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quarta-feira, 6 de abril de 2016

Luctas caseiras

Passos Manuel, durante os trabalhos das Cortes de 1821 reunidas no Palácio das Necessidades, que aprovariam a primeira Constituição Portuguesa. Pintura de Veloso Salgado, que decora o interior da Sala das Sessões do Parlamento.
Imagem: Assembleia da República

ADVERTÊNCIA PRELIMINAR

Devia comprehender um volume o trabalho de investigação historica a que demos o titulo de Luctas caseiras. Os materiaes, porém, reunidos sobre a epocha que nos propozemos historiar são tantos e tão valiosos, que impossivel foi incluir n'elle só a narração dos acontecimentos politicos de que Portugal foi testemunha de 1834 a 1851 [...]

Lisboa, Praça do Rossio no dia 1 de outubro de 1820. Entrada solene da Junta Provisória do Porto.
Imagem: Histórias com História

INDICE ANALYTICO 

Introducção (pag. ix a clxxvi)

Revolução de 21 de agosto de 1820 — Installa-se no Porto uma junta provisória — Primeiras desintelligencias entre os seus membros — Drago Cabreira e Silva Carvalho — Fustão em Alcobaça da junta do Porto com a de Lisboa — Partido militar — Suas aspirações e fins — Projectos de revolução — Acontecimentos do dia 11 de novembro — Proclamação de Gaspar Teixeira e ordem do dia de Pereira Sampaio — Alliança momentânea de ultra-liberaes e absolutistas — O partido militar triumphante, mas não vencedor — O governo cede ás suas imposições, mas a população de Lisboa protesta, e tudo volta ao estado anterior — Radica-se a divergência entre os homens da revolução — Eleições — Memoria sobre a abstenção das chamadas classes privilegiadas — Congresso constituinte — Nomeação da regência — Opiniões politicas que predominavam no congresso — Muitos dos que alli se apresentaram como liberaes exaltados tornaram-se depois em ullra-conservadores — Impressão que na corte do Rio de Janeiro produz a noticia da revolução do Porto — Conselhos sensatos do conde de Palmella a D. João VI, que só uma revolução no Brazil obriga a acceitar a nova ordem de cousas eslabelecida em Portugal — Regresso de D. João VI á Europa — É vedado por ordem do congresso o desembarque em Lisboa a algumas das pessoas que o acompanhavam — Jura o rei perante o congresso as bases da nova constituição — Descontentamento que produz no congresso o discurso lido por essa occasião em nome do mesmo rei — Novo ministério com que o congresso se declara logo em opposição, que dias depois provoca uma crise, e em seguida a demissão de todos os ministros — Ultima-se a discussão da constituição, a que a rainha se recusa a prestar juramento — Novo rumo politico que começa a tomar a maioria do congresso — O procedimento da rainha em se recusar a jurar a constituição é o signal do alarme para os inimigos d'esta saírem a campo — Procede-se á eleição dos deputados para as côrtes ordinárias, triumphando em quasi toda a parle o partido liberal — Aberta a camara fere-se logo batalha entre liberaes e conservadores — Pronuncios de revolução absolutista, a que não é estranha a rainha — Medidas de repressão tomadas pelo governo — Fins a que visava a revolução — A camara ao lado do governo — Revolução absolutista em Traz os Montes abortada — O infante D. Miguel sáe de Lisboa para Villa Franca com uma parte da guarnição de Lisboa — Motivo d'esta jornada — Augmenta o numero dos parciaes do infante, cujos desígnios de derrubar a constituição são conhecidos de todos — Plano occulto — O governo leva o rei a condenmar o procedimento do infante — Tibieza da maioria dos deputados e demissão do ministério — D. João VI adhere tambern á revolução, e segue do mesmo modo para Villa Franca — Protesto da camara dos deputados — D. Miguel nomeado commandante em chefe do exercito — Ministério Palmella-Subserra — Regresso do rei a Lisboa, e politica adoptada pelo novo ministério — Projectos mallogrados de nova revolução absolutista — Assassinato do marquez de Loulé — Successos do dia 30 de abril — D. João VI passa para bordo de uma nau ingleza de onde providenceia sobre vários assumptos de politica interna, e ordena a saida do infante D. Miguel para França — Diligencias infructiferas para que a rainha D. Carlota Joaquina saia de Portugal — O partido miguelista continua a conspirar — Receios infundados que ao governo infunde ao partido liberal — Falta de união entre os membros do governo — Approximação entre liberaes e moderados — Rasões que teve o governo para afastar da successão da coroa o infante D. Miguel — Queda do ministério PalmelIa-Subserra — Reconhecimento da independência do Brazil, e declaração de que o herdeiro da coroa era o príncipe D. Pedro de Alcântara — Conselho de regência nomeado por D. João VI, e morte do mesmo soberano — Partidos políticos existentes ao tempo em Portugal — Aclamação do novo rei — Outorga da Carla constitucional, e nomeação de pares — Abdicação que da coroa de Portugal faz D. Pedro — Esforços dos absolutistas para que D. Miguel regresse a Portugal, e reconhecimento que o mesmo faz da soberania do irmão — Má impressão que no paiz e fora d'elle produz a noticia da outorga da Carta — Indecisão do governo em dar cumprimento aos decretos de D. Pedro — Saldanha, obrigando o governo a fazer jurar a Carta, obtém um logar no ministério e a chefia do partido liberal — Absolutistas em armas — Saldanha, que marchara contra os revoltosos, é afastado pela doença da gerência da pasta da guerra — Eleição de deputados e abertura do parlamento — Sublevação absolutista em Traz os Montes — O governo reclama o auxilio de tropas inglezas — Opposição que encontram nas duas camarás alguns dos seus actos — Os absolutistas são batidos — Recomposição ministerial — A opposição ao governo do parlamento augmenta na ses- são ordinária — Desentelligeneias graves entre a camara electiva e a dos pares — Proposta apresentada n'aquella para se pedir a demissão do ministério — Decretos e ordens de D. Pedro que não são cumpridas — Decrela-se uma amnistia — Saldanha reassume a sua pasta e promove a queda do ministério — Novos ministros— D. Miguel chamado ao Rio de Janeiro por D. Pedro recusa-se a partir — Saldanha demitte-se de ministro da guerra — Manifestação de sympathia que lhe faz o povo de Lisboa, e que dias depois se repete no Porto — Alteração no ministério — Medidas de repressão tomadas pelo governo — D. Pedro, approvando o procedimento de Saldanha, faz com que a regente demitta dois dos ministros — D. Miguel é nomeado por D.Pedro seu logar-tenente em Portugal — Descontentamento que este facto produz no partido liberal, e enthusiasmo que disperta entre os absolutistas — D. Miguel saindo de Vienna para Portugal segue por França e Inglaterra — Falta de interesse que offerecem as sessões parlamentares — Desembarque em Lisboa de D. Miguel e seu juramento á Carta — Nomeia novos ministros e dissolve a camará dos deputados — Representações que lhe são dirigidas para que se faça aclamar rei — São convocados os antigos três estados — Muitos liberaes emigram, para Inglaterra — O corpo diplomático pede os seus passaportes — O partido liberal appella para a revolução, onde se levanta o primeiro grito, e corpos de linha que adheriram — Junta provisória organisada no Porto — Apreciação que da mesma fazem dois escriptores contemporâneos — Forças liberaes e absolutistas — D. Miguel procura debellar a revolta — Primeiros recontros — Delegação da junta do Porto em Coimbra — Retirada das forças constitucionaes — Chegada de Inglaterra ao Porto de differeiítes generaes do partido liberal — Falta de união entre os recem chegados — Palmella commandante em chefe do exercito constitucional — Desanimo no campo liberal — Saldanha, que acceitára substituir Palmella no commando em chefe, exonera-se do mesmo commando — Retirada para Hespanha do exercito constitucional — O partido absolutista abusando da sua vicloria — O marquez de Palmella chefe da emigração — Saldanhistas e palmellistas — Deposito de Plymouth — Revolução na Madeira — Soccorros enviados para ali por Palmella — carta que este dirige a D. Pedro, defendendo-se das accusações que lhe faziam os seus inimigos — Este documento e a defeza que depois publicaram os membros da junta do Porto provoca protestos vehementes por parte de Saldanha e de seus partidários — Saldanha chefe da opposição a Palmella — Dissolve-se o deposito de Plymouth — Queixas infundadas que isto provoca por parte dos emigrados — Palmella procura mandar soccorros para a Terceira — Expedição para a mesma ilha sob o commando de Saldanha — O governo da Terceira é confiado por Palmella ao conde de Villa Flor — Regência nomeada por D. Pedro — Falta de confiança que a mesma inspira — Carta de Silva Carvalho sobre o assumpto — Aggravam-se as desintelligencias ha muito existentes entre Saldaidia e Palmella — Inslalla-se a regência na Terceira — Tentativa de revolta contra ella — Chegada de D. Pedro á Europa, seu pensamento politico com relação aos negócios de Portugal — Principia a formar-se o, depois, chamado partido de D. Pedro — Rodrigo Pinto Pizarro — Da expedição organisada para vir sobre Portugal é excluído Saldanha c outros officiaes seus partidários — No Porto — Esforços empregados pelos saldanhistas para avinda do seu chefe — Mousinho da Silveira deixa a pasta da fazenda, em que é substituido por Silva Carvalho — José da Silva Carvalho c o seu tempo (nota) — Difficuldades que levanta aquella crise ministerial — Vinda de Saldanha, e incremento que com este fado toma o seu partido — O governo principia a receiar dos triumphos militares de Saldanha — Palmella, que estava no desagrado de D. Pedro, é indigitado pelos saldanhistas para chefe do governo — Tomada Lisboa muda-se para ali o theatro da lucta politica — D. Pedro chefe de partido  — Crise ministerial — Cartas de alguns membios da opposição a D. Pedro — Novo partido opposicionisla — Uma medida violenta do governo contra um membro da opposição ia provocando uma revolução — D. Pedro implora a neutralidade de Saldanha — O partido miguelista agonisante — Conselho de generaes em Évora sob a presidência de D. Miguel — O general miguelista Lemos propõe uma suspensão de armas, que é acceita — Concessão de Evora Monte, que não agrada nem aos liberaes, nem aos miguelistas — Tumultos no theatro de S. Carlos — Tentativa de assassinato contra D. Miguel — Embarque do mesmo em Sines — Protesto que publica á sua chegada a Génova — Victorias successivas alcançadas pela opposição no Porto — A camara de Lisboa manifesta-se abertamente contra a marcha politica do governo — A opposição augmenta de dia para dia — Trabalhos eleitoraes — Prisão do coronel Pizarro — Candidatura do mesmo Pizarro — Viagem do regente ao Porto — A opposição triumpha ali na eleição de deputados — Abertas as camarás principia logo uma lucta formidável entre a opposição e o governo — Discute-se e approva-se uma proposta para a continuação da regência — Pares do governo e pares da opposição — Projecto de lei para a rainha poder casar com príncipe estrangeiro — Propostas contra D. Miguel.

S.M.I. o Senhor D. Pedro restituindo sua Augusta Filha a Senhora
D. Maria Segunda e a Carta Constitucional aos Portugueses,
Nicolas-Eustache Maurin,1832.
Imagem: Wikipédia

CAPITULO I

1834-1835 (pag 1 a 179)

D. Pedro communica ás camarás que não pôde continuar a gerir os negócios públicos — O que motivou esta resolução — Projecto de uma regência— A rainha é declarada maior — Opposição que o projecto encontra na camara dos pares — Ultimo ministério de D. Pedro — Juramento da rainha — Como começa a exercer a soberania — Quem organisou o novo ministério — Morte de D. Pedro — Os novos ministros — Apresentação nas camaras do gabinete Palmella — Enterro do imperador — Projecto de responsabilidade ministerial apresentado pelo governo — Accusação da commissão de infracções sobre a nomeação de um presidente de conselho — Forças do governo e da opposição na camará electiva — Violência que adquirem os ataques da opposição — Iniciam-se os accordos — D. Miguel é banido para sempre de Portugal — Politica ministerial — A camará dos pares e a lei de liberdade de imprensa — O governo communica ás camaras que a rainha vae desposar o príncipe Augusto de Leuehtenberg — Rasões que houve para a escolha do noivo — Difficuldades por parte d'este em acceitar a mão da rainha — Condições inacceitaveis — Segredo que foi mister guardar sobre as negociações — A escolha do príncipe Augusto Leuehtenberg é bem recebida por todo o partido liberal — Dotação do príncipe e enxoval da rainha — Termina a sessão extraordinária do parlamento — Discurso de encerramento lido pela rainha — Reahre-se o parlamento, que logo é encerrado — Tentativas para attrahir Saldanha ao partido governamental — Reabertas novamente as camaras, a opposição inicia uma vigorosíssima campanha contra o governo — Mensagem de um grande numero de deputados pedindo a demissão do ministério — Saldanha abandona os seus antigos amigos e torna-se ministerial — Chegada do príncipe Augusto, acção nobilíssima destinada a commemorar a sua vinda, ratificação do seu casamento, discurso que pronuncia na camara dos pares por occasião de tomar ali assento — O príncipe é nomeado commandante em chefe do exercito — Tal nomeação levanta grande opposição — Doença e morte do príncipe — Tumultos que a noticia d'esta occasiona — Mensagem da camara dos deputados pedindo á rainha para que contráiha segundas núpcias — Resposta da rainha — Termina a sessão ordinária — Faz-se a historia d'ella — Carta de José Passos — O presidente do conselho e o ministro da justiça demittem-se — Dois ministros novos — O conde de Linhares presidente do conselho — Difficuldade em encontrar noivo para a rainha — Demissão do ministério — Golpe de vista sobre a sua administração — Plano financeiro do antigo ministro da fazenda Silva Carvalho — Indemnisações — A opposição não conquista o poder, é este que se lhe entrega — Ministério de conciliação presidido por Saldanha — Os novos ministros e o seu passado politico — Applauso geral e unanime com que é recebido — Programma ministerial apresentado por cada um dos novos ministros — Annuncios de tempestade — Alterações na atmosphera politica annunciadas diariamente pelo "Nacional" — Crise ministerial que se avizinha — A rainha procura afastal-a nobilissimamente — O ministro da fazenda Campos pede a demissão, que lhe é acceita — Manifesta-se abertamente a crise ministerial, que influencias palacianas procuram resolver em proveito próprio — É julgada indispensável a entrada de Silva Carvalho para o ministerio — Rodrigo da Fonseca Magalhães ministro do reino — A antiga opposição de novo em campo — Tratado de 1810 — O marquez de Loulé é subslituido na gerência da pasta da marinha por Jervis de Athouguia — O conde de Lavradio encontra emfim um noivo para a rainha — O principe de Carignan tão depressa escolhido como rejeitado — Assenta-se a final na escolha do principe Fernando Coburgo para marido da rainha — Tratado com a Hespanha sobre a livre navegação do Douro — Procedimento inqualificável de Saldanha para com Sá da Bandeira — Apologia que este faz dos seus serviços, e põe a claro alguns factos pouco honrosos da vida publica de Saldanha — O governo nomeia novos pares, e manda proceder á eleição supplementar do deputados — A campanha eleitoral — A Hespanha reclama o auxilio de Portugal para combater os carlistas em armas — Organisa-se uma divisão auxiliar para este fim — Instrucções dadas ao respectivo commandante — Apreciação injusta que d'ellas faz a opposicão — Projecto para a venda em globo das lezírias do Tejo e Sado — Protestos que levanta — Reforma de instrucção publica — Applausos e protestos com que é recebida — Crise ministerial provocada pela rainha — Esta acceita a demissão do ministério, e logo depois recusa-lh'a — Como se suicida um governo — Intervenção dos commandantes de alguns corpos nos trabalhos eleitoraes — Censura que aos mesmos inflige o commandante em chefe do exercito — Descontentamento que no exercito produz esta providencia — Officiaes desligados dos respectivos commandos — Manifestação militar contra o ministério — Em resultado d'ella e do voto do conselho d'estado, ouvido sobre o assumpto, o governo demitte-se — Novo ministério sob a presidência de José Jorge Loureiro — Os novos ministros — Economias — É revogada a reforma de instrucção publica do ultimo ministério — O governo triumpha nas eleições supplementares para deputados — forças do governo e da opposicão na camará electiva — Extincção do commando em chefe do exercito — Curto alcance das medidas ministeriaes — Os jornaes governamentaes são os primeiros a confessal-o — Estado anarchico em que se encontra o paiz — Realisa-se o segundo casamento da rainha — Discurso lido pela rainha na abertura do parlamento — O governo consegue ter maioria na camará electiva — Novo projecto para a venda das Lezírias — Estado precário do thesouro — Silva Carvalho defende brilhantemente a sua administração — É votado o projecto relativo ás lezírias — O ministro da fazenda, querendo engrandecer os seus méritos de estadista, exagera o mau estado da fazenda publica — Venda dos bens nacionaes a dinheiro de contado — Nas camaras a opposicão ao ministério cresce de dia para dia — Prorogação do tratado de 1810 — Nomeação do principe D. Fernando para commandante em chefe do exercito — O governo, ao ver-se fortemente atacado no parlamento, adia as camarás — Operação financeira mal recebida e peior succedida — Nota curiosa sobre o assumpto, escripta por Silva Carvalho — Demissão do ministro da fazenda — O ministério agonisa — Frieza com que é recebido o príncipe D. Fernando na sua chegada a Lisboa — O governo, encerrando repentinamente o parlamento, apressa a sua queda — Já demissionário nomeia o principe D. Fernando commandante em chefe do exercito — O marquez de Valença é encarregado de organisar ministério, mas depressa resigna a rnissão, que é confiada a Agostinho José Freire.

Duque de Saldanha (1790-1876), c. 1870.
Imagem: Wikipédia


CAPITULO II

A revolução de setembro (pag. 181 a 240)

Novo ministério presidido pelo duque da Terceira — Manuel Gonçalves de Miranda — Silva Carvalho e a situação do thesouro — O principe D. Fernando assume o commando em chefe do exercito — Protesto da opposição — Club dos Camillos [Sociedade Patriótica Lisbonense] — Convocação extraordinária das camaras — O governo fixa previamente o que se deve discutir — Aberto o parlamento, o ministério soffre logo um cheque — Dissolução da camara electiva — Tumultos no Porto — Visita que a esta cidade faz o principe D. Fernando — Incêndio do thesouro — O governo triumpha nas eleições — Deputados eleitos —Annuncios de revolução — O governo pensa em tomar medidas repressivas — Manifestação popular em Lisboa á chegada dos deputados opposicionistas — Soares Caldeira, França e Leonel Tavares heroes do dia — A guarda nacional em armas proclama a constituição de 1822 — O governo em vão procura suffocar a revolta nascente — Fraternisação da tropa de linha com a guarda nacional — A revolução triumphante — Mensagem dos revoltosos á rainha — O governo demitte-se — O conde de Lumiares e o visconde de Sá da Bandeira são encarregados de formar novo governo — Recusa do visconde de Sá — Instancias do principe D. Fernando e do corpo diplomático para que não mantenha esta resolução — Condições impostas e acceitas — Novo ministério —Traços biographicos de cada um dos seus membros — A constituição de 1822 restabelecida — Juramento á nova constituição — Uma revolução em Hespanha foi uma das causas principaes da revolução de setembro — Antecedentes curiosos — Como se consolida a revolução — Situação financeira e economias — Dictadura — Começa a manifestar-se a desunião entre os vencedores — Resistência pacifica á nova ordem de cousas — Muitos funccionarios públi- cos demittem-se para não jurarem a nova constituição — Protesto dos pares do reino contra a nova constituição — Errada politica do partido cartista — A rainha em desconfiança permanente com o ministério — Vieira de Castro tenta em vão fazer desapparecer este preconceito — O principe D. Fernando exonerado do commando em chefe do exercito — Os mareehaes Terceira e Saldanha, nem juram a nova constiluição, nem são demittidos — Febre demissionaria — Tentativas da Bélgica, de accordo cora o gabinete inglez, para intervir nos negócios internos de Portugal — O paço favorecendo o restabelecimento da Carta — Annuncios de um golpe de estado.

Columbine e diversos navios experimentais na barra de Lisboa, John Christian Schetky, 1831.
Imagem: Royal Museums Greenwich

CAPITULO III

A Belemzada (pag. 241 a 358)

Preparativos de desembarqae da esquadra ingleza, surta no Tejo, na noite de 2 de novembro de 1836 — Protestos de Sá da Bandeira de fidelidade á monarchia perante o ministro inglez, e de Passos Manuel perante a rainha — O ministro da justiça Vieira de Castro é instado pela rainha para que de novo se proclame a Carta constitucional — O governo sabe que se conspira — A rainha, por conselhos do rei da Bélgica, deixa o paço das Necessidades e vae para o de Belém — Os ministros, a corte, conselheiros d'estado, auetoridades e corpos da guarnição são chamados por ordem da rainha a Belém — Nem todos obedecem — Golpe de estado — Demissão do ministério e nomeação immediata de outro, de que é presidente o marquez de Valença — Feição politica dos novos ministros — Proclamação da rainha — Passos Manuel propõe em conselho a resistência ao golpe de estado — A guarda nacional em armas — Passos Manuel é chamado a Belém pela rainha — Comité revolucionário em Lisboa — Forças que estavam em Belém — Assassinato de Agostinho José Freire — Photographia da revolução em Belém n'este momento — Franca e nobre exposição de Passos Manuel á rainha — Resposta enérgica de Passos Maimel ás ameaças de lord Howard [de Walden (Sá da Bandeira, Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, marquês de, The slave trade and Lord Palmerston's bill, 1840)], e um dito pouco feliz do principe D. Fernando — A rainha encarrega o marechal Saldanha e o conselheiro Trigoso de negociarem um accordo com Passos Manuel — Bases d'este accordo — Sá da Bandeira toma o commando da guarda nacional, e á sua frente marcha para Belem — Desembarque das tropas inglezas — Communieação do visconde de Sá ao marechal Saldanha — Reconhece-se afinal em Belém a impossibilidade de restaurar a Carta — Entrevista de Saldanha com Sá da Bandeira — A rainha nomeia Sá da Bandeira presidente do conselho, e deixa-lhe a livre escolha dos ministros — Recebido pela rainha, dicta as suas condições e indica o nome dos seus collegas — Excitação popular — A rainha assigna os decretos da nomeação do novo ministério, e volta para as Necessidades — Trecho de um discurso de Passos Manuel sobre o assumpto — Exemplo da hospitalidade ingleza — Cartas trocadas entre os chefes da contra-revolução triumphante e Silva Carvalho — Restabelecimento da ordem — Generosidade para com os vencidos — Triumvirato — Retrato de Passos Manuel por D. António da Costa — A iniciativa rasgada d'aquelle manifesta-se a uma longa serie de medidas decretadas por elle — Opposição que a Manuel Passos fazem os seus próprios amigos — Atacado na imprensa, defende-se n'uma carta dirigida ao "Nacional" — Decreta-se a elegibilidade dos ministros — Protestos que este decreto levanta por parte de alguns partidários do governo — João Bernardo da Rocha — Como se formou a opposição setembrista ao ministério — Clubs políticos — Eleição de deputados e poderes extraordinários que os mesmos recebem dos eleitores — Abre-se o congresso e fere-se a primeira batalha contra o governo — Discute-se o decreto da elegibilidade — Passos Manuel defende na camará os seus actos como ministro — Representação do partido cartista no congresso — Os poucos deputados d'este partido que foram eleitos renunciam aos seus logares — Situação financeira — Relatório de Manuel Passos — Discussão sobre as leis da dictadura — Defeza brilhante que faz Manuel Passos — Votação no congresso sobre o assumpto — Começa a discutir-se o projecto de uma nova constituição — Importância dos debates — É votada a generalidade d'aquelle projecto — A opposição setembrista no congresso— Votação contraria ao governo — Parece que este a aguardava para deixar o poder — Manuel Passos declara no congresso que se retira do poder — Ministério Passos.

Lisbonne vue du vieux port, François d'Orléans, prince de Joinville, 1842.
Imagem: LMT no Facebook

CAPITULO lV

Conspiração das Marnotas (pag. 359 a 427)

Estado de fraqueza em que se encontrava o partido miguelista quando caiu o ministério Passos — D. Miguel em Roma — Falta de recursos pecuniários com que luctou durante muito tempo (nota) — D. frei Fortunato de S. Boaventura — Protesto de D.Miguel contra a venda dos bens nacionaes — Protecção e apoio que encontrou sempre na corte pontificia — António Ribeiro Saraiva — Os seus primeiros serviços á causa de D. Miguel, e desfavor com que os ministros d'este o trataram — É nomeado secretario de embaixada em Londres — Vem a Portugal com propostas do governo inglez para o reconhecimento de D. Miguel — Estas propostas, que foram rejeitadas, originam alterações no ministério miguelista — Ribeiro Saraiva agenceia a vinda para o exercito miguelista de alguns officiaes e marinheiros estrangeiros — Opposição que a este auxilio faz o ministério miguelista — Testemunho de vários escriptores sobre o aprisionamento da esquadra miguelista — Terminada a lucta entre D. Pedro e D. Miguel, António Ribeiro Saraiva continua em Londres com o mesmo caracter politico que até então tivera — Jornaes que em Portugal e no estrangeiro advogavam a causa de D. Miguel — Ribeiro Saraiva, havendo caído no desagrado do seu rei, é substituído na direcção do partido por D. frei Fortunato de S. Boaventura — Preseguições de que é víctima o partido miguelista era seguida á concessão de Évora Monte — Principia a manifestar-se em differentes pontos do paiz um scisma religioso— Cousas apparentes e reaes d'este scisma — Vista retrospectiva sobre as relações diplomáticas de Portugal com Roma, e apoio que na corte pontifícia sempre encontrou o governo de D. Miguel — Reformas ecclesiasticas decretadas pela regência de D. Pedro, e protestos do papa contra ellas — Tentativas de reconciliação por parte do governo portuguez com a corte pontifícia — Golpe de vista sobre o estado da administração ecclesiastica, e manifestação e progressos do scisma nas differentes dioceses do paiz — Guerrilhas miguelistas no Algarve — O Remechido — Projectos mallogrados de uma revolução combinada entre os miguelistas de Portugal e os carlistas de Hespanha — Tentativa de revolução nas proximidades de Lisboa, e prisão de alguns officiaes do antigo exercito de D. Miguel — Correspondência sobre o assumpto trocada entre o ministro de França e Sá da Bandeira.

Lisboa, Praça de D. Luiz e monumento ao Marquez de Sá da Bandeira, c. 1900.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Nota n.° 1, pag. 429
Nota n.° 2, idem
Nota n.° 3, pag. 432
Nota n.° 4, pag. 433
Nota n.° 5, pag. 440

A verdade histórica e a "Historia da revolução de setembro" pag. 485



Marques Gomes, Luctas caseiras: Portugal de 1834 a 1851, Lisboa, Imprensa Nacional, 1894

domingo, 30 de agosto de 2015

Originais de Robert Batty

Para o Museu da Cidade [de Lisboa] ofereceu Fernando Rau, coleccionador de arte, em especial de gravuras, de que era conhecedor profundo, pouco antes de morrer, uma valiosa colecçõo de nove pequenas aguarelas, a sépia, originais do tenente-coronel do exército inglês, Robert Batty (1789 - 1849), que estivera na Península, integrado no exército de Wellington, durante a Guerra Peninsular.

Robert Batty (pai) por W. Daniell (detalhe), 1810,
segundo G. Dance, 1799.
Imagem: Wellcome Library

Estes originais, que se vieram juntar a outros que aquele museu já possuia, fazem parte dos estudos daquele militar-artista, quando da sua estadia em Lisboa e que mais tarde foram reproduzidos em gravura no álbum "Select Views of some of the principal cities of Europe", publicado em Londres, em 1832.

Lisbon from Almada, Drawn by Lt. Col. Batty, Engraved by William Miller, 1830.
Imagem: Wikimedia

Entre os originais agora oferecidos figuram os estudos das gravuras reprodudas naquele álbum, sob os titulos Praça do Pelourinho; Lisboa vista de Almada; e Lisboa vista da capela de N.a Senhora do Monte.

Lisbon from the chapel hill of Nossa Senhora do Monte, Drawn by Lt. Col. Batty, 1830.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os restantes, que representam o Convento de N.a Senhora da Graça (três versões), a Torre do Bugio e uma paisagem ribeirinha não identificada, não foram reproduzidas naquele álbum.

Agumas gravuras de Robert Batty doadas por Fernando Rau.
Imagem: Hemeroteca Digital

Todos os aguarelas, cujas dimensões variam entre 0,028x0,037 e 0,072x0,123, estão assinadas. (1)


(1) Lisboa, Revista Municipal, II série, n.° 1, 1979

Mais informação:
Dictionary of painters and engravers, biographical and critical...
Robert Batty


Artigo relacionado:
Almada bélica e bucólica no século XIX

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Bens em Caramujo e Pragal

Na tentativa de identificar e fazer corresponder aos personagens do romance histórico, O Caramujo, de António Avelino Amaro da Silva, pessoas do tempo da acção do mesmo, vim a encontrar no blogue abaixo mencionado alguns exertos que transcrevo:

Vista de Cacilhas e de S. Julião, Charles Landseer, 1825.
Imagem: Instituto Moreira Salles

Em 18 de Junho de 1790 [António Pereira Rangel (1749 - 1820)] fez um contrato de Emprazamento em três vidas, de um Prazo sito no local do Caramujo, na actual Cova da Piedade, pelo qual pagava anualmente "… de uma só vez em dias de natal…" a renda de 32.453 réis.

Em 27 de Janeiro de 1800, sendo referido ser homem de negócios, e morar no lugar do Caramujo, comprou um prazo composto por "… uma vinha com seu bocado de terra e uma terra de semear pão…" sito no lugar do Pragal, pela quantia de 200$000 réis.

A topographical chart of the entrance of the river Tagus (detalhe), W. Chapman, 1806.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Em 9 de Janeiro de 1801 comprou "… uma vinha com seu bocado de terra que tem suas oliveiras, sita defronte da quinta chamada Olho de Vidro…", pela quantia de 600$000 réis.

Almada, Largo do Pragal, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Em 27 de Janeiro de 1801 comprou "… humas terras com suas Cazas térreas e hum moinho de vento arruinado no dito logar do Pragal…", pela quantia de 600$000 réis.

Em 16 de Junho de 1801 comprou "… huma terra no citio do Juncal distrito do lugar do Pragal…", pela quantia de 100$000 réis.

Almada, Pragal, Vista Parcial, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

Atente-se agora ao que era a paisagem rural e urbana de Almada no século XIX:

"… desde a Idade Média diversas culturas eram característica da paisagem rural, cereais, pinheiro, vinha, figueira... no litoral, as praias e os pequenos portos de pesca artesanal e intermediários na saída de produtos da região.

É sobretudo a via fluvial do Tejo (e afluentes) que se reveste de grande importância, pois por ela iriam ter a Lisboa diversos produtos, de princípio excedentes da produção local, depois até oriundos do Alentejo, Beira e parte da Estremadura, destinados à alimentação e exportação em função do grande mercado de Lisboa.

A View taken from LISBON of the Point of Cassilhas, the English Hospital, & the Convent of Almada * : On the opposite side of the Tagus _ the original drawing by Noel in the possession of Gerard de Visme Esq.r / Drawn by Noel ; Engraved by Wells.
* (n. do e.) Embaixo à esquerda, uma saloia em traje típico, vasquinha de lã e carapuço pontiagudo, numa embarcação de transporte fluvial.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal



No interior, lugarejos ou povoações, casais isolados e quintas senhoriais, courelas e azinhagas. A área rural era mais importante do que a urbana... a Mutela não passava de um pequeno grupo de casas;

Fountain at village outside Lisbon (Mutela?), 1906.
Imagem: Ecomuseu Municipal do Seixal

o Caramujo, uma restinga de areia; o lugarejo da Piedade algumas quantas casas junto à Igreja... A par do desenvolvimento do comércio de vinho com o Brasil e África assiste-se a uma notável azáfama de tanoeiros. Mas os armazéns de vinhos, vinagres e azeites mantinham-se ligados ao comércio e actividades agrícolas da região..."

Tanoaria Francisco da Cerca, corredor do Ginjal, 1900.
Imagem:   Correia, Romeu, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982, 174 págs.

[...] D. Luiza do Nascimento [esposa de António Pereira Rangel, em 1812,], vendeu pela quantia de 1.600$000 uma vinha e terra com árvores de fruta, com todos os seus pertences, entradas, saídas, serventias e logradouros, situada no sítio da Carvoeira, no limite da Vila de Almada.
Em 30 de Junho de 1654, o Padre António Soares de Albergaria vende a sua quinta da Alagoa, junto a Almada, a João Bornete (comerciante, morador na cidade de Lisboa), a qual constava então de:

"suas casas, e posso de água com sua nora, e mais com vinhas na dita quinta e outras fora da dita quinta, a saber a vinha do Regil e outra sita na Carvoeira, e outra que chamão as Figueiras e outra quando vai para Quebra Joelho".

A venda foi feita com licença dos Priores das Igrejas de Almada em Cabido dada em 8.7.1654, pois a quinta era em parte foreira às referidas Igrejas (Cfr. DGARQ-ADS, Cota 420: Livro do Tombo das Igrejas de Santa Maria do Castelo e São Tiago de Almada, f. 5V).(1)

in História de Almada

Romeira, Lavadeiras no Rio das Rãs, início do século XX
Imagem: Flores, Alexandre M., Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade

"João de Almeida, cirurgião aprovado neste Reino e seus domínios, residente nesta Villa de Almada = Certifico que no lugar do Caramujo limite desta villa he morador o Sr. António Pereira Rangel, cavalleiro profeço na Ordem de Cristo o qual padece a muitos annos molestia de gota e presentemente se acha com dores excessivas nos ortos inferiores e para poder dar alguns paços lhe he preciso andar emcostado a hum pao, assim o considero incapaz de poder sahir da estremidade da sua casa e por ser verdade todo o referido e esta me ser pedida o passei que juro aos Santos Evangelhos.
Caramujo, 26 de Agosto de 1813"

[...] aos 22 dias do mês de Fevereiro de 1820 [António Pereira Rangel] faleceu na sua casa no Caramujo. (1)


(1) Família Escócia Sandoval

Artigo relacionado:
O Caramujo, romance histórico

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (3/18), notas biográficas

António Avelino Amaro da Silva (c. 1821 – 1889)



Proprietário, engenheiro civil, agrimensor, piloto de navios.

Fazenda Flores do Paraízo, Nicolau Facchineti, 1875.
Imagem: Instituto Estadual do Patrimônio Cultural

Não sei si nasceu no Brazil ou si naturalizára-se brazileiro, tendo seu berço em Portugal.
Sendo piloto examinado pela escola naval portugueza, serviu alguns annos como agrimensor na cidade de Valença, provincia do Rio de Janeiro.
Escreveu: — O Caramujo: romance historico original. Rio de Janeiro, 1863 [...]

in Sacramento Black, Augusto Victorino Alves, Diccionario Bibliográfico Brasileiro, Vol. I, pág. 116, Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1883

Filho de António Silva (1801 - 1879), natural de Adão Lobo, Cadaval, e de D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de Manuel da Costa Telles Almas, de Lamego, casados em 1821, ou mesmo em 1820. Deste casamento teriam nascido catorze filhos.

António Avelino Amaro da Silva poderá ter sido o primeiro filho do casal, tendo, por isso, o nome igual ao do pai, como era costume nesse tempo.

Conhecem-se-lhe quatro irmãos: Francisco Emygdio da Silva (1823 - 1887), primeiro taquígrafo da camara dos deputados; Christiano Gerardo da Silva, professor de música e artista (em 1908, proprietário, idoso, encontrava-se doente); Pedro de Alcântara e Maria da Gloria, estes ultimos gémeos, nascidos na freguesia da Encarnação, em Lisboa.

Entre 1831 e 1833 decorre a ação de O Caramujo.

Segundo D. Francisco de Melo e Noronha e José Carlos de Melo, António Avelino Amaro da Silva, foi testemunha ocular da batalha e da vitória ocorridas em 23 de julho de 1833.

António da Silva, seu pai, recebe a medalha das Campanhas da Liberdade, instituída em 1861, com o algarismo 5, correspondente aos anos de serviço durante a Guerra Civil de 1826 a 1834, pelo que existe a clara possibilidade deste ter participado nos acontecimentos relatados no romance, assim como, na descrição dos lugares e caraterização dos personagens.

António Avelino Amaro da Silva entra para a Escola Naútica (Academia Politécnica do Porto) em 1844.

Em 19 de março de 1847, aspirante de 3.a classe a guarda marinha, é promovido a guarda marinha  [O Progressosta n.° 135, 1847]  e, com o curso de piloto, permanece na Armada até 1855.

Chega ao Rio de Janeiro, como passageiro, no bergantim Clara [Bremen], proveniente de Santa Helena, após 12 dias de viagem.
[Correio Mercantil, 19 de julho de 1852]

De 1855 a 1859 publicita a sua actividade de agrimensor no Almanak Administrativo, mercantil e Industrial do Rio de Janeiro.

Bandeira do Império do Brasil de 1822 a 1870
Imagem: Wikipédia

Em 1859 casa com D. Delfina Amelia de Aquino Silva (1840 - 1872), filha de Joaquim Rodrigues de Aquino, tenente, e de Mariana Osória Leite, então já falecida.
Valença

Antonio Avelino Amaro da Silva. agrimensor, piloto, examinado e approvado, etc.:

Faz publico a quem interessar, aos que o tem honrado com sua confiança e aos seus amigos. que se mudou para a fazenda de seu sogro, o Illm. Sr. tenente Joaquim Rodrigues de Aquino no logar denominado Montacavallo, divisa das provincias do Rio de Janeiro e Minas, margens do Rio-Preto, para onde lhes podem dirigir quaesquer correspondencias pelo correio de Santa Theresa de Valença.

Por esta mesma occasião agradece summamente as felicitações que lhe tem sido dirigidas pelo seu feliz consorcio com D. Delfina Amelia de Aquino Silva, e o faz sciente aos que no numero daquelles não tenhão recebido participação.

in Correio Mercantil, 7 de fevereiro de 1859

Instala-se na residência do sogro, na fazenda de Montacavallo, margens do Rio Preto, Santa Theresa de Valença, a região maior produtora mundial de café, nesse tempo.
Monta Cavalo e Mont’Alverne, criadas por Tomás Alves de Aquino, que viera do Turvo ou do Campo, como chamava a faixa do terreno além do Boqueirão. Tomás Alves deixou os seguintes filhos: Manoel Tomás, Joaquim Rodrigues de Aquino, Francisco de Assis Alves, Anastácio Rodrigues de Aquino, Dona Mariana, esposa de Joaquim de Paula e Souza e finalmente a esposa do Coronel Francisco de Assis Vieira, chefe do Partido Liberal até a queda do Império. Manoel Tomás Alves e Joaquim Rodrigues de Aquino tornaram-se proprietários das duas Fazendas comprando as partes dos outros herdeiros [...]

in Porto da Flores, Perfeitura de Belmiro Braga
Em 1862, noticia a liquidação de uns escravos de orfãos em que tem parte [Correio Mercantil, 25 de março de 1862].

No mesmo ano, legitimou-se a fim de obter o passaporte [Correio Mercantil, 12 de abril de 1862].

Em 1863 publica o romance histórico O Caramujo.

Em 1865 faz público que regressou da sua viagem á Europa, e que continuará com os seus trabalhos de medições de terras no Brasil, onde os exercia desde 1852.

Regressa ao Rio de Janeiro, em 19 de janeiro de 1871, no paquete inglês Magellan [Diário do Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 1871].

A 7 de março volta a partir para Lisboa, no paquete francês Sindh, por motivos alheios à sua vontade [Diário do Rio de Janeiro, 8 de março de 1871].

Ainda no mesmo ano, 1871, propõe ao governo de Portugal, para Lisboa, um caminho-de-ferro americano de tração animal.

A sua esposa falece em Lisboa a 1 de abril de 1872.

Falecimento em Lisboa; Lê-se no Dário de Notícias de Lisboa em data de 2 do corrente: "Faleceu hontem ás 11 horas e 43 minutos da manhã, a Sra. D. Delfina Amelia de Aquino Leite e Silva, esposa do nosso amigo o Sr. António Avelino Amaro da Silva, proprietário e engenheiro civil. Era natural da provincia do Rio de Janeiro, onde conta muitos e abastados parentes. Contava 32 annos de idade. O seu funeral verifica-se hoje pelo meio dia. O inconsolavel esposo não faz especiais convites."

in Diário do Rio de Janeiro, 21 de abril de 1872

Em 24 de abril é rezada na igreja da Candelária, uma missa por D. Delfina Amelia de Aquino Leite e Silva [Diário do Rio de Janeiro, 24 de abril de 1872].

Tendo sido offerecida pelo directores da Companhia Economia a sua chacara das Larangeiras pareceu á commissão benefico alvitre o de estabelecer nella casa de convalescença. Foram encarregados desse trabalho os dignos membros da commissão dos hospitaes commendador Miguel Couto dos Santos, Caetano Pinheiro e o Sr. António Avelino Amaro da Silva, dignissimo gerente daquella companhia, que infelizmente enfermou logo após os primeiros trabalhos de seu cargo. [...]
No dia 1 de fevereiro fomos privados dos valiosos serviços do nosso companheiro o Sr. António Avelino Amaro da Silva, que, tendo trabalhado e dirigido os trabalhos de limpeza e reparos da casa (o que fez com a mais energica e boa vontade) debaixo de chuva constante cahiu doente e foi obrigado a retirar-se. Desde então tem sofrido constantemente a ponto de não ter podido até hoje voltar ás suas occupações civis [...]

in Diário do Rio de Janeiro 14 de setembro de 1873

Parte para Lisboa, na companhia da filha, em 29 de outubro no paquete inglês Araucania [Diário do Rio de Janeiro 30 de outubro de 1873].
Distinção honorifica — A Sociedade 1° de Dezembro de 1640 [posteriormente Sociedade Histórica da Independência de Portugal], de Lisboa, conferiu ao Sr. António Avelino Amaro da Silva o diploma e medalha de ouro de socio honorario da mesma sociedade pelo importante donativo que fez á comissão representativa daquela sociedade nesta mesma Côrte. O Sr. Avelino é um dos bons cidadãos portugueses que entre nós teem residido não só pela sua honradez como pela estima em que teem os brasileiros, do que muito folgamos em dar testemunho proprio pelo conhecimento intimo que temos do seu excellente caracter.

in Diário do Rio de Janeiro 19 de dezembro de 1873

Distinção honorifica — Sr. redactor, lemos a noticia que V. deu no seu numero de hoje, de haver sido condecorado o sr. Antonio Avelino Amaro da Silva, pelo serviço prestado na concessão feita de algumas acções da companhia que S. S. Era gerente, á Sociedade 1° de Dezembro de 1640. Não é nosso fim reprovar essa distinção, nem entrar na analyse se ella foi bem ou mal merecida; o que nos cumpre protestar é contra a boa intenção com que aquelle senhor fez esse donativo. Quem sabe o modo arrogante com que este senhor tratou aos dignos directores da companhia que havia confiado ao Sr. Avelino a gerencia dos seus negocios, a ponto de aggredir aum delles em pleno publico, apellidando-os com a grosseira expressão — gallegos — e outras de igual jaez, certamente terá comprehendidoque nem o patriotismo, nem o amor á Sociedade Primeiro de Dezembro de 1640 levaram o Sr. Avelino a semelhante acto. Quem insulta em publico os seus compatriotas, homens distinctos, cheios de serviços e de reconhecida posição social, chamando-os por um nome que aqui só é conhecido por injurioso, certamente que não merecia semelhante distincção. É neccessario não confundir patriotismo com fanfarronadas filhas do despeito.

in Diário do Rio de Janeiro 20 de dezembro de 1873

Em 1874, protesto de Antonio Avelino Amaro da Silva da Companhia Economia de lavanderia do Rio de Janeiro contra a accusação que lhe faz o relatorio da directoria de 31 de Julho de 1874 e analyse do mesmo relatorio [Biblioteca Nacional de Portugal].
A camara municipal desta cidade concedeu a auctorização ao sr. Antonio Avelino Amaro da Silva para estabelecer uma linha de caminho de ferro americano a partir do largo de Andaluz, pelas terras de Valle de Pereiro, rua do Salitre até ao Rato.

in Diário Illustrado, ed. 17 de novembro de 1874
Em julho de 1875 é noticiado e publicitado o falecimento de sua mãe.
Falleceu a Exma. senhora D. Joanna Francisca da Costa e Silva, esposa do sr. Antonio da Silva, um dos veteranos da liberdade, e mãe dos nossos amigos os srs. Francisco Emygdio da Silva, antigo sub-chefe da repartirão tachigraphica da camara dos srs. deputados, André [António] Avelino Amaro da Silva, engenheiro, e Christiano Gerardo da Silva, distinto musico. Tinha 75 annos de idade.

Senhora muita respeitavel, estremecia seu marido e seus filhos e era por elles adorada. Poucas vezes se terá visto mais amor maternal, poucas vezes terá havido mais dedicação filial.

Compartimos a dôr dos nossas amigos.

Acerca do enterro do finada, publicamos n seguinto convite :


Antonio da Silva, e seus filhos Francisco Emygdio da Silva, Antonio Avelino Amaro da Silva, e Christiano Gerardo da Silva, participam aos seus parentes e relações, que acaba de fallecer sua chorada esposa e mãe, a sr.a D. Joanna Francisca da Costa e Silva que se ha de sepultar hoje 24 pelas 11 horas da manhã, saindo o feretro da rua de S. Filippe Nery n.° 26, 2.° andar [residência de Innocencio Francisco da Silva, autor do Dicionnario Bibliographico Português, conforme atesta ainda hoje a placa apensa no edifício].

in Diario Illustrado, ed. de 24 de julho de 1875
Em Portugal, porém, onde effectivamente a palavra partidos é uma denominação completamente arbitraria, onde essa palavra não significa mais do que a reunião de um certo numero de homens, ligados não pelas mesmas idéas mas pelos mesmos interesses, comprehende-se que haja quem aspire vêr reunidos em uma mesma vereação os homens mais illustrados na certeza de que logo que se acharem debaixo do mesmo tecto, verão que há entre elles a mais completa uniformidade de principios e de opiniões. [...]
É evidente que o governo favorece a listas do Srs. Rosa Araujo, Visconde da Azarujinha, etc. apoiando assim a reeleição da camara transacta. A lista que lhes faz guerra é composta dos seguintes cavalheiros: Conde de Paraty, Luiz Manoel da Costa, Francisco Simões Carneiro, Joaquim António de Oliveira Namorado, José Elias Garcia, Antonio Ignacio da Fonseca, Manoel Gomes da Silva, Antonio Moura Borges, Zeferino Pedroso, Gomes da Silva, José Isidoro Vianna, Antonio Avelino Amaro da Silva e José Carlos Nunes [...]

in Diário do Rio de Janeiro, ed. 20 de novembro de 1875
Aproxima-se o dia para a eleição da vereação municipal que ha de gerir os negocios do municipio de Lisboa no proximo biennio e de dia a dia se activam os trabalhos preparatorios [...]
A segunda [lista] é composta dos seguintes cavallheiros: Conde de Paraty, par do reino, proprietario e grão-mestre do Grande Oriente Luzitano Unido; Joaquim Namorado, facultativo; José Izidoro Vianna, idem; Zophimo Pedroso Gomes da Silva, idem; Elias Garcia, lente da escoma do exercito e redactor da “Democracia”; José Carlos Nunes, negociante; Luiz Manoel da Costa, idem; Antonio Moura Borges, capitalista e negociante; Francisco Simões Carneiro, idem; Manoel Gomes da Silva, idem; Antonio Avelino Amaro da Silva, proprietario e engrenheiro; e Antonio Ignacio da Fonseca, cambista [...]

in O Liberal do Pará, ed. 7 de dezembro de 1875

Em 1876, Brito Aranha, confirma a presença de Antonio Avelino Amaro da Silva no funeral de Inocêncio Francisco da Silva, ambos pertenceram à loja maçónica 5 de novembro, mais tarde Loja Elias Garcia. No mesmo acontecimento é notada também a presença de António de Silva, seu pai [Silva, Innocencio Francisco da, Aranha, Brito, Dicionnario Bibliographico Português, Estudos..., Lisboa, Imprensa Nacional, 1883].

Em 15 de março de 1877, regressou ao Rio de Janeiro, acompanhado de sua filha, no paquete inglês Sorata [Diário do Rio de Janeiro, ed. 16 de março de 1877].

The Pacific Steam Navigation Company's Royal Mail Steam Ship, Cotopaxi, 4,022 Tons, 1873.
Imagem: Picture Gallery of Steamers

No mesmo ano regressou a Lisboa, acompanhado pela filha, no paquete Cotopaxi, em 8 de julho.

Em 1879 falece o seu pai, António Silva, com 79 anos.

Em 20 de dezembro de 1887 falece o seu irmão, Francisco Emygdio da Silva, com 64 anos [Diário Illustrado, ed. 21 de dezembro de 1887].

Em 1889, António Avelino Amaro da Silva, falece na sua casa, em Carnide.
Falleceu na sua casa de Carnide, onde residia, o Sr. Antonio Avelino Amaro da Silva, que durante muitos annos esteve no Imperio do Brazil onde desempenhou em varias provincias diversas comissões de engenharia cívil. O fallecido havia começado sua carreira na marinha mercante, tendo servido mais tarde à junta [governativa] do Porto, em 1846. Deixou um romance histórico intitulado "O Caramujo", onde são descriptas diversas scenas da lucta liberal.

in Tribuna Liberal, Domingo, 24 de Março de 1889


Referências:

Biblioteca Nacional de Portugal
Biblioteca Nacional Digital Brasil
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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O Caramujo, romance histórico (4/18), o veterano da bandeira


FOLHETIM
O VETERANO DA BANDEIRA

I


Ouvindo o troar da artilheria, que annuncia á família liberal uma grande festa; e vendo o desfilar do cortejo cívico, que nos aviva um notável facto da historia contemporanea, inscripto com letras de oiro nos fastos nacionaes, notamos uma falta: entre aquelles beneméritos, cujos cabellos encaneceram no serviço da pátria e da liberdade;
Este capitulo, ou trecho, foi escripto para o Diário Illustrado, de julho 1879, e agora sáe com algumas notas que para ahi não pude mandar.
entre aquelles cidadães, cujas virtudes e cuja dedicação patriótica, foram acrisoladas por infinitas provações; entre aquelles semblantes requeimados pelas insolações em numerosas marchas, pelas descargas de cem refregas e combates;

entre aquelles veteranos, exemplares de abnegação e heroismo; entre as figuras venerandas d'aquelle cortejo sympathico, que milhares dos do povo rodeiam com sinceridade e enthusiasmo, pelo que vale e pelo que symbolisa; entre aquelles homens falta um:

António Silva, o veterano da liberdade, Diário Illustrado, 24 de julho 1879.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

É o que a gravura do Diario Illustrado representa hoje, e do qual me coube a honra n'estas paginas, a quem tem dado tamanho lustre escriptores esclarecidos de deixar aqui algumas notas biográficas;

É o de um veterano, popular, que soube aliar o respeito e a amisade dos grandes e humildes, porque elle era grande pelo seu coração e pela sua inexcedível bravura; e humilde pelo seu berço e pelo seu viver chão, simples, patriachal;

É, emfim, o Silva das Barbas brancas, como o cognominava o povo, quando elle em dias duplices lançava para fóra do fino peitilho da camisa aquellas alvissimas barbas, que lhe davam o aspecto dos homens bons e de bom conselho de tempos áureos; é o Veterano da Bandeira, como depois o appellidaram quando foram inaugurados os festejos do 24 de julho.
Esta commemoração deixou de fazer-se por circumstancias politicas, que não vem para aqui referirem-se; mas a principal, no meu entender, foi a do esmorecimento na lembrança de factos, que não deviam esquecer para lição dos vindouros (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, op. cit.).

Ao comtemplar o seu retrato parece-me ainda vél-o: sadio, rosado, alegre como um moço, risonho como se o sol d'aquelle memorável dia fosse o sol do melhor dia das suas primaveras; direito como um recruta, não vergando ao peso dos annos, mas erguendo o rosto com certo desvanecimento para a bandeira, que era para elle, — e para todos nós, filhos da grande familia liberal, — a sua idéa constante, o seu symbolo, a religião da liberdade!


II


Pensava-se em outro tempo, e divulgava-se que as biografias só podiam fazer-se dos grandes embora elles não tivessem a recomendalos senão os pergaminhos e os serviços dos antepassados; e isto acreditava-se, tanto mais quanto era certoque a lisonja cortezã o traduzia em facto;

pois as idéas modernas transformaram o uso, e se se deu aos grandes, que realmente o são, por suas virtudes e qualidades, o preito sincero e condigno do respeito e admiração, tambem não se pode hoje regatear se aos humildes, que se levantaram a maior altura na cooperação para a victoria dos nobres princípios o elogio que lhes cabe pelas suas nobres acções e o lugar que lhes pertence no pantheon glorioso dos que se distinguiram em prol da pátria.

Não tiremos um desses logares a Antonio da Silva.

O venerando ancião nasceu aos 31 de julho de 1801 no logar de Adão Lobo, termo da villa do Cadaval; e veiu para Lisboa fugido com a sua familia, e a pé, não tendo ainda 7 annos de edade, quando Junot invadiu Portugal com as forças do seu commando.

Percorrendo a pé as doze léguas que o separavam da capital, e vendo já afflicta a familia porque fugia da sua terra sem recursos, e sem pão, era descer o primeiro degrau na escala da adversidade.

Chegando a Lisboa, a familia Silva teve que separar-se do seu pequeno Antonio e entregal-o ao cuidado das pessoas, que o protegeram na mocidade.

Discorreram, portanto, os primeiros annos da sua estada na capital sem incidente notavel, embora conhecessem os amigos que António da Silva roubava algumas horas ao trabalho e ao descanso para se relacionar com os homens de esphera mais elevada e tomar conhecimento das occorrencias politicas, enthusiasmando-se com o alvorecer das idéas liberaes que trouxeram, na proeminencia dos factos contemporaneos, Fernandes Thomaz, Ferreira Borges, fr. Francisco de S. Luiz e outros beneméritos, e pelos esforços destes inclitos varões, o 24 de agosto de 1820 [pronunciamento militar do Porto, que levou à formação da Junta Provisional do Governo Supremo do Reino presidida pelo brigadeiro António da Silveira Pinto da Fonseca, e ao inicio do periodo conhecido como vintismo].

Porém, no meio dos seus enthusiasmos, António da Silva pagava o tributo da mocidade prendendo-se n'uns sinceros amores a uma joven de apreciáveis dotes do coração, D. Joanna Francisca da Costa e Silva, filha de um bom homem de Lamego, Manuel da Costa Telles Almas.

Em 1821 encontramol-o já casado, mas interrompida a lua de mel por uma eventualidade da politica, que o tirava dos braços affectuosissimos da esposa para o arremessar ás rudes fainas da caserna.

Tinham n'o intimado para sentar praça, e elle foi alistar-se no regimento de milícias de Lisboa Occidental [sic, i.e. Oriental (n. do e.).], mais conhecidas por milicias de D. Jorge, ficando primeiramente na 3.a companhia d'esse corpo, e depois na de granadeiros.

A agitação revolucionaria da época; a convivência com alguns homens que acreditavam religiosamente que o 24 de agosto vingaria contra as dificuldades oppostas pelo partido contrario; a vida de quartel, que dá novos hábitos, e altera essencialmente as condições da existência caseira e patriachal, — abriram-lhe um período que entregou Antonio da Silva ás oscilações e aos abysmos da politica.


III


É geralmente sabido, que os dois primeiros quarteis d'este século foram povoados de successos que davam muitos volumes e que pela maior parte estão inéditos.

Ainda mais: muitos acontecimentos passaram sem registo particular, nem publico, e seria hoje extremamente difficil reunir todas as notas para dar inteiro relevo ás paginas da historia contemporanea n'uma serie, pelo assim dizer, ininterrupta de incidentes, de acção e reacção, de estímulos, odios, perseguições, vinganças, que a liberdade protegia em seu interesse, mas offuscando o seu brilho;

e que ao mesmo tempo a liberdade repellia para tornar mais vivida a sua luz; uma época de combates, de lutas terríveis e homericas, que parecia ser impossível empreenderem-se se milhares de testemunhos não o confirmassem:

porque a 1820 succedia 1824 [Vilafrancada, insurreição liderada pelo Infante D. Miguel, em 27 de maio de 1824]; a esta data seguia-se 1828 [inicio do reinado de D. Miguel, legitimado pelas Cortes, em 11 de julho de 1828]; depois vinha 1829 [revolta cartista em Lisboa, em 9 de Janeiro de 1829, comandada pelo brigadeiro Moreira Freire, em 6 de março os revoltosos são enforcados no Cais do Sodré] e 1834 [assinatura da Convenção de Évora Monte, diploma assinado entre liberais e miguelistas, em 26 de Maio de 1834, que pôs termo à Guerra Civil Portuguesa (1828 - 1834)]; depois 1836 [revolução de Setembro, golpe de estado ocorrido em Portugal a 9 de Setembro de 1836, quando chegaram a Lisboa os deputados oposicionistas do norte; Belenzada, contra-golpe de inspiração cartista, que ocorreu na noite de 4 de novembro de 1836], 1837 [revolta dos Marechais, 12 de julho de 1837, sublevação militar fracassada contra o governo de Sá da Bandeira, de inspiração cartista contra o setembrismo, encabeçada pelos duque da Terceira, e duque de Saldanha], 1838 [revoltas de março. Juramento da nova Constituição pela Rainha em 4 de abril de 1838], 1840 [tumultos em Lisboa, no Largo da Estrela, em 11 de agosto de 1840, data do aniversário da vitória liberal na ilha Terceira], 1844 [pronunciamento militar setembrista, em 4 de fevereiro de 1844, em Torres Novas], 1846 [revolução da Maria da Fonte, sublevação popular no Minho em 15 de abril de 1946. Guerra Civil da Patuleia, iniciada a 9 de outubro e finda em 29 de junho de 1847, com a assinatura da convenção do Gramido].

Antonio da Silva, pelo seu caracter, pela sua actividade, pelo seu patriotismo que o convencerade que a felicidade para a sua nação só viria pela liberdade, achou se repetidas vezes com risco de vida própria e oi maior sacrifício da sua familia, envolvido no mais aceso das contendas dos partidos, pendendo sempre o seu trabalho e os seus esforços para o mais avançado.

Assim, na Abrilada, na proclamação do infante D. Miguel, na conspiração do brigadeiro da brigada de marinha, na revolução de Setembro, na revolta dos marechaes, na desastrada lucta da guarda nacional, na sedição de Miguel Augusto, na sublevação de Almeida, na Maria da Fonte, o veterano Silva teve o seu papel, que desempenhou como um heroe, principalmente no espantoso periodo de 1828 a 1834.

Medalha das Campanhas da Liberdade
Imagem: Wikipédia

Na conspiração de 1829, conhecida pela do brigadeiro da brigada de marinha, Antonio da Silva foi preso com outros.

N'uma occasião em que iam a perguntas, com uma forte escolta de armas carregadas, e acompanhados pelo coronel das milícias Andrade Corvo, passou D. Miguel a cavallo e seguido do piquete que o acompanhava nas suas correrias pela capital. Um dos presos, voltando-se para os companheiros, disse-lhes:

— Ahi vae o rei! Curvemo-nos deante d'elle para alcançarmos o perdão!
Antonio da Silva, vivo e prompto nas respostas, acudiu:
— Quem falla ahi em perdão? Só os criminosos é que o imploram!

Os presos calaram e a escolta seguiu o seu destino.

O coronel Corvo, que estimava muito o nosso veterano, apesar de o conhecer exaltado, tambem fingiu que não ouvira aquellas phrases, e não ocorreu outra novidade.


IV


Antonio da Silva, viveu, no Bairro Alte, em tres casas: na rua dos Calafates, onde hoje vemos a farmácia do sr. Oliveira Abreu; na travessa da Queimada, n'um prédio que em os n.os 42 e 43; e na rua da Barroca, n'um rez-de chaussée que tem o n.° 22.

O bairro Alto, de 1828 a 1833, se foi, como ainda sabem numerosas pessoas, foco de conspiradores e conspirações; foi igualmente a estação de homens, beleguins [agente policial ou judicial, esbirro] e espiões, que o povo temia e detestava.

Como centro de reunião de liberaes eram aqui apontadas, especialmente, dois locaes: o palácio do nobre marques de Ficalho, que fez todo o mal que poude ás insólitas pretensões dos partidários do infante D. Miguel, para que trumphasse a causa justa dos amigos dedicados do imperador D. Pedro IV e de sua augusta filha a sr.a D. Maria II; e a humilde casa de Antonio da Silva.

Os espiões titulares, segundo a voz do povo, não tiravam os olhos d'essas casas, e parecia que se reproduziam para as vigiar. Ás esquinas das ruas da Barroca, do Carvalho e dos Caetanos, era certo encontrar-se a cada instante ou o Manuel Quadrilheiro; ou o Matta Espião, de quem a populaça se vingou no dia 24 de julho; ou o Senhor dos Passos de Argel, ou o Segeiro, da rua dos Calafates, ou o Louceiro, do Loreto, e outros sujeitos, que tinham fama n'essa epoca pelas suas proezas; e tambem, sem duvida, com taes olheiros e espiões, não faltou na intendência da policia a nota dos passos, hora a hora, das pessoas suspeitas, o que por então nada tinha de extraordinario.

A pobre casa da rua da Barroca era, á noite, como um formigueiro de liberaes e conspiradores. Ali recebiam a Chronica constitucional, do Porto que um lia em voz alta para os demais ouvirem;

ali recebiam noticias e papeis avulsos clandestinos; ali ajustavam planos de ataque e defeza contra a vigilância da policia; ali, emfim, faziam contratos sobre a deserções para o Porto.

Entre as damas, que auxiliavam a causa liberal, figurava em primeira linha a sr.a D. Joaquina de Lencastre, depois viscondessa do Roguengo e condessa de Avilez celebrada esposa do general Jorge de Avilez. Morava na Junqueira. Todos sabiam que ninguem a dominava nas suas convicções, que ninguem podia excedel-a nos sentimentos que a impeliam para trabalhar em prol do restabelecimento do throno da sra.a D. Maria II.

Estava ella ao corrente do que se fazia em Lisboa para contrariar o governo do infante D. Miguel, a augmentar as forças dos defensores do Porto. Mandou por isso chamar o Antonio da Silva e disse-lhe:

— Conto com o sr. Silva.
— Para que, minha senhora? Valho pouco...
— Pelo contrario, sei que uma pessoa póde fiar-se na sua lealdade e no seu braço?
— Para a defender, sim, minha senhora, o meu braço valerá alguma cousa.
— Não preciso agora de defeza sr. Silva; tenho o meu coração que me resguarda de perigos; mas para defendermos uma causa...
— Dirá v. ex.a.
— É o meu trabalho todos os dias Encontramo-nos nas aspirações.
— Bem o sabia.
— Que devo fazer?
— Vou fornecer-lhe algum dinheiro. Com elle o sr. Silva alliciará soldados, paisanos, todos que queiram prestar se a ir socorrer os nossos amigos no Porto. — Prompto; corro já a executar as suas ordens, ainda que me custe a vida.
— Obrigada! Obrigada!

Dentro de alguns dias, António da Silva tinha conseguido fazer sair de Lisboa para o cerco do Porto não menos de 170 homens, alguns mantimentos, armas e roupas.

O seu processo era simples e arriscadissimo. Disfarçava-se, ora de um modo, ora de outro; e ás vezes com trajes femininos, capote e lenço, e assim acompanhava os que partiam de Lisboa até ás estancias [armazéns, ancoradouros] da Boa Vista, aproveitando as saídas d'ellas para a praia, ou para os boqueirões [aberturas, canais], onde embarcava aquelles homens em escaleres inglezes, que protegiam a fuga para bordo dos seus navios.

A estes actos audaciosos juntou elle um,, que fez com que os espias do Bairro alto, que umas vezes semostravam benévolos para com Antonio da Silva, outras o temiam, e outras precia quererem perseguil-o, fitassem a sua cabeça levantada e orgulhosa como ornamentação obrigada das forças que se erguiam para o martyrio dos liberaes.

Tinham-lhe nascido no lar, açoutado por variadas comoções, dois gemeos. A esposa mostrou-lh'os dizendo:

— Um menino e uma menina.
— Ainda bem! Terá um o nome de Pedro de Alcantara e a outra o de Maria da Gloria; e se não posso rogar ao imperador para ser meu compadre, elle saberá como baptisei estes filhos.

Toda a freguesia da Encarnação fallou deste facto. O baptisado effectuou-se na hora mais adiantada do dia. As criancinhas iam vestidas de azul e branco. Trinta convidados de gala, com laços azues e tochas acesas. Era de dar nas vistas. Foi uma cousa inacreditável. Não se podia exceder em temoridade.

N'esse dia os quadrilheiros deixaram-n'o em paz; mas em melhor occasião, assaltaram-lhe a casa, e se elle senão lembrasse de fugir para a de um vizinho, e, esconder-se no panno da chaminé, não teria saido de novo incólume das suas redes. Protegia-o boa estrella!

Na vida do nosso veterano deparam-se-me muitas d'essas acções de ousadia e temeridade; e tanto que nunca lhes faltaram os documentos mais honrosos de officiaes e superiores, durante o tempo que serviu no exercito, e na alfandega, onde esteve por muitos annos e onde se reformou.


V


Os veteranos, seus companheiros, deviam-lhe serviços de valia sendo os mais importantes a fundação da associação dos veteranos da liberdade, de que elle foi thesoureiro;

e as instancias, junto de velhos amigos seus nas duas casas do parlamento, para que o estado tirasse da miséria a que estavam condemnados alguns desses benemeritos, que derramaram o seu sangue em defensa dos princípios liberaes.

António da Silva, o Veterano da Bandeira, falleceu com 78 annos de edade em junho d'este anno, tendo ao lado seus três filhos, que lhe restavam de quatorze, e que o honravam, os srs. Francisco Emygdio da Silva , primeiro tachygrapho da camara dos deputados;
Já falleceu. Era um santo homem. Estimavam-no todos no quadro tachygraphico e respeitavam-no porque sabia muito bem da sua profissão. O que muitos ignoravam era que elle, filho devotado e obediente, educado sem alardos e com a sobriedade de um portuguez de lei, depois de emancipado e depois de exercer sem faltas e com brilhantismo a sua profissão, em que adquirira um primeiro logar, quando recebia o ordenado ia religiosamente entregá-lo aos paes para que o applicassem como entendessem nas despezas geraes da casa, reservando-lhe apenas o de que elle necessitasse para gastar com a renovação do seu vestuário. Prescindia de commodos e de modas. Exemplar filho! (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem)

Antonio Avelino Amaro da Silva, antigo capitão de navios e engenheiro civil;
Esteve no Brasil e ve-io de lá com alguns meios ganhos em serviço de engenharia, sobretudo em medição de terrenos no interior da província do Rio de Janeiro, onde se relacionira com alguns brasileiros de representação, como o fallecido Joaquim Saldanha Marinho. Também já é fallecido [falecera em 1889]. Aqui viveu modestamente e de vez em quando escrevia alguma cousa para umas memorias intimas, que não chegou a publicar. Deu ao prelo um romance histórico baseado em factos das campanhas da liberdade. Descreve com acerto e em boa linguagem o que passou, no concelho de Almada, quando as limitadas forças liberaes trouxeram á ponta de baioneta a tropa do commando de Telles Jordão até Cacilhas, onde foi morto esse famigerado official miguelista, ao qual não faltava bravura e crueza. Este trabalho foi muito bem recebido e elogiado. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

e Christiano Gerardo da Silva , professor de musica e distincto artista.
Foi um violinista distincto e por vezes regeu orchestras em salões particulares e theatros. Está retirado da vida artistica. É proprietário em Lisboa. Vive, edoso e doente. (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

Tinha a medalha com o algarismo 5 das campanhas da liberdade e a junta do Porto, por um acto de bravura, concedera-lhe a Torre e Espada, em 1846.

Medalha da Torre e Espada
Imagem: Presidência da República Portuguesa

Comecei a conhecer e estimar este bom ancião por 1849 ou 1850. Preparava-se a regeneração. Elle auxiliava, como podia, os que conspiravam em Lisboa desde os desastres da Maria da Fonte, e exclamava:

— Se os Cabraes matam a liberdade, expulsemos os Cabraes!

Dias antes de morrer, visitei-o e abracei-o. A sua despedida foi:

— Aproxima-se o dia 24 de julho. Não vê o meu estado?... Tenho os pés na cova. O meu desejo era, sequer uma vez, poder abraçar a minha bandeira...

Bandeira nacional de Portugal de 1830 a 1910.
Bandeira usada pelos Liberais.
Imagem: Wikipédia

Parou como se estivesse cansado; mas o cérebro d'elle funcionava regularmente. Uma lagrima perdeu-se-lhe por entre as rugas do rosto. E acrescentou:

— Paciencia! Termina a minha peregrinação. Ahi ficam os meus filhos. Amei-os tanto como a liberdade...

E dizia a verdade.
O António da Silva, pela sua dedicação á causa liberal, pelo respeito á memoria do imperador e rei D. Pedro IV e do seu dilecto general Sá da Bandeira, que tantos serviços prestou com grandíssimo sacrifício do seu sangue e dos seus haveres para a consolidação do throno da rainha D. Maria II, nao se esquecera nunca dos seus companheiros, que se oppuzeram com brio e tenacidade aos desvarios e oppressões ignominiosas da usurpação miguelina, e auxiliava, dentro das suas pequenas forças monetárias, para lhes minorar a miséria.

Foi um dos que mais poderosamente contribuíram para a creação da Associação dos Veteranos da Liberdade.

Refere Simão José da Luz, na sua interessantíssima biographía do ínclito Marquez de Sá da Bandeira, quando descreve no tomo nas exéquias solemnes celebradas na parochial egreja da Encarnação, em suffragio da alma desse que foi valente e sábio militar, que á porta da mesma egreja estava um respeitável veterano a pedir que o auxiliassem na obra de caridade a favor dos companheiros daquelle general que, por doença ou indigência, nào podiam comparecer naquelle piedoso acto.

O Marquez fallecera em Lisboa no dia 7 de janeiro 1876 e o cadáver foi transportado para o cemitério de Santarém, com as honras devidas, onde ficou em campa, com o epitaphio determinado em nota testamentária do illustre finado.

As exéquias solemnes realisaram-se no dia 21 de fevereiro do citado anno, proferindo a oração fúnebre o afamado orador sagrado, rev. cónego da Sé de Braga, Alves Matheus. Na pag. 509, do mencionado tomo II, lê-se esta singela nota: "Á porta do templo pedia esmola para os pobres soldados da liberdade o fundador da Associação dos Veteranos, o sr. António da Silva, que ainda pôde realizar a quantia de 15$500 réis." (Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, idem, ibidem)

23 de julho, 1879.

Brito Aranha. (1)



(1) Aranha, Pedro Wenceslau de Brito, Factos e homens do meu tempo, memórias de um jornalista, Lisboa, A.M. Pereira, 1908, 1042 págs.