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terça-feira, 1 de novembro de 2022

António José Gomes (1847-1909), a fábrica e a casa

Estas fábricas estão situadas na rua Direita do Caramujo, occupando uma área de 800 metros quadrados, approximadamente, isto é, tomam o quarteirão inteiro que fica entre a travessa da Praia e o beco do Paiva.

Manoel José Gomes & Filhos, fábrica de moagem do Caramujo, nota de divida de 1881 (detalhe).
Imagem: Delcampe

A primeira foi fundada, em 1864, por Manuel José Gomes, e que hoje [1897] era aproveitada para depósito de trigos, escriptório e habitação do proprietário, morando ali actualmente sua irmã a Sr.a D. Magdalena Rita Gomes; casa das bombas e mais material estando tudo na melhor ordem, depósito de madeiras e casa de despejos.

A segunda foi fundada em 1872, e tinha dois pavimentos. No rez-do-chão estavam installadas as antigas machinas e promptas para entrarem em elaboração quando fosse necessário; no 1.° andar apenas trabalhava um par de mós, e no 2.° andar havia o depósito de trigo, que era levado para a fábrica nova por meio de elevador.

Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo, edifícios de 1864 e 1872.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

A terceira foi construída em 1889, e tinha seis pavimentos: no rez-do-chão era a casa das maquinas; no primeiro pavimento havia compressores e triruradores, no segundo parafuzos e nóras, no terceiro reformas e dois "sasseurs", no quarto planchistas de systema moderno e peneiros, no quinto peneiração e no sexto acabamento de noras. 

No segundo pavimento também havia reparação de trigo e espalhadora. no terceiro bandejas e despertadores. no quarto crivos de tirar semente, peneiros para trigo e duas taráras, no quinto peneiração de trigo e um quarto para receber o pó do mesmo trigo.

Fábrica de moagem e cais da farinha, Caramujo, edifícios de 1864, 1872 e 1889.
Nesta foto conseguimos perceber o esquema construtivo que transformou, ao longo de três décadas a unidade fabril inicial num complexo moageiro: de sul para norte vemos os edifícios geminados, correspondendo à fábrica primitiva; separado destes por um vão, alargamento posterior, de 1872 (onde em 1897 ainda funcionavam a máquina e as mós antigas); por último, o edifício principal, construído por volta de 1889 [...]
cf. Toscano A fábrica de moagem do Caramujo património industrial, Vol I , Lisboa, Universidade Aberta, 2012.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

Como acima dissemos, estas fábricas estao installadas na rua Direita do Caramujo, tendo trazeiras para o rio, onde está construída uma grande doca para recolher as embarcações que se empregam na carga e na descarga dos trigos, farinhas e mais materiaes.

Na mesma rua e em frente das fábricas está installada a casa das caldeiras, que por baixo da rua e por meio d'um cano, passa o vapor que faz funccionar todo o machinismo das fábricas; assim como também por baixo da mesma rua passa um outro cano que communica com o rio, e d'onde é tirada a água por meio d'uma machina que tambem está ali installada.

Do lado da casa das caldeiras estão tambem as cocheiras e armazém de vinhos do Sr. António Cruz Paiva.

O edificio da nova fábrica foi construido (em 1889) junto ao da antiga, ficando muito superiora este, e em condições de muita segurança.

O incendio no Caramujo, Arnaldo Fonseca, Branco e Negro, Semanário Illustrado, 20 de Junho de 1897.
Imagem: Hemeroteca Digital

Tinha grande número de janellas que deitavam para a frente, para o beco do Paiva e para o lado da antiga fábrica, mas tanta estas como aquellas, eram resguardadas por portas de ferro, para assim, quando se desse qualquer sinistro, evitar que um ou outro edificio fosse atacado.

No beco do Paiva está installada a officina de serralheria e no primeiro andar era o deposito do pó que recebia da fábrica nova por umas calhas, zincadas exteriormente.

D'este andar para a fábrica. havia uma ponte para passagem do pessoal, tendo as competentes portas de ferro.

A nova fabrica tinha, do lado da frente, uma parede mestra, a altura de todo o edificio, para resguardo da casa da machina e mais dependencias.

Um violento incêndio, em 10 de Junho de 1897, destruiu grande parte daquelas instalações fabris da moagem, deixando apenas as fachadas e as paredes mestras.

Fábrica Gomes, Caramujo, Arnaldo Fonseca, c 1900.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

O acontecimento deplorável alarmara, logo de manhã, toda a população das terras da margem sul do Tejo. Um clarão rebentou subitamente, aiongou-se e cobriu o horizonte desde o Caramujo a Cacilhas, dando para quem estava em Lisboa a impressão de que tudo ali se encontrava em chammas.

Felizmente a sinistro não attingiu tão grandes proporções, mas ainda assim há a registar-se um desastre enorme, pois o fogo destruiu duas importantes fabricas e sem a rapidez e energia dos soccorros muito maiores seriam os prejuizos.

Os prejuizos são calculados em 300 contos de réis. Dos edificios só ficaram as paredes, pois todo o machinismo está deteriorado, não só pelo fogo como também pela água. A casa da machina da nova fábrica, e que estava resguardada por uma parede mestra, sofireu enormes prejuizos occasionados pela água.

Também soffreram bastantes perdas alguns moradores que, receando que o fogo se communicasse, começaram a deitar para a rua as mobilias, e foram elles: Manuel Mathias, com taberna na mesma rua, sem seguro; V. António dos Santos Mendes, idem, com seguro na Bonança; Guilhermina da Conceição, moradora no 1.° andar da mesma rua, n.° 19; D. Joaquina do Carmo, viúva, proprietária do prédio 21 e 22, que tem seguro na Fidelidade, mas não tem no seguro a mobília.

Os armazéns do sr. Paiva também soffreram prejuizos no telhado. (1)


[...] desconhecemos quem desenhou a nova fábrica do Caramujo, construida após o violento incêndio de quinta-feira 10 de Junho de 1897.


Fachada da fábrica, virada ao cais, Moagem de trigo fundada em 1865 e reformada em 1898.
Imagem:  Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

Arquitectonieamente, o projecto do edificio responde à satisfação das funções da unidade moageira que António Gomes instalou em 1898 

Fachada principal da fábrica, virada à rua Direita do Caramujo, A. J. Gomes & Comandita sucessores da Viuva de M. J. Gomes, Lda.
Imagem:  Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

e ainda hoje labora, noventa anos depois...

Fábrica Gomes, Caramujo, Arnaldo Fonseca, c 1900.
Imagem: Maria Conceição Toscano 

A dois anos do final de Oitocentos, a fábrica do Caramujo, confrontando na margem oposta do Tejo os pólos geográficos da industrialização de Lisboa, Alcântara e Xabregas, enriquecia pela vertente da tecnologia, também construtiva, a história industrial portuguesa — como sinal dos tempos, a indústria fabril moderna cumpria uma função. Era uma reacção contra o atraso. contra a dependência externa e a apatia económica.

Fábrica Gomes, Caramujo, c 1900.
Imagem:  Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade, Almada, Câmara Municipal de Almada, 1990, 318 págs.

No âmbito industrial, a unidade fabril da Cova da Piedade integrava-se no grupo das que possuíam "todos os aperfeiçoamentos" que a indústria da moagem exige, como as fábricas de Sacavém, Caramujo, Xabregas e muitas outras", e cuja modernidade de processos e apetrechamento tecnológico havia feito diminuir a importância e o número dos antigos moinhos e azenhas.

Almanach Commercial,
Viúva de Manoel José Gomes & Filhos,1889.
Imagem: Alexandre Flores, Op. Cit.

Uma década após a entrada em laboração da nova fábrica de António Gomes, "a indústria de moagem (estava) estabelecida entre nós em condições de perfeição fabril iguais às dos melhores centros de produção no estrangeiro, tendo progredido extraordinariamente desde a lei protectora de 1889". (2)

A memória de António José Gomes, esclarecido industrial moageiro que muito contribuiu para o desenvolvimento e modernização da Cova da Piedade, é ainda hoje uma referência para a freguesia, aqui celebrada através da conservação da sua casa de habitação.

Cova da Piedade, Rua Tenente Valadim, ed. desc., década de 1900.
Imagem: Delcampe

O palacete, possivelmente erguido entre finais do século XIX e inícios do século XX, em terrenos da antiga Quinta da Piedade, uma das famosas "sete quintas" do Alfeite, abrindo a sua fachada para o largo principal da vila e para a sua igreja matriz, marca com a sua linguagem eclética, própria da burguesia em ascensão, a urbanidade contemporânea.

O estilo eclético e erudito do projeto, de influência francesa (Beaux-Arts), está bem patente na linguagem neoclássica dos elementos decorativos do exterior, com frontaria ritmada por pilastras e silhares rusticados ao nível do piso térreo conjugando-se com estruturas em vidro e ferro de feição Arte Nova, estas funcionando já como sinal de modernidade e do espírito progressista burguês, celebrado igualmente nas alegorias do Comércio e da Indústria que rematam o edifício.

Cova da Piedade Palacete de António José Gomes.
Imagem: Alexandre Flores, António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909)...

No interior, cuja decoração “excessiva” contrasta com a relativa sobriedade dos exteriores, destacam-se sobretudo as marcenarias, os estuques, as pinturas românticas e os vitrais revivalistas.

À esquerda da fachada principal ergue-se o volume da cocheira, também aberto para o jardim contíguo à fachada posterior, cercado por muro e gradeamento em ferro forjado e aberto por portão de cantaria rusticada, que delimita ainda um pavilhão para criação de animais e uma garagem.

Cova da Piedade. Alçados do “Chalet” Jorge Taylor, das cocheiras e do Palácio António José Gomes.
Imagem: Samuel Roda Fernandes, Fábrica de molienda António José Gomes

Pertencia à propriedade uma nora de ferro de desenho requintado, hoje situada em terrenos da Escola Preparatória da Cova da Piedade e classificada como de interesse municipal, que abastecia de água a quinta de António José Gomes.

A classificação do Palacete de António José Gomes, incluindo o jardim, instalações para animais, cocheira e garagem, reflete os critérios constantes do artigo 17.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, relativos ao interesse do bem como testemunho notável de vivências ou factos históricos, ao seu valor estético, técnico e material intrínseco, à sua conceção arquitetónica e urbanística, e à sua extensão e ao que nela se reflete do ponto de vista da memória coletiva.

A zona especial de proteção (ZEP) tem em consideração a envolvente urbana do imóvel, particularmente os espaços públicos e o edificado mais antigo, bem como a totalidade dos quarteirões que integram a área original da propriedade e a nora de ferro que lhe pertencia, e que constitui elemento evocador do passado rural deste território, e a sua fixação visa assegurar a integridade e as características fundamentais do seu enquadramento, as perspetivas de contemplação e os pontos de vista.

Cova da Piedade, Palacete António José Gomes. Vista geral de fachadas posteriores e campos fronteiros.
Imagem: Direção Geral do Património Cultural

Procedeu-se à audiência dos interessados, na modalidade de consulta pública, nos termos gerais e de acordo com o previsto no artigo 26.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, e no artigo 45.º do Decreto-Lei n.º 309/2009, de 23 de outubro, alterado pelos Decretos-Leis n.º 115/2011, de 5 de dezembro, e n.º 265/2012, de 28 de dezembro.

Foi promovida a audiência prévia da Câmara Municipal de Almada. 
Assim: 
Sob proposta dos serviços competentes, nos termos do disposto no artigo 15.º, no n.º 1 do artigo 18.º, no n.º 2 do artigo 28.º e no n.º 2 do artigo 43.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembro, conju- gado com o disposto no n.º 2 do artigo 30.º e no n.º 1 do artigo 48.º do Decreto-Lei n.º 309/2009, de 23 de outubro, alterado pelos Decretos-Leis n.º 115/2011, de 5 de dezembro, e n.º 265/2012, de 28 de dezembro, e no uso competências conferidas pelo n.º 11 do artigo 10.º do Decreto-Lei n.º 86-A/2011, de 12 de julho, manda o Governo, pelo Secretário de Estado da Cultura, o seguinte:

Artigo 1.º 

Classificação
É classificado como monumento de interesse público o Palacete de António José Gomes, incluindo o jardim, instalações para animais, cocheira e garagem, no Largo 5 de Outubro, 34 a 38, Cova da Piedade, freguesia de Cova da Piedade, concelho de Almada, distrito de Setúbal, conforme planta constante do anexo à presente portaria, da qual faz parte integrante.


Artigo 2.º 

Zona especial de proteção
É fixada a zona especial de proteção do monumento referido no artigo anterior, conforme planta constante do anexo à presente portaria, da qual faz parte integrante.


Cova da Piedade, Palacete de António José Gomes.
  Assinalam-se o Monumento de Interesse Público (MIP): Palacete de António José Gomes, incluindo o jardim, instalações para animais, cocheira e garagem e a Zona Especial de Proteção.
Imagem: Diário da República, 2.ª série — N.º 182 — 20 de setembro de 2013

9 de setembro de 2013. — O Secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier. (3)


(1) A Vanguarda, Lisboa, 11 de junho 1897, cit. em Alexandre Flores, António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.
(2) Carlos Antero Ferreira, Betão: a idade da descoberta, Lisboa, Passado Presente, 1989, cit. em Alexandre Floes, António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.(3) Diário da República, 2.ª série — N.º 182 — 20 de setembro de 2013

Tema:
Cova da Piedade

Bibliografia adicional:
Flores, Alexandre M., António José Gomes: O Homem e O Industrial (1847 -1909), Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 1992, 175 págs.
Maria da Conceição Toscano, A fábrica de moagem do Caramujo património industrial, Vol I , Lisboa, Universidade Aberta, 2012, 16.37 MB.
Samuel Roda Fernandes, Fábrica de molienda António José Gomes, Lisboa, Universidade Lusíada, 2013.

Centro de Arqueologia de Almada, Cova da Piedade, Património e História, Cova da Piedade, Junta da Freguesia, 2012.Maria José Pinto, Palácio Gomes: pequena monografia, revista al-madam N.º 4 (IIª Série), Almada, Centro de Arqueologia de Almada, Outubro 1995

Informação adicional:
Direção Geral do Património Cultural: Palacete de António José Gomes
Direção Geral do Património Cultural: Nora de ferro
Diário da República, 2.ª série — N.º 123 — 27 de junho de 2012 (inclui a planta com a delimitação e a ZGP que esteve em vigor até ser fixada a ZEP)

Outras leituras:
Nuno Pinheiro no Facebook: Edifícios António José Gomes
Coysas , Loysas, Tralhas Velhas... : Palácio da Viúva Gomes
ruin'arte: Chalet na Cova da Piedade
De regresso ao séc. XIX, Câmara Municipal de Almada

quarta-feira, 22 de junho de 2022

A festa do São João

Doces recordações da juventude! Fonte da Pipa! Nayade querida, inexgotavel manancial de purissimas aguas! Que Deus te abençôe como eu te bem-disse quando mitigando a sede, espargia ao longe olhares saudosos, invejando as gaivotas as suas azas para me embalar no espaço, e me deslizar por sobre as vagas do formoso Tejo, n'uma d'aquellas manhãs em que o astro do dia, toucado de delgadas nuvens, ordena ao sul que sopre brandamente, e imprime a seus raios um colorido prateado!

Lisbon from Fort Almeida [sic], Drawn by C. Stanfield from a Sketch by W. Page, Engraved by E. Finden, Fieldmarshal The Duke of Wellington
Cesar Ojeda

Perto da noite toda aquella mocidade voltava em numero de quasi 60 pessoas, a percorrer os arredores da villa até principiarem as fogueiras, que se saltavam, e onde se queimavam alcachofras no meio de risos e descantes; dividindo-se e subdividindo-se a turba pelas casas, em que se brincava o resto da noite.

No dia seguinte celebrava-se a festa de S. João na capella da quinta da Ramalha, havia procissão, e depois saía a celebrada dança dos pausinhos, assim chamada por levarem os pares uns bordões pintados de vivas cores, com que faziam muitas sortes e passos agradaveis; e quem diante d'ella ia e a dirigia era Pedro Marques, de casaca de esteira, caraça preta e grande chapéo armado, montado n'um jumento, e com o rosto voltado para a cauda do animal.

Almada festas de S. João Baptista, aspecto parcial da Feira Popular, 1970.
Arquivo Municipal de Lisboa

No rocio de Almada havia um coreto de musica, d'onde partiam para as casas compridas grinaldas de louro e murta, entremeadas de lanternas para a illuminação á noite; e faziam-se ali n'essa tarde cavalhadas, para o que se lançava de uma janella a outra, em todo o comprimento da praça, uma grande corda, em que se penduravam panellas de barro cheias de agua de cheiro ou de ratos, balõezinhos contendo pardaes ou lagartixas, casaes de pombos, de rolas, e outros objectos.

Uma duzia de mascarados a cavallo em rocinantes tentavam, cada um por sua vez, na corrida a galope, desprender da corda e enfiar nas lanças de que vinham armados estes premios d'aquelle jogo; mas quasi sempre se quebravam as panellas, se rasgavam os balõesinhos, e voavam os pardaes, os pombos e as rolas, caindo os ratos, a agua de cheiro ou as lagartixas por toda a praça, o que dava logar a grandes risadas, chufas e applausos.

Procissão de S João em Almada, segundo uma photographia do sr. dr. Judice Pragana.
Hemeroteca Digital, revista Branco e Negro, Julho de 1897

Durava isto por muito tempo, e todos se mostravam mui satisfeitos. Á noite illuminava-se todo o Rocio, queimava-se um fogo de vistas, e appareciam novamente a dança dos pausinhos e outras, tudo com muita musica e arruido. (1)



sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Real Capella do Apostolo S. Simão (a festa annual)

A Meza da Real Irmandade de Nossa Senhora da Piedade dos Milagres, e da Victoria, da Cova de Mutella, limite da Villa de Almada, tem determinado fazer a festa annual da Invocação da sua Real Irmandade no presente anno da maneira seguinte:

Cova da Piedade, igreja Nossa Senhora da Piedade, década de 1970.
almaDalmada

No dia 28 do corrente, vespera da sua festividade annual, se cantará huma solemne Missa, por muzica vocal e instrumental, pela conservação da Preciosa Vida de Sua Magestade o Senhor Dom Miguel I, Augusto Protector Perpétuo da mesma Real Irmandade,

D. Miguel I e suas irmãs dando graças a Nossa Senhora da Conceição da Rocha, 29 de janeiro de 1829.
Cabral Moncada Leilões

finda a qual se fará a inauguração das Reaes Armas no frontespicio da Real Capella do Apostolo S. Simão, onde a mencionada Irmandade se acha erecta, com todas as demonstrações de jubilo em similhantes occasiões praticadas, e á noute illuminação.

Bandeira de D. João V, também armas reais de D. Miguel na bandeira nacional de Portugal de 1826 a 1830.
Wikipédia

No dia 29 se fará com muito maior pompa, que nos annos antecedentes, a festividade annual denominada, da Casa, com Missa solemne por muzica vocal e instrumental, Sacramento exposto todo o dia, á tarde segundas Vesperas de Nossa Senhora, e Te Deum em Acção de Graças pela conservação de Sua Magestade o Senhor Dom Miguel I no Throno de Seus Maiores, e pelas Mercês que o Mesmo Augusto Senhor foi servido liberalizar a esta Irmandade declarando-Se seu Protector Perpétuo, e concedendo á mesma, e á Capella em que se acha erecta, o Titulo, Honras, e Privilegios de Reaes;

Paroquianos no adro da igreja da Cova da Piedade.
Delcampe

á noute illuminação, e hum vistoso fogo de artificio, havendo em ambos os dias e noutes muzica de arraial: sendo Oradores, no Sabbado á festividade o Muito Reverendo Padre Mestre Frei Francisco da Piedade; no Domingo de manhã, o Muito Reverendo Padre Mestre Frei Pedro da Purificação Alves Preto; e de tarde o Muito Reverendo Padre Mestre Frei José Machado, todos Prégadores Regios, e Dominicos. (1)


(1) Gazeta de Lisboa, 18 de agosto de 1830

Artigos relacionados:
S. Simão das Barrocas
Nossa Senhora da Piedade

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Ante-projecto do Arsenal de Marinha na margem sul do Tejo

Quando se pretendeu melhorar a nossa marinha, ahi por 1895, chamou-se Croneau para dirigir o arsenal e pôl-o em condições de fabricar os modernos navios de aço. Não é facil saber a quanto montam as despezas feitas desde então em obras e acquisição de machinas-ferramentas, mas pode-se agir mar que mais de 700 contos se gastaram. Durante muito tempo não se pensou na transferencia do arsenal. 

A marinha de guerra Portuguesa em 1899.
O Occidente, dezembro de 1899.

Miguel Paes, que tanto estudou os melhoramentos de Lisboa, viu claro, neste como noutros pontos, e alvitrou a sua mudança para a Margueira.

Lisboa monumental, ilustração, Alonso [Joaquim Guilherme Santos Silva, (1871-1948)].
Hemeroteca Digital

No plano geral das obras do porto de Lisboa [1884] contou-se com a conservação do arsenal. A doca que ficava na sua frente teria na entrada urna ponte rolante rara passagem da linha e avenida marginal. 

Construiram-se carreiras dando para essa doca, ficava um unico dique, de acanhadas dimensões, continuavam a existir todos os defeitos que apontámos. Tão manifestos eram elles, que em 1890 foi uma comissão encarregada de estudar a transferencia do arsenal. 

Dos seus trabalhos resultou o encargo cometido em 1895 a outra comissão de fazer o projecto do novo arsenal entre Cacilhas e a Margueira. (1)

Ante-projeto do Arsenal de Marinha na margem sul do Tejo.
Museu de Marinha

Em 1909 Ayres d´Ornellas publicou O problema naval portuguez [– alguns elementos para a sua resolução, Lisboa, Typ. do Anuário Commercial, 1909]. O oficial do Exército e político, que no ano anterior tinha abandonado a pasta da Marinha, recuperava para o seu livro as propostas que tinha apresentado à Câmara dos Deputados em 5 de Fevereiro de 1907, nas quais preconizava uma Marinha separada em duas componentes.

Uma componente destinava-se à defesa das colónias, dependente dos governadores provinciais e coloniais, contando com cerca de 400 efectivos em "navios adaptados ás condições do clima, e, portanto, muito mais hygienicos". 

Esta Marinha Colonial deveria ser composta por canhoneiras a construir e por três dos cruzadores existentes: o "S. Rafael" (1900-1911), o "São Gabriel" (1900-1925) e o "Adamastor" (1897-1932) "mais economicos no consumo de combustivel, ficariam destinados ao serviço de representação nacional no ultramar, por meio de cruzeiros de fórma que estivessem sempre fóra dos mares continentaes".


Navios da Marinha de Guerra Portugueza no alto mar, Alfredo Roque Gameiro, 1903.
(Da esq. para a dir., cruzador Vasco da Gama, cruzador D. Carlos I, torpedeiro n.°2, cruzador S. Raphael, cruzador D. Amélia, torpedeiro n.° 3, cruzador S. Gabriel, cruzador Adamastor.)
  europeana collections

A proposta não foi bem recebida na Câmara, admitimos que mais por razões políticas do que técnicas. 

Com efeito, o que mais perturbou alguns deputados terá sido a proposta de criação de uma Marinha exclusiva do serviço colonial, a par de uma outra dedicada à defesa metropolitana. As acusações foram pois as de que o ministro pretenderia criar duas marinhas. 

Cruzador Couraçado Vasco da Gama, aguarela de Fernando Lemos Gomes no Museu de Marinha.
Revista Militar

No entanto o tempo passou e foi a República que, em 1912, acabou por criar a Marinha Colonial, que iria sobreviver organicamente até 1926.

Por outro lado, a Marinha que deveria assegurar a defesa metropolitana, que devia ser dotada de dois contratorpedeiros de 300 toneladas, seis torpedeiros de 150 toneladas e dois submersíveis do tipo "Holland"49, todos a mandar construir . Os cruzadores "D. Carlos" (1899-1925, depois "Almirante Reis"), "Vasco da Gama" (1876-1936) e "D. Amélia" (1899-1915, depois "República") constituiriam uma Divisão Naval de Instrução, que deveria estar em situação de armamento completo pelo período mínimo de seis meses em cada ano. 

Alfeite aterro do novo Arsenal (no Alfeite).
Museu de Marinha

O plano também envolvia como elemento de importância fundamental (o que não era uma novidade), a construção de uma base para as operações da Marinha na margem sul do Tejo e de um novo Arsenal na zona da Margueira. (2)


(1) Gazeta dos Caminhos de Ferro, 1 de março de 1959 (cf. Gazeta dos Caminhos de Ferro, 1 de março de 1909)
(2) A Marinha e a Paz "Armada", Planos Navais 1897-1916

Temas:
Marinha
Arsenal do Alfeite

Construção naval
Mais informação:
Relatório apresentado ao Parlamento pelo Ministro da Marinha, 1915 (pesquisa: margem sul))

Outra informação:
Gazeta dos Caminhos de Ferro, 16 de setembro de 1940

sábado, 11 de maio de 2019

Caramujo Revisited (2018)

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.  (1)

Praia do Alfeite, aguarela, António Ramalho, 1881.
Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

"Nasci, fui criada, namorei e casei no Caramujo", diz D. Berta, 89 anos, 66 dos quais no antigo bairro industrial. Os pais, vindos do interior, conheceram-se em Lisboa e mudaram-se para ali, onde abriram uma taberna. Depois de casar, Berta seguiu-lhes os passos. "Ficava em frente à fábrica das farinhas. Ainda lá está", recorda a antiga comerciante, que servia refeições à base de sopa e peixe frito.

Fábrica Gomes, Caramujo, Arnaldo Fonseca, c 1900.
Delcampe - Oliveira

D. Berta frequentou a escola primária no Alfeite, aprendeu a nadar na praia da Mutela e lavou roupa nos tanques da Romeira. Vai desfiando um rol de figuras do bairro: os aguadeiros Manuel e António, o "maneta" — "que não tinha um braço e vendia água com um carrinho de mão" — a "Beatriz bêbeda" ou o Martins, cujo estabelecimento ficava onde é hoje o restaurante Tia Bé, no Caramujo.

Romeira, Tanque das Lavadeiras, Martins & Silva, década de 1900.
Noticias Magazine, 4 de fevereiro de 2018

À lista junta o senhor Jerónimo — o cliernte que lhe levava os bilhetinhos de Álvaro, o namorado, com quem está casada há 64 anos. "Era uma zona de muito movimento."

A chaminé da moagem, que apitava à hora do almoço e da saída, causava desassossego e o barulho era constante. "Quando a fábrica parava para fazer limpeza era um silêncio!..."

No Cais do Caramujo, as fragatas descarregavam o carvão para as vagonetas que seguiam pelos carris até perto da chaminé da fábrica e que hoje ainda atravessam a rua.

Descarga de carvão no cais do Caramujo, Leslie Howard, década de 1930.
ZONA Magazine

Rosa, a filha de Berta, lembra-se de a água vir até perto das casas e de tudo ser desembarcado ali: trigo, cevada, louças de barro e carvão de pedra. O bairro apenas parava ao domingo, dia de visitar os amigos ou de deixar o assado numa das padarias do bairro, que cedia os fornos à vizinhança.

Há 23 anos, D. Berta trespassou o negócio e saiu do Caramujo. Não gosta de voltar ao bairro. "Era uma coisa digna de se ver e agora não há nada ali."

Também Hélia Santos, de 59 anos, que nasceu e ali viveu até ao início dos anos 1990, evita voltar.

"As recordações agradáveis já não existem." O pai era guarda-fiscal e chegou ao Caramujo em 1953. Mais tarde mudaria de posto mas continuou a viver ali. "A entrada principal do Alfeite ficava perto e de manhã e à tarde as ruas enchiam-se de militares. E havia também uns carros pretos, de Estado, que traziam os oficiais."

Caramujo, vista docais e do posto da Guarda Fiscal (o edifício mais alto), Leslie Howard, década de 1930.
ZONA Magazine

Das fábricas, lembra-se do mar de gente que enchia a rua às cinco da tarde: as condições de vida eram modestas, com várias famílias a partilhar a mesma casa e a maioria regressava do trabalho a pé. Hélia recorda-se do convívio entre vizinhos, com conversas na rua ou à janela. As padarias abriam à tarde para garantir que quem saía do trabalho levava pão fresco para casa.

Hélia soma ainda às memórias as fragatas vindas do Ribatejo, que chegavam no verão ao cais do Caramujo carregadas de melão, e as carroças que, depois de vazias, levavam os miúdos do bairro a passear. As idas à "cooperativa" também eram uma constante.

Fundada por corticeiros, em 1893, a Cooperativa de Consumo Piedense chegou a ser considerada a mais importante da Península Ibérica. Ser sócio implicava ter dinheiro para pagar as quotas e dava um certo estatuto [...]

Passear com António Policarpo pelo bairro é receber uma aula de história. O pai veio trabalhar para a construção naval e António, com 15 nos, também foi para o Alfeite — e é um interessado pelo passado do local.  O ponto de encontro, do outro lado da estrada que passa junto ao Hospital Particular de Almada, revela-se fonte infindável de informação.

Vista do Arsenal do Alfeite, Caramujo e Mutela, Mario Novais, década de 1930.
flickr

"A ponte do Caramujo passava por cima de uma linha de água e ficava aqui, quase ao lado do restaurante", explica enquanto mostra uma imagem antiga. A ponte, construída em 1890 [de facto a existência de uma ponte neste local é anterior a 1890], foi demolida em 1939 aquando da instalação do saneamento.

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos

Ali perto, a ameaçar ruína, está o edifício onde, no início da década de 1860, foi fundada a Sociedade Filarmónica Caramujense — a que mais tarde um grupo de cidadãos próximos da maçonaria e do movimento republicano mudaria o nome para Sociedade Filarmónica União Piedense (SFUAP), que existe até hoje. 

"A população vinha de outros pontos do país para trabalhar nas vinhas — a Quinta da Romeira tinha vinha e a região era afamada — mas chegou a filoxera e foi a indústria corticeira que veio salvar a situação", recorda António. 

Trabalhadores da Fábrica H. Bucknall & Sons. no Caramujo, década de 1920.
Alexandre M. Flores, Almada na História da Indústria Corticeira e do Movimento Operário (1860-1930), ed. CMA 2003

Um pouco mais à frente, lembra que antes da moagem existiam ali moinhos de maré — pelo menos desde o século XVI — e, ao virar da esquina, junto ao Tejo, conta histórias de contrabando nas barbas da guarda fiscal. 

E junta-lhes histórias dos "assaltos", os encontros entre rapazes e raparigas à socapa dos mais conservadores. «As moças eram supervigi-adas, mas juntavam-se quatro ou cinco em casa de quem tivesse pais mais permissivos e onde houvesse gira-discos, as meninas faziam bo-los e estavam feitas as condições para um "assalto".

Orlando Pedroso era uma presença popular nesses "assaltos" que animavam a Cova da Piedade nos anos 196O. Afinal, era ele o "dono da música"! O pai — o "Pedroso das telefonias" — tinha-lhe cedido um can"to do estabelecimento onde Orlando vendia discos.

Tanoeiros.
Memórias e Identidades da Cooperativa de Consumo Piedense

Orlando descende de uma linhagem de tanoeiros. O bisavô tinha a sua oficina no Caramujo e, no livro Almada Antiga e Moderna, de Alexandre M. Flores, é possível ver a cópia do contrato de arrendamento assinado a 1 de janeiro de 1887 pelo mestre tanoeiro António Pedro: a renda — 36 mil réis anuais — deveria ser paga adiantada "do Natal ao São João".

O bulício era uma constante. "A decadência começou só nos anos 1970 e acentuou-se a partir de então", diz Orlando. "Nos anos 1960, lembro-me dos operários da Mundet [Bucknall] e da Rank[in] que carregavam fardos de cortiça com mais de sessenta quilos às costas!"

Vista panorâmica da "praia pequena" á saída do trabalho na Rankin & Sons
Alexandre Flores, Almada antiga e moderna, roteiro iconográfico, Freguesia da Cova da Piedade... 1990

Mas o Caramujo também oferecia oportunidades de lazer: "Pescava-se enguias. Era a chamada pesca ao guizo: tínhamos uma linha com uma chumbada, uma tabuinha com um guizo que tocava quando o peixe picava", recorda o bisneto do mestre tanoeiro, que lembra ainda as sessões de cinema na SFUAP, "o cinema do piolho" [...] (2)


(1) Lisbon Revisited (1923), Álvaro de Campos, in "Poemas" (Citador)
(2) Há nova vida no bairro fantasma, Noticias Magazine, 4 de fevereiro de 2018 (ou pressreader)

Artigos relacionados:
Almada e Val de Piedade no diário de Dorothy Quillinan
Cova da Piedade em 1890, a ponte do Caramujo
Almada Virtual Museum (pesquisa: caramujo)

Tema:
Caramujo

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Os pergaminhos de Cacilhas

Era ao anoitecer e eu estava inda em Lisboa. 

Praça do Comércio e Rio Tejo, Francesco Rocchini (1822 - 1895), c. 1868.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Circumstancia desagradavel para quem se tem demorado pelo Caramujo a saborear os ultimos sorrisos e a placida melancholia do ameno Outono d'este anno. 

Ora o Caramujo, como de certo sabem, fica na margem esquerda do Tejo de cristal; a nossa querida Lisboa fica na margem direita. Daqui se deduz, por um syllogismo incontroverso, que para se ir de Lisboa ao Caramujo tem de se atravessar o rio, e para se atravessar um rio é necessario um barco, a menos que algum Moysés condescendente não haja por bem rasgar com a sua varinha as aguas, e conceder-nos a passagem a pé enxuto, como se o nosso itinerario fosse para a Palestina.

Cova da Piedade, Arnaldo Fonseca, 1890
Boletim do Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos

Ora em consequencia d’esta serie de raciocinios andava eu pelos caes de Lisboa á procura não de um Moysés, mas de um bote, exactamente como Jeronymo Paturot andava por esse mundo de Christo á procura da melhor das republicas. 

Mais feliz do que Paturot, encontrei o que procurava. E verdade que o encontrei no caes do Sodré. Ora as republicas dos "caes do Sodré" são, segundo assevera o Senhor Francisco Palha, as mais anarchicas e as mais difficeis de governar.

O bote appareceu. Estava cercado de escaleres americanos, de barcos abandonados já pelos seus patrões, e que, baloiçando-se e embalando-se com o murmurio dé agua negra que lhes beijava a amurada, pareciam preparar-se para dormir á luz das estrellas e da lua, que surgia larga e vermelha, como um escudo em braza, no horisonte Oriental. 

Os remos cairam na agua, o bote deslisou silencioso, como um espirito dos humidos abysmos, por entre esse labyrintho de, mastros, e a final entrámos na esteira luminosa que a lua projectava sobre o rio.

Soprava do norte uma fresca viração encrespando levemente as ondasinhas, que se franjavam de espuma. Soltou-se a vela, O bote curvou-se graciosamente ao impulso d'essa aza branca, infunada pela brisa, e partimos.

Catraio e cacilheiro, gravura, João Pedroso, 1860.
Hemeroteca Digital

Pouco a pouco Lisboa foi fugindo de nós, involta, como fada nocturna, no seu véo de chammas. O confuso ruido que se lhe exhalava do seio foi esmorecendo com a distancia e transformando-se n'um murmurio vago, respiração immensa d'essa Babylonia, que antes desperta do que adormece com as primeiras horas da noite.

Era o rumor das carruagens, era o enxamear da turba ás portas dos theatros, era o ultimo vozear dos pregões confundindo-se nesse indisivel sussurro que vinha expirar no silencio augusto de uma noite de luar no Tejo.

O bote corria, ligeiro como um corcel generoso que sente a espora do cavaleiro, e como ele ora abaixava a cabeça, procurando afrouxar o passo, e deixando bater a vela no mastro, ora erguia garboso o collo, galgava o cume boleado de uma vagasinha que vinha, enrolando-se, quebrar no costado do barco, e deslisava de novo rapidamente na esteira espumosa branqueada pelo clarão da lua. 

Já lá ficava longe a Babylonia rumorejante, e os vultos immoveis dos navios do quadro estampavam, por um e por outro lado, a sua mastreação fina e airosa no fundo transparente da atmosphera inundada de luar.

Além Lisboa tornava-se já unicamente visivel por uma larga faxa de luz scintillante que orlava o rio. Ao seu eterno clamor succedera o murmurio flebil e queixoso das aguas.

Depois a margem fronteira foi avultando, avultando, e veio ao nosso encontro com a sua casaria branca, e silenciosa, illuminada apenas em cheio pelo clarão argenteo e melancholico da pallida rainha da noite.

Cacilhas vista do Tejo, gravura xilográfica, João Pedroso, 1846
Imagem: revista O Panorama, n° 18, 1847 [*]

Cacilhas dormia á beira do rio que lhe espumava no caes; a sua tranquilidade eremitica, o silencio em que estava immersa, o alvor deslumbrante das suas casas, apenas illuminadas pelo jorro de luz, que lhe chovia do carro prateado de Diana, contrastavam de um modo notavel com tumultar de Lisboa, sua donosa visinha.

E eu, encostado na popa do bote, affastava os olhos do immenso esplendor com que a grande capital incendiava o espelho do Tejo, e ficava-me enlevado a mirar essas casinhas brancas, tão socegadas, tão mudas, todas banhadas pelo luar, agrupadas timidamente, não ousando sequer mirar-se nos crystaes do Tejo, e molhando timidamente os pés na espuma, que resaltava da vaga aos degraus lodosos do caes.

E pensava:

O que é a popularidade! Ente caprichoso que ao acaso escolhe um homem, uma aldeia, uma cidade, um reino, e o eleva ao fastigio da gloria, e o illumina, e o immortalisa, e o cinge de capellas de loiro, deixando no olvido outro homem, outra aldeia, outra cidade, outro reino, que tem titulos iguaes!

Pontal de Cacilhas, ed. Alberto Malva/Malva & Roque, 135, década de 1900
Delcampe

Cacilhas! É quasi a incarnação da prosa. A celebridade dos jumentos atou-se fatalmente a esta aldeia ou villa, e condemnou-a para sempre a ser proscripta do dialecto poetico. Ser o cantor de Cacilhas equivale a ser o Camões da guerra do pão barato, ou o Petrarcha d’uma forçureira. Nicoláu Tolentino, querendo estampar o ultimo vergão do ridiculo nas faces d'um pobre versejador, depois de interpellar asperamente Jove por consentir que "um homem de couros baios — siga ás musas suas filhas"

Potente Jove onde estão
Os teus vingadores raios!

requer-lhe formalmente que, para se desaggravar de tamanha injuria, ordene a esse malvado que

Saia logo do Parnaso
E passe para Cacilhas. 

Aqui está como fica desacreditada uma povoação! Que tinha a pobre Cacilhas feito a Nicolau Tolentino [v. Nicolau Tolentino, Obras completas, Voume II], para que o maganão do poeta a escolhesse como antithese do Parnaso, e a lembrasse como o unico logar da terra capaz de receber um versejador de má morte?

"Não ajuda ao padre a cara" ilustração de Nogueira da Silva.
Nicolau Tolentino, Obras completas, Voume II

E comtudo a pobre vilasinha alvejava tão serena e risonha, tão banhada de poesia naquella noite em que o meu barquinho cortava as aguas phosphorescentes! Que mais bella póde ser Sorrento, reclinada á beira da sua bahia napolitana, Procida ou Castellamare debruçadas sobre as ondas azues do Mediterraneo?

E comtudo essas cidadinhas de poeticos e sonoros nomes vivem na nossa memoria perfumadas pelas grinaldas de versos, com que todos os poetas desde Virgilio até Lamartine as enramaram, e Cacilhas, a pobre Cacilhas, mal ousa intrometter-se, como rima desdenhada, no fecho d’uma decima satyrica!

Mas não! engano-me! houve um poeta que arrostou o preconceito e que deu a Cacilhas foros de nobreza tradicional. Esse poeta foi Antonio de Sousa Macedo, o embaixador de D. João IV na Inglaterra, o author das Flores d'España, o cantor da Ulyssipo.

Este Ulyssipo é um maravilhoso poema! Trata da fundação de Lisboa, segundo a acreditada versão de frei Bernardo de Brito. Ora é o caso que no tempo em que Ulysses andava ás aranhas pelo Mediterraneo, reinava em Lisboa até Santarem um poderoso rei chamado Gorgorís, que morou, segundo parece, no paço das Necessidades, e cujo exercito já n'esse tempo manobrava em Tancos. Ulysses, que era rei de Ithaca, o que vem a ser quasi o mesmo que ser rei da ilha do Fayal, andando á procura da sua ilhota do Archi pelago veio ter á foz do Tejo, engano que se parece muito com o d'um capitão de navios que, querendo ir de Lisboa a Setubal, fosse parar á Islandia. Mas d'este engano resulta muita bulha entre o tal Gorgoris e Ulysses, bulha que se acabou casando este com D. Calypso, filha d'aquelle, e fundando a cidade a que deu o seu nome, nome que, pela corrupção da linguagem se veio a transformar em Lisboa.

Ora, segundo nos informa o senhor Antonio de Sousa Macedo, não é menos digna de menção a origem dos nomes dos arredores de Lisboa. Arroyos era o nome d'um gigante que requestava uma nympha, e a nympha para fugir d’elle transformou-se n’uma fonte, que é nem mais nem menos que o chafariz, de Arroyos! De fórma que a magana da camara municipal, que nós julgavamos um modelo de pudicicia, tem um verdadeiro harem nas praças da capital, harem de nymphas que se transformaram em chafarizes!

E Cacilhas?

The Harbour of Lisbon (praia de Cacilhas), Charles Henry Seaforth (1801-c. 1854).

Cassilia, que ditosa companheira
Jupiter déra a Gorgoris famoso,
Teve d’ella a Calypso, unica herdeira 
Dos reinos que domina poderoso. 

Estes reinos eram Lisboa, Santarem, Aldeia-Gallega, e não sei se a Lourinhã. 

Amava a mãe á filha de maneira, 
Que, por saber seu fado duvidoso, 
Consulta a Chiron, sabio cuja essencia
Abonou ante nós larga experiencia.

Este Chiron, que depois de ensinar Achilles, andava naturalmente por este mundo, dando lições por casas particulares, prophetisa-lhe toda essa tramoia do Ulysses, e amnuncia-lhe que sua filha, a poderosa herdeira dos reinos de Santarem, Lisboa e Aldeia-Gallega, virá a casar com um rei não menos poderoso, que lá na Grecia governa uma ilha formidavel, ilha que não tem menos de meia legua de comprimento. Cassilia fica louca de alegria com tal notícia, e tanto que morre, mas, antes de morrer, diz assim:

No monte, que mais alto se levanta
Nas enseadas do Occéano por onde,
Movendo o Tejo a cristallina planta,
No mar as aguas não a fama esconde,
Por onde me ha-de entrar ventura tanta,
Se aos astros o successo corresponde,
Sepultem minhas cinzas, que ali quero
Dos fados esperar o bem que espero.


Vinha ella a dizer na sua que queria ser sepultada no monte d'Almada para dar fé de quem entrava a barra. Assim se fez, e de Cassilia, essa curiosa endemoninhada, que até depois de morta o era, veio, como podem suppôr, o nome de Cacilhas.

Portugal, Costumes 8, Carregando um burro, En chargeant un âne (imagem editada),
cf. Luís Bayó Veiga, Crónicas d'agora sobre Cacilhas d'outrora, vol. I.
União das Freguesias de Almada, Cova da Piedade, Pragal e Cacilhas

Já vêem que não são para despresar os pergaminhos cacilhenses, e que um poeta qualquer poderá cantar Cacilhas sem que os famigerados jumentos intervenham forçosamente nos seus versos. (1)


(1) Manuel Pinheiro Chagas, Scenas e phantasias Portuguezas, 1867

Informação relacionada:
Morte de Manuel Pinheiro Chagas, O Occidente, 15 de abril de 1895