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sexta-feira, 24 de maio de 2019

António Álvares da Cunha (c. 1700-1791)

(a propósito dos painéis de azulejo da Quinta de São Lourenço em Palença no Pragal)

O título de conde da Cunha fora dado de juro e herdade, por carta de 14 de Março de 1760, a D. António Alvares da Cunha, 

Vista de Lisboa (tomada da margem sul), Alexandre-Jean Noël.
Cabral Moncada Leilões

"tendo consideração aos notáveis e distintos serviços que D. Luís da Cunha me fez, por espaço de sessenta e dois anos sucessivos, nos lugares de desembargador do Porto e da Casa da Suplicação até o ano de 1696, e depois dele, e  até seu falecimento, nos empregos de enviado extraordinário na corte de Londres, de embaixador extraordinário e plenipotenciário no congresso de Utreque, e de embaixador nas cortes de Londres, Haia, Madrid e Paris, atendendo as sucessivas representações com que o sobredito suplicou os referidos serviços lhe fossem despachados em benefício da casa de seus pais e do administrador dela, seu sobrinho D. António Alvares da Cunha,

António Álvares da Cunha (c. 1700-1791).
1.° Conde da Cunha, Vice-rei do Brasil.
Instituto Histórico Brasileiro

contemplando ao mesmo tempo os serviços pessoais com que o dito D. António se tem distinguido também por sua profissão militar até o posto de capitão de mar e guerra das fragatas da armada, e nos empregos de governador e capitão general da praça de Mazagão e do reino de Angola", etc. Carta do título de conde da Cunha, na província do Minho, de juro e herdade, erigindo-se o dito lugar logo em vila. — Chancelaria de D. José, livs. 72,°, fl. 85, e 69, fl. 49. (1)

À semelhança de outras quintas do concelho de Almada, a Quinta de São Lourenço beneficia de uma situação geográfica privilegiada, localizando-se no cume de uma encosta que desce até ao Tejo, onde existiu, outrora, um pequeno ancoradouro de acesso directo à propriedade [...]

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
FRESS

São muito escassas as informações disponíveis que se referem a São Lourenço. Pouco ou nada sabemos sobre a sua origem, e a cronologia que avançamos tem por base o inventários do conjunto de azulejos que reveste boa parte dos espaços da casa, e que ainda se conserva no local. A edificação da casa de habitação, de um piso único, deverá remontar ao século XVII.

Assim o indicam as suas principais características arquitectónicas, corroboradas pela existência de azulejos seiscentistas, de padrão azul e branco, no alpendre e na fachada (DUARTE; MANGUCCI, 1998, p. 57). 

Com planta em forma de L, o edifício é composto por uma ala residencial, e por outra, mais comprida, onde se integra a capela, prolongada por anexos destinados a fins agrícolas. A fachada principal é antecedida por uma estrutura formada por colunas toscanas sobre um soco alto.

No alçado imediatamente perpendicular, a capela destaca-se pelo portal, encimado por frontão triangular e cruz na empena, denunciando uma arquitectura de influência pombalina. O espaço interno divide-se em três naves, separadas por colunas toscanas (aliás, esta é a ordem empregue em toda a quinta), e com tribunas.

A abóbada da nave é pintada, e este espaço separa-se da capela-mor através de um arco triunfal de colunas também toscanas [...]

A depuração e linearidade do desenho evoca o gosto seiscentista, também presente no portão de acesso a este amplo terreiro definido pela habitação. De arco de volta perfeita, com aparelho rusticado, exibe, ao centro, a pedra de armas dos Cunha [encimada por elmo com viseira barrada], proprietários da Quinta. 

O terreiro é delimitado por um muro recortado, formando uma série de bancos. Uma lápide com a data de 1713 poderá indiciar nova campanha de obras [na verdade, a lápide indica a data de 1663, MDCLXIII, reinado de D. Pedro II, ano seguinte ao nascimento de D. Luís da Cunha (e ao casamento de Catarina de Bragança), facto, que entre outros, contextualiza de  modo diferente importância do lugar e da familia Cunha].

Quinta de S. Lourenço, lápide com data de 1663.
Património Cultural

Mas serão os azulejos do interior que estabelecem uma cronologia de intervenções. Assim, em 1742 terão sido encomendados os painéis mais conhecidos deste conjunto, aplicados na sala principal da casa. Um deles, com o brasão dos Cunha, exibe a data referida.

Painel de azulejos com as armas fa familia Cunha.
flickr

Seria, contudo, a iconografia naval, com representações de batalhas, desenhos de navios, e instrumentos náuticos que tornaria notados estes azulejos. (2)

Recheio azulejar: sala de entrada - silhares em azul e branco, com representação heráldica datada - 1742 - e painéis representando animais, alguns refeitos recentemente; sala contígua com silhares em azul e branco com cenas palacianas, revivalistas; cozinha do lado oposto com azulejos de figura avulsa;

Quinta de S. Lourenço, Painel de azulejos.
flickr

sala nobre com lambril em azul e branco, atribuível ao período de grande produção joanina, com 3 grandes painéis representado várias caravelas, um estaleiro naval com uma nau a ser lançada ao mar (cortado por chaminé de lareira), um grupo de geógrafos e navegadores rodeando globos terrestres e experimentando instrumentos de medição da latitude pelo sol, vários painéis menores com figuras masculinas segurando instrumentos de navegação marítima;

Quinta de S. Lourenço, Painel de azulejos.
Museu de Marinha

sala contígua - silhares em azul e branco, com cenas palacianas; casa de jantar - composição enxadrezada recente; pequena sala contígua à anterior - cenas palacianas com molduras rococó (c. 1760/70), algumas refeitas na Fábrica de Santana; varanda alpendrada - composições em axadrezado recentes; capela - silhar de padronagem na nave, figurativo na capela-mor, com cenas hagiográficas em azul e branco, com cercaduras polícromas (c. 1760/70).

Nas paredes da nave, sobre o arco triunfal e do lado oposto sobre a tribuna, 2 cartelas rococó em estuque com figurações emblemáticas de S. Sebastião e S. Lourenço.

No espaldar de acesso ao túnel, no jardim, um brasão gravado sobre o vão de acesso e uma lápide em latim datada de 1713 [1663, v. acima]. (3)

Sabemos que os pintores de azulejos não pintavam à vista os navios autênticos, nem iam para as docas com a intenção de representar os navios existentes tão fielmente quanto possível. O papel dos navios nas composições azulejares era meramente simbólico e destinado a ser apreciado por uma sociedade que não era muito literada nas complexidades do desenho de navios.

Em alguns casos parece que os artistas tentaram adaptar as imagens das gravuras numa tentativa de as fazerem mais portuguesas, como no caso da Quinta de São Lourenço, o simplificando o desenho. Nas palavras de Maria Alexandra Gago da Câmara: "A circulação das gravuras e a sua cópia através da Europa originou representações em azulejo, especialmente essas com lazer e paisagens idealizadas, que não são necessariamente uma realidade nacional. mas em vez disso supra-nacional, que ilustra uma série de valores comuns à época, tais como a invocação da vida do país e um certo modus vivendi" (Câmara, 2005: 163).

A Quinta de São Lourenço no Pragal, perto de Lisboa, tem um programa decorativo interessante que consiste em cenas relacionadas com o mar e a navegação, que datam de 1742, baseadas em gravuras holandesas. 

Uma delas apresenta cenas de um estaleiro naval e mostra a construção de um grande navio à esquerda, quase completo, de acordo com a princípio de construção "o esqueleto primeiro". Um grupo de trabalhadores à esquerda do navio puxa um cabo enquanto que outros escolhem madeira para a estrutura do navio. Atrás deles está um pequeno grupo de nobres, olhando para os navios, provavelmente representando os donos do navio. Uma vez que o navio não está completo não é possivel dizer que tipo de navio será [?].

Quinta de S. Lourenço, Painel de azulejos.
Museu de Marinha

O lado direito do painel é ocupado por outro grupo de trabalhadores calafetando um outro grande navio, que está querenado com a ajuda de uma barcaça (Raposo and Reis, 1994: 110, 111; Simões, 2010: 454).

Três dos painéis da Quinta de São Lourenço, Pragal, apresentam navios isolados, um em cada painel, quase certamente reproduções de gravuras holandesas, todos eles representados com grande detalhe.

Um mostra uma galé com remadores levemente desenhados e uma cruz de malta na ré. Perto do navio está um pequeno barco a remos com um nobre de pé.

Galé remada a scaloccio (quatro ou cinco remadores por remo), Quinta de S. Lourenço.
Museu de Marinha

O segundo painel representa um grande navio de guerra com a bandeira holandesa, três mastros, castelo de popa e de proa, e uma lindamente detalhada figura de proa de uma sereia segurando uma coroa.

Quinta de S. Lourenço Painel de azulejos.
Museu de Marinha

O ultimo painel, talvez o mais interessante, revela um navio mais pequeno do que os precedentes, que é baseado nos navios holandeses mas tem a bandeira portuguesa e outras características como uma vela triangular [?] (Raposo e Reis, 1994: 114, 115; 2010: 454) .

Quinta de S. Lourenço, Painel de azulejos.
Museu de Marinha

A batalha naval apresentada na Quinta de São Lourenço, Pragal, de 1742 e baseada em graviuras estrangeiras, tem sido identificada como a batalha de La Hogue (1692), apesar do facto dessa batalha ter sido travada entre ingleses, franceses e holandeses, e que apenas as duas ultimas bandeiras possam ser identificadas nesse painel.

Batalha naval entre navios com proa ao estilo do século 18 e popa ao estilo do século 17 na Quinta de São Lourenço.
Museu de Marinha

Mostra dois navios de guerra disparando um contra e o fumo esconde detalhes de ambos os navios. Atrás deles podemos entre as velas de dois navios semelhantes (Raposo and Reis, 1994: 114; Simões, 2010: 454). (4)

Pelo grande augmenlo que tinham tido todas as Capitanias meridionaes, e sobretudo pela guerra pendente no Rio da Prata, achando-se ameaçado o territorio do Rio Grande do Sul pela rapida invasão de Cevallos [Dom Pedro de] daquelle Continente, resolveu El-Rei mudar a metropoli do Brasil, da Bahia para o Rio de Janeiro; e para 1.° Vice-Rei e Capitão General de mar e terra foi nomeado D. Antonio Alvares da Cunha, Conde da Cunha, por Carta Patente de 27 de Junho de 1763. 

António Álvares da Cunha (c. 1700-1791).
1.° Conde da Cunha, Vice-rei do Brasil.
Literatura Rio de Janeiro (Nireu Cavalcanti)

Chegando ao Rio de Janeiro, tomou posse a 10 de Oulubro do mesmo anno, e governou até o dia 17 de Novembro de 1767, em que foi rendido.

Arsenal do Rio de Janeiro, no sopé do morro de São Bento.
Criado em 29 de dezembro de 1763 pelo Vice-rei Antônio Álvares da Cunha, 1° Conde da Cunha.
O Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro na História, 1763-1822

No pouco tempo, que durou a sua administração, reparou todas as fortalezas desmanteladas, levantou a da Praia Vermelha, fez construir na ilha das Pombas dois grandes armazens para deposito da polvora, e. uma armaria na fortaleza da Conceição; na fralda do morro de S. Bento assentou o arsenal da marinha, onde se fabricou a nau S. Sebastião [v. São Sebastião (nau)], e na ponta da Misericordia edificou uma grande casa para o trem de artilharia, que hoje serve de arsenal do exercito; e ultimamente foi este celebre administrador quem creou o Hospital dos Lazaros em S. Christovão, como logo se dirá. (5)


(1) Anselmo Braamcamp Freire, Brasões da Sala de Sintra. Vol. I, Coimbra, ,Imprensa da Universidade, 1921
(2) Quinta de São Lourenço... habitação e dependências da lavoura, capela (São Sebastião)...
(3) Casa e Capela da Quinta de São Lourenço
(4) The representation of vessels in early modern portuguese tile
(5) José Inácio de Abreu e Lima, Sinopse ou dedução cronológica dos fatos mais notáveis da história do Brasil, Pernanbuco, 1845

Artigo relacionado:
Palença de Baixo

Leitura adicional:
Oceanos n° 17, 1994: Raposo F. H., Os Azulejos náuticos da Quinta de São Lourenço, p. 109-115
O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis : 1763 - 1808 (pesquisa: conde da cunha)
Guerra e sociedade: a situação militar do Rio de Janeiro no Vice-Reinado do Conde da Cunha, 1763-1767
Joaquim Manuel de Macedo, As Mulheres de Mantilha, Vol. I, Rio de Janeiro, 1870

Mais informação:
Cronologia do Rio de Janeiro colonial em Imagens
Carlos Couto, Os Capitães Mores de Angola
Arquivo Histórico Umltramarino [Governador e Capitão-General de Angola 1753-1758]
Jardim da Quinta de São Lourenço
As quintas da "Outra Banda": de um passado rural a um futuro cultural

domingo, 26 de junho de 2016

Panorâmicas do Pragal

Nesta viagem pelo Pragal vimos casas com uma história e ruas com nomes interessantes. Conhecemos coisas novas e reparámos em estátuas que no dia-a-dia esquecemos de lhes dar importância. Até viajámos no tempo.

Panorâmica do Pragal, Augusto de Jesus Fernandes, 1966.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O Pragal faz parte da cidade de Almada, mas antigamente era uma aldeia com quintas grandes [...]

Panorâmica do Pragal (foto montagem), Augusto de Jesus Fernandes, 1963.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Quando fomos à Peregrinação do Pragal passámos por muitas ruas e casas antigas. Nesta aventura ficámos a conhecer a história do Pragal contada pela arqueóloga Elisabete e alguns alunos da turma foram os pilotos dos percursos [...] (1)


(1) Turma Curiosa, Peregrinação no Pragal

sábado, 19 de março de 2016

Da Ramalhinha aos Crastos

A Ramalha situa-se na margem esquerda de uma antiga linha de água, sendo Miocénicos (22.5 milhões de anos a 5 milhões de anos) os terrenos do planalto e Plio-Plistocénicos (5 milhões de anos a 10 mil anos) os da zona mais próxima da linha de água.

Lugar da Ramalha, restauro da capela e edifício (infantário e creche), 2007.
Imagem: Guias de Arquitectura

As diversas estações arqueológicas existentes na zona, localizam-se desde o alto do planalto até à zona de planície e foram identificadas quer através de prospecção sistemática (que vimos fazendo de alguns anos a esta parte), quer pela observação de taludes junto a velhos caminhos ou novas vias, remoção de terrenos para obras diversas, etc.

As construções na Ramalha.
Imagem: Revista Al-Madan, n.° 3, 1984

Em 1976 Carlos Tavares da Silva escavou, de colaboração com o Centro de Arqueologia de Almada e o Museu de Arqueologia e Etnografia da Assembleia Distrital de Setúbal, a estação Neolítica da Ramalha, trabalho que, contrariamente à vontade de todos, não foi ainda possível tornar público.

Aspecto da intervenção arqueológica na estação neolítica na Ramalha, 1976.
Imagem: Revista Al-Madan, n.° 3, 1984

Já em 1983, a estação foi soterrada por algumas toneladas de terra sobre as quais se construiu um parque de estacionamento.

Pela mesma data (1976) e sob a orientação de elementos do Grupo para o Estudo do Paleolitico Portugués (GEPP). realizou-se uma sondagem em área onde se tinham recolhido à superfície alguns instrumentos líticos. 

Porém, as expectativas em relação a esta sondagem, cujos resultados publicaremos brevemente, foram também elas goradas pelas terraplanagens levadas a cabo em 1984 — a estação desapareceu na totalidade. 

Mas outros vestígios foi possível detectar. Assim, da Idade do Bronze encontraram-se alguns materiais num talude à beira da estrada, no local mais elevado do planalto. São na maioria fragmentos de cerâmica de formas carenadas e de grandes vasilhas de armazenamento. 

No mesmo talude eram visíveis restos de estruturas de habitat (fundo de cabana). O talude tem vindo a desmoronar-se por acção das intempéries. Do período Romano foram recolhidos materiais em dois taludes situados a meia encosta — sigillata cinzenta estampada, opus signinum, cerâmica comum, etc. 

Na área atrás referida mas num outro talude. detectaram-se vestígios de construções, inúmeros fragmentos de cerâmica pintada e restos alimentares (cascas de bivalves e ossos de diversos animais), espólio que pensamos poder atribuir-se ao período de ocupação Muçulmana. 

Também os restos de algumas edificações da Quinta dos Castros poderão ter pertencido à antiga ermida de Sto. Antào (Séc. XIV) de que resta hoje, na capela de S. João, uma lápide, dedicatória de um nobre e sua mulher. 

Lápide na parede exterior da capela:
À honra de Deus e Santo Antão,
este Oratório mandou fazer Fernão Gomes
e Mexia Vasques Farinha, no ano de 1456

Imagem: Revista Al-Madan, n.° 3, 1984

Em face do exposto e porque passou já à fase de execução o plano de urbanização da Ramalha. parecem-nos pertinentes algumas considerações. A Ramalha foi até há pouco tempo uma área suburbana e agrícola, uma comunidade cheia de tradições, perfeitamente distinta de outros núcleos populacionais do Concelho.

Aí poderíamos encontrar, como em nenhum outro local, uma forte consciência do passado, uma consciência orgulhosa da ancestralidade da terra e das suas gentes; um passado em que a lenda e a História se confundem na memória colectiva, materializadas em tradições seculares de que são exemplo as festividades de S. João Batista, misto de paganismo e religiosidade.

Uma tarde na Ramalha.
Imagem: José Pereira

Hoje, porém, se a alguns interessa saber "quem fomos", destrinçar a lenda da História, conhecer essas "raízes" de que justamente se orgulham as populações, enfim enriquecer a nossa vivência pelo contacto com a experiência de outros homens que aqui viveram, a outros, pelo contrário, não só tal preocupação é alheia como parecem apostados na eliminação pura e simples de todos os vestígios materiais desse nosso passado, comprometendo assim irremediavelmente o seu conhecimento.

Discursos de gente importante (vinda do "senso comum" tal opinião seria compreensível), veiculam a ideia de que do Passado nada de importante (leia-se "monumental") sobreviveu em Almada [...]

No caso da Ramalha, o projecto de urbanização implica a sua destruição histórica. paisagística e ecológica! Mas este não é um caso isolado da alteração de fachadas pela utilização de materiais inadequados. corno o aluminio, à destruição de estações arqueológicas, vai acontecendo de tudo um pouco [...]

Vestígios de balneário romano na antiga Quinta da Ramalha, 1947.
Imagem: Fundação Mário Soares

A situação criada na Ramalha é já irreversível. Julgamo-nos. no entanto. na obrigação de. pelo menos, recuperar os vestígios do passado desta terra cada vez mais "sem rosto". Por esse motivo solicitámos uma reunião com responsáveis camarários e autorização de escavação ao organismo competente (IPPC). Aguardamos as respostas [...] (1)

Capela da Ramalha, década de 1970.
Imagem: almaDalmada

--ooOoo--

No dia seguinte celebrava-se a festa de S. João na capella da quinta da Ramalha, havia procissão, e depois saía a celebrada dança dos pausinhos, assim chamada por levarem os pares uns bordões pintados de vivas cores, com que faziam muitas sortes e passos agradaveis; e quem diante d'ella ia e a dirigia era Pedro Marques, de casaca de esteira, caraça preta e grande chapéo armado, montado n'um jumento, e com o rosto voltado para a cauda do animal [paródia ao castigo aplicado ao marido submisso] (ler mais...) (2)

A jornada de um heroi moderno para a ilha de Elba,, gravura de 1814.
Imagem: British Library


(1) Em Almada cf. Ana Luisa Duarte, Revista Al-Madan nº 3, Almada, Centro de Arqueologia de Almada, maio/novembro de 1984
(2)  António Avelino Amaro da Silva, O Caramujo, romance histórico original, Lisboa, Typographia Universal, 1863

Informação relacionada:
Oratório de Santo Antão da Ramalha

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Lisboa vista do Pragal, na Outra-Banda

Aportando, na Outra-banda, á praia chamada forno do tijolo, por n'ella haver uma fabrica d'este producto, e ganhando o cume da montanha que a domina quasi perpendicularmente, acha-se o viajante n'um logar, conhecido pelo nome de Pragal, d'onde descobre o mais rico e variado panorama.

Lisboa, Vista panorâmica desde Pragal de Cima, ed. Passaporte, 123.
Imagem: Delcampe

Não falta que ver e admirar d'ahi.

Obras da natureza e dos homens, isto é, paizagens amenas e agrestes , serras, planícies, mar, vasto ceo, cidade e monumentos historicos; tudo em larga cópia se lhe desenrola aos olhos maravilhados.

Lissabon, vista tomada de Palença, 1830
Imagem: Mundo do Livro, (Mundo do Livro no Facebook)

Pela esquerda, a barra e o Oceano perdendo-se no infinito dos ecos; á direita, Seixal, Barreiro, e Alcochete, transpirando vagarmente por entre os vapores de longínquos horisontes; a seus pés, a vastidão do Tejo, de cuja superficie, banhada pelos raios de um sol sem rival, parece sair e mover-se luz; na frente, surgindo da aguas prateadas do tranquillo rio, a vistosa, a pittoresca, a invejada Lisboa;

Vista da parte ocidental de Lisboa, Alexandre Jean Noel, início da década de 1790
Imagem: FRESS

ao lado d'esta, desdobrando-se até á barra, uma cumiada de montanhas, onde, por entre o matiz dos campos, se ve o colossal palacio d'Ajuda,

Vista do Tejo e do palácio da Ajuda, Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

o famoso templo dos Jeronimos e a elegante torre de Belem, fallando-nos de riquezas e glorias passadas; para além de tudo , e tudo dominando, a magestosa Cintra, erguendo-se sobre as nuvens, indecisa e vaporosa, como para nos accelerar a cobiça d 'irmos de perto contemplar a maravilha do seu aspecto.

Lisboa, Vista panorâmica de Belém desde Pragal, ed. Passaporte, 124.

Eis a fecunda perspectiva, que do Pragal a vista abraça, e de que a gravura representa uma parte, Lisboa.

Lisboa vista do Pragal, na Outra-Banda, gravura, Nogueira da Silva, 1858.
Imagem: Hemeroteca Digital

Quando o leitor estiver triste aconselhàmol-o a que vá para o Pragal, e se sente no mesmo logar d'onde tirámos o desenho, e cremos que, ao desafogar os olhos e espraiar os sentidos por tão vasto e ma rico panorama, o coração se lhe alliviará. (1)

A ponte sem tabuleiro, c. 1965.
Imagem: Estação Chronográphica


(1) Silva, Nogueira da, Archivo Pittoresco, 2.° Anno, Julho, 1858, págs 4 - 5.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Almaraz

Nome com que se designa a orla esquerda do rio Tejo, em frente a Lisboa. (1)

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Reflectindo-se nas aguas tranquillas do mais vasto e magestoso porto do mundo, banhada pela mansa corrente do seu aurífero Tejo, reclinando-se docemente sobre terrenos de leve pendor, onde aqui e ali brotam macissos de virente vegetação, sob um ceu de pureza inegualavel, e com um clima ameno e vivificante, a cidade de Lisboa revê-se nos terrenos fronteiros de alem-Tejo, semeados de povoações, de fabricas, de matas e de vinhedos, e que descem até a margem do rio por vertentes rápidas, ou por escarpas abruptas.

Baixa e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Pela base d'esses terrenos e banhadas pelas aguas do Tejo estendem-se as edificações, quasi ininterrompidamente, formando grupos, ou povoações, que tomam os nomes de Cacilhas, Ginjal, Arrábida, S. Lourenço, Affonsina [sic] e Banatica, até a Trafaria.

Baixa e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em cima, Almada, a velha Cetobrica dos romanos, com as muralhas do seu castello e as torres das suas igrejas recorta pittorescamente o horizonte, reflectindo os raios afogueados do sol poente nas vidraças das casas, como se estivessem illuminadas em festa, ou ardendo em chammas [...]

Regata dos barcos da Channel Fleet em Lisboa, 1869.
Imagem: amazon

Na margem do S. ha ainda os seguintes pontos, que servem aos navegantes para a sua derrota:

Plano do porto de Lisboa e das costas adjacentes (detalhe), 1804.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Torrão — pequeno logar que fica mais a W. da margem S. do Tejo.

Calhaus do mar — grupo de pedras que existe próximo do areal da Trafaria.

Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, A. F. Lopes e Rodrigues Thomaz, gravura, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Trafaria — povoação das mais importantes do S. do Tejo, com grande accumulação de casas de pescadores, facilmente reconhecível.

Trafaria, c. 1900.
Imagem: Delcampe

Lazareto — edifício de grandes dimensões assente no cimo da montanha e descendo pela vertente, com diversos corpos em amphitheatro.

Torre velha — fronteira á torre de Belém, e a W. do Porto Brandão — logar bem reconhecido, pela grande quantidade de casas que fícam adjacentes áquella margem.

Banatica — logar que bem se distingue pelas pedreiras em exploração, cortando o terreno em talude muito áspero, e ao qual ficam próximas as marcas do limite W. da milha maritima.

Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, A. F. Lopes e Rodrigues Thomaz, gravura, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Alfanzina — pequeno porto a montante da Banatica.

Porto de S. Lourenço — fica ao N. do logar denominado Palença, e onde está installada uma grande fabrica de cerâmica.

Portinho da Arrábida — a nascente do qual, e na quebrada da montanha, ficam as duas marcas de alvenaria, que dão o limite E. da milha maritima. E com estas marcas e com as da Banatica que se vão acertar os relógios e experimentar o andamento dos navios. A milha official é dada pelo enfiamento dos dois grupos de marcas.

Torre de S. Paulo — na villa de Almada, a W. da povoação e em ponto elevado, uma das marcas mais importantes da margem sul do Tejo.

Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, A. F. Lopes e Rodrigues Thomaz, gravura, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Pontal de Cacilhas — ponta SE. da povoação d'este nome, e limite N. da enseada chamada da Cova da Piedade. (2)

Plano Hidrográfico do Porto de Lisboa, A. F. Lopes e Rodrigues Thomaz, gravura, 1932.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

[...] arribas da margem sul do Tejo desde Cacilhas à Trafaria. A denominação de Almaraz foi corrente entre a gente de rio e mar até principios do nosso século [XX] mas hoje restringe-se praticamente à quinta desse nome em Cacilhas. (3)


(1) Dicionário Priberam da Língua Portugues
(2) Loureiro, Adolfo, Os portos maritimos de Portugal e ilhas adjacentes, Vol III parte 1, Lisboa, Imprensa Nacional, 1906
(3) Pereira de Sousa, R. H., Almada, Toponímia e História, Almada, Biblioteca Municipal, Câmara Municipal de Almada, 2003, 259 págs.

Artigo relacionado:
H. Parry & Son, estaleiro no Ginjal


Informação relacionada:
Jornal Público, edição de 2 de julho de 2006

Lamas, Pedro Calé da Cunha, Os taludes da margem sul do Tejo - evolução geomorfológica e mecanismos de rotura, Lisboa, Universidade Nova, 1998, 21.71 MB.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Bens em Caramujo e Pragal

Na tentativa de identificar e fazer corresponder aos personagens do romance histórico, O Caramujo, de António Avelino Amaro da Silva, pessoas do tempo da acção do mesmo, vim a encontrar no blogue abaixo mencionado alguns exertos que transcrevo:

Vista de Cacilhas e de S. Julião, Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Em 18 de Junho de 1790 [António Pereira Rangel (1749 - 1820)] fez um contrato de Emprazamento em três vidas, de um Prazo sito no local do Caramujo, na actual Cova da Piedade, pelo qual pagava anualmente "… de uma só vez em dias de natal…" a renda de 32.453 réis.

Em 27 de Janeiro de 1800, sendo referido ser homem de negócios, e morar no lugar do Caramujo, comprou um prazo composto por "… uma vinha com seu bocado de terra e uma terra de semear pão…" sito no lugar do Pragal, pela quantia de 200$000 réis.

A topographical chart of the entrance of the river Tagus (detalhe), W. Chapman, 1806.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em 9 de Janeiro de 1801 comprou "… uma vinha com seu bocado de terra que tem suas oliveiras, sita defronte da quinta chamada Olho de Vidro…", pela quantia de 600$000 réis.

Almada, Largo do Pragal, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Em 27 de Janeiro de 1801 comprou "… humas terras com suas Cazas térreas e hum moinho de vento arruinado no dito logar do Pragal…", pela quantia de 600$000 réis.

Em 16 de Junho de 1801 comprou "… huma terra no citio do Juncal distrito do lugar do Pragal…", pela quantia de 100$000 réis.

Almada, Pragal, Vista Parcial, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Atente-se agora ao que era a paisagem rural e urbana de Almada no século XIX:

"… desde a Idade Média diversas culturas eram característica da paisagem rural, cereais, pinheiro, vinha, figueira... no litoral, as praias e os pequenos portos de pesca artesanal e intermediários na saída de produtos da região.

É sobretudo a via fluvial do Tejo (e afluentes) que se reveste de grande importância, pois por ela iriam ter a Lisboa diversos produtos, de princípio excedentes da produção local, depois até oriundos do Alentejo, Beira e parte da Estremadura, destinados à alimentação e exportação em função do grande mercado de Lisboa.

A View taken from LISBON of the Point of Cassilhas, the English Hospital, & the Convent of Almada * : On the opposite side of the Tagus _ the original drawing by Noel in the possession of Gerard de Visme Esq.r / Drawn by Noel ; Engraved by Wells.
* (n. do e.) Embaixo à esquerda, uma saloia em traje típico, vasquinha de lã e carapuço pontiagudo, numa embarcação de transporte fluvial.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal



No interior, lugarejos ou povoações, casais isolados e quintas senhoriais, courelas e azinhagas. A área rural era mais importante do que a urbana... a Mutela não passava de um pequeno grupo de casas;

Fountain at village outside Lisbon (Mutela?), 1906.
Imagem: Ecomuseu Municipal do Seixal

o Caramujo, uma restinga de areia; o lugarejo da Piedade algumas quantas casas junto à Igreja... A par do desenvolvimento do comércio de vinho com o Brasil e África assiste-se a uma notável azáfama de tanoeiros. Mas os armazéns de vinhos, vinagres e azeites mantinham-se ligados ao comércio e actividades agrícolas da região..."

Tanoaria Francisco da Cerca, corredor do Ginjal, 1900.
Imagem:   Correia, Romeu, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982, 174 págs.

[...] D. Luiza do Nascimento [esposa de António Pereira Rangel, em 1812,], vendeu pela quantia de 1.600$000 uma vinha e terra com árvores de fruta, com todos os seus pertences, entradas, saídas, serventias e logradouros, situada no sítio da Carvoeira, no limite da Vila de Almada.
Em 30 de Junho de 1654, o Padre António Soares de Albergaria vende a sua quinta da Alagoa, junto a Almada, a João Bornete (comerciante, morador na cidade de Lisboa), a qual constava então de:

"suas casas, e posso de água com sua nora, e mais com vinhas na dita quinta e outras fora da dita quinta, a saber a vinha do Regil e outra sita na Carvoeira, e outra que chamão as Figueiras e outra quando vai para Quebra Joelho".

A venda foi feita com licença dos Priores das Igrejas de Almada em Cabido dada em 8.7.1654, pois a quinta era em parte foreira às referidas Igrejas (Cfr. DGARQ-ADS, Cota 420: Livro do Tombo das Igrejas de Santa Maria do Castelo e São Tiago de Almada, f. 5V).(1)

in História de Almada

Romeira, Lavadeiras no Rio das Rãs, início do século XX
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade

"João de Almeida, cirurgião aprovado neste Reino e seus domínios, residente nesta Villa de Almada = Certifico que no lugar do Caramujo limite desta villa he morador o Sr. António Pereira Rangel, cavalleiro profeço na Ordem de Cristo o qual padece a muitos annos molestia de gota e presentemente se acha com dores excessivas nos ortos inferiores e para poder dar alguns paços lhe he preciso andar emcostado a hum pao, assim o considero incapaz de poder sahir da estremidade da sua casa e por ser verdade todo o referido e esta me ser pedida o passei que juro aos Santos Evangelhos.
Caramujo, 26 de Agosto de 1813"

[...] aos 22 dias do mês de Fevereiro de 1820 [António Pereira Rangel] faleceu na sua casa no Caramujo. (1)


(1) Família Escócia Sandoval

Artigo relacionado:
O Caramujo, romance histórico