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segunda-feira, 16 de março de 2015

Colina de Almada

[...] uma epístola de Lisboa

No século XII, Lisboa, e grande parte de Portugal e Espanha, estava na posse dos mouros, Afonso, o primeiro rei de Portugal, tendo conseguido diversas vitórias sobre esssa gente, punha cerco a Lisboa, quando Robert, Duque de Gloucester, no seu caminho para a Terra Santa, apareceu nas costas desse reino.

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVIII
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

Como a causa era a fama, Robert foi facilmente persuadido a fazer a sua primeira cruzada em Portugal. 

Ele exigiu que a tomada do castelo de Lisboa, situado numa colina considerável, e cujas ruínas mostravam ter tido grande força, lhe fossem atribuídas, enquanto Afonso assaltaria as muralhas e a cidade.

Ambos os lideres tiveram sucesso; e Afonso, entre as recompensas que outorgou ao inglês, concedeu aos que foram feridos, ou incapazes de proceder para a Palestina, o Castelo de Almada e as terras em redor.

O rio Tejo, abaixo e oposto a Lisboa, é ladeado por rochas íngremes e grotescas, particularmente no lado sul. Essas no arco sul, são geralmente mais altas e muito mais magnificas e pitorescas que os penhascos de Dover. Sobre uma das mais altas dessas rochas, e diretamente opostas a Lisboa, permanecem as ruínas planas do Castelo de Almada.

Em dezembro, 1779, como o Autor deambulava entre estas ruínas, foi atingido pela ideia, e formou o plano do seguinte poema; uma ideia que, pode permitir-se, foi natural para o Tradutor dos Lusíadas, e o plano pode, até certo grau, ser chamado como um suplemento a esse trabalho [...]

Vista geral de Lisboa, tomada perto de Almada, século XVIII.
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

O poema seguinte, exceto as correções e algumas linhas, foi escrito em Portugal. As partes descritivas são estritamente locais. A melhor perspetiva, de Lisboa e do Tejo, (que tem cerca de quatro milhas de largo) é de Almada, que assim também comanda os campos [e lugares] adjacentes, desde a Rocha de Cintra [Cabo da Roca] até ao Castelo e Cidade de Palmela, uma extensão acima de cinquenta milhas. 

Esta vista magnifica é completada pela extensa abertura da foz do Tejo, cerca de dez milhas abaixo, que descobre o Oceano Atlântico [...]


Enquando Lisboa maravilhada de horror viu propagar
A ousadia falha que primeiro à India liderou,
E muitas vezes inspira Almada profundamente fortificada
À Musa pensativa fogos visionários;
Colina de Almada querida à memoria Inglesa,
Enquanto as sombras dos heróis Ingleses aqui vaguearem!

The Channel Fleet in the Tagus, 1873.
imagem: eBay

Para o Inglês antigo o valor sagrado ainda
Resta, e sempre restará, Colina de Almada;
A colina e os relvados ao valor dos Ingleses dados
Que a tempo os Mouros Árabes da Espanha expulsos foram ,
Antes que os estandartes da Cruz subjugassem,
Quando as torres de Lisboa foram banhadas em sangue Mouro
Pela lança de Gloster. — Dias românticos que fazem brotar
Dos atos galantes um amplo campo luxuriante
Querido para a Musa que ama as planícies de fadas
Onde a antiga honra selvagem e ardente reina.

Regata dos barcos da Channel Fleet em Lisboa, 1869
Imagem: amazon

Onde acima sobre o Tejo que inunda os baixos de Almada,
No meio da pompa solene das torres arruinadas
Passivamente sentado, amplos e distantes
Meus olhos encantados maravilham. — Aqui o limite
Da justa Europa sobre as traseiras do oceano
Sua margem ocidental desaparece onde vagamente
A vaga do Atlântico, o dia lento descendente
Radiância ligeira derrama serena o raio suave
Do inverno Lusitano, prateando sobre
Os cumes como torres das margens da montanha;
Manchando as altas falésias que atiram friamente
Seus fabulosos horrores sobre os vales abaixo.

Vista do Tejo e da Trafaria, The river Tagus at Trafaria, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

Ao longe os imponentes meandros do rio encurvam
Seus braços gigantes, como o mar, amplamente se estendem
Suas enseadas, de férteis ilhas coroadas, 
E relvados para o renome do valor Inglês: 
Dados aos filhos galantes da Cornualha de outrora, 
O nome de Cornualha as sorridentes pastagens deram à luz;

Vista do Tejo tomada de Belém, Bellisle looking down the Tagus, John Cleveley Jnr, 1775.
Imagem: Bonhams

E ainda o seu Senhor sua linhagem Inglesa ostenta 
De Rolland famoso nas Hostes da Cruzada. [...] (1)


(1) Mickle, William Julius, Almada hill: an epistle from Lisbon, Oxford, W. Jackson, 1781

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O Tramoceiro

Há nele [no Tejo] tanta abundância de peixe que os habitantes acreditam que dois terços da sua corrente são de água e outro terço são de peixe. É também rico de marisco como de área, e é principalmente de notar que os peixes desta água conservam a sua gordura e sabor natural sem os mudar ou corromper por qualquer circunstância [...] (1)

Olho de Boi - Beira Tejo, Manuel Tavares, aguarela sobre papel, 1960
Imagem: Cabral Moncada Leilões

[...] gordos e saborosos linguados, salmonetes, cações, raias, corvinas, douradas, pampos, cabras, ruivos, cibas, chocos, choupos, salemas, charroco, peixe delicado que dão aos doentes, cavalas, sardas, sardinhas, safios, congros, amêijoa, berbigão, ostra, lingueirão, mexilhão, caramujo, muito camarão, grande número de lagostas em Porto Brandão muitas sapateiras, santola, lagostim, caranguejos [...] (2)

Os peixes grandes comem os pequenos, Pieter Bruegel o Velho,  gravura de Pieter van der Heyden, 1557.
Imagem: THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART

Os abismos insondáveis do rio, reino de animais marinhos e de riquezas esquecidas — tão perto e tão longe da cobiça dos homens! Que variedade de peixes a que os iscos atraíam e as linhas puxavam para a riba do cais. Safios, congros, polvos charrocos, robalos, tainhas eirozes, linguados, corvinas, cações ... Na baixa-mar, as rochas e as pedras ofereciam ostras, mexilhões, lapas e ainda camarões nas poças salgadas da areia. (3)

Planta do Rio Tejo e suas margens (detalhe), as praias da Fonte da Pipa, Tramoceiro e Ginjal, 1883.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Os habitantes da muralha viviam enamorados do rio e, de pais para filhos, conservavam os apetrechos da pesca. Todos os peixes lhes eram familiares e as manhas para os capturar pertenciam à sabedoria do lugar.

O Tramoceiro visto da rocha de Almada.
Imagem: Correia, Romeu, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982

Canas de pesca, linhas empatadas com anzóis de várias barbelas, camaroeiros de boca redonda ou rectangular, de malha larga ou a terminar com um saco de rede miúda.

A pedra do Tramoceiro, fotografia de Fernando Barão, década de 1950.
Imagem: Casario do Ginjal

Camarões capturados na vazante barrenta, camarão branco, com o linguadinho parasita junto da cabeça.

A pedra do Tramoceiro.
Imagem: Correia, Romeu, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982

Polvos, santolas, lagostas e lavagantes. Charrocos, tainhas, congros, safios, cações, robalos, corvinas, eirós e fanecas [...] (4)


(1) De expugnatione Lyxbonensi, excerto traduzido da carta escrita por um cruzado que participou no cerco e conquista de Lisboa em 1147

(2) Oliveira, Frei Nicolau de, Livro das Grandezas de Lisboa, 1620, citado em Porto Brandão, A Terra e o Tejo, Almada, Centro de Arqueologia de Almada, 2007

(3) Correia, Romeu, O Tritão, Lisboa, Editorial Notícias, 1982, 174 págs.

(4) Correia, Romeu, Cais do Ginjal, Lisboa, Editorial Notícias, 1989, 188 págs.

Leitura adicional:
Freitas, Joana Teresa Cruz Mimoso, Turismo Náutico: agentes dinamizadores do estuário do Tejo, Estoril, eshte, 2010
Gomes, Sandra Rute Fonseca, Territórios medievais do pescado do reino de Portugal, Coimbra, Universidade de Coimbra, 2011

terça-feira, 29 de abril de 2014

Castelo de imagens e fantasia

As Aventuras de Paio Peres começaram a ser publicadas no jornal Outra Banda, do Seixal, em 27 de Fevereiro de 1992...

A história foi suspensa na 19ª prancha em 30 de Outubro de 1992, quando terminámos a colaboração no Outra Banda...

Castelo de Almada
Imagem: Borges, Victor, As Aventuras de Paio Peres

Original ... segundo as indicações do arqueólogo Dr. Luís Barros, então director do Centro de Arqueologia de Almada. 

O esquiço teve por base gravuras antigas de Almada e na planta que representa o Castelo de Almada antes do terramoto de 1775, publicada na revista Almadan nº2, 2ª série. 

O Arquitecto Salvador Neto fez o favor de transformar os esboços da reconstituição (e fiz uma dezena deles) em "realidade virtual" através da maquetização em Auto Cad e 3D-Studio, em 1994.

Respondo, com esta informação, a um comentário de Luíz Beira sobre a "pouco fidedigna" reconstituição do castelo de Almada apresentada nesta imagem... (1)

Vista nascente tomada do castelo de Almada
Imagem: Borges, Victor, As Aventuras de Paio Peres

Existe uma gravura, com uma vista de Lisboa, anterior a terramoto de 1755, onde o castelo é observado de um ponto imaginário do lado sul.

No entanto o castelo desenhado é pura fantasia.

É representado como uma fortaleza medieval típica, aspecto que desde há muito não tinha, pois a gravura deve datar dos séculos XVII-XVIII.

O autor suprimiu toda a construção à roda do castelo, excepção de uma igreja que, pela orientação do portal e implantação, se deve tomar igualmente como fantasia. (2)

Vista de Lisboa tomada de Almada, século XVIII
Imagem: Museu da Cidade de Lisboa

A Peregrinação de Childe Harold narra as viagens e os amores de um herói desencantado, ao mesmo tempo em que descreve a natureza dos países da região do Mediterrâneo. 

Os primeiros dois cantos do livro contemplam as viagens feitas por Byron pela Espanha, Portugal, Albânia e Grécia, entre outros países. 

O terceiro canto, escrito 6 anos depois, na Suíça, traz as auto-reflexões que caracterizam o "herói byroniano". (3)

Vista de Lisboa tomada de Almada
Imagem: Byron, George Gordon, Childe Harold's Pilgrimage..., London, John Murray, 1869


(1)
Dias
, J. Machado (argumento), Borges, Victor (desenhos), As Aventuras de Paio Peres, O Espião

Dias, J. Machado (argumento), Borges, Victor (desenhos), As Aventuras de Paio Peres, Missão em Al-Mahadan

(2) Pereira de Sousa, R. H., Fortalezas de Almada e seu termo, Almada, Arquivo Histórico da Câmara Municipal, 1981, 192 págs.

(3) A Peregrinação de Childe Harold, Revista Superinteressante, Agosto, 2005