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sábado, 17 de abril de 2021

Gregório, do Cacilhense...

Gregório
Revista Stadium n° 345, 1949
Cacilhas, a vila da outra margem do Tejo, que amorosamente fita Lisboa. O alfacinha que por ela nutre particular admiração e estima, não se furta o grato prazer de a visitar da quando em vez, animando-lhe buliçosamente as ruas e retiros nos domingo e dias feriados.

No recuado ano de 1930, nas ruas menos concorridas, sobre o basalto, a miudagem que rondava pelos 13 anos, dava largaa à inontida fúria pela bola, disputando interminavelmente desafios que, geralmente, só findavam devido à intervenção dosprogenitores da policia ou da guarda republicana.

Entre os pequenitos Gregório Gonçalves dos Santos nascido em 26-1-1917, distinguia-se pela vivacidade endiabrada, pelo fôlego inexgostavel, pela indiferença com que sacrificava a biqueira das botas... até que o pai resolveu não as deixar ao alcance do azougado garoto... que jogava descalço, então, sacrificava os dedos dos pês à alegria de jogar com uma bola de borracha ou de trapo... embora, depois, ao chegar a casa, o pai jogasse com ele de maneire diferente...

O número de miúdos cresceu de tal forma que chegou um dia em que resolverem, multo simplesmente, fundar um clube. Apareceram vários nomes, mas só um deles mereceu aprovação unanime, pelo seu simbolismo: "Cacilhense".

Criado o clube, faltava uns bola de coiro, igual ou parecida com as dos jogadores de verdade. Qual a solução?

Todo o dinheiro obtido pelaa dádiva dos pais ou dos amigos era empregado na compra de rebuçaods,— daqueles que tinham concurso dos emblemas dos principais clubes. E, assim, foi resolvIdo tão magno problema!

Teve, porém, efémera duração o grupo. Na ano seguinte, já com os miúdos na idade de 14 a 15 anos, novo clube surgiu em substituicão do primeiro o "Bombense".

Os jogos passaram a realizar-se no Campo do Ginásio Clube do Sul, com bola de cautechu, pagando cada miúdo dez tostões para o aluguer. Claro que, os desafios não tinham hora certa de duração.

Aos 16 anos, Gregório, ingressava no Ginásio, proprietário do campo onde começara a revelar a sua intuição futebolística, participando em vários desafios... já a valer, mas com carácter particular. Alinhava também, visto que não assinara ficha, no Pedreirenee F. C. hoje fusionado com o Atlético Clube de Almada e no União Piedense, hoje Clube Desportivo da Cova Piedade, entre outros. (1)


(1) Stadium n.° 345, 13 de julho de 1949

Artigos relacionados:
Clube Desportivo da Cova da Piedade
Clube Desportivo da Cova da Piedade (reportagem da revista Stadium)
Clube Recreativo José Avelino

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Renascer

Navio-motor com casco e superestruturas de madeira, construído no ano de 1917 num estaleiro da então vila de Olhão.

Cacilheiro Renascer no Cais das Colunas, ed. Dúlia, década de 1950.
Imagem: Delcampe

Concebida como rebocador, esta modesta embarcação interrompeu essa sua primeira actividade em inícios dos anos 50 para ser transformada em transporte de passageiros.

Isto, depois de ter sido vendida à empresa Jerónimo Rodrigues Durão, Lda, de Cacilhas, que a colocou nas ligações entre a sua terra e Lisboa, nomeadamente o Terreiro do Paço.

Cacilheiro Renascer no cais das colunas.
Imagem: ALERNAVIOS

Na sua qualidade de cacilheiro, o "Renascer" — que tinha uma arqueação bruta de 56 toneladas e media 22,66 metros de comprimento por 5,50 metros de boca — funcionava com 4 membros de equipagem e podia receber a bordo uma lotação máxima de 250 passageiros.

Um grupo de seminaristas a bordo do cacilheiro Renascer.
Imagem: Fundação Mário Soares
O "Renascer" estava registado no porto de Lisboa com o número oficial LX-3107-TL. O seu motor diesel desenvolvia 225 hp de potência, o que lhe permitia navegar à velocidade de cruzeiro de 8 nós. (1)

Antigo cacilheiro Renascer, c. 1920(?).
Imagem: Delcampe


(1) ALERNAVIOS

sábado, 25 de abril de 2015

Sábado sem Sol

EIS-NOS perante um facto que não pode deixar de nos causar certa alegria: Romeu Correia, um jovem auto-didata cuja experiencia da arte de escrever era quase nula e cuja cultura tem sido adquirida, em ande parte, nas bibliotecas populares da sua terra, publica um volume de contos que é, sob vários aspectos, digno da maior atenção. Na verdade se Romeu Correia produziu obra onde não e difícil apontar erros e deficiências, o certo e que o seu livro é também a demonstração inequívoca de reais qualidades que injustiça seria não destacar.

Sábado sem Sol, 1947, ilustração Fernando Camarinha.
Imagem: Tertúlia Bibliófila

"Consolador" será, talvez, o adjectivo mais apropriado para caracterizar este "Sábado sem Sol". É que, apesar de todos os senões, ele é a prova clara de que estamos perante um jovem escritor que soube encontrar na vida do povo os motivos e a razão dos seus contos; que conhece e sente os ambientes que descreve.

Julgamos não haver, da parte do autor, apenas uma adesão sentimental ou ideológica às vidas que palpitam e sofrem nas páginas do seu livro; mas sim uma identificação do autor com essas vidas — o sentir seus, também, os dramas e as esperanças dessa gente — o que nos parece constituir uma das mais importantes condições para a realização de uma literatura sincera e humana e não uma literatura que seja um mero reflexo do que é moda fazer-se.

Romeu Correia está ainda longe, como e fácil de ver, daquela maturidade artistica e intelectual que lhe permita escrever uma obra sólida e duradoira. Contudo, este seu "Sábado sem Sol" dá-nos a esperança de que talvez isso venha a acontecer. As qualidades nele patentes são razões fortes para assim pensarmos. Os tres melhores contos do volume — "Chegou o carvoeiro ! 

O carvoeiro, Leslie Howard, década de 1930.
Imagem: Museu da Cidade de Almada

Mestra e Novela interrompida" — dizem-nos que o seu autor pode, se souber superar-se por um trabalho sério e constante, vir a escrever obra de valor.

O mesmo não acontece com os outros trabalhos do seu livro, que são, fora de dúvida, de nivel nitidamente inferior ao dos tres atrás citados. Vê-se, através deles, uma fragilidade técnica que os prejudica enormemente, desde a inesperada passagem da terceira para a primeira pessoa, no modo de contar de "Destino. . ." até "O Fogueiro" que mal chega a ser uma crónica a fugir para conto e na qual o desfecho — o aparecimento o filho cadastrado, rico e com uma bela mulher — não tem explicação alguma nem chega a sugerir, com solidez, qualquer hipótese.

Porém, a primeira grande qualidade de Romeu Correia reside na extraordinária habilidade de nos dar um diálogo vivo e natural — coisa que raramente acontece entre os que, como o autor de "Sábado sem Sol", não tem atrás de si uma longa experiencia da arte de escrever. A segunda, o bom aproveitamento de pormenores felizes, o que da aos seus contos a impressão de coisa mais vista do que imaginada. Ora, se e certo que a obra de arte tem de ser criação — e aqui o factor imaginação tem uma inestimável importancia — a verdade é que essa imaginação não terá elementos fecundos e trabalho se não estiver bem assente na observação da realidade. Romeu Correia, ao que nos parece, é senhor de um poder de observação e de um conhecimento dessa realidade que julgamos excelentes. Falta-lhe, talvez, ainda, o poder artístico que lhe permita "recriá-la", de modo a produzir obra que verdadeiramente se possa impor. Romeu Correia está, pois, perante um dilema: ou fica satisfeito com o que fez, ou considera o seu "Sábado sem Sol" como o primeiro passo, balbuciante ainda, o longo e penoso caminho que tem à sua frente. No primeiro caso, nada de inteiramente serio poderá realizar, visto que, apesar das apreciáveis qualidades que nele encontramos, o seu livro está demasiado eivado de imperfeições para que, por si só, possa ter mais do que um momentâneo interesse. No segundo caso — e esta é a única atitude aceitável e a única fecunda — então, sim, tenhamos esperança em Romeu Correia! O artista — o verdadeiro artista — vive em constante insatisfação e em constante desejo de aperfeiçoamento.

Auto de apreensão do livro Sábado Sem Sol, 26 de maio de 1947.
Imagem: Biblioteca da Incrível Almadense

É nesta insatisfação e neste desejo que Romeu Correia poderá encontrar as condições essenciais para se afirmar como escritor. (1)


(1) Costa, Nataniel, MUNDO LITERÁRIO : semanário de crítica e informação literária, científica e artística, Editorial Confluência, 26 de abril de 1947

n.do e.: na mesma edição de Mundo Literário é também publicada poesia de Hélio Quartim.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Construção naval tradicional no lugar da Mutela

Aproveitando a tradição do local para a prática da querenagem e as condições naturais de um baldio que existia junto à Quinta do Outeiro, uma das sete propriedades que a Casa do Infantado possuía no Alfeite, o industrial António José Sampaio instala um pequeno estaleiro nesse terreno junto ao salgado do rio, confinando a Sul com a referida Quinta do Outeiro, a Poente com a Romeira Velha, a Norte com o Caramujo e a Nascente com o rio Tejo.

Plano Hydrográfico do Porto de Lisboa (detalhe), 1847

Este estaleiro, vocacionado apenas para a construção de embarcações em madeira, encontrava-se em plena laboração em 1850.

Em 1855, o seu proprietário, por escritura notarial celebrada em Lisboa no dia 27 de Janeiro, toma de foro ao Conde de Mesquitela, um pedaço de terreno na praia da Mutela, junto à Margueira, para ali instalar uma caldeira em estacaria ou de pedra e cal, na extremidade da qual projectava construir duas rampas para querenagem de embarcações.

Alfeite, D. Carlos de Bragança, aguarela, 1891
Imagem: Museu Municipal de Coimbra, colecção Telo de Morais

Desconhecem-se por quanto tempo estas instalações se mantiveram na posse da família após a morte de António José Sampaio, tendo como certo que desde finais do século XIX, João Gomes Silvestre, conhecido por “João Marcela”, natural de Ovar, surge como proprietário do estaleiro da Mutela, partilhando a sua direcção com o irmão Bernardino Gomes Silvestre.

Em 1917, ainda na posse dos mesmos industriais, o estaleiro mantinha as mesmas confrontações do aforamento primitivo, apenas acrescido da serventia, para arrecadação de ferramentas, de um moinho de maré que era propriedade dos herdeiros dos Condes de Mesquitela, e se encontrava desactivado.

Estaleiros da Mutela, Carlos Pinto Ramos, aguarela, 1931
Imagem: Museu José Malhoa

Vista geral da Mutela, Mário Novais, década de 1930
Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian

O estaleiro dos “Silvestres” funcionou até 1947, ano em que teve lugar um processo de expropriações, tendo por objectivo a abertura do troço da Estrada Nacional n° 10, ligando Cacilhas à Cova da Piedade.

Vista aérea da variante à Estrada Nacional 10, zona da Mutela e da Margueira, 1958
Imagem: IGeoE

Com este estaleiro naval desapareceram muitos outros que se situavam nas imediações, como os de Manuel Caetano, Américo Cravidão, Francisco Cavaco, João Fialho, Joaquim Maria da Silva, ou Pedro Lopes e Serafim Matos, transferindo-se alguns para o concelho do Seixal enquanto outros simplesmente deram por terminada a sua actividade. (1)

Zona dos estaleiros da Mutela em 1941, Vitalino António
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade

  1. Estaleiro e oficina do Peres
  2. Estaleiro do Pinhal, Zé dos ovos, Chico de Sezimbra
  3. Zona da represa para os toros de madeira estarem na água
  4. Muralha da Luíza da água
  5. Cais da fábrica Ramos (cortiça)
  6. Cais do Martins (vinhos)
  7. Cantinho da lapa onde os esgotos descarregavam na praia
  8. Fábrica da farinha
  9. Clínica António Elvas
  10. Estaleiro do João Marcelo (herdeiros), Manuel Lino, Cravidão (sócios)
  11. Moinho de maré (pertença da sociedade Manuel Lino) onde eram guardados os apetrechos náuticos
  12. Ferraria do João Vieira (João Ferreiro)
  13. Estaleiro da sociedade Manuel Caetano, Lázaro, Américo Cravidão
  14. Ferraria do Chouffer em brasa
  15. Zona de encalhe das embarcações para ficar em cima dos picadeiros (para raspar fundos e aplicar bréu)
  16. Estação de toros de madeira de Zé Cravidão (fornecimento dos estaleiros)
  17. Cavalariça do André
  18. Residência (barraca do Manel Preto) empregado do forno de cal
  19. Esplanada do liberdade
  20. Estaleiro do Chico Cavaco
  21. Estaleiro do Fialho (irmão do Chico Cavaco)
  22. Ferraria do Fialho
  23. Cais da fábrica Cabruja & Cabruja Lda. (cortiça)
  24. Estaleiro do Joaquim Picadeiro
  25. Estaleiro da sociedade Pedro, Serafim e Fernando
  26. Largo da Mutela
  27. Serração do Cereja (anteriormente Santo Amaro, Manuel Febrero)
  28. Taberna do Adelino Baeta
  29. Taberna da Emília da Praia 



(1) Grupo parlamentar do PCP, Deputados do, Cria o Museu Nacional da Indústria Naval, Lisboa, Parlamento, 2005, 19 págs.




Como conheci os irmãos Silvestre (Mestres “Marcelas”)

Conheci o Sr. João Marcela e o Sr. Bernardino em 1936, em Mutela, onde eram construtores de fragatas e barcos de madeira.


O João Gomes Silvestre era mestre carpinteiro de machado, e o mestre Bernardino Gomes Silvestre era calafate, tendo sido ambos construtores em Ovar, num estaleiro que tinham ali para os lados da Ribeira. Eu mesmo andei numa fragata, a "Sertória", construída por eles em Ovar, e lançada ao mar em 7/3/1907.

O mestre João era grande na estatura e grande nas obras que fazia. Tudo o que saía das suas mãos era perfeito.

O irmão, mestre Bernardino, era a mesma coisa. Vi-o a calafetar uma fragata com água pela cintura…

Havia vários estaleiros na Praia de Mutela, mas os dos Marcelas rivalizavam com todos: serviam uma clientela das melhores que havia, de que faziam parte alguns proprietários de fragatas naturais de Ovar.

Muita coisa boa poderia dizer destes dois gigantes e competentes fragateiros da minha terra, que Deus chamou ainda novos.

João Pinto Ramalhadeiro (*)


(*) Artigos do jornal João Semana Fragateiros de Ovar