das quaes tremeluz em leves e fugidias pulverisações de prata, a terra solta, ferida pelo choto miudinho dos jericos.

Almada [Cova da Piedade], Uma Burricada, ed. Paulo Emílio Guedes & Saraiva, 14, década de 1900.
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

O burriqueiro de Cacilhas, para o qual me glorio de chamar por um momento a benigna attenção do leitor, não é um ser tão indifferente para a civilisação, quanto á primeira vista poderá parecer. Elle é por educação muscular o melhor dos andarilhos, e seria o mais ligeiro soldado de caçadores. Pela intimidade do seu trato com o burro, adquire, além d'isso, singulares qualidades contagiosas de tenacidade e de resistência, equivalentes á posse de toda uma philosophia. O burro teima com todo o mundo — excepto com o hurriqueiro, porque a experiencia dolorosa e amarga lhe tem demonstrado, que o burriqueiro é mais teimoso que elle. Da classe dos burriqueiros sahiu para a litteratura nacional um eminente escriptor, de cuja obra individual é fácil deduzir a índole da corporação.

Foi tangendo os burros em que pesadamente se transportavam ao vir de Lisboa, que os barrigudos frades de S. Domingos conheceram em Cacilhas a José Agostinho de Macedo, a quem se affeiçoaram, que recolheram, e que por fim educaram como noviço nas escolas da communidade.

Padre José Agostinho de Macedo (1761 - 1831).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

O padre José Agostinho, tirado de traz dos burros, da carreira de Cacilhas á Cova da Piedade, para a carreira das lettras, foi, como se sabe, um dos mais eruditos escriptores e um dos primeiros litteratos do começo d'este século. Mas a profissão que primeiro exerceu, a indole nativa de cavallariceiro e de tangedor de burros, imprimiu-lhe caracter tão indelével, como o da tonsura ou o das ordens sacras.

Em toda a sua obra encyclopedica, no púlpito e no livro, em prosa o em verso, desde o poema épico do Oriente até ao pamphleto da Besta esfolada, orador, poeta, philosopho, critico, elle foi sempre, invariavelmente, inconfundivelmente, essencialente — através de tudo e acima de tudo — o arrieiro.

Ramalho Ortigão (1836 - 1915).
Imagem: Wikipédia

Macedo fez escola, deixou numerosos e imitadores na publicidade portugueza, e é dos escriptores do seu tempo, aquelle talvez de cuja influencia encontram mais vestígios na prosa ontemporanea. No estylo, por exemplo, da controvérsia política, nos jornaes de Lisboa, é palpável a ascendência do macedismo.

Os Vencidos da Vida (com excepção de António Cândido) fotografados por Augusto Bobone em 1889, no jardim da casa do conde de Arnoso, na Rua de S. Domingos à Lapa: marquês de Soveral (Luiz Pinto de Soveral, 1850-1922), Carlos Lima Mayer (1846-1910), conde de Sabugosa (António José de Mello Cezar de Menezes, 1854-1923), Oliveira Martins (1846-1894), Carlos Lobo d’Ávila (1860-1895), Eça (1845-1900), Ramalho Ortigão (1836-1915), Guerra Junqueiro (1850-1923), conde de Arnoso (Bernardo Pinheiro Correia de Mello, 1855-1911) e conde de Ficalho (Francisco Manoel de Mello Breyner, 1837-1903).
Imagem: Lisboa Desaparecida

Mal sabe o burriqueiro, mal sabe o burro de Cacilhas, que é d'elles ambos que procede essa notável corrente da arte applicada á sova entre escriptòres, e tendo por base suggestiva e inicial a incidência combinada, do coice, da arrochada e da cólera fradesca, sobre a litteratura de uma raça!

* Reservando-so o direito de reedição, o auctor d'este artigo roga aos seus confrades da imprensa portuguesa o obséquio de o não transcreverem.

Ramalho Ortigão (1)


(1) Gazeta de Noticias, 7 de dezembro de 1886

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Nossa Senhora da Piedade

Cova da Piedade, igreja Nossa Senhora da Piedade, década de 1970.
Imagem: almaDalmada

No século XIV há várias referências em Almada, desde pelo menos 1366, ao sítio de S. Simão na Mutela, lugar pelo qual era conhecida a actual Cova da Piedade, contudo esta referência pode ter sido apenas uma imagem, nicho ou cruzeiro.

Em 1402, regista-se a primeira referência que conhecemos da Ermida de S. Simão, que confrontava então com uma Quinta dos Padres de S. Domingos de Lisboa, [Quinta dos Frades] actual Museu da Cidade.

Em 1553, numa Visitação da Ordem de S. Tiago, temos a primeira descrição conhecida da ermida, a qual tinha uma orientação e possivelmente localização diferentes da actual Igreja da Piedade.

Em 1574, toma posse da ermida um ermitão, por nome Frei Fernando, o qual adquire novas imagens para a Ermida de S. Simão e nela manda fazer obras com esmolas dos fiéis.

Entre 1582 e 1595, a Casa de S. Simão da Mutela serviu de pequeno cenóbio religioso de irmãos da Ordem Terceira de São Francisco provenientes do Convento de Santa Catarina de Vale Mourol de Santarém, os quais aqui ficaram até se mudarem para uma nova casa, no Vale dos Cardais em Lisboa, depois Convento de Jesus.

Entre as imagens mais antigas, hoje existentes no espólio da Igreja da Piedade, a mais antiga de todas é a de um Cristo arcaico, imagem popular talvez datada do século XVI, as restantes são já, presumivelmente do século seguinte, nomeadamente as esculturas de Nossa Senhora da Piedade, a de Santo António de Lisboa e a do Cristo crucificado, esculpido em madeira brasileira (recentemente restaurada), havendo também duas pinturas seiscentistas, uma representando a Virgem da Piedade e a outra o Evangelista São Mateus.

Tudo indica pois que, ou por devoção do ermitão, como relatam as memórias setecentistas, ou por influência franciscana, o culto de Nossa Senhora da Piedade, devoção profundamente franciscana, e marcadamente pós-conciliar, tenha sido introduzido na Casa de São Simão de Almada no fim do século XVI, de tal modo que já em 1606, devotos de Lisboa decidem aqui erigir uma Irmandade de N. Sr.ª da Piedade, cujo Compromisso tem entre os seus signatários o mesmo Fr. Fernando.

Frontespício do Compromisso da Irmandade da Virgem Nossa Senhora da Piedade sita na ermida de S.Simão de Mutela termo de Almada.
Ordenada no ano de 1606.
Imagem: Rui Manuel Mesquita Mendes

O Compromisso de 1606 fala da devoção à imagem que estava na Ermida de S. Simão da Mutela, mas também refere uma Igreja de S. Simão, não sendo clara a localização de ambas.

Talvez a segunda estivesse então a ser de novo edificada, pois os relatos do século XVIII dizem que "segundo a tradição passado algum tempo sonhou o Ermitão com huma Senhora da Piedade, e fazendo diligencia pela Imagem, com que tinha sonhado, a fora achar em huma casa da Sé de Lisboa, [hoje Basílica de Santa Maria] e pedindo-a se lhe deu; 

Nossa Senhora da Piedade, escultura do século XVII.
Imagem: Paróquia da Cova da Piedade

e trazendo-a para a Ermida de S. Simão, ahi começara a Senhora a fazer muitos milagres, e com esmolas, que concorrerão se fez o Recolhimento com o nome da Piedade".

De facto o referido Compromisso também determina aos seus irmãos que colhessem esmolas para erigir uma nova Capela de abóbada e arco de pedraria, para aí alojarem condignamente a imagem de Nossa Senhora da Piedade.

Em 1609, um novo ermitão, Pe. Jorge Freire, já aparece como Ermitão da Ermida de S. Simão e N. Sr.ª da Piedade.

Em 1616, funda-se de facto o Recolhimento de Nossa Senhora da Piedade para senhoras Beatas, e em 1620 constroem-se casas para os romeiros e para a irmandade.

A partir da segunda metade do século XVII perdem-se as referências de uma igreja e de uma ermida separadas e as descrições do século XVIII (Dicionário Geográfico) falam de várias edificações e de ermitães, mas são inconclusivas quanto a datas…. a certeza porém que, após o Terramoto, a igreja foi reedificada entre 1762 e 1764, sendo a partir dessa data conhecida apenas como Igreja de N S da Piedade! (1)

Mouth of the River Tagus (detail), page from Gentleman's Magazine, Jan 1756.
Imagem: UNIVERSITY ARCHIVES

Estes e outros elementos sobre a Nossa Senhora da Piedade podem ser encontrados no Centro de Documentação de Instituições Religiosas e da Família.
Este serviço, inaugurado em 4 de Novembro de 2012 e integrado no Centro Social Paroquial Padre Ricardo Gameiro (Cova da Piedade), instituição actualmente dirigida pelo Pe. José Pinheiro, pároco da Cova da Piedade, tem por finalidade apoiar as paróquias e outras instituições sociais do concelho de Almada (tendo para esse fim o acordo do Sr. D. Gilberto, Bispo de Setúbal, e um protocolo com a respectiva Comissão Diocesana de Arte Sacra) no inventário, conservação e digitalização do seu espólio arquivístico e bibliográfico.
É um trabalho feito, na sua larga maioria, por uma equipa de voluntários, da qual faço parte, embora com o apoio de profissionais especializados, coordenados pela Dr.ª Alexandra Figueiredo.
Já se encontram digitalizados a totalidade do espólio conhecido das Paróquias de Cova da Piedade e Monte de Caparica, assim como do Jornal de Almada, e encontra-se neste momento em tratamento e vias de digitalização o espólio do Seminário de Almada e da Paróquia de Almada. Outras se seguirão.
Este espaço está situado na Quinta da Ramalha, Cova da Piedade, antiga propriedade rústica também recentemente restaurada, dotada de uma magnífica capela com origens no século XV e reedificada no século XVII.
Fica aqui o convite para uma visita para conhecerem um pouco da nossa história e património. (2)

Adro da igreja Nossa Senhora da Piedade, 1962.
Imagem: AMVC

No da 18 do corrente, véspera da sua festividade annual, se cantará huma solemne Missa, por múzica vocal e instrumental, pela conservação da Precioza Vida de Sua Magestade o Senhor D. Miguel I, Augusto Protector Prepétuo da mesma Real Irmandade, finda a qual se fará a inauguração das Reaes Armas no frontespício da Real Capella do Apostollo S. Simão, onde a mencionada Irmandade se acha erecta (...) pelas Mercês que o Mesmo Augusto Senhor foi servido liberalizar a esta irmandade declarando-Se seu Protector Perpétuo, e concedendo á mesma, e á Capella, em que se acha erecta, o título, Honras e Privilégios de Reaes.

in Gazeta de Lisboa, 18 de agosto de 1830 (3)


Bandeira nacional de Portugal de 1826 a 1830,
Bandeira de D. João V, usada pelos Miguelistas ou Absolutistas.
Imagem: Wikipédia


(1) Rui Manuel Mesquita Mendes, 19 de abril de 2014
(2) Idem

(3) Centro de Arqueologia de Almada, Cova da Piedade, Património e História, Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 2012.

Artigo relacionado: S. Simão das Barrocas

domingo, 8 de junho de 2014

S. Simão das Barrocas

No destricto desta Freguesia [Santiago] ha hum Recolhimento da Piedade, 

consta por tradição, que foy sua origem de hum Ermitão, que achando huma Imagem de S. Simão nas Barrocas, chamadas hoje de S. Simão, pouco distantes do sitio, em que hoje está o dito Recolhimento, 

dissera, tomando o Santo nos braços, que havia edificar huma Ermida no sitio, em que não pudesse ir mais adiante;

S. Simão, o zelota.
Imagem: Demi-Art

e chegando ao sitio em que hoje está о Recolhimento, e não podendo dahi passar, com esmolas fizera huma Еrmida a S. Simão, по mesmo sitio, que ainda hoje conserva o nome de S. Simão das Barrocas, 

e haverá duzentos annos , que succedeo o referido, segundo a tradição. (1)

Carta dos Arredores de Lisboa — 1 e 67 (detalhes), Corpo do Estado Maior, 1902.
Imagem: IGeoE

Sobre o local temos as seguintes notícias:
  • Em 1377, um lugar de S. Simão;
  • Em 1505, um campo de S. Simão;
  • Em 1532, um sítio de S. Simão, onde a Casa dos Gafos de Cacilhas tinha uma courela de vinha.
Cremos que o Campo de S. Simão correspondia à parte baixa, na actual Cova da Piedade enquanto que o sítio e o lugar se referem à parte alta.

Vista Geral, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Por Barrocas entende-se o sítio compreendido entre o território do Alfeite a a Avenida 23 de Julho, desde o Largo 5 de Outubro ao chamado Alto das Barrocas ou de S. Simão.

Estrada das Barrocas, Cova da Piedade, ed. desc., década de 1900
Imagem: Delcampe

Compreende a antiga estrada das Barrocas (rua da Sociedade Filármonica União Artística Piedense), a praceta das Barrocas e o já citado alto do mesmo nome. (2)

Estrada das Barrocas, Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

No século XVII esta estrada era conhecida por Calçada de S. Simão e integrava o principal eixo viário entre Cacilhas e Corroios, no seguimento da Estrada da Mutela. 

Vista do Arsenal do Alfeite tomada da Estrada das Barrocas, Mário Novais, década de 1940.
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

A carta de 1816 assinala o local como As Barrocas, 

Carta Topográfica Militar da Península de Setúbal (detalhe), José Maria das Neves Costa, 1813 — 1816.
Imagem: IGeoE

topónimo que se aplica a terrenos acidentados.

A passagem do gado, Cristino da Silva, 1865.
Imagem: Wikipédia

Ainda hoje a designação se adequa à tipografia deste terreno constituido por barreiras de saibro, visíveis dentro do perímetro militar do Alfeite [...] (3)

Palácio e Quinta Real do Alfeite, João Ribeiro Cristino, in Occidente Revista Illustrada, março, 1887.
Imagem: Hemeroteca Digital

Passado algum tempo sonhou о Ermitão com huma Senhora da Piedade, e fazendo diligencia реla Imagem, com que tinha sonhado, a fora achar em huma casa da Sé de Lisboa , (hoje Basílica de Santa Maria) e pedindo-a se lhe deu;

Pietà, Michelangelo Buonarroti, 1499.
Imagem: Wikipédia

e trazendo-a para a Ermida de S. Simão, ahi começara a Senhora a fazer muitos milagres [...] (4)


(1) Cardoso, Luís, Diccionario geografico, ou noticia historica de todas as cidades..., Lisboa, na Regia Officina Sylviana e da Academia Real, 1747, 2 vol.

(2) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

(3) Centro de Arqueologia de Almada, Cova da Piedade, Património e História, Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 2012.

(4) Cardoso, Luís, Op. Cit.